UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ – CAMPUS DE CAICÓ
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DO CERES
CURSO DE GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA – BACHARELADO
RUI PAULINO DE MEDEIROS SENA
O SÍTIO E A CIDADE: CAICÓ E SUA EXPANSÃO URBANA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX E INÍCIO DO SÉCULO XXI.
CAICÓ 2014
RUI PAULINO DE MEDEIROS SENA
O SÍTIO E A CIDADE: CAICÓ E SUA EXPANSÃO URBANA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX E INÍCIO DO SÉCULO XXI.
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em História, do Centro de Ensino Superior do Seridó, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito final para a obtenção do título de Bacharel em História, sob a orientação do Professor Ms. Joel Carlos de Souza Andrade.
CAICÓ 2014
Catalogação da Publicação na Fonte. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Biblioteca Setorial do Centro de Ensino Superior do Seridó, Campus de Caicó. Sena, Rui Paulino de Medeiros. O sítio e a cidade: Caicó e sua expansão urbana na segunda metade do século XX e início do século XXI/ Rui Paulino de Medeiros Sena. Caicó, RN: UFRN, 2014.
72f.
Monografia (Graduação em História – Bacharelado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ensino Superior do Seridó, Campus de Caicó. Área de Concentração: Cultura e Memória.
RUI PAULINO DE MEDEIROS SENA
O SÍTIO E A CIDADE: CAICÓ E SUA EXPANSÃO URBANA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX E INÍCIO DO SÉCULO XXI.
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em História, do Centro de Ensino Superior do Seridó, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito final para a obtenção do título de Bacharel em História, sob a orientação do Professor Ms. Joel Carlos de Souza Andrade.
Professor Ms. Joel Carlos de Souza Andrade. DH/CERES/UFRN (Orientador)
Professora Dra. Juciene Batista Félix Andrade DH/CERES/UFRN (Examinadora)
Professor Dr. Helder Alexandre Medeiros de Macedo DH/CERES/UFRN (Examinador)
“Derrubar ídolos - isso sim, já faz parte do meu Ofício”. (Friedrich Wilhelm Nietzsche)
AGRADECIMENTOS
Não falarei de nomes para agradecer esse trabalho de pesquisa, para não correr o risco da omissão de deixar um dileto colaborador, nessas “caminhadas”, pelas “veredas” sertanejas, rodovias potiguares, ruas e bairros caicoenses. Expor os nomes de alguns, e não falar de todos aqueles, que de alguma forma ou de outra, contribuíram para a conclusão desse trabalho de conclusão de curso, seria uma das formas de injustiça qualificada.
Vamos falar, primeiramente, do criador como um substantivo “abstrato”, pois, para cada religião de nosso Estado Democrático, Humanitário de Direito e Politeísta haverá uma denominação.
Segundo, da criatura, Dona Maria, por ter me dado o dom da vida e, a devida força para viver e conviver no meio em que vivemos, acompanhando-me sempre com um cafezinho providencial.
Terceiro, ao Amigo “Pitucho”, um substantivo “concreto”, pela fidelidade canina, nas caminhadas e observações, que me conduziu ao seu desenvolvimento desse trabalho.
Por último, aos colegas e doutores da erudição acadêmica, que com sapiência e sabedoria, souberam com muita paciência, dialogar a transmissão do conhecimento ontológico e epistemológico.
RESUMO
Em meio a um contexto de novos estudos e desafios sobre a história local do Seridó, enfrentados durante a construção dos conhecimentos em história regional e local, o presente trabalho visa discutir, a partir de uma análise teórico-metodológica, o campo e a cidade de caicó, passando pela zona rural de na região do Seridó, no Estado do Rio Grande do Norte, pelos bairros da cidade de caicó crescendo e invadindo a zona rural. Por conseguinte, os limites dessas duas culturas: campo e cidade. Além de analisar a riqueza temática da vida urbana sendo regulada pela legislação municipal indo de encontro a uma cultura que resiste ao longo dos anos.
RESUMEN
En un contexto de nuevos estudios y los desafíos en Seridó historia local que enfrentan durante la construcción del conocimiento en la historia regional y local, el presente trabajo tiene como objetivo analizar, a partir de un análisis teórico y metodológico, el campo y la ciudad de caicó, pasando por la zona rural en región seridó, en rio grande do norte, los barrios de caicó creciendo e invadiendo el campo. Por lo tanto, los límites de estas dos culturas: país y ciudad. Además de analizar la riqueza temática de la vida urbana que se rige por la ley municipal de ir en contra de una cultura que perdura a través de los años.
LISTA DE MAPAS
MAPA 01 - Localização Espacial Manuscrita do Sítio “Recanto”...25
MAPA 02 - Localização Espacial, Via Satélite, do Sítio “Recanto”...26
MAPA 03 – Localização Espacial, Via Satélite, do Bairro Paraíba...41
MAPA 04 – Localização Espacial, Via Satélite, do Bairro Penedo...54
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 01 - Lateral esquerda na Casa do Sítio “Recanto”...23
FIGURA 02 - Frente da Casa do Sítio “Recanto”...24
FIGURA 03 - Lateral esquerda na Casa do Sítio “Melado”...28
FIGURA 04 – Frente da Casa do Sítio “Melado”...28
FIGURA 05 – Frente Lateral da Casa no Sítio próximo a “Faz. São Bernardo”...29
FIGURA 06 – Lateral da Casa no Sítio “Belém”...30
FIGURA 07 – Rua Tonheca Dantas no Bairro Paraíba...43
FIGURA 08 – Porteira na Rua Janúncio Nóbrega...54
FIGURA 09 – Cabras, curral de pedras e cocheiras na Rua Janúncio Nóbrega (após a porteira-Sítio Penedo)...56
FIGURA 10 – Açude de “Nevinha” (Sítio Penedo)...56
FIGURA 11 – Entulho e lixo junto a Cerca da CAERN, bairro Penedo...57
FIGURA 12 – Jegue, Rua José Nilton, bairro Penedo...59
FIGURA 13 – Carro de tração animal na Rua Mundo Novo, bairro Paraíba...61
FIGURA 14 – Duas porteiras para embarque e desembarque de animais na Rua Edmilson R. de Paula (bairro Castelo Branco)...63
FIGURA 15 – Pote e Galinheiro na Rua Edmilson R. de Paula, Castelo Branco...65
FIGURA 16 – Guinés e Galos,Rua Vicente Rogério da Costa, Castelo Branco...65
FIGURA 17 – Porteira, cerca de pedra, cerca de pau e cerca de arame na Rua que da acesso ao Condomínio residencial “Mirante das Serras”...66
FIGURA 18 – Cachorros e patos na Rua Vicente Rogério da Costa, bairro Castelo Branco...68
LISTA DE GRÁFICOS
GRÁFICO 01 – Relação entre Anos e Bairros de Caicó...48 GRÁFICO 02 – Relação entre Leis e Bairros de Caicó...49 GRÁFICO 03 – Relação entre o Tempo e a População de Caicó...50
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO...13
2. CAPÍTULO 1 – A CULTURA DO HOMEM DO CAMPO NA REGIÃO DO SERIDÓ...15
2.1. O Conceito de Cultura...15
2.2. A Casa de Tijolos e Pedra...17
2.3. A Casa de Tijolo e Pedra no Sítio “Recanto”...19
3. CAPÍTULO 2 – A CULTURA DO HOMEM NA CIDADE DE CAICÓ...32
3.1. Abordagem Científica...32
3.2. O Aforamento como Moradia...33
3.3. Os Registros dos Bairros de Caicó...39
4. CAPÍTULO 3 – O AVOAR NO MATO...51
4.1. História Urbana versos a História Rural...51
4.2. O Bairro Penedo...53
4.3. O Bairro Paraíba...59
4.4. O Bairro Castelo Branco...62
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...73
6. GLOSÁRIO...75
1. INTRODUÇÃO
O presente trabalho objetiva analisa a cultura do campo, sua moradia e comportamentos, indo residir na cidade, nos bairros periféricos. Logo em seguida a expansão da cidade e a regulamentação das normas de comportamentos. Apresenta a resistência da cultura do sertanejo, principalmente seu modo de vida no campo: criar animais domésticos, carros de tração animal, jogar os objetos julgados inservíveis nas frentes das casas ou em terreno baldios. Deseja-se traçar um perfil cultural do matuto que vem para cidade e não consegue deixar totalmente a sua antiga tradição em seus comportamentos interpessoais com outras pessoas e a sua própria maneira de viver na rua, traz assim, lembranças típicas do homem do campo.
Ele surge das caminhadas realizadas nos sítios e pela cidade de Caicó, muitas das vezes acompanhado do cachorro “Pitucho” e observando a maneira de ser e viver no sítio e na cidade. Infere-se desse olhar traços marcantes da sociedade do couro, já que a colonização do Seridó veio pelo gado. Esses animais estarão presentes ora nos bairros de outrora que eram limites da cidade, com a expansão desse espaço urbano vão adentrar pelo mundo rural.
Por conseguinte, uma discussão das situações práticas do cotidiano das ruas de Caicó registrados em fotografias dialogando com o Código de Postura do Município e demais leis. Utilizamos o conceito da História polissêmica com seus vários significados e usados várias vozes da História, como o da Filosofia que se baseia nas “fontes” tidas como “verdades”, mas já como ensinara o historiador Joel Carlos de Souza Andrade que a verdade é relativa, corroboramos também com Michael Foucault, nesse prisma, uma verdade dita a “posteriori”1
.
Por outro lado, a História como uma Arte, como defende o historiador Lourival Andrade Junior, uma espécie de construção e representação. Contudo, ainda percorremos os caminhos do historiador Almir de Carvalho Bueno que no seu entendimento, sugere a História como uma ciência próxima das ciências sociais com toda a sua universalidade, objeto, princípios e métodos2.
Assim, o estudo se encontra divido em três capítulos: o primeiro, intitulado A
Cultura do Homem do Campo na Região do Seridó tratará da cultura do homem do
1 Diálogos reproduzidos em salas de aulas no SERES-UFRN-Campus de Caicó. 2 Idem.
campo, na Região do Seridó, das arquiteturas das casas nos sítios, que apesar do tempo, ainda permanecem com poucas adaptações. O copiar, ainda hoje como alpendre ou varanda como um lugar de sociabilização das famílias do Seridó.
No segundo, nomeado A Cultura do Homem na Cidade de Caicó, traçamos as condições de vinda do campo para cidade. A morada urbana pelo aforamento de um terreno como permissão pública, desde que fosse construída sob a pena de voltar para Prefeitura. Depois, o surgimento dos bairros invadindo a zona rural e a sua oficialização por lei só surgindo na contemporaneidade.
O terceiro e último capítulo, O avoar no mato, que traz a dualidade e dicotomia das duas culturas, campo e cidade, com os limites legais de comportamento imposto pelo Poder Público, por meio do Código de Postura do Município de Caicó.
Nesse contexto, vamos falar além do espaço geográfico nos sítios e dos bairros na cidade de Caicó. Iremos também abordar a criação de animais domésticos na cidade como se na cidade fosse uma extensão do sítio. Caracteriza-se, dessa maneira não mais um espaço geográfico com limites definidos, mas espiritual do caicoense que fica chateado em seguir as regras municipais como cidadãos de uma confraria de privilegiados.
2. CAPÍTULO 1
-
A CULTURA DO HOMEM DO CAMPO NA REGIÃO DO SERIDÓ.2.1. O Conceito de Cultura
A História Cultural demonstra nos últimos anos um campo vasto e debatido pelos historiadores, não podendo traçar uma fronteira segura e clara entre a História das Ideias, História da Arte e Histórias das Ciências. Seguiremos, por conseguinte, a definição de cultura com acepção que antropologia simbólica oferece a noção citada por Roger Chartier na sua obra: A história ou a leitura do tempo, in verbis:
O conceito de cultura que eu defendo [...] denota um padrão de significado transmitido historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas, por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida.3
Assim passaremos a analisar os cômodos da casa do Sítio “Recanto” como um espaço de morada, local de trabalho, social, armazenamento de víveres para sustento de subsistência com silos armazenando feijão e milho. Havia também instrumentos de trabalho usados na agricultura e pecuária: enxadas, foices, facão, roçadeiras, alavanca, tirador de terras, chibanque, matraca, lamparinas, cangalha, cambites, barris, caçamba, carroça, caçuá, barril, uru, ferros de marcar, ferro de brasas, marretas, esticadores, machados, limas e grosas.
Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, Sinhá Vitória faz uma reflexão de sua mobília, sonha com uma cama de lastro de couro, como era pouca sua casa, mas tudo ao seu redor era estável e seguro, produtos feitos da própria rudeza do homem do campo, carregava na certeza do seu ser, quase a felicidade e a benção do seu Deus:
Não possuíam nada: se retirassem a roupa, a espingarda, o baú de folha e troço miúdos. Mas iam vivendo, na graça de Deus, o patrão confiava neles – e eram quase felizes. Só faltava uma cama. Era o que esperava sinhá Vitória.4
3 CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. Tradução de Cristina Antunes. 2. ed. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2010. p. 35.
4
O autor, quando criança, em suas férias escolares que eram passadas pelo Sítio “Recanto”, com ascendente patriarcal, realizava caminhadas nas veredas da caatinga, observando a Serra da Formiga e São Bernardo, olhar as cacimbas que serviam para manutenção da casa e alimentar os animais. Nessa trilha, pelas observações sistemáticas realizadas no campo será também feita na cidade, buscando um pouco de conhecimento nas caminhadas da vida. Registrá-lo na linha de pensamento de Allan G. Johnson em seu guia prático sobre linguagem sociológica:
Como método, a ciência repousa na ideia de que o conhecimento confiável do mundo deve basear-se em observação sistemática objetiva, de fatos que levarão qualquer um que os estudar a chegar às mesmas conclusões.5
Como os dramas íntimos dos personagens em obras literárias parecem universais, em que o romancista, José Lins do Rego, em Menino de Engenho, retrata de forma metafórica essas lembranças, tenta interpretar uma realidade coletiva:
O velho José Paulino gostava de percorrer a sua propriedade, de andá-la canto por canto, entrar peandá-las suas matas, olhar suas nascentes, saber das precisões de seu povo, dar os seus gritos de chefe, ouvir queixas e implantar a ordem. Andavam muito nessas suas visitas de patriarca.6 Na mesma linha, para distinguir a mobília do campo e da cidade, Muirakytan Macêdo vai falar da mobília da fazenda como se tivesse pronta para o “êxodo”, diante da diversidade da seca, os bens de raízes não teria como ser levado. Então, toda a mobília teria de ser capaz de caber no baú e transportado por animais de carga:
Nada de guarda-roupas e armários com vários compartimentos e gavetas, por todo o século XIX, o mais comum era o acondicionamento de peças do vestuário, papéis, jóias etc. em caixas, malas baús e canastras.7
5 JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia: guia prático da linguagem sociológica. Tradução, Ruy
Jungman; consultoria, Renato Lessa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. p. 34.
6
REGO, José Lins do. Menino de engenho: romance. 21. ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1976. p. 36.
7 MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. Rústicos cabedais: patrimônio e cotidiano familiar nos sertões do
Seridó (Sec. XVIII). Defesa em 12 de junho de 2007. 286f. Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2007. p.173.
2.2. A Casa de Tijolos e Pedra
O conceito de casa de tijolo e pedra no Sertão do Seridó que iremos abordar será extraído do objeto de estudo da tese do historiador Muirakytan Kennedy de Macêdo em
Rústico Cabedais: patrimônio e cotidiano familiar nos sertões do Seridó (Séc. XVIII),
no seu quarto capítulo que trata das casas de vivenda e cultura material para recuperar o passado e seguir uma visão tradicional por meio da cultura material, então vejamos:
Naquela composição, as moradias eram enfatizadas, se nelas existissem componentes que pudessem agregar valor à casa. Modestas instalações que representavam por si o ambiente de instabilidade e pobreza do povoamento colonial, visto que a maioria das casas era de taipa.8
Nesse contexto, a casa de tijolo, pedra e cal vai significar o enraizamento do homem do campo as suas terras, pois a de taipa caracterizava um imóvel de ocupação efêmera que só se justificava no sítio que houvesse água para sustento seu e de seus familiares, como também para a criação do gado, cavalos, éguas, jumentos, burros, ovelhas, cabras e galinhas. Com a estiagem e a falta d‟água no sítio ela era destruída e os seus pertences colocados em baús postos um de cada lado dos jumentos e seguia a tropa junto com a família para outro sítio onde existisse água suficiente para sobrevivência dos seus. Segue-se a herança de Franz Boas que Gilberto Freyre aplicou na sua Obra: Casa-Grande e Senzala que acumulou seu próprio saber teórico para descrever o saber sociocultural de seu povo, ipsis litteris:
Entretanto, o descaso de Gilberto pelos aspectos propriamente teóricos do seu trabalho, e a superatenção que dedica aos aspectos etnográficos da descrição compreensiva – ajudado por todas as contribuições científicas que possam lançar alguma luz para compreendê-la – tudo isso está muito vinculado ao tipo de formação acadêmica que GF teve. Com efeito, creio que o descaso teórico de Gilberto não é, portanto, uma singularidade de caráter. É uma consequência de sua formação boasista.9
O sociólogo Gilberto Freyre com seu pensamento regionalista da nossa história e também com seu Manifesto Regionalista fruto de um congresso que aconteceu em
8
Idem, p. 149.
9
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Ilustração Cícero Dias e Antônio Montenegro. 46. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 22.
Recife, em 1926, vai influenciar as novas gerações de historiadores e romancistas do porvir para escreve a sua história regional ou local, como relata Luciano Trigo em
Engenho e Memória:
Não somente a vida e a obra de José Lins Rego foram influenciadas pelo sociólogo. Num certo sentido, o próprio romance moderno do Nordeste teve como motor imediato o pensamento de Gilberto Freire e o Manifesto Regionalista que saiu do Congresso de Recife de 1926 (embora só publicado em 1952), pontos de partida da nova geração de ficcionistas nordestinos.10
Corroborando com a narrativa antropológica frente à abordagem quantitativa da história em geral entre as ações de desquites, formais de partilhas e inventários analisados por estatísticas. Resta-se saber se esses indicadores são seguros, por isso a virada antropológica na Escola dos Annales, nas palavras de Peter Burke:
A viragem antropológica pode ser descrita, com mais exatidão, como uma mudança em direção à antropologia cultural ou “simbólica”. Afinal de contas, Bloch e Febvre leram o seu Lévy-Bruhl e usaram essas leituras em suas obras sobre mentalidade medieval e seiscentista. Braudel era familiarizado com obras de Marcel Mauss, que fundamenta sua discussão sobre fronteiras e intercâmbio culturais.11 Com o objetivo de demonstrar que a aquisição da propriedade poderia ser tanto por casamentos, dotes ou doação. Vamos demonstrar numa Ação de Desquite que está na Caixa 153, LABORDOC, que tem como autora Cezerina Maria de Oliveira e como réu Zumiro Pedro de Oliveiro, ambos residentes no Sítio “Sobrado”, Município de Jardim de Piranhas com fundamentação de fato que seu marido além de abandonar o lar da sua esposa ainda foi conviver com uma “teúda e mantéuda”, nos termos da transcrição:
Provará que o reo não satisfeito só com o abandono do lar conjugal, amancebou-se com uma mulher chamada Simplícia, com quem vive, desde do anno de mil novecentos e trinta e seis, residindo ambos no mesmo Sítio Sobrado, e de cujo ajuntamento já existem duas filhas, tendo essa dito mulher teúda e manteúda como fosse a sua legítima consorte.12
10
TRIGO, Luciano. Engenho e Memória: O Nordeste do açúcar na ficção de José Lins do Rego. Rio de Janeiro: TOPBOOKS, 2002. p. 57.
11 BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1938): a revolução francesa da historiografia. Tradução
Nilo Odalia. 2. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2010. p. 106.
12
Caixa 153. Ação de Desquite (1938): Cezerina Maria de Oliveira e como réu Zumiro Pedro de Oliveiro. Custodiada no Laboratório de Documentação Histórica (CERES, Campus de Caicó, UFRN). Fundo da Comarca de Caicó, 1º Cartório Judiciário.
2.3. A Casa de Tijolo e Pedra no Sítio “Recanto”
A Casa de tijolo grande de barro cozido na própria vazante do açude e telhas feitas nas coxas, caibo e ripas colhidos na caatinga, cumeeira de troncos de coqueiros ou de carnaúbas, paredes largas para resistir impactos de projéteis de armas de fogo, alpendrada, antiga sede da propriedade, com três quartos, duas salas, cozinha, sótão, banheiro e fogão à lenha. Em volta com cercas de pedras, arame e madeiras, que faremos análises iconográficas fica encravada no Sítio “Recanto” pertenceu a Joaquim Eliziário de Araújo, localizada no lado esquerdo do Riacho da Dominga, no Município de Caicó, com limites ao norte com as terras de José de Sena de Araújo; ao Sul com as terras de Severino Batista Dantas, ao Leste com as terras do espólio de Antônio Alves da Costa Pretinho e ao Oeste com as terras de Jeová Antônio Vilar.
Por sua vez, pelo viés da historiografia regional e local aplicaremos os conceitos do patrimônio familiar realizado pelo historiador Muirakytan Macêdo em Rústicos
Cabedais, capítulo III, que fala das casas de morada, para reconhecer o modus vivendi
no campo e na cidade pela forma como foram construídas as casas de tijolo e pedra, alpendre ou “cupiá”, quarto de descaroçar algodão, armazém, muro e banheiro.
O “cupiá” como um dos lugares de sociabilidade da população local, isto é, importante espaço na casa para falar, em pé ou sentado a depender da hierarquia social, sobre a família, política, o tempo, gado e o inverno:
À frente da vivenda, voltada sempre para o poente, montava-se uma espécie de varanda que ficava ao nível do solo. Era o copiar ou cupiá. Dona Adriana de Holanda e Vasconcelos teve seu inventário a referência a „um copiar que de novo se erigiu‟ em casa de sua fazenda no Tororó de Cima, Currais /novos. A despeito de ser a parte mais „pública‟ da casa, o copiar é um lugar de homens recebendo outros homens, conversando, fechando acordos de trabalho, proseando-se em pé ou sentado, dependendo da complexidade do assunto e da disponibilidade do tempo.13
Corroborando com a terminologia do alpendre como “copiar”, temos Oswaldo Lamartine falando de uma propriedade e descrevendo uma casa de fazenda em sua obra
Sertões do Seridó: “As antigas casas de fazenda tinham, de costume, o corredor que
ligava o copiar ao interior da casa, forrado em sótão, onde se fazia construir o depósito
de farinha.”14Outro autor que trabalha com a terminologia copiar para denominar como espaço de sociabilidade, para desparecer da lida diária do homem do campo é Graciliano Ramos, em Vidas Secas, que apesar de ser uma obra literária, mas o sofrimento da personagem, Sinhá Vitória, com a falta de recursos para sobreviver nas adversidades do clima e do tempo hostil do sertão é universal:
Agora pensava nela de mau humor. Julgava-a intangível e misturava-a às obrigações de casa. Foi à sala, passou por baixo do punho da rede onde Fabiano roncava, tirou do caritó o cachimbo e uma pele de fumo, saiu para o copiar.15
O pesquisador, no tempo de criança ouvia “estória” no alpendre sobre uma onça que desceu a Serra de São Bernardo esturrando atrás de um trabalhado da tropa de jumentos que trabalhava na construção do açude Mundo Novo. Quando chegou ao rancho e dera a notícia aos demais, foi aquele alvoroço. Todos de pé, em busca de lenha para acender três fogueiras, em torno do acampamento, para que a fera fosse afugentada do local. Outros pegaram facão ou foices e ficaram o resto da noite velando as fogueiras.
No que tange a construção de açudes, Pery Lamartine fala da perda de um por ter sido usado barro branco no material da parede que, não resistindo às chuvas por ser muito plástico foi embora. Já a parede do Mundo Novo, apesar de ser estreita, ainda existe para quem quiser contemplar o boqueirão da Serra de São Bernardo, lançar um olhar sobre o horizonte, contemplado pela sombra de árvore, denominada de “juá”:
Mestre Alexandre, embora conhecendo bem o seu ofício, descuidou-se da qualidade do material usado na parede; aplicou barro branco muito plástico que amolece com a continuidade das chuvas perdendo a sua capacidade de contenção. Na primeira chuva grande que deu o açude foi embora; na seca seguinte foi reconstruído mantendo se firme até o inverno de 1924.16
Esses pequenos açudes feitos nos sítios do Seridó, por mestres, conhecedores empíricos na sua profissão, eram construídos com mão de obra, quase toda de familiares, compadres ou vizinhos, mas havia construção de grandes açudes que o
14 FARIA, Oswaldo Lamartine de. Sertões do Seridó. Brasília, DF: Centro Gráfico do Senado Federal,
1980. p.83.
15
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 58. ed. São Paulo: Recorde, 1986. p. 41.
governo alistava pessoas, que eram chamados de “cassacos” não só do Rio Grande do Norte como também de outros Estados:
Nessa altura dos acontecimentos o governo iniciou o alistamento dos trabalhadores (cassacos) para serviços de estradas e a construção do açude Itans em Caicó. Alguns dos nossos homens foram alistados porém só conseguiram trabalhar até quando foram identificados como moradores do sítio das Cacimbas de propriedade de Juvenal Lamartine de Faria, o político exilado pela Revolução. Era o revanchismo atingindo as pessoas mais simples que não tinha nada a ver com política.17
Nesse contexto, Oswaldo Lamartine fala do alpendre como local de sociabilidade do sertanejo: “Os caçadores, notadamente os de onça, ficaram na lembrança do povo e suas façanhas continuam a ser o tema vocativo das palestras sertanejas sobre os alpendres das fazendas.”18
Essa cultura de prosear no alpendre dos sítios é universal tanto no campo como nas pequenas cidades do interior. Em Caicó, não foi diferente, as pessoas ainda vão para calçadas falar sobre os “fuxicos” e “mexericos” falar das relações interpessoais, o que Chico César já cantava os contraditórios dessas culturas (campo/cidade), também em poesia em forma de música:
Ah! Caicó arcaico[...] Tudo é descrença e fé Ah! Caicó arcaico[...] Tudo rejeita e quer É com, é sem Milhão e vintém
Todo mundo e ninguém[...]19
Dos contrários de Chico César em sua música, extrai-se o contraditório do povo de Caicó, o conflito, a microfísica do poder no cotidiano banal, poderíamos citar as antíteses em cima dessa melodia para se extrair uma síntese da cultura local, vejamos o que diz Pierre Bourdier sobre os opostos:
...necessidade objetiva e subjetiva de sua inserção em um sistema de oposições homólogas, alto/baixo, em cima/ embaixo, na frente/ atrás,
17 Idem, p. 36. 18
FARIA, ibidem, p.184.
19 CESAR, Chico. A prosa impúrpura do Caicó. letras.mus.br. Disponível em:
direita/esquerda, reto/curvo (e falso), seco/úmido, duro/mole, temperado/insosso, claro/ escuro, fora(público)/dentro(privado) etc.20 Ainda haverá uma analise na distinção da mobília nas casas da cidade com as casas das fazendas, como relata Câmara Cascudo ao falar das casas das fazendas de gado: “Na sala da frente uma mesa, cabides de arreios, tamboretes, outro banco, uma cadeira de couro, macia para gente de fora, cerimoniosa e protocolar”21. O sótão22 além de servir para guardar farinha também era usado para guardar outros gêneros como a rapadura.
Em nota de rodapé do livro Sertões do Seridó de Oswaldo Lamartine, ele convoca Luís Câmara Cascudo para esclarecer que o alpendre que dava para sala da frente, aqui no Rio Grande do Norte se chamava cupiá como ainda em certas localidades do Ceará. Já em Pernambuco era denominada de varanda para se denominar por palavras diferentes o mesmo significado:
Para a latada abria-se uma porta e esta dava para a sala da frente, que aqui no Rio Grande do Norte chamamos „cupiá‟ e também numa certa região cearense. Para os pernambucanos é a varanda, isto deu razão a uma conversa pelos jornais com o querido e saudoso José Mariano Filho. Não atinávamos, os dois, que o mesmo nome possa indicar coisas diversas.23
O “cupiá” também era um local para abrigar viajantes ou visitas de parentes na época das férias, logo após a janta ou da ceia armava-se uma rede para contemplar o céu estrelado e acendia uma fogueira como proteção do frio e dos animais que poderiam se aproximar aos arredores da casa. Pery Lamartine retrata que os viajantes já andavam com suas redes prontas que podiam ser armadas até mesmo em árvores que lhes dessem uma boa sombra:
Os „tangerinos‟ disputavam com as rêses[sic.] alguma sombra onde armavam as redes de dormir e acendiam fogueiras para preparar algum alimento. Era mais uma etapa na vida daqueles homens rudes
20 BOURDIER, Pierre. A dominação masculina. tradução Maria Helena Kuhner. 11. ed. Rio de Janeiro:
Betrand Brasil, 2012, p. 16.
21
CASCUDO, 1956, P.07.
22 “Sótão: é o pavimento situado abaixo da cobertura de um edifício e caracterizado pelo pé direito
reduzido, normalmente utilizado para depósito, não considerado para efeito de cômodo de permanência prolongada.” Apud (Caicó). LEI Nº 4.722. Código de Obras do Município de Caicó. Em 26 de setembro de 2014.
que nos últimos 90 dias só haviam convivido com a poeira dos caminhos e a manada que tangiam.24
Figura nº 01 – Lateral esquerda na Casa do Sítio “Recanto”
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, fevereiro de 2014. Fonte: Arquivo do Autor
Essa imagem lateral da casa grande do sítio “Recanto” foi muito bem representada na figura da casa grande de duas águas, da Fazenda Ingá, município de Acari, Rio Grande do Norte, geralmente construídas em locais altos para resfriar com os ventos do semiárido e proteção contra ao cangaço, como afirma Oswaldo Lamartine, na sua obra Sertões do Seridó:
Casas grandes de duas águas – sempre „atrepadas‟ nos altos na defesa de todo dia contra o calor e o cangaço. Alpendres acolhedores, copiadores das conversas sertanejas. Patriarcado nascido e estrumado com a força dos currais e escorado depois com o dinheiro do algodão – centro dos pequenos mundos para as famílias dos moradores e vaqueiros – onde o destino do homem tinha o limite geográfico dos proprietários:25
A visão externa da casa segue à prática conservatória da segunda metade do século XIX para o século XX, que em todo ou em parte, apoia-se em técnicas de construção novas de imóveis para habitação histórica, obras de artes e os museus. Assim, no século XX, os prédios sempre ameaçados pela demolição do progresso e da industrialização ou pela sua má conservação surgem o “complexo de Noé”, que se resume em casas velhas que não podem ser reformadas, mantendo a sua arquitetura original para abrigar o conjunto de prédio que foram construídos nessa época.
24
LAMARTINE, ibidem, p.64-65.
Nesse contexto, a cultura se diversifica em culturas minoritárias, cultura popular, cultura do pobre, cultura do corriqueiro. Um pensador da conservação e não restauração patrimonial seria J. Ruskins, pensador inglês, do século XIX, será radical na antirestauração, ora valoriza a Pátina e vetustez nas ruínas, ora vai defender a conservação da saúde dos monumentos em face da poluição atmosférica, química e biológica.
Segundo François Choay em sua obra, A Alegoria do Patrimônio, que cita Ruskin, o imóvel tem também uma finalidade de lembrar o passado como testemunho da cultura material:
Ruskin atribui à memória uma destinação e valor novos do monumento histórico. “Nós podemos viver sem [a arquitetrura], adorar nosso Deus sem ela, mas sem ela não podemos nos lembrar.” Essa afirmação do famoso capítulo VI (“The Lamp of Memory”), da obra The Seven Lamps of architecture, continua a atribuir a arquitetura uma função e um sentido que estão em contradição com as idéias de Hegel e de Victor Hugo de “Isto matará aquilo”.26
Assim a casa do sítio “Recanto” foi construída de frente para o nascente (leste), com as paredes com estruturas de alvenarias, duas águas, alpendre, com telhas feito nas coxas, linhas de carnaúbas, caibros retirados de plantas nativas da caatinga, fachada com portas e janelas. Havia jiraus e pedaços de paus enfiados nas paredes para pendurar coisas e armar redes, pintada de branco.
Figura nº 02 – Frente da Casa do Sítio “Recanto”
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, fevereiro de 2014. Fonte: Arquivo do Autor
26
CHOAY, François. A alegoria do patrimônio. Tradução de Luciano Vieira Machado. 3. ed. São Paulo: Estação Liberdade: UNESP, 2006, p.139.
Na figura nº 002, nota-se uma altura do “cupiar”/”copiar”/‟Cupiá” a cerca de 50 cm do chão. Isso ocorre pelo fato do transporte ser predominante à cavalo que para facilitar a montaria no cavalo se justifica o desnivelamento do piso do alpendre ao chão. Outro fato seria para evitar a entrada de animais pequenos como os sapos à noite, como também diminuir a entrada de poeira na moradia. Existia um tanque na entrada da casa, alpendre, para colocar água a ser utilizada para uso doméstico e servir para os animais beberem. Outro tanque estava no banheiro que era utilizado como reserva de água, que se utilizava de uma cabaça aberta ao meio para tirar a água e tomar banho de “cuia”. As paredes eram de tijolos duplos, grossas, pois servia também como fortalezas contras ataques de bandidos do cangaço, conforme diz Denise Mattos Monteiro:
Nos anos de 1920, no Rio Grande do Norte, a repressão ao cangaço tornou-se uma grande preocupação do governo estadual, quando soldados foram enviados para as divisas do estado com a Paraíba e Ceará. Isso não impediu que, em 1927, o mais famoso bando de cangaço, aquele chefiado por Lampião, percorresse o Rio Grande do Norte, atacando cidades, vilas e povoações na região oeste do estado, dirigindo-se depois para o Ceará.27
A casa em comento visualizada nas fontes icnográficas acima fica localizada em frente ao boqueirão entre a Serra da Formiga e da Serra de São Bernardo, à 18 Km de Caicó, conforme o mapa abaixo:
Mapa nº 01 – Localização Espacial Manuscrita do Sítio “Recanto”
Legenda: Limites Municipais Fonte: Matriz de Sant‟Ana do Seridó
27
MONTEIRO, Denise Mattos. Introdução à história do Rio Grande do Norte. 3. ed. Ver. e ampl. Natal, RN: EUFRN, Editora da UFRN, 2007. p. 129.
Para acesso à referida casa partindo de Caicó, segue no sentido Zona Norte, passando pela ponte do Rio Seridó, Boa Passagem, saída para Jucurutu, logo após a entrada da EMPARN, entra à direita numa estrada de barro, vislumbrando a paisagem da Serra de São Bernardo, atravessando o Sítio Alegre e o São Nicolau.
Mapa nº 02 – Localização Espacial Via Satélite do Sítio “Recanto”
Legenda: Limites do Sítio
Fonte: Imagens@2014/Astrium, Cnes/Sport Imagem, Digital Globo, dados do Mapa@2014 Google28
O Município de Caicó passou a existir com a denominação Vila Nova do Príncipe em 1788, sendo elevada a condição de cidade em 1868 com o mesmo nome. Em 1890, começa a se chamar Seridó e no mesmo ano recebe a denominação de Caicó, segundo os ensinamentos de Tavares de Lyra:
Criado em 31 de julho de 1788, com denominação de Vila do Príncipe. A vila foi elevada à categoria de cidade pela Lei Provincial n. 612, de 15 de dezembro de 1868, conservando o mesmo nome. Esse nome foi, porém, mudado para Caicó como ainda se chama, pelo de n. 33, de 7 de julho do mesmo ano.29
Além desta casa, considerada bens de raiz, vamos buscar outros bens que constam nos processos de divórcios, nos formais de partilhas e nos inventários. Desta maneira, pesquisando na caixa 15330, encontra-se um processo de 10 de setembro de
28
Google Maps.< https://www.google.com.br/maps/place/Caic%C3%B3+-+RN/@-6.363041,-37.0113666,716m/data=!3m1!1e3!4m2!3m1!1s0x7afed967d8e39a1:0xa3ea45eaea46de3b?hl=pt-BR> . Acessado em 12 de set. de 2014.
29
LYRA, A. Tavares de. História do Rio Grande do Norte. 3. ed. Natal: EDUFRN, 2008. p. 368.
30 CAIXA 153. Ações de Desquites e Averbações do Fundo da Comarca de Caicó, 1º Cartório Judiciário
custodiadas no Laboratório de Documentação Histórica (LABORDOC), do Centro de Ensino Superior (CERES), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Casa do Sítio Recanto
1932, na Comarca de Caicó, em que os esposados: Daniel Evaristo de Medeiros e Maria Milza de Araújo propõe em juízo um Desquite Amigável, com uma ação sem número definido. Esse casal reside no Sítio Barra do Sabugi, o que nos dá uma dimensão espacial da Comarca em 1932, abranger uma competência de jurisdição bem maior do que em 2013. Na descrição desses bens arrolados como móveis, roupas, vacum, cavalar,
cabrum, ovelhum e escravos.
A questão que vem a baila será sobre a zona rural e a cidade de Caicó porque a temática nos leva a fazer esse recorte espacial dentro da própria fonte, haja vista que o espaço administrativo da Comarca de Caicó correspondia a uma competência judicial que abrangia Vila do Príncipe e Acari como consta na Lei Provincial n° 365, de 19 de julho de 185631. No mesmo sentido Tavares de Lyra acrescenta a competência da Comarca de Caicó aos Termos da cidade de Serra Negra:
Comarca de Caicó: Criada pela Provincial n.365, de 19 de julho de 1858. Mantida até hoje. O nome primitivo da Comarca do Seridó. Compreende atualmente os termos judiciários da sede e de Serra Negra.32
Nos embates do poder pelos bens materiais nos desquites dos casais se passaram entre 1928 a 1956, mas não serão obstáculos para que esse recorte temporal seja ampliado ou reduzido de acordo com confronto de outras fontes, como inventários
post-mortem. O desejo do autor é traçar um perfil cultural do matuto que vem para cidade e
não consegue deixar totalmente a sua antiga tradição em seus comportamentos interpessoais com outras pessoas e a sua própria maneira de viver na rua, traz assim, lembranças típicas do homem do campo. A sociedade sertaneja em comento é predominantemente branca, católica e patriarcal, sendo dominada por uma estrutura social hierárquica secular, desenvolveu as suas primeiras, nos permite conhecer comportamentos, rituais e estratégias de sobrevivência dos habitantes do Sertão Seridoense do nosso país.
No campo, o transporte era feito no lombo do jumento ou da carroça que transitava nas estradas carroçáveis para escolas, postos de saúdes, serviços disponíveis em localidades próximas ou para as cidades. Nas palavras de Pedro Lima, esse padrão
31
GOSSON, Eduardo Antônio. Sociedade e Justiça: história do poder judiciário do Rio Grande do Norte. Natal: Governo do Estado, Departamento Estadual de Imprensa, DEI, 1998. p. 141.
de arquitetura, com algumas diferenças, se espalhou por todo Seridó, nas quais algumas ainda são preservadas ainda hoje: “As casas-grande de fazendas de gado estavam, geralmente, orientadas para o nascente. Elas eram construídas sobre plataformas, nos terrenos mais altos da propriedade, e nas proximidades das fontes de água.33
Nessa linha, em uma viagem para São José do Seridó, Estado do Rio Grande do Norte, Seridó Ocidental, partindo de Caicó, pela BR 228, aproximadamente 1 (um) Km da saída da cidade, constata-se uma casa-grande, do lado direito da rodovia, de frente para o nascente, bem próximo ao Rio que abastecer o Poço da Bonita, como ilustra a foto a seguir:
Figura nº 03 – Lateral esquerda na Casa do Sítio “Melado”
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, maio de 2014. Fonte: Arquivo do Autor
A casa supracitada fica está localizada na Zona Rural de São José do Seridó, aproximadamente 1Km, com denominação de Sítio “Melado”, com alpendre, duas salas, três quartos, cozinha e um banheiro.
33
LIMA, Pedro de. Arquitetura do rio Grande do Norte: uma introdução. Natal, RN, Cooperativa Cultural Universitária, 2002, p.53.
Figura nº 04 – Frente da Casa no Sítio “Melado”
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, maio de 2014. Fonte: Arquivo do Autor
Essas diferenças não eram muito grandes, com exceções dos mais aquinhoados, predominavam na região a pequena e média propriedade com labuta de subsistência, com exploração da agricultura e da criação de gado, com fortes laços de parentesco entre os proprietários e moradores. No inverno, arranhava-se a terra para o plantio, a
posteriori colheitas de inverno, com suas festas religiosas e profanas que a Igreja
organizava para arrecadar seus dízimos e os vaqueiros conhecerem suas prendas visando os futuros enlaces matrimoniais que fariam ter laços afetivos com essa localidade. Na viagem realizada entre São José do Seridó e Caicó, BR- 288, foi visualizada uma casa de sítio, do lado direito, de quem vem pra Caicó, com um telhado com duas quedas d‟água, sótão e “cupiá”:
Figura nº 05 – Lateral da Casa no Sítio próximo a “Faz. São Bernardo”
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, setembro de 2014. Fonte: Arquivo do Autor
Outra casa, com a mesma estrutura de arquitetura corrobora com afirmação de Oswaldo Lamartine que as casa do sítio continuam as mesmas. Fazemos algumas
ressalvas, visto que tanto a da imagem supracitada como a do sítio “Melado” o sótão não existe mais, no lugar da janela, foi construído uma parede desativando o local, quem se guardava queijo e farinha, até mesmo armas.
Antes de se chegar à Fazenda São Bernardo, vindo pra Caicó, pela mesma BR, do lado esquerdo da estrada está uma casa do sítio Belém, com a mesma estrutura das outras: duas quedas d‟água, frente para o poente, “cupiá”, com sótão, que deveria existir uma janela na planta original, mas que agora apenas existe uma parede:
Figura nº 06 – Lateral da Casa no Sítio “Belém”
Foto: Rui Paulino de Medeiros Sena, maio de 2014. Fonte: Arquivo do Autor
Todas elas, observadas não mais em caminhadas pelas veredas sertanejas, mas já em rodovias potiguares.
Segundo o historiador Douglas Araújo não houve muita mudança no decorrer do tempo na velha estrutura social e na transformação da arquitetura do campo, como expõe:
Apesar de o município de Caicó, na oportunidade, apresentar um perfil urbano maior, o fato não expressa significativa da velha estrutura social, ou seja, não estava em curso nenhuma transformação da arquitetura do campo.34
Não só a estrutura social do campo analisada pela arquitetura, mas também pela economia e sociedade, predominantemente patriarcal, com suas simbologias materiais, espirituais, em torno de um “pater famílias”, que detinha o poder do núcleo da célula
34
ARAÚJO, Douglas. Memórias e Representações: os sertanejos narram o desmoronamento da vida social rural no Seridó Potiguar. In:______. BUENO, Almir de Carvalho (Org.). Revisitando a História
familiar e suas representações vão ser levadas do campo para cidade, nos termos do relato do antropólogo, Pierre Bourdieu:
Será, portanto, necessário buscar em uma análise materialista da economia os meios de escapar da ruinosa alternativa entre o „material‟ e o „espiritual‟ ou „ideal‟ (mantida atualmente por meio da oposição entre os estudos ditos „materialista‟ que explicam assimetria entre os sexos pelas condições de produção, e os estudos ditos „simbólicos‟, muitas vezes notáveis, mas parciais).35
Assim, o sertanejo o sertanejo saia de sua moradia e ia buscar abrigo na cidade, muitas das vezes a pé, já que andar em lombo de burros ficaria para os mais abastados. No percurso das estradas carroçáveis entoava cantigas e modas para amenizar o sol causticante na caatinga do sertão. Ilustremos essa caminhada com a música de Vila-Lobos, na voz de Milton Nascimento colhida de Moacy Cirne que ouvira pela primeira vez em Natal, em 1962, narrada em seu ensaio sobre A Invenção de Caicó:
Oh mana, deixa eu ir Oh mana, eu ir só Oh mana, deixa eu ir Pro sertão do Caicó36
A pesquisa trabalhada nos sítios em torno do Município de Caicó e no Seridó, passaremos a analisar a expansão da área urbana de Caicó invadindo o campo, com surgimento de novos bairros, que irão crescer sob as normas citadinas, muitas das vezes resistidas pela cultura do homem do sítio.
35
BOUDIER, ibidem, p. 9.
3. CAPÍTULO 2 – A CULTURA DO HOMEM NA CIDADE DE CAICÓ
3.1. Abordagem Científica
A cultura no Seridó já foi interpretada de diversas formas ao longo do tempo. Iremos-vos trabalhar uma análise dos textos escritos nas leis que criaram os bairros com a chegada dos sertanejos fugindo da seca e vindo povoar a cidade, como nos ensina D‟ Assunção Barros:
A História do Discurso (aqui entendida como historiografia que examina os discursos inscritos nas fontes textuais para compreender a sociedade que os produziu) tem explorado inúmeras abordagens mais específica e Geral dos múltiplos posicionamentos teóricos.37
Nas palavras de Antônio Clarindo Barbosa de Souza em seu trabalho de recurso eletrônico, referenciando Antoine Prost em Como a História faz o Historiador a narrativa dos costumes do homem campo ao vir residir na cidade de Caicó acontece por uma sucessão de momentos distintos: “Uma nova temporalidade que constrói o tempo como uma sucessão de momentos descontínuos, na qual cada um deve ser apreciado, saboreado ou criticado em suas particularidades específicas”.38
Assim, ao caminhar pelos bairros da cidade de Caicó observando a expansão do campo sobre a cidade, como fez Francisco Achcar aprentando a metodologia de Aluísio de Azevedo no estilo de O Cortiço, com a sua capacidade de representação visual, com a habilidades em desenhos, que nesse trabalho estamos utilizando as fotografias, como recortes culturais de cultura:
Duas grandes qualidades devem ser observadas no estilo de O Cortiço: uma é a grande capacidade de representação visual o autor, certamente relacionada com sua habilidade de desenho (como vimos, Aluísio, em certa época, a atividade de caricaturista) e que faz que tenhamos frequentemente, ao ler o romance, a impressão de estar assistindo a um filme; a outra é a sua formidável habilidade para dar vida à multidão, ao grande grupo humano dos moradores do cortiço.39
37 BARROS, José D‟ Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. 8. ed. Petrópolis:
Vozes, 2011. p.140-141.
38
PROST, Antoine. Como a história faz o historiador? Cadernos Anos 90; Porto Alegre – 1998. In:______. SOUZA, Atônio Carlindo Barbosa de. Teoria e Metodologia [recurso eletrônico]. Campina Grande, PB: EDUFCG, 2011. slide 3.
39 ACHCAR, Francisco. Apresentação e questões. In:______. AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. CERED:
Na perspectiva de Allan G. Johnson, a cultura constitui um dos principais elementos de todos os sistema sociais, entre eles, as atitudes, crença, valores e normas. Passando pelo paisagismo do campo e da cidade: “Cultura é o conjunto acumulado de símbolos, idéias e produtos materiais associado a um sistema social, seja ele uma sociedade inteira ou de uma família.”40
3.2. O Aforamento como Moradia
Fugindo das secas, acontece a migração do campo para a cidade em busca de melhores condições de vida, pois tanto a falta prejudica a subsistência da família, como a vida dos trabalhadores assalariados e dos pequenos proprietários rurais em seu aspecto econômico, segundo reza a pesquisa feitas por Josimar Araújo de Medeiros, em suas andanças observando os pequenos e médios açudes que estavam secos:
No Seridó potiguar, com 100% do território encravado na zona seca nordestina, a estiagem constitui um grave problema, de vez que, em grandes proporções, prejudica as atividades econômicas rurais, flagelando sobretudo as comunidades camponesas. São os trabalhadores assalariados, os meeiros, os parceiros e os pequenos proprietários rurais os que sofrem mais diretamente com seus horrores.41
Assim, a família do Senhor Antônio Bernardino de Sena saiu aos poucos do Sítio “Recanto”, no boqueirão das Serras, numa gleba de terras após o açude “Mundo Novo”. Já o patriarca preoculpado com a educação dos descendentes, o patriarca instalou em sua própria casa, uma escola para os campesinos das adjacências, nos termos da crônica de Boaventura José de Souza Neto publicada em Rastos Caicoenses
V, que teve como organizadora Lidiane Araújo:
Já que se relaciona à crença no saber, faz-se mister consignar um fato de capital importância para a comunidade residente na gleba denominada “Mundo Novo”, principalmente para os campesinos do sítio “Recanto” e os de suas adjacências. Trata-se da fundação de uma escola primária, que, por sinal, foi instalada na própria residência do Sr. Antônio, por sua iniciativa, apesar da precariedade das condições
40
JOHNSON, Allan G., ibidem, p. 59.
41 MEDEIROS, Josimar Araújo de. Convivendo com a seca & combatendo a desertificação: novos
físicas e materiais existentes. Essa informação encontra guarida no Mapa da matrícula geral dos alunos da Escola Isolda de Recanto, no município de Caicó, firmado em 04.03.64, pela então professora Ana Nísia de Araújo.42
Por conseguinte, em umas de suas razões preponderantes, educação, foi residir na cidade de Caicó, em busca de melhores condições de vida para ele e seus familiares, conseguindo da um terrno no bairro Paraíba, em 02 de janeiro de 1964, concedido pela Prefeitura para aproveitamento efetivo da construção da moradia, com a seguinte localização:
Uma parte de terra do patrimônio municipal situada nesta cidade à Av. Major Camboim, com 375 metros quadrados de superfície, limitada ao N. e O. c/terrenos devolutos, pertencencetes ao patrimônio municipal; ao S. c/Geraldo Alves dos Santos; e a L. com a referida Av. Major Camboim.43
Essa fuga do campo para a cidade era comum na Região do Seridó como ficou registrada numa carta de Natal, em 1998, catalogada na obra, Cartas do Sertão do
Seridó, de Paulo Bezerra do sofrível e amargo desafio da estiagem que afeta a economia
local:
A seca desadora, maltratando, ferindo e empobrecendo, agravou o equilíbrio da nossa economia manca, capenga, raquítica. A terra, escaldada pelo sol, vem sendo varrida pelo vento forte que zoa nas quebradas das serras como um gemido fundo, penoso, sem fim.44 Seguindo a metodologia de Durval Muniz Albuquerque Jr., em Invenção do
Nordeste, vamos citar a música de Zé Ramalho quando, saudoso, falou de suas
memórias em Avôrai, para falar de seu “avô e pai”:
Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas De ouro o brilho do seu colar Na laje fria onde coarava Sua camisa e seu alforje De caçador
Oh meu velho e invisível Avôhai
42 SOUZA NETO, Boaventura Jose de. In:______. Lidiane Araújo (Org.). Rastos Caicoense V.
Publicação da Autora, 2012. p. 126.
43
3º Ofício de Notas – Livro 4-M, p. 67v/68. 02/01/1964: Certidão de Nº de Ordem e Transcrição do Imóvel, 1967.
Oh meu velho e indivisível Avôhai
[...]45
Segundo Albuquerque Jr., “os romancistas de trinta” tentam construir um Nordeste a partir da remomorações de suas infâncias, resgatam em suas narrativas a cultura local que resiste a cultura globalizada e a alienígena do mundo moderno contra a identidade de um povo que sobrevive e resiste as ameaças dos conceitos novos:
A produção sociológica de Gilberto Freyre, bem como a dos chamados „romancista de trinta‟, têm no trabalho com a memória a principal matéria. Estes últimos vão tentar construir o Nordeste pela rememoração de suas infâncias, em que predominavam formas de relações sociais agora ameaçada. Eles resgatam a própria narrativa como manifestação cultural tradicional e popular, ameaçada pelo mundo moderno, e a tom como expressão do regional.46
Esse patrimônio além de muito comum na edilidade de Caicó como concessão perpétua e heriditária em processos de patrimonialização de inclusão social de pessoas que fungindo das secas que devastaram a criação de gado, procuravam na cidade como um refúrgio e acalanto para o seu sofrimento.
A regulamentação do direito ao aforamento decorrente do seu domínio útil está previsto, no Código Civil de 1916, art. 678 usque art. 694, no que tange a transmissão pagará um laudêmio 2,5 %, sobre o valor atual do imóvel, nos termos do art. 693, ex
legis:
Art. 693. Todos os aforamentos, inclusive os constituídos anteriormente a este Código, salvo acordo entre as partes, são resgatáveis em dez anos depois de constituídos, mediante pagamento de um laudêmio, que será de dois e meio por cento sobre o valor atual da propriedade plena, e dez pensões anuais pelo foreiro, que não poderá no seu contrato renunciar ao direito de resgate, nem contrariar as disposições imperativas desse capítulo.47
O aforamento se resume pelo titular do domínio útil que tem o direito ao foro, laudêmio e preferência no caso de alienação, já o foreiro tem todos os direitos elementares de proriedade. Nas palavras de Sílvio Rodrigues sobre o direito de foro e laudêmio:
45 RAMALHO, Zé. AVôhai. letras.mus.br. Disponível em: < http://letras.mus.br/ze-ramalho/74944/> .
Acesso em: 12 set. 2014.
46
ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 3. ed. Recife: FJN, Ed. Massagana; São Paulo: Cortez, 200. p 80.
O foro é contraprestação devida pelo enfiteuta. O não pagamento do mesmo, por três anos consecutivos, da lugar ao comisso, ou seja, à extinção do aprazamento com consolidação do domínio nas mãos do senhorio.
O laudêmio é a importância devida ao senhorio, pelo foreiro, cada vez que transferir o domínio útil por venda ou dação em pagamento. Consistirá na percentagem de dois e meio por cento sobre o preço da alienação, se outro não houver sido fixado a título de aforamanento (Cód. Civ. Art. 686)48
No caso de falecimento e deixando vários herdeiros será realizada uma eleição entre eles para que seja eleito um representante denominado de “cabecel” e todas ações do senhorio será proposta contra este representante eleito:
Eleição de cabecel. – Quando, por alguma razão, o emprazamento vier a pertencer a várias pessoas, como no caso do enfitêuta deixar vários herdeiros que o sucedam em condomínio, na propriedade útil da coisa, pode o senhorio direto, se quiser, convir a divisão.49
Nessa seara, como o aforamento é perpétuo e transmite-se por herança. Os herdeiros vão eleger um representante para responder pelas ações frente ao foreiro. Vislumbra-se choque de poderes, tanto dos herdeiros entre si como do enfitêuta para o Senhorio. Isso foi o que Michel de Foucault chamou dessas relações minuciosas de gestos e atitudes com poderes e resistência de microfísica do poder:
O que Foucault chamou de microfísica do poder tanto um deslocamento do espaço da análise quanto do nível em que esta se efetua. Dois aspectos intimamente ligados, na medida em que a consideração do poder em suas extremidade, a atenção a suas formas locais, a seus últimos lineamentos tem correlato a investigação dos procedimentos técnicos de poder que realizam um controle detalhado, minucioso do corpo – gesto, atitudes, comportamentos, hábitos, discursos.50
A cidade de Caicó, desde que foi fundada, já foi classificada em quatro categorias arquitetônicas distintas, conforme a revista MNEME, disponível em www.cerescaico.ufrn.br/mneme: a primeira categoria seria da era colonial, da fundação da cidade até meados de 1920. Caracteriza-se por empena lateral, sem recuo frontal e laterais; a segunda categoria é eclética, entre os anos de 1920 e 1940, com empena
48 RODRIGUES, Sílvio. Direito Civil. São Paulo, 1975. p.255. 49 Idem, 257.
50
MACHADO, Roberto. Introdução: por uma genealogia do poder. IN:______.FOUCAULT, Michel.
Microfísica do Poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal,
lateral, quatro águas, edificação solto no lote e conjunto de elementos decorativos; a terceira categoria seria uma transição do ecletismo para modernismo, denominada de proto-modernismo. Técnica de construção de paredes tradicionais, mas sem elementos decorativos, apresentado em suas plantas semelhança com as casa ecléticas; a quarta seria entre 1940 a 1970, com teto horizontal, janelas corridas, balanços, ausências de ornamentos historicistas.51
O sertão nordestino foi ocupado a partir da Capitania de Pernambuco e Bahia, geralmente usando os rios intermitentes e secos como estradas. Essa expansão teve como carro chefe o gado que ia a frente. Do comércio de víveres de subsistência, como a farinha e a rapadura, como também do trabalho dos pequenos artesões com o couro que foram sugindo as cidades do sertão nordestino, como explica Caio Prado Jr., em sua obra, Formação do Brasil Contemporâneo:
Completa-se assim a ocupação de todo o sertão nordestino. Mas conquanto devassado integralmente desde os primeiros decênios do século XVIII e mais ou menos povoado em toda parte, esta ocupação está longe de se distribuir uniformemente. Pelo contrário, é muito irregular. De uma forma geral, escassa e muito rala: o pessoal das fazendas de gado, únicos estabelecimentos do sertão não é numeroso, donde também um comércio, afora a condução de gado, pouco intenso, resultando da aglomerações urbanas insignificantes e largamente distanciadas uma das outras. Mas dentro dessa baixa densidade demográfica geral, o povoamento se concentra mais em algumas áreas. Os fatos naturais, em particular o da água, tão preciosa neste sertão semiárido, tem um papel relevante.52
Nesse contexto de surgimento das cidades não pelo Nordeste brasileiro, mas também pelo Brasil, Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, diz que a Casa-Grande vai invadir a cidade, entretanto a cultura de uma aristocracia rural vai permanecer ao ponto de um oficial de carpintaria querer se vestir como fidalgo, atribuindo a um escravo o trabalho de carregar as ferramentas de seu ofíco:
A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de
51 CAVALCANTI, Alâni F. A CASA DO MEU PAI ERA DIFERENTE DA DO MEU AVÔ E A
MINHA, ERA DIFERENTE DAS DUAS: Um estudo morfológico de exemplares do casario caicoense.
Centro de Ensino Superior do Seridó – Campus de Caicó. Publicação do Departamento de História e Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, V. 01. N. 02, out./nov. de 2000 – Semestral ISSN ‐1518‐3394. Disponível em: < www.cerescaico.ufrn.br/mneme> . Acesso em: 01set. 2014.
52 PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. Entrevista por Fernando Novaes;
la, onde fosse possível, aos direitos ou privilégios, os mesmos privilégios que tinha sido o Velho Mundo, alvo da luta da burguesia contra os aristocratas.53
A exemplo do sugimento das cidades do Nordeste e do Brasil, a cidade de Caicó não poderia ser diferente, nasceu a beira do rio, pela necessidade de água, como essencial e vital a existência do ser humano. A casa-grande se transformando em sobrado em volta de uma paróquia, juntamente com outras casas em círculo que iria se o futuro centro da cidade como arremata Olavo de Medeiros Filho citando o diário de Frei Caneca, de passagem por Caicó:
A vila tem uma igreja pequena, nova e bem paramentada. A casa do vigário é de sobrado e boa. Todas as casas são novas de pedra e cal e fazendo um círculo, com diâmetro de trezentos passos em um chã. Por detrás das casas o terreno é plano, mas pedregoso. Tem o rio três grandes poços de boa água que nenhum verão por mais forte, é capaz de secar.54
Há ainda uma identidade concreta e abstrata, por parte todo material do objeto para preservação do lugar e da cultura:
Além da identidade (para a qual retornascemos nosso olhar um pouco mais adiante) é também muito comum nos depararmos com estudos que associam os bens patrimoniais imediatamente ao lugar, à cultura e ao povo.55
Outro fato atrativo da cidade era a possibilidade de educação dos filhos e alocação em melhores empregos. Desta forma, a expansão urbana também era atribuída ao desenvolvimento do setor educacional. Em Vidas Secas, na parte final do livro, que retrata a Fuga de Sinha Vitória e Fabiano da seca. Ela questiona o que seria dos meninos quando crecessem? Fabiano opina que eles fossem vaqueiros como ele. O balanço negativo de Sinha Vitória sinalizava que eles não votariam nunca mais e que seus filhos adotariam costumes diferentes:
Mudar-se-iam depois para uma cidade, e os meninos frequentariam escolas, seriam diferentes deles. [...] Uma cidade grande, cheia de
53HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 160. 54
MEDEIROS FILHO, Olavo de. Caicó, Cem Anos Atrás. Natal: Sebo Vermelho, 2004. p. 61.
55TAMASO, Izabela M. Por uma distinção dos patrimônios em relação à história, à memória, e a
identidade. In:______. PAULA, Zuleide Casagrande; MENDONÇA, Lúcia Glicério; ROMANELLO,
pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, cabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardaram-se temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilazada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá.56
Já no ano de 1942, tinha sido fundado o Ginásio Diocesano Seridoense – GDS, pelo bispo de Caicó, d. José de Medeiros Delgado, considerado muito distante do centro da cidade, cujo o referencial do centro era a Matriz, mas trazendo prosperidade para o sertão no campo das letras:
O GDS (posteriormente colégio diocesano Seridoense – CDS) foi fundado em 1°-3-1942. No período de sua criação, a área em seu entorno tinha uma ocupação pontual. O que marcava o cenário era a vegetação nativa e o ricaho das Salinas, que corria livre à frente do colégio, restou muito pouco do antigo cenário...e o riacho das Salinas, aprisionado em um fétido canal, em nada relembra seu passado de águas libertas.57
3.3. Os Registros dos Bairros de Caicó
A cidade de Caicó surgiu em volta da catedral de Sant‟Ana, com casas que foram sendo contruídas para festas religiosas e profanas. Com o crescimento demográfico e populacional desse aglomerados de casas foram surgindo os novos bairros a partir do centro da cidade, que resume numa citação do historiador Muirakytan Macêdo sobre a expansão da cidade de Caicó, no ano de 1950:
Em 1950, Caicó se limitava a um amontoado de casas, da rua Marinheiro Manoel Inácio à Catedral de Sant‟Ana, que estendia um pouco mais com as ruas „do Cateretê‟, „Berra Bode‟, „Alto do louvor‟, que formavam o nosso „Cai Pedaço‟que começava em Pedro Casé [dono do cabaré mais cobiçado da cidade] e terminava pro‟s lados de Ciço Vieria. Havia também as casas perto da Ladeira de João de Cândido (Rua Pires Ferreira), o quarteirão do hospital, casebres no „salitre‟[...].58
56 RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 58. ed. São Paulo: Record, 1986. p. 126.
57 MORAIS, Ione Rodrigues Diniz. Desvendando A Cidade: Caicó em sua dinâmica espacial. Natal:
Senado Federal, Secretaria Especial de Editoração e Publicação, 1999. p. 88.
58 MACÊDO, Muirakytan Kennedy de. Rústicos cabedais: patrimônio e cotidiano familiar nos sertões do
Seridó (Sec. XVIII). Defesa em 12 de junho de 2007. 286f. Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, 2007. p. 90.