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A avaliação psicomotora no geronte. Tradução e adaptação do exame geronto psicomotor : estudo preliminar.

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Academic year: 2021

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Universidade Técnica de Lisboa

Faculdade de Motricidade Humana

A Avaliação Psicomotora no Geronte

Dissertação de Mestrado para a obtenção do grau de Mestre em Reabilitação

Psicomotora

Orientadora: Professora Doutora Ana Sofia Pedrosa Gomes dos Santos

Júri:

Presidente

Professora Doutora Ana Sofia Pedrosa Gomes dos Santos

Vogais

Professor Doutor Marco Paulo Maia Ferreira

Professor Doutor Nuno Maria Blek da Silva Amado

Ricardo Jorge Fiúza Araújo

2013

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Agradecimentos

Muito obrigado…

À Professora Doutora Sofia Santos! Sem a sua orientação esta etapa da vida

não teria tido tanta graça.

Aos meus pais! Foram vocês que me ensinaram que a vida só vale a pena se

lutarmos por ela.

À Ana Morais pelo apoio e acompanhamento.

Aos estudantes de Reabilitação Psicomotora da Faculdade de Motricidade

Humana, Maria Clara Sanches, José Duarte, Catarina Bento, Felisbela Paixão,

Rita Almeida, Joana Lima, André Ramos e Mariana Ribeiro pela ajuda preciosa

na recolha de dados.

Às Instituições que permitiram a recolha de dados: Domus Vida, Clube de

Repouso Casa dos Leões, Casa de Saúde da Idanha, Centro Comunitário

Paroquial Nossa Senhora das Dores e Centro Social Paroquial Nossa Senhora

de Porto Salvo.

Aos colegas de trabalho, por muitas vezes terem facilitado a minha vida

durante este período.

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Resumo

O presente trabalho tem como objetivo principal refletir como a Intervenção Psicomotora pode atuar como um apoio fundamental para a (promoção de) funcionalidade e para a vivência de uma vida com qualidade por parte dos cidadãos, com especial destaque para as populações gerontes. É realizada uma revisão da literatura sobre a intervenção psicomotora, abrangendo o seu modelo de intervenção, com especial destaque para a avaliação psicomotora. Em seguida, procurar-se-á compreender o processo de envelhecimento, abordando as principais alterações biológicas, cognitivas e psicológicas desta fase da vida. As problemáticas psicomotoras dos gerontes são de igual forma abordadas, com especial destaque para as perturbações do esquema corporal, motricidade global, orientação espacial e orientação temporal. Conclui-se a revisão com a descrição acerca das potencialidades da intervenção psicomotora na população geronte, ressalvando a necessidade de criação e validação de instrumentos de avaliação específicos da área para esta população.

Palavras-Chave:

Psicomotricidade; Intervenção Psicomotora; Avaliação Psicomotora; Perturbações Psicomotoras; Envelhecimento; Senescência; Senilidade; Geronte

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Abstract

This work aims to present a literature review about how the Psychomotor Intervention can act as a support for the (promotion) of independent functioning and quality of life for citizens, with special focus on elderly populations. It was made a literature review on psychomotor intervention, including its model of intervention, emphasizing the psychomotor assessment. Then, it will be presented the aging process, addressing the major biological, cognitive and psychological changes in this phase of life. The elderly psychomotor problems are equally addressed, with particular emphasis on the misperception of the body schema, gross motor control, spatial orientation and temporal orientation. The review concludes with a description about the potential of the psychomotor intervention with an elderly population, stressing the need for creating and validating assessment tools specific area for this population.

Key-words

Psychomotricity; Psychomotor Intervention; Psychomotor Assessment; Psychomotor Disturbances; Aging, Senescence, Senility; Elderly

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Índice

1. Introdução ... 6 2. A Intervenção Psicomotora ... 8 3. Avaliação Psicomotora ... 10 4. O que é o Envelhecimento? ... 12

5. Problemas Psicomotores no Envelhecimento ... 16

6. Conclusão ... 21

Bibliografia ... 1

Índice de tabelas

Tabela 1 - Principais alterações biológicas no geronte ... 14

Tabela 2: Principais alterações cognitivas no geronte ... 16

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1. Introdução

O presente trabalho surge no âmbito da dissertação do Mestrado em Reabilitação Psicomotora da Faculdade de Motricidade Humana, Universidade Técnica de Lisboa e tem como objetivo principal refletir como a Intervenção Psicomotora pode atuar como um apoio fundamental para a (promoção de) funcionalidade e para a vivência de uma vida com qualidade por parte dos cidadãos, com especial destaque para as populações idosas.

Neste âmbito, o tema pela qual se optou prendeu-se com a necessidade emergente de instrumentos de avaliação psicomotores adaptados e validados a grupos-alvo específicos da sociedade atual, neste caso concreto a gerontes com e sem síndromes demenciais. Esta escolha fundamenta-se não só pela prática profissional na área, exercendo a atividade de psicomotricista em Centros de Dia do Concelho de Oeiras (Centro de Dia do Centro Comunitário Paroquial Nossa Senhora das Dores e Centro de Dia do Centro Social Paroquial Nossa Senhora de Porto Salvo), nos quais para além de se planear intervenções psicomotoras junto dos gerontes existe a integração no trabalho transdisciplinar realizado pelos diversos técnicos da rede social do concelho. Surge assim a necessidade de uma afirmação profissional, destacando-se para o efeito a inexistência de instrumentos psicomotores específicos e validados para a avaliação (e consequente planeamento da intervenção e dos apoios a prestar) dos gerontes com quem se trabalha.

Nas últimas décadas, é possível observar alterações à pirâmide de idades da população portuguesa, o que tem como consequência mais direta o aumento do número de pessoas idosas (com um ritmo de crescimento de quatro vezes superior à camada jovem) e a diminuição da percentagem da população jovem (Gonçalves & Carrilho, 2007). Por outro lado, o aumento da esperança média de vida é outro fator demográfico a considerar situação que, de acordo com Pereira (2004) apresenta como consequências alterações no conceito de idade e, mais especificamente, da terceira idade… Este processo de envelhecimento, e nas palavras da autora, faz desta população “uma importante fatia que deve ser tida em consideração” na intervenção psicomotora que deverá contribuir para um envelhecimento com mais qualidade. Atualmente, o papel desempenhado pelo geronte tem vindo a alterar-se, decorrente das mudanças políticas, sociais e económicas que exigem o “prolongamento” do seu contributo enquanto cidadão, fomentando a sua participação ativa em todas as tarefas diárias (pessoais, profissionais, familiares…) até mais tardiamente (Pinto, 2010).

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Esta necessidade (resultante da alteração dos padrões socioculturais) de adaptação já era perspetivada por Vasconcelos (2003) que, no seu estudo, concluiu que o geronte ainda detém habilidades de adaptação devido às transformações sofridas ao longo do processo de desenvolvimento do ciclo vital. Por outro lado, são inúmeros os estudos que apontam para uma perda progressiva de competências (biológico-fisiológica, psicológicas, sociais e psicomotoras) à medida que a idade avança (Barreiros, 2006; Mazo, Lopes & Benedetti, 2009; Pereira, 2004; Saldanha, 2009; Souza & Bretas, 2007), erguendo-se a intervenção psicomotora como um dos possíveis apoios a prestar a este tipo de população (Valente, Santos e Morato, 2011), na tentativa de otimizar a qualidade de vida de cada indivíduo.

A definição de apoios tornou-se assim um aspeto a ter em conta, ganhando uma importância que até aqui não tinha. Segundo Santos e Morato (2008), os apoios devem promover os interesses e as causas de qualquer indivíduo, melhorando a funcionalidade do mesmo através de recursos e estratégias. Na perceção da necessidade de intervir e de apoiar o geronte, através da elaboração de planos de intervenção, convém destacar a importância da intervenção psicomotora e da sua inclusão na matriz dos planos que promovam a qualidade de vida e funcionalidade nestes indivíduos (Leitão, Lombo & Ferreira, 2008).

Ainda dentro desta temática, o enfoque será dado a todo o processo de avaliação psicomotora, dado constituir-se como um dos primeiros passos em qualquer planeamento de serviços e intervenções, assumindo um papel preponderante no despiste de problemáticas, na formulação de um plano terapêutico e na (re)avaliação das consequências deste mesmo plano terapêutico. Só assim o técnico consegue avaliar o papel da sua intervenção e optar pelas estratégias mais adequadas a utilizar.

Neste sentido, o documento, foi organizado da seguinte forma:

 Num primeiro artigo, procede-se à revisão da literatura sobre alguns conceitos mais próximos do estudo em causa: o envelhecimento (típico e patológico), o papel da intervenção psicomotora com a população-alvo, centrando mais a atenção no papel desempenhado pela avaliação psicomotora, terminando com uma reflexão sobre a forma como estes conceitos se relacionam; e

 Posteriormente, num segundo artigo apresenta-se o estudo inicial sobre a tradução e adaptação de um instrumento psicomotor já existente em França, denominado por Examen Géronto Psychomoteur (Michel, Soppelsa & Albaret, 2011) e que em Portugal foi traduzido por Exame Geronto Psicomotor (EGP por Morais, Fiúza,

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Santos & Lebre) concebido especificamente para a avaliação das competências psicomotoras de gerontes.

2. A Intervenção Psicomotora

Julga-se oportuno começar por abordar a psicomotricidade enquanto modelo de intervenção porque só assim é possível compreender quais as metodologias a adotar na avaliação das competências psicomotoras, de qualquer população-alvo com que o psicomotricista trabalha.

No Homem encontram-se quatro dimensões fundamentais, a motricidade, a cognição, a linguagem e a relação tónica emocional. A interação em conjunto e recíproca entre estas constitui a globalidade psicomotora do Homem. É nesta interação que se encontram duas componentes que se fundem para originar a coesão psicocorporal (a componente psicotónica que exprime o vivido) e a componente psicomotora (onde o Homem age, pensa e fala – Boscaini, 2004).

A exteriorização destas quatro dimensões permite a observação de fenómenos que são mensuráveis e, assim, indicam o nível de maturidade das competências, sendo estas apelidadas na Reabilitação Psicomotora de fatores psicomotores: o tónus, a postura, a motricidade, o equilíbrio, gnosias, praxias, esquema corporal, lateralidade, orientação espacial e temporal, entre outros (Boscaini, 2004).

Assim sendo, a Psicomotricidade é “uma ponte entre a psique, o cognitivo, o afetivo, e o neuromotor, uma articulação entre o simbólico e o real, entre o verbal e o não-verbal, entre a sensação, a emoção e o pensamento”, onde a ação corporal é o elemento expressivo e integrador entre o corpo agido e o corpo pensante (Boscaini, 2004, p. 54) e é nas falhas entre estas pontes, que surgem as perturbações psicomotoras e onde a intervenção psicomotora ganha relevância.

Desta forma, surge a necessidade de aprofundar a intervenção psicomotora bem como entender onde podem surgir as perturbações psicomotoras. Como intervenção, a psicomotricidade trata-se de uma mediatização corporal e expressiva, na qual o terapeuta investiga e compensa as dispraxias (perturbações psicomotoras), geralmente ligadas a problemas de desenvolvimento e maturação psicomotora, de aprendizagem, de comportamento ou de âmbito psicoafetivo (Fonseca, 2001a).

Estas dispraxias surgem na relação dicotómica entre a função motora e a função tónica, sendo que quando uma tem mais expressão que outra provoca um desequilíbrio (Boscaini, 2004)

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A intervenção psicomotora procura intervir tanto no campo educativo/preventivo, reeducativo e terapêutico, concebendo-se numa base processual relacional e inteligível entre a situação e ação, entre os estímulos e as respostas, i.e., entre as gnosias e as praxias. Entende, assim, o ser humano numa vertente holística, procurando associar o ato ao pensamento ou então concebendo um corpo, um cérebro e os ecossistemas envolventes num só (Fonseca, 2001a).

Este mesmo autor adianta que a intervenção psicomotora tende a privilegiar a qualidade da relação afetivo-emocional, a regulação do tónus, o equilíbrio e o controlo postural, o esquema e imagem corporal, a lateralização, bem como a planificação práxica, focando-se principalmente nos processos e não tanto nos produtos da motricidade.

Fonseca (2001a) esquematiza as finalidades da intervenção psicomotora em cinco pontos fundamentais:

a) Mobilizar e reorganizar as funções psíquicas emocionais e relacionais do indivíduo em toda a sua dimensão experiencial;

b) Aperfeiçoar a conduta consciente e o ato mental onde emerge a elaboração e execução do ato motor;

c) Elevar as sensações e as perceções a níveis de consciencialização, simbolização e concetualização;

d) Harmonizar e maximizar o potencial motor, afetivo-relacional e cognitivo, i.e., o desenvolvimento global da personalidade, a capacidade de adaptabilidade social e a modificabilidade estrutural do processamento da informação do indivíduo; e

e) Fazer do corpo uma síntese integradora da personalidade, reformulando a harmonia e o equilíbrio das relações entre a esfera do psíquico e a esfera do motor.

De forma mais concisa, a intervenção psicomotora procura, através de metodologias com enfoque no sujeito e na sua ação, avaliar, promover e restabelecer o ajuste psicológico, percetivo e motor no sujeito no seu contexto ecológico (Saint-Cast, 2004), promovendo a funcionalidade individual que se pretende ver refletida ao nível da uma vida com mais qualidade e mais participada na comunidade.

A identidade da intervenção psicomotora assenta na noção do corpo que apenas é vivido e agido na relação. É um corpo que através da linguagem, seja ela verbal ou não verbal, através do simbolismo e expressividade de emoções, oposições e

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ambições comunica com o outro. Apenas nesta relação é possível considerar o corpo psicomotor.

Portanto, a intervenção psicomotora é o campo que visa aprofundar a interação entre a motricidade (sistema dinâmico que subentende uma organização neurobiológica que se encontra sujeita ao desenvolvimento e maturação), e o psiquismo (um sistema composto por atividade mental repartida em dimensões socioafetivas e cognitivas, que se refletem na adoção de condutas adaptativas e funcionais de todos os sujeitos - Boscaini, 2004; Fonseca, 2001a; Saint-Cas, 2004).

A intervenção psicomotora encontra-se assim definida, mas como qualquer prática terapêutica exige que se proceda a uma avaliação precedente ao plano terapêutico. O que é esta avaliação psicomotora e como se processa?

3. Avaliação Psicomotora

A avaliação é o processo através do qual existe uma tomada de decisão para a resolução de diversos problemas. É através dela que se consciencializam e formalizam as situações problemas e se criam estratégias para a resolução destas (Contandriopoulos, 2006; Catarina, et al., 2008), sendo fundamental para melhorar a eficácia de qualquer plano terapêutico (Leplat, 2003).

Segundo Ysseldyke (2008 cit in em Catarina, et al., 2008, p. 110), “a avaliação é uma prática complexa, onde encontramos um processo com caraterísticas de globalidade, dinamismo e rigorosidade que visa a recolha de informação procurando a tomada de decisão”. De outra forma, a avaliação é como uma “recolha sistemática de informação sobre a qual se possa formular um juízo de valor que facilite a tomada de decisões” (Peralta, 2002), permitindo aprovar, rejeitar, modificar ou implementar estas decisões. Contandriopoulos (2006), defende que a avaliação procura, na sua essência, aplicar um juízo de valor a determinada intervenção, utilizando métodos válidados cientificamente e adaptados socialmente a esta mesma intervenção (e.g.: instrumentos com medidas psicométricas reconhecidas, “garantindo” a validade da avaliação que se pretende implementar no campo profissional do psicomotricista)

A avaliação psicomotora procura avaliar a competência psicomotora enquanto manifestação de saberes e recursos, em interação dinâmica, que se expressam em ações e/ou comportamentos em determinada atividade, que são observáveis e avaliáveis, resultando assim em experiências que tornam a competência mutável e dinâmica ao longo da vida, permitindo a sua melhoria (Gouveia, 2007), aceitando-se a

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individualidade da pessoa no jogo permanente que estabelece com o contexto ecológico onde se insere.

A avaliação psicomotora, segundo Pitteri (2004), mede a competência psicomotora sobre uma perspetiva funcional, particularmente neuromotora, sensório-motora, representação corporal e orientação espacio-temporal. Inclui ainda a avaliação das características psico-afetivas através da atitude na relação, compromisso na ação, auto-estima e através da expressão vivida num plano corporal, emocional e relacional. Boscaini (2004) refere, que a avaliação psicomotora procura examinar um corpo que fala e que é olhado, no sentido de observar, mas também interpretar e procurar os sinais que não estão à vista.

O objetivo da avaliação psicomotora é, assim, a avaliação sistemática das capacidades sensoriais, práxicas, quinestésicas e relacionais (Soubiran & Coste, 1975). Esta avaliação psicomotora não é apenas uma justaposição destas componentes, mas sim uma interação entre estas (Pitteri, 2004), e deve ser entendida com um costume e ritual de qualquer prática psicomotora (Leplat, 2003).

Pitteri (2004) adianta que a expressão de competência psicomotora resulta de características individuais tanto psicoafetivas como experienciais/vividas. O psicomotricista é assim colocado numa posição muito particular. Os instrumentos são construídos para uma avaliação psicomotora funcional e quantitativa (do comportamento), no entanto, só através da interação entre indivíduo e psicomotricista é que é possível analisar as características indivíduais psicoafetivas e cognitivas, nunca descurando as experiências e os backgrounds dos sujeitos, sendo o papel do psicomotricista o de analisar as conexões e interações sobre todas as perspetivas possíveis.

Desta forma, o Psicomotricista é um profissional que deve estar apetrechado com uma série de testes, escalas de desenvolvimento e baterias de caráter psicomotor, que permitem quantificar e qualificar as competências psicomotoras, abordando ainda os processos implícitos nestas competências e adequando-se à faixa etária que avalia e às necessidades individuais (Albaret, 2003; Pitteri, 2004).

A avaliação psicomotora, segundo Pitterri (2004), assenta, então, em dois postulados: numa abordagem global ao indivíduo (funcional e relacional) e na inclusão do sujeito num contexto, considerando-se, sempre, o que é transmitido pelo sujeito, por si e pelo seu corpo (Saint-Cast, 2004).

A intervenção psicomotora assenta nestas relações entre motricidade, cognição e emoção que são características e únicas nas diversas fases da vida do Ser Humano

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Abordar-se-ão agora as características únicas no envelhecimento de forma a analisar e integrar a intervenção psicomotora nesta fase característica da vida Humana.

4. O que é o Envelhecimento?

O envelhecimento é um processo natural e individual, caracterizado por diversas alterações (biológicas, sociais e psíquicas) e influenciado por múltiplos fatores (Soares, 2005) e que de acordo com Barreiros (2006) se começa a fazer sentir, após um pico de maturidade entre os 20–30 anos, aparecendo sinais de “declínio suave” (e.g.: aumento da fadiga…). A partir dos 40/45 anos este declínio vai-se acentuando e intensifica-se a partir dos 60 anos, apesar de Aragón (2007) salientar que as características deste processo são variáveis de sujeito para sujeito, dependente de inúmeros fatores (culturais, temporais, pessoais). Todas as transformações intrínsecas ao envelhecimento fazem parte de um processo biopsicossocial, observável em todos os seres vivos e é caracterizado pela perda gradual de capacidade ao longo do tempo (Barreiros, 2006)

Segundo o Ministério da Saúde (2004), o envelhecimento humano é um processo de mudança progressivo da estrutura biológica, psicológica e social, que se desenvolve ao longo da vida. Este envelhecimento pode ser caracterizado por um percurso normal, a senescência, ou desviante-patológico, a senilidade (Neri, Yassuda & Cachioni, 2004; Sequeira, 2010). Enquanto o primeiro decorre das alterações naturais do envelhecer e que não são afetadas pela doença e/ou contextos ambientais (OMS, 2001; Sequeira, 2010), a senilidade já é o conjunto de mudanças que ocorrem determinadas pelas afeções que os gerontes podem sofrer (Michel, Soppelsa & Albaret, 2011). Conclui-se assim que a senescência é um processo primário, e que está sempre presente, e a senilidade um processo secundário que pode ou não acompanhar o geronte (Sequeira, 2010).

Recentemente surgiu a definição de outro tipo de conceito acerca do envelhecimento, que preconiza um método segundo o qual se procura garantir e otimizar as oportunidades relativamente à saúde, participação e segurança do geronte, o envelhecimento ativo (OMS, 2002, p. 12). Este defende a qualidade de vida do geronte, que é entendida como a “perceção individual da posição que se ocupa na vida, englobando os contextos culturais, crenças e valores da pessoa, relacionando-os com os seus objetivos, expetativas, normas e preocupações” (OMS, 2002, p. 13). Depende diretamente das perceções relativas à saúde física e psicológica, nível de independência, relações sociais, crenças e relação com o meio ambiente.

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Agora, que os conceitos de envelhecimento se encontram definidos, procurar-se-á entender as alterações decorrentes do envelhecimento normal nas suas múltiplas dimensões, num ser que é biopsicossocial. Ao considerar-se o envelhecimento humano é essencial contemplar que este processo é inevitável, repercutindo-se em alterações biológicas, psicológicas, cognitivas e sociais que interagem entre si (SEGG, 2007; Sequeira, 2010). Também Fonseca (2001b) alerta para a ocorrência, natural e gradual, da retrogénese psicomotora, caracterizada pela perda da organização psicomotora desde a praxia fina até à tonicidade.

Compreender este processo de envelhecimento é fundamental para se poder atuar na prevenção, capacitando o geronte a viver cada vez melhor, garantindo a sua autonomia e independência, e no despiste do que é normal do patológico, já que nesta etapa de vida muitas vezes se confundem os dois (Sequeira, 2010).

É de se referir que o processo de envelhecimento já não se encontra tão associado à idade cronológica, mas antes à idade funcional e à avaliação das competências e dificuldades dos sujeitos (Nunez & Gonzalez, 2001), revelando ainda mais o papel que a intervenção psicomotora pode deter no âmbito preventivo (Morais, 2007).

As alterações biológicas do envelhecimento são caraterizadas por uma diminuição acentuada dos processos fisiológicos e degradação celular. Como quase tudo, a célula também se degrada e morre, e a capacidade de regeneração destas está comprometida no geronte. Desta forma, podem-se esquematizar as principais alterações biológicas do geronte por sistemas funcionais, como mostra a tabela 1 (Lata & Alia, 2007; SEGG, 2007; Sequeira, 2010).

Existem ainda as alterações sensoriais que devido à sua diminuição de capacidade acabam por afastar cada vez mais o geronte do seu meio ambiente diminuindo a estimulação que dele provem. Estas são mais evidentes no que se refere à visão e audição, onde a diminuição da acuidade é notória (SEGG, 2007; Sequeira, 2010), mas o empobrecimento do sentido quinestésico também se encontra presente (Fonseca, 2001b; SEGG, 2007).

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Tabela 1 - Principais alterações biológicas no geronte (Lata & Alia, 2007; SEGG, 2007; Sequeira, 2010)

Sistemas Alterações

Sistema Cardiovascular

Menor rendimento cardíaco devido à menor eficácia do coração e ao endurecimento e estreitamento das artérias. Existência de depósitos amilóides, fibrose miocárdica e aumento da rigidez das válvulas, com o aumento do colagénio nos vasos e alteração da elastina.

Sistemas

Respiratório Perda de elasticidade e capacidade respiratória, diminuindo a capacidade vital respiratória e a difusão do oxigénio. Sistema Renal Perda de elasticidade e massa renal. Torna-se menos eficiente no processo de eliminar toxinas e outras substâncias, estando a capacidade

de esvaziamento da bexiga diminuída. Sistema

gastrointestinal

Diminui a eficácia na absorção dos nutrientes e da eliminação dos materiais, ocorrendo atrofia da mucosa gástrica.

Sistema

Músculo-Esquelético Diminuição da massa óssea e muscular, com comprometimento da elasticidade das articulações e da força muscular. Sistema Nervoso Degenerescência neurofibrilar de neurónios, acumulação de placas senis, perda de neurónios, diminuição da plasticidade neural.

Sistema Metabólico

Diminuição da capacidade de regulação da tensão arterial e dos gases sanguíneos. Dificuldades na regulação da temperatura corporal, apresentando híper ou hipotermia.

Estas alterações biológicas interagem entre si, limitando a capacidade de autonomia e independência do geronte, como, e.g., as limitações musculares, com a perda da força e consequentemente do equilíbrio, acaba por afastar o geronte da exploração de novas situações (Lata & Alia, 2007), limitando-o a rotinas, o que não permite o desenvolvimento das capacidades sensoriais, e, que, consequentemente encaminha o geronte para degeneração neural (Sequeira, 2010), acabando por se tornar um ciclo vicioso de perda de competências.

Estas alterações biológicas coexistem e interagem com as alterações psicológicas, mudando atitudes e comportamentos. Na realidade, esta menor disponibilidade biológica para participar no seu ambiente acaba por provocar alterações psicológicas no geronte. A noção de bem-estar psicológico está intimamente ligada à sensação de pertença, de participação, de perceber o sentido e significado de existirem as emoções, sentimentos, desejos e sensibilidade de cada pessoa. É aqui que o contexto que a história de vida pessoal, o sistema de crenças e valores e o contexto onde se está inserido desempenham um papel fundamental para um bem-estar psicológico (Sequeira, 2010).

Intimamente associadas a estas alterações já descritas, e tendo em conta o processo dinâmico que é o envelhecimento, as alterações cognitivas ocorrem na senescência de forma gradual, o que permite a manutenção do funcionamento normal através da

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readaptação dos conhecimentos (Sequeira, 2010). O processamento de informação, atenção e a memória são os fatores mais afetados ao nível da cognição (Glisky, 2007). A diminuição da qualidade dos inputs, com a dificuldade de descodificação e processamento de informação e, a consequente dificuldade em realizar outputs com o desempenho desejado acaba por comprometer todo o processamento de informação. Hertzog (1989 cit in Sequeira, 2010) refere que existe um abrandamento da velocidade de processamento do Sistema Nervoso Central, que resulta num abrandamento cognitivo e declínio da inteligência (Glisky, 2007).

No que se refere à memória existe uma diminuição da capacidade de recuperação da memória, bem como de codificação nesta. Isto torna-se mais evidente na memória a curto prazo, que devido ao empobrecimento do sistema sensório-motor, tem dificuldades em receber informação de qualidade que possa reter (Barreiros, 2006; Glisky, 2007; Sequeira, 2010). A tabela 2 apresenta as principais alterações cognitivas no geronte (Fombuena, 2010; Glisky, 2007 Sequeira, 2010).

Todas as alterações referidas (biológicas, psicológicas e cognitivas), facilitam o processo de alterações sociais. A capacidade de participação social encontra-se, assim, também em profunda alteração. O ciclo de vida que corresponde ao geronte, acaba por provocar alterações ao nível do papel a desempenhar no seio familiar, laboral e ocupacional, existindo uma diminuição progressiva da participação. Isto resulta numa diminuição da rede social (número de elementos sociais), com possível redução da interação social e apoio social. Tudo isto resulta num empobrecimento da vida social do geronte dificultando um envelhecimento bem-sucedido (Sequeira, 2010). No entanto, os gerontes continuam a revelar vontade de participação social como revela o estudo de Azevedo, Gazetta, & Salimene (2003), no qual 17 gerontes identificaram as áreas mais importantes para a sua participação social, elegendo o convivio com o outro como a mais importante.

Com tantas alterações no ser humano, num período específico da sua vida, a senescência, surgem, naturalmente, alterações psicomotoras, apresentando-se como perturbações que afetam a qualidade de vida do geronte e sobre as quais a intervenção psicomotora procura agir.

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Tabela 2: Principais alterações cognitivas no geronte (Fombuena, 2010; Glisky, 2007 Sequeira, 2010)

Capacidades

Cognitivas Alterações

Habilidades

percetivo-motoras Encontram-se em fase de declínio a partir dos 50 – 60 anos.

Atenção Pode apresentar diminuição e dificuldade em manter o foco da atenção.

Linguagem Varia consoante o nível de competências académicas. Pode manter-se ou sofrer um ligeiro declínio, acompanhado de dificuldades de compreensão de mensagens complexas, coexistindo com alguma imprecisão e repetição do discurso.

Memória de curto

prazo Pode apresentar-se estável, em declínio ligeiro ou moderado. Dificuldades na evocação a curto prazo, podendo apresentar falhas na codificação e recuperação.

Memória de longo

prazo Habitualmente estável permitindo a manutenção da história de vida. Função

Visuoespacial Com declínio variável, apresentando mais dificuldades nas atividades complexas. Raciocínio prático Diminuição da capacidade variável no que se refere à utilização da lógica. Dificuldades em organizar situações não familiares.

Funções executivas

Apresenta declínio no planeamento e a execução perde eficiência.

Velocidade Declínio constante, existindo a diminuição da velocidade do pensamento e da ação. É a mudança mais constante na senescência.

5. Problemas Psicomotores no Envelhecimento

As alterações que decorrem do processo do envelhecimento estão intimamente relacionadas com as perturbações psicomotoras que ocorrem nesta fase da vida (Aubert & Albaret, 2001; Madera, 2005). A diminuição da flexibilidade, da velocidade, amplitude de movimentos, bem como a redução das capacidades cognitivas, existindo a desaceleração da transmissão sináptica e consequentemente do processamento da informação, explicam as respostas cada vez mais desadequadas por parte do geronte (Aubert & Albaret, 2001).

Como se pode constatar existe um declínio progressivo de diversas estruturas e funções no ser humano ao longo do envelhecimento, entre elas as percetivas (Glisky, 2007). São estas, segundo Aubert & Albaret (2001), que desempenham um papel fundamental na deterioração das funções psicomotoras. Segundo os autores, as dificuldades de equilibrio e controlo postural podem dever-se à deficiente organização das informações visuais, propriocetivas e vestibulares, as dificuldades ao nível da motricidade global e fina estão relacionadas com a deterioração das perceções táteis

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(diminuição da sensibilidade), e as capacidades cognitivas, às alterações das capacidades visuais. Em termos auditivos, ocorre uma diminuição da discriminação auditiva, com consequente apreensão do discurso mais pobre e dificuldades na localização de sons no espaço. As alterações ao nível do equilíbrio pode afetar, entre outras, a mobilidade, ficando o geronte mais vulnerável a quedas (principal causa de perda de autonomia), que por sua vez podem conduzir a situações de maior insegurança, maior imobilidade (atitude defensiva) e falta de estimulação do sistema vestibular. A tabela 3 resume as alterações que ocorrem no envelhecimento das capacidades percetivas (Aubert & Albaret, 2001; CME (s.d.)).

Tabela 3 - Alterações nas capacidades percetivas decorrentes do envelhecimento (Aubert & Albaret, 2001; CME (s.d.))

Capacidades

percetivas Alterações

Perceção visual

Diminuição da sensibilidade e perceção à cor a partir dos 40 anos; Aparecimento de cataratas;

Diminuição da perceção de contraste;

Aumento do tempo de adaptação à luminosidade, e do nível de luminosidade para ter uma perceção correta;

Modificação da profundidade do campo visual; Diminuição da amplitude do campo visual. Perceção auditiva

Presbiacusia;

Dificuldade na compreensão do discurso;

Diminuição da capacidade de localizar sons no espaço.

Perceção tátil

Alteração das caraterísticas fisícas da pele; Diminuição do número de recetores táteis;

Aumento da distância mínima a que o indivíduo reconhece dois pontos numa estimulação simultânea;

Perceção olfativa Diminuição da sensibilidade aos odores. Perceção

propriocetiva

Diminuição ao nível do tecido muscular dos recetores ligamentares e capsulares;

Rarefação dos recetores neurotendinares e dos fusos musculares. Perceção vestibular Diminuição das células celiares nas cristas ampolares.

As perturbações psicomotoras do envelhecimento são várias e diversas. No entanto é possível agrupá-las em domínios principais: perturbações no esquema corporal; perturbações na motricidade global, que inclui perturbações no equilíbrio e coordenação motora; perturbações na organização espacial; e, perturbações na organização temporal (Juhel, 2010).

O esquema corporal pode ser definido como o conhecimento global e imediato que o indivíduo tem do seu corpo, esteja este em estado estático ou em movimento, bem como da relação deste corpo com as suas diferentes partes e com o espaço e tempo que o rodeia. As alterações físicas, cognitivas e psicológicas que caraterizam o

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processo de envelhecimento despoletam de igual forma as perturbações do esquema corporal. As alterações ao nível da aparência física, a diminuição das capacidades sensoriais, incluindo o sentido tatilo-quinestésico e propriocetivo, as alterações músculo-esqueléticas, as dificuldades no processamento cognitivo e os problemas de autoestima e integração social acabam por gerar uma degradação do esquema (e imagem) corporal (Pereira, et al., 2010). Os autores, no estudo que conduziram, compararam o esquema corporal entre adolescentes, adultos e gerontes, numa amostra de 146 sujeitos dos 11 aos 75 anos, no qual sugerem que existe um declínio progressivo do esquema corporal com o avançar da idade, onde 62% dos gerontes revelam uma hipoesquematia, contrapondo com os 30% dos adolescentes, 27% dos jovens adultos e 36% dos adultos que revelam a mesma perturbação.

Esta perturbação, em gerontes, manifesta-se através de dificuldades na perceção e orientação, dificuldades ou ausência de organização para a produção de um gesto coerente no espaço, dificuldades motoras (e.g., lentificação e/ou descoordenação, quedas, dificuldades no relação, dificuldades e diminuição da higiene pessoal (Juhel, 2010). A questão da lentidão psicomotora é também abordada por Barreiros (2006) para designar a modificação mais óbvia e significativa do envelhecimento, ao nível da competência discriminatória dos recetores sensoriais que por sua vez resultam na lentificação do processo de receção e processamento de informação, visível em quase todo o tipo de tarefas voluntárias.

A motricidade global diz respeito a todo o corpo humano e à sua capacidade de coordenar movimentos amplos, mais ou menos complexos, que envolvem diversos grupos musculares, articulações e sistema nervoso numa melodia motora harmoniosa, compreendendo aspetos importantes tais como a coordenação, a dissociação, a força, a agilidade, o equilíbrio, a resistência e a flexibilidade (Brilinger, 2005; Juhel, 2010; Souza, Urzêda, & Souza, 2011).

No geronte surgem dificuldades em quase todos estes aspetos, que facilmente são explicados por todas as alterações biológicas e cognitivas que se processam nesta fase.

O equilíbrio é a resposta motora que qualquer indivíduo realiza, através do tónus, para contrariar a ação da força gravítica, seja numa posição estática ou em movimento. Permite manter posturas, atitudes ou gestos, resultando de uma complexa integração dos sistemas sensoriais e motores (Brilinger, 2005; Juhel, 2010; Souza, Urzêda, & Souza, 2011). Com o avançar da idade esta integração dos sistemas começa a apresentar diversas deficiências, existindo perdas de equilíbrio, sendo que mesmo a

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mais pequena perda provoca consequências na coordenação motora (Madera, 2005; Juhel, 2010).

Com o envelhecimento, as capacidades sensoriais (tato, visão, sentido quinestésico e audição) começam a apresentar falhas, sendo essenciais ao equilíbrio, dificultando a capacidade de gerir a postura face à força da gravidade (Juhel, 2010).

Para além destas dificuldades sensoriais, o sistema vestibular e o córtex cerebral (sistemas que participam na manutenção do equilíbrio) começam a apresentar falhas na comunicação com o cérebro, impedindo que as informações sobre os movimentos em relação com o espaço sejam analisadas corretamente (Juhel, 2010).

Ao nível do equilíbrio estático existem, como refere Sihvonen (2004), diferenças significativas na comparação entre indivíduos jovens e gerontes. Estes últimos revelam piores resultados tanto no equilíbrio estático bipodal como unipodal, revelando um aumento na frequência e amplitude das oscilações no plano vertical do centro de gravidade. Para assegurar este equilibrio, o geronte necessita de, pelo menos, duas referências sensoriais (e.g., visão e propriocetividade - Aubert & Albaret, 2001). No entanto, estas capacidades estão profundamente alteradas no geronte provocando o

input de informações contraditórias ou confusas, gerando muitas vezes o desiquilíbrio

e as quedas.

Já o equilíbrio dinâmico encontra-se da mesma forma alterado, sendo que existem, igualmente, diferenças significativas entre indivíduos jovens e gerontes, sendo que nos gerontes o género feminino apresenta melhores resultados que o género masculino. A perda do equilíbrio dinâmico pode ser atribuída a uma estimulação interna ou externa, como é o caso das vertigens ou riscos na superfície de deslocamento, ou então a dificuldades de processamento da informação originando tempos de reação desadequados originando a queda (Aubert & Albaret, 2001; Barreiros, 2006).

A coordenação é a capacidade do indivíduo realizar corretamente um ou mais movimentos, podendo ser ao nível dos membros superiores e inferiores e na coordenação oculomotora e áudio-motora (Dias & Duarte, 2005; Juhel, 2010). Para que esta capacidade apresente um bom desempenho é necessário a integração de diversas outras como o esquema corporal, a planificação mental do ato motor, a orientação temporal e a orientação espacial (Juhel, 2010).

O comprometimento da coordenação gera uma perturbação com um termo específico, a apraxia, i.e., dificuldade ou impossibilidade na produção de movimentos automáticos ou voluntários, que impede a realização de movimentos finos (Juhel, 2010). Geralmente é isto que sucede na senescência, tornando o geronte mais lento ou

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desajeitado na produção de gestos (Aubert & Albaret, 2001). Para tal contribui o tónus, que também se encontra alterado no geronte, sendo que a relação contração/descontração muscular está alterada (Juhel, 2010).

A orientação espacial é a capacidade de estruturar o mundo exterior em relação a dois referenciais distintos, o eu e o outros, seja ele outra pessoa ou objeto. As noções de posição, situação, perspetiva entre outras, em relação com o objeto encontram-se aqui enquadradas. Esta capacidade está intimamente ligada ao esquema corporal, visto que um dos principais referenciais é o eu corporal, conhecido através do esquema corporal (Fonseca, 2005).

Na senescência existe uma perda progressiva das capacidades de orientação espacial, concomitante com a destruturação do esquema corporal. A perda de noções espaciais, a capacidade de visualizar, a orientação espacial em grandes espaços e espaços desconhecidos e a velocidade e flexibilidade de integração espacial encontram-se progressivamente afetados, diminuindo a capacidade do geronte se deslocar (Juhel, 2010; Aubert & Albaret, 2001).

Já a orientação temporal é a capacidade que o individuo tem de se situar num conceito abstrato que é o tempo, em função de uma sucessão de acontecimentos, duração de intervalos ou renovação de períodos cíclicos (Fonseca, 2005). Para tal inclui conceitos como simultaneidade (relação entre acontecimentos que acontecem em conjunto e sucessivamente), ordem e sequência (utilização de uma escala de ordem temporal, onde o enfoque é colocado sobre a sequência em que os acontecimentos ocorrem), duração de intervalos, renovação cíclica de períodos e, por fim, o ritmo (Juhel, 2010; Brilinger, 2005). É um conceito abstrato que ganha a sua concretização nas experiências vividas, nas aprendizagens (Souza, Urzêda, & Souza, 2011).

A ligação existente entre a orientação temporal e a memória é evidente, visto que a primeira só existe graças às experiências vividas e codificadas na memória. Só assim se sabe que existe um passado, presente e futuro. Desta forma, as principais dificuldades psicomotoras que se encontram no geronte, ao nível da orientação temporal, estão relacionadas com a memória, podendo ser classificadas em quatro categorias: temporal (aptidão para reconhecer a ordem de aparição de eventos ao longo do tempo), de perceção temporal (capacidade de determinar a duração, a cronologia e a ordem dos eventos), episódica (capacidade de se lembrar de acontecimentos pessoais e do contexto em que ocorreram) e, por fim, imediata

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(capacidade de conservar e manipular informação durante um curto espaço de tempo para a utilizar numa outra ação – Juhel, 2010).

A intervenção psicomotora pode intervir nestas alterações de forma a minorar os seus efeitos e produzir significativas melhorias na qualidade de vida do geronte.

Existem alguns estudos que pretendem estudar os benefícios e a pertinência da intervenção psicomotora na população idosa (Rio, 2004). No Brasil, e em 1999, Silva implementou um programa (geronto)psicomotor com 18 gerontes (idades compreendidas entre os 61 e os 79 anos de idade), tendo-se observado uma melhoria significativa ao nível dos fatores psicomotores, bem como uma melhor consciencialização corporal e bem-estar psicofísico nos gerontes. Em Espanha, e um ano mais tarde, Martinez (2000) operacionalizou um programa de estimulação psicomotora a 23 indivíduos (com uma média de idades de 65 anos) cujos ganhos, para além de uma melhor aptidão psicomotora, aumentaram também o nível do seu bem-estar geral. O aumento da independência funcional em atividades de vida diária, a diminuição do número e da gravidade da sintomatologia depressiva, bem como um aumento de autoestima, melhor integração do esquema corporal e de motivação, parecem ter sido obtidos no estudo de Nunez & Gonzalez (2001). Estes mesmos resultados foram obtidos em 2006, por Castiglia, Pires e Boccardi, num estudo qualitativo (descritivo-exploratório) com 10 participantes do género feminino (com idades compreendidas entre os 68 e os 78 anos). O estudo de Costa (2011) com 40 indivíduos divididos em dois grupos (um experimental usufruindo de um programa psicomotor e outro de controlo sem programa de intervenção) entre os 60 e os 70 anos verificou melhorias (diferenças) significativas ao nível dos domínios físico, psicológico, de relações sociais no grupo experimental, ao mesmo tempo que evidenciavam um maior equilíbrio funcional, com menor risco de queda.

No entanto, e para uma intervenção eficiente junto desta população ao nível da intervenção psicomotora, existe a necessidade da utilização de instrumentos de avaliação que referenciem estas mesmas dificuldades abordadas e que esclareçam um perfil psicomotor do geronte.

6. Conclusão

O geronte e as suas problemáticas surgem cada vez mais no percurso da investigação das ciências da saúde. Nesta perspetiva, a intervenção psicomotora também começa a dar os seus passos de modo a entender cada vez melhor o geronte e poder prestar-lhe melhores e mais variados serviços, acrescentando-prestar-lhe mais qualidade na sua vivência diária.

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O geronte procura na sua (“nova”) desarmonia corporal um novo equilíbrio, e é nesta fase que o Psicomotricista pode e deve intervir. A necessidade de voltar a viver o corpo como instrumento de ligação a um mundo cada vez mais exigente é a razão da intervenção junto do geronte. A sensação de bem-estar e prazer é a meta a cumprir, para junto do geronte gerar o sentimento de competência de autonomia e funcionalidade. O Psicomotricista deve auxiliar o geronte e sentir-se novamente parte integrante da sociedade, onde as limitações são contornadas com recurso a técnicas de mediação corporal para revitalizar o corpo, a mente e o espirito do geronte (Juhel, 2010; Rio, 2004).

Desta forma, e de acordo com Veras (2009) é necessário atentar na perspetiva preventiva e reeducativa com a população idosa, podendo a intervenção psicomotora deter um impacto significativamente positivo na qualidade de vida desta população. Nesta lógica, há que considerar a importância que o processo de avaliação assume, na identificação das áreas a trabalhar. Como Pitteri (2004) esclarece a utilização de instrumentos de avaliação é um processo fundamental para a comunicação entre todos os intervenientes, permitindo um melhor entendimento da intervenção psicomotora por outros profissionais. Para além deste fator, a aplicação de instrumentos permite compensar a falta de investigação clinica, baseada em metodologias rigorosas onde a validação e aferição do instrumento desempenha um papel fundamental. Esta mesma situação é referenciada por Michel, Soppelsa, & Albaret (2010).

A avaliação do geronte na intervenção psicomotora obedece a todas as características já anteriormente descritas. Procuram-se avaliar as diversas competências psicomotoras, enquadradas num determinado momento de vida, tendo em consideração os processos caraterísticos desta faixa etária, i.e., procura-se ter em conta as diversas problemáticas que surgem naturalmente com o processo de senescência (Albaret, Aubert, & Sallagoïty, 2001).

No entanto, a principal dificuldade neste campo prende-se com a falta de instrumentos de avaliação construídos especificamente para esta população (Albaret, Aubert, & Sallagoïty, 2001).

Existem diversos instrumentos construídos para esta população, mas que avaliam principalmente a autonomia do geronte ou a sua condição cognitiva e psicológica. É o caso do Índice de Barthel, que através da avaliação de 10 atividades básicas da vida diária situa o geronte num nível de autonomia em relação a este tipo de atividades, ou, para avaliação das capacidades instrumentais da vida diária, e o Índice de Lawton

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que utiliza 8 atividades para situar o geronte num nível de dependência. Ao nível da avaliação cognitiva encontra-se um instrumento amplamente utilizado na prática clinica, o MiniMental State Examination (MMSE). Este instrumento possibilita o despiste de défice cognitivo no geronte, relacionando o seu nível de escolaridade com a sua prestação no exame, avaliando 6 grandes áreas cognitivas (orientação, retenção, atenção e cálculo, evocação, linguagem e habilidade construtiva) (Sequeira, 2010).

Albaret, Aubert, & Sallagoïty (2001) referem que, face à inexistência de instrumentos validados para populações-alvo específicas, as provas atualmente utilizadas para as crianças são as mesmas que são utilizadas para avaliar os gerontes, com as adaptações necessárias para as características desta fase da vida. Juhel (2010) e Albaret, Aubert, & Sallagoïty (2001) referem como testes/provas de avaliação o teste de imitação de gestos de Berges, o teste do desenho do corpo humano de Goodenough, a prova de estruturas rítmicas da Stambak e Zazzo, a prova de adaptação ao ritmo de Soubiran, a prova gráfica de orientação percetiva de Santucci, o teste de orientação (lateralidade) de Piaget e Head, os testes motores de Ozeretzki, o perfil psicomotor de Picq e Vayer, o teste da perceção visual de Frostig, o teste de reprodução de figuras geométricas de Rey e Bender e as provas de equilíbrio estático e dinâmico de Tinetti. A conjugação destes testes/provas permite assim avaliar de forma holística o geronte numa vertente psicomotora.

A área carece de um instrumento válido que torne o processo de avaliação psicomotor claro, rigoroso e específico, permitindo o despiste de sintomas psicomotores bem como a sua quantificação, até porque segundo Almeida, Ferreira & Soares (1999, cit in Santos, 2007) “a utilização de instrumentos não padronizados ao contexto português, traduz-se pela obtenção de resultados nem sempre satisfatórios”.

É neste contexto que, surge em 2011, em França, o Examen Géronto Psychomoteur (EGP) (Michel, Soppelsa, & Albaret, 2011), que pretende aliar uma metodologia rigorosa e a observação clinica, de forma a possibilitar uma avaliação padronizada nesta população. Nesta sequência de ideias, revela-se fundamental a validação de instrumentos desta natureza, pelo que o próximo artigo pretende estudar as propriedades psicométricas do Exame Geronto Psicomotor (nome pelo qual foi traduzido), primeiro exame que foi criado especificamente para avaliar, no âmbito da intervenção psicomotora, gerontes, ao contrário das anteriores baterias de testes que adaptavam provas criadas para a avaliação de crianças.

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