Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 20487-20496 oct. 2019 ISSN 2525-8761
O ensino de arte no contexto escolar: 8 de março, dia internacional das
mulheres
Art education in school context: march 8, international women's day
DOI:10.34117/bjdv5n10-235
Recebimento dos originais: 10/09/2019 Aceitação para publicação: 18/10/2019
Laura Paola Ferreira
Mestre em Ensino de Arte pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG
Endereço: Av. Pres. Antônio Carlos, 6627 - Pampulha, Belo Horizonte - MG, 31270-901 E-mail: [email protected]
Fabrício Andrade
Doutorado em Arte e Tecnologia da Imagem pela Escola de Belas Artes da UFMG Endereço: Av. Pres. Antônio Carlos, 6627 - Pampulha, Belo Horizonte - MG, 31270-901
E-mail: [email protected] Eloisa Rossoni
Mestre em Ensino de Arte pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG
Endereço:Av. Pres. Antônio Carlos, 6627 - Pampulha, Belo Horizonte - MG, 31270-901 E-mail: [email protected]
RESUMO
Este texto discute processos de experiência relacionados ao ensino/aprendizado em Arte no contexto escolar. As atividades desenvolveram-se nas aulas de Arte com alunos do terceiro ciclo de ensino (6°,7°, 8° e 9°). Procurou-se dialogar sobre os contextos culturais trazidos pelos educandos e suas relações com o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. O objetivo principal foi desenvolver a construção de um mural coletivo, a partir das contribuições e criações dos educandos nas aulas de Arte. Conciliou-se assim o conteúdo de Arte com as exigências de trabalhos relacionados às datas comemorativas da instituição escolar. Para a construção deste texto utilizou-se como recurso metodológico a revisão de literatura por meio da pesquisa descritiva bibliográfica e empírica. Dialogou-se com os trabalhos de Andrade (2014), Barbosa (2010), Freedman (2010), López (2010), Machado (2002), Maturana (2009) e Pimenta (2013).
Palavras-chave: Ensino de Arte; professor mediador; contexto escolar. ABSTRACT
This text discusses experience processes related to art teaching / learning in the school context. The activities were developed in art classes with students of the third cycle (6th, 7th, 8th and 9th). We sought to dialogue about the cultural contexts brought by the students and their relations with March 8, International Women's Day. The main objective was to develop the
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construction of a collective mural, based on the contributions and creations of students in art classes. Thus, the content of Art was reconciled with the demands of works related to the commemorative dates of the school institution. For the construction of this text, the literature review was used as a methodological resource through descriptive bibliographic and empirical research. Dialogue with the works of Andrade (2014), Barbosa (2010), Freedman (2010), López (2010), Machado (2002), Maturana (2009) and Pimenta (2013).
Keywords: Art Teaching; mediator teacher; school context.
1 INTRODUÇÃO
Este relato refere-se aos contextos vivenciados na Escola Municipal Josefina Sousa Lima (EMSJL) na criação do “Mural dia das Mulheres”, com educandos do terceiro ciclo de ensino (6°,7°, 8° e 9°). Iniciou-se o processo de construção de conhecimento a partir dos questionamentos que já existiam enquanto educadora de Arte adjuntos aos que surgiram dos educandos durante o processo de trabalho. O objetivo principal foi desenvolver a construção de um mural coletivo, a partir das contribuições e criações expressivas dos educandos realizados nas aulas de Arte. Procurou-se conciliar o conteúdo de Arte com as exigências de trabalho das datas comemorativas inerentes ao calendário da instituição escolar. Para a elaboração metodológica deste texto, fez-se um levantamento bibliográfico e empírico dos processos relatados no diário de bordo/campo. Segundo Gil (2008), a pesquisa bibliográfica se desenvolve por meio de material já elaborado, constituído de livros e artigos. Já o Diário de bordo/campo, segundo Machado (2002), é uma ferramenta fenomenológica de registro escrito, para realizar-se a reflexão pragmática cotidiana da pesquisa.
Essa investigação teve, como condição prévia, o respeito aos conhecimentos e expressões artísticas trazidas pelos educandos, de forma dialógica, proposta por Nogueira (2011). As etapas para o diálogo com os educandos foram:
Diagnóstico dos educandos: criou-se diálogos, trocas e vivências que propiciaram a interação dos educandos com o educador. Ampliou-se o repertório artístico através de processos de fruição e diálogos com os contextos culturais dos estudantes. Ao abrir espaço para os diferentes caminhos e diálogos, proporcionou-se a participação dos educandos no processo de ensino.
Identificação do conteúdo: pesquisa no laboratório de informática, filmes, aulas expositivas com imagens em Power Point, práticas artísticas com materiais diversos e construção do diário de bordo, elaborado tanto pelo educador quanto pelos educandos. A avaliação dos diários de bordo direcionou os caminhos para a construção dos processos de ensino.
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Avaliação das experiências com o grupo.
Ao final do processo, foi realizada, na Reitoria da UFMG, por edital da EBA, a exposição das experiências artísticas realizadas durante o processo da pesquisa.
A docência requer um repensar diário das práticas escolares. Um olhar aberto as diferentes formas de aprendizado. O educador percorre junto com o educando a criação do próprio método de ensino. Há uma construção, um esforço para um entendimento e desenvolvimento de conhecimentos significativos e/ou expressivos. Segundo Pimenta (2013), o professor/pesquisador busca refletir sobre os caminhos metodológicos no desenvolvimento de práticas que interajam com as relações culturais e sociais dos educandos.
Sabe-se que muitas instituições ainda exigem do professor de Arte uma produção de murais e decorações de festa em datas comemorativas. Ao pensar nestas exigências educacionais, nas instituições escolares, para as demandas de datas comemorativas reflete-se: é possível que o professor elabore aulas que dialoguem com o conteúdo de Arte, visando atender tanto o conteúdo do Ensino de Arte, quanto as exigências das instituições de ensino? Como relaciona-se o conteúdo desenvolvido nas aulas de Arte com o desenvolvimento de demandas exigidas pelas instituições de ensino? Como podemos produzir um mural de Arte coletivo que relacione experiências artísticas, a temática das Máscaras Sociais e a discussão da temática do Dia Internacional das Mulheres?
2 DESENVOLVIMENTO
Os professores de Arte das escolas públicas têm conquistado, a cada dia, espaços importantes nas práticas curriculares e desta forma o Ensino de Arte tem se reafirmado como conteúdo nas instituições de ensino. O envolvimento do educador no desenvolvimento das atividades, as lutas constantes por mais espaço, a postura em dialogar sobre a disciplina vêm, aos poucos, reafirmando seriedade e respeito pelo desenvolvimento do campo de conhecimento sobre Arte. Para Maturana (2009, p. 29), “A educação como ‘sistema educacional’ configura um mundo, e os educandos confirmam em viver o mundo que viveram em sua educação. Os educadores, por sua vez, confirmam o mundo que viveram ao ser educados no educar”.O respaldo não vem somente da escola, mas dos familiares que, muitas vezes, tecem observações aos coordenadores sobre o envolvimento dos alunos nas atividades desenvolvidas nas aulas de Arte. Segundo Maturana (2009, p. 24),
Em outras palavras, digo que só são sociais as relações que se fundam na aceitação do outro como um legítimo outro na convivência, e que tal aceitação é o que constitui
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 20487-20496 oct. 2019 ISSN 2525-8761 uma conduta de respeito. Sem uma história de interações suficientemente recorrentes, envolventes e amplas, em que haja aceitação mútua num espaço aberto às coordenações de ações, não podemos esperar que surja a linguagem. Se não há interações na aceitação mútua, produz-se a separação ou a destruição.
No dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. A maioria das escolas comemora a data com homenagens às mulheres. A coordenação da EMJSL, solicitou à educadora de Arte que fosse feito um mural em comemoração a esse dia. Muitos professores de Arte enfrentam demandas, às vezes, nem sempre ligadas especificamente ao contexto das aulas. Cabe ao professor pensar em maneiras de posicionar-se a respeito disso ou encontrar formas de dialogar com o conteúdo curricular da Arte. Segundo Freedman (2010, p.’39), “O currículo tenta filtrar ideias e experiências vistas como conteúdo ilegítimo. Em parte, a determinação do que é apropriado pelo currículo baseia-se na ideia de promover um consenso”. Nem sempre é possível o diálogo com o conteúdo da Arte, mas naquele instante a educadora posicionou-se para aceitar a construção do mural, a partir do momento que percebeu que poderia aliar o tema máscaras sociais com a temáticas que circundam o dia das mulheres. Para López (2010, p. 188),
Muitas vezes nós professoras e professores que nos preocupamos pelos valores na educação, além dos conteúdos próprios de cada disciplina, deparamos com a dificuldade de tecer uma colcha pedagógica na qual a urdidura ética e os conteúdos próprios sejam suficientes e se encontrem coordenados e equilibrados.
Máscaras Sociais foi um trabalho realizados anteriormente que objetivava o estudo
das máscaras sociais, enquanto objetos artísticos, em culturas e épocas diferentes, e o estudo dos artistas contemporâneos, Amleto Sartori e Donato Sartori, John Ahern e Rigoberto Torres e Yasumasa Morimura. Trazendo o cotidiano social dos educandos para a criação artística de máscaras com técnicas e materiais variados. O trabalho foi desenvolvido entre os semestres de 2017 e 2018. Levou-se os temas para a sala com algumas imagens para serem discutidas. Expôs-se aos estudantes as seguintes indagações: Como relaciona-se o conteúdo desenvolvido nas aulas de Arte com o desenvolvimento de demandas exigidas pelas instituições de ensino? Como podemos produzir um mural de Arte coletivo que relacione experiências artísticas, a temática das Máscaras Sociais e a discussão da temática do Dia Internacional das Mulheres? De acordo com Freedman (2010, p. 139), “Se quisermos que a educação seja intelectualmente desafiadora, devemos nos responsabilizar por ensinar o que é significativo, inclusive conflitos
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 20487-20496 oct. 2019 ISSN 2525-8761 de significado e como as coisas chegam a significar”. Logo, os estudantes se expressaram com diálogos que contribuíram com a construção de ideias sobre as temáticas. - Professora!
Podíamos fazer as máscaras da mulher negra, o que acha? As máscaras relatam a forma oculta do preconceito da mulher negra. O mural foi intitulado como “Face oculta da mulher
negra”, título que surgiu após os diálogos em sala.
Para a realização do mural foi solicitado à aluna Giovanna1 que pesquisasse e produzisse croquis variados, para, então, escolhermos um que mais se adequasse ao tema. A criação artística não é algo que vem do nada, os artistas “estudam outros artistas, pois precisam ver e saber o que veio antes deles no mundo” (BARBOSA, 2010, p. 149). A aluna Giovanna pesquisou na Internet e recriou várias máscaras dentro do tema. Os estudantes dos 7°, 8° e 9° anos recortaram os moldes das flores para os cabelos, conforme a figura 1. As flores, segundo os educandos, relacionavam-se, expressivamente, tinham o intuito de proporcionar leveza e ressaltar a beleza da mulher negra. Utilizou-se moldes, pois precisávamos de mais de 600 flores para produzir o mural. Os educandos utilizaram o recorte como forma de construção expressiva. A professora de Matemática cedeu horários para produzirmos as flores.
Fig 1 – Produção das flores para o mural do Dia Internacional da mulher.
Fonte: Produção do próprio autor.
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 20487-20496 oct. 2019 ISSN 2525-8761 A produção do mural foi acompanhada pela aluna Giovanna, que direcionou o trabalho plástico. Quando a professora questionou sobre o tom da boca que não contrastava com a pele, a resposta foi imediata: Professora! Quero ressaltar a pele da mulher negra, não o batom. Percebeu-se o quanto aquela aluna já estava pensando na estética do trabalho, o quanto já emitia opinião do que achava pertinente para o acréscimo da atividade. A Figura 2 e 3 mostra a aluna Giovanna montando o mural; a figura 3 mostra o mural finalizado, o qual foi exposto na escola e remontado na exposição final, na Reitoria da UFMG.
Fig 2 – Produção do mural pela aluna Giovanna.
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Fig 3 – Produção do mural pela aluna Giovanna.
Fonte: Produção do próprio autor.
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 20487-20496 oct. 2019 ISSN 2525-8761 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Estudar Arte é uma ação para além do objetivo de se entender um mundo: ensinar e aprender Arte trazem como consequência a criação de diversas formas de apropriação de inúmeros mundos. O educador que trabalha com o Ensino de Arte se vê, recorrentemente, diante de dois desafios: um de delimitar (ou por assim dizer abranger, expandir) seus objetos de estudo e investigação; outro de escolher proposições didáticas para o desenvolvimento expressivo dos educandos. Os dois desafios são interligados e dialogam entre si. Para tanto, as escolhas de caminhos sempre levarão em consideração inúmeras contingências ligadas, tanto ao ato de ensinar e aprender de uma forma geral, como a características específicas que marcam os encontros entre educadores, educandos e comunidade escolar: especificidades de cada turma, cada escola, cada bairro, por exemplo. De acordo com Andrade (2014, p.61) “As conexões através da discussão de elementos-chave para acesso da memória cultural do educando são instâncias fundamentais para o desenvolvimento das pesquisas em arte/educação [...]”.
Resta, portanto a importante e essencial tarefa, no âmbito escolar, formal e não formal, de se realizar escolhas e justificá-las educacionalmente. Um dos intuitos do ensino e da aprendizagem de Arte é conhecer diversas formas expressivas, abordar contextos e relacionar tais conhecimentos ao desenvolvimento do educando em se expressar e experenciar formas artísticas: viver a construção de jogos teatrais, cenas, danças, movimentos, objetos musicais, criações com materiais expressivos diversos. A vivência contextualizada de expressões artísticas é fundamental para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Experenciar a Arte significa apropriar-se e criar seus próprios conceitos, vivências ou sensações. Vários processos que proporcionem a ampliação do contato com expressividades artísticas criarão, ao longo da trajetória educacional de cada indivíduo, um desenvolvimento de opinião, preferências e criticidade. Características tão esperadas na educação contemporânea.
A docência requer um repensar diário das práticas escolares. Um olhar aberto as diferentes formas de aprendizado. O educador percorre junto com o educando a criação do próprio método de ensino. Há uma construção, um esforço para um entendimento e desenvolvimento de conhecimentos significativos. Segundo Pimenta (2013), o professor/pesquisador busca refletir os caminhos metodológicos no desenvolvimento de práticas que interajam com o mundo cultura e social dos educandos.
Entende-se que uma disciplina de Arte pode integrar as realidades dos educandos de forma que possam participar dos caminhos para o próprio aprendizado em Arte. É necessário
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 20487-20496 oct. 2019 ISSN 2525-8761 que o professor de Arte conscientize- se da importância do conteúdo Arte para a formação dos educandos. E que as vezes é possível atender as necessidades institucionais, sem ferir o conteúdo artístico. Mas, para isso é necessário que o professor reflita seu papel enquanto docente mediador do processo de ensino. A formação continuada de educadores é fundamental para se trocar conhecimentos sobre a atuação no cotidiano escolar e das realidades existentes em cada localidade.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Fabrício. Arte/educação: Paradigmas do século XXI. São Paulo: Annablume, 2014. 152 p.
BARBOSA, Ana Mae. (org). Arte/educação contemporâneas: consonâncias
internacionais. São Paulo: Cortez, 2010.
FERREIRA, Laura, Paola. Máscaras Sociais: construindo os caminhos para o aprendizado em Arte. 2018. 90 p. Dissertação (Mestrado em Arte). Escola de Belas Artes. Universidade Federal de Minas Gerais, 2018.
FREEDMAN, Kerry. Currículo dentro e fora da escola: representações da Arte na cultura visual. In: BARBOSA, Ana Mae (org). Arte/educação contemporâneas: consonâncias internacionais. São Paulo: Cortez, 2010, p. 139.
LÓPEZ, Marián. F. Cao. Lugar do outro na Educação Artística – Olhar como eixo articulador da experiência: uma proposta didática. In: BARBOSA, Ana Mae (org). Arte/educação contemporâneas: consonâncias internacionais. São Paulo: Cortez, 2010, 188 p. MATURANA, Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.
MACHADO, Marina Marcondes. O Diário de Bordo como ferramenta fenomenológica para o pesquisador em artes cênicas. São Paulo: Sala Preta (USP), v.2, 2002, p. 260-263. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/salapreta/article/view/57101/60089. Acesso em: 31 mai. 2017.
PIMENTA, Selma, Garrido; LIMA, Maria, Socorro, Lucena. Estágio e Docencia. 7°ed.- São Paulo: Cortez, 2012.
Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 5, n. 10, p. 20487-20496 oct. 2019 ISSN 2525-8761 O programa "Promove Ideias" tem o intuito de apresentar temas, ideias inovadoras, sociais e revolucionárias de pesquisas de mestrado e doutorado. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=zQ5RXNDbBYo&t=54s>. Acesso em 05/08/2019. TV UFMG - Mestranda da UFMG desenvolve ação com alunos de escola pública. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=puE9GT1RCAo&t=1s>. Acesso em 05/08/2019.