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Reflexões Teológicas para a Firmação de Direitos Humanos

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Academic year: 2020

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Resumo: areflete sobre a espiritualidade profética dos Direitos Humanos como desafio para atuação teológico-pastoral. Tece fundamen-tos bíblico-teológicos e elabora imperativos éticos para a afirmAÇÃO de DDHH. Denuncia a violência de gênero como pecado, destacando ambigüidades na práxis teológico-eclesial. Manifesta algumas ações e publicações de entidades no combate da violação de Direitos Humanos de mulheres.

Palavras-chave: teologia, direitos humanos, espiritualidade, violência de gênero

Ivoni Richter Reimer

reflexões teológicas para a firmação de direitos humanos

P

or ocasião das comemorações dos 60 Anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DDHH), vários eventos significativos já se realizaram também no Brasil. Cito as conferências realizadas no âmbito do Fórum Mundial de Teologia e Libertação (janeiro de 2009, em Belém), tematizando os DDHH, a Teologia e a Profecia no Amazonas. Nesta ocasião, o bispo do Marajó, Dom José Luis Azcona, denuncia a re-alidade da ‘coisificação’ de crianças, adolescentes e jovens, principalmente mulheres, dentro do mercado de exploração sexual e tráfico prostitucional na região. Todas as realidades de violações de DDHH são nomeadas como “cultura da morte”, diante da qual urge o compromisso de realizar uma “teologia combativa que não seja teologia de gabinete” (NASCIMENTO, 2009, p. 2).

De forma insistente e continuada o Fórum Ecumênico Brasil (FE-Brasil) tem-se posicionado ante as violações de DDHH no nosso contexto. A partir de análise crítica do poder que o mercado exerce sobre a mentalidade e o comportamento das pessoas, contribuindo para o aumento da “violação dos direitos mais fundamentais das populações que são tornadas mais e mais

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vulneráveis [por meio do aumento de doenças, fome, desemprego, desestru-turação do tecido social] – poder este que Galeano chamou de “Cavaleiro Senhor Dinheiro” –, o FE-Brasil coloca o desafio de construir

princípios e imperativos éticos animadores de ações solidárias críticas do ponto de vista cognitivo e sociopolítico; criativas, de todos os pontos de vista, especialmente daqueles cultural e econômico; cuidadoras, do ponto de vista da reciprocidade com a biodiversidade; e transgressoras de toda anti-vida e anti-humanismo (OLIVEIRA, 2006, p. 2).

Destaco estas duas instituições teológicas porque ambas interrelacio-nam o trabalho teológico-pastoral com o trabalho na defesa dos DDHH. Mesmo que os pressupostos das Declarações sobre DDHH e dos textos e tradições sagrados sejam distintos, podemos estabelecer algumas conexões relevantes. Tomo, aqui, como referencial a Bíblia, fundamento para a fé ju-daica e cristã, que está perpassada por relatos sobre experiências de violência, injustiça e opressão, bem como de experiências de denúncia e libertação destas manifestações que teologicamente se nomeia ‘pecado’. Do conjunto narrativo bíblico, podemos destilar duas afirmações basais: atentar contra a vida e a dignidade da criação e de algum de seus elos é atentar contra a Divindade que a criou; preservar a vida e garantir sua dignidade é amar e servir a Deus. Percebe-se, no conjunto, a expressão profunda de uma dialética da reciprocidade entre criatura e criador, dentro da perspectiva de uma teologia da criação. Esta afirma relações de cuidado na rede de uma biodiversidade do mútuo pertencimento entre todos os seres. Transgredir contra esta rede na violação de seus direitos de existência e necessidades é cometer pecado contra Deus e contra o próximo. Temos aí, a partir de uma teologia da criação comprometida com a biodiversidade e a reciprocidade, os fundamentos teológicos para uma afirmação dos direitos não apenas humanos, mas de toda forma de vida.

ALGUNS FUNDAMENTOS BÍBLICO-TEOLÓGICOS

Para pessoas e comunidades/igrejas cristãs é importante saber que sua afirmAÇÃO pelos DDHH tem fundamento bíblico-teológico, porque elas buscam referenciais para sua práxis no próprio agir e ser de Deus. Des-tacamos alguns fundamentos:

• Deus é libertador. Esta é a afirmação fundamental da religião e da espi-ritualidade judaica e cristã. Deus liberta seu povo da escravidão

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sócio-econômica e política do Egito. A narrativa do Êxodo é paradigmática para afirmação da vida e de relações sociais e políticas construídas em liberdade. Deus e seus agentes se opõem a sistemas de opressão, escra-vização e injustiça, engendrando estratégias e práticas de libertação. Na vida liberta, busca-se uma organização sócio-cultural também regida por mandamentos/estatutos que regulem a garantam esta liberdade conquis-tada. Trata-se de mandamentos básicos como amar a Deus e ao próximo, não matar, não roubar, não violar direitos corporais e de propriedade. Deste amplo e histórico projeto de libertação faz parte a concepção de que pecado é toda ação que atenta contra a vida e sua dignidade e que nos afasta de Deus e de sua proposta de vida em abundância para todos os seres; por isto, pecado é representado como sistema de subjugação a mecanismos de escravidão e perda de liberdade. Este projeto de Deus é continuado na proposta de Jesus de Nazaré que resgata a dignidade das pessoas também por meio da libertação do pecado, tornando-nos pessoas livres para amar e servir ao próximo que necessita de nossos cuidados, na afirmação inconteste da vida digna.

• Deus é criador. Como já sinalizamos acima, as narrativas míticas da criação estão intimamente ligadas com a imagem de uma divindade que liberta para que a vida possa ser vivida em plenitude, em relações de reciprocidade e de cuidado. Tudo que existe tem o divino propósito de afirmar “Tudo é bom”! A narrativa bíblica objetiva criar consciência de que nós somos parte - e não o centro - de um todo que interage dinâmica e criativamente. Dentro deste todo, somos chamados a sermos mordomos que cuidam, jardineiras que conhecem e preservam aquilo que nos é dado para cuidar. E assim como no princípio, também hoje deveria brotar a confissão: “Tudo é muito bom”! Desta concepção da criação como ‘unidade na pluralidade’ faz parte a confissão de que, em Cristo, a Igreja é um só Corpo com vários e diferentes e igualmente dignos membros que se colocam a serviço de Deus e do/no próximo. Assim, Deus não cria e se ausenta. Ao contrário, por meio de Cristo e de nós, suas criaturas “imagem e semelhança” (Gn 1,26-27; Cl 3,10) e do poder do seu Espírito vivificador, Deus continua presente e atuante; somos co-criadores no serviço de preservar aquilo que foi designado para ser e permanecer “muito bom”!

• Deus é justo e juiz. O objetivo da vida criada e liberta da escravidão e do pecado é ser vivida em justiça e abundância (Jo 10,10), portanto, feli-cidade. No entanto, também o pecado é um poder dinâmico e também nós, diariamente, somos pessoas simultaneamente justas e pecadoras (Rm 3-6). O processo da fé é contínuo e dinâmico; não estamos

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‘pron-tos’. Vivemos diariamente este paradoxo de liberdade e escravidão. Por isto, precisamos renovar cotidianamente nosso batismo e reafirmar que queremos viver como “novas criaturas” (2 Co 5,17; Rm 6,4), vencendo, pela fé, o pecado que se manifesta de diversas maneiras. Neste processo de renovação constante da fé demonstramos nossa inconformidade com a violação da vida em suas várias expressões, para que finalmente pos-samos fazer “o bem que eu quero” e rejeitar “o mal que eu não quero” (Rm 7,7-25). Para nos fortalecer nesta busca, é importante olhar para as narrativas bíblicas de experiências que evidenciam que Deus detesta a prática do mal e da injustiça e que nestas narrativas nos é indicado um caminho para o discernimento sobre o que é bom e justo para a vida nas suas relações. “Realizai o direito e a justiça e livrai o oprimido das mãos do opressor; não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente” (Jr 22,3). Deus realiza seu juízo com justiça, de acordo com a prática de cada pessoa e de cada nação (Sl 96,10.13) e, neste juízo, privilegia o clamor de quem sofre injustiça e violência (Êx 3,7; 22,23). Esta noção do juízo justo de Deus é teologicamente relevante para o questionamento da prática da impunidade reinante em nosso meio e que vem reiteradamente em prejuízo da vida que está mais fragilizada. “Fazer justiça” é o imperativo ético-teológico, e paradigmaticamente esta práxis está evidenciada na vida de Jesus que acolhe as pessoas que sofrem sob abusos e desmandos de poder político, econômico e religioso-cultural e, com isto, simultaneamente denuncia pessoas e sistemas causadores deste sofrimento.

• Deus é amor. Em tudo que Deus é e faz, o amor não é apenas o seu maior atributo comunicativo, mas é sua real natureza. Assim o expressam vários textos bíblicos: Deus é amor (Jo 4,8b) e uma de suas características prin-cipais é a fidelidade para com sua criação e seu projeto histórico-salvífico (Sl 89,1b; 1 Tim: Deus é fiel). Outra característica deste amor é a com-paixão, misericórdia (Sl 89,1a) que tem a ver com a ternura de Deus na sua dádiva de perdão e salvação para a restauração da vida, como bem o demonstra Jesus em sua práxis terapêutico-salvífica, que visa o bem-estar da pessoa toda (Mt 9,35-6). Neste sentido, Deus-amor é sempre ‘refúgio e fortaleza’, aconchego e acolhida (Sl 90,1) em todos os momentos, prin-cipalmente naqueles em que a vida está mais machucada e violentada em sua dignidade física, espiritual e social. Quem busca refúgio são vítimas de catástrofes, de estupros, violentações, perseguição e opressão, pessoas que vivem ‘arrancadas’ de seu lugar com-sentido, são estrangeiras em sua própria terra e sem-tetos em suas próprias casas... e precisam construir

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um outro-lugar dentro de seu espaço para poder continuar vivendo. Jesus conclama a sermos nós instrumentos da construção deste outro-novo-lugar para ressignificar a vida violada, visitando, vestindo, alimentando, consolando pessoas que se encontram nos ‘porões da humanidade’ para que não sejamos condenadas ao ‘fogo eterno’ (Mt 25, 31-46). Este amor-refúgio divino nos torna pessoas cidadãs da casa de Deus, sua criação (Ef 2,19), por meio do evangelho de Cristo, e nos tornamos habitação do seu Espírito. E onde reina o Espírito de Deus, ali está o amor e dá seus frutos (1 Co 13; Ef 5,19-26).

ALGUNS DESAFIOS E IMPERATIVOS ÉTICO-TEOLÓGICOS

PARA OS DIREITOS HUMANOS

Uma questão básica a ser destacada é que fazer referência à ética não é uma imposição arbitrária no discurso teológico. O discernimento ético é parte integrante da base e da fundamentação teológica e não apenas quando a teologia dirige sua atenção aos direitos humanos. Quando teologia, fé e espiritualidade são vistas menos como construtos abstratos e mais como experiência e postura de e diante da vida nas suas relações, então elas se tornam realidades presentes nos movimentos e lutas na defesa da vida. •

Afirmar o direito de ser humano não apenas em sua estrutura biológico-racional, mas também espiritual e emocional. A vida espiritual tem a ver com a construção da qualidade de vida na sua integridade, buscando a satisfação de todas as suas necessidades. A espiritualidade é uma práxis processual do ‘vir-a-ser’ humano em plenitude, que visa a totalidade da nossa existência, incluindo a relação com a transcendência. Teologicamente isto implica reivindicar uma vida autêntica que tenha lugar e espaço para a presença da divindade que faça diferença qualitativa para a vida. • Afirmar o direito humano de paz em todas as suas dimensões. Paz é

caminho de construção de relações justas e amorosas, enfrentamento dialógico de situações conflitivas. Bíblica e teologicamente a paz é fruto da justiça. Onde há violação de direitos humanos e ambientais, ali impera ódio, ganância, violência, opressão e seus mecanismos de discriminação e subordinação. O imperativo teológico é denunciar situações e sistemas que causam e originam a falta da paz, agredindo a dignidade da vida, como sendo pecado.

• Assim sendo, é necessário afirmar a vida plena como nosso referencial primeiro, dádiva de Deus para ser vivida abundante e pacificamente. Quando esta vida for machucada, devemos, como pessoas cidadãs crentes

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e como igrejas, denunciar estas violações que nomeamos pecado contra Deus e contra o próximo. Para denunciar e desenvolver posturas proativas, porém, é necessário reconhecer e nomear a realidade da violência em suas várias expressões. Queremos nomear e caracterizar, aqui, a violência contra mulheres, também chamada de ‘violência de gênero’.

OS DIREITOS HUMANOS DE MULHERES E A VIOLÊNCIA

CONTRA MULHERES

Faz parte das afirmações fundamentais da teologia cristã que as igrejas devem recusar qualquer tipo de violência como expressão da violação de di-reitos humanos, a ela se opor, denunciá-la e contribuir para sua superação. As igrejas, durante milênios, porém, deixaram de afirmar isto de forma evidente também em relação à violência de gênero. Ao contrário, em muitos lugares e muitas vezes, a igreja – através de representantes e instrumentos interpretativos – contribuiu para fundamentar e legitimar esta violência, através de conceitos bíblico-teológicos, como ‘culpa de Eva’, ‘silêncio e subordinação feminina’, utilizados inclusive em sutis processos de revitimização das mulheres vítimas de violência (“ela mesma foi culpada”; “ela provocou”; “ela devia ter cedido ou calado” etc.). Diante desta situação paradoxal, sob iniciativa e pressão de movimentos de mulheres nas igrejas, a VIII Conferência Ecumênica do Conse-lho Mundial de Igrejas, em Harare, em 1995, afirmou que a violência contra a mulher é pecado, e convocou as igrejas do mundo inteiro a repudiar e a combater a cultura da violência através desta sua expressão específica:

[...] como mulheres e homens [...] declaramos que violência é um pecado contra a humanidade e contra a terra. Por isso, pedimos e reivindicamos que a VIII Conferência declare diante de todo o mundo que violência contra mulheres é pecado. Na nossa responsabilidade para com Deus e para conosco recomendamos [...] iniciar um processo de arrependimento e de renovação de nossas teologias, tradições e práticas para justiça e paz entre as mulheres, homens e crianças em suas casas e comunidades (EKD, 2000, p. 104-5, minha tradução).

Neste mesmo ano de 1995 foi promulgada a Declaração de Beijing por ocasião da IV Conferência Mundial da Mulher. Na sequência dos movimentos e lutas de mulheres no mundo inteiro, o Conselho Mundial de Igrejas lança a campanha global da Década para Superação da Violência (2001-2010), dando ênfase especial à violência de gênero. Dentro desta campanha, a Federação

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Luterana Mundial elabora e distribui o livro-documento As Igrejas [luteranas] dizem ‘NÃO’ à violência contra a mulher, um plano de ação para prevenção e combate da violência de gênero, difundido em todas as igrejas luteranas no mundo. Estas iniciativas pressupõem que “a religião, o pensamento, a consciência e a fé podem contribuir para a satisfação das necessidades espi-rituais, éticas, morais de homens e mulheres, para que alcancem todo o seu potencial na sociedade” (Declaração de Beijing, apud SINGH, 2002; 2005, p. 10), mas simultaneamente reconhecem que a Igreja, na interpretação de sua Escritura Sagrada, muitas vezes participou da construção e sedimentação de discriminação e mecanismos de subjugação das mulheres.

A partir das realidades experienciais em todos os povos e culturas do planeta, pesquisas mostram que a violência doméstica é a “forma mais disseminada de violência contra a mulher [... que afeta] entre 25 a 50% ou até mais das mulheres” (SINGH, 2002; 2005, p. 12). Neste contexto, importa destacar que, no Brasil, “entre 45 e 60% dos assassinatos de mu-lheres são cometidos dentro do contexto familiar e, na maioria dos casos, o agressor é companheiro ou marido da vítima”. (OLIVEIRA, 2002, p. 1004, nota 2). Para as mulheres, “há mais perigo de ser mort[a] no seio do grupo familiar que em nenhum outro grupo social, salvo o exército e a polícia” (CHESNAIS apud ARAÚJO, 1998, p. 146).

O homicídio de mulheres é o ápice da espiral da violência doméstica. Sob violência contra mulher entende-se “qualquer ato de violência de gênero que resulta ou possa resultar em dano ou sofrimento físico, sexual ou psico-lógico, incluindo também ameaças de tais atos, coação ou privação arbitrária da liberdade, quer seja no âmbito da vida pública ou privada” (Declaração de Beijing apud SINGH, 2002; 2005, p. 12, nota 8). A experiência mundial desta violência evidencia que ela

não é um processo linear que piora gradativamente; tampouco trata-se de um ciclo que vem e vai, e volta novamente para assombrar a vítima. Assemelha-se mais a um ciclone, aumentando de velocidade conforme concentra seu poder de destruição até tragar para o interior de seu vór-tex e arremessar para longe a pessoa e aqueles a sua volta, deixando-as machucadas, desorientadas, necessitadas e, às vezes, irremediavelmente perdidas para a vida. Não é sequer um ciclo único, que possa ser estu-dado, compreendido, o qual uma pessoa pode se preparar a enfrentar, mas consiste de vários ciclos, vindos de vários lados, os quais envolvem sistemas e estruturas que governam nossas vidas (SINGH apud SINGH, 2002; 2005, p. 12, nota 9).

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Destes sistemas e estruturas fazem parte também as estruturas mentais que nos são ensinadas na família, na igreja e na sociedade. A teologia tem participado disto por meio das igrejas que precisam urgentemente avaliar se e como elas tem contribuído, nas interpretações e doutrinas, “para a propensão masculina à violência, à impotência das mulheres e meninas e à tolerância da sociedade para com a violência dentro do seio da família” (SINGH, 2002; 2005, p. 14).

Diante do exposto, há que se destacar a ambigüidade e até mesmo a contraditoriedade da práxis teológico-eclesial: temos uma herança bíblico-teológica significativaa que, a partir de sua interpretação crítico-construtiva,

pode contribuir positivamente na superação de realidades e processos de violação de direitos humanos. Por outro lado, porém, o uso destas tradições na formação de mentalidades tem contribuído para naturalizar a violência de gênero por meio de uma falsa ‘vontade de Deus’ que impõe o silêncio e a submissão às mulheres; com isto, teologia e igrejas minimizaram a violência contra a mulher, trivializando-a ou ocultando-a, de modo que isto veio a contribuir para a formação de uma mentalidade sócio-cultural que não

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reconhece esta prática como sendo violência por enquadrá-la dentro do que se conhece por ‘débito conjugal’ dentro do ‘mercado de desejos’ masculinos (BANDEIRA, 1998, p. 70).

Urge, portanto, a convocação teológico-pastoral para a transforma-ção continuada de nossas mentes e sistemas estruturais - o que na linguagem teológica é nomeado de conversão -, a fim de não nos conformarmos com as injustiças na nossa vida e no mundo. É necessário assumir uma postura mais combativa e mais proativa em humildade e perseverança no serviço à vida. Com isto certamente podemos contribuir também teologicamente para o resgate, afirmação e efetivação do direito de vir-a-ser feliz!

Notas

1 Na literatura sagrada há também narrativas de ‘terror e violência’ contra mulheres, as quais

precisam ser relidas e interpretadas criticamente. Sobre isto, estamos, em conjunto com Keila Matos, encaminhando texto para publicação em português e inglês.

Referências

ARAÚJO, J. G. de. Casa e valores: espaço e dimensões da violência. In: OLIVEIRA, D. D. de; GERALDES, E. C.; LIMA, R. B. de. et al. (Orgs.) Primavera já partiu: retrato dos homicídios femininos no Brasil. Brasília: MNDH, 1998. p. 145-154.

BANDEIRA, L.O que faz da vítima, vítima? In: OLIVEIRA, D. D. de; GERALDES, E. C.; LIMA, R. B. de. et al. (Orgs.). Primavera já partiu: retrato dos homicídios femininos no Brasil. Brasília: MNDH, 1998. p. 53-95.

KIRCHENAMT DER EKD [Evangelische Kirche in Deutschland]. Gewalt gegen Frauen als Thema der Kirche: ein Bericht in zwei Teilen. Gütersloh: Gütersloher Verlags-Haus, 2000.

NASCIMENTO, Claudemiro Godoy do. Fórum Mundial de Teologia e Libertação – Belém 2009: Direitos Humanos, Teologia e Profecia na Amazônia. Disponível em: <http://www. adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=37018>. Acesso em: 15 abr. 2009.

OLIVEIRA, Rafael Soares de (Ed.). Ecumenismo, direitos humanos e paz: a experiência do Fórum Ecumênico Brasil. Disponível em: <www.koinonia.org.br/outras/Febrlivr.pdf> [2006]. Acesso em: 14 abr. 2009.

OLIVEIRA, Rosiska D. de. Direitos de mulheres, direitos humanos. In: PINHEIRO, P. S.; GUIMARÃES, S. P. (Orgs.). Direitos humanos no século XXI. Brasília: IPRI; A. de Gusmão, 2002. p. 987-1004.

SINGH, Priscilla (Org.). As igrejas [luteranas] dizem NÃO à violência contra a Mulher: plano de ação para as igrejas. Genebra: Federação Luterana Mundial; São Leopoldo: Sinodal; 2002; 2005.

Abstract: reflects on the spirituality of Human Rights as a prophetic chal-lenge for theological-pastoral activities. Weaves biblical-theological foun-dations and elaborates ethical imperatives for the assertion of Human

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Rights. Denounces gender violence as sin, highlighting ambiguities in the theological-ecclesial praxis. Displays some actions and publications of organizations combating the violation of Human Rights of women. Key words: Theology, Human Rights, Spirituality, Gender violence

Texto apresentado em Mesa-Redonda Direitos Humanos e o Seu Lugar Na Construção de uma Sociedade Justa, no I Colóquio Direitos Humanos em Foco, na PUC Goiás, Goiânia, em 23 de abril de 2009

IVONI RICHTER REIMER

Doutora em Teologia pela Universität Kassel. Professora na PUC Goiás (Teologia e Pós-Graduação em Ciências da Religião). Assessora do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) e do Serviço de Animação Bíblica (SAB, da Ed. Paulinas). Autora de livros e artigos científicos na área. É casada e tem filhos. E-mail: [email protected]. Pastora na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB),

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