MIGRAÇÃO INTERNA E POBREZA EM SERGIPE
Kleber Fernandes de Oliveira
Palavras-chave: Pobreza; Migração interna; Indicadores; Renda
Resumo
O texto analisa a relação entre migração em pobreza nos municípios sergipanos, entre 1980 e 2000, classificando-os como integrantes da Região da Grande Aracaju (RGA) e do Interior. Nesse período, a primeira região foi destinatária de investimentos em industrialização, enquanto que no Interior poucos projetos de irrigação e ações puramente assistenciais. Entretanto, mesmo com essas diferenças no que se refere à natureza dos investimentos, não se pode dizer que houve redução da pobreza na RGA. Por outro lado, é de notar que os municípios situados no Sertão Sergipano e na porção sul do Agreste, portanto de frágil estrutura econômica e mais afetados pela seca, foram aqueles que lograram alívios significativos da pobreza.
Argumenta que, devido às assimetrias econômicas regionais, principalmente relativas à estrutura produtiva e mercado de trabalho, a migração de pessoas com idades entre 18 e 30 anos contribuiu para aumentar no local de origem, ou seja, no Interior, a participação relativa das pessoas com maior idade, portanto eletivas de programas sociais e com acesso crescente aos benefícios previdenciários. Acredita-se, portanto, que o reflexo dessa mudança na composição populacional foi o de contribuir para a redução da incidência da pobreza no Interior. Na RGA, por outro lado, o afluxo dessa população em busca de melhor renda ou emprego aumentou a pressão sobre o já insuficiente mercado de trabalho local. Mesmo tendo maior dinamismo econômico, tal pressão certamente deve ser mencionada como um dos elementos explicativos para a inalterabilidade da pobreza, nessa região, entre 1980 e 2000.
Trabalho apresentado no XVII Encontro Nacional de Estudos Populacionais, realizado em Caxambu- MG –
Brasil, de 20 a 24 de setembro de 2010.
MIGRAÇÃO INTERNA E POBREZA EM SERGIPE
Kleber Fernandes de Oliveira
Introdução
O texto analisa a relação entre migração em pobreza nos municípios sergipanos, entre 1980 e 2000, classificando-os como integrantes da Região da Grande Aracaju e do Interior. Nesse período, a primeira região foi destinatária de investimentos em industrialização, enquanto que no Interior poucos projetos de irrigação e ações puramente assistenciais. Entretanto, mesmo com essas diferenças no que se refere à natureza dos investimentos, não se pode dizer que houve redução da pobreza na RGA. Por outro lado, é de notar que os municípios situados no Sertão Sergipano e na porção sul do Agreste, portanto de frágil estrutura econômica e mais afetados pela seca, foram aqueles que lograram alívios significativos da pobreza.
Argumenta que, devido às assimetrias econômicas regionais, principalmente relativas à estrutura produtiva e mercado de trabalho, a migração de pessoas com idades entre 18 e 30 anos contribuiu para aumentar no local de origem, ou seja, no Interior, a participação relativa das pessoas com maior idade, portanto eletivas de programas sociais e com acesso crescente aos benefícios previdenciários. Acredita-se, portanto, que o reflexo dessa mudança na composição populacional foi o de contribuir para a redução da incidência da pobreza no Interior. Na RGA, por outro lado, o afluxo dessa população em busca de melhor renda ou emprego aumentou a pressão sobre o já insuficiente mercado de trabalho local. Mesmo tendo maior dinamismo econômico, tal pressão certamente deve ser mencionada como um dos elementos explicativos para a inalterabilidade da pobreza, nessa região, entre 1980 e 2000.
Compõem o artigo dois tópicos. O primeiro, analisa comparativamente as mudanças na distribuição setorial da mão-de-obra ocupada nos municípios sergipanos, mostrando a importância das atividades agropecuárias e o avanço do emprego no setor de comércio e serviços. Classificando os municípios entre Interior e RGA, mostra que enquanto a renda do trabalho apresentou redução em ambas as áreas, as rendas de aposentadorias e pensões cresceu não apenas no valor do benefício, como também na cobertura, sendo mais intenso no Interior. Isto certamente deve ser considerado para explicar a redução da pobreza nesta área.
Na segunda parte, dedica-se à dinâmica migratória interna, mostrando que os fluxos Interior-Aracaju apresentaram redução, enquanto que as trocas migratórias entre Aracaju e municípios vizinhos intensificaram nesse período.
Trabalho apresentado no XVII Encontro Nacional de Estudos Populacionais, realizado em Caxambu- MG –
Brasil, de 20 a 24 de setembro de 2010.
1 Componentes da pobreza regional em Sergipe
Está bem documentada na literatura sobre o desenvolvimento regional brasileiro a importância que teve o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) para os avanços na economia nordestina (CANO, 1998a; 1998b; CAIADO, 2000). De acordo com Pacheco (2000) foi justamente a partir desse plano que a periferia nacional passou a receber melhores investimentos destinados à construção de distritos industriais, pólos petroquímicos e portos marítimos. A “Nova Indústria Nordestina” (ARAÚJO, 2000) surge através de complexos agroindustriais, pólos ou distritos Industriais (GUIMARÃES NETO, 1997) implantados principalmente em cidades de médio porte, dotadas de alguma infra-estrutura, mas distantes dos problemas crônicos dos grandes centros.
As cidades médias tornam-se objeto de políticas de planejamento urbano e regional, a partir dos anos 70. No escopo dessas intervenções subsistia a expectativa que atuassem para reduzir as disparidades regionais através da interiorização do desenvolvimento sustentado em investimentos públicos e, com isso, funcionassem também como retentores dos fluxos migratórios potencialmente destinados às metrópoles, sobretudo do Sudeste (AMORIM FILHO; SERRA, 2001).
Em Sergipe, os esforços de industrialização e de diversificação produtiva verificados a partir dos anos 70 ocorreram de forma localizada no espaço geográfico, ao mesmo tempo em que na maior parte dos municípios a estagnação econômica e a pobreza condicionam importantes fluxos migratórios interestaduais e intermunicipais, este último tendo como destino principal a área de Aracaju. Um ponto importante na reorganização do espaço, das relações econômicas e dinâmica migratória em Sergipe consiste, sem dúvida, na formação da área denomina de Região da Grande Aracaju.
É interessante destacar que a mesma atenção não foi dispensada ao Interior sergipano. Nos anos 80 e parte da década seguinte, as ações públicas nos municípios situados fora da RGA estiveram sempre circunscritas ao aproveitamento de recursos hídricos, como construção de açudes, barragens e adutoras, mas sem que investimentos em desenvolvimento técnico2 fossem suficientes para diversificar a restrita produção agrícola do Interior (PINTO, 1999). Acrescente-se também que, em grande parte dos anos 1980, essa área sofreu com os efeitos da seca prolongada. (SEPLAN, 1988).
Ainda que posteriormente atenuados os efeitos negativos da década de 1980, o Interior permaneceu estagnado nos anos seguintes, embora seja de destacar algumas iniciativas da agroindústria, como a de cítricos no Sul do Estado, a cana-de-açúcar no Litoral-Norte e os coqueirais. O setor primário sergipano continua baseado em culturas temporárias e na pecuária, ambos com conteúdo tecnológico e produtividade inexpressivos (LACERDA; FERREIRA; MACHADO, 2000).
A importância dos setores primário e terciário na economia sergipana, bem como a distribuição espacial dessas atividades, podem ser observadas a seguir. Nas figuras 1 e 2 merece destaque o processo de redução do emprego agrícola, uma vez que não mais figuram municípios cuja proporção de ocupados no setor primário envolva mais de 75% dos trabalhadores totais. Entretanto, mesmo com essa retração, o emprego agrícola é ainda
2 Merecem destaque os programas Pró-sertão, Projeto chapéu de couro e ações do Polonordeste e Plano de
importante em muitos municípios sergipanos, sobretudo aqueles localizados na região sertaneja.
No que se refere ao setor secundário, os dados referentes aos anos 1980 e 2000 sinalizam claramente a fragilidade da indústria. Nesse sentido, a menos que a “nova indústria” sergipana fosse essencialmente portadora de alta tecnologia e, por conseguinte, poupadora de mão-de-obra, e admitindo que o emprego setorial seja um bom indicador da atividade em questão, pode-se afirmar seguramente que o setor secundário sergipano é em 2000 menor que em 1980.
A redução do emprego no setor primário e perda de importância relativa do setor secundário, nos anos 1980 e 2000, foram comportamentos opostos ao observado no setor terciário. Como pode ser observado nas Figuras 5 a 6, no primeiro período, o setor terciário
Figura 4: Percentual municipal da população ocupada no setor secundário dos municípios sergipanos, 2000 Figura 1: Percentual municipal da população
ocupada no setor primário dos municípios sergipanos, 1980
Figura 2: Percentual municipal da população ocupada no setor primário dos municípios sergipanos, 2000
Fonte: Censo Demográfico, 1980 Fonte: Censo Demográfico, 2000
Fonte: Censo Demográfico, 1980
Figura 3: Percentual municipal da população ocupada no setor secundário dos municípios sergipanos, 1980
empregava menos de 25% da mão-de-obra total em toda a área do Sertão Sergipano, parte do Agreste e Sul, enquanto que em 2000 apenas 5 dos atuais 75 municípios figuravam nesta classe. Por outro lado, os municípios nos quais entre 25% e 50% da população estava empregada no setor terciário quase que dobrou, passando de 27 para 52 municípios.
As figuras acima evidenciam o crescimento do setor terciário em Sergipe. No entanto, há dois fatores importantes que merecem ser considerados como influentes nesse processo de terciarização.
O primeiro deles relaciona-se com o efeito das rendas de transferências, originadas da previdência social ou de programa sociais não-contributivos, como impulsionadores da economia local3. Desta forma, as rendas originadas de benefícios previdenciários exercem papel importante não apenas no atendimento às necessidades materiais básicas, como também movimentando economias locais e servindo de seguro financeiro para períodos de quebra ou de entressafra4.
3 A esse respeito, vale mencionar Schwarzer; Querino (2002) que, dedicando-se a estudar os efeitos desses
benefícios sociais sobre a pobreza rural no Brasil, concluem que os domicílios cobertos pela previdência rural não apenas são menos suscetíveis à pobreza, mas também a renda originada desses benefícios permite que os idosos e deficientes tenham maiores possibilidades de aquisição de medicamentos ou mesmo de acesso a serviços de saúde privados usualmente indisponível na rede pública de muitos municípios de pequeno porte. Esses rendimentos também contribuem na aquisição de bens materiais para uso doméstico e materiais de construção, da mesma forma que a regularidade no recebimento desse benefício gera um tipo de “rede de segurança” contra as intempéries naturais e pode reforçar a atividade agrícola municipal. Acrescente-se ainda alterações na estrutura populacional, sobretudo o aumento da população com idade acima de 60 anos.
4 No caso de Sergipe, dadas as características rurais e agrícolas acima resumidas, é necessário destacar a
influência à base da Constituição Federal de 19884, como a universalidade da cobertura e do atendimento previdenciário, a uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais, complementados pela Lei 8.213, de julho de 1991, que garantiu benefício de aposentadoria ao trabalhador rural que completar 60 anos, se homem, ou 55 anos, se mulher, desde que comprove atividade rural mesmo descontínua, foram potencializados no Interior sergipano por dois fatores principais: o aumento da população em idade acima de 55 anos e maior concentração da população residente em áreas rurais, portanto, com mão-de-obra fundamentalmente baseada no trabalho agrícola.
Figura 6: Percentual municipal da população ocupada no setor terciário dos municípios sergipanos, 2000 Figura 5: Percentual municipal da população ocupada
no setor terciário dos municípios sergipanos, 1980
Na relação entre migração e pobreza, a idéia aqui subjacente é que o aumento das rendas de transferências, mesmo em ambiente de profunda estagnação econômica, pode dinamizar as economias municipais, aumentar o fluxo de renda das famílias e, portanto, contribuir de alguma maneira para retenção populacional em tais municípios. Veja na Tabela 1 que, no Interior, o número de beneficiários aumentou de 56,4 mil para 120 mil, com o valor médio apresentado crescimento real de R$ 147,77 para R$ 201,17. Tal crescimento resulta principalmente pela ampliação da cobertura das aposentadorias, cujo número de beneficiários passou de 50,5 mil para quase 100 mil. Da mesma forma, o valor médio do benefício aumentou de R$ 147,77 para R$ 225, 58, entre 1980 e 2000.
As rendas de doações e outras transferências, cuja comparabilidade temporal deve ser feita com ressalvas (veja apêndice metodológico), indicam que o número de beneficiários no Interior passou de 5,8 mil para 20,2 mil, mas o valor médio recebido diminuiu de R$ 147,74 para R$ 81,08.
Na RGA, o aumento da cobertura das aposentadorias foi menos expressivo ao verificado no Interior, passando de quase 58 mil para pouco menos de 73 mil beneficiários, entretanto o valor médio desse benefício quase triplicou, passando de R$ 185,69 para R$ 587,23. As rendas de doações e outras transferências, que beneficiavam 5,7 mil pessoas em 1980, envolveram 20,2 mil pessoas em 2000, aumentando também a importância paga, de R$ 206,59 para R$ 232,63, entre 1980 e 2000.
A relevância das rendas de transferências no Interior pode melhor compreendida quando comparada com os indicadores de mercado de trabalho. Em 1980, a renda do trabalho nessa região era de R$ 306,18 enquanto que as rendas de aposentadorias tinham valor médio de R$ 147,77, ou seja, a renda do trabalho era o dobro (107%) da renda de aposentadorias. O contingente de ocupados era de quase 219 mil pessoas, enquanto que o de aposentados era de 50,5 mil pessoas, portanto quatros vezes maior. Em 2000, o valor da renda do trabalho, R$ 255,56, era apenas 13% superior à renda de aposentadorias, que era de R$ 225,58 e o número de ocupados, que aumentou para 355,8 mil pessoas, foi seguido pelos aposentados, passando a quase 100 mil (Tabela 2).
Interior Região da
Grande Aracaju Interior
Região da Grande Aracaju
N. de beneificiários 56.388 63.748 120.081 93.209
Aposentadorias e pensões 50.567 57.975 99.797 72.982
Doações e outras transferências 5.821 5.773 20.285 20.226
Valor médio dos benefícios (R$) 147,77 187,59 201,17 510,28
Aposentadorias e pensões 147,77 185,69 225,58 587,23
Doações e outras transferências 147,74 206,59 81,08 232,63
Tabela 1
Valor médio e número de beneficiários de aposentadorias, pensões e outras rendas de transferências no Interior e na RGA, 1980 e 2000 - em Reais (jan/2002=100) Discriminação
1980 2000
A aproximação monetária entre as rendas do trabalho e de transferências ocorre não apenas devido ao aumento da cobertura e dos valores pagos pelas aposentadorias e pensões, mas também devido às perdas sofridas pela renda do trabalho. Nesse sentido, a migração originada do interior é, decerto, motivada pelos diferenciais de mercado de trabalho da RGA, mas não se pode desprezar a influência das transferências na retenção de outros estratos populacionais, sobretudo os de menores níveis de instrução, habilidade técnica e renda.
O outro elemento a ser considerado é o processo de descentralização fiscal, impulsionado pela Constituição Federal de 1988, que conferiu ampla autonomia financeira aos governos sub-nacionais para coletar, gerir e gastar recursos. A partir de tais mudanças, Estados e Municípios não apenas aumentaram também suas participações na arrecadação total, como também puderam focalizar seus gastos na área social (AFONSO, 1994).
Ao analisar a composição das despesas por função5 segundo tamanho populacional dos municípios6, Guimarães Neto; Porsse; Soares (1999) identificam que foram justamente aqueles com população abaixo de 100 mil habitantes e situados em regiões pouco desenvolvidas como o Nordeste que os gastos por função prioritários foram educação, planejamento, saúde e habitação. Embora os autores não tratem especificamente de Sergipe, mas considerando que, dos atuais 75 municípios apenas 2 possuem população acima dos 100 mil habitantes, é factível que aqui também sejam consideráveis os efeitos dos gastos públicos na geração de empregos.
As características regionais acima apontadas são elementos intervenientes na trajetória da pobreza. Apoiando-se na existência de diferenças regionais relevantes em favor da RGA, não surpreenderia que as estimativas para o Interior refletissem os graves problemas estruturais já mencionados ou, de outra forma, que no melhor dos cenários a pobreza no Interior mantivesse os mesmos indicadores estimados para 1980. Na Região da Grande Aracaju, área de maior dinamismo econômico, mesmo que também afetada pela desestruturação do mercado de trabalho, a expectativa seria que os indicadores de pobreza apresentassem reduções substantivas, nesse mesmo período.
5 As principais despesas por função são: legislativa, administração e planejamento, assistência social e
previdência, educação e cultura, saúde e saneamento, segurança pública, habitação e urbanismo, transporte e demais despesas.
6 Pequeno: até 20 mil; Pequeno-Médio: entre 20 mil e 50 mil; Médio: entre 50 mil e 100 mil; Médio-grande:
entre 100 mil e 300 mil; Grande: mais d 300 mil habitantes.
1980 1991 2000 1980 1991 2000 1980 1991 2000 Até 4 anos 274,94 202,01 192,51 413,73 254,12 262,48 138,80 52,11 69,97 5 a 8 anos 502,75 285,71 266,78 510,81 354,40 338,87 8,06 68,69 72,09 9 a 11 anos 921,09 423,89 430,43 1.156,77 670,64 635,35 235,68 246,75 204,91 12 a 16 anos 1.075,81 772,36 859,26 2.399,52 1.448,42 1.746,31 1.323,71 676,05 887,05 17 anos e mais 2.960,91 1.609,67 2.584,28 3.273,21 2.804,48 2.953,46 312,30 1.194,81 369,17 Renda média 306,18 238,35 255,56 664,97 522,18 612,52 358,79 283,83 356,96 Anos de estudo 1,20 2,80 4,10 3,60 6,70 7,70 2,40 3,90 3,60
Fonte: Censo Demográfico, 1980, 1991 e 2000
(1) População ocupada com 10 anos ou mais de idade; exclui renda zero e não definida (2) Diferença em Reais de janeiro/2002 entre a renda e a escolaridade da RGA e Interior (3) Em anos de estudo
Tabela 2
Rendimento médio do trabalho principal por ramos de negócio segundo anos de estudo e hiato regional entre Interior e RGA, 1980, 1991 e 2000 - em Reais (jan/2002=100) (1)
Não é este diagnóstico que pode ser feito a partir dos dados contidos nas Tabelas 3 e 4. Ao invés da renitência da pobreza no Interior, tem-se que entre 1980 e 2000 houve redução de 66,4% para 59,8% na proporção de famílias abaixo da linha de pobreza, não obstante em 1991, dadas as crises econômicas que marcaram esse período, esse fenômeno tenha incidido sobre 76,5% das famílias dessa área. A constatação de alívio da pobreza no Interior, no entanto, não deve encobrir a elevada incidência do fenômeno em 2000, mesmo sob a ressalva de que uma possível sobrestimativa7 da linha de pobreza tenderia a “inflar” a proporção de famílias em condição de pobreza no Interior.
Comportamento similar também foi também verificado com a profundidade da pobreza. Observe-se que a distância monetária entre a renda média das famílias consideradas como pobres e a linha de pobreza também apresentou leve redução, mas estatisticamente significativa, caindo de 32,3% para 31,1%, entre 1980 e 2000. Por outro lado, a severidade da pobreza, que representa a desigualdade de renda entre as famílias pobres não apresentou mudanças significativas entre 1980 e 2000.
O tímido alívio da incidência e da profundidade da pobreza no Interior sergipano, ao mesmo tempo em que a desigualdade entre os pobres permanece inalterada, constitui indício de que eventuais avanços na renda ocorreram de forma localizada, beneficiando principalmente as famílias cuja renda média já se situava próxima da linha de pobreza, mas excluindo aquelas mais à esquerda da distribuição.
Na Região da Grande Aracaju, adversamente do que se constatou para o Interior e contrariando a suposição inicial, a leve redução da pobreza, de 37,8% para 36,8% não permite concluir, com base nos intervalos de confiança, que tal alívio tenha significância estatística. Tornaram-se mais graves, por sua vez, a profundidade, que passou de 15,4% para 16,3%, e a severidade da pobreza, cujo aumento foi de 8,3% para 9,2%, ambos com significância estatística.
7 A sobrestimativa do índice de pobreza no Interior decorreria da opção em utilizar o valor da cesta básica
vigente na RGA como linha de pobreza. Valor Estimado Limite Inferior Limite Superior Valor Estimado Limite Inferior Limite Superior Valor Estimado Limite Inferior Limite Superior Incidência - FGT 0 66,4 66,0 66,9 76,5 75,9 77,1 59,8 59,3 60,4 Profundidade - FGT 1 32,3 32,0 32,6 39,0 38,6 39,4 31,1 30,8 31,5 Severidade - FGT 2 19,2 18,9 19,4 24,7 24,4 25,1 19,7 19,4 20,0 Fonte: Censos Demográficos 1980, 1991 e 2000 - Tabulações Próprias
Tabela 3
Estimativas e intervalos de confiança (95%) da pobreza nas famílias do Interior sergipano, em 1980, 1991 e 2000
1980 1991 2000 Índices de Pobreza Valor Estimado Limite Inferior Limite Superior Valor Estimado Limite Inferior Limite Superior Valor Estimado Limite Inferior Limite Superior Incidência - FGT 0 37,8 37,2 38,5 49,1 48,2 50,0 36,8 36,1 37,5 Profundidade - FGT 1 15,4 15,1 15,8 23,6 23,1 24,1 16,3 15,9 16,7 Severidade - FGT 2 8,3 8,1 8,5 14,4 14,1 14,8 9,2 8,9 9,4
Fonte: Censos Demográficos 1980, 1991 e 2000 - Tabulações Próprias Tabela 4
Estimativas e intervalos de confiança (95%) da pobreza na famílias da Região da Grande Aracaju em 1980, 1991 e 2000
Índices de Pobreza
Frente a essa aparente contradição, surgem dois questionamentos. O primeiro, busca saber por que o Interior sergipano, mesmo afetado por graves problemas estruturais e debilidades econômicas, logrou reduzir tanto a pobreza quanto a profundidade. Da mesma forma, como explicar a resistência da pobreza e agravamento da profundidade e da severidade na RGA se essa área, conforme já enfatizado, não apenas foi alvo de investimentos em industrialização, como também concentra parte substancial das atividades econômicas do Estado?
Decerto, nessa explicação devem figurar elementos de natureza econômica, mas há também a influência de componentes demográficos igualmente merecedores de atenção. 2 Dinâmica migratória interna: magnitude e direção dos fluxos
Paralelamente a esses fatores de natureza econômica/político-instituicionais, mudanças na estrutura populacional também agiram no sentido de potencializar os efeitos positivos das aposentadorias ou de amenizar as perdas da renda do trabalho. No primeiro caso, está o aumento relativo e absoluto da população com idade acima de 60 anos em conjugação com a universalização das aposentadorias e os ganhos reais no valor desses benefícios previdenciários. No mercado de trabalho, o crescimento da população em idade economicamente ativa amplia a capacidade de geração de renda nas famílias, mesmo que através de ocupações no mercado de trabalho informal.
A migração é outra componente demográfica que também pode modificar a estrutura populacional. Isto porque, na presença de desequilíbrios regionais, áreas de maior dinamismo econômico são destinatárias de fluxos migratórios originados das demais regiões. De acordo com Hakkert; Martine (2007, p. 1):
A busca de melhores condições de vida fundamenta a maioria dos deslocamentos populacionais. Para populações em idades ativas, isso normalmente significa a busca de melhor emprego e de renda. As pessoas se deslocam para aquelas localidades onde sua rede de informações – que, evidentemente, pode não ser perfeita – lhes indica que existem maiores possibilidades de encontrar um trabalho ou uma atividade melhor remunerada. A nível agregado, isto significa que grosso modo os migrantes seguem a mesma rota que os investimentos econômicos. Entretanto, a relação entre estímulo e migração não é perfeita nem imediata. Mesmo para os estudiosos e acadêmicos, a informação sobre espacialização dos investimentos produtivos tende a ser defasada.
Desta forma, a migração incentivada por desigualdades econômicas regionais, sobretudo de mercado de trabalho, pode provocar mudanças não apenas quantitativas, uma vez que altera o volume da população nas áreas de origem e de destino, mas também impõe alterações qualitativas dado que os fluxos migratórios são compostos por pessoas cujas características como idade, sexo e escolaridade não são representativas nem da área de origem e, tampouco, de destino (VIGNOLI, 2007).
Conforme dito, fato relevante para a migração entre os municípios sergipanos foi a formação da Região da Grande Aracaju. Adversamente à letargia econômica e ao esquecimento imposto ao Interior, alguns municípios da RGA foram destinatários de importantes investimentos industriais, a partir dos anos 70. No lugar da feição agrícola e rural
previa-se impor a industrialização e a urbanização como fios condutores do desenvolvimento estadual.
Ocorre que, mesmo sob tais influências, dos nove municípios que compõem a RGA, apenas dois lograram redução significativa na pobreza e os demais municípios do Leste Sergipano mantiveram, em 2000, o mesmo nível de pobreza estimado para 1980. Por outro lado, é de notar que os municípios situados no Sertão Sergipano e na porção sul do Agreste, portanto de frágil estrutura econômica e mais afetados pela seca, foram aqueles que lograram alívios significativos da pobreza, nesses vinte anos.
Dada a importância da RGA como principal destino dos migrantes internos e frente a estas evidências empíricas acima resumidas, analisa-se a seguir como a dinâmica migratória interna em Sergipe influenciou no comportamento da pobreza nessas duas grandes áreas, considerando as informações censitárias de 1980, 1991 e 2000.
O fio condutor dessa investigação é que, devido às assimetrias econômicas regionais, principalmente relativas ao mercado de trabalho, a migração Interior-RGA contribuiu para aumentar no local de origem a participação relativa das pessoas com maior idade, portanto eletivas de programas sociais e com acesso crescente aos benefícios previdenciários. O reflexo dessa mudança na composição populacional foi, portanto, o de contribuir para a redução da pobreza no Interior.
Na RGA, por outro lado, o afluxo dessa população em busca de melhor renda ou emprego aumentou a pressão sobre o já insuficiente mercado de trabalho local. Mesmo tendo maior dinamismo econômico, essa pressão certamente contribuiu para que a pobreza mantivesse, em 2000, o mesmo nível de incidência de 1980.
O caráter espacialmente concentrado dos investimentos industriais na Região da Grande Aracaju consolidou essa área como principal vetor econômico e de intensos fluxos migratórios. É necessário ressaltar que isto se deu em num contexto marcado pela relativa desconcentração industrial no Centro-Sul do país, principalmente em São Paulo, em que se assistiu ao surgimento de novos espaços econômicos em áreas como o Nordeste (CANO, 1998; PACHECO, 1998, 2000), suscitando outros tipos de mobilidade populacional, novas direções e sentidos dos fluxos migratórios, como também o aumento da migração inter-regional e intra-estadual (CUNHA, 2003; CUNHA; BAENINGER, 2005).
Utilizando informações sobre o lugar de residência em uma data-fixa, contidas nos dados amostrais dos Censos Demográficos de 1991 e 2000, e admitindo como equivalente, no Censo de 1980, a informação referente aos migrantes com menos de 5 anos no local de residência8, pode-se notar que a RGA não apenas se manteve como a principal área de imigrações como também passou a ser origem de mais de quase metade da emigração internas em Sergipe, em 1995-2000.
8 Vale aqui fazer uma consideração de natureza metodológica a esse respeito. De acordo com Cunha (2005), a
informação sobre o volume de migrantes com menos de 5 anos de residência é geralmente superior àquele que seria captado através da data fixa por dois motivos principais. O primeiro é que a informação de data fixa não contempla etapas migratórias ocorridas entre o levantamento e a data fixada. Em segundo lugar, o volume de migrantes com menos de cinco anos tende a ser maior que aquele captado pelo quesito da data fixa porque envolve as crianças com menos de 5 anos.
Cabe observar na Tabela 5 que, de fato, a migração interna em Sergipe se intensificou, a partir dos anos 1975-80. Prova disto é que as trocas migratórias intermunicipais passaram de 65,6 mil para mais de 97 mil pessoas, influenciadas principalmente pela migração intra-regional. Note-se que, entre os municípios do Interior, o volume da migração aumentou de 28,1 mil para 30,8 mil pessoas, mas foi na RGA que migração intra-regional apresentou maior crescimento, passando de 8,5 mil pessoas para 33,9 mil pessoas, entre 1975-80 e 1995-2000.
O aumento da migração entre municípios da RGA merece algumas considerações e serão feitas a seguir. Mas o que importa destacar é que a migração inter-regional manteve, em 1995-2000, magnitude similar àquela estimada para 1986-91 e 1975-80, ou seja, o Interior continua sendo área de origem de fluxos migratórios para a RGA, envolvendo em período analisado contingente sempre superior a 20 mil migrantes.
Considerando o destino dos migrantes do Interior na RGA, e pelos motivos já apresentados, não surpreende que, em todos os períodos em análise, Aracaju fosse o principal destino esses migrantes. No entanto, por conta do próprio processo de metropolização, o poder de atração exercido pela Capital é decrescente ao longo do tempo: se em 1975-80, quase 85% (19,5 mil pessoas) dos imigrantes do Interior foram enumerados em Aracaju, em 1986-91 essa participação foi de 69,5% (17,2 mil pessoas) e, em 1995-2000, de 58,7% (11,8 mil pessoas). Na direção inversa, Nossa Senhora do Socorro, que foi o destino de 3% (714 pessoas) dos migrantes originados Interior, no primeiro período, passou a 21% (4,2 mil), em 1995-2000. Da mesma forma, o município de São Cristóvão aumentou de 4% (941 pessoas) para 10% (2 mil pessoas) no total desses migrantes (veja na Tabela 6).
Interior RGA Sergipe Interior RGA Sergipe Interior RGA Sergipe
Interior 28.141 23.040 51.181 Interior 28.016 24.779 52.795 Interior 30.769 20.139 50.908
RGA 5.932 8.515 14.447 RGA 8.021 32.335 40.356 RGA 12.302 33.908 46.210
Sergipe 34.073 31.555 65.628 Sergipe 36.037 57.114 93.151 Sergipe 43.071 54.047 97.118
Fonte: Censos Demográficos 1980, 1991 e 2000 - Tabulações Próprias (1) Exclui os migrantes sem local de origem definida
Matriz de fluxos migratórios do Interior e Região da Grande Aracaju, 1975-80, 1986-91 e 1995-2000 (1) Tabela 5 Origem Destino 1991 2000 Origem Destino Destino Origem 1980
Imigrantes Emigrantes Saldo Imigrantes Emigrantes Saldo Imigrantes Emigrantes Saldo Aracaju 19.507 4.251 15.256 17.215 6.017 11.197 11.830 9.223 2.607 B. dos Coqueiros 246 44 202 610 57 553 305 127 178 Itaporanga dAjuda 571 378 193 696 361 334 849 283 566 Laranjeiras 96 261 -165 667 385 282 269 446 -177 Maruim 532 364 168 473 316 157 185 413 -228 N. S. do Socorro 714 29 685 3.203 175 3.028 4.241 723 3.517 Riachuelo 236 271 -35 215 250 -36 236 160 76 S. A. das Brotas 197 178 19 48 166 -118 142 195 -52 São Cristóvão 941 156 785 1.653 293 1.360 2.082 732 1.350 Total RGA (1) 23.040 5.932 17.108 24.779 8.021 16.758 20.139 12.302 7.837
(1) Exclui os migrantes com origem não definida
Tabela 6
Trocas migratórias entre municípios da RGA e Interior, 1980-75, 1991-86 e 2000-95
Fonte: Censo Demográfico, 1980, 1991 e 2000
Município
Em contrapartida à queda no poder de atração migratória verificada em Aracaju, aumentaram os fluxos Aracaju-Interior, passando de 4,2 mil para 9,2 mil pessoas, entre 1975-80 e 1995-2000. Da mesma forma, a emigração RGA-Interior passou de 5,9 mil para 12,3 mil pessoas, o que resultou no saldo migratório, embora sempre favorável à RGA, diminuísse de 17,1 mil para 7,8 mil pessoas.
Com o avanço do processo de metropolização, a dinâmica migratória entre os municípios da RGA é também marcada pela perda de atração migratória de Aracaju e o aumento dos fluxos para Nossa Senhora do Socorro. Em 1975-80, dos 8,5 mil migrantes intra-regionais, 44% (3,7 mil) estavam em Aracaju e apenas 15% (1,3 mil pessoas) em Nossa Senhora do Socorro. No período seguinte, com um volume de migrantes quase 4 vezes maior, Nossa Senhora do Socorro surge como o principal destino intra-regional, onde foram enumerados mais 73% (23,6 mil pessoas), enquanto que em Aracaju apenas 7% (2,4 mil pessoas). Em 1995-2000, Nossa Senhora do Socorro mantém essa posição, sendo o destino de 63% (21,3 mil pessoas) dos migrantes originados na própria RGA (veja Tabela 4.9).
Os fluxos para Nossa Senhora do Socorro são originados principalmente de Aracaju, dada a emigração de 27,5 mil pessoas, em 1986-91, e de pouco mais de 26 mil pessoas, no período seguinte (Veja Figura 4.6).
É necessário ressaltar que o aumento da emigração para Nossa Senhora do Socorro e, com menor intensidade, para São Cristóvão não é motivada pelos mesmos fatores que movimentam os fluxos Interior-RGA. Ao invés da busca por inserção laboral, melhores salários ou condições de trabalho, o que direciona esses fluxos são atrativos como proximidade entre os centros urbanos, bons serviços de transporte, menor custo de acesso à moradia e, de forma geral, o baixo custo de vida nesses municípios comparativamente ao de Aracaju.
Como essa migração não implica necessariamente em mudança do local de trabalho, pode-se dizer que, pelos atrativos acima mencionados, esses fluxos sejam compostos de pessoas ocupadas em Aracaju, mas que fixaram residência nos municípios adjacentes à Capital. Esta talvez seja uma possível explicação para o fato de que os únicos municípios da RGA que lograram redução significativa da pobreza fossem justamente Nossa Senhora do Socorro e em São Cristóvão.
Imigrantes Emigrantes Saldo Imigrantes Emigrantes Saldo Imigrantes Emigrantes Saldo
Aracaju 3.737 3.288 449 2.392 27.577 -25.185 3.708 26.029 -22.321 B. dos Coqueiros 196 299 -103 1.034 115 919 1.316 385 931 Itaporanga dAjuda 466 947 -481 476 852 -376 731 353 378 Laranjeiras 171 765 -594 711 764 -53 606 1.074 -468 Maruim 500 754 -254 477 447 29 337 864 -527 N. S. do Socorro 1.301 417 884 23.617 563 23.054 21.341 1.635 19.706 Riachuelo 79 428 -349 101 381 -279 154 416 -262 S. A. das Brotas 279 531 -252 96 481 -385 201 628 -427 São Cristóvão 1.786 1.086 700 3.431 1.155 2.276 5.514 2.524 2.990 Total (1) 8.515 8.515 0 32.335 32.335 0 33.908 33.908 0
Fonte: Censo Demográfico, 1980, 1991 e 2000 (1) Exclui os migrantes com origem não definida
Tabela 7
Trocas migratórias entre municípios da RGA, 1975-80, 1986-91 e 1995-2000 Município
Figura 7: Região da Grande Aracaju
O exame comparativo entre as estruturas etárias dos migrantes inter e intra-regionais confirma os argumentos acima. A composição por idade e sexo dos migrantes originados do Interior, em 1975-80, apresenta uma forte participação das idades compreendidas entre 15 a 24 anos, com maior participação da população feminina. Em termos relativos, isto significa que mais de 25% dos migrantes Interior-RGA eram mulheres, entre 15 e 24 anos.
Já a estrutura etária dos migrantes intra-regionais, em 1975-80, sugere apenas que entre as mulheres, de 15 a 19 anos, exista também motivação laboral para migrar.
16,0 14,0 12,0 10,0 8,0 6,0 4,0 2,0 0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 5 a 9 10 a 14 15 a 19 20 a 24 25 a 29 30 a 34 35 a 39 40 a 44 45 a 49 50 a 54 55 a 59 60 a 64 65 a 69 70 a 74 75 a 79
80 w Migrante feminino RGA-RGA
Migrante masculino RGA-RGA Migrante feminino Interior-RGA Migrante masculino Interior-RGA
Gráfico 1: Composição por idade e sexo dos migrantes inter-regionais e intra-regionais, 1975-80
Em 1986-91, de acordo com a Figura 2, os fluxos originados do Interior continuam 8sendo caracterizados pela elevada participação dos jovens, com idade entre 15 e 24 anos, sobretudo mulheres de 15 a 19 anos. Note-se também o aumento relativo dos migrantes masculinos, com idade entre 20 e 24 anos. No que se refere à migração intra-regional, repare que os “alargamentos” e o equilíbrio entre os sexos em grupos etários específicos, acima dos 25 anos e nas idades iniciais, sugerem que esses fluxos sejam formados principalmente por famílias.
No período 1995-2000 a estrutura populacional dos migrantes mantém, em certa medida, a observada no qüinqüênio anterior. Os fluxos originados do Interior são caracteristicamente jovens, entre 15 e 24 anos e sempre com maior participação das mulheres. Da mesma forma, a migração intra-regional continua caracterizada pela participação de famílias, onde é possível notar o aumento da participação de grupos acima dos 34 anos. 16,0 14,0 12,0 10,0 8,0 6,0 4,0 2,0 0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 5 a 9 10 a 14 15 a 19 20 a 24 25 a 29 30 a 34 35 a 39 40 a 44 45 a 49 50 a 54 55 a 59 60 a 64 65 a 69 70 a 74 75 a 79
80 w Migrante feminino RGA-RGA Migrante masculino RGA-RGA Migrante feminino Interior-RGA Migrante masculino Interior-RGA
No que se refere à participação feminina, há que se fazer aqui uma breve referência quanto ao caráter diferencial por sexo na inserção desses migrantes ao mercado de trabalho. Essa população migrante, homens e mulheres originados do interior, é absorvida principalmente pelo setor de serviços e invariavelmente possui baixa escolaridade ou quase nenhuma habilidade técnica para atuar em um setor extremamente competitivo como é o de serviços. Pois bem, os homens, quando encontram alguma ocupação, o fazem em áreas como o setor de transportes, construção civil ou são impelidos para atividades informais. Já a inserção das mulheres é ainda mais precária, dado que sua primeira ocupação quase sempre é no exercício de atividades domésticas ou “trabalhos em casa de família”. A permanência por longo período em atividades dessa natureza, dadas as suas características intrínsecas, acaba reforçando uma espécie de círculo vicioso da imobilidade social e ocupacional por não exigir nem permitir que esse trabalhador desenvolva novas habilidades e, por conseguinte, aumente sua potencialidade de ascensão social.
Considerações finais
O presente artigo tratou de dois elementos centrais na dinâmica demografia e nas condições de vida em Sergipe: migração interna e pobreza. Explicita o caráter regionalmente diferenciado com que foram realizados investimentos em industrialização: direcionando atenção à RGA, enquanto que nos demais municípios do Interior as inversões estiveram limitadas a projetos de aproveitamento de recursos hídricos sem, contudo, conseguir diversificar sua restrita estrutura produtiva.
16,0 14,0 12,0 10,0 8,0 6,0 4,0 2,0 0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 5 a 9 10 a 14 15 a 19 20 a 24 25 a 29 30 a 34 35 a 39 40 a 44 45 a 49 50 a 54 55 a 59 60 a 64 65 a 69 70 a 74 75 a 79
80 w Migrante feminino RGA-RGA
Migrante masculino RGA-RGA Migrante feminino Interior-RGA Migrante masculino Interior-RGA
O resultado desse tratamento regional diferenciado refletiu no mercado de trabalho principalmente através do nível de rendimento. Tais características regionais do mercado de trabalho influenciam na dinâmica migratória e direcionam fluxos não apenas para a RGA como também para outras áreas do País. A motivação pelo mercado de trabalho explica o fato de o Interior possuir, comparativamente à RGA, menor participação na relativa entres as pessoas com idade entre 20 e 49 anos, sendo essa característica reforçada pela composição etária dos migrantes Interior-RGA, que se concentram basicamente nas idades entre 15 e 24 anos. Desta forma, a migração contribui, juntamente com a mudança estrutural decorrente da redução da fecundidade e aumento da esperança de vida, para aumentar a participação das pessoas eletivas de programas sociais e com acesso crescente aos benefícios previdenciários.
De fato, os avanços sociais decorrentes da Constituição Federal de 1988 e da Lei 8.213, de julho de 1991 – que garantiram, dentre outras coisas, a universalidade e equivalência dos benefícios de aposentadoria ao trabalhador rural que completar 60 anos, se homem, ou 55 anos, se mulher – foram ainda potencializados no Interior pela importância da população residente em áreas rurais, portanto com mão-de-obra essencialmente agrícola. Estes são os elementos sobre os quais são construídas explicações para a redução significativa da pobreza no Interior e de manutenção na RGA.
Vale dizer também que as análises aqui feitas reafirmam que a RGA, mesmo afetada pelo processo de desestruturação do mercado de trabalho, continua sendo a área onde são maiores as oportunidades de ascensão social. A maior dinamicidade dessa região gera, sem dúvida, um contexto mais favorável à mobilidade sócio-ocupacional, enquanto no Interior a obsolescência de sua estrutura produtiva, o esquecimento imposto pela carência de políticas públicas e a falta de incentivo ao desenvolvimento continuam sendo o principal motivo para migrar.
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