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O Liberalismo Radical de Frei Caneca

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Academic year: 2020

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Resumo: trata-se de uma reflexão sobre o liberalismo radical

de Frei Caneca que propõe a democracia como exigência da nova racionalidade antropocêntrica.

Palavras-chave: liberalismo radical, Frei Caneca, democracia Leopoldo Jesús Fernández González, Tânia Regina Eduardo Domingos

O LIBERALISMO RADICAL DE FREI CANECA

N

ossa reflexão sobre o liberalismo radical de Frei Caneca vai precedida de algumas considerações sobre o liberalismo internacional e no Brasil, a fim de, por um lado, situá-la no seu contexto e, por outro, tomar em conta os con-tornos específicos que ele adotou entre nós. Nos países europeus, o movimento revolucionário desencadeado pelo liberalismo tem raízes populares, e ele resul-tará no triunfo dos ideais da burguesia, o que significa uma ruptura definitiva com o passado. No Brasil, no entanto, a revolução é feita para manter o status

quo. Certamente, existiram movimentos populares importantes, mas eles são

sufocados por uma elite desejosa de ela mesma estabelecer uma nova ordem, como propósito de manter-se no poder. Frei Caneca levanta-se, como pensador e como homem de ação, contra essa estratégia, até mesmo de modo violento, propondo a democracia como exigência da nova racionalidade antropocêntrica. É esse elemento de radicalidade que desejamos pesquisar em nosso trabalho.

Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo e Caneca, frade Carmelita, nas suas cartas de Pitia a Damão e no Typhis Pernambucano, opõe-se ao despo-tismo do poder central e conclama o povo à luta. Admirador de Montesquieu, deseja estabelecer as condições institucionais da liberdade política através da divisão das funções entre os órgãos do Estado. Deste modo, enfrenta com veemência os excessos do poder executivo. Em seu trabalho Crítica da

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o poder de nova invenção maquiavélica é a chave mestra da opressão da nação brasileira e o garrote mais forte da liberdade dos povos. Por ele, o Imperador pode dissolver a câmara dos deputados, que é a repres-entante do povo, ficando sempre no gozo dos seus direitos o senado, que é a representante dos apaniguados do Imperador (CANECA,

1976, p. 70).

Entretanto, a contribuição maior de Frei Caneca para com o libera-lismo talvez não seja o seu trabalho como escritor, mas o seu comprometi-mento apaixonado como ativista.

O LIBERALISMO POLÍTICO

O liberalismo é um fenômeno tipicamente religioso, ligado histori-camente à reforma protestante, estendendo-se posteriormente a outros cam-pos, como o filosófico, o econômico e o político. De início, tem um caráter marcadamente revolucionário, manifestando a oposição da pequena bur-guesia à nobreza civil e religiosa. Inglaterra e Escócia parecem ter sido os países onde primeiramente se manifestaram as idéias liberais, devido “ao fato de que a comunidade havia aderido maciçamente à religião nova” (PAIM, 1974, p. 65). A busca de fundamentos laicos do poder é uma preocupação bastante generalizada na Europa dos séculos XVII e XVIII, em particular na Inglaterra e França. Pretendia-se combater o absolutismo arbitrário dos monarcas, daí o interesse em encontrar um quadro de normas em cujos marcos fosse possível o exercício do poder de modo mais justo e equilibrado. O pen-samento político-filosófico direciona-se para a “eliminação da divindade na constituição do poder temporal e formula-se a doutrina do governo repre-sentativo” (PAIM, 1974, p. 65), pretendendo-se, assim, a fundamentação racional do poder, a partir da mesma natureza do homem. Locke é um dos principais formuladores das novas teorias. Segundo ele,

o estado de natureza tem uma lei da natureza que obriga a todos; e a razão, que é esta lei, ensina à humanidade, quando esta a consulta, que, sendo todos iguais e independentes, ninguém deve causar dano a outrem em sua vida, em sua saúde, em sua liberdade e em sua pro-priedade (MONDIM, 1985, p. 105).

Por causa da fragilidade do sistema punitivo no estado de natureza, os homens se associam submetendo-se aos governos para preservarem os seus

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direitos; dessa forma, o contrato social surge de uma delegação de poderes. O estado se legitima na medida em que usa esses poderes delegados para o bem comum. O cidadão continua a conservar os direitos fundamentais à vida, à liberdade e à propriedade. Com a defesa desses direitos e liberdades a burgue-sia pretendia justificar sua ascensão política. Rousseau situa a soberania abso-luta não no monarca, mas no voto da maioria. Seu pensamento poderia ser sintetizado na frase de Abrahan Lincoln, “o governo do povo, pelo povo e para o povo”. Mas, é Montesquieu quem pretende procurar uma forma de estabi-lidade do estado, propondo a teoria da divisão de poderes com a pretensão de impedir, dessa forma, que algum deles atue despoticamente.

A visão do homem do liberalismo é, eminentemente, individualista e egoísta. O estado passa a ser conceituado não como um bem, mas como um mal menor; sua finalidade resume-se em garantir a ordem estabelecida pela própria sociedade, quer dizer, o estado se justifica pela procura do bem comum que na modernidade coincide geralmente com o bem da burguesia. De qualquer forma cabe destacar a autonomia da sociedade em relação ao estado e a sustentação deste no princípio da livre concorrência; esses ele-mentos parecem ter sido sufocados no capitalismo tardio por uma presença abusiva do estado tecnocrata, o que terminou gerando crise de legitimidade. O LIBERALISMO NO BRASIL

São vários os motivos que podem ajudar a entender o atraso com que as idéias liberais chegaram ao Brasil. Peso importante dessa demora tiveram a universidade de Lisboa ( o reino português não era moderno) e o fato de que “na Europa o liberalismo era uma ideologia burguesa voltada contra as instituições do antigo regime, os excessos do poder real, os privilégios da nobreza...” (COSTA, 1979, p. 27); mas, entre nós

os princípios liberais não se forjaram na luta da burguesia contra os privilégios da aristocracia e da realeza. Foram importados da Euro-pa. Não existia no Brasil da época uma burguesia dinâmica e ativa que pudesse servir de suporte a essas idéias.

Talvez essa carência explique por que, de acordo com os diferentes interesses das elites rurais, fossem enfatizados aspectos distintos do liberalis-mo europeu nos diversos liberalis-movimentos populares, constituindo, assim, o latifúndio e a escravidão, os limites naturais do liberalismo no Brasil. O ideal da Revolução Francesa de Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, como

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con-seqüência da afirmação da soberania do povo, eram afirmações estranhas ao liberalismo brasileiro; tanto era assim que os revolucionários de 1817 che-gam a afirmar, “vossas propriedades, ainda as mais repugnantes ao ideal de justiça, serão sagradas. O Governo porá meios de diminuir o mal, não o fará cessar pela força” (COSTA, 1979, p. 27). O liberalismo europeu tem como uma de suas maiores aspirações encontrar fundamentos racionais ao poder; no Brasil ele procura conciliar a razão religiosa e a laica processando-se uma harmonização entre o mundo antigo e o moderno. O seminário de Olinda, fundado por Azevedo Coutinho, no final do século XVIII, tendo como uma de suas figuras mais destacadas Frei Joaquim do Amor Divino – Frei Caneca –, situa-se numa linha mais revolucionária, passando a ser um centro de renovação cultural. Dom Duarte Leopoldo e Silva, arcebispo de São Paulo, em ensaio sobre O Clero e a Independência, comenta que ele se tornara

um ninho de idéias liberais e subversivas, pois os seus padres profes-sores, seculares e regulares, chamados à direção do Seminário, sobre-tudo os oratorianos, que sobre serem liberais adotavam as doutrinas cartesianas, haviam cursado a mesma Universidade (de Coimbra)

(VILLAÇA, 1975, p. 32).

Frei Caneca, sem perceber que o catolicismo era uma das bases das for-ças conservadoras (o catolicismo tinha pactuado com o estado português fornecendo-lhe a ideologia de sustentação), defende a tese de que a criação das sociedades civis decorria de um mandamento divino,

É da razão reta, que falou pela boca de um publicista, por todos res-peitado, que a Deus se devem atribuir não só aqueles estabelecimen-tos feiestabelecimen-tos imediatamente por sua ordem, mas igualmente aqueles que foram feitos pelos mesmos homens, conduzidos pelas luzes da reta razão, para se desonerarem dos deveres, que lhes impõe a lei natural, conforme as conjunturas do tempo e lugar.

Deste princípio, e de ser Deus o autor da lei natural, é que se entende ter Deus mandado manifestadamente fazer as sociedades civis, e mais nada. Quero dizer que não se deve deduzir que Deus haja determinado que se faça esta ou aquela sociedade debaixo desta ou daquela forma de governo, tirando dos povo e nações a escolha do seu governo, e o poder de que são investidos os governantes, e a faculdade de muda-rem quando julgamuda-rem de razão para seu melhoramento e feliz exis-tência (CANECA, 1976, p. 27).

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Não obstante, mesmo defendendo a origem divina das sociedades civis, Frei Caneca preserva um espaço para o voto popular e a revolução, da qual ele tão veementemente participou.

As idéias liberais no Brasil representam a ideologia de ruptura com Portugal, ainda que de início o único que pretendiam as elites brasileiras era o direito de gerir a própria riqueza. Esta é uma característica do estado na-cional brasileiro que “nasceria de uma tradição absolutista com uma forma liberal para cooptar interesses econômicos divergentes tais como os do se-nhor rural e os do comerciante urbano” (BARRETO, 1977, p. 105).

Houve vários movimentos libertários com base popular, dos quais pouco se fala; de todas as formas a independência acontece desligada do povo, sendo um acordo entre a família real de Bragança (João VI e seu filho Pedro), a Inglaterra e os “homens bons”, que tinham percebido que havia muito a perder se a independência fosse feita pelo povo.

Instituiu-se uma assembléia para fazer a constituição, que terminou em tumulto porque se chocava com o nacionalismo dos representantes dos “homens bons” com o progressismo dos grupos da cidade, abertos par as idéias novas vindas da Europa.

A função do estado seria a de promover o bem comum, por isso era necessário que as reformas fossem feitas, não pelo povo, mas pelo governo; como dizia José Bonifácio “façamos a revolução antes que o povo a faça”. Para este governo de classe hegemônica, a presença do povo significa anar-quia, “não quero, pois, entender, de forma alguma, por governo popular a entrega da autoridade suprema nas mãos da população ignorante, porque isso é que constitui a verdadeira anarquia” (BARRETO, 1977, p. 110). Desse modo, em lugar da desconfiança em relação ao estado, própria do liberalis-mo Europeu, nos deparaliberalis-mos no liberalisliberalis-mo brasileiro, com a idéia de que cabe ao estado a reforma da sociedade.

FREI CANECA, O LIBERALISMO RADICAL

As idéias liberais chegam ao Brasil com os estudantes brasileiros que iam estudar em Coimbra, mas que terminavam passando pela França. No Brasil, o liberalismo adquire, como vimos, um colorido ideológico particu-lar, servindo politicamente para harmonizar interesses econômicos e sociais encontrados, cujo paradigma é o liberalismo elitista de José Bonifácio. Fren-te a esta correnFren-te apaziguadora, situa-se o liberalismo radical de Frei Caneca. Com a expulsão dos jesuítas, o tomismo restaurado dos coimbrenses cede lugar ao iluminismo, difundido, em parte, através das “aulas Régias”

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instauradas no período Pombalino. O magistério das instituições religiosas, com a fundação do seminário de Olinda, adapta-se a este novo modo de ensino. Dele nos comenta Gilberto Freyre que

começou a ensinar as ciências úteis que tornassem o rapaz apto a corresponder às necessidades do ensino brasileiro, cuja transição do patriarcalismo rural para um tipo de vida mais urbana e industrial exigia orientadores técnicos (VILLAÇA, 1975, p. 105).

As novas tendências filosóficas, denominadas por Joaquim de Carva-lho como empirismo mitigado, sublinham o caráter operativo da filosofia em detrimento do posicionamento crítico. A respeito, comenta Antonio Paim (1974, p. 236-7) que

os corifeus do empirismo mitigado, despreocupados da discussão te-órica e, deste modo, de coerência da doutrina, viram-se privados da possibilidade de situar-se criticamente em relação às idéias políticas francesas, engendrando o curioso fenômeno do liberalismo radical.

Paim (1974, p. 237) observa ainda que “a evolução histórica com-provaria que este não tinha em seu favor maiores suportes sociais. Se foram capazes de levar o país à beira da anarquia nos três lustros subseqüentes à Independência, não tiveram acesso ao poder”. Entretanto, ele mesmo as-sinala que “Caneca inicia o tipo de polarização que iria marcar o debate da idéia liberal no Brasil nesse período que se seguiu imediatamente à Inde-pendência e se prolongou até a década de quarenta” (VILLAÇA, 1975, p. 105).

Existe unanimidade, por parte dos autores, em afirmar o caráter panfletário-propagandístico do liberalismo político de Frei Caneca, cuja idéia-chave é a luta contra o absolutismo,

O poder soberano é indivisível, ele está essencialmente na nação, e por comissão ou delegação nas cortes soberanas, as quais já abran-gem aquela mesma parte, que tocava a S.M.J. e Constitucional não por ser príncipe regente do Brasil, nem da casa de Bragança, nem finalmente por ser o sucessor do trono português, sim unicamente porque, aceitando os nossos convites, desprezou e abjurou ser por-tuguês, e se naturalizou brasileiro; o que se não fizesse, e regressasse para Portugal, nós nos teríamos constituídos como quiséssemos, e

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posto à nossa frente quem nos parecesse, como têm feito em seme-lhantes circunstâncias todos os povos do mundo, desde os mais re-motos séculos (CANECA, 1976, p. 46).

Caneca é também um cavaleiro da liberdade,

O espírito da Europa é o espírito do servilismo e da escravidão, [...]. Os brasileiros, descendemos dos primeiros indígenas deste continente e dos europeus transplantados nele. Dos primeiros, diz o historiador: As idéias de dependência e de submissão, que entre nós (europeus) derivam da idéia de um Ser supremo, são incógnitas a estes povos ateus. Eles não concebem que haja homens assaz audaciosos para quererem comandar aos outros. Ainda menos imaginam que haja homens as-saz loucos para quererem obedecer. Os segundos foram homens que, por isso mesmo que eram feridos pelas leis, deixaram ver um espírito de independência, de subordinação e de liberdade extrema. Destes elementos se formaram os brasileiros, que sempre conservaram o mesmo espírito de seus progenitores, que se tem mostrado em todas as épocas

(CANECA, 1976, p. 58).

E, ainda, um defensor incondicional da Constituição,

O Brasil é que erigiu o trono, e nele assentou S.M., e o assentou debai-xo da condição impreterível de estar pela constituição, que o Brasil lhe desse. Como então há de ser S.M. parte no poder legislativo? S.M.J. e Constitucional não foi que separou o Brasil de Portugal, foi o Brasil mesmo que, pela lei suprema de sua felicidade, se separou de Portugal, e com esta separação declarou do modo mais solene e efetivo, que não havia mais para ele casa de Braganças, nem direitos de sucessão, he-ranças, nem nada de Portugal, e que ia constitui-se como bem qui-sesse.

Ajuntou-se para formar o seu pacto social. Neste pacto é que se deve determinar a forma de seu governo e escolher a pessoa a quem porão à sua testa para executar o que determinarem os seus representante

(CA-NECA, 1976, p. 45-6).

É pela luta contra o absolutismo, pela liberdade, por uma ordem constitucional mais justa e equilibrada que Frei Caneca arrisca e doa a sua vida. Devido ao caráter panfletário de suas publicações e a perda de alguns

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de seus escritos filosóficos, seu pensamento se apresenta de modo fragmen-tário e assistemático. Pain (1984, p. 245) diz que

Frei Caneca é vítima do isolamento a que foi submetida a cultura luso-brasileira, o que a privou da possibilidade de discutir amplamente as doutrinas da época moderna, delas adquirindo entendimento ade-quado. Em decorrência disto, adota uma visão unilateral do libera-lismo político e nem sequer chega à apresenta-la de modo coerente.

Menos nobre parece, ainda, adotar um liberalismo apenas formal, para satisfazer os interesses em jogo, esquecendo o bem da nação.

Na Europa o liberalismo, como anteriormente se assinalou, vem prece-dido pela reforma protestante. Max Weber, em a Ética Protestante e o Espírito

do Capitalismo, assim como em sua História Geral da Economia, tem

mos-trado a relevância deste acontecimento na formação do mundo moderno; fato, este, estranho ao desenvolvimento histórico do Brasil, o que certamente dificul-tou às elites luso-brasileiras reformular conceitos antropológicos que servissem de base às novas doutrinas, daí a afirmação de Paim (1974) de que

da incorporação sem crítica das idéias francesas resultaria uma espécie de autoritarismo libertário, tão bem expresso na pregação de Frei Caneca. Trata-se agora de promover na sociedade, não a coexistência dos pontos-de-vista opostos, eliminando-se a intolerância, mas de organiza-los de modo autônomo, separando-os essencialmente. Tendo o Rio de Janeiro optado pelo ponto de vista monárquico-constitucional, às províncias que se têm na conta de ‘liberais’ outra alternativa não resta senão dele sepa-rar-se. Assim, o empirismo mitigado conduz ao liberalismo radical.

Frei Caneca (1976, p. 69) é um intransigente defensor da emancipa-ção de Portugal,

Sendo a nossa primeira e principal questão em que temos empenho nossos esforços, brio e honra, a emancipação e independência de Portugal, esta não se acha garantida no ‘projeto’ com aquela determi-nação e dignidade necessária.

É um lutador decidido pela liberdade política, entendida como uma

“submissão à lei, que é expressão da vontade geral” (CANECA, 1976, p. 105),

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é princípio conhecido pelas luzes do presente século, e até confessado por S.M., que a soberania, isto é, aquele poder sobre o qual não há outro, reside na nação essencialmente; e deste princípio nasce como primária conseqüência que a mesma nação é quem se constitui, isto é, quem escolhe a forma do governo, [...]; logo é sem questão, que a mesma nação, ou pessoa de comissão, é quem deve esboçar a sua constituição

(CA-NECA, 1976, p. 72-3).

O que seja “vontade geral” e como ela se desenvolve é um ponto obscuro no pensamento de Frei Caneca; ele não parece ter chegado a uma percepção clara do conceito de representação. No entender de Antonio Pain (1984, p. 245), ele

não chega a compreender esse aspecto do tema e supõe que basta opor-se ao absolutismo, primeiro na pessoa de D. Pedro e depois na dos adver-sários, genericamente, para explicitar a posição oposta e, em nome desta, impor-se inclusive pelas armas.

A filosofia política de Frei Caneca certamente não chega a ser um todo coordenado e sistemático, ele elabora seu pensamento como resposta a con-textos e situações históricas determinadas, pelo que se limita a ser um anti-absolutista e um defensor radical da liberdade; entretanto, acreditamos que no bojo do seu projeto existia a oportunidade única de o Brasil encontrar sua identidade como povo e firmar sua emancipação no conjunto interna-cional.

CONCLUSÃO

Segundo Paim (1974, p. 246), Frei Caneca

desejoso de independência política e de um governo constitucional, cujos contornos precisos nunca soube delinear, foi elaborando uma dou-trina ao sabor dos acontecimentos e até mesmo da oposição dos adver-sários.

As idéias da Revolução Francesa propagaram-se apesar da censura, sobretudo através das lojas maçônicas, onde se reuniam os adeptos das idéi-as democráticidéi-as e desejosos da independência de Portugal. A propagação didéi-as

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idéias liberais no Brasil viu-se ainda reforçada pela independência da Amé-rica Espanhola e AméAmé-rica do Norte. Caneca é o teórico mais importante da luta revolucionária que transcorreu de 1817 a 1824 em Pernambuco. Uma de suas diferenças com o liberalismo é a ingerência da divindade no poder temporal. Seu pensamento político e social não deixa margem para o con-senso,

O Brasil só pelo fato da sua separação de Portugal e proclamação da sua independência ficou de fato independente não só no todo, como em cada uma de suas partes ou províncias; e estas independentes uma das outras. [...]

Uma província não tinha direito de obrigar a outra província a coisa alguma, por menor que fosse; nem província alguma, por mais peque-na e mais fraca, carregava com o dever de obedecer 1ª outra qualquer por maior e mais potentada. Portanto, podia cada uma seguir a estra-da, que bem lhe parecesse; escolher a forma de governo, que julgasse mais apropriada às suas circunstâncias (CANECA, 1976, p. 100).

Frei Caneca foi o propagandista da versão radical do liberalismo. Combate com toda energia o absolutismo e luta pela liberdade. Em oposi-ção ao autoritarismo pregava a federaoposi-ção em sentido profundo e até mesmo a república, defendendo a revolução e transformação radical da estrutura sócio-econômica e política. Este liberalismo, em que o indivíduo era consi-derado como valor supremo, foi derrotado, vingando o liberalismo mode-rado, no qual a razão compactuou com a realidade histórica vigente, justificando a estrutura escravocata, latifundiária, autoritária e centralizadora. Harmonizou-se o novo com o antigo, sendo sacrificada uma oportunidade histórica, na qual poderia ter sido gerado um processo de libertação que abrisse a possibilidade à originalidade e à criatividade em nossa vida nacional, em favor do “jeitinho”, que se transformou numa característica da cultura bra-sileira dependente.

Referências

BARRETO, V. Ideologia política no pensamento de José Bonifácio de Andrade e Silva. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1977.

CANECA, F. Ensaios políticos. Rio de Janeiro: Ed. da PUC; Documentário, 1976.

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1979.

MONDIM, B. Curso de filosofia. São Paulo: Paulinas, 1985.

PAIM, A. História das idéias filosóficas no Brasil. São Paulo: Grijalbo; Edusp, 1974. VILLAÇA, A. C. O pensamento católico no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

Abstract: this is a reflection on the radical liberalism of Frei Caneca proposing

to democracy as a requirement of the new rationality anthropocentric.

Keywords: radical liberalism, frei jug, democracy

LEOPOLDO JESÚS FERNÁNDEZ GONZÁLEZ

Doutor em Antropologia Social e Cultural. Mestre em Filosofia dos Valores (Ética). Professor na Universidade Federal de Rondônia.

TÂNIA REGINA EDUARDO DOMINGOS

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