INSTITUTO DE F´ISICA
Diagrama de Fase do Estado Normal e
Supercondutor dos Compostos Baseados em
Camadas de BiS
2Rodrigo Arouca de Albuquerque
Disserta¸c˜ao de Mestrado apresentada ao Programa de P´os-Gradua¸c˜ao em F´ısica do Instituto de F´ısica da Uni-versidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necess´arios `a obten¸c˜ao do t´ıtulo de Mestre em Ciˆencias (F´ısica).
Orientador: Mohammed ElMassalami Mohammed
Rio de Janeiro Abril de 2017
Programa de P´os-gradua¸c˜ao em F´ısica, 2013. Referˆencias Bibliogr´aficas: f. 124-145.
1. Introdu¸c˜ao. 2. Uma Base Te´orica: Semicondutores Dopados e Sistemas Granulares 3. O Diagrama de Fase dos Calco-genetos do Bismuto. 4. Confirma¸c˜ao Experimental de Granularidade em Monocristais de LaO1 – xFxBiS2. I. ElMassalami, Mohammed
El-Massalami. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de F´ısica, Programa de P´os-gradua¸c˜ao em F´ısica. III. Supercondutivi-dade e Estado Normal nos Calcogenetos de Bismuto.
Resumo
Diagrama de Fase do Estado Normal e
Supercondutor dos Compostos Baseados em
Camadas de BiS
2Rodrigo Arouca de Albuquerque
Orientador: Mohammed ElMassalami Mohammed
Resumo da Disserta¸c˜ao de Mestrado apresentada ao Programa de P´ os-Gradua¸c˜ao em F´ısica do Instituto de F´ısica da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necess´arios `a obten¸c˜ao do t´ıtulo de Mestre em Ciˆencias (F´ısica).
Nessa disserta¸c˜ao, analisamos o diagrama de fase do estado normal e supercondutor da fam´ılia recentemente descoberta de compostos baseados em camadas de BiS2. Como pode
ser visto a partir de dois exemplos ilustrativos, LaO1 – xFxBiS2 e Sr1 – xLaxFBiS2, a
dopa-gem x modifica o c´arater isolante do composto pai de um isolante de banda n˜ao magn´etico para um estado met´alico em uma concentra¸c˜ao cr´ıtica xMIT, que marca a transi¸c˜ao
metal-isolante. Uma maior dopagem leva a um estado supercondutor em temperaturas da ordem de 10 K. Essa dependˆencia com x ´e usualmente capturada em um diagrama de fase x − T aonde x ´e a concentra¸c˜ao de dopantes e T representa todas as temperaturas de crosso-ver e transi¸c˜oes que ocorrem nas medidas da evolu¸c˜ao t´ermica de qualquer propriedade termodinˆamica ou eletrˆonica do material como a resistividade el´etrica (principal interesse dessa disserta¸c˜ao).
Durante nossa an´alise desses diagramas de fase, observamos que a evolu¸c˜ao t´ermica da resistividade ρ(T ) dessas amostras com x > xMIT manifesta um comportamento tipo
dera¸c˜oes acima (o composto pai ser um isolante de banda dopado e a granularidade) nos levou a analisar as caracter´ısticas globais do diagrama de fase desses sistemas baseados em BiS2 em termos de dois cen´arios: (i) o modelo de Mott-Efros-Shklovskii que descreve
a influˆencia da dopagem nas propriedades de transporte no intervalo 0 < x < xMIT e (ii)
o modelo de supercondutores granulares que descreve a influˆencia da granularidade nas propriedades normais e supercondutoras no intervalo xMIT < x < xsol (xsol sendo o limite
de solubilidade). A origem das propriedades semicondutores e granulares ser˜ao discuti-das. Em particular, mostramos como um diagrama de fase x − T pode ser mapeado em um diagrama de fase g − T mais fundamental (g sendo a condutˆancia adimensional) o que nos permite discutir o mecanismo b´asico por tr´as da influˆencia da granularidade nas propriedades do estado normal e supercondutor.
Palavras-chave: Calcogenetos de Bismuto, Supercondutividade, Resistividade, Sis-temas Granulares
Abstract
Normal and superconducting state phase diagram of
layered BiS
2-based compounds
Rodrigo Arouca de Albuquerque
Advisor: Mohammed ElMassalami Mohammed
Abstract da Disserta¸c˜ao de Mestrado apresentada ao Programa de P´ os-Gradua¸c˜ao em F´ısica do Instituto de F´ısica da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necess´arios `a obten¸c˜ao do t´ıtulo de Mestre em Ciˆencias (F´ısica).
In this dissertation, we analyzed the normal and superconducting phase diagram of the recently discovered, layered BiS2-based family of compounds. As can be seen in the
two illustrative examples LaO1 – xFxBiS2 and Sr1 – xLaxFBiS2, chemical doping x modifies
the insulating character of the the originally nonmagnetic band-insulator parent into a metallic state at a critical concentration xMIT, which marks a metal-insulator transition.
A further increase of doping leads to a superconducting state at temperatures of the order of 10K. Such an x-dependent variation is usually captured by an x − T phase diagram wherein x is the dopant concentration while T represents all the crossover or transition events occurring in a measurements of a thermal evolution of any thermodynamical or electronic property such as the resistivity (the main concern of this dissertation).
During our analysis of these phase diagrams, we observed that the thermal evolution of the resistivity ρ(T ) of samples having x > xMIT manifest a semiconducting like
beha-vior, ∂T∂ρ < 0, instead of an expected metallic character, ∂T∂ρ > 0. This unexpected feature is manifested as the superconducting state emerging out of an insulating normal phase.
a Mott-Efros-Shklovskii scenario which describes the doping influence on the transport properties within the range 0< x < xMIT and (ii) a granular superconductor scenario
which describes the influence of granularity on the normal and superconducting proper-ties within the range xMIT < x < xsol (xsol is the limit of solubility). The origin of the
semiconducting features as well as that of the granularity will be discussed. In particu-lar, we show that the x − T phase diagram can be mapped into the more fundamental g − T phase diagram (g is a adimensional conductance) which will allow us to discuss the basic mechanism behind the influence of granularity on the normal and superconducting properties.
Agradecimentos
Aqui est´a uma parte complicada dessa disserta¸c˜ao, principalmente por escrever sem revis˜ao, o que a faz ter um tamanho e conte´udo t˜ao d´ıspar do resto dessa disserta¸c˜ao. Contudo, como n˜ao tenho muito o h´abito de agradecer, acho que ´e cabido aqui um certo exagero 1, refor¸cado pelo fato que o n´umero de pessoas a quem sou grato tanto por seu
apoio quanto por serem compreensivos com minhas faltas ´e imenso.
N˜ao saberia como come¸car os agradecimentos sem ser aos meus professores, que fazem com que me reapaixone a cada dia pela f´ısica e pelo meio acadˆemico. Dessa forma, meu primeiro agradecimento vai ao Prof. Mohammed ElMassalami sem o qual com certeza essa disserta¸c˜ao n˜ao teria sido escrita. Sou muito grato a ele pela paciˆencia de aturar um te´orico travestido de experimental, por estar sempre dispon´ıvel e disposto e por mostrar como as perguntas s˜ao partes essenciais no processo cient´ıfico. Espero que essa disserta¸c˜ao tenha conseguido refletir o quanto aprendi na jornada que foi meu mestrado. Certamente esse trabalho n˜ao seria poss´ıvel sem a ajuda dos Profs. Carlos Maur´ıcio Chaves e Marcello Neto, pelas valiosas discuss˜oes, e da Profa. Elis Sinnecker pelas medidas no PPMS. Tamb´em agrade¸co profundamente ao Prof. Luca Moriconi pelos primeiros passos no mundo acadˆemico de fato e pela profunda impress˜ao que me causaram os v´arios 2 cursos que fiz com ele, os sete per´ıodos de Inicia¸c˜ao e os bate papos infomais que estimo tanto. N˜ao sei se chegaria a fazer um mestrado n˜ao fosse o contato com ele. Ainda, gostaria de agredecer aos Profs. Takeshi Kodama e Paulo Am´erico Neto cujos cursos acredito que me tornaram um f´ısico melhor3.
1E utiliza¸c˜ao de notas de rodap´e. 2At´e agora quatro.
3Apesar da obriga¸c˜ao de ser melhor que o Prof. Kodama ser fonte constante de frusta¸c˜ao na minha
sem o Ivan, Luiz Alexandre e C´esar n˜ao teria computador4 aonde escrever esse trabalho.
Assim, agrade¸co a todos eles e tamb´em ao Cas´e e Pedro por me salvarem de v´arios problemas burocr´aticos e a Aninha por me ajudar tantas vezes com problemas pr´aticos. Ainda, agrade¸co a todos eles e ao resto do pessoal da UFRJ por manterem um ambiente confort´avel e descontra´ıdo a minha volta, o que me ajudou muito, principalmente quando ela quase se tornou minha casa de fato. Nesse quesito, com certeza esse trabalho n˜ao seria desenvolvido sem o apoio financeiro primeiramente da CAPES e depois da FAPERJ durante meu mestrado, principalmente pela necessidade de compra de material e aluguel para morar mais pr´oximo a faculdade.
Ao pessoal fora do Fund˜ao, v˜ao minhas desculpas por ter sido t˜ao ausente e meu agra-decimento por terem sido compreensivos quanto a isso, me apoiarem e ajudar a abstrair, mantendo minha sanidade. Nessa categoria tem em especial meu irm˜ao Marcelo e minha m˜ae Sandra, por n˜ao poder ajudar tanto em casa e n˜ao estar t˜ao presente quanto deve-ria. Ainda, aos meus amigos do FB e do Metropolitano por faltar tantos anivers´arios e encontros seja por compromisso ou por cansa¸co. Na parte de manter a sanidade agrade¸co especialmente `a minha psic´ologa Ana e ao meu professor de tˆenis Marcos que me ajudaram principalmente nos per´ıodos iniciais do meu mestrado.
Fora os trabalhos na pesquisa que levaram a essa disserta¸c˜ao, o mestrado para mim foi um grande per´ıodo de amadurecimento intelectual e pessoal e devo isso a pessoas demais no Fund˜ao para agradecer cada uma nominalmente sem fazer com que esses agradecimen-tos tomem o corpo da tese5. Mas em especial agrade¸co aos meus colegas de departamento: (Natanael, Tarik, Tiago, Rodrigo, Diego, Claudio, Del Grande, Jilder, Charlie, Adriana)
4Nisso devo outro agradecimento ao Saraiva por me dar um notebook aonde muito dessa disserta¸c˜ao
foi redigida.
e o grupo (Carlos6, Davi, Pedro, Mariana, F´abio, Stamatis, Carlos Omar) pelo ambiente
frut´ıfero e por tantas discuss˜oes interessantes, al´em das baboseiras infinitas. Vocˆes s˜ao uma grande fonte de inspira¸c˜ao pra mim. Nessa patota tamb´em entram os v´arios colegas das antigas e novos (Foster, Patr´ıcia, Yara, Bruni, Vinicius, Kain˜a, Luisinho, Yuri, Lu-cas, Hutter, Carolina, Maur´ıcio, Gabriel, Reginaldo)7 com quem consigo expandir minha
cabe¸ca para outras ´areas muito interessantes e falar mais baboseiras. Para o meu cresci-mento acadˆemico o Landau (alimentado da alma do Reinaldo, com que tamb´em tive v´arias discuss˜oes que me deixaram com o melhor dos desconfortos) e as reuni˜oes de Topologia (coordenadas pela Profa. Tatiana Rappoport e Prof. Marcello Neto) tamb´em ajudaram muito, al´em das caronas do Saraiva, que fizeram eu perceber como F´ısica B´asica ´e um assunto rico8.
Last but not least, sem a comunidade do LaTeX Stack Exchange http://tex.stackexchange. com/ e a compila¸c˜ao da literatura sobre Calcogenetos de Bismuto do Prof. Yoshikazu
Mi-zuguchi http://www.comp.tmu.ac.jp/eeesuper/BiS2_papers.html, essa disserta¸c˜ao po-deria at´e existir, mas escrevˆe-la seria um processo muito mais penoso.
6Depois do prof. Mohammed a pessoa com que mais discuti sobre os resultados da disserta¸c˜ao, al´em
de ter mostrado uma for¸ca de esp´ırito ´ımpar nesse tempo.
7Em especial ao Senhor Pedro Foster que faz com que sempre seja o Vasco do nosso per´ıodo, Patr´ıcia
por agir praticamente como minha consciˆencia em v´arias quest˜oes e Carolina por fazer o ´ultimo e ainda ser uma fonte de orgulho constante.
Sum´
ario
Sum´ario x
Lista de Figuras xii
Lista de Tabelas xviii
1 Introdu¸c˜ao 1
2 Uma Base Te´orica: Semicondutores Dopados e Sistemas Granulares 8
2.1 Semicondutores Dopados . . . 8
2.1.1 N´ıveis de Impureza em Semicondutores . . . 9
2.1.2 Banda de Impureza e Overlap . . . 10
2.1.3 Condutividade de Hopping . . . 10
2.2 Metais Granulares . . . 13
2.2.1 Parˆametros do Modelo Granular. . . 15
2.2.2 Condutividade em Sistemas Granulares . . . 18
2.2.3 Supercondutores Granulares . . . 21
3 O Diagrama de Fase dos Calcogenetos de Bismuto 23 3.1 Evolu¸c˜ao da Resistividade com Dopagem . . . 25
3.2 Diagramas de Fase . . . 27
3.2.1 Sr1 – xLaxFBiS2 . . . 27
3.2.3 Extens˜ao para Outros Compostos . . . 35
4 Confirma¸c˜ao Experimental de Granularidade em Monocristais de LaO1 – xFxBiS2 37 4.1 T´ecnicas Experimentais . . . 38
4.2 Influˆencia da Granularidade em LaO1 – xFxBiS2 . . . 41
4.2.1 Estado Normal . . . 41
4.2.2 Estado Supercondutor . . . 42
4.2.3 Comportamento Global . . . 45
5 Conclus˜oes e Perspectivas Futuras 47
Lista de Figuras
1.1 Estrutura de algum compostos dessa fam´ılia. (a) RO1 – xFxBiS2 com R
sendo uma terra rara, a dopagem substitucional pode acontecer tanto tro-cando oxigˆenio por fl´uor quanto substituindo a terra rara. (b) Sr1 – xLaxFBiS2
e Eu1 – xLaxFBiS2, dopagem ´e feita substituindo Sr por La. (c) Bi4O4(SO4)1 – x,
aonde a dopagem ocorre quando h´a vacˆancias de SO4. Todos apresentam
uma estrutura tetragonal com simetria P 4/nmm, exceto para os compos-tos Bi4O4(SO4)1 – xBiS2 que tem simetria I4/nmm. Essas Figuras foram
1.2 Resistividade para os dois sistemas analisados nessa disserta¸c˜ao: (a) LaO1 – xFxBiS2
e (b) Sr1 – xLaxFBiS2. Os inset se referem `as medidas de baixa
tempera-tura, focando na transi¸c˜ao para o estado supercondutor. Conseguimos ver para Sr1 – xLaxFBiS2 uma mudan¸ca abrupta de comportamento a partir de
x = 0.4 com grande mudan¸ca entre pequenos valores de dopagem: de fato a mudan¸ca na resistividade entre x = 0.4 e x = 0.45 ´e de duas d´ecadas. Essa mudan¸ca est´a associada `a uma transi¸c˜ao metal-isolante. Vemos que um sis-tema que apresenta a princ´ıpio um comportamento t´ıpico de um semicon-dutor, come¸ca (a partir da dopagem de x = 0.4) a ter um estado met´alico para altas temperaturas, al´em da supercondutividade para baixas tempe-raturas e um estado n˜ao-met´alico com menores valores de resistividade em temperaturas intermedi´arias. Ressaltamos ainda que a dependˆencia com a dopagem n˜ao ´e monotˆonica nem para o estado supercondutor quanto para o normal. Essas Figuras s˜ao digitaliza¸c˜oes das Figuras 4 da Ref. [15] e 3 e 4(b) da Ref. [61], respectivamete, e ser˜ao rediscutidas na Subse¸c˜oes 3.2.2 e 3.2.1 `a luz dos modelos de Mott-Efros-Shklovskii e do sistemas granulares. 4
1.3 Ilustra¸c˜ao dos parˆametros usados nos metais granulares. Linhas azuis s˜ao os n´ıveis de energia, enquanto as linhas vermelhas mostram o hopping. δ ´e a separa¸c˜ao m´edia entre os n´ıveis de energia do gr˜ao, g ´e a conduntˆancia adimensional ligada `a m´edia dos hopping. Ainda teremos a energia de carregamento dos gr˜aos Ecque n˜ao est´a na Figura. Discutiremos com mais
As energias em (a) n˜ao est˜ao representadas em escala e as temperaturas e valores da resistividade em (b) tem valores arbitr´arios. . . 14
2.2 Influˆencia do tamanho do gr˜ao e da densidade de n´ıveis no espa¸camento m´edio de n´ıveis no gr˜ao. Para efeitos de compara¸c˜ao mostramos um gr˜ao maior e mais denso na esquerda e um menor e mais esparso na direita. Note que δ ser´a a m´edia dos diferentes δi do arranjo de gr˜aos. As linhas azuis
denotam os n´ıveis de energia, a ´area cinza ´e a parte met´alica, a escura ´e a matriz isolante. . . 16
2.3 Diagrama de Fase para o Estado Granular adaptado das Ref. [89, 100]. O plano T = 0 se refere ao estado fundamental do sistema. Neste plano, vemos que dependendo da raz˜ao Ec
∆ e g o estado fundamental ´e um
iso-lante granular (com uma dinˆamica governada pela intera¸c˜ao coulombiana e resistividade igual a da Equa¸c˜ao 2.12) ou um supercondutor. Para tem-peraturas finitas, se Ec
∆ < g < gc, o sistema apresenta as caracter´ısticas de
um isolante granular mas com um estado supercondutor inomogˆeneo para baixas temperaturas. Se g < gs
c = ∆
Ec, esse material ´e um isolante
(condu-tividade nula) em T = 0. Quando g > gc o sistema ´e um metal granular
com supercondutividade (inomogˆenea e depois com coerˆencia) em baixas temperaturas. Se g >> gc, o sistema granular ´e muito pr´oximo de um
metal desordenado com a temperatura cr´ıtica pr´oxima a do material ho-mogˆeneo T0
c. Os valores de g, Ec
∆ e T foram escolhidos apenas para ilustrar
3.1 An´alise de dados de resistividade versus temperatura e dopagem para amos-tras policristalinas de Sr1 – xLaxFBiS2. (a) e (b) se referem `a fase isolante,
com a curva verde azulada sendo tipo Arrhenius (Equa¸c˜ao 2.14) e a verde clara Efros-Shklovskii (Equa¸c˜ao 2.12). J´a (c) a (g) se referem a parte gra-nular met´alica, com a curva vermelha sendo G1 (Equa¸c˜ao 2.9) e azul G2
(Equa¸c˜ao 2.10). ´E not´avel nesse regime o estado met´alico para altas tempe-raturas, a diferen¸ca de comportamento dos compostos x = 0.4 e x = 0.42, bem como a supercondutividade com estado normal n˜ao-met´alico. Note que (a), (b) e (c) tem escala vertical em Ω cm enquanto que as outras fi-guras em mΩcm por conveniˆencia. Os pain´eis principais s˜ao medidas de resistividade de 2 K a 300 K, enquanto os inset s˜ao as mesmas figuras com temperatura em escala logar´ıtmica para evidenciar o crossover entre di-ferentes eventos resistivos (exceto o segundo inset em (f) que evidencia a transi¸c˜ao para o estado supercondutor dessa amostra). Essas an´alises foram feitas a partir dos dados em [61]. . . 29
3.2 Diagrama de Fase de amostras policristalinas de Sr1 – xLaxFBiS2. (a) ´e o
diagram x − T enquanto (b) ´e o diagrama g − T . Denotamos por Arrhenius o comportamento ativado (Equa¸c˜ao 2.14), ES o comportamento de Efros-Shklovskii (Equa¸c˜ao 2.12), M a parte met´alica, G1 e G2 corre¸c˜oes de alta
(Equa¸c˜ao 2.9) e baixa temperatura (Equa¸c˜ao 2.10) do sistema granular e SF e SUC os estados supercondutores sem e com correla¸c˜ao de fase. Dados retirados de [61]. . . 30
3.3 Parˆametros envolvidos nos ajustes dos dados da Figura 3.1 e sua dependˆencia com a dopagem x. Em (a) e (b) s˜ao indicados os valores de TES e TA
(am-bos em K), enquanto que em (c) ´e indicado a condutˆancia adimensional g e em (d) a energia de carregamento Ec em K. . . 31
(Equa¸c˜ao 2.9) enquanto a vermelha a G1 (Equa¸c˜ao 2.10). Novamente, os
pain´eis principais s˜ao as medida de 2 K at´e 300 K, enquanto o inset s˜ao as mesmas curvas com a temperatura em escala logar´ıtmica (exceto o segundo inset em (f) que evidencia a transi¸c˜ao para o estado supercondutor). Essas an´alises foram feitas a partir dos dados em [15]. . . 33
3.5 Diagrama de fase das amostras policristalinas de LaO1 – xFxBiS2 resumindo
os eventos resistivos analisados por n´os a partir dos dados reportados nas Referˆencias [15] e [17]. (a) ´e o diagram x − T enquanto (b) ´e o diagrama g − T e (c) ilustra as temperaturas de crossover em medidas [17] de re-sistividade de baixa e alta temperatura (2 K a 900 K) em duas amostras diferentes: x = 0 e x = 0.5. Metal se refere ao estado met´alico de alta tem-peratura, G1 ao estado granular de temperaturas n˜ao t˜ao baixas (Equa¸c˜ao
2.9), G2 ao estado de baixas temperaturas (Equa¸c˜ao 2.10), FS `a fase
su-percondutora com flutua¸c˜oes, HP SC ao estado com resistividade nula em amostras sintetizadas em alta press˜ao e LP SC ao mesmo estado com amos-tras sintetizadas em press˜ao atmosf´erica. . . 34
3.6 Parˆametros envolvidos nos ajustes dos dados da Figura 3.4 para a amostra de LaO1 – xFxBiS2 e sua dependˆencia com a dopagem. Em (a) ´e indicado o
valor de g e em (b) Ec em K. Observamos um leve aumento de g e uma
diminui¸c˜ao dr´astica de Ec. Os pontos referente a dopagem de x = 0.7
4.1 Diagrama da configura¸c˜ao de quatro pontos para medir resistividade. Em (a) est˜ao ilustrados os contatos de voltagem e corrente, al´em das dimens˜oes usadas na resistividade que est˜ao no plano horizontal da amostra. Em (b) est´a ilustrada a espessura da amostra. O paralelep´ıpedo maior ´e uma ilustra¸c˜ao do porta amostras. Essa Figura foi retirada da Ref. [106]. . . 40 4.2 Medidas de resistividade para amostras monocristalinas de LaO1 – xFxBiS2
com x = 0.23, x = 0.43 e x = 0.46. . . 42 4.3 An´alise das medidas de resistˆencia de monocristais de LaO1 – xFxBiS2. Foi
utilizado o mesmo esquema de cores das Figuras 3.1 e 3.4: vermelho para G1
(Equa¸c˜ao 2.9) e azul para G2 (Equa¸c˜ao 2.10). ´E not´avel a grande diferen¸ca
de comportamento de cada amostra, refletindo a passagem de um estado granular met´alico para um metal. . . 43 4.4 Medidas de resistˆencia de monocristais de LaO1 – xFxBiS2 para baixas
tem-peraturas, mostrando a transi¸c˜ao do estado normal para o supercondutor. Essa transi¸c˜ao ´e ressaltada pela compara¸c˜ao entre medidas da resistˆencia sem campo e com um campo transverso de 5 T, que destr´oi a supercon-dutividade. A escala vertical ´e a resistˆencia normalizada para podermos colocar todos as medidas em um mesmo gr´afico. . . 44 4.5 Medidas de magnetoresistividade na temperatura de 2 K com campo
trans-verso aplicado variando de 0 T (na verdade H <8 mT) at´e 5 T. Essa medida mostra que al´em do estado supercondutor, temos um estado localizado que ´
e destru´ıdo pelo campo, evidenciado no pico da magnetoresistividade. Foi utilizada a escala normalizada para destacar o efeito do campo nas amos-tras em geral. . . 45 4.6 Diagrama g − T nos moldes da Figura 2.3 com valores de g estimados pelo
Lista de Tabelas
1.1 Algumas propriedades de diversas classes de materiais de supercondutores da fam´ılia dos Calcogenetos de Bismuto. Composto se refere ao composto base, a e c s˜ao parˆametros da c´elula unit´aria (veja Fig.1.1). Tzero
c se refere
`
a temperatura cr´ıtica no qual a resistividade nula ´e atingida, j´a Tonset c ´e a
temperatura de in´ıcio da supercondutividade. A grande varia¸c˜ao de cada parˆametro (como encontrado nas Referˆencias listadas na ´ultima coluna) ´e um reflexo da forte dependˆencia da rota da s´ıntese, dopagem e press˜ao. Entretanto, essa tabela nos d´a uma base simples de compara¸c˜ao entre as diferentes classes de materiais. . . 3 4.1 Tabela com as concentra¸c˜oes nominais e efetivas de fl´uor, al´em do parˆametro
de rede c para as quatro amostras utilizadas por n´os. Os dados contidos nessa Tabela foi retirado da Tabela 1 da Ref. [105]. . . 39
Cap´ıtulo 1
Introdu¸
c˜
ao
A recentemente descoberta [1] fam´ılia dos Calcogenetos de Bismuto ´e uma nova adi¸c˜ao `
as fam´ılias de supercondutores em camadas. De fato, conforme ilustrado na Figura 1.1, a estrutura cristalina desse material ´e composta por uma sucess˜ao de camadas de BiX2
X=S e Se (aonde a supercondutividade se manifesta para os compostos com aplica¸c˜ao de press˜ao ou dopagem) alternadas com as blocking layers, que atuam como reservat´orio de carga para o sistema; estas camadas n˜ao-supercondutoras podem ser encontradas nas formas: Bi4O4(SO4) [1–12], RO R=La,Ce,Nd, Pr [12–57] e SrF ou EuF [58–68]. ´E not´avel
que os compostos base (como,e.g., LaOBiS2) n˜ao s˜ao supercondutores, contudo com
do-pagem [1–11, 13–47, 58–63] ou a aplica¸c˜ao de press˜ao [12, 40, 48–57, 64–68] eles se tornam supercondutores em uma temperatura cr´ıtica que chega ao seu m´aximo em aproxima-damente 10 K para o composto LaO0.5F0.5BiS2 sobre influˆencia de alta press˜ao. Esse
mesmo comportamento ´e observado em v´arios outros sistemas como os da Tabela 1.1 que lista algumas propriedades estruturais e temperaturas cr´ıticas. De fato, a literatura sobre esses compostos ´e muito rica e diversificada sendo necess´ario uma sistematiza¸c˜ao e racionaliza¸c˜ao deste dados. Nesta disserta¸c˜ao, tentaremos contribuir para este obje-tivo construindo um diagrama de fase que mostra a evolu¸c˜ao das propriedades normais e supercondutoras desses compostos com os parˆametros de controle (e. g. concentra¸c˜ao, temperatura, campo magn´etico, press˜ao).
a-Figura 1.1: Estrutura de algum compostos dessa fam´ılia. (a) RO1 – xFxBiS2 com R sendo
uma terra rara, a dopagem substitucional pode acontecer tanto trocando oxigˆenio por fl´uor quanto substituindo a terra rara. (b) Sr1 – xLaxFBiS2 e Eu1 – xLaxFBiS2, dopagem
´
e feita substituindo Sr por La. (c) Bi4O4(SO4)1 – x, aonde a dopagem ocorre quando h´a
vacˆancias de SO4. Todos apresentam uma estrutura tetragonal com simetria P 4/nmm,
exceto para os compostos Bi4O4(SO4)1 – xBiS2 que tem simetria I4/nmm. Essas Figuras
foram retiradas da Ref. [69].
Tabela 1.1: Algumas propriedades de diversas classes de materiais de supercondutores da fam´ılia dos Calcogenetos de Bismuto. Composto se refere ao composto base, a e c s˜ao parˆametros da c´elula unit´aria (veja Fig.1.1). Tczero se refere `a temperatura cr´ıtica no qual a resistividade nula ´e atingida, j´a Tonset
c ´e a temperatura de in´ıcio da
supercondutivi-dade. A grande varia¸c˜ao de cada parˆametro (como encontrado nas Referˆencias listadas na ´
ultima coluna) ´e um reflexo da forte dependˆencia da rota da s´ıntese, dopagem e press˜ao. Entretanto, essa tabela nos d´a uma base simples de compara¸c˜ao entre as diferentes classes de materiais.
Composto Tczero Tconset c(˚A) a(˚A) Referˆencias Bi4O4(SO4)BiS2 4.4-5.3 8.3 41.2-41.3 3.964-3.969 [1–5] LaOBiS2 0-7.8 0-10.3 13.05-13.53 4.053-4.062 [13–17] CeOBiS2 0-6.2 0-7.8 13.34-13.61 4.000-4.038 [18, 19] NdOBiS2 0-4.8 0-5.2 13.32-13.38 3.982-3.991 [20–22] PrOBiS2 2.1-3.6 3.7 13.36-13.50 4.015 [23, 24] SrFBiS2 0-3.0 0-3.6 13.30-13.81 4.075-4.086 [60, 61]
Figura 1.2: Resistividade para os dois sistemas analisados nessa disserta¸c˜ao: (a) LaO1 – xFxBiS2 e (b) Sr1 – xLaxFBiS2. Os inset se referem `as medidas de baixa temperatura,
focando na transi¸c˜ao para o estado supercondutor. Conseguimos ver para Sr1 – xLaxFBiS2
uma mudan¸ca abrupta de comportamento a partir de x = 0.4 com grande mudan¸ca entre pequenos valores de dopagem: de fato a mudan¸ca na resistividade entre x = 0.4 e x = 0.45 ´
e de duas d´ecadas. Essa mudan¸ca est´a associada `a uma transi¸c˜ao metal-isolante. Vemos que um sistema que apresenta a princ´ıpio um comportamento t´ıpico de um semicondutor, come¸ca (a partir da dopagem de x = 0.4) a ter um estado met´alico para altas tempera-turas, al´em da supercondutividade para baixas temperaturas e um estado n˜ao-met´alico com menores valores de resistividade em temperaturas intermedi´arias. Ressaltamos ainda que a dependˆencia com a dopagem n˜ao ´e monotˆonica nem para o estado supercondutor quanto para o normal. Essas Figuras s˜ao digitaliza¸c˜oes das Figuras 4 da Ref. [15] e 3 e 4(b) da Ref. [61], respectivamete, e ser˜ao rediscutidas na Subse¸c˜oes 3.2.2 e 3.2.1 `a luz dos modelos de Mott-Efros-Shklovskii e do sistemas granulares.
los pois eles s˜ao parecidos [1, 70] com fam´ılias de supercondutores n˜ao-convencionais, especialmente os compostos baseados em ferro [71–76] e os cupratos [77–79]. A presen¸ca de v´arias similaridades, como a estrutura em camadas e a presen¸ca de nesting [70, 80–83], com esses supercondutores n˜ao-convencionais chamaram a aten¸c˜ao para esse sistema, sucitando quest˜oes b´asicas sobre o mecanismo e simetria do gap supercondutor nesse sistema. Ainda, a ausˆencia de magnetismo na camada supercondutora (de acordo com as v´arias medidas de magnetiza¸c˜ao) e de forte intera¸c˜ao eletrˆonica [83] em compara¸c˜ao com os compostos de ferro ou cobre seriam grandes vantagens desse sistema, j´a que se
supercondutor. Contudo, ao resumirmos a influˆencia da dopagem em um diagrama de fase T contra x (baseados nos eventos observados nas medidas de resistividade conforme relatado na Se¸c˜ao 3.2), fica claro que apesar de haver a transforma¸c˜ao de um estado isolante para um supercondutor, o estado normal logo acima do regime supercondutor ´e n˜ao-met´alico (veja Figura 1.2).
Nessa disserta¸c˜ao mostramos que a evolu¸c˜ao do diagrama de fase e as contribui¸c˜oes n˜ao-met´alicas, bem como v´arias caracter´ısticas que ser˜ao descritas posteriormente, podem ser interpretadas em termos de dois modelos muitos estudados da f´ısica de estado s´olido:
Modelo de Mott-Efros-Shklosvskii: Os compostos base considerados s˜ao semicon-dutores [70, 80, 81, 83] e com a dopagem a resistividade diminui at´e que em uma concetra¸c˜ao cr´ıtica xM IT o sistema come¸ca a apresentar uma condutividade finita
a temperatura nula: h´a a transi¸c˜ao metal-isolante. Isso pode ser entendido pelo modelo de Mott-Efros-Shklosvskii [84]. Este modelo descreve tambem a evolu¸c˜ao t´ermica da resistividade: a dopagem cria estados de impureza no semicondutor que quando fazem overlap induzem uma condutividade por hopping. Essa condu-tividade ´e caracterizada por uma ativa¸c˜ao do tipo Arrhenius ou Variable Range Hopping (VRH).
Metais Granulares: S˜ao sistemas que apresentam gr˜aos met´alicos incorporados em uma matriz isolante. Nesta regi˜ao (que deve aparecer ap´os a transi¸c˜ao metal-isolante x > xM IT, mencionada no par´agrafo anterior) a descri¸c˜ao mais satisfat´oria para
a evolu¸c˜ao t´ermica da resistividade el´etrica (a principal medida usada nessa dis-serta¸c˜ao) foi dada por Efetov e seus colaboradoes em uma s´erie de artigos [85–88]. Esse modelo tamb´em explica a transi¸c˜ao isolante supercondutor nesses sistemas [89].
Os parˆametros dominantes, ilustrados na Figura 1.3, nesse modelo s˜ao a energia de carga de cada gr˜ao Ec, a distˆancia entre os n´ıveis no gr˜ao δ e a conduntˆancia
adimen-sional g, todas dependentes da distˆancia entre os gr˜aos, seu tamanho e a distribui¸c˜ao de gr˜aos. Tratamento da amostra (especialmente t´ermico ou sob alta press˜ao) in-fluencia fortemente nas propriedades do estado normal para x > xM IT. Conforme
esses parˆametros s˜ao variados, a resistividade tamb´em varia. No caso em que es-ses gr˜aos s˜ao supercondutores (caracterizados por ∆ e Tc), esse modelo discute as
propriedades globais da supercondutividade do sistema granular em termos de um arranjo de Jun¸c˜oes Josephson.
Para mostrar a aplicabilidade desses dois modelos para os Calcogenetos de Bismuto, planejamos uma an´alise coerente da grande gama de dados da literatura, focando princi-palmente nas propriedades dos sistema LaO1 – xFxBiS2 [15] e Sr1 – xLaxFBiS2 [61], al´em de
medidas pr´oprias usando monocristais de LaO1 – xFxBiS2 (x=0.23, 0.43, 0.46). Com essas
informa¸c˜oes pudemos aumentar o alcance e entendimento do supracitado diagrama de fase descrevendo o estado normal e supercondutor dessa fam´ılia. Essa descri¸c˜ao ´e satisfat´oria para os sistemas analisados e consegue ser facilmente estendida para os outros membros dessa fam´ılia. A mais importante contribui¸c˜ao dessa disserta¸c˜ao ´e que com esses dois modelos e a constru¸c˜ao dos diagramas de fase conseguimos clarificar, sistematizar e raci-onalizar todos os dados reportados na literatura, bem como nossas pr´oprias medidas com esses compostos baseados em bismuto. Como as propriedades granulares s˜ao altamente dependentes do tratamento (f´ısico ou qu´ımico) da amostra [90] achamos ent˜ao necess´ario focar em uma descri¸c˜ao abrangente do estado normal para que possamos determinar quais propriedades s˜ao intr´ınsecas ou extr´ınsecas desse sistema.
Estruturamos essa disserta¸c˜ao da seguinte maneira:
No Cap´ıtulo 2 vamos revisar dois modelos te´oricos bem estabelecidos na f´ısica de estado s´olido: o modelo de Mott-Efros-Shklovskii (Se¸c˜ao 2.1) para semicondutores dopados e a
Figura 1.3: Ilustra¸c˜ao dos parˆametros usados nos metais granulares. Linhas azuis s˜ao os n´ıveis de energia, enquanto as linhas vermelhas mostram o hopping. δ ´e a separa¸c˜ao m´edia entre os n´ıveis de energia do gr˜ao, g ´e a conduntˆancia adimensional ligada `a m´edia dos hopping. Ainda teremos a energia de carregamento dos gr˜aos Ec que n˜ao est´a na Figura.
Discutiremos com mais detalhes essas caracter´ısticas na Se¸c˜ao 2.2.
descri¸c˜ao de metais granulares (Se¸c˜ao 2.2). Em ambos os modelos nos preocupamos em identificar os regimes de temperatura e a evolu¸c˜ao da resistividade com a varia¸c˜ao de temperatura e da condutˆancia adimensional g.
No Cap´ıtulo 3 mostramos como podemos construir diagramas de fase para todos os sistemas do Calcogenetos de Bismuto. Iniciamos esse cap´ıtulo com uma revis˜ao cr´ıtica das propriedades dos Calcogenetos de Bismuto que foram relatadas na literatura, apontando alguns problemas nesses relatos de maneira a motivar o uso dos modelos acima para descrever a evolu¸c˜ao da resistividade com dopagem e temperatura (Se¸c˜ao 3.1). Ent˜ao, discutimos um procedimento geral para construir diagramas de fase (Se¸c˜ao 3.2) para esses sistemas, utilizando os compostos Sr1 – xLaxFBiS2 (Subse¸c˜ao 3.2.1) e LaO1 – xFxFBiS2
(Subse¸c˜ao 3.2.2) como exemplos dessa abordagem, mas estendendo (Subse¸c˜ao 3.2.3) essa an´alise para outros compostos.
No Cap´ıtulo 4 mostraremos os resultados de nossas medidas com monocristais LaO1 – xFxFBiS2
e sua rela¸c˜ao com granularidade. Para tal, discutimos as t´ecnicas utilizadas para sinteti-zar e caracterisinteti-zar essas amostras e fazer as medidas de magnetoresistividade (Se¸c˜ao 4.1). Procedemos ent˜ao (Se¸c˜ao 4.2) para os resultados e an´alise dessas medidas, tanto para o es-tado normal (Subse¸c˜ao 4.2.1) quanto para o supercondutor (Subse¸c˜ao 4.2.2), confirmando
a importˆancia da granularidade nas propriedades de monocristais e contextualiz´a-la no modelo granular (Subse¸c˜ao 4.2.3).
No Cap´ıtulo 5 conclu´ımos essa disserta¸c˜ao, fazendo uma recapitula¸c˜ao da f´ısica envol-vida nesses sistemas e dos principais resultados, al´em de comentar sobre a aplica¸c˜ao da metodologia ilustrada nessa disserta¸c˜ao para outras fam´ılias de supercondutores.
Cap´ıtulo 2
Uma Base Te´
orica: Semicondutores
Dopados e Sistemas Granulares
Neste cap´ıtulo vamos revisar brevemente dois modelos muito estudados na f´ısica de estado s´olido: a forma¸c˜ao de estados de impureza em semicondutores dopados como descrito no livro de Efros e Shklovskii [84] e os sistemas granulares como abordado no artigo de revis˜ao de Beloborodov et al. [89].
A necessidade desses modelos surgiu da nossa observa¸c˜ao que as propriedades do estado normal dessa fam´ılia de calcogenetos baseados em bismuto s˜ao similares `as de semicondu-tores de banda dopados, enquanto que suas propriedades supercondutoras (manifestadas acima de xM IT) s˜ao similares `as de supercondutores granulares.
Neste Cap´ıtulo, vamos adotar uma abordagem pragm´atica, focando na fenomenologia e escalas (energia, tempo, distˆancia) de interesse para nossa an´alise nesta disserta¸c˜ao. Como a principal t´ecnica experimental utilizada nessa disserta¸c˜ao ´e a medida de resistividade el´etrica, vamos dar uma aten¸c˜ao especial para as express˜oes utilizadas para interpretar as curvas experimentais apresentadas nos Cap´ıtulos seguintes.
2.1
Semicondutores Dopados
Nessa Se¸c˜ao vamos tratar de dopagem em semicondutores, vendo como os orbitais eletrˆonicos e seus n´ıveis de energia induzidos com a dopagem se comportam
individual-mente (Subse¸c˜ao 2.1.1), formando ´atomos hidrogen´oides gigantes. Posteriormente, ve-remos como esses orbitais fazem overlap um com os outros levando `a forma¸c˜ao de uma banda de impureza (Subse¸c˜ao 2.1.2). Ent˜ao vamos descrever o mecanismo de hopping respons´avel pelo transporte nos semicondutores dopados (Subse¸c˜ao 2.1.3).
2.1.1
N´ıveis de Impureza em Semicondutores
Uma das principais propriedades de semicondutores, e o motivo para sua vasta aplica¸c˜ao na ind´ustria e em aplica¸c˜oes, ´e a alta sensibilidade de suas propriedades eletrˆonicas `a do-pagem. N´os podemos pegar algum material ou composto que ´e inicialmente semicondutor e introduzir ´atomos com valˆencia distinta, de maneira que o efeito principal ´e gerar uma carga que fica pr´oxima desses centros substitucionais. Vamos assumir que estamos em uma aproxima¸c˜ao de impureza rasa (shallow impurity approximation) na qual a carga criada na banda do semicondutor n˜ao ´e sens´ıvel a dispers˜ao da banda como um todo, mas apenas ao seu m´ınimo (uma aproxima¸c˜ao para pequenos k ou grande distˆancias). Ainda vamos nos limitar ao regime levemente dopado aonde a distˆancia entre as impu-rezas (proporcional a N1/3) ´e muito maior que o comprimento de onda caracter´ıstico λ.
Nesse regime, efeitos advindos de correla¸c˜ao eletrˆonica podem ser ignorados.
Nesse limite, cargas interagem apenas com o centro de impurezas pela intera¸c˜ao cou-lombiana U (r) = eκr2, aonde κ ´e a fun¸c˜ao diel´etrica do material. Resolvendo a Equa¸c˜ao de Schr¨odinger vemos que essa carga extra funciona como um el´etron em um ´atomo de hidrogˆenio, mas com o raio dado por a = ~2κ
me2 =
m0κ
m aB, aonde m ´e a massa efetiva do
m´ınimo da banda, m0 a massa de el´etron livre e aB o raio de Bohr. Em semicondutores
t´ıpicos mm
0 ∼ 10 − 100 e κ ∼ 10, de modo que a ´e muito maior que os parˆametros de rede
dos materiais. Isso justifica a posteriori a aproxima¸c˜ao de impureza rasa j´a que tanto o portador de carga fica em torno da impureza em uma grande ´area como a distˆancia t´ıpica entre elas ´e muito maior que os parˆametros de rede.
vai ter um decaimento exponencial como no estado fundamental do ´atomo de hidrogˆenio: |ψ (r) |2 ∝ e−r/a e o el´etron fica localizado, fazendo com que a carga fique confinada em
m´edia a uma distˆancia a do centro de impureza. Contudo, conforme vamos dopando o material com mais impurezas, aumentamos o overlap e assim criamos uma vantagem energ´etica de modo que a carga fique um pouco deslocalizada, com sua fun¸c˜ao de onda se estendendo para outro centro de impureza. Esta vantagem ´e proporcional `a integral de troca entre dois centros de impureza distintos quaisquer. Evidentemente, essa vantagem aumenta a medida que a dopagem aumenta. Por outro lado, conforme vamos aumentando a dopagem, da mesma maneira que ´e gerada uma banda em um material convencional, com a transi¸c˜ao de ´atomos isolados para um sistema cristalino, forma-se de uma banda de impureza.
Deve ser considerado que esse processo de delocaliza¸c˜ao se op˜oe `a energia atrativa em rela¸c˜ao ao pr´oprio centro de impureza. No regime de baixa dopagem, h´a uma probabi-lidade finita que um el´etron em um centro de impureza fa¸ca uma transi¸c˜ao para outro orbital de impureza mediada pela emiss˜ao ou absor¸c˜ao de fˆonons. Essa ´e a essˆencia dos processos termicamente ativados em semicondutores dopados.
2.1.3
Condutividade de Hopping
As propriedades de transporte podem indicar se o sistema est´a em um estado itinerante ou localizado. Um sistema met´alico/itinerante apresenta uma boa disponibilidade de el´etrons no n´ıvel de Fermi, portanto a evolu¸c˜ao t´ermica ´e ditada pelo tempo de relaxa¸c˜ao τ , que aumenta com a temperatura. Ent˜ao no que tange `a resistividade, um sistema itinerante ´e um em que ∂T∂ρ > 0. J´a para um sistema localizado/isolante a temperatura aumenta o n´umero de portadores ativos para transporte de modo que ∂T∂ρ < 0.
Para um semicondutor a presen¸ca do gap faz com que ele tenha um comportamento termicamente ativado, usualmente da forma ρ (T ) = ρ0e∆/kBT aonde ∆ ´e uma energia
de ativa¸c˜ao. A presen¸ca da dopagem faz com que a condutividade (para T << ∆b
kB, ∆b
sendo o gap de banda) seja dada principalmente pelo hopping que ´e consequˆencia da intera¸c˜ao de troca, como comentado na Subse¸c˜ao anterior. Na ausˆencia de voltagem, essas transi¸c˜oes entre n´ıveis n˜ao gera transporte porque h´a um equil´ıbrio entre transi¸c˜oes. Com aplica¸c˜ao de voltagem, esse equil´ıbrio ´e quebrado e h´a gera¸c˜ao de corrente. De forma concreta podemos relacionar a condutividade com uma m´edia das transi¸c˜oes ocasionadas pela aplica¸c˜ao de voltagem [84]:
σ (T ) = αq 2 kBT Γ0 ij (2.1) aonde α ´e o fator de convers˜ao entre condutˆancia e condutividade, q a carga dos portadores e Γ0
ij ´e a transi¸c˜ao entre diferentes centros de impureza quando n˜ao h´a voltagem aplicada.
Como ilustrado no c´alculo na Subse¸c˜ao 4.2 do livro de Efros e Shklovskii [91], a resistˆencia referente a transi¸c˜oes com uma distˆancia rij e diferen¸ca de energia ij mediada
por fˆonons ac´usticos tem uma dependˆencia:
ρ (T ) = ρ0e2rij/aeij/kBT
(2.2) com ρ0 sendo linearmente proporcional a temperatura e inversamente proporcional a
pro-babilidade de transi¸c˜ao m´edia entre n´ıveis de impureza (Equa¸c˜oes 4.2.18 e 4.2.36 da Ref. [84]).
´
E interessante notar que no expoente temos dois efeitos competindo: a diferen¸ca de energia entre os orbitais de impureza e a distˆancia entre elas. Para altas temperaturas ´
e mais vantajoso em termos de transporte fazer transi¸c˜oes entre centros de impurezas primeiro vizinhos para minimizar 2rij/a, j´a que esse termo ´e predominante e teremos um
Para baixas temperaturas, a predominˆancia ´e de ij/kBT de forma que ´e
priori-zado n´ıveis mais distantes com menor diferen¸ca de energia e teremos um hopping en-tre distˆancias variadas dependendo da diferen¸ca de energia, gerando o chamado Variable Range Hopping. Imaginando uma densidade de estados constante na banda de impureza e que a distˆancia entre as impurezas est˜ao distribu´ıdas uniformemente em uma esfera, Mott [92] mostrou que a resistividade nesse sistema ´e dada por:
ρ (T ) = ρ0e(T0/T )
1/4
(2.4) com T0 = k β
BN (EF)a3, β ≈ 21.2, a o raio de Bohr efetivo das impurezas e N (EF) a
densidade de estados no N´ıvel de Fermi.
Evolu¸c˜ao T´ermica da Condutividade em uma Larga Faixa de Temperatura A presen¸ca da banda de impureza introduz duas escalas novas na estrutura energ´etica de um semicondutor dopado (conforme ilustrado na Figura 2.1 (a)): a distˆancia da banda de impureza para a banda de condu¸c˜ao/valˆencia ∆b−i e a largura de banda de impureza
∆i. Se juntarmos essas escalas de temperatura/energia `a escala do gap semicondutor,
temos a seguinte hierarquia de temperatura/energia e evolu¸c˜ao da resistividade com a temperatura conforme a Figura 2.1 (b):
Regime de VRH Nesse regime, kBT << ∆i e a condutividade predominante ´e do tipo
VRH (Equa¸c˜ao 2.4), j´a que ´e mais vantajoso minimizar a energia no expoente da resistividade da Equa¸c˜ao 2.2.
Congelamento da Banda de Impureza Aumentando a temperatura de maneira que ∆i < kBT < ∆b−i, o hopping de primeiros vizinhos ´e favorecido e a resistividade
tem um comportamento de uma ativa¸c˜ao exponencial (Equa¸c˜ao 2.3). Essa regi˜ao ´e chamada congelamento ou freeze-out pois os el´etrons nesse regime s˜ao capturados pelos centros de dopagem de maneira que a resistividade manifesta uma redu¸c˜ao exponencial de concentra¸c˜ao de carga ao se reduzir a temperatura. Nesse caso a energia de ativa¸c˜ao da Equa¸c˜ao 2.3 corresponde `a ioniza¸c˜ao dessa impureza.
Saturamento da Banda de Impureza Quando ∆b−i< kBT << ∆b ´e esperado que o
n´umero de portadores de carga excitados termicamente na banda de condu¸c˜ao/valˆencia seja da ordem do n´umero de n´ıveis de impureza, h´a uma satura¸c˜ao desse canal de resistividade e o principal processo de evolu¸c˜ao com a temperatura ´e via τ , tendo um comportamento t´ıpico de sistema met´alico.
Banda Intr´ınseca Para temperaturas ainda maiores temos a promo¸c˜ao de portadores da banda de valˆencia para de condu¸c˜ao, com a resistividade de ativa¸c˜ao (Equa¸c˜ao 2.3) mas com a energia de ativa¸c˜ao relacionada com o gap de banda intr´ınseco do semicondutor.
´
E interessante notas que os trˆes primeiros regimes s˜ao de baixa energia ou extr´ınsecos ao sistema, enquanto que o de alta temperatura ´e intr´ınseco ao sistema.
2.2
Metais Granulares
Um sistema granular ´e um sistema multif´asico onde gr˜aos met´alicos est˜ao dispersos em uma matriz isolante ou semicondutora. Assim sendo ele exibe propriedades de transporte intermedi´arias entre um sistema itinerante e um localizado. V´arios materiais podem apresentar uma composi¸c˜ao granular; um caso simples ´e o do alum´ınio granular [93] que ´e composto de gr˜aos met´alicos de alum´ınio elementar que s˜ao separados por uma interface de ´
oxido de alum´ınio Al2O3. Ainda, n˜ao ´e necess´ario que tenhamos a distin¸c˜ao de duas fases
Figura 2.1: Regimes de temperatura/energia em um semicondutor dopado. (a) ilustra as escalas de energia em um semicondutor dopado enquanto que (b) mostra a evolu¸c˜ao t´ermica da resistividade em uma larga faixa de temperatura. As energias em (a) n˜ao est˜ao representadas em escala e as temperaturas e valores da resistividade em (b) tem valores arbitr´arios.
na Ref. [85], um sistema com inomogeniedade na sua forma¸c˜ao pode apresentar bols˜oes eletrˆonicos diferentes e assim agir como um sistema granular.
As propriedades desses sistemas s˜ao ditadas por trˆes parˆametros: o tamanho e tipo do gr˜ao, a espessura e natureza da interface entre os gr˜aos e a distribui¸c˜ao de gr˜aos. Esses parˆametros podem ser controlados na s´ıntese do material, modificando assim suas propriedades de transporte. No caso de alum´ınio granular, a press˜ao parcial de oxigˆenio e a temperatura durante o processo de s´ıntese influenciam a granularidade e esta por sua vez governa a resistividade desse sistema.
Nessa Se¸c˜ao vamos discutir a f´ısica dos sistemas granulares, principalmente a resisti-vidade em fun¸c˜ao da temperatura. Na Subse¸c˜ao 2.2.1 apresentamos os fenˆomenos f´ısicos no estado normal que fazem com que os parˆametros dos gr˜aos (tamanhos e sua distri-bui¸c˜ao) gerem escalas de energia ligadas `a discretiza¸c˜ao dos n´ıveis de energia nesse gr˜ao, ao tunelamento entre gr˜aos e `a repuls˜ao coulombiana. J´a na Subse¸c˜ao 2.2.2 discutimos
o transporte nesse sistema, motivando as express˜oes te´oricas para a resistividade no regi-mes granulares met´alico e isolante. Como h´a um metal no interior dos gr˜aos, eles podem virar supercondutores em baixas temperaturas com o material funcionando como v´arias Jun¸c˜oes Josephson (Subse¸c˜ao 2.2.3).
2.2.1
Parˆ
ametros do Modelo Granular.
O tamanho finito dos gr˜aos vai levar a uma discretiza¸c˜ao dos seus n´ıveis de energia. A separa¸c˜ao energ´etica m´edia ´e denotada por δ e est´a relacionada ao volume do gr˜ao V e a densidade de n´ıveis ν como:
δ = 1
νV (2.5)
Vemos ent˜ao que em um limite em que o gr˜ao ´e muito grande ou h´a uma grande quantidade de el´etrons em seu interior, ele se comporta como um sistema cont´ınuo. J´a para gr˜aos menores a discretiza¸c˜ao de n´ıveis de energia ´e muito importante. Assumimos que δ ´e a menor escala de energia e que T >> kδ
B, de modo que n˜ao sondamos a estrutura
energ´etica do gr˜ao. Na Figura 2.2 n´os ilustramos como dois gr˜aos de diferentes tamanhos se relacionam com δ.
Podemos imaginar que esses el´etrons confinados dentro dos gr˜aos podem tunelar en-tre diferentes gr˜aos. Assumimos que a fun¸c˜ao de onda de el´etrons na periferia do gr˜ao decaia exponencialmente e−r/ag (com r sendo a distˆancia a partir da superf´ıcie e a
g ´e um
comprimento t´ıpico da distribui¸c˜ao). A probabilidade de tunelamento ent˜ao depende da distˆancia entre os gr˜aos, do tamanho deles, sua distribui¸c˜ao e das propriedades da matriz isolante. Como o tunelamento vai ser o principal mecanismo de transporte nesses siste-mas, podemos alterar a resistividade ao fazer tratamento t´ermico ou aplicando press˜ao, j´a que ambos influenciam as propriedades citadas acima.
Os el´etrons associados a diferentes gr˜aos tamb´em podem interagir um com o outro e essas intera¸c˜oes podem ser traduzidas em intera¸c˜oes efetivas entre gr˜aos. Ao introduzir
Figura 2.2: Influˆencia do tamanho do gr˜ao e da densidade de n´ıveis no espa¸camento m´edio de n´ıveis no gr˜ao. Para efeitos de compara¸c˜ao mostramos um gr˜ao maior e mais denso na esquerda e um menor e mais esparso na direita. Note que δ ser´a a m´edia dos diferentes δi
do arranjo de gr˜aos. As linhas azuis denotam os n´ıveis de energia, a ´area cinza ´e a parte met´alica, a escura ´e a matriz isolante.
el´etons nesses gr˜aos, estes se carregam e geram uma voltagem proporcional ao n´umero de cargas no seu interior, como em um capacitor com uma capacitˆancia dependendo da disposi¸c˜ao dos gr˜aos no material. A energia ligada a esse processo capacitivo ´e a energia de carga Ec.
Com o objetivo de determinar a resistividade desse sistema devemos fazer m´edias nas configura¸c˜oes de desordem do gr˜ao. Para fazer isso, ´e conveniente definir dois limites dos materiais granulares: o met´alico granular e o isolante granular. O parˆametro para distinguir entre esses dois comportamentos ´e a condutˆancia adimensional g que ´e a inversa da resistˆencia dividida pelo quantum de condutˆancia Gc= 2e
2 ~ ≈1.23 × 10 −5Ω−1 : g ≡ 1 R/Gc (2.6)
Para mostrar a utilidade dessa condutˆancia como crit´erio para indicar essa transi¸c˜ao, imaginamos que para um sistema granular met´alico a F´ormula de Drude descreva a con-dutividade de um sistema onde o livre caminho m´edio associado aos processos de
espa-lhamento seja maior que comprimentos de onda eletrˆonicos 2π
kF. Reescrevendo ent˜ao a
F´ormula de Drude em termos do livre caminho m´edio l e com uma velocidade t´ıpica dada pela velocidade de Fermi:
σ = ne 2τ m = ne2l mvF (2.7) Vemos que temos um valor m´ınimo de σ por causa da restri¸c˜ao l > λ. O m´ınimo da condutividade σmin se d´a quando λ ∼ l, resultando em lkF ∼ 1. Como em uma distribui¸c˜ao de el´etrons livres n ∝ (kF)d (d dimens˜ao):
σmin ∝ (kF)de2l mvF ∼ l 2−d2e2 ~ = l2−dGc (2.8)
em que usamos no ´ultimo passo que kF ∼ l−1,vF = m~kF.
Vemos que a menos de um fator num´erico essa condutividade m´ınima ´e dada pelo quantum de condutˆacia vezes l2−d. Assim fica claro que a condutˆancia que dita o com-portamento como itinerante ou localizado, sendo met´alico para G maior que Gc e isolante
quando for menor. Esse elegante argumento de escala foi desenvolvido por Mott [94] e generalizado por Abrahams et. al [95] e Thouless [96], mostrando que esse quantum de condutˆancia ´e um bom crit´erio para indicar a transi¸c˜ao localizado-intinerante.
Vale ressaltar que apesar de haver uma transi¸c˜ao metal-isolante nesse sistema, sua origem ´e completamente diferente da observada nos sistemas de semicondutores dopados. Nos semicondutores a transi¸c˜ao ´e controlada pela concentra¸c˜ao de centros de impureza: o sistema se torna met´alico quando a dopagem atinge um valor de concentra¸c˜ao cr´ıtica xc e
tem estado fundamental com condutividade n˜ao nula. J´a para um sistema granular, suas propriedades v˜ao modificar o valor efetivo da condutˆancia entre os gr˜aos g e a dependˆencia com a dopagem n˜ao ´e simples, alterando a condutˆancia entre gr˜aos g e os outros dois parˆametros apresentados δ e Ec de uma vez. Ainda, como veremos na pr´oxima Subse¸c˜ao,
experimentalmente diferentes regimes de energia/temperatura nas medidas da evolu¸c˜ao da resistividade no material. ´E de se esperar que um estudo da evolu¸c˜ao das propriedades de transporte de sistema granular forne¸ca informa¸c˜oes bem diferente dos semicondutores dopados j´a que o parˆametro que permite analisar o transporte no sistema granular ´e a condutˆancia g. Descreveremos a seguir o transporte granular em dois regimes de con-dutˆancia (g >> gc e g << gc, respectivamente), discutindo as express˜oes anal´ıticas de
condutividade.
Regime Granular Met´alico
Podemos imaginar que o el´etron dentro do gr˜ao funciona como um el´etron em um metal com desordem. Para haver transporte, el´etrons devem tunelar de um gr˜ao para o outro. Como h´a uma distribui¸c˜ao nos po¸cos de potencial e na matriz, esse tunelamento vai ser desordenado, mas vai resultar em m´edia [85,89,97] na condutˆancia g entre os gr˜aos. Enquanto o termo de tunelamento tende a deslocalizar os el´etrons, o termo coulombi-ano tende a localiz´a-lo. Para T > gEc
kB , a energia t´ermica vence a repuls˜ao coulombiana e
assim o sistema se comporta como um metal comum. Para temperaturas baixas (T < gEc
kB ),
Ec reduz a condutividade efetiva.
Temos uma escala de temperatura Γ = kgδ
B relacionada com o tempo m´edio de
per-manˆencia do el´etron em cada gr˜ao ~
gδ. Se Γ < T < gEc
kB , a resposta condutiva ser´a:
σ = σ0 1 − 1 πzgln gEC kBT (2.9) aonde z ´e a cordena¸c˜ao do arranjo de gr˜aos e σ0 ´e a condutividade quando T = gEk c
B .
Essa equa¸c˜ao mostra que quanto maior o valor de temperatura, maior ´e a conduti-vidade efetiva. Isso se deve ao fato que a raz˜ao entre a energia t´ermica e a barreira
coulombiana ´e cada vez maior conforme aumetamos a temperatura. Evidentemente, no regime em que T >> gEC
kB , o sistema se comporta praticamente como um metal
desorde-nado.
Se T < Γ, o segundo termo da Equa¸c˜ao 2.9 satura e o movimento eletrˆonico coerente em escalas maiores que o tamanho do gr˜ao se manifeste, fazendo com que a depedˆencia t´ermica da condutividade para uma amostra tridimensional seja [86]:
σ = σ0 " 1 − 1 πzgln EC δ + 0.015 g s kBT gδ # (2.10) Se considerarmos que em um isolante lim
T →0σ = 0, podemos definir uma condutˆancia
cr´ıtica: gc= 1 πzln EC δ (2.11) de forma que para g >> gc o sistema ´e met´alico enquanto para g << gc ´e isolante.
Regime Granular Isolante
Em um regime em que esses gr˜aos est˜ao fracamente conectados, cada um deles se assemelha a um centro de impureza gigantesco j´a que el´etrons est˜ao localizados dentro dos gr˜aos e a fun¸c˜ao de onda tem um decaimento exponencial com a distˆancia na interface do gr˜ao. As diferen¸cas entre esses sistemas granulares e os semicondutores dopados s˜ao: (i) gr˜aos tem estrutura interna com v´arios n´ıveis eletrˆonicos, (ii) a influˆencia da intera¸c˜ao coulombiana ´e mais forte e (iii) o overlap entre as fun¸c˜oes de onda depende da distˆancia entre os gr˜aos e n˜ao somente dos orbitais envolvidos.
Como nos sistemas granulares a correla¸c˜ao eletrˆonica ´e dada de forma capacitiva, a energia de cada el´etron vai ser diretamente proporcional ao n´umero de el´etrons no gr˜ao com que est˜ao interagindo. Isso faz com que quanto maior a energia, mais configura¸c˜oes de energias estejam dispon´ıveis.
forma [89]:
ρ = ρ0e(TES/T )
1/2
(2.12)
com TES = ξkEc
B, aonde ξ ´e um comprimento de localiza¸c˜ao efetivo. Esse tipo de
compor-tamento foi obtido por Efros e Shklovskii [84, 91] para semicondutores dopados, com o valor de T0 com os parˆametros envolvidos na intera¸c˜ao em semicondutores naquele caso.
Podemos estimar a distˆancia coberta durante o hopping atrav´es de v´arios gr˜aos como uma distˆancia de hopping Rhop:
Rhop(T ) =
r TES
2T aξ (2.13)
aonde a ´e um raio efetivo dos sistemas de gr˜aos. Ent˜ao em uma temperatura T∗ = Ec
2ξkB em que Rhop ´e igual a a, o sistema tem uma
ativa¸c˜ao t´ermica tipo Arrhenius com o hopping entre primeiros vizinhos:
ρ = ρ0eTA/T (2.14)
aonde a temperatura de ativa¸c˜ao TA ´e relacionado com Ec [89]:
TA= 0.2
Ec
kB
= 0.2ξTES (2.15)
Na Equa¸c˜ao acima, o gap de Coulomb ´e considerado como independente de g. Contudo, um aumento de g induz uma redu¸c˜ao exponencial do gap e eventualmente a uma transi¸c˜ao de uma resistividade de hopping para uma resistividade de Drude quando g = gc.
2.2.3
Supercondutores Granulares
´
E natural que o acoplamento que levaria `a supercondutividade em um metal ho-mogˆeneo esteja presente em seu gr˜ao met´alico. Anderson mostrou [98] que o efeito da discretiza¸c˜ao de n´ıveis de energia ´e an´alogo ao da temperatura, no sentido de diminuir o valor do gap. Temos ent˜ao que para um material com o gap homogˆeneo ∆, o chamado crit´erio de Anderson estabelece que teremos supercondutividade contanto que δ < ∆.
O fato de termos v´arios gr˜aos supercondutores com interface isolante faz com que tenhamos um Efeito Josephson em baixas temperaturas, abrindo um novo canal de tu-nelamento: o de pares de Cooper, canal que ´e mais relevante quanto maior for ∆ e g. Como no caso do estado normal met´alico, teremos uma escala de temperatura ligado a esse tunelamento coerente com a escala de energia Jc∼ g∆.
Os primeiros estudos [99] da influˆencia das flutua¸c˜oes em um sistema composto de jun¸c˜oes Josephson mostraram que no estado supercondutor granular os dois principais canais de tunelamento v˜ao ser pelo tunelamento de pares de Cooper ou de el´etrons.
A conduntˆancia g (que determina a mobilidade) influencia o comportamento do sis-tema, j´a que dependendo do valor de g pode haver uma renormaliza¸c˜ao da intera¸c˜ao coulombiana. De fato, para g > 1, Ec = ∆g que ´e sempre menor que J . Logo, um
com-posto com alto valor de g vai apresentar um comportamento supercondutor globalmente coerente para temperaturas suficientemente baixas. J´a para valores mais baixos de g, Ec
n˜ao ´e renormalizado e seu comportamento depende da raz˜ao entre Ec e ∆. Se Ec´e
sufici-entemente baixo, Tcef f ≈ J
kB. J´a para Ec muito alta, o bloqueio de Coulomb prevalece, os
pares de Cooper se tornam localizado para T → 0 e o sistema se torna isolante. Se con-siderarmos uma situa¸c˜ao limite em que J = Ec, temos uma condutˆancia cr´ıtica gcs = E∆c
em que temos supercondutividade para baixas temperaturas. A varia¸c˜ao do estado do sistema com esses parˆametros est´a presente no diagrama de fase da Figura 2.3.
Figura 2.3: Diagrama de Fase para o Estado Granular adaptado das Ref. [89,100]. O plano T = 0 se refere ao estado fundamental do sistema. Neste plano, vemos que dependendo da raz˜ao Ec
∆ e g o estado fundamental ´e um isolante granular (com uma dinˆamica governada
pela intera¸c˜ao coulombiana e resistividade igual a da Equa¸c˜ao 2.12) ou um supercondutor. Para temperaturas finitas, se Ec
∆ < g < gc, o sistema apresenta as caracter´ısticas de um
isolante granular mas com um estado supercondutor inomogˆeneo para baixas temperatu-ras. Se g < gs
c = ∆
Ec, esse material ´e um isolante (condutividade nula) em T = 0. Quando
g > gc o sistema ´e um metal granular com supercondutividade (inomogˆenea e depois com
coerˆencia) em baixas temperaturas. Se g >> gc, o sistema granular ´e muito pr´oximo de
um metal desordenado com a temperatura cr´ıtica pr´oxima a do material homogˆeneo T0 c.
Os valores de g, Ec
∆ e T foram escolhidos apenas para ilustrar os comportamentos.
supercondutor para um estado normal granular isolante. Isso deve ao fato que apesar de termos resposta resistiva (a T > Tc) similar a de um isolante, os componentes b´asicos
Cap´ıtulo 3
O Diagrama de Fase dos
Calcogenetos de Bismuto
Como introduzido no Cap´ıtulo 1, os Calcogenetos de Bismuto s˜ao uma fam´ılia de supercondutores com uma estrutura constitu´ıda pelo empilhamento de camadas de BiX2
(X=S ou Se) com camadas das chamadas blocking layers. As blocking layers depen-dem do tipo do composto. Como exemplo temos: Bi4O4(SO4)1 – x, RO1 – xFx (R=La,
Sr, Pr, Eu,Yb,Nd) e Sr1 – xLaxFBiS2. Eles tem simetria l4/mmm (para os compostos
Bi4O4(SO4)1 – x) e P 4/nmm (para todos os outros) e sua estrutura est´a ilustrada na
Fi-gura 1.1.
C´alculos de primeiros princ´ıpios [70, 80, 81, 83] prediziam que esses materiais apresen-tavam uma transi¸c˜ao de um isolante de banda para um metal atrav´es da mudan¸ca da energia de Fermi induzida pela inje¸c˜ao de carga no sistema. Ainda, foi mostrado que os orbitais mais influentes seriam os originados dos planos de BiS2, sugerindo um car´ater
bidimensional da supercondutividade desse sistema. Esses c´alculos sugeriam tamb´em a reconstru¸c˜ao de uma Superf´ıcie de Fermi com boa disponibilidade de el´etrons.
Nesse cen´ario as propriedades desses materiais seriam ou (i) as de um metal usual que no limite de dopagem alta apresentaria: densidade de estados finita no N´ıvel de Fermi, superf´ıcie de Fermi completa ou parcialmente formada, resistividade crescendo com a temperatura e um estado supercondutor para baixas temperaturas ou (ii) as de
poderem ser bem descritos por essa an´alise, ela n˜ao ´e coerente com a maior parte dos dados na literatura (veja Figura 1.2). Ainda, como mostrado na Figura 1.2, a presen¸ca de um estado n˜ao-met´alico precedendo o estado supercondutor ´e marcante e contradit´oria com as previs˜oes desse cen´ario te´orico.
Em adi¸c˜ao, medidas com ARPES [101–103] mostraram que um composto monocris-talino (com a previs˜ao de um estado met´alico bem formado) mostra uma superf´ıcie de Fermi pouco formada e com dependˆencia anˆomala com a temperatura, al´em de uma baixa concentra¸c˜ao de el´etrons. Essas medidas, juntas com as medidas da evolu¸c˜ao t´ermica da resistividade (Figura 1.2), mostram um estado normal com comportamento semicondutor e um estado supercondutor que depende fortemente da s´ıntese da amostra.
Essas caracter´ısticas suscitam algumas perguntas fundamentais: como os calcogene-tos de bismuto apresentam caracter´ısticas met´alicas ou isolantes e como as propriedades dessas caracter´ısticas evoluem com parˆametros de controle (temperatura, press˜ao, campo magn´etico, dopagem)? Esses fenˆomenos s˜ao de bulk ou de superf´ıcie? Responder as per-guntas acima possibilita descrever as propriedades de todos os materiais dessa fam´ılia com um ´unico cen´ario. Mostraremos nesse Cap´ıtulo que baseado nos Modelos de Mott-Efros-Shklovskii e dos sistemas Granulares (discutidos no Cap´ıtulo 2) podemos responder essas perguntas. Com esse fim vamos mostrar (Se¸c˜ao 3.1) como o efeito nos estados normal e supercondutor da dopagem pode ser racionalizado usando esses modelos como um fundo te´orico.
Vamos (Se¸c˜ao 3.2) analisar criticamente medidas de resistividade para dois sistemas dessa fam´ılia: Sr1 – xLaxFBiS2(Subse¸c˜ao 3.2.1) e LaO1 – xFxBiS2(Subse¸c˜ao 3.2.2). Faremos
o ajuste da resistividade com as express˜oes de resistividade do Cap´ıtulo anterior e indi-caremos a evolu¸c˜ao dos parˆametros nesses materiais. A partir dessa an´alise constru´ımos
diagramas de fase x − T (que ´e um diagrama de fase emp´ırico com rela¸c˜ao a dopagem) e g − T (proje¸c˜ao do diagrama de fase universal dos sistemas granulares que foi mostrado na Figura 2.3) para esses dois materiais e finalmente (Subse¸c˜ao 3.2.3) estendemos a aplica¸c˜ao do diagrama de fase comentando como podemos entender as outras medidas da literatura desse sistema no cen´ario constru´ıdo neste Cap´ıtulo.
3.1
Evolu¸
c˜
ao da Resistividade com Dopagem
Os compostos baseados em Bismuto podem ser dopados de duas maneiras. No caso de Bi4O4(SO4)1 – xBiS2 [1–12] o sistema ´e dopado introduzindo vacˆancias de SO4 na blocking
layer da Figura 1.1. A outra maneira de dopar esse sistema ´e atrav´es de dopagem substi-tucional em que s˜ao substituidos elementos na s´ıntese. Esse tipo de dopagem ´e presente em v´arios sistemas: (i) R’1 – yR”yO1 – xFxBiS2 (R=La, Ce, Nd, Pr, Sm) [12–30, 39–57]; (ii)
Sr1 – xLaxFBiS2 e Eu1 – yLayO1 – xFxBiS2 [58–61, 64–67]; e (iii) BiS2 – xSex [31–38, 62, 63, 68]
ou Bi1 – yXyS2 (X=Sb, Sm,Ag, Cu, Ni, Pb) [7–10, 36].
A dopagem pode ter trˆes efeitos principais: injetar carga na camada supercondutora, fazer press˜ao qu´ımica e introduzir desordem. A primeira ´e realizada atrav´es da forma¸c˜ao de estados de impureza no material. O processo de press˜ao qu´ımico consiste na substi-tui¸c˜ao de um ´atomo por um outro de tamanho diferente, o que diminui ou aumenta a c´elula unit´aria. J´a quanto a desordem, a substitui¸c˜ao no material n˜ao ´e perfeita, fazendo com que haja inomogeneidade no material como um todo.
Para o estado semicondutor essa inomogeneidade d´a a estrutura da banda de impureza. A dopagem faz com que el´etrons fiquem aprisionados em torno dos centros de dopagem com orbitais similares aos de ´atomos de hidrogˆenio. Esses orbitais podem fazer overlap causando uma condutividade de hopping com a evolu¸c˜ao t´ermica descrita por um VRH (Equa¸c˜ao 2.4) para baixas temperaturas, uma ativa¸c˜ao t´ermica para temperaturas inter-medi´arias (Equa¸c˜ao 2.3) e um estado met´alico para temperaturas mais altas. Em uma dopagem cr´ıtica xM IT ele sofre uma transi¸c˜ao metal-isolante e o ambiente inomogˆeneo
granular met´alico (g > gc) Para temperaturas intermedi´arias (Tm = kgδ
B < T <
gEc
kB =
Tu) ele apresenta um comportamento an´alogo ao da Equa¸c˜ao 2.9 seguido de um
comportamento fracamente dependente da temperatura (Equa¸c˜ao 2.10) que aparece para baixas temperaturas (kδ
B = Tl < T < Tm) e resistividade t´ıpica de metal para
altas temperaturas (T >> Tu). Para temperaturas muito baixas aparece o estado
supercondutor globalmente coerente precedido por um estado de supercondutividade n˜ao-coerente.
granular isolante (g < gc) Apesar de em altas temperaturas o sistema se comportar
como um metal, a presen¸ca de intera¸c˜ao coulombiana faz com que para temperatu-ras intermedi´arias (T ∼ TA) o sistema tenha uma ativa¸c˜ao (Equa¸c˜ao 2.14) com o
expoente proporcional ao gap de Coulomb enquanto que para baixas temperaturas, o sistema apresente um comportamento tipo Efros-Shklovskii (Equa¸c˜ao 2.12). Se g > Ec
∆ esse isolante pode apresentar um estado supercondutor.
Esses eventos resistivos s˜ao devidos ao tamanho finito dos gr˜aos e ao ambiente isolante que os envolve. Tunelamento e bloqueio coulombiano competem no estado normal, com a temperatura auxiliando o transporte de carga e assim diminuindo a resistividade. Para baixas temperaturas (∼ g∆kB) surge o tunelamento de pares de Cooper e a
superconduti-vidade. Como as propriedades dos gr˜aos e da matriz (quantificados em g, δ e Ec) s˜ao
muito sens´ıveis ao tratamento t´ermico e `a press˜ao, as escalas de energia s˜ao altamente influenciada por esses dois fatores, que melhoram a metalicidade e aumentam a tempera-tura cr´ıtica supercondutora. A dopagem tamb´em influencia nessas propriedades, apesar de maneira n˜ao monotˆonica.
3.2
Diagramas de Fase
A partir da discuss˜ao do final da Se¸c˜ao anterior, podemos construir um diagrama de fase x − T para mostrar a evolu¸c˜ao do estado normal e supercondutor. Com esse objetivo digitalizamos a Figura 3 de [61] e a Figura 4 de [15] e ajustamos esses dados com as fun¸c˜oes envolvidas nas fases relatadas acima: Arrhenius (Equa¸c˜ao 2.14) e Efros-Shklovskii (Equa¸c˜ao 2.12) para os comportamentos de ativa¸c˜ao e os comportamentos referente `as corre¸c˜oes do estado met´alico granular: G1 (Equa¸c˜ao 2.9) para altas temperaturas e G2
(Equa¸c˜ao 2.10) para baixas. Assim, para cada amostra conseguimos caracterizar o sistema no estado granular met´alico ou granular isolante ou isolante anterior `a transi¸c˜ao.
Como de costume determinamos a condutˆancia g a partir da resistividade `a tempera-tura ambiente ρ300K e do tamanho t´ıpico dos gr˜aos a:
g = a
Gcρ300K
(3.1) Considerando um gr˜ao t´ıpico com a =100 ˚A, teremos g ≈ ρ0.081
300K (ρ300K em Ω cm) como
um valor m´edio de condutˆancia. A vantagem de usar este g ´e que os diagramas de fase ser˜ao constru´ıdos em termos de g − T facilitando a compara¸c˜ao com a base te´orica do Cap´ıtulo 2: o que n˜ao ´e f´acil de visualizar se o diagrama for x − T .
3.2.1
Sr
1 – xLa
xFBiS
2O composto pai dessa fam´ılia SrFBiS2 ´e um isolante de banda com gap de 0.8 eV [58].
A dopagem nesse sistema ´e substitucional, trocando Sr+2 por La+3, injetando buracos no sistema. Apesar do composto pai apresentar uma alta resistividade (da ordem de 10 Ω cm) que vai para infinito para T → 0, com a dopagem vemos uma redu¸c˜ao dr´astica da resistividade de maneira abrupta (mudan¸ca de duas d´ecadas de x = 0.4 para x = 0.45) que vai para um valor finito quando T → 0, evidenciando a existˆencia de dois regimes para essa amostra.