Programa de Aperfeiçoamento de Docentes PAD. Cuidados com a Voz. Profª. Ingrid Gielow

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Texto

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Programa de Aperfeiçoamento de

Docentes – PAD

Cuidados com a Voz

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Sumário

1. Introdução ... 3

2.Fisiologia da fonação ... 3

3. Identificação de situações de risco, abuso e mal uso vocal ... 4

4. Escala de sinais e sintomas vocais ... 6

5. Psicodinâmica vocal ... 8

5.2.1 Respiração ... 10

5.2.2 Ressonância ... 10

5.2.3 Frequência (“altura”) vocal ... 10

5.2.4 Extensão e modulação vocal ... 11

5.2.5 Intensidade vocal ... 11

5.2.6. Articulação ... 12

5.2.7 Ritmo e velocidade da fala ... 12

7. Identificação de exercícios vocais positivos ... 13

8. Higiene vocal: conheça fatores de risco para a voz ... 14

9. Informações básicas para manter sua voz ... 15

10.Referências ... 15

11.Links interessantes ... 16

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1. Introdução

Aquele que depende da voz para realizar seu trabalho é considerado um profissional da voz. Entretanto, apesar de limitarem ou até mesmo impedirem o trabalho desse profissional, legalmente os distúrbios vocais não são considerados doenças ocupacionais. E o professor, além de fazer parte da categoria dos profissionais da voz, faz parte de suas estatísticas.

Segundo o primeiro estudo epidemiológico brasileiro sobre as condições vocais do professor, realizado com 1651 professores e 1614 não professores em 2010, coordenado pelo Centro de Estudos da Voz em parceria com o Sindicato dos Professores de São Paulo, 63% dos professores que lecionam em rede particular já apresentaram algum problema vocal. Considerando especificamente os professores de ensino superior, o percentual cai para 38,5% - o que não deixa de ser um dado alarmante. Os sintomas mais apontados pelos docentes neste levantamento foram garganta seca (51,7%), rouquidão (35,1%) e pigarro (35,1%). Sendo a voz um instrumento de trabalho imprescindível em sala de aula, saber quais cuidados ajudam a preservá-la e adotar uma prática de higiene vocal são necessidades básicas para a saúde e o bem estar do docente, que poderá, assim, manter-se fora das estatísticas mencionadas.

As informações e técnicas apresentadas a seguir são fundamentadas em diversas pesquisas reconhecidas no meio científico e visam proporcionar ao docente estratégias de preparação e manutenção da voz a partir da execução de exercícios específicos e de informações práticas sobre a higiene vocal.

2.Fisiologia da fonação

A voz é produzida pelo trato vocal, a partir de um som básico gerado na laringe, o “buzz” laríngeo. A laringe localiza-se no pescoço e é um tubo alongado, no interior do qual localizam-se as pregas vocais, popularmente denominadas “cordas vocais”, pelo aspecto de sua visualização quando observadas pelo tradicional espelhinho do otorrinolaringologista.

As pregas vocais são formadas por músculo e mucosa, em posição horizontal paralela ao solo, na altura da proeminência laríngea, conhecida por “pomo de Adão” ou “gogó”.

Para se produzir a voz e a fala, o cérebro dispara um comando central que chega na laringe e nos articuladores dos sons da fala – língua, palato e lábios – através de nervos específicos. Inicialmente é necessário inspirar o ar, ou seja, introduzir o ar nos pulmões. Para tanto, as pregas vocais devem estar afastadas.

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Ao entrar em fonação para produzir a voz, as pregas vocais se aproximam, com tensão adequada, bloqueando e controlando a passagem de ar dos pulmões para a boca. O ar coloca as pregas vocais em vibração. Esses ciclos vibratórios se repetem rapidamente – em média 150 vezes por segundo nos homens, e 200 vezes por segundo nas mulheres. Quanto mais aguda a voz, mais ciclos se repetem por segundo, chegando a uma frequência de 250 nas crianças. Ao passar pelo trato vocal e pela caixa de ressonância, de acordo com o posicionamento dos articuladores, algumas ondas sonoras produzidas se amplificam, outras se atenuam, moldando a qualidade da voz e as características acústicas dos sons da fala. Assim sendo, as caixas de ressonância, principalmente a boca e a faringe, devem estar ajustadas para facilitar e amplificar a saída do som pela boca.

Existe uma infinidade de combinações entre a frequência de vibração das pregas vocais, a tensão da musculatura envolvida, tanto dentro quanto fora da laringe, a pressão do ar sob as pregas vocais, o tempo e o grau de fechamento da região entre as pregas, e a flexibilidade do tecido mucoso que recobre a laringe, particularmente as pregas vocais. Cada combinação produz um som diferente, sendo a fala uma sinfonia de muitas notas, cuja modelagem é regida pelo sistema nervoso central e monitorada pela audição, através das habilidades do processamento auditivo central. Qualquer alteração em um dos componentes dessa orquestra pode comprometer o resultado final da produção.

A produção vocal alterada ou desviada é chamada de disfonia. O mal uso ou o uso abusivo da voz, principalmente em condições adversas e sem preparo da musculatura para o trabalho intenso, pode trazer consequências inicialmente transitórias. Se elas frequentemente se repetem, podem levar o organismo a reagir de um modo que proteja as pregas vocais da agressão, mas que comprometem a qualidade da voz produzida nessa condição. Infelizmente, esse é o destino de mais de 60% dos professores ativos em algum momento de sua carreira. A seguir, você poderá identificar se o seu comportamento vocal oferece risco à saúde e à longevidade da sua voz.

3. Identificação de situações de risco, abuso e mal uso vocal

Quais sinais e sintomas de voz você apresenta?

 Rouquidão  Cansaço vocal

 Problemas para falar baixo  Dificuldade para projetar a voz  Dificuldade para cantar agudo

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5  Desconforto para falar

 Voz monótona  Esforço para falar  Garganta seca  Dor na garganta  Pigarro

 Gosto amargo na boca  Dificuldade para engolir  Voz instável

Assinale, a seguir , os itens em que sua resposta é positiva:  Você tem ou já teve algum problema de voz?

 Alguém já comentou que sua voz é diferente e você entendeu o comentário de forma negativa?

 Você acha que sua voz combina com seu corpo?

 Você acha que sua voz combina com sua personalidade?  Você gosta do som da sua voz gravada?

 Você acha que sua voz é rouca, fina, grossa, fraca ou forte demais?  De manhã sua voz é rouca ou fraca?

 Você fica rouco frequentemente?  Você usa sua voz de forma intensiva?  Você grita demais?

 Você fala demais ao telefone?

 Sua voz fica rouca ou fraca após um dia de trabalho?  Você sente falta de ar durante a fala?

 Você faz força para ser ouvido?

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 Sua voz some ou muda repentinamente de tom?  Sua voz quebra, some ou desafina quando você canta?  Você fuma há muito tempo ou em grande quantidade?  Você toma bebidas alcoólicas destiladas diariamente?  Você tem alergia respiratória ou resfriados constantes?

 Você tem azia, queimação no esôfago ou refluxo gastroesofágico?

 Você apresenta alguns desses sintomas na laringe: pigarro, coceira, ardor, dor, sensação de garganta seca, sensação de queimação, sensação de aperto ou bola na garganta?

 Você se automedica quando tem problema de voz?

IDENTIFIQUE UM POSSÍVEL PROBLEMA DE VOZ

Se você assinalou até 4 itens, verifique o que pode ser feito para reduzir essa marca.

Se você assinalou 6 ou mais itens, talvez precise procurar um especialista para orientá-lo, pois sua voz está correndo risco!

4. Escala de sinais e sintomas vocais

Considerando a avaliação de 1651 professores e 1614 não professores, os sintomas mais frequentemente observados são: garganta seca (51,7%), rouquidão (35,1%) e pigarro (35,1%). Os sinais e sintomas relacionados ao trabalho por mais de 80% dos professores foram: Cansaço vocal (92,8%)

Desconforto para falar (90,4%) Esforço para falar (89,2%) Garganta seca ( 83,4%)

Dificuldade para projetar a voz (82,8%) Rouquidão (82,2%)

Fique atento para a sua situação. Reavalie-se periodicamente para identificar eventuais riscos. A escala a seguir é um instrumento validado para esse fim. Responda-a sinceramente.

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Escala de Sintomas Vocais – ESV

Nome: ____________________________________________ Data________________

Por favor, circule uma opção de resposta para cada pergunta. Por favor, não deixe nenhuma resposta em branco. 1. Você tem dificuldade de chamar a atenção das pessoas? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 2. Você tem dificuldades para cantar? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 3. Sua garganta dói? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 4. Sua voz é rouca? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 5. Quando você conversa em grupo, as pessoas têm dificuldade

para ouví-lo? Nunca Raramente Às vezes

Quase

sempre Sempre 6. Você perde a voz? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 7. Você tosse ou pigarreia? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 8. Sua voz é fraca/baixa? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 9. Você tem dificuldades para falar ao telefone? Nunca Raramente Às vezes sempre Quase Sempre 10. Você se sente mal ou deprimido por causa do seu problema de

voz? Nunca Raramente Às vezes

Quase

sempre Sempre 11. Você sente alguma coisa parada na garganta? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 12. Você tem nódulos inchados (íngua) no pescoço? Nunca Raramente Às vezes sempre Quase Sempre 13. Você se sente constrangido por causa do seu problema de voz? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 14. Você se cansa para falar? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 15. Seu problema de voz deixa você estressado ou nervoso? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 16. Você tem dificuldade para falar em locais barulhentos? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 17. É difícil falar forte (alto) ou gritar? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 18. O seu problema de voz incomoda sua família ou amigos? Nunca Raramente Às vezes sempre Quase Sempre 19. Você tem muita secreção ou pigarro na garganta? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 20. O som da sua voz muda durante o dia? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 21. As pessoas parecem se irritar com sua voz? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 22. Você tem o nariz entupido? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 23. As pessoas perguntam o que você tem na voz? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 24. Sua voz parece rouca e seca? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 25. Você tem que fazer força para falar? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 26. Com que frequência você tem infecções de garganta? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 27. Sua voz falha no meio das frases? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 28. Sua voz faz você se sentir incompetente? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 29. Você tem vergonha do seu problema de voz? Nunca Raramente Às vezes Quase

sempre Sempre 30. Você se sente solitário por causa do seu problema de voz? Nunca Raramente Às vezes Quase

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8 A voz do professor

Estudos comparativo entre professores e indivíduos

Original: Deary, Wilson, Carding, MacKenzie, 2003.

Em português: Moreti F, Zambon F, Oliveira G, Behlau M. Adaptação cultural e validação do protocolo Voice Symptom Scale – VoiSS para o português brasileiro. In: XX Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia, 2012, Brasília. Rev Soc Bras Fonoaudiol - Suplemento, 2012. v. 17, p. 2279.

5. Psicodinâmica vocal

A voz é o tato à distância. Por meio da sua voz, você pode chamar a atenção e aproximar as pessoas – ou não. A maneira como você modula sua voz pode oferecer credibilidade ao conteúdo da fala, aumentando o nível de confiança do ouvinte na informação que você oferece.

Cada indivíduo possui em sua voz um registro acústico único, que é parte de sua identidade e pode, inclusive, ser usado legalmente no reconhecimento do autor de uma gravação de voz. Podemos comparar, sem exagero, sua voz à sua impressão digital.

A voz muda de acordo com as situações, assim como mudamos o estilo da roupa que utilizamos em cada contexto. Ter controle sobre sua voz expressa seu posicionamento diante do outro na comunicação.

Quando você fala, existem ao menos três níveis de leitura vocal que o ouvinte considera, ainda que inconscientemente. A dimensão biológica refere-se à expectativa gerada a partir do corpo que produz aquela voz: espera-se de uma pessoa de maior estatura uma voz mais grave do que se espera de uma pessoa de menor estatura. Uma laringe maior deve produzir um som mais grave que uma laringe menor, e uma relação entre corpo e voz fora desse padrão geralmente nos chama a atenção.

Cada questão é pontuada de 0 a 4, para nunca, raramente, às vezes, quase sempre, sempre. Total ESV: indica o nível geral da alteração de voz (máximo 120) = _______

Nota de corte: 16 Subescalas:

- Limitação: 1, 2, 4, 5, 6, 8, 9, 14, 16, 17, 20, 23, 24, 25, 27 (máximo 60) = _______ - Emocional: 10, 13, 15, 18, 21, 28, 29, 30 (máximo 32) = ______

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A dimensão psicológica pode ser percebida quando a emoção interfere na produção vocal momentaneamente, mas é principalmente nos padrões habituais que fazemos tal leitura. Por exemplo, alguém que fala em intensidade de voz fraca, com tom de voz mais agudo, finalizando as frases com uma modulação ascendente ou apresentando tremor na voz é percebido como inseguro, frágil ou medroso.

Por fim, a dimensão socioeducacional do uso da voz revela sua origem e parte de seus valores. Espera-se, considerando o contexto de formação de um oriental, por exemplo, uma voz de intensidade fraca ou moderada; imagina-se que alguém que fale forte e gesticule amplamente, por sua vez, tenha em sua origem uma passagem pela península itálica. São caricaturas vocais, mas o primeiro impacto na percepção do outro é associado imediatamente aos padrões registrados na memória do ouvinte. E temos apenas uma oportunidade de criarmos uma primeira impressão, que mesmo que não sendo definitiva, é muito relevante na construção de relações.

5.1 Psicodinâmica e qualidade vocal

O tipo de voz empregado por um indivíduo depende de um conjunto de características que identificam sua voz. Assim como o som de um dado instrumento é reconhecido por seu timbre, você é reconhecido por sua qualidade vocal, ou seja, pela impressão total criada por sua voz.

O impacto que a qualidade da voz causa na percepção do ouvinte é chamado de psicodinâmica vocal. Quando a voz do falante é rouca, o ouvinte pode relacionar tal característica com cansaço, estresse ou esgotamento. Uma voz mais fraca, soprosa, pode sugerir fraqueza, mas também sensualidade. Uma voz monótona é relacionada, geralmente, a pessoas ou a conteúdos chatos e desinteressantes. Quando a voz parece fanhosa, ou seja, tem um forte componente de ressonância nasal, pode causar no ouvinte uma sensação de falta de energia, inabilidade social e até limitação intelectual.

Qual será a psicodinâmica da sua voz? Conhecê-la e ter o domínio consciente de seus efeitos favorece sua expressividade e sua competência comunicativa.

5.2 Exploração teórico-prática de parâmetros vocais

Existem cerca de 70 parâmetros definidos que interferem na imagem vocal, como o tipo da voz, a característica e a frequência da respiração, a ressonância, o tom de voz utilizado, a intensidade da fala, a qualidade da articulação, o ritmo e a velocidade da fala. Os parâmetros comentados a seguir podem ser considerados os mais relevantes na construção da sua psicodinâmica vocal, e para melhor gerenciá-los, o primeiro passo é compreendê-los. A seguir, identificando uma necessidade de modificação de comportamento vocal, o caminho é a repetição consciente, ou seja, o treino, até que a habilidade passe a ser inconsciente.

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5.2.1 Respiração

A coordenação entre respiração, voz e articulação dos sons, chamada de coordenação pneumofonoarticulatória, é a base da boa fonação. Além de favorecer a fisiologia da fonação, quando em equilíbrio, ela expressa integridade da personalidade de quem fala. Alterações causam desconforto no ouvinte

5.2.2 Ressonância

Fisiologicamente, a ressonância está relacionada à amplificação da intensidade de sons de determinadas frequências da voz e amortecimento de outras. Psicologicamente, indica o objetivo emocional do discurso.

Uma ressonância equilibrada entre a laringe, a boca e o nariz, transmite a impressão de facilidade de exteriorizar emoções, equilíbrio psicoemocional. Quando a voz parece “presa na garganta”, sugere tensão, dificuldade em trabalhar sentimentos de agressividade.

Uma fala muito articulada, que provoca uma ressonância excessivamente oral, transmite uma impressão de narcisismo, excesso de preocupação em esclarecer os fatos, relaciona-se com a ideia de origem em uma classe social alta ou de afetação incongruente. Como referido anteriormente, exceto em casos de patologias específicas, a ressonância nasal geralmente é relacionada à sensualidade e à afetividade.

Não é um problema apresentar qualquer desses padrões de ressonância, mas vale a pena avaliar se o impacto seu padrão causa é compatível com a mensagem que você quer transmitir.

5.2.3 Frequência (“altura”) vocal

Fisiologicamente, o “tom” ou “altura” da voz relaciona-se com o número de vibrações das pregas vocais por segundo. Psicologicamente, tem uma relação direta com a intenção do discurso.

Vozes mais graves sugerem indivíduos autoritários e enérgicos; vozes mais agudas, pessoas menos dominadoras, mais dependentes, infantis e frágeis. Tons agudos oferecem um discurso de clima alegre, com maior gama tonal, ênfase mais marcada e maior velocidade de fala. Tons mais graves imprimem um clima triste e melancólico, com gama tonal mais restrita e menor velocidade de fala.

Assim como na percepção da ressonância, não há uma melhor opção genérica de melhor tom ou altura para se falar. Tudo depende da intenção da sua comunicação naquele determinado contexto.

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5.2.4 Extensão e modulação vocal

A extensão vocal da fala é o número de notas usadas na melodia da fala. A modulação é como essas notas variam durante a comunicação. O padrão de modulação da fala de um indivíduo é diretamente relacionado à cultura e à sociedade em que ele vive e /ou foi criado.

De um modo geral, os homens apresentam menor modulação no discurso. É interessante observar, segundo alguns estudos, que as mulheres que ocupam cargos de liderança geralmente apresentam uma modulação menor que o esperado para o sexo feminino, bem como tendem a finalizar suas frases com tons mais graves.

Uma modulação vocal restrita sugere rigidez de caráter, controle das emoções e pode ser consequência de um processo educacional repressor. Uma modulação excessivamente variada pode sugerir falta de controle emocional ou sensibilidade excessiva. Quanto mais rica é a modulação, maior a expressão de sentimentos, especialmente de alegria, satisfação e excitação.

5.2.5 Intensidade vocal

Fisiologicamente, a intensidade relaciona-se diretamente com a pressão do ar que sai dos pulmões sobre as pregas vocais. Quanto maior a pressão, maior a intensidade final. Psicologicamente, refere-se a como o indivíduo lida com a noção de limite próprio e de limite do outro.

Quando adequada ao ambiente e às circunstâncias, a intensidade vocal reflete o quanto o falante tem de consciência da dimensão do outro, refinando o controle de projeção da voz no espaço de acordo com o contexto.

Ao falar em intensidade muito elevada, o indivíduo sugere franqueza de sentimentos, vitalidade e energia, mas também pode parecer falta de educação e de paciência, invasão do outro e recurso para intimidação. Muitas vezes é um padrão resultante de modelo familiar – mas o interlocutor geralmente não tem essa informação.

A intensidade de voz reduzida durante a fala pode sugerir uma falta de experiência nas relações interpessoais, timidez, medo da reação do outro ou até um complexo de inferioridade, fruto ou não de uma educação muito repressora, pode sugerir uma autoimagem negativa.

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5.2.6. Articulação

Considera-se articulação da fala o processo de movimentos envolvidos na produção e na formação dos sons e ao encadeamento destes na fala. A psicodinâmica dessa articulação diz respeito ao cuidado do falante em ser compreendido.

Uma articulação bem definida sugere clareza de ideias, desejo de ser compreendido, preocupação com o ouvinte. Quando imprecisa, pode denotar dificuldade na organização mental, desinteresse do falante em se comunicar e em ser compreendido.

Uma inexatidão articulatória temporária pode estar relacionada à perda de controle emocional numa determinada situação. Quando exagerada, em parceria com a ressonância muito oral, revela certo grau de narcisismo ou afetação. Se travada, sugere a impressão de agressividade, contenção de sentimentos e raiva.

5.2.7 Ritmo e velocidade da

fala

O ritmo da fala é a habilidade de fazer fluir o pensamento em palavras, e está diretamente conectado à articulação. A velocidade média da fala na língua portuguesa é de 140 palavras por minuto, podendo variar de 130 a 180. E não adianta acelerar além desse limite, pois o cérebro continuará processando o mesmo número máximo de palavras por minuto, e o ouvinte perderá maior porcentagem de informação. Além disso, a velocidade de fala muito rápida pode ser relacionada à vontade de omitir dados no discurso, reflete ansiedade e pode sugerir que o falante não dá espaço ao interlocutor.

6. Possíveis níveis de alteração vocal

Voz rouca não é normal. Problemas com a qualidade vocal que persistam por mais de 15 dias devem receber atenção especializada, seja de um médico otorrinolaringologista ou de um fonoaudiólogo. Muitos problemas sérios, como o câncer de laringe e a Doença de Parkinson, podem oferecer seus primeiros sintomas na qualidade da voz.

Se o problema for nas pregas vocais, em outro nível da laringe ou no sistema de ressonância da voz, a avaliação otorrinolaringológica é imperiosa. Muitas vezes é necessário um tratamento médico, que pode ser acompanhado ou seguido por uma intervenção fonoaudiologica. Quando a questão envolve a integração da imagem corporal com a voz ou da voz com a identidade, uma abordagem fonoaudiológica pode ser útil.

Nos casos em que a laringe ainda é saudável, mas a qualidade vocal não se mantém no exercício das atividades diárias, o problema é a eficiência vocal. O fonoaudiólogo deve indicar os exercícios de aquecimento e desaquecimento vocal adequados a cada condição, seja para prevenção ou remediação dos sintomas da fadiga vocal.

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7. Identificação de exercícios vocais positivos

Os exercícios referentes a cada parâmetro apresentado podem ser revistos no DVD que acompanha essa apostila. Não existe uma abordagem universal – os exercícios que são benéficos para sua estrutura e fisiologia podem não servir para todas as pessoas. Portanto, a atenção ao conforto durante a execução dos exercícios e a análise do impacto imediato na voz após realizá-los são fundamentais para a identificação dos exercícios mais indicados para cada caso.

Anote os exercícios que melhoraram a qualidade da sua voz ou o seu conforto ao falar: ( ) Manipulação da laringe ( )

( ) Vibração da língua = “trrr....” ( ) ( ) Vibração dos lábios = “brrrr....” ( ) ( ) “b” prolongado = “...bã” ( )

( ) Som fricativo = “z....” ou “j...” ou “v...” ( ) ( ) Som fricativo com modulação ( )

( ) “boommmm” ascendente ( ) ( ) Som nasal mastigado ( )

( ) Dedo indicador sobre os lábios + “u” assoprado ( ) ( ) Tubo em meia garrafinha de água = “u” assoprado ( ) ( ) Espátula entre os dentes ( )

( ) “mini-miniaaaAAAA” + vogais ( ) Personalize seu “Desaquecimento” vocal Som de apoio descendente (agudo grave)

o Trrr.... ( ) o Brrr... ( ) o Zzzzz... ( ) o Mmmmm.... ( )

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8. Higiene vocal: conheça fatores de risco para a voz

 Fumo, álcool e drogas

 Hábitos vocais inadequados o Pigarro

o Tossir com força

o Sussurrar (é um dos maiores esforços que a laringe pode fazer, pois ativa músculos agonistas e antagonistas simultaneamente)

o Falar com sons ou ruídos de fundo

 Posturas corporais inadequadas

 Alergias

 Alimentação farta antes das apresentações, ou carregada em temperos, ou com chocolate, leite e derivados

 Falta de repouso

 Refluxo gastresofágico

 Ar condicionado

o Falta de hidratação. Para evitá-la, ingira pelo menos 2 litros de água por dia e procure beber 4 copos de água 2 horas antes do uso intensivo da voz

 Mudanças de temperatura

 Vestuário desconfortável. Procure vestir-se confortavelmente, evitando roupas apertadas e sapatos incômodos ou com salto muito alto.

 Esportes – evite emitir sons enquanto faz esforço corporal

 Alterações hormonais podem afetar a voz

 Medicamentos que podem alterar a voz: o Analgésicos (aspirina) o Antibióticos o Sprays nasais o Xaropes o Descongestionantes nasais o Diuréticos o Vitamina C em excesso o Hormônios o Tranquilizantes

o Cuidado: soluções caseiras podem ser perigosas. Jamais tome um corticóide sem prescrição médica – o efeito pode ser bom em curto prazo, mas devastador para uma laringe em fonação por longo prazo.

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9. Informações básicas para manter sua voz

1. Beba pelo menos 2 litros de água por dia, e um copo duas horas antes de iniciar uma aula. 2. Ao usar a voz intensamente, ingira pequenos goles de água com frequência.

3. Fumo e uso de voz profissional são incompatíveis. Evite uso de álcool e cafeína. 4. Evite alimentos muito condimentados e pesados.

5. Reduza o uso da voz quando gripado ou em crise alérgica.

6. Monitore-se para não falar mais forte que o necessário. Não é necessário falar forte ao microfone.

7. Cuidado com as longas conversas ao telefone. Mantenha a postura corporal, principalmente a da cabeça, e não fale ao telefone deitado.

8. Evite falar fora do seu tom habitual. 9. Evite conversar em ambiente ruidoso.

10. Lembre-se de que falar rapidamente traz fadiga vocal. 11. Evite falar enquanto faz exercícios ou carrega peso. 12. Abra bem a boca para falar.

Se perceber que sua voz está se alterando negativamente ou se os exercícios vocais

não estão mais fazendo o efeito desejado, procure ajuda de um especialista.

Cuide do seu instrumento de trabalho...

Seja amigo da sua voz!

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10. Referências

BEHLAU M, PONTES P. Higiene Vocal - cuidando da voz. 5. ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2009. ZAMBOM F, BEHLAU M (Orgs.). A voz do professor - Aspectos do sofrimento vocal profissional. 1. ed. São Paulo: SINPRO, 2010. v. 4000. 23p .

BOONE, D. Sua voz está traindo você? Como encontrar sua voz natural. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

Behlau M, Dragone ML e Nagano L - A Voz Que Ensina: O Professor e a Comunicação Oral em Sala de Aula. – Rio de Janeiro, Revinter, 2004.

Behlau M, Zambon Z, Guerrieri AC, Roy N – Panorama epidemiológico sobre a voz do professor no Brasil, disponível em http://www.sbfa.org.br/portal/anais2009/resumos/R1511-1.pdf. SATALOFF RT. Professional voice: The science and the art of clinical care. 2 ed. San Diego: Singular, 1997.

11. Links interessantes

1. Respostas para perguntas frequentes na área de voz.

http://www.sbfa.org.br/portal/pdf/FAQs%20em%20Voz%202009.pdf

2. Bem-estar vocal.

http://www.sinprosp.org.br/arquivos/saudedoprofessor/bem_estar_vocal.pdf.

12. Sobre a Autora

Ingrid Gielow é doutora em Ciências dos Distúrbios da Comunicação Humana pela UNIFESP, especialista em Voz pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia, Master Practitioner em Programação Neurolinguística pelo INEXH, Coach pela International Coaching Community. Fonoaudióloga, foi pesquisadora associada ao Mount Sinai School of Medicine e a New York University. Atualmente atende clinicamente, ministra cursos, treinamentos e consultoria em comunicação em diversas empresas; é professora e orientadora do CEV - Centro de Estudos da Voz (SP) e professora convidada da FGV Management, onde ministra matérias relacionadas à Comunicação Humana: técnicas de apresentação em público e condução de reuniões, comunicação interpessoal, aprendizageme gestão de pessoas. Foi coordenadora do Departamento de Voz da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (2010-11).Recebeu vários prêmios científicos em âmbito nacional e internacional, entre eles o “Destaque em Voz”. Autora de artigos, capítulos, livros e softwares para auxílio da comunicação e do processamento auditivo.

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