Os cemitérios também falam: a Natal sob a ótica do espaço do morto

12 

Texto

(1)

1

Os cemitérios também falam: a Natal sob a ótica do espaço do morto

Diego Fontes de Souza Tavares*

INSCRIÇÃO PARA O PORTÃO DE UM CEMITÈRIO Na mesma pedra se encontram, Conforme o povo traduz, Quando se nasce – uma estrela, Quando se morre – uma cruz. Mas quantos que aqui repousam Hão de emendar-nos assim: “Ponham-me a cruz no princípio E a luz da estrela no fim!” (Mario Quintana)

O gaúcho Mário Quintana, usando da liberdade que é peculiar à arte, expressou poeticamente sua representação sobre a vida e a morte propondo a elaboração de uma inscrição para um cemitério. Para Quintana a vida é um fardo e a morte uma vitória. Desse modo, o poeta propõe que o cemitério, espaço do morto, tenha uma inscrição que enalteça a morte. Independentemente da percepção do autor sobre a vida e a morte, pode-se constatar na sua interpretação a fixação do cemitério como o lugar do morto. A sentença naturaliza uma ideia: cemitério é o destino dos que morrem. Entretanto, a naturalização dessa ideia nos instiga a pensar como historicamente povos e culturas têm encontrado soluções para os corpos dos seus mortos.

Na contemporaneidade parecem naturalizados os cuidados com o morto e com os espaços específicos que eles devem ficar. Entretanto, na transição do século XIX para o século XX essa discussão ganhou contornos especiais. Naquela época emergiam concepções

* Graduando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Email: diegofontes.tavares@outlook.com

(2)

2 cientificistas e higienistas que argumentavam em favor da construção de um lugar exclusivo para abrigar os mortos.

Durante muitos séculos prevaleceu no Ocidente a prática de sepultar os mortos nos templos católicos. Esses sepultamentos apresentavam uma série de problemas, tais como: a falta de espaços suficientes para os corpos e o mau-cheiro que exalavam dos cadáveres enterrados. Além disso, em razão da preocupação da Igreja católica com a alma do morto, os vivos começam a se apiedar dos restos mortais dos seus entes e a procurar um local específico para venerá-los dentro do templo religioso. Assim, à medida que aumentava a quantidade de mortos, tornava-se impossível um lugar destacado para cada corpo.

De acordo Bayard (BAYARD, 1996: 240), desde o século XVIII têm-se notícias de administradores que procuram impedir o sepultamento de mortos nas igrejas. Nesse sentido, o autor indica que, em 1776, o rei francês Luís XVI determinou que apenas arcebispos, bispos, curas, patronos de igrejas e fundadores de capelas poderiam ser enterrados nas igrejas. Assim, ainda no século XVIII foi retomado o costume romano de construir cemitérios fora dos muros das cidades1.

Todavia, os estudos atuais demonstram que só a partir do século XIX a prática de sepultar mortos nas igrejas passou a ser alvo de debates em que apareciam duas posições claramente definidas: por um lado, a Igreja Católica e as irmandades religiosas defendiam a manutenção dos sepultamentos nos templos; por outro, os médicos e os sanitaristas advogavam a tese de que para evitar a proliferação de doenças era fundamental a construção de cemitérios fora dos muros da cidade.

Segundo Cymbalista (CYMBALISTA, 2002: 43), no Brasil a Carta Régia nº 18, de 14 de janeiro de 1808, foi a primeira medida legal que impedia os enterros nos templos religiosos. Por essa Carta, as cidades precisavam edificar cemitérios fora dos seus muros. Entretanto, essa lei nunca foi aplicada. Uma segunda tentativa de regulamentação do tema foi tomada por Dom

1 Havia o costume nas cidades romanas de os cemitérios serem implantados fora dos limites da urbe, sendo

(3)

3 Pedro I, por meio da decisão número 265, de 17 de novembro de 1825. Por essa decisão foi determinada a transferência para fora da cidade do cemitério da matriz de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Apesar de ter validade apenas no Rio de Janeiro, essa lei foi importante por legalizar a construção de um cemitério fora das cidades.

Em 1º de outubro de 1828 o Império brasileiro, ao instituir as câmaras municipais, regulamentou, entre outras coisas, o sepultamento fora das igrejas e recomendou que as Câmaras locais adotassem a construção de cemitérios. Assim, de 1828 até por volta da década de 1860, o sepultamento dos mortos fora das Igrejas ficou submetido às decisões das Câmaras Municipais.

Postas essas questões, fica claro que o cemitério, nos moldes que conhecemos hoje, surgiu no Brasil a partir do século XIX e sua existência esteve relacionada à criação de leis oficiais. Em geral, pode-se afirmar que não há uma história homogênea dos cemitérios brasileiros, pois em cada lugar existiam regras próprias.

Entretanto, nota-se que no contexto do século XIX ocorreram manifestações favoráveis e contrárias à existência do cemitério. Esses conflitos – entre o proclamado pelas leis oficiais e as manifestações da população contrárias a essas leis – estavam diretamente associados ao imaginário até então vigente que se estruturava em torno de uma lógica que dividia o mundo entre locais sagrados e locais profanos. Durante séculos a sociedade conviveu com um pensamento de que o único lugar sagrado eram as igrejas e, nessa condição, elas seriam o lugar seguro para o sepultamento dos mortos.

O cemitério do Alecrim

Foi em meados do século XIX que ocorreu a construção do Cemitério do Alecrim em Natal. Naquele momento emergiam na cidade os discursos higienistas e as ideias de urbanização da cidade. Esses discursos exaltavam em especial os enterros extramuros e combate aos

(4)

4 miasmas2. Vivia-se um momento peculiar da história da humanidade com o rompimento de paradigmas até então vigente. Esse era o caso, por exemplo, das concepções sobre o contágio das doenças. Da Antiguidade até o século XIX a ideia que se tinha na sociedade ocidental era que as doenças eram contraídas pelos miasmas. A partir desse século, com a descoberta dos micróbios e das bactérias, a lógica sobre os contágios foi profundamente alterada.

Em sintonia com os avanços da ciência se descobriu a causa de uma doença que vitimou muitos natalenses no século XIX: a Cólera-morbo. A forte disseminação da doença no séc. XIX foi intensa devido à precária situação sanitária em que se encontravam as cidades. A Natal oitocentista, tinha o saneamento raro e a distribuição de água potável muito escassa, o que contribuía para a contaminação de fontes de água.

Vários autores já demonstraram que os cemitérios construídos especificamente em espaços extramuros da cidade surgiram em contraposição às práticas de sepultamento no interior das igrejas e em locais de confraria3. Na visão dos higienistas e urbanistas da segunda

metade do século XIX e das primeiras décadas do século XX, essas práticas anteriores aos cemitérios representavam (embora uma forma segura de salvação para o fiel) um grande perigo para a saúde pública e à higiene da sociedade em geral e dos cidadãos, em particular.

Nesse contexto tinha na sociedade natalense um embate entre o discurso religioso e o higienista4, influenciados pelas ideias miasmáticas e iluministas; dentre elas, a ideia de que os miasmas eram os responsáveis pela disseminação de doenças e sua vasta contaminação5. A

2 Para Martins, “eram considerados miasmas as impurezas existentes no ar. Supunha-se que os miasmas se

originavam a partir de exalações de pessoas e animais doentes, emanações dos pântanos, de dejetos e substâncias em decomposição.” (MARTINS, 2006: 68-73)

3 Alguns dos trabalhos que discutem o tema são os de: ALMEIDA (2007), ARIÈS (1977), BAYARD (1996),

CATROGA (1999) REIS (1991), SANTOS (2011).

4 Segundo Reis, ao trabalhar com semelhante área na Bahia oitocentista, descreve que “havia todo um caráter

heróico na imagem do médico [pois eram] conhecedores de remédios para as calamidades públicas de cunho sanitário e tentando impor costumes saudáveis em um contexto de não saneamento básico e falta de bons costumes”. (REIS, 1991: 249-50)

5 Essa nova atitude se fundamentava na doutrina científica desenvolvida no século XVIII. Acreditava-se que

(5)

5 população ficava à mercê desses miasmas ao frequentarem as missas, pois havia o costume no catolicismo popular de ser enterrado nas igrejas, fazendo essa prática parte das formas do “bem morrer6”.

A incorporação das ideias higienistas, o cuidado com a proliferação das doenças e o poder da Câmara Municipal para construir cemitérios fora dos muros da cidade, elegeu o Alecrim – espaço distante da cidade – para que abrigasse o primeiro cemitério público de Natal. O bairro do Alecrim foi criado em 1911, mas o Cemitério é datado a 1856. Desta forma, percebe-se que o cemitério do bairro surgiu antes do mesmo, entendendo, com isso, que havia um interesse imediato na construção desse cemitério por parte das autoridades oficiais, e esta se deve à epidemia de Cólera-morbo que aumentou a mortalidade geral da cidade, fazendo-se necessário um grande cemitério que atendesse às necessidades da população e do descaso em que esta se passava7.

Foi em 1855, quando era presidente Antonio Bernardo de Passos, através da Resolução nº 323, de 2 de Agosto do mesmo ano, autorizada a quantia de dois contos de réis para a construção de um cemitério na capital8. Com a quantia autorizada pelo presidente da província,

no dia 8 de fevereiro de 1856, no Palácio do Governo da Rua da Cruz, firmou-se o contrato com o mestre Manuel da Costa Reis para ser construído o primeiro cemitério público em Natal, localizado “[...] na explanada que fica no caminho das Quintas, junto à bifurcação da estrada de Pitimbu (CASCUDO, 2010: 323)”.

– temperatura, umidade, direção dos ventos – formavam vapores ou miasmas daninhos à saúde, infectando o ar que se respirava. (Id Ibidem, p. 75)

6 João José Reis em sua obra A morte é uma festa cunha esse termo para referenciar práticas post mortem

oitocentistas (que muitas perduram aos dias atuais) que legitimavam a salvação da alma. Dentre algumas, a elaboração do testamento, a escolha da mortalha, o local da sepultura, o número de missas a serem rezadas ao morto, o funeral e missa fúnebre etc.

7 Para compreender a causa dessa construção, ver TAVARES (2014)

(6)

6 Os cemitérios como fontes históricas

No tocante à discussão historiográfica sobre a morte e o cemitério, pode-se afirmar que ela só começou a ser estudada por Philippe Ariès, com o advento da Escola dos Annales, em meados do século XX, liderada por Marc Bloch e Lucien Febvre. Integrante da Escola dos Annales, o historiador Philippe Áries, narra como o homem ocidental vem concebendo a morte, desde a Idade Média aos nossos dias atuais, tendo como fonte de questionamento a naturalização que era tratada a morte e o processo do morrer no mundo ocidental contemporâneo.

A partir dos Annales, houve uma ruptura com a tradição historiográfica – que atentava para eixos temáticos mais “importantes” ligados à política, economia e caráter social – e temáticas da vertente da cultura, sensibilidades, gênero e identidades etc. foram florescendo (REIS, 2004).

De acordo como a Nova História conceituou as fontes, podemos incluir os cemitérios como importantes fontes documentais, que refletem o pensamento e imaginário sobre a morte e o morrer na/da sociedade em que foram construídos. A incorporação da noção de cemitério como um documento histórico se relaciona com a ampliação da ideia de documento, tão inovadora nos Annales. Seguindo esse raciocínio Le Goff afirma:

A história faz-se com documentos escritos, sem dúvida. Quando estes existem. Mas pode fazer-se sem documentos escritos, quando não existem. Com tudo o que a habilidade do historiador lhe permite utilizar para fabricar o seu mel, nas falta das flores habituais. [...] tudo o que, pertencendo ao homem, dependo do homem, serve ao homem, exprime o homem, demonstra sua presença, a atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem (LE GOFF, 1990: 540).

Concebemos os cemitérios como ambientes que refletem o ideário da morte da época da sociedade em que foram construídos, espaços de cultura, memória e arte. Seguindo as perspectivas da história cultural e história da arte podemos compreender a essência contida

(7)

7 nesses lugares, que no senso comum são estigmatizados e atribuídos conceitos como macabro, mórbido, dentre outros que acabam por difundir uma imagem errônea destes espaços.

Nessa perspectiva, os cemitérios tornaram-se lugares simbólicos. Para Almeida,

Os túmulos, os mausoléus, a arquitetura e estatuária tumular traduzem ideias, sentimentos, vontades e valores acerca do culto aos mortos, da preservação da memória dos antepassados, bem como exprimem as expectativas e confrontos experimentados pelos vivos. É um ambiente que fala do poder cristalizado nos signos e emblemas que ornamentam túmulos, lápides e jazigos. Enxergar as imagens no espaço cemiterial e delas absorver, ao máximo, os possíveis significados, as mensagens subjacentes é, sob nosso ponto de vista, uma possibilidade de compreensão e valorização (ALMEIDA, 2007: 35).

Para Fernando Catroga, mentor da “revolução romântica dos cemitérios”, defende que o túmulo é a sobrevivência da memória do morto, um marco da memória e um memorial nas sociedades que cultuam esses monumentos. Para esse estudioso

o cemitério revela esteticamente o próprio inconsciente da sociedade através de uma trama simbólica, estruturada e organizada à volta de certos temas e mitos unificados por esta tarefa: reforçar, depois do caos, o cosmos dos vivos e imobilizar o devir, mesmo que se tenha de recorrer ao contraste (ambíguo) da imortalidade com o curso irreversível do tempo e da vida (CATROGA, 1999: 19).

Ainda tratando dos túmulos como locais de memória e fonte histórica, vale salientar o que pensa Renata Nogueira quando afirma que

Nos cemitérios tradicionais, aqueles que contêm construções funerárias, signos e dizeres, entre outras características, é perceptível a articulação de duas dimensões diferentes: uma visível, caracterizada pelas construções soerguidas sobre o solo, e uma invisível, situada sob a terra. A parte visível, ou seja, os túmulos tem como função encobrir o corpo jacente, transmitindo às gerações sequentes signos capazes de individualizar a representação do finado. Eternizada pela necessidade de contrariar o esquecimento, a memória do morto, representada por esse simbolismo, dá validade à mesma ação que provoca o esquecimento, ou seja, a morte (NOGUEIRA, 2013: 76).

(8)

8 Semelhante proposta assume Aleida Assmann ao tratar dos túmulos enquanto locais de recordação e detentores da fama do morto. Ao discorrer sobre os túmulos como locais que indicam não só a localização em que está o corpo enterrado, ela também denota o caráter honorífico dos túmulos, e critica a prática de traslado de túmulos e sua substituição por monumentos, ao afirmar que os monumentos bem conservados indicam quem, mas não onde a pessoa está enterrada, e justamente o onde é o mais importante (ASSMANN, 2011: 345). Ela afirma que tal ação é respaldada no interesse de uma memória dos mortos que se prende a um local e o consagrado pela presença do morto. No entanto, tal prática se confronta com as exigências da modernidade que se desvincula dessa atitude piedosa face aos mortos e que literalmente exuma do solo a lembrança nele ancorada, a transferindo para memoriais em locais não específicos.

A patrimonialização do Cemitério do Alecrim

Com mais de 150 anos de história, o Cemitério do Alecrim vem se tornando um centro histórico/cultural em Natal, ao ponto de ter sido tombado em 1º de Novembro de 2011, pela prefeita em exercício, Micarla de Souza, data que o bairro do Alecrim comemorava seu centenário, tendo, no entanto, o cemitério 155 anos. Segundo consta no Decreto 9.541, de 1º de Novembro de 2011:

Art. 1º - Fica decretado o Tombamento do Cemitério Municipal do Alecrim, situado entre as Ruas Tenente Alberto Gomes, Av. Fonseca e Silva, Rua Manoel Vitorino e Av. Governador, Alecrim, Município de Natal, por seu valor histórico e arquitetônico9.

A atribuição de cemitérios como locais de memória vem se tornando cada vez mais frequente. Apesar de a memória ser processada e guardada internamente, ela necessita de certos

(9)

9 mecanismos que a estimulam e ativam, pois a mesma não se projeta no vazio (HALBWACHS, 1990). Partindo dessa premissa, espaços construídos onde realizamos passagens históricas ou emocionais, eventos e práticas do dia-a-dia podem vir a ser possíveis referenciais para a projeção da memória. Envolvido nessas questões, Pierre Nora desenvolve seu estudo sobre a problemática dos lugares (NORA, 1993), no qual afirma que não existe mais memória, assim sendo necessário a criação de lugares de memória para retomar da história do indivíduo e do coletivo, tendo como objetivo a reestruturação do presente. Nora ainda alerta sobre o fato de que a desatenção causada pela aceleração da vida diária pode induzir ao esquecimento até mesmo desses espaços de memória, pois “a memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto” (NORA, 1993). Segundo Le Goff,

Lugares topográficos, como os arquivos, as bibliotecas, os museus; lugares monumentais como os cemitérios ou as arquiteturas, lugares simbólicos como as comemorações, as peregrinações, os aniversários ou os emblemas; lugares funcionais como os manuais, as autobiografias ou as associações: estes memoriais tem sua história (LE GOFF, 1990: 473).

Com isso, entende-se a importância no tombamento do Cemitério do Alecrim como uma valorização da história local, tendo em vista a grande presença de pessoas influentes não só no âmbito politico, mas também religioso dentre outras áreas. Para se fazer uma pequena listagem de pessoas que obtiveram notoriedade no Rio Grande entre os séculos XIX e XX, e que aqui estão enterrados, encontram-se: Juvino Cezar Paes Barreto; Pe. João Maria Cavalcanti de Brito; Cel. Elias Antonio Ferreira Souto; Pedro Velho de Albuquerque Maranhão; João Severino da Câmara e Januário Cicco; o ex-presidente da República Café Filho; o folclorista Luiz da Câmara Cascudo; o militar que virou mártir quando morto na intentona comunista: o soldado Luiz Gonzaga e o ex-prefeito de Natal Djalma Maranhão. Muitos são os menos favorecidos (e reconhecidos), que também jazem no Cemitério do Alecrim.

Além da relevância histórica e do caráter de salvaguardar a memoria que houve no tombamento do Cemitério do Alecrim, teve-se também a intenção de preservação da arquitetura

(10)

10 cemiterial e dos túmulos, conforme se vê na apresentação da Proposta de Tombamento do Cemitério do Alecrim, lê-se que tinham como objetivos “sua utilização como um guia básico e técnico para respaldar futuras intervenções físicas, [bem como] por se tratar de relevante acervo arquitetônico e histórico da cultura potiguar” (PROPOSTA de tombamento: Preservação do Cemitério do Alecrim, 2010, p. 6). Logo, nota-se a importância do tombamento também como forma de preservação de futuras intervenções com danos ao patrimônio.

Considerações finais

Tratar de morte e cemitérios na sociedade cristã brasileira é, embora contraditório – pois o cristão concebe a morte como o início da vida, “desvalorizando” a morte e a matéria como “pó que retornamos”, desvalorizando os cemitérios e refutando o culto ao morto – um assunto ainda tabu e deveras repulsivo. Mesmo em meio a historiadores e antropólogos o assunto ainda é mau visto. No entanto, um dos objetivos do historiador é justamente o de desnaturalizar convenções sociais e mostrar suas origens e causas, meta por nós seguida nesse trabalho, ao se debruçar sobre temáticas como morte e cemitérios, usando como recorte espacial o Cemitério do Alecrim em Natal e a temporalidade entre 1847 e 1859 para desnaturalizar essa ideia macabra que envolve os cemitérios e entender que os mesmos (cemitérios públicos) e as formas de tratar o morto e a morte não foram sempre feitas como se pensa.

Além da importancia já dita, o trabalho ainda serve à historiografia norte-riograndense e natalense, além de que à historiografia brasileira, ao discorrer, embora de maneira embrionária, sobre o uso de cemitérios como fontes históricas e a importancia destes nas sociedades e cultura em que estão construídos

(11)

11 Referências Bibliográficas

ARIÈS, Philippe. História da morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Rio de Janeiro: F. Alves, 1977

ASSMAN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Tradução: Paulo Soethe. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011.

ALMEIDA, Marcelina das Graças de. Morte, cultura, memória: múltiplas interseções: uma interpretação acerca dos cemitérios oitocentistas situados nas cidades do Porto e Belo Horizonte. 2007. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte. BAYARD, Jean-Pierre. Sentido oculto dos ritos mortuários: morrer é morrer?. São Paulo: Paulus, 1996.

CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. 4. ed. Natal: EDUFRN, 2010. CATROGA, Fernando. O céu da memória: cemitério romântico e culto cívico dos mortos em Portugal 1756-1911. Coimbra: Liv. Minerva Editora, 1999.

CYMBALISTA, Renato. Cidades dos vivos: arquitetura e atitudes perante a morte nos cemitérios do estado de São Paulo. São Paulo: Annablume, 2002.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1990.

MARTINS, Lilian Al-Chuyer Pereira; MARTINS, Roberto de A. Os miasmas e a teoria microbiana das doenças. Scientific American Brasil [Série História], n. 6, p. 68-73, 2006. NOGUEIRA, Renata de Souza. Quando um cemitério é patrimônio cultural. 2013. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo: PUC/SP, n.10, 1993.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1990.

PROPOSTA de Tombamento: preservação do Cemitério do Alecrim. Natal: SEMURB, 2010. REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

(12)

12 SANTOS, Alcineia Rodrigues dos. O processo de dessacralização da morte e a instalação de cemitérios no Seridó, séculos XIX e XX . 2011. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Goiás, Goiana.

TAVARES, Diego Fontes de Souza. O espaço do morto: uma história do Cemitério do Alecrim (1856-1931). 2014. Monografia – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.

Imagem

Referências

temas relacionados :