UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO
ILAN IGLESIAS
LARISSA MARTINA MATEUS PINTO
PROJETO MODELO “SALA DO CINEMA BRASILEIRO”
Salvador – Bahia
2008
Ilan Iglesias
Larissa Martina Mateus Pinto
PROJETO MODELO “SALA DO CINEMA BRASILEIRO”
Memórias apresentadas à Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Comunicação com Habilitação em Produção em Comunicação e Cultura.
Agradecimentos
Queremos agradecer ao Professor Doutor e Diretor de Cinema Umbelino Brasil pelo acompanhamento teórico, de uma forma ou de outra, durante os três últimos semestres nos quais construímos este TCC; a Edyala Yglesias pela ajuda prática; a Aline Sodré pela eficiência e rapidez na criação da planta arquitetônica; a Fernanda Sampaio pela pronta colaboração; aos nossos colegas pelas sugestões iniciais e finais; e, por último, queremos agradecer um ao outro pela paciência e determinação com as quais realizamos este trabalho.
Resumo
O presente trabalho descreve todas as etapas realizadas para elaboração do projeto cultural modelo “Sala do Cinema Brasileiro”, que prevê a criação de salas de cinema digital cujas exibições sejam voltadas exclusivamente para a apresentação de obras cinematográficas e videofonográficas atestadas como brasileiras.
Índice
Memória – Ilan Iglesias 06
Apresentação 07
Embasamento Teórico 08
Cinema digital – vantagens para a sala de exibição 16
Projeto cultural – importância de sua criação 19
Conclusão 24
Referências 24
Memória – Larissa Martina 27
Apresentação 28
A idéia 30
O projeto 31
Conclusão 45
Referências 46
Projeto Modelo “Sala do Cinema Brasileiro” 48
Apresentação 49
Justificativa 50
Objetivos 54
Público-alvo 54
Metas a atingir / Resultados previstos 55
Base metodológica e operacional 55
Equipamentos 57
Projeto arquitetônico 59
Retorno de interesse público 59
Avaliação dos resultados 61
Financiamento 61 Orçamento 62 Anexo I 64 Anexo II 65 Anexo III 68 Anexo IV 70 Anexo V 77 Anexo VI 78 Anexo VII 79 Anexo VIII 80 Anexo IX 82 Anexo X 83 Anexo XI 86 Anexo XII 89 Anexo XIII 104 Anexo XIV 106 Anexo XV 117 Anexo XVI 119
Memória
Ilan Iglesias
APRESENTAÇÃO
O presente trabalho pretende reunir estudos como aluno do curso de Produção em Comunicação e Cultura pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia e tem como objetivo principal a graduação neste. Sobre esta base, o projeto aqui apresentado busca o exercício do aprendizado nestes quatro anos como aluno de Produção Cultural e tem como foco a criação de um produto, um projeto modelo para uma sala de cinema voltada exclusivamente para filmas nacionais, como proposta do trabalho de conclusão de curso (TCC).
A escolha por fazer um projeto voltado para a área cinematográfica se deu por dois motivos. Primeiro, a necessidade de aprimoramento sobra a técnica de criar e escrever projetos culturais, pondo em pratica aquilo que foi aprendido no curso, e buscando um melhor conhecimento sobre a profissão de Produtor Cultural. O segundo motivo é a minha proximidade com a área do cinema.
Sobrinho da cineasta baiana Edyala Yglesias, ainda adolescente fui ao cinema assistir um de seus filmes “O diário do convento”. Um curta-metragem que junto com outros dois formavam o “Três Histórias da Bahia”. Senti orgulho de ver toda a euforia do lançamento no Multiplex do Iguatemi, embora ainda não compreendesse que ali era um caso isolado e que momentos como aqueles são raros na cena cultural do cinema no estado da Bahia.
A idéia de se criar um projeto que beneficiasse obras audiovisuais brasileiras surgiu de uma inquietação própria dos jovens sonhadores que não conseguem compreender o estado do mundo e da política atual. Invadido por um sentimento quase ufanista, queria ver mais e mais filmes de amigos, parentes, vizinhos, colegas chegando ao cinema, então expus a idéia a minha parceira de tantos trabalhos Larissa Martina, que o achou interessante e aceitou a labuta.
EMBASAMENTO TEÓRICO
Como forma de justificar a necessidade da criação de uma sala de cinema voltada exclusivamente para filmes nacionais – não somente para a formulação do presente trabalho, mas para nosso próprio convencimento do projeto – buscamos embasamento teórico sobre o mercado exibidor brasileiro e o histórico de incentivos e tentativas governamentais para regulação do setor.
Partindo do pressuposto que as salas de cinema nacionais estão infestadas por filmes estrangeiros, principalmente por blockbusters norte-americanos, realizamos um levantamento histórico dos incentivos para o mercado exibidor nacional e das leis de proteção para os filmes nacionais (reservas de mercado).
Historicamente, foi em 1897 que se criou a primeira sala de exibição fixa no Brasil. Ela era chamada de “Salão de Paris no Rio”, uma vez que trazia ao Rio de Janeiro a novidade mais “quente” de Paris, o cinema, ou como se chamava na época, as “vistas animadas”. Mas foi somente a partir de 1907 que se pôde ver uma articulação entre produção, exibição e público. A quantidade de salas começou a aumentar, o que fomentou a produção regional de filmes e pode oferecer ao público ingressos mais baratos, atraindo pessoas de classes mais baixas ao cinema.
Já entre 1912 e 1922 o que se viu foi o crescimento de salas itinerantes que percorriam regiões do interior em busca de público. A má qualidade e baixa rentabilidade dos filmes produzidos no Brasil na época fizeram com que a sua distribuição fosse feita por agentes isolados, à base de comissão, em regiões pobres e distantes, longe das grandes agencias de distribuição e dos olhos da fiscalização. O que se viu, portanto, foi uma exagerada falsificação de números, roubo de cópias e bilhetes
Por outro lado, após a primeira guerra, o sistema exibidor no Brasil ganha impulso e sofisticação, e as salas que precisavam de uma reforma desde 1910, ganham novos equipamentos e ares mais luxuosos. Os filmes estrangeiros dominam as salas, enquanto que o movimento cinematográfico nacional ainda não consegue ver o filme como um produto realizado para um mercado, e perde cada vez mais espaço a partir da invenção do filme falado por conta da falta generalizada de verbas para adquirir os equipamentos necessários para a nova produção.
No período seguinte que compreende de 1930 a 1955, alguns cinemas de menor porte foram forçados a fechar suas portas por conta do alto custo de equipamento e manutenção que os filmes falados tinham trazido, mas ao mesmo tempo foi percebida uma sensível diminuição do número de filmes estrangeiros no mercado brasileiro, devido à dificuldade de entendimento das línguas estrangeiras, e das mal sucedidas experiências com legendas.
Enquanto isso se percebia no país as primeiras tentativas de uma possível industrialização cinematográfica, como, por exemplo, a criação da famosa Cinédia, assim como a intervenção do Estado, através da figura do Getúlio Vargas e de sua defesa da indústria nacional. É dessa época a primeira política de quota de telas, que estabelecia que as salas exibidoras deveriam apresentar pelo menos um filme genuinamente brasileiro por ano (sete dias de exibição1); a criação do “complemento nacional”, um curta metragem brasileiro que deveria acompanhar cada filme estrangeiro; e também a implementação do DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda, que servia como uma espécie de censura e que chegou a proibir, por exemplo, que “O Grande Ditador” de Chaplin fosse exibido ou divulgado.
Ainda nesse setor, mas em 1946, com o presidente Dutra, a lei de quotas é modificada e passa a exigir que durante o ano três filmes brasileiros de longa-metragem fossem exibidos pelos cinemas, sendo que esses filmes teriam de ser declarados como de boa qualidade pelo Serviço de Censura e Diversões Públicas (SCPD) do Departamento Federal de Segurança Pública.
Durante o período foram realizados dois congressos sobre o Cinema brasileiro em 1952 e 53 que trouxeram a público a grande preocupação de diretores e produtores quanto a invasão do cinema norte-americano no mercado nacional. Eles finalmente perceberam que não bastaria que o cinema brasileiro fosse economicamente viável, com equipamentos modernos e técnicos especializados, mas era imprescindível que se limitasse de alguma forma a entrada de produtos estrangeiros no país. Atrelado a isso a Chanchada fazia grande sucesso, e chegou a representar 6% da bilheteria do mercado exibidor, conseguindo atrair camadas mais populares e fiéis aos cinemas.
O período que se segue ficou conhecido como Cinema Novo e trouxe grandes mudanças ao cenário cinematográfico. Além das inovações estéticas e de linguagem propostas pelos cinemanovistas, o grupo criou a Difilm que permitia que seus filmes fossem postos no mercado exibidor de forma menos onerosa. Eles haviam percebido que um esquema industrial era vital para a manutenção de uma produção regular e de sua apresentação ao público, uma vez que estava clara a preocupação do grupo em atingir a audiência.
Outro acontecimento importante da época, ocorrido mais precisamente em 1969 foi a criação da Embrafilme, uma tentativa do Estado em centralizar as produções cinematográficas de modo a exercer mais influencia no setor, e uma possibilidade de promover uma maior presença do filme nacional em seu próprio mercado. Após a sua
ano, ao longo de uma década, e foi criada a “lei da dobra” um mecanismo que permitia a manutenção do filme brasileiro na segunda semana, caso ele superasse ou igualasse o índice de freqüência semanal do mesmo cinema, no semestre anterior. Durante seu período de existência a Embrafilme possibilitou a realização de 107 co-produções e a distribuição 104 títulos, além de financiar pesquisas sobre o Cinema brasileiro.
Em paralelo a isso surge uma indústria cinematográfica apelidada de “Boca do Lixo” que se ocupou em realizar produções artesanais, de poucos recursos e idéias interessantes, que à margem da industrialização iniciante e dos ditames do governo serviu como centro aglutinador de produtores, diretores, roteiristas, técnicos, distribuidores, atores, atrizes e aspirantes em geral. Dali saíram faroestes, cangaços, kung-fus, melodramas e aventuras de segunda linha, alem das pornochanchadas, gênero de maior sucesso na época, e que trouxe ao mundo do Cinema investidores incomuns como os pequenos comerciantes cariocas e paulistas. Foi a “Boca do Lixo” a responsável por grande parte da produção brasileira nos anos 60 e 70, e na década seguinte chegou a 40% do total de filmes nacionais.
A partir dos anos 80, no entanto, a produção nacional começa a decair. As pornochanchadas evoluem para filmes de sexo explícito que, além de não levarem grande público aos cinemas causaram desorganização de todo o esquema industrial do cinema brasileiro, e estigmatização das salas exibidoras. Alguns filmes de grande pretensão apareceram em São Paulo enquanto que no Rio o que se percebeu foi uma estética mais jovem e mercadológica nos filmes, com aparecimento de produções voltadas para o público infanto-juvenil.
Já na década de 90, com o presidente Fernando Collor no poder, o que se viu foi uma estagnação na área cultural com a extinção do Ministério da Cultura, e especificamente no audiovisual, o fechamento de órgãos como o Concine, fiscalizador
das leis de incentivo ao cinema, e da Embrafilme, empresa produtora e distribuidora de filmes. Collor criou então uma Secretária da Cultura, atrelada diretamente à presidência que, na contramão das outras medidas, promulgou a Lei n
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8.401/92 que buscava em seu primeiro artigo “assegurar as condições de equilíbrio e de competitividade para a obra audiovisual brasileira, estimular sua produção, distribuição, exibição e divulgação no Brasil e no exterior, colaborar para a preservação de sua memória e da documentação a ela relativa, bem como estabelecer as condições necessárias a um sistema de informações sobre sua comercialização”.É ainda no governo Collor que se cria a Lei n° 8.313, de 23 de dezembro de 1991, também chamada de Lei Rouanet. Foi através dessa lei que o PRONAC foi instituído com a finalidade de captar e distribuir recursos para o setor cultural brasileiro, regulamentando os incentivos fiscais para a área. Foram instituídos também o Fundo Nacional de Cultura, e os Fundos de Investimento Cultural e Artístico, que procuram democratizar o acesso do público aos produtos culturais, e fomentar a sua criação.
Mas a lei de mais importância para o setor cinematográfico e que também foi criada na década de 90 é a Lei do Audiovisual (Lei n° 8.685, de 23 de julho de 1993), cujos resultados mais expressivos começam a ser constatados a partir de 1995, como afirmam Caldas e Montoro (2006):
“(...) o orçamento em 95 chega a 16 milhões, ultrapassando a média anual da Embrafilme de 14 milhões, em 96 pula para 51 milhões, em 97 para 74 milhões, e foi desde esse ano que surgiu o concurso para curtas-metragens, premiando 40 projetos. Com a inclusão do imposto de produtos audiovisuais estrangeiros os valores sobem para 217 milhões de reais em três anos, permitindo que o cinema saísse do estado de letargia moribundo para uma vigorosa revitalização. A produção alcançou de 20 a 30 títulos por
Outra medida interessante tomada nos anos 90, mais precisamente em 1992, foi a criação da RioFilme, uma empresa de distribuição de filmes nacionais. Desde sua criação a distribuidora comercializou até o ano de 2007, 164 títulos inéditos, sendo que no período entre 1992 e 2000 seu desempenho correspondeu a um índice superior a 50% do total de filmes nacionais distribuídos. A RioFilme ocupa uma posição singular na gestão dos negócios do cinema, embora seu patamar de filmes comercializados, que se encontra em torno de 11 filmes por ano, comprove que a empresa já se encontra em seu limite operacional, além de demonstrar que a produção nacional contemporânea precisa encontrar novas distribuidoras e soluções para colocar seus filmes no mercado.
Foi ainda nessa década que se viu a chamada retomada do cinema nacional. Através da reconstituição de uma identidade cinematográfica nacional, compreendida como urgente, a retomada buscou o resgate da representação da história brasileira como eixo principal em sua produção. Vemos também uma reformulação estética que vai beber em diversas fontes, dentre as quais se encontram a própria produção nacional, o cinema clássico europeu, o cinema independente americano e até mesmo a publicidade.
São aparentes, portanto, os esforços do governo brasileiro, que ao longo da recente historia do cinema nacional têm fomentado a criação de produtos audiovisuais de qualidade. Entretanto esses esforços não se fazem sentir no setor de exibição, que em pouco tempo foi tomado pelo capital estrangeiro, com a entrada dos multiplex, as grandes redes exibidoras internacionais no país.
De fato o setor de exibição, foi o que menos recebeu incentivos governamentais na seara do audiovisual nacional, deixando que ficasse sobre o poder do capital privado estrangeiro, o que culminou na extinção dos cinemas de bairro e populares. Além disso, com o surgimento das salas multiplex, grande parte da população, sobretudo grupos de
baixa renda, deixou de freqüentar os cinemas por não possuírem renda suficiente para pagar até R$ 17,00 por um ingresso.
A lógica dessas grandes salas privilegia filmes norte-americanos que se beneficiam de publicidades a altos custos e conseguem, consequentemente, atrair uma maior parte dos espectadores. Aos filmes brasileiros restou buscar espaço nas salas alternativas e de arte, além de festivais do gênero, que vão a lugares onde não há salas de cinema, aumentando a articulação local pela cultura e exibem a produção contemporânea de ciclos regionais. Entretanto essas exibições mostram-se por vezes efêmeras e insuficientes no que se trata de abarcar com eficácia a produção de películas nacionais
Entretanto, afirmar que as causas dos problemas enfrentados pelo audiovisual brasileiro se devem somente a entrada do capital estrangeiro, sobretudo hollywoodiano, é isentar o estado da responsabilidade frente ao setor cinematográfico e a cultura como um todo.
Durante décadas tentou-se criar formas de proteção ao cinema brasileiro. Atualmente o Governo financia diversos filmes através das leis de incentivo, contudo, esse investimento é feito a fundo perdido, não obrigando que os produtores e diretores mostrem um retorno de público ou financeiro do projeto. Alem disso, essa forma de incentivo ajudou no não estabelecimento de uma indústria cinematográfica, sendo que para cada diretor se cria uma produtora nova, reforçando a falta de núcleos produtores que possam transformar o cinema nacional em uma industria competitiva.
É possível afirmar que hoje o cinema brasileiro vive uma euforia produtiva, visto que grande parte dos filmes não chega sequer a ser exibido em uma sala de cinema. Isso se deve ao fato da baixa rentabilidade dos filmes brasileiros, como
para filmes nacionais, que hoje é de 28 dias para salas individuais e 63 dias para
multiplex, alegando que são obrigados a manter salas vazias com os filmes brasileiros2.
Por outro lado essa falta de interesse do público pode ser reflexo exatamente da ausência histórica do filme nacional nos cinemas. Acostumados com a estética dos filmes hollywoodianos de divertimento, a maior parte dos expectadores não se lembra da importância do filme nacional por que o nosso passado não é de fácil acesso e muitos fatos da nossa história cinematográfica foram apagados ou perdidos. Todavia, o impacto que o filme nacional causa no espectador é muito maior que o estrangeiro, como observa Jean-Claude Bernardet (1967):
“(...) Um cinema nacional é para o público, uma experiência única, pois é visto com olhos bem diferentes daqueles com que é visto o cinema estrangeiro. A produção estrangeira de rotina não passa, para a platéia, de divertimento. Filmes mais ambiciosos oferecem-se aos amadores da arte como objetos que solicitam um bom funcionamento de sua sensibilidade e de seu gosto. Raros são o casos em que o filme estrangeiro mobiliza grandes setores público de vários grupos sociais, e atinge o espectador no conjunto de sua pessoa. O filme nacional tem outro efeito. Ele é oriundo da própria realidade social, humana, geográfica, etc., em que vive o espectador;é um reflexo, uma interpretação dessa realidade (Boa ou má, consciente ou não, isso é outro problema). Em decorrência, o filme nacional tem sobre o público um impacto que o estrangeiro não costuma ter. há quase sempre num filme nacional, independente de sua qualidade, uma provocação que não pode deixar de exigir uma reação do público. Tal reação não resulta somente de uma provocação estética (pode sê-lo também), por que o filme nacional implica o conjunto do espectador, porque aquilo que está acontecendo na tela é ele ou aspectos dele, suas esperanças, inquietações, pensamentos, modos de vida, deformados ou não. Essa interpretação, consciente ou inconsciente, ele não pode deixar de aceitar ou rejeitar. Esse compromisso diante de um filme nacional, do espectador para com sua
própria realidade, é uma situação à qual não se pode furtar. (...)” (BERNADET, 1967, pp.15-16)
Acreditamos, finalmente, que iniciativas que promovam uma reserva de espaço a exibição do audiovisual nacional precisam ser postas em prática. Um bom exemplo disso é o “Projeta Brasil” realizado pela rede Cinemark, que todo ano, no dia 5 de novembro, dia do cinema nacional, dedica sua programação inteiramente a filmes brasileiros, com uma política de preços populares. No ano de 2007, Salvador participou pela primeira vez do projeto, e o que se pode perceber foram salas cheias, mesmo as segundas-feira.
Só com a assimilação e participação do espectador é que o filme consegue existir como obra, não só como valor comercial, mas acima de tudo como um fenômeno cultural. Portanto, a criação de salas de cinema voltadas exclusivamente para produções audiovisuais brasileiras, pode se configurar como a solução há tanto tempo esperada para a exibição nacional. Fomenta-se a exibição dos filmes nacionais, diminuindo a concorrência nociva do cinema industrial estrangeiro, e se permite que filmes menos comerciais, como curtas, medias-metragens e filmes independentes, possam chegar ao destinatário final, o público, empregando assim, o gosto por um cinema brasileiro que a tempos foi esquecido e deletado da memória do povo, e reconstituindo a identidade cinematográfica nacional.
CINEMA DIGITAL – Vantagens para a sala de exibição
A indústria cinematográfica tem experimentado trocas continuas ao longo de sua historia. Essas trocas são frutos, principalmente, dos avanços tecnológicos e das
Desde suas origens, a técnica empregada para a construção das imagens em movimento tem evoluído até o presente momento. Durante os anos, o cinema experimentou três grandes mudanças fundamentais ao que se refere à tecnologia. A primeira foi a introdução do cinema falado, com a incorporação do som registrado na própria película. A segunda grande mudança foi a transição do filme em preto e branco para o filme a cores e a terceira, e última, que está em pleno acontecimento é a digitalização de todos os setores que configuram a indústria do cinema.
A digitalização consiste na transformação da tecnologia empregada nos três principais setores da cadeia industrial cinematográfica, portanto, produção, distribuição e exibição, ou seja, na substituição das tecnologias analógicas até hoje empregadas por sistemas digitais de ultima geração.
A conversão tecnológica é distinta em cada um dos processos cinematográficos, por tanto, cada setor apresenta vantagens e desvantagens específicas no que se refere a sua transição.
Embora o cinema digital ainda não tenha uma qualidade superior ao cinema tradicional em película na sua fase de produção, na pós-produção, distribuição e exibição ele tem se mostrado amplamente vantajoso, técnica e esteticamente e, além disso, pelo seu caráter de baixo custo de manutenção, armazenamento e manuseio.
Mesmo o processo de digitalização do cinema não estando ainda consolidado, optamos por utilizar equipamentos digitais na Sala do Cinema Brasileiro pela sua versatilidade, podendo transmitir um filme de longa metragem e um curta, por exemplo, sem a necessidade de uma longa operação na troca dos filmes, tornado a programação da sala mais dinâmica.
Outros fatores preponderantes para escolha do cinema digital foram a facilidade operacional. Com a projeção digital a figura do projetista é reformulada, não sendo mais
necessário a permanência dele na cabina, podendo as seções ser administradas de ambientes fora da sala de projeção. A Diminuição do custo com a armazenagem das películas, sendo que os filmes agora são informações codificadas em linguagem informática, possíveis de ser armazenas em um disco rígido de computador ou em um dvd. O aumento da qualidade da imagem projetada com uma maior gama de cores, contraste e brilho mais fortes. E por fim, a maior resistência do suporte que mesmo após 100 exibições o filme apresenta a mesma qualidade da primeira sem demonstrar as falhas decorridas com o atrito das engrenagens no projetor de película.
A escolha dos equipamentos
A escolha dos equipamentos a serem utilizados na Sala do Cinema Brasileiro foi baseada em dois modelos existentes. Um para os equipamentos de sonorização e outro para os de projeção.
Os equipamentos de projeção foram escolhidos com base no Casablanca Digital System, um sistema desenvolvido no Brasil e que utiliza o que há de mais moderno na tecnologia para exibição cinematográfica. Esse sistema é utilizado em diversas salas de cinema no país, incluído as salas do grupo Severiano Ribeiro.
Já os equipamentos de sonorização foram baseados no sistema de certificado THX, desenvolvido por George Lucas em 1982, com o intuito de promover uma experiência única no cinema.Com uma combinação entre os alto-falantes integrados e a acústica de sala de cinema específica, o THX proporciona resposta regular em toda gama de freqüências e cobertura uniforme do auditório.
PROJETO CULTURAL Características
Um projeto cultural pode assumir diversas formulações de acordo com o objetivo ou destino a qual se propõe. Ele pode variar a sua apresentação a depender do modo de sua organização, objetivo ao que se propõe e patrocínio que busca.
De acordo com o que discutimos na disciplina Oficina de Planejamento e Elaboração de Projetos Culturais, ministradas pelo Professor e Cineasta Doutor Umbelino Brasil, um projeto cultural deve ser entendido como um plano prospectivo de uma unidade de ação capaz de materializar algum aspecto do desenvolvimento econômico, social e cultural de uma sociedade e resume-se num empreendimento planificado e consistente de um conjunto de atividades inter-relacionadas e coordenadas com fim de alcançar um determinado objetivo.
Importância
A importância do aprendizado da formulação do projeto perpassa sua formatação escrita. Ela está presente desde a criação das idéias e propostas que fazem de seus proponentes verdadeiros produtores culturais. Incentivar a cultura é obrigação deste profissional, que através de sugestões e ações efetivas promova produtos que imbriquem em frutos duradouros para a sociedade e meio em que vive.
Formulação da idéia do projeto modelo “Sala do Cinema Brasileiro”
Para a formulação do presente projeto, partimos do pressuposto que os filmes nacionais necessitam de um maior espaço de exibição, entretanto não queríamos cair na mesmice das produções de festivais ou mostras. O que Larissa Martina e eu queríamos era propor um projeto que fosse importante e não fosse sazonal.
Partimos para a formulação das idéias que norteariam a criação de uma sala voltada exclusivamente para filmes nacionais. A principio queríamos montar a sala
fisicamente aqui na cidade do Salvador e em seguida depois de muita discussão interna decidimos que seria mais interessante neste momento propor um projeto cultural modelo, que pudesse ser implantado em qualquer região do país, principalmente nas cidades do interior que são carentes de salas de cinema.
Uma das primeiras problemáticas que nos defrontamos foi em relação ao conceito do filme brasileiro. De fato não encontramos nenhuma bibliografia que definisse a “brasilidade” dos filmes, então neste momento recorremos a Ancine e nos deparamos com o inciso V da Medida Provisória de nº 2.228-1, de 6 de setembro de 2001 (ver anexo I) decidindo seguir essas diretrizes.
Um fator importante que decidimos estabelecer para o projeto foi seu caráter de democratização do acesso e políticas de formação de platéia, como forma de trabalhar o incentivo de grande parte da população a freqüentar cinemas e consumir cultura.
A idéia de democratização do acesso, com baixo valor dos ingressos, foi inspirada em um modelo já existente na cidade do Salvador. O teatro XVIII mantém preços compatíveis com o salário mínimo vigente (quatro reais o preço do ingresso) como forma de acesso a camadas de baixa renda da população baiana. Esse tipo de iniciativa permite que pessoas que não tem condições e não costumam freqüentar espaços culturais possam usufruir da cultura e entretenimento. Pudemos observar esse fato quando cursamos a disciplina Análise de mercados culturais, ministrada pela professora Gisele Nusbaumer, na qual realizamos pesquisa de público neste teatro, e percebemos a presença de moradores de regiões periféricas e até mesmo pessoas que estavam indo ao teatro pela primeira vez.
Munidos desta idéia, decidimos que o projeto modelo “Sala do Cinema Brasileiro” teria essa iniciativa como uma das suas características principais, com o
preços do ingresso. O preço do ingresso a ser cobrado será de o equivalente a 1% do salário mínimo vigente.
As políticas de formação de platéia foram desenvolvidas com base na programação, e seu objetivo é criar o gosto no espectador, tanto adultos quanto jovens, pelo cinema nacional.
Para esse programa foram criadas três sessões que são:
• A sessão clássica, com preço promocional, que busca resgatar a memória do cinema nacional através de obras importantes de sua historia.
• A sessão infantil, exibindo ao público infanto-juvenil obras de temática infantil. O objetivo nesta sessão é apresentar e acostumar as crianças com a estética do filme nacional, para que quando adulto eles freqüentem os filmes nacionais com regularidade.
• A sessão escola, com entrada gratuita essa seção busca o apoio das escolas e instituições de ensino no incentivo a cinematografia nacional.
Outro ponto fundamental na criação da programação da sala modelo foi a inclusão de filmes de curta e media-metragens. Se os filmes nacionais de longa metragem encontram dificuldade na exibição, os curtas e medias só são exibidos em mostras ou festivais, tornam-se raras as vezes que esse tipo de filme consegue ser exibido em grandes circuitos.
Decidimos por vez que a programação básica deveria passar tanto filmes de longa, como curtas e médias-metragens. A sessão pode ser dividida de acordo com a duração dos filmes, podendo ser um curta e um longa, três curtas, um curta e um média-metragem, etc.
Projeto Cultural - Metodologia
Como forma de aplicar a formatação das idéias do projeto modelo “Sala do Cinema Brasileiro” usamos como instrumentos norteadores os conhecimentos adquiridos nas disciplinas cursadas durante o curso de Produção Cultural (oficina de produção cultural, analise de mercados culturais, oficina de elaboração de projetos culturais e oficina de gestão cultural) e o manual de projeto cultural da FUNCEB3, criado para auxiliar possíveis proponentes na formatação do projeto através de dicas e orientações básicas.
Segundo o manual de projetos da FUNCEB um projeto cultural deve ter os seguintes tópicos: Apresentação, justificativa, objetivos, publico alvo, resultados previstos, estratégias de ação, cronograma, orçamento, plano de contrapartida, plano de comunicação, plano de cotas (patrocinador), avaliação dos resultados, ficha técnica, etc.
A apresentação é a Síntese do projeto. Deve descrever, de modo sucinto, qual a atividade e ação que será desenvolvida, quando e onde acontecerá, como surgiu a idéia, aspectos e características gerais, público a que se destina, importância, resultados esperados. O texto tem que ser claro e objetivo.
A justificativa Deve explicar porque o projeto deve ser aprovado, financiado ou realizado. Quais as razões para desenvolvê-lo, o que o diferencia dos demais, quais seus principais atributos positivos, qual a contribuição que ele traz para a comunidade. Deve responder a pergunta: por que e para que executar o projeto?
Os objetivos são os resultados que se pretende atingir, os produtos finais a serem elaborados, benefícios da ação ou atividade cultural proposta.
O público alvo é para quem se destina o projeto. Podem auxiliar na definição do público informações como local onde o projeto vai acontecer, ação ou atividade cultural
desenvolvida, proposta cultural do projeto. É importante também que se faça uma estimativa de público.
Os Resultados previstos ou metas a atingir são os Benefícios estimados com a realização do projeto. Os resultados devem ser mensuráveis: público estimado, número de oficinas realizadas, número de apresentações planejadas, novos autores lançados, cidades beneficiadas etc. Devem traduzir, em resultados práticos e produtos, os objetivos listados.
Orçamento é o Planejamento financeiro do projeto. Deve indicar quais os recursos materiais, humanos e financeiros necessários para a execução do projeto. Ele precisa detalhar o valor unitário de cada item, a quantidade necessária e o valor total referente a este item, além do valor total do projeto.
Retorno de interesse público. No caso de editais públicos e leis de financiamento, referem-se à contrapartida social oferecida pelo projeto. Justifica porquê este deve ser financiado com recursos públicos. Deve conter ações ou atividades que estimulem a participação do público no projeto, sessões públicas, gratuitas ou com preços promocionais, planos de democratização de acesso à atividade etc.
Avaliação dos resultados é o planejamento de mecanismos de avaliação dos impactos e resultados da ação cultural. Essa avaliação pode ser feita segundo diferentes fatores como o envolvimento do público, a divulgação, o número de beneficiados e seu grau de satisfação, a qualidade dos resultados, a viabilidade econômica do projeto, entre outros.
Os outros tópicos como cronograma, plano de comunicação, plano de cotas (patrocinador), etc., não foram utilizados por se tratar de um projeto modelo. Estes deveram ser elaborados de acordo com a implementação da(s) sala(s).
CONCLUSÃO
Durantes estas três semestres que passamos maturando o produto aqui apresentado, eu pude perceber que ara a realização de um projeto cultural é necessário muito mais do que uma boa idéia. É preciso uma grande habilidade de gestor para programar de forma satisfatória e factível as diferentes etapas do processo de realização do objetivo do projeto.
Se durante esta graduação tivemos inúmeros aprendizados teóricos, foi somente com a realização deste projeto que conseguimos por em prática atividades essenciais para o trabalho de um produtor cultural.
Além disso, tivemos a oportunidade de reunir um grande conhecimento na área de cinema, realizando inúmeras pesquisas sobre o mercado de exibição, técnicas de projeção, e mesmo sobre a história da produção cinematográfica brasileira, também elemento teórico fundamental para as bases da criação da “Sala do Cinema Brasileiro”.
Com tudo isso, devo ressaltar que a construção deste TCC foi bastante recompensante mesmo apresentando alguns obstáculos pelo caminho, e que este será o embrião do projeto que desejamos enviar para a ANCINE e apostar na estruturação real de salas voltadas exclusivamente para exibição de obras cinematográficas e ate videofonográficas verdadeiramente brasileiras.
REFERÊNCIAS
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<http://www.ancine.gov.br/media/rel_gestao_2004.pdf>. Acesso em: 8 maio 2007. BERNDET, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
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2007.
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Memória
Apresentação
Este trabalho de conclusão de curso é fruto dos conhecimentos adquiridos durante os quatro anos que estive na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, buscado a graduação em Produção em Comunicação e Cultura.
Desde o começo de meus estudos nessa faculdade prestei maior atenção a matérias que pudessem me oferecer uma formação profissional e quase técnica, as oficinas, acreditando que sendo a produtor cultural parte de um mercado no qual a prática se apresenta como elemento principal, eu pudesse assim me preparar melhor para o momento que agora se aproxima: a graduação e entrada no mercado de trabalho.
Dessa forma, a Oficina de Produção Cultural, parte integrante do terceiro semestre da grade curricular desta graduação, despertou em mim a certeza de que a elaboração de projetos culturais se configura como parte essencial do trabalho de um produtor, que deve saber como adequar sua criatividade a interesses públicos, no caso de projetos que buscam incentivos governamentais, ou de interesses privados, para aqueles projetos apresentados a empresas particulares, por exemplo, exercitando, primordialmente, seu poder de argumentação e persuasão.
Mais tarde, na Oficina de Gestão Cultural, pude analisar outra faceta importante de um produtor cultural: a sua capacidade de gestão. Naquela oportunidade, entendi melhor qual o papel de um produtor dentro de um contexto organizacional, e percebi o quão importante é para um profissional da área de cultura um conhecimento abrangente nas áreas de administração e até economia, ao mesmo tempo em que um conhecimento específico sobre seu núcleo de trabalho, seja ele do mundo das artes ou não.
O tema no qual o projeto se insere também é fruto de experiências acadêmicas proporcionadas por essa instituição. Ao escolher algumas matérias optativas na área de
filmes que eram produzidos em nosso país. Embora nenhuma dessas matérias tenha me dado informações específicas sobre o cinema que era e é feito no Brasil, foram elas que me muniram de conhecimentos que me permitem agora traçar paralelos interessantes entre os mercados cinematográficos brasileiro e estrangeiro, possibilitando que a construção deste TCC seja permeado por análises desse tipo. Estagiei, inclusive, na produção de um longa-metragem filmado em Salvador, no qual tive contato com profissionais da área e obviamente seus desejos e insatisfações, agregando mais informações ao meu repertório sobre o assunto.
Embora a experiência profissional que agora acumulo não seja na área de cinema, e sim na ceara da produção de exposições de artes visuais, tenho conseguido, nos últimos seis meses, extrair ensinamentos que também me guiam no momento de construir esse TCC. Meu trabalho tem me dado grandes demonstrações de como escrever projetos auxiliam na posterior realização da atividade nele descrita e mais do que isso, tenho notado que projetos culturais que promovem a implantação de bases sólidas para o consumo cultural são de enorme importância para qualquer setor da Cultura, seja através de formação de platéia, criação de centros culturais, ou projetos de formação profissional, afinal são eles que estabelecem decisivamente as bases para a apreciação e fruição de atividades culturais que serão vistas no futuro.
Assim, quando fui convidada pelo meu colega e sócio Ilan Iglesias para escrever o projeto da “Sala do Cinema Brasileiro” aceitei o convite, com a intenção de aglutinar em tal trabalho todo o conhecimento que conseguimos reunir durante quatro anos, dentro da faculdade e fora dela, podendo por a prova não só nossas habilidades de produtores, mas também de gestores culturais.
A Idéia
De acordo com a pesquisa teórica realizada sobre o cinema brasileiro no século XX, e que foi utilizada como ponto de partida deste TCC, é fato que o governo brasileiro tem, ao longo de mais de sete décadas, tentado desenvolver estratégias de promoção da cinematografia produzida no país, embora ainda não tenha conseguido estabelecer bases sólidas para um mercado exibidor forte para os filmes aqui produzidos.
A iniciativa estatal de maior durabilidade, por exemplo, é também a que está passível ao maior número de críticas. A lei de quotas, elaborada inicialmente na década de 30 e ainda em vigor (mesmo sem contar com fiscalização alguma), estabelece o número mínimo de dias que devem ser reservados à exibição de títulos nacionais dentro do circuito comercial brasileiro, mas apresenta dois grandes problemas: a falta de fiscalização, e de incentivos para sua aplicação. A lei ainda demonstra uma velha rusga entre produtores e exibidores, na qual os primeiros reivindicam o aumento do número de quotas, devido ao crescimento do número de filmes finalizados por ano; e os segundos exigem uma diminuição do número de dias dedicados às obras nacionais por conta dos prejuízos que vêm sofrendo em conseqüência da pouca audiência que tais filmes despertam.
Uma nova iniciativa, no entanto, traz alguma esperança para o setor. Com a instrução normativa número 61, realizada através da 224ª Reunião Extraordinária da diretoria colegiada da Agência Nacional do Cinema – ANCINE, em 07 de maio de 2007, ficam estabelecidos incentivos governamentais para a ampliação do mercado exibidor nacional através do financiamento de projetos de infra-estrutura técnica para o segmento de salas de exibição, sendo estes baseados na conversão ou adaptação de
de bens e serviços necessários para abrigar uma ou mais salas de exibição destinadas à fruição coletiva, de obras audiovisuais.
No entanto, dados de 2007, da própria Ancine, apontam que somente duas empresas até o ano citado pleitearam investimentos para a área de infra-estrutura: a Embracine Entretenimento S/A e a Reserva Cultural de Cinema LTDA - a primeira com foco no cinema americano, e a segunda na apresentação de filmes de arte, embora ambas baseadas em um circuito exibidor de multiplex e, portanto, nenhuma delas com interesse específico no cinema brasileiro, apresentando um ponto crítico da IN elaborada.
Assim, ficou claro que a criação das bases para um mercado exibidor sólido para os filmes nacionais deva traçar outros rumos. É justamente a partir desta constatação que surge a idéia de elaborar o projeto “Sala do Cinema Brasileiro” aqui apresentado, tomando como base as leis já existentes no país que possam beneficiar o setor cinematográfico, além de exemplos reais e dados numéricos sobre algumas redes de exibição já implantadas em território brasileiro.
O Projeto
O trabalho aqui desenvolvido foi formatado, primordialmente, de acordo com a instrução normativa número 61, e seguiu as orientações para a elaboração de projetos culturais divulgadas pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, FUNCEB, que através de um manual tem como objetivo capacitar possíveis proponentes, informar sobre as opções existentes de financiamento da cultura e aumentar o número de projetos propostos, e consequentemente, realizados.
Orientações para Elaboração de Projetos Culturais – FUNCEB:
De acordo com esse documento, um projeto cultural deve apresentar dez tópicos explicativos: apresentação, justificativa, objetivos (geral e específico), público alvo, resultados previstos, base metodológica e operacional, retorno de interesse público, avaliação dos resultados, cronograma e orçamento.
O primeiro deles, a apresentação, deve descrever os objetivos do projeto, deixando claro ao leitor do que ele se trata, onde e quando ele será realizado, quem são os envolvidos e qual o seu público alvo. Para a elaboração desse primeiro tópico, foi usada toda a pesquisa realizada ao longo dos três semestres que tivemos para desenvolver o projeto, ou seja, desde a vasta bibliografia utilizada como base teórica desse trabalho e que conta com informações sobre o mercado de vídeo e cinema em nosso país, até informações de caráter prático coletadas a partir de relatórios sobre projetos ou empresas em consonância com os pontos propostos no projeto “Sala do Cinema Brasileiro”.
O segundo tópico, a justificativa, deve apresentar as razões para a realização do projeto. Deve ser mostrado aqui, por exemplo, o seu diferencial e o que o torna importante no contexto em que ele se insere. Para fundamentação desse tópico foram utilizados, portanto: dados recolhidos em relatórios da Ancine sobre o mercado de cinema brasileiro; um estudo de caso, cujo tema central foi a cidade de Salvador, levantando sucessos e fracassos de experiências de salas de cinema alternativas, avaliando o seu impacto na sociedade local, bem como identificando as tendências do referido mercado na cidade; pesquisa de público realizada em Salvador no ano de 2007 apresentando a relação da audiência da cidade e sua freqüência ao cinema; uma pesquisa ampla sobre as vantagens e desvantagens da utilização de equipamento de
projeção digital; e estudos sobre a importância do cinema nacional para a formação cultural do povo brasileiro.
Os três próximos tópicos, mais sucintos, são explicações mais pormenorizadas, ao mesmo tempo em que mais diretas dos objetivos, do público alvo do projeto e dos resultados previstos, já citados nos dois tópicos anteriores, e que, portanto, demandaram aprofundamento teórico para serem elaborados.
Os objetivos então expuseram não só o resultado geral ao qual se pretende chegar, a implantação da “Sala do Cinema Brasileiro”, mas também algumas outras metas interessantes que poderão ser atingidas ao longo do processo. O público alvo tomou como base a mesma pesquisa de público utilizada na realização da Justificativa, assim como alguns dados quantitativos sobre o público geral de cinema no Brasil e sua freqüência. Já os resultados previstos, foram formatados de maneira a apresentar de forma clara e objetiva os resultados numéricos que se pretende atingir. Para auxiliar a elaboração desse tópico foi tomado como exemplo o perfil de público do Grupo Sala de Arte traçado pela própria empresa, e que revela parâmetros com os quais se pode traçar expectativas factíveis sobre o primeiro ano de funcionamento de uma sala de cinema de proporções reduzidas e fora de shopping center.
O tópico a seguir se chama base metodológica e operacional, e em seu corpo, dividido em duas etapas, foi demonstrado o organograma que será utilizado e a função de cada funcionário, e especificadas as quatro sessões que formam a grande fixa de programação da “Sala do Cinema Brasileiro” informando os horários e dias que tais exibições estarão disponíveis, o preço do ingresso a ser cobrado, e o objetivo de sua realização. O tópico seguinte, a lista de equipamentos, não consta como necessário no manual para elaboração de projetos culturais da Funceb, mas é fundamental para que o projeto em questão se torne mais completo, e mais explicativo. Assim, para sua
confecção foram pesquisados sistemas já utilizados no Brasil e que possam garantir excelente qualidade de exibição proporcionando ao espectador uma experiência cinematográfica completa. Assim depoimentos da rede “Severiano Ribeiro”, uma das detentoras de salas de cinema digital no país, foram utilizados como exemplo na construção desse tópico. Os equipamentos de sonorização presente no projeto também foram escolhidos por estar presente nas melhores salas de exibição ao redor do mundo.
O ponto posterior, também incluído à formatação indicada pela Funceb, chama-se projeto arquitetônico e traz sugestões sobre a parte física da instalação das dependências da sala de cinema. Para confecção deste tópico, foi necessária a ajuda de duas alunas do curso de Arquitetura da UFBA. Tomamos o TFG “Centro Audiovisual Trapiche Barnabé” de Fernanda Sampaio como modelo para estruturação arquitetônica do projeto, mas a planta e as demonstrações em 3D anexadas foram desenvolvidas por Aline Sodré.
A seguir aparece o ponto “retorno de interesse público”, que deve apontar com precisão ações e atividades culturais a serem realizadas a título de contrapartida social. O que foi realizado, portanto, neste tópico, foi um detalhamento sobre dois dos principais interesses do projeto: a formação de platéia para o Cinema nacional, e a democratização de acesso de grupos de baixa renda a atividades culturais como o cinema, que atendem não só a “Sala do Cinema Brasileiro” mas podem beneficiar todo o circuito comercial de exibição, assim como colaborar para a formação cultural dos espectadores.
O próximo ponto, a avaliação dos resultados, apresenta quais os mecanismos que serão utilizados como balizas para a verificação das metas atingidas ou não pelo projeto, uma vez que esteja em andamento. Nesse caso a sua formatação também foi baseada no
que dizem sobre o assunto, as leis de incentivo em que o projeto terá suas duas etapas, implantação e manutenção, inscritas.
Optou-se então por não formatar o que seria a parte seguinte, o cronograma. Isso porque, sendo o produto deste TCC um projeto modelo, em cada situação de sua real execução terá de ser elaborado um cronograma diferente e específico, que deverá levar em consideração inúmeras particularidades do cenário no qual sua montagem ocorrerá.
Assim a parte que se segue, o financiamento, foi aqui criada como complemento ao próximo item, o orçamento, e indica quais incentivos governamentais serão pleiteados pelo projeto, e explica de que forma esse incentivo pode ocorrer. O último tópico apresentado é, então, o orçamento, elaborado através de pesquisa de mercado, e que apresenta uma estimativa de gastos com a aquisição de todos os equipamentos a serem utilizados, assim como de outros custos básicos provenientes do funcionamento administrativo da “Sala do Cinema Brasileiro”. Para ajudar na montagem deste tópico foi formulado, inclusive, um questionário, a ser aplicado na Sala de Arte - UFBA, com o intuito de recuperar dados sobre seu funcionamento técnico e administrativo, mas, mesmo depois de inúmeros contatos, o questionário não foi respondido pela instituição citada, fazendo com que uma pesquisa teórica sobre o assunto tivesse de ser realizada.
O manual da Funceb também aponta alguns anexos e outras informações que podem ser adicionadas ao corpo escrito do projeto. São eles, por exemplo, plano de comunicação e ficha técnica, mas que não serão aqui apresentados, por conta do caráter de modelo deste projeto.
Instrução Normativa número 61 – ANCINE:
De acordo com este documento, que serve ao propósito de regulamentar a elaboração, apresentação, análise, aprovação e acompanhamento da execução de
projetos de infra-estrutura técnica para segmento de salas de exibição, algumas características devem ser incorporada ao corpo do projeto a ser apresentado. Para fins de execução deste TCC, no entanto, foram levadas em consideração somente algumas das indicações ali presentes.
Isso porque, em primeiro lugar, cada proposta deverá compreender um único complexo de exibição, fazendo com que a cada “Sala do Cinema Brasileiro” que pretenda ser implantada seja inscrito um projeto diferente. Em segundo lugar, também por conta do caráter de modelo do projeto em questão, a cada nova “filial”, a série de documentos que deverá ser apresentada se modificará de acordo com a realidade do novo proponente responsável pela sala de exibição.
No entanto, foram seguidas algumas sugestões genéricas. O orçamento global apresentado, por exemplo, restringe-se a apresentar custos relativos à aquisição de bens móveis novos, tais como equipamentos técnicos e maquinários, equipamentos complementares e serviços acessórios imprescindíveis ao pleno funcionamento da sala de exibição e fruição de obras audiovisuais pelo público, não podendo apresentar, por exemplo, despesas referentes à aquisição de direito real de propriedade e posse sobre imóvel. Outra condição incorporada, só em nível de exemplo, é a necessidade do projeto arquitetônico de contemplar acesso facilitado e privilegiado de pessoas com necessidades especiais;
Fontes Complementares: 1. Conceito de filme nacional.
Um dos primeiros pressupostos com os quais trabalhamos diz respeito à noção de filme nacional. Após muitas discussões internas sobre o que poderia ser classificado
tal rótulo, decidimos nos guiar seguindo as diretrizes da Agência Nacional de Cinema (ANCINE).
Para a ANCINE4:
“obra cinematográfica brasileira ou obra videofonográfica brasileira é aquela que atende a um dos seguintes requisitos:
a) ser produzida por empresa produtora brasileira, observado o disposto no § 1o 5, registrada na ANCINE, ser dirigida por diretor brasileiro ou
estrangeiro residente no País há mais de 3 (três) anos, e utilizar para sua produção, no mínimo, 2/3 (dois terços) de artistas e técnicos brasileiros ou residentes no Brasil há mais de 5 (cinco) anos;
b) ser realizada por empresa produtora brasileira registrada na ANCINE, em associação com empresas de outros países com os quais o Brasil mantenha acordo de co-produção cinematográfica e em consonância com os mesmos.
c) ser realizada, em regime de co-produção, por empresa produtora brasileira registrada na ANCINE, em associação com empresas de outros países com os quais o Brasil não mantenha acordo de co-produção, assegurada a titularidade de, no mínimo, 40% (quarenta por cento) dos direitos patrimoniais da obra à empresa produtora brasileira e utilizar para sua produção, no mínimo, 2/3 (dois terços) de artistas e técnicos brasileiros ou residentes no Brasil há mais de 3 (três) anos.”
4 Trecho extraído do inciso V da Medida provisória de nº 2.228-1, de 6 de setembro de 2001, disponível
no sítio da ANCINE (www.ancine.gov.br).
5 § 1o Para os fins do inciso V deste artigo, entende-se por empresa brasileira aquela constituída sob as
leis brasileiras, com sede e administração no País, cuja maioria do capital total e votante seja de titularidade direta ou indireta, de brasileiros natos ou naturalizados há mais de 10 (dez) anos, os quais devem exercer de fato e de direito o poder decisório da empresa. Idem.
2. Leis de Incentivo.
Desde a primeira lei brasileira de incentivo à produção cultural (Decreto nº. 21.240/1932 – Governo Vargas) houve a preocupação de que os projetos contemplados propiciassem uma diversificação de foco, de modo a englobar ao mesmo tempo grandes e pequenas produções, além de que seu alcance atingisse a qualquer área da cultura, compreendendo entre outros, segmentos como: teatro, dança, circo, ópera, mímica e congêneres: produção cinematográfica, videográfica, fotográfica, discográfica e congêneres; literatura, inclusive obras de referência; música; artes plásticas, artes gráficas, gravuras, cartazes, filatelia e outras congêneres; folclore e artesanato; patrimônio cultural, inclusive histórico, arquitetônico, arqueológico, bibliotecas, museus, arquivos e demais acervos; humanidades; e rádio ou televisão, educativas e culturais, de caráter não-comercial.
Como resultado de todo o esforço e inovação na criação de mecanismos legais de fomento às produções cinematográficas nacionais, viabilizando marketing cultural a custo zero aos patrocinadores, temos hoje, por exemplo, uma nova e dinâmica fase de crescimento do cinema nacional, com excelentes resultados de público e crítica que elevam a qualidade das produções nacionais no mercado internacional e trazem ótimos resultados de investimento à imagem dos investidores no setor.
A possibilidade de o cinema brasileiro ser competitivo só será possível com uma parceria entre Estado e empresas. Só no ano passado (em 1999), gastamos 650 milhões de dólares importando filmes. Gastamos, por ano, menos de 1% disso para incentivas o cinema no páis, no período de 1995-1999. (WEFFORT, s./d.)
Em relação ao projeto “Sala do Cinema Brasileiro” tivemos de realizar uma pesquisa sobre as leis federais viáveis através das quais tanto a implantação da sala,
quanto sua manutenção pudessem ser beneficiadas. Segue aqui, portanto, um breve resumo sobre as duas leis pesquisadas: Lei Rouanet e Lei do Audiovisual.
• Lei Rouanet
A Lei nº. 8.813, de 23 de dezembro de 1991, também apelidada de Lei Rouanet, instituiu o Programa Nacional de Incentivo à Cultura (PRONAC), com a finalidade de captar e canalizar recursos para o setor cultural brasileiro, e regulamentando incentivos fiscais federais para projetos cultuais.
Essa lei é considerada um marco no fomento a atividade cultural e audiovisual brasileira, tendo contribuído fortemente para o crescimento do setor através da criação de mecanismos de isenção tributária parcial a pessoas físicas e jurídicas que investirem em doações, patrocínios e contribuições a obras cinematográficas brasileiras, oportunizando a esses investidores excelente retorno financeiro e de marketing.
Como mecanismos para implantação, desenvolvimento e fomento de projetos que democratizem o acesso da população aos bens e valores artísticos e culturais, foi também instituído o Fundo Nacional de Cultura (FNC) e os Fundos de Investimento Cultural e Artístico (FICART), visando direcionar o maior volume possível de recursos arrecadados às atividades de criação do produto cultural.
Fruto dessa lei, atualmente os patrocínios e doações oriundos de pessoas físicas e jurídicas são direcionadas aos projetos aprovados pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), permitindo aos contribuintes colaboradores o abatimento/redução proporcional de tais contribuições do Imposto de Renda devido. Contudo, a Lei Rouanet vinculou tais possibilidades de incentivos fiscais só aos projetos de caráter público excluindo a possibilidade de extensão do beneficio a projetos exibidos em circuitos culturais fechados e particulares.
A aplicação dos recursos captados por projetos beneficiados pelo PRONAC é destinada a cinco grupos de atividades: incentivo a formação artística e cultural; fomento a produção artística e cultural; conservação e divulgação do patrimônio artístico, cultural e histórico; estimulo ao conhecimento dos bens e valores culturais; e apoio a outras atividades culturais e artísticas – como, por exemplo, realização de missões culturais no País e no exterior e contratação de serviços para elaboração de projetos culturais.
• Lei do Audiovisual
A Lei nº 8.685, de 20 de julho de 1993, também conhecida como Lei do Audiovisual, criou importantes mecanismos de fomento à atividade audiovisual, e permite à pessoa física deduzir do Imposto de Renda 3% do imposto devido com gastos (ou investimentos) em cultura, enquanto que o percentual cai para 1% no caso de pessoas jurídicas, sendo que o limite máximo de aporte de recursos por projeto é de três milhões de Reais.
Algumas novas e importantes formas de incentivo aos investimentos feitos em produções cinematográficas foram criadas por meio dessa lei. Pelo menos uma delas é essencial para a formulação deste TCC: os projetos específicos da área audiovisual, cinematográfica de exibição, distribuição e infra-estrutura técnica apresentados por empresa brasileira de capital nacional, poderão, pela primeira vez, ser credenciados pelos Ministérios da Fazenda e da Cultura para fruição de incentivos fiscais.
A ação desta lei veio a somar-se aos mecanismos previstos na Lei Rouanet, possibilitando que um projeto audiovisual possa se beneficiar dos dois mecanismos ao mesmo tempo, como pleiteia o produto deste trabalho, desde que para financiar despesas distintas.
3. Cinema Digital.
Um dos pontos que se tornaram fundamentais durante a realização do projeto da “Sala do Cinema Brasileiro” foi a discussão sobre o cinema digital. A escolha por equipamentos de projeção deste tipo se pautou no interesse de proporcionar ao espectador a melhor experiência cinematográfica possível, aliada a equipamentos de última geração, utilizados pelas melhores redes exibidoras ao redor do mundo, apresentando funcionalidade de operação e, finalmente, respeitando a evolução natural do mercado exibidor.
Isso porque, apesar das inegáveis vantagens que a permitiram sobreviver ao longo de mais de um século, a película de 35 mm apresenta limitações técnicas intrínsecas. Para começar, apesar dos progressos realizados pelos fabricantes de película, o grão básico do suporte cromático não pode se reduzir abaixo de seu tamanho atual, ou seja, a textura da imagem já está perto de seu nível máximo. Em segundo lugar, a luminosidade dos projetores não pode aumentar indefinidamente, uma vez que a capacidade das lâmpadas disponíveis atualmente já apresenta importantes problemas de resfriamento, e se ela se tornar um pouco maior, o calor que produziriam as lâmpadas acabaria derretendo a película. Finalmente, os rolos de 35 mm atraem a poeira e estão propensos ao desgaste mecânico, que prejudica a qualidade da projeção.
Na projeção digital, no entanto, as imagens estão totalmente livres da poeira e dos riscos. Os espectadores não podem perceber deterioração alguma, nem sequer depois de centenas de projeções. Não existem variações de luminosidade e a imagem é perfeitamente estável já que não entra em jogo nenhuma peça mecânica. Com a tecnologia digital, é possível ainda projetar imagens em telas maiores que 15 metros de largura, com resoluções e níveis de contraste equivalentes e até superiores a 35mm.
Mas além dos benefícios técnicos que ela traz, uma de suas maiores vantagens reside na possibilidade de não somente exibir filmes com imagem digital, dispensando, com ganho de qualidade, o uso da tradicional película, mas também de projetar quaisquer produções realizadas digitalmente, como séries de TV, shows ou competições esportivas, eventos corporativos, videoconferências etc.
Na verdade, a exibição cinematográfica será um dos últimos segmentos da indústria a adotar a tecnologia digital, já amplamente utilizada na realização e finalização de produtos audiovisuais, mas a transição digital é um fato. Sobre isso, é importante, inclusive, dizer que somente nos EUA já existem 4,6 mil salas operando no sistema digital, e a expectativa é de que até dezembro de 2009 sejam assinados contratos que atinjam 22 mil salas, o que significa que até o fim do ano que vem cerca de 70% do circuito exibidor americano poderá estar operando com projeção digital.
Além disso, os padrões de projeção digital adotados para exibição de filmes, foram estabelecido através do Digital Cinema Initiative, um comitê criado pelos sete grandes estúdios de Hollywood (Warner, Fox, Universal, Paramount, Disney, DreamWorks e Sony) detentores de grande fatia do mercado mundial e que, portanto, influenciam nos circuitos de exibição em todo o mundo.
Países como a França, o Reino Unido, a Austrália e até a Venezuela também já encaminharam o processo de transição digital, com a criação de seus próprios padrões de exibição, obviamente compatíveis com os do DCI, e a elaboração de projetos de incentivo para a construção de salas digitais. Resta ao Brasil, portanto, acompanhar as mudanças tecnológicas que determinam o mercado exibidor ao redor do mundo, abocanhando a parcela de espectadores que lhe cabe.