As representações sociais da morte para professoras e pais em instituições de educação infantil

Texto

(1)UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO. ARIANA TRINDADE DE OLIVEIRA MAGALHÃES. AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA MORTE PARA PROFESSORAS E PAIS EM INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL. BRASÍLIA 2008.

(2) ARIANA TRINDADE DE OLIVEIRA MAGALHÃES. AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA MORTE PARA PROFESSORAS E PAIS EM INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL. Dissertação de mestrado apresentada ao programa de Pós-graduação em Educação da Universidade de Brasília. Àrea de concentração Educação e Ecologia Humana, Linha de Pesquisa Subjetividade e Complexidade na Educação, como parte dos requisitos para obtenção do Título de Mestre em Educação, sob a orientação da Profª. Drª. Teresa Cristina S. Cerqueira.. BANCA EXAMINADORA Profª Drª Teresa Cristina S. Cerqueira – Orientadora – UnB Prfª Drª Adriana Benevides Soares - Profª Universo e UERJ Profª Drª Inês Maria M. Z. P. de Almeida – Profª UnB Profª Drª Vera Lessa Catalão – Profª UnB. BRASÍLIA 2008.

(3) 2. ARIANA TRINDADE DE OLIVEIRA MAGALHÃES. AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA MORTE PARA PROFESSORAS E PAIS EM INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL. Esta dissertação foi julgada adequada para a obtenção do título de Mestre em Educação e aprovada em sua forma final pela Orientadora e pela Banca examinadora.. Orientadora :_______________________________ Prof ª Drª Teresa Cristina S. Cerqueira. Banca Examinadora ________________________________________________ Profª Drª Adriana Benevides Soares - Profª Universo e UERJ ____________________________________________ Profª Drª Inês Maria M.Z.P. de Almeida – Profª UnB _____________________________________________ Prof ª Dr ª Vera Lessa Catalão – Profª UnB. Brasília, Outubro, 2008..

(4) iv. DEDICATÓRIA. Dedico esta pesquisa a todas as professoras de educação infantil, com as quais trabalhei e que me instigaram o desejo de buscar novos conhecimentos, favorecendo na tarefa de educar crianças para serem cidadãos dignos e felizes..

(5) v. AGRADECIMENTOS Dizer obrigada muitas vezes não é o suficiente para agradecer a paciência, atenção e dedicação que nos são concedidas em momentos especiais de nossas vidas. São tantas palavras para dizer, agradecer e transmitir toda essa gratidão, no entanto deixarei que meus sentimentos expressem todo o carinho que tenho por vocês:. Aos meus pais, Adauto e Áurea, pela formação humana que me proporcionaram.. Ao meu marido Luiz e à minha filha Marina, pelos constantes incentivos profissionais e colaboração nessa jornada.. À professora Dra. Inês Maria M.Z.P. de Almeida por ter acreditado e incentivado o nosso objeto de estudo, dando-me todo o suporte inicial.. À professora Dra. Teresa Cristina S.Cerqueira por toda orientação a essa pesquisa, sempre com muito respeito, atenção e ética.. À professora Dra. Maria Alexandra M. Rodrigues, por ter aceito o convite de participar da qualificação desse projeto, contribuindo para o avanço dessa pesquisa.. À professora Dra. Adriana B. Soares, por ter aceito o convite de participar da defesa da dissertação.. À professora Dra. Vera L. Catalão que aceitou o convite de participar da defesa da dissertação, como também pela sua sensibilidade em sala de aula.. Às diretoras das instituições escolares, pública e particular, que abriram as portas para essa pesquisa, como também as coordenadoras e professoras que cederam seu precioso tempo para o nosso estudo, instigando-nos à importantes reflexões..

(6) vi. EPÍGRAFE. E a vida? E a vida o que é, diga lá meu irmão? Ela é a batida de um coração? Ela é uma doce ilusão ? Ela é maravilha ou é sofrimento ? Alegria ou lamento ? E o que é uma proposta de uma educação para a vida? É reconhecer a finitude da vida – a morte. E para conhecer um pouco sobre esse fato é preciso ir Caminhando pela história da morte, para situar o leitor na historicidade que o fato foi sendo construído e percebido. Pois assim se buscará uma Atitude transdisciplinar diante do morrer e da morte. Sendo preciso reconhecer a Importância de vivenciar o luto, inclusive pelas crianças, daí As representações sociais da morte favorecerão o conhecimento e a compreensão da morte pelos sujeitos. Como também As representações sociais na literatura infantil, enfocando o tema da morte, poderão facilitar o trato com as crianças que compreenderão que a morte faz parte da vida. E se existem pessoas que falam que a vida da gente é um nada no mundo, há quem fale que é um divino, mistério profundo, É o sopro de um criador, numa atitude repleta de amor. Portanto, viva e não tenha vergonha de ser feliz, pois A vida é bonita, é bonita , é bonita. (Autoria de Gonzaguinha, com adaptação da autora).

(7) vii. SUMÁRIO. DEDICATÓRIA. iv. AGRADECIMENTOS. v. EPÍGRAFE. vi. SUMÁRIO. vii. LISTA DE GRÁFICOS. ix. LISTA DE QUADROS. x. LISTA DE TABELAS. xi. RESUMO. xii. ABSTRACT. xiii. APRESENTAÇÃO. 1. INTRODUÇÃO. 3. OBJETIVOS. 7. Objetivo Geral. 7. Objetivos Específicos. 7. CAPÍTULO I: REFERENCIAL TEÓRICO. 8. 1.1 Caminhando pela História da Morte. 8. 1.2 Atitude Transdisciplinar diante do Morrer e da Morte. 17. 1.3 A Importância do Luto. 25. 1.3.1 O Luto. 25. 1.3.2 Luto nas Crianças. 29. CAPÍTULO II: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS. 37. 2.1 Representações Sociais: conceitos e teorias. 37. 2.2 Representações Sociais da Morte. 42. CAPÍTULO III: LITERATURA INFANTIL. 53. 3.1 Literatura Infantil: um recurso possível. 54. 3.2 Um breve histórico. 54.

(8) viii. 3.3 As Representações Sociais na Literatura Infantil CAPÍTULO IV: METODOLOGIA. 55 59. 4.1 Método. 59. 4.2 Estudo Piloto. 62. 4.3 Caracterização das Escolas Pesquisadas. 64. 4.4 Participantes da Pesquisa. 66. 4.5 Instrumentos e Procedimentos. 69. 4.5.1 Instrumentos elaborados para as professoras. 69. 4.5.2. Instrumento elaborado para os pais. 71. 4.6 Procedimentos da Análise dos dados. 72. 4.7 Resultados e Análises da Pesquisa. 74. CAPÍTULO V: CONSIDERAÇÕES FINAIS. 97. REFERÊNCIAS. 105. APÊNDICE A – Sugestões de Livros Infantis. 112. APÊNDICE B – Questionário para Professoras. 116. APÊNDICE C – Questionário para Pais. 119. APÊNDICE D – Termo de Consentimento da escola. 122. APÊNDICE E – Autorização das Professoras. 123. APÊNDICE F – Termo de consentimento para trabalhar com as crianças. 124. APÊNDICE G – Atividade de associação-livre. 125. APÊNDICE H – 3° Encontro com as professoras. 126. APÊNDICE I – 4° Encontro com as professoras. 127. APÊNDICE J – Roteiro dos encontros com as Professoras. 128. ANEXO 1 – Texto literatura infantil. 130. ANEXO 2 – Texto criança também fica de luto. 131.

(9) ix. LISTA DE GRÁFICOS. Gráfico 1 – Os três sentimentos mais frequentes ...........................................................77 Gráfico 2 – Adultos que conviveram com uma criança a perda ....................................78 Gráfico 3 – Religião dos participantes ........................................................................ 93.

(10) x. LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Caracterização das turmas/ escola pública .................................................65 Quadro 2 – Caracterização das turmas/ escola particular ..............................................66 Quadro 3 – Caracterização das professoras .................................................................. 68 Quadro 4 – Caractrerização dos pais ........................................................................... 69 Quadro 5 – Opinião sobre a literatura infantil como recurso para abordar a morte ..... 83 Quadro 6 – Utilização de livros infantis que abordam o tema morte e perdas ............. 84 Quadro 7 – Conhecimento de livros infantis que abordam o tema morte e perdas .......85 Quadro 8 – Sentimento das professoras com relação a contarem histórias que 85 abordem perdas e mortes ............................................................................................ Quadro 9 – Livro escolhido .......................................................................................... 86 Quadro 10 – Representações da morte por professoras .................................................96.

(11) xi. LISTA DE TABELAS. Tabela 1 – Adultos que se sentem a vontade ou não em falar sobre morte com. 80. crianças ........................................................................................................................ Tabela 2 – Explicações sobre o que acontece após a morte ........................................ 81 Tabela 3 – Utilização de livros infantis que abordem o tema morte ............................ 83 Tabela 4 – Abordagem do tema morte nas escolas ....................................................... 87 Tabela 5 – Participação das crianças nos rituais fúnebres ............................................ 88 Tabela 6 – Percepção das crianças sobre morte e justificativas ................................... 89 Tabela 7 – Papel da religião na morte ............................................................................92 Tabela 8 – Representações sobre a morte por pais ....................................................... 94 Tabela 9 – Representações sobre a morte por professoras ............................................95.

(12) xii. RESUMO MAGALHÃES, Ariana Trindade de O. As representações sociais da morte para professoras e pais em instituições de educação infantil. 132 páginas. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação, UNB. Brasília/DF, 2008. Este trabalho teve como objetivo identificar e analisar as representações sociais da morte de professoras e pais, em duas instituições de educação infantil, pública e particular em Brasília-DF. Mas é possível refletir sobre a morte num ambiente com crianças tão pequenas? De que forma isso pode ser feito? Tentar responder a essas questões foi um dos objetivos desta pesquisa. A autora, que há anos vem trabalhando com crianças em instituições de educação infantil, sentiu a necessidade de conhecer melhor o tema após ter compreendido que a família, a escola e a sociedade não educam as crianças para perdas, frustações e, menos ainda, a morte. Neste trabalho a autora fez um percurso histórico sobre a morte no ocidente e aborda outros capítulos que incitem o leitor a compreender e refletir sobre as representações sociais da. morte que foram se. constituindo na nossa cultura, sugerindo algumas mudanças de atitudes na educação como também a utilização de um recurso indispensável nessa fase da vida escolar da criança – a literatura infantil. A opção metodológica pela teoria das representações sociais é que por meio das relações sociais que a criança vivencia no seu meio familiar, na escola e com seus pares é que a criança vai construindo a representação do mundo. Sendo assim, a análise dos dados obtidos pela pesquisa constatou que as representações sociais de professoras e pais sobre a morte , tanto da escola particular como da escola pública, ainda estão muito vinculadas as representações sociais historicamente concebidas pela nossa cultura, influenciando a maneira como eles irão tratar o assunto com às crianças. Para a melhoria desta realidade, sugere-se pensar a instituição de educação infantil como um espaço de ecologia humana, onde a temática da morte , como também os diversos temas do cotidiano, passem a ser discutidos com seriedade e responsabilidade. Palavras-chave: morte, crianças, educação infantil, representações sociais..

(13) xiii. ABSTRACT MAGALHÃES, Ariana Trindade de O. As representações sociais da morte para professoras e pais em instituições de educação infantil. 132 páginas. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação, UNB. Brasília/DF, 2008. This paper aims to identify and analyze the social representations of death among teachers and parents in two Brazilian elementary schools, being one public and the other private, both located in Brasilia, DF. But, would it be possible to think about death in an environment with children so young? How one does that? To answer such questions comprises one aim of this research. The author, who has being working with children in institutions devoted to childhood education, felt the necessity to better understand the subject after having seen that families, schools and society do not educate children properly for coping with losses, frustrations and, worse yet, death of a dear person. In this paper, the author has made a historic tour about death in the occidental society, stimulating the readers to consider the social representations of death constructed in our culture. The author suggests some attitude changes in education and contends the relevance of literature reading in this phase of the school life. The option for the social representations methodology was due to the fact that it is through such methodology that children construct their world representation. In this context, the data analysis showed that the social representations of both teachers and parents, in both public and private schools, are heavily related to those social representations historically conceived by our culture, which influences the manner the adults presents the subject to children. For improving these circumstances, the author contends that elementary schools should be a place for nurturing human ecology concepts, being death and other relevant human themes treated with seriousness and responsibility.. Keywords: death, children, childhood education, social representations..

(14) 1. APRESENTAÇÃO Esta dissertação teve por objetivo verificar e analisar as representações sociais que professoras e pais da educação infantil possuem sobre a morte, com vistas a identificar a maneira como eles lidam com a criança e o fato da morte. Ao identificar estas representações, acredita-se ser possível planejar um processo educacional que envolva os profissionais de educação infantil no tema, oportunizando-lhes reflexões pessoais e profissionais, as quais possam contribuir para uma assistência que atenda as necessidades reais das crianças. O primeiro capítulo da dissertação, denominado referencial teórico, é composto por três etapas. A primeira é um breve histórico da morte, que situa o leitor na historicidade com que o fato foi sendo construído e percebido. A segunda etapa, que se denomina Atitude Transdisciplinar diante do Morrer e da Morte, busca-se averiguar as atitudes que o homem foi tendo com o processo do morrer e o fato da morte, sugerindo-se uma mudança de paradigma com relação a essa atitude. A terceira etapa, A Importância do Luto, foi dividida nos sub-tópicos O Luto e o Luto nas crianças, mostrando-se a importância do trabalho do luto em lugar de sua negação. No segundo capítulo, apresenta-se As Representações Sociais como suporte teórico e metodológico a esse trabalho, sendo seguido por as Representações Sociais da Morte, onde se busca conhecer e compreender o fenômeno da morte através das representações constituídas pelo grupo e pelo sujeito. No terceiro capítulo, discute-se a Literatura Infantil como um recurso possível e imprescindível para aqueles que desejam trabalhar o tema morte com crianças, como também um Breve Histórico da literatura infantil e as Representações Sociais na Literatura Infantil. No quarto capítulo, esboça-se os caminhos metodológicos trilhados pela pesquisa, dificultada pelo tabu que existe sobre o assunto, mas prazerosa pela tentativa de se buscar uma contribuição para educação infantil, ainda pouco explorada. Nesse mesmo capítulo, comenta-se sobre o Estudo Piloto, no qual foram aplicados alguns questionários com professoras e pais, em uma escola pública e uma particular, sendo de grande.

(15) 2 importância para reforçar a relevância do tema para educação infantil, como também para validar um dos instrumentos utilizados na pesquisa - o questionário.. Ainda nesse. capítulo, apresenta-se o resultado da pesquisa e suas respectivas análises. No quinto capítulo, apresenta-se as considerações finais do trabalho, incluíndo uma proposta de educação infantil: como um espaço de ecologia humana. A parte final do trabalho é formada das referências; cronograma; apêndices, que dentre outros , possui uma sugestão de livros infantis que abordam temas de perdas e mortes; e dos anexos. Espera-se com este trabalho contribuir para uma educação infantil que reverencie a importância e a responsabilidade por cada momento da vida, que é único, finito e que está inscrito numa história cultural, carregando todas as influências geradas por determinada sociedade..

(16) 3. INTRODUÇÃO “Lidar com a morte de modo saudável significa ter mais realizações, finalizar mais tarefas e pedir mais perdões ao longo da vida” (Ingrid Esslinger, 1998) Vive-se em uma época em que vários tabus começam a ser superados, ou pelo menos, discutidos com mais veracidade, no entanto a morte continua sendo um assunto que a sociedade insiste em ignorar. Talvez pelo medo que sentimos do desconhecido ou por vivermos numa sociedade, na qual sentir dor, saudade é sinal de fraqueza, devendo tais sentimentos serem discretos e banidos da nossa vida. Acredita-se que pensar e conversar sobre a morte pode fortalecer as nossas relações com os outros, como também valorizarmos mais a vida. Mas, quem quer conversar com. a criança sobre morte ? A resposta. provavelmente será ninguém. Os adultos, especialmente pais e mães, querem proteger as crianças de experiências dolorosas, e a morte de um ente querido é muito triste para todos. O interesse por essa pesquisa, intitulada “As Representações Sociais da Morte para Professoras e Pais em Instituições de Educação Infantil”, surgiu da prática profissional, desde 1987, como coordenadora pedagógica, quando, por diversas vezes, foram ventiladas as seguintes questões: Como o professor de educação infantil pode auxiliar e intervir junto à criança e à família diante de uma situação como a morte? Que representações sociais a criança possue sobre a morte? Seria função da escola abordar tal temática? Na procura de compreender o processo, lacunas de entendimento ficaram devido, em parte, à falta de bibliografia sobre o assunto, por outra à resistência das pessoas para com o tema. No entanto, em julho de 2003, por motivo de transferência do marido, fomos morar nos USA ( Warrensburg-MO) , para passarmos dois anos. Nos Estados Unidos, trabalhei os dois anos como voluntária na escola da minha filha – Sterling Elementary School, na biblioteca, onde desenvolvi um trabalho diferenciado do que eles costumam.

(17) 4 abrir para os voluntários. Paralelamente, nesse período, fiz alguns cursos sobre áreas do meu interesse, mas os que mais me tocaram foram o da relação da criança com a morte, denominados “How Kids Understand Death & Grief” e Myths about Children and Grief”. Como dito anteriormente, esse tema tem surgido na minha prática profissional, tendo sempre ficado lacunas por falta de bibliografias e estudos específicos sobre o assunto. E morte é um fato real na vida do ser humano. O professor de educação infantil representa um grande suporte emocional na vida da criança, e num momento de perda, ele pode contribuir bastante, desde que possua um conhecimento favorável. Os profissionais de educação infantil não recebem, na sua formação profissional, orientações para perceber, pensar e encarar questões relacionadas com a morte. Não que exista um preparo específico para lidar com essa situação, mas sabendo que a morte, em algum momento, fará parte de nossa vida, refletir e falar sobre ela ajudará a entender as nossas relações pessoais com a vida e com a morte. A inevitabilidade da morte é uma condição da qual não podemos fugir. Evitar o assunto para proteger a criança poderá dificultar o entendimento dela sobre outras situações da vida. Isso não significa dizer que se deve falar sobre morte o tempo todo, mas que se deve aproveitar a sua ocorrência para abordá-la apropriadamente, sem exageros de proteção. As perdas que acumulamos ao longo da vida tanto podem ajudar a enfrentar o nosso medo da morte como também nos ensina a conviver melhor com a nossa finitude. Kroen (1996) relata que toda criança vivenciará a perda de algo ou alguém querido durante a infância.De acordo com esse autor, alguns estudiosos acreditam que, em média, ao atingir 18 anos de idade a pessoa terá testemunhado cerca de 18000 mortes através de desenhos, filmes, livros, programas de TV, falecimento de pessoas conhecidas, membros da família ou animais de estimação. Por exemplo, quando a criança presencia a morte de um animal querido ela está vivenciado a realidade da perda, sendo impossível, para os adultos, tentarem protegê-la dessa experiência. Sendo assim, os adultos responsáveis devem aproveitar esses momentos para fornecer informações exatas e o apoio necessário para que a criança possa reagir a perda de forma saudável..

(18) 5 Dessa forma, a educação infantil, tanto a institucional como a familiar, não podem ignorar a capacidade das crianças para compreensão do fato da morte, sustentando a idéia de que elas são muito novas. De fato, a morte tem um impacto significante em todas as idades, da criança ao idoso, todos têm dificuldades em lidar com a situação. No entanto, acredita-se na importância de falar, discutir e compartilhar os momentos e sentimentos da morte, pois o silêncio pode gerar um afastamento entre os envolvidos, promovendo difuldades na convivência do dia-a-dia, e a morte existe, mesmo negando-a ela acontece a todos, independente de suas idades. É fundamental para as crianças receberem permissão e esclarecimento para falarem sobre suas fantasias, medos e culpas frente ao fato da morte, independente da idade. Diante das limitações e dificuldades que as pessoas possuem ao enfrentar perdas como a morte, a instituição de educação infantil, por meio do professor, pode auxiliar na tarefa de ajudar os pais a lidarem com a situação de maneira positiva e saudável, transmitindo apoio e segurança. Entende-se que, não existe situação da qual o homem não possa superar, por mais negativa e desesperadora que pareça. Na dissertação de mestrado de Rodriguez, ela cita Kovács (2003) que ao realizar uma pesquisa bibliográfica praticamente não encontrou referências a respeito de programas que abordam a morte no contexto educacional, como também, a formação de profissionais da educação. Kovács percebeu, na fala dos profisssionais, a falta de preparo para a abordagem do tema. Relata que, nos Estados Unidos, a Association for Death Education (ADEC). verificou que apenas 11% das instituições de ensino possuem. programas que abordam o tema da morte, isso no ensino médio. Sendo a educação infantil um lugar que se propõe um desenvolvimento de seres humanos num sentido amplo, por que não educar as crianças para perdas, para a morte? “A sala de aula não é simplesmente um cenário relacionado com os processos de ensinar e aprender, nela aparecem como constituintes de todas as atividades aí desenvolvidas, elementos de sentido e significação procedentes de outras “zonas” da experiência social, tanto de alunos quanto de professores – Nas salas de aulas se geram novos sentidos e significados que são inseparáveis das histórias das pessoas envolvidas, assim como da.

(19) 6 subjetividade social” (REY, 2006, p.2). Dentro desta perspectiva, vê-se que as funções da escola ultrapassam os processos acadêmicos. Para Rey (2005), a subjetividade social se apresenta nas representações sociais, nos mitos, nas crenças, na moral, na sexualidade, ou seja, em diversos espaços onde vivemos e compartilhamos com os outros. Assim, a instituição de educação infantil é um espaço social gerador de subjetivação que se realiza nas diversas trocas entre os sujeitos, como também constitui a subjetividade individual de quem participa desses espaços. A educação infantil tem como uma das finalidades o acompanhamento do desenvolvimento geral da criança, isso implica em acompanhá-la nas diversas situações do quotidiano, sedimentando valores éticos, morais e afetivos por meio da relação com os outros, sem jamais perder de vista o trabalho pedagógico. Dessa forma, a instituição de educação infantil, local onde a criança passa uma fase expressiva da vida, precisa estar atenta para a temática proposta e possibilitar aos professores desenvolver uma abordagem apropriada sobre o assunto para quando o evento morte se concretizar na vida de um de seus alunos. De acordo com Moraes (2004), um contexto de formação é sempre um contexto ecologizado, existindo constantes transformações, pois no momento em que o professor atua ele está interatuando em função dos pressupostos de intersubjetividade e complexidade. Nesse sentido, pensar numa educação infantil voltada para a ecologia humana é compreender as nossas relações e compromissos essenciais à vida, ajudando a tomada de decisões que respeitem o outro nos aspectos que o envolve, tanto pessoal como no social. Portanto, pensar num tema tão complexo como é a morte a ser abordada numa instituição de educação infantil, está se buscando, antes de mais nada, uma educação para a vida. Educação que inclua lidar com as perdas, tristezas, saudades, faltas, mas vivenciando esses sentimentos de forma a valorizar as relações, os afetos com os outros e a vida. Que, desde pequenos, saiba-se o valor de cada momento vivido, de cada relação, estimulando-se a cidadania, a compreensão, a sinceridade e, principalmente, o respeito para consigo, com o meio ambiente e com o outro..

(20) 7 Para tentar elucidar esta temática, algumas questões foram elaboradas, partindo da inquietação da autora, que são: - Quais as representações sociais que professoras e pais possuem sobre a morte? - Existem diferenças entre as representações sociais da morte por parte de professoras e pais de escola pública e da escola particular? - Quais as estratégias pedagógicas que as professoras de educação infantil podem utilizar como um meio educacional de auxiliar e intervir junto à família e a criança, diante de uma situação como a morte? Visando responder as questões acima, estabeleceu-se os seguintes objetivos para a presente pesquisa: Objetivo Geral Analisar as representações sociais que professoras e pais possuem sobre morte, em instituições de educação infantil. Objetivos Específicos - Verificar e comparar as representações sociais sobre morte entre professoras e pais de uma rede particular de ensino e de uma rede pública de ensino, em Brasília. - Levantar as estratégias utilizadas pelas professoras, gerando recursos pedagógicos sobre a temática morte, que possibilitem intervenções educacionais junto à família e às crianças,utilizando-se, principalmente, da literatura infantil. Acredita-se que uma investigação sobre as representações sociais da morte não deve ignorar as referências, explícitas ou implícitas, à história da morte. Serão assim abordados a seguir, um breve histórico da morte na cultura ocidental, a atitude diante do morrer e da morte e a importância de se vivenciar o luto..

(21) 8. CAPÍTULO I REFERENCIAL TEÓRICO “ Numa sociedade onde se educa para negar a morte, onde o consumismo, o culto a juventude e ao progresso nos incompatibiliza com ela, onde o apego exige a morte da morte, não é de se estranhar todas as dificuldades que temos para enfrentar esta realidade concreta que faz parte indivisível da nossa vida: a morte. Mas, se superarmos todos esses obstáculos, ainda restará um temor: o medo de morrer”. (D’Assumpção,1984, p.33) 1.1 Caminhando pela História da Morte A discussão sobre a morte não é novidade. Diferentes filósofos, historiadores, sociólogos, biólogos, antropólogos, psicólogos, dentre outros, discutiram o assunto no decorrer da história, como a morte faz parte da vida, sendo uma questão essencialmente humana, seu conceito e atitude foram se modificando de acordo com o contexto históricosócio-cultural. Ao longo da nossa civilização, a morte e o sexo foram vistos com preconceitos, sendo assuntos não tratados abertamente. Se de um lado o sexo tem recebido espaço para discussões, a morte tem sido mantida cada vez mais distante das pessoas, que tentam negá-la. Atualmente a morte é vista como um assunto mórbido, proibido, escondido ao máximo (ARIÉS, 2003). Phillipe Ariés, um dos primeiros historiadores a estudar com profundidade a história da morte, afirma que a idéia medieval da morte como sendo um acontecimento trágico, permeado por medos, continua muito presente no imaginário humano. Com base nos estudos de Ariés (2003) e nas reflexões de Kovács (2003) e Morin (1997), dentre outros, propõe-se uma breve trajetória pela história, enfatizando a cultura ocidental, onde serão apresentadas algumas idéias que vêm constituíndo a saga humana no enfrentamento da morte..

(22) 9 De acordo com estudos sobre a pré-história citados por Morin (1997), os mortos dos povos musterenses eram cobertos por pedras, principalmente a cabeça e o rosto, com o intuito de ficarem protegidos da caça dos animais, e também para que não retornassem ao mundo dos vivos. Alimentos e armas eram depositados sobre a sepultura de pedras, e o esqueleto, pintado com uma substância vermelha, era colocado em uma postura fetal, sugerindo idéias sobre a revitalização do corpo e o renascimento. Para Morin (1997), não existe relato de praticamente nenhum grupo arcaico que abandone seus mortos ou que os abandone sem os ritos, pois o não abandono aos mortos implicaria a sobrevivência deles. Ainda hoje, nos planaltos de Madagascar, os Kiboris constróem casas de alvenaria para colocarem seus corpos após a morte. Delumeau (2000), nos seus estudos sobre homens e religiões, relata que os homens de Neandertal, viveram entre 9500 e 35000 a.C. e cujos vestígios foram encontrados da França ao Oriente Médio, já prestavam homenagem aos seus mortos. A mais antiga sepultura, até hoje conhecida, provém de uma gruta situada perto de Nazaré e foi descoberta em 1969, pertencente a um adolescente de aproximadamente quatorze anos. Percebeu-se haver um verdadeiro ritual: escavação, arrumação da cova, colocação do corpo em posição intencional e oferendas de significado simbólico (DELUMEAU, op. cit.). Outra gruta, também encontrada foi a de Shanidar, no Iraque, a 745 metros de altitude. De lá foram retirados nove neadertalenses que viveram há cinquenta ou sessenta mil anos. Ao lado dos corpos, encontraram-se pólens de flores que sugerem pensar em capim florido, portanto presença de ritos funerários. Depois apareceram os homens de Cro-Magnon1, cujos primeiros restos foram descobertos nos Eysies, na Dordgone, em 1868. Eles se espalharam da Costa Atlântica à Sibéria. Seu apogeu foi entre 33000 e 12000 a.C. Foram eles que ornamentaram, entre outras, a gruta de Altamira na Espanha, e na França a de Lascaux e Pont d `Arc em Ardeché, recentemente descobertas e cujos afrescos murais, os mais conhecidos até agora, remontam a cerca de 30 mil anos. A arte rupestre dessas grutas ornamentadas 1. Cro-Magnon são os povos mais antigos conhecidos da Europa. Moravam em cavernas e ficaram notáveis pelos seus progressos culturais, principalmente suas manifestações plásticas (Wikipédia, 04/06/2007)..

(23) 10 permite supor que fossem verdadeiros santuários. O mobiliário encontrado no local era indiscutivelmente funerário, munindo o defunto dos objetos considerados úteis a ele para além da morte (DELUMEAU, op. cit.). Já a civilização Suméria, deixou-nos a epopéia de Gilgamesh, meditação sobre a morte e a imortalidade, em que pela primeira vez, trata-se do dilúvio. No momento em que emergia a civilização Suméria, surgia também a do Baixo Egito, remonta aos anos 32000 a.C. e a idade de ouro das pirâmides, situa-se entre 2778 e 2420 a.c.. As mais altas pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos são grandiosos túmulos reais, templos funerários que apontavam para o céu (DELUMEAU, op.cit.). Na Antiguidade, em uma sociedade egípcia, considerada bastante desenvolvida do ponto de vista intelectual e tecnológico, os egípcios consideravam a morte como algo natural e cultivavam formas de pensar, sentir e agir em relação à mesma (KASTENBAUM e AINSENBERG, 1983). A morte era um assunto central na cultura egípcia, o livro dos mortos descrevia as linhas mestras de um vasto sistema mortuário, que prescrevia sobre as práticas fúnebres. As pirâmides, tumbas, múmias e objetos mortuários também testemunhavam um otimismo diante da morte. Conforme Santos (2007), o fato mais prepoderante sobre as atitudes egípcias em relação à morte é o destaque dado ao julgamento, o qual gera o primeiro tipo de medo que se desenvolverá ligado à morte. O medo do que vem depois da morte, que está associado psicologicamente com o medo do castigo e rejeição quando relacionado com a própria morte, ou o medo da retaliação e/ou perda de relacionamento quando associado com a morte do outro. Já os malaios2, segundo Kastenbaum e Aisenberg, por compartilharem uma vida comunitária intensa, viam a morte como uma perda do grupo. Dessa forma, ocorria um trabalho de lamentação coletiva com os sobreviventes, uma vez que a morte era um processo a ser vivido por todos. Diversamente, os habitantes da antiga Constantinopla, hoje Istambul, mantinham os cemitérios longe das cidades e vilas, sendo as homenagens que prestavam aos falecidos um meio de mantê-los afastados, para não pertubarem os vivos. 2. Malaios são os povos habitantes da Malásia, Ásia..

(24) 11 Como se pode observar, para as culturas pré-históricas e antigas a morte, em geral, era aceita com naturalidade, talvez porque na época o homem estivesse mais ligado com a sua espiritualidade. Antes de dar continuidade ao tempo histórico, acha-se conveniente fazer um recorte a respeito da percepção que algumas religiões têm sobre a morte, devido a influência que elas têm sobre os individuos, e a forma que pensamos sobre a morte influi diretamente nos nossos julgamentos morais, estéticos e políticos em nossa vida. De acordo com quase todas as teorias sobre a religião primitiva, a inspiração das religiões nasceram em, sua maioria, como uma tentativa de entender e explicar o que acontece após a morte (BOWKER, 1995:18). De acordo com Hernández (2005), “A formação de uma consciência de religiosidade popular, a partir das ideologias e normas das instituições religiosas (macro) e dos padrões de interação social imediatos da família (micro), constitui configurações subjetivas sociais e individuais que marcam todo o comportamento social das pessoas, dos grupos e das camadas sociais” (p.89). Daí, percebe-se como a religião esteve presente na história da humanidade relacionada. à morte. Nas religiões, pode-se encontrar muitas crenças e filosofias. diferentes, no entanto a maioria acredita numa vida após a morte. Joanneliese (2003) relata que a religião foi uma das primeiras formas que a sociedade encontrou para lidar com a morte. Dentre as diversas religiões, citar-se-á algumas das mais difundidas: Catolicismo – a morte é uma passagem para uma nova vida, e não o fim decisivo. De acordo com Blank (2007), na morte a nossa forma de ser muda para outra infinitamente mais extensa e estreitamente ligada com Deus, que preza sempre pela vida. A ressurreição não é uma nova vida e sim uma transformação total do ser humano, sendo definitiva e só acontece após uma única vida terrena, não existe reencarnação. Esse autor afirma que, no Brasil, a partir da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II (1969) e modificado no Brasil em 1971, observou-se uma superação de todos os rituais de ameaça que a morte trazia. Protestantismo – De acordo com Greggersen (2007), o grande diferencial da percepção dos protestantes a outras religiões é que eles não acreditam em reencarnação, a.

(25) 12 nova vida será com Deus e o corpo também será “ressureto” com a alma. Se para os católicos, o purgatório é um local de purificação, onde as almas que ainda não estão prontas ficam em estado de graça, para os protestantes não existe tal local, pois não há a possibilidade de negociação da vida após a morte. Há muito em comum entre os protestantes e católicos, já que ambos são cristãos e têm como base a fé em Cristo, como salvador, e Deus; no entanto as maiores distinções para com o fato da morte é com relação aos rituais. Espiritismo – na terminologia dos espíritos, apenas o corpo físico morre ou desencarna. O espírito imortal retorna a sua verdadeira vida, a vida espiritual. As almas podem reencarnar infinitas vezes. Os mortos podem se comunicar com os vivos por meio dos médiuns. De acordo com Incontri (2007), para o espiritismo a vida e a morte são fases de uma longa jornada de aperfeiçoamento na qual o espírito se educa, desenvolvendo suas potencialidades. Judaísmo – não fecha a questão sobre o que acontece após a morte. A doutrina predominante não aceita a reencarnação. Para os judeus ortodoxos, no entanto, a espera da volta do Messias vai ressuscitar a todos. De acordo com Leone (2007), os judeus não vêem a morte como um fim, mas o início de um mistério, e cita: “ Se Deus cuida de cada um de nós agora, certamente cuidará de cada um após a morte. Este é um resumo da sabedoria judaica sobre a morte, o resto é comentário” (p.259). Budismo – Depois da morte, pode-se atingir a chamada Terra Pura – espaço de sabedoria iluminada – ou reencarnar. O tipo de reencarnação depende do carma de cada um. Pode-se voltar em reinos celestiais, humanos ou animais. Islamismo – Como no cristianismo, a morte leva à eternidade. Com a morte, a alma espera o dia do Juízo Final, em que será julgado pelo Criador. Depois, pode ir para o inferno ou o paraíso, de acordo com a vida terrena. De acordo com Ragip (2007), para o islamismo após a morte nossa alma vai para o universo chamado barkakh, local intermediário entre o universo material e espiritual, onde se espera o final dos tempos , o Dia do Julgamento Final. Os islamitas acreditam que a vida na terra é somente uma etapa que determinará o estado para outros universos..

(26) 13 Dessa forma, percebe-se como a religião origina valores éticos que conduzem os comportamentos das pessoas, respondendo às questões existenciais para o ser humano. Conforme Bigheto e Incontri (2007): “As religiões desempenham papéis culturais, sociais e existenciais que não podem ser apagados e nem jogados na lata do lixo da história. O elemento religioso é fundamental no todo da existência, portanto deve ser levado em consideração na formação humana, como a arte, a filosofia, a ciência etc.” (p.31). Dando continuidade ao percurso histórico, no início da Idade Média, a morte adquiriu um sentido mais cotidiano. Os doentes, ao pressentirem uma doença incurável, chamavam os parentes e amigos próximos para o ritual de despedida. Com relação as crianças, elas participavam desse processo, razão pela qual eram retratadas ao lado dos morimbundos nas pinturas de então sobre a morte. Também na Idade Média o homem muda a sua forma de lidar com a morte e passa a questionar o que seria a vida após a morte, a qual se torna temida pelo medo ao desconhecido. Para a sociedade do século XIV, tal temor se agravou em face de eventos que provocaram morte em massa, como grandes epidemias, cruzadas, inquisição, dentre outros (KASTENBAUM e AISENBERG, op.cit.). Kovács (2003). relata que os. cemitérios ficaram tão lotados que, para a economia de espaço, em alguns casos apenas uma parte dos ossos era enterrada. A morte, já tida nesta época como uma ameaça constante, provoca insegurança e temor ao homem da época. Conteúdos macabros passam a ser relacionados com a morte. Para Ariés (2003), contudo, os temas macabros não eram uma descrição realista da morte, e sim da vida. Kovács (2003), inclusive, assinala que os temas macabros devem ser vistos de duas formas: enquanto por um lado provocam medo, por outro dão uma ilusão sobre a morte. “É um produto da imaginação e não da observação” (p. 39). Para tratar deste aspecto, uma abordagem mais detalhada será apresentada em capítulo destinado às representações sociais da morte. Já no século XVIII, propagou-se a crença de que o enterro em igrejas próximo aos túmulos dos santos ou suas relíquias facilitava a passagem do mundo terrestre ao da salvação da alma. Com isso, a religião passa a ter uma forte influência sobre a morte..

(27) 14 Esse período foi caracterizado pelo sentimento de respeito ao morto, sendo ressaltadas as cerimônias religiosas, a observância do tempo de luto e as visitas ao cemitério.Nessa época, muitas pessoas morriam em casa, sendo comum crianças brincarem perto do féretro, usualmente colocado em lugar de destaque na habitação. Na Idade Moderna, com a Revolução Industrial e o decorrente desenvolvimento do consumismo, a morte passa a ser “interditada”, ou seja, adquire o caráter de “proibida”. A doença e a morte são vistas como algo sujo e desagradável para a vida em sociedade e, portanto, deviam passar despercebidas. Velhos e doentes são cuidados em hospitais, ficando escondidos e isolados de suas famílias. No evento da morte, o defunto era enviado ao necrotério para o velório. Tudo acontecia longe das crianças, para as quais era dito que a pesssoa estava em um sono duradouro, descansando em belos jardins. Na Idade Contemporânea, com o avanço da medicina, houve uma grande mudança na representação da morte, que vai se tornando “selvagem”, sugerindo temas como sofrimento, delírios, agonia, luta contra os poderes espirituais (Kovács, 2003). Assim, as pessoas afastam-se da morte, os funerais são simplificados, o luto é silenciado e os rituais seguem apenas como uma obrigação. A expressão da dor, apesar de permitida, deve ser silenciada. Os cemitérios passam a ser construídos fora das cidades, agora de acordo com políticas de higiene pública (Kovács). No século XX, a morte, ainda tratada nos hospitais, onde se valoriza a assepsia do corpo e, por extensão, da alma, transmuta-se em morte monitorada. A medicalização e os equipamentos de manutenção da vida, em parte das vezes, servem para prolongar o sofrimento do paciente. e da família, alimentando a polêmica sobre temas como a. eutanásia, a distanásia, a ortotanásia e o suicídio assistido. Sobre esse aspecto, Corbucci (2005) destaca a importância que tem se dado, atualmente, a medicalização como uma das formas de persuadir e também melhor difundida para encarar a morte, que tem como estratégia a busca por um “possível domínio da vida por meio da técnica” (p.109). Isso leva o homem a acreditar numa possível imortalidade, o que para essa autora, precisa-se questionar até que ponto esses avanços médicos trazem benefícios para a humanidade..

(28) 15 Para Mannoni (1995), atualmente nas sociedades ocidentais 70% dos pacientes morrem nos hospitais, enquanto no século passado 90% morriam em casa. Desse modo, excluída do ambiente familiar, a morte acontece nos hospitais, onde ela deixa de ser esperada e passa a ser um processo de internamentos, de UTI... Com isso, muitas vezes, a família não participa dos últimos momentos da vida de seu ente querido e, portanto, os rituais de despedida ficam menos frequentes. O luto torna-se cada vez mais reservado. As pessoas não compartilham suas dores. Parkes (1998) acredita que uma boa parcela das doenças de pessoas que perderam entes queridos se vincula à impossibilidade de expressão do luto (apud. Kovács, 2003, p.69). Outro aspecto importante é que antigamente era preferível morrer lentamente, perto da família, onde o morimbundo tinha a oportunidade, na despedida, de rever suas relações. Atualmente, prefere-se a uma morte repentina, o que chamam de “boa morte”. Para Kovács (cit), o tempo da doença ajuda a assimilar a idéia da morte e a conseguir tomar decisões concretas com relação aos que ficam. Essas transformações ocorridas em relação ao processo de morte e morrer, segundo Ariés (1981) e outros pesquisadores, foram reflexos do sistema econômico capitalista que passou a gerar uma sociedade industrial que individualiza e materializa as pessoas na disputa pelo enriquecimento e a preservação da vida, a qualquer custo. A morte, nessa situação, passa a ser um incômodo, pois para compreendê-la e vivê-la é necessário interromper o ritmo acelerado das produções. Analisando-se a morte em um contexto histórico, cultural e social, pode-se ter a impressão que o homem não a enxerga como um acontecimento natural da vida. Conforme Kubler-Ross (1981), “... Do ponto de vista psiquiátrico, em nossso inconsciente, a morte nunca é possível quando se trata de nós mesmos” (p.14). Ou, como se poderia acrescentar, daqueles que amamos. No entanto, a morte é uma certeza que temos na vida. Corbucci (2005) cita que as metáforas usadas pelo senso comum face a morte confirmam o sentimento da luta do homem contra a morte: “salvar da morte; proteger-se da morte; brigar com a morte” (p.111). O que mostra o incessante desejo do homem em não morrer..

(29) 16 A autora citada acima, faz uma brilhante comparação, bastante oportuna para o propósito desse trabalho, gerada da onipotência do homem na busca da finitude, o qual reflete também na relação do homem com a natureza. “Da mesma maneira que trata a vida, sem admitir a sua finitude, seus limites, trata a natureza como se a sua finitude e também os seus limites não existissem” (p.111). A civilização atual se acha capaz de manipular o planeta como se não pertencesse a ele, ou como se nossas ações não tivessem influência direta ao nosso meio ambiente. Apesar de existir uma consciência dos problemas ambientais, as organizações mundiais responsáveis pela proteção da natureza e do meio ambiente ainda não encontraram uma forma coordenada e clara que leve a uma articulação ético-política entre três registros ecológicos: o meio ambiente, as relações sociais e a subjetividade humana. De acordo com Schramm (1992), as questões ecológicas devem ser analisadas como problema ético. Ética esta que deve estar voltada a responsabilidades com o presente e com o futuro, uma ética que demonstre que as acões atuais têm consequências no presente e no futuro e que a situação de toda a biosfera de hoje e do amanhã depende do tipo de ações desenvolvidas no contexto atual. Conhecer os limites do homem pelo homem é fundamental para uma atitude ética. “Outrossim, entender que a morte não é um ponto final, isolado na vida, mas que o início da vida já é o início da morte, bem como, sua aleatoriedade na existência, são algumas das condições de existir que precisam ser trabalhadas com as pessoas em contraposição as ilusões instituídas de uma pretensa imortalidade”. (CORBUCCI, 2005, p.112).. Dessa forma, percebe-se que as atitudes do homem em relação à morte se identificam com as atitudes que mantém em relação à vida e, especificamente, com aquelas que estabelece com a natureza e com o meio ambiente como um todo. (CORBUCCI, op.cit). A seguir apresentaremos as atitudes do homem relacionadas a morte no decorrer do tempo, sugerindo um novo olhar..

(30) 17 1.2 Atitude Transdisciplinar diante do Morrer e da Morte. “O importante não é o tempo de vida que temos, mas a qualidade da vida que vivemos”. (D´Assumpção, 1984). Pesquisando-se o significado das palavras morrer e morte em dicionários, podese optar pela definição contida no Aurélio (1988), que junto com outros compartilha, reduzidamente, que morrer “é perder a vida, falecer” (p.345). E morte “é o fim da vida animal e vegetal” (p.345). Portanto, pode-se dizer que morrer é o processo, pertence ao vivente; enquanto morte é o fato, pertence ao defunto. Esses conceitos, compartilhados pelo senso comum, influenciam na maneira como as pessoas vão representar o morrer e a morte. Um autor que se destaca nessa temática, afirma que: “Se morrer é um processo, uma preparação, uma caminhada, a morte é a decisão definitiva, a crise (ruptura, juízo) radical, que o homem faz na solidão de seu extremo, derradeiro e pleno diálogo, com aquele (ou aquilo) no qual creu e pelo que viveu” (BESSA, 1984, p.23). Viu-se no capítulo anterior como o ser humano reage ao morrer e a morte, que as atitudes e conceitos que os indivíduos têm estão intimamente ligados a uma história sócio-cultural de cada época e local. O indivíduo, no decorrer de sua existência, desempenha vários papéis e ocupa lugares sociais, carregados de significados que nos chegam através dos outros. Integramo-nos nas relações sociais através da mediação com esses outros e nelas vamos nos reconhecendo, através de nossas atitudes, como pessoas. Dentro da perspectiva de subjetividade social de Rey (2003), o mundo social é um espaço de sentidos compartilhados, onde o indivíduo ao mesmo tempo que constitui sua cultura é constituído por ela. Nesse sentido o individuo é sujeito ativo nessa sociedade, sendo capaz de romper com as organizações sociais, mas nem sempre vai dar conta de tudo (apud JOANNELIESE, 2003)..

(31) 18 Nessa concepção, “a subjetividade é caracterizada não apenas como qualidade de um indivíduo, mas como uma configuração3 que se constitui na relação com o outro, que mantém suas particularidades. Apesar de possuírem um caráter social, relacional, os sentidos objetivos, mesmo que partilhados são atribuídos e significados por um sujeito, com vontade própria e não está alheio às constituições humanas, e não por um “objetocultura” (JOANNELIESE, p.56). Dessa forma, com relação a morte, Morin (1975) alerta que “Tudo indica que a consciência da morte que emerge no Homo Sapiens é constituída pela interação de uma consciência objetiva que reconhece a mortalidade e de uma consciência subjetiva que afirma se não a imortalidade, pelo menos uma transmortalidade...” (apud Bessa, p.116). Ou seja, de acordo com esse autor, “a morte pode ser entendida como a objetividade da subjetividade da objetividade”. A objetividade é o momento em que o indivíduo recebe a notícia da morte, é o impacto inicial; a subjetividade representa a inaceitabilidade do fato, a sua incompreensão; e a objetividade da subjetividade é a consciência da irreversibilidade da morte, da sua concretude e sua possível aceitação. Encará-la dessa forma é reconhecer a complexidade da percepção da mortalidade para o ser humano, repensando as atitudes que tomamos frente a ela. As atitudes humanas em relação ao morrer e a morte no ocidente são diferentes das sociedades antigas e orientais, onde a morte é vista como parte importante do processo da vida. O historiador Philippe Ariés (1977) estudou a história da morte no ocidente cristão, desde a Idade Média até o século XX e destacou quatro fases que marcaram a atitude humana perante a morte, apresentadas resumidamente:4 Na primeira fase, a morte domesticada, predominante até o século XII, a morte fazia parte do quotidiano da vida. Uma das principais características dessa fase é o pressentimento que as pessoas tinham com o chegar da morte, daí não tinham medo de 3. González Rey (1999) define configuração subjetiva como uma “constituição subjetiva de relações e atividades que caracterizam a vida social da pessoa. São categorias complexas, pluridimensionais, que representam a unidade dinâmica sobre a qual se definem os diferentes sentidos subjetivos dos eventos sociais vividos pelo homem (...) se constituem a nível psicológico, mas simultaneamente expressam a qualidade das diferentes atividades e relações sociais desenvolvidas pelo sujeito” (apud Joanneliese, 2003, p.56). 4 Para um maior aprofundamento sobre as fases que marcaram as atitudes humanas perante a morte, ler a tese de doutorado de Regina Corbucci, p.90-106..

(32) 19 morrer, não procuravam a morte, mas também não fugiam dela. Apesar do sofrimento, não havia exaltações e revoltas. Na segunda, a morte de si próprio, em uso do século XIII até o século XVII, o homem passa a exercer a sua individualidade enquanto morto, e isso vai gerar um fator social, em que a origem socioeconômica determinava o tipo de funeral que o defunto iria receber, marcando diferença entre os funerais dos pobres e dos ricos, mas continuava a ter um sentimento de familiaridade com a morte. Na terceira fase, a morte do outro, que vigorou do século XVIII até o século XIX, o medo da morte desvia-se de si para o outro, torna-se dramática e os rituais são marcados por grandes comoções. As relações dos familiares com o moribundo passam a ser mais afetivas e o luto exagerado mostra como a morte passa a ser difícil de aceitar. Enfim, a quarta fase, a morte interditada, iníco do século XX, é a fase da ocultação da morte, as atitudes estão vinculadas a urbanização crescente e industrialização da época, a morte é vista como algo feio e desagradável e o morrer passa a ser indesejável, portanto deveriam ser escondidos e isolados das famílias, passando o moribundo a ser tratado nos hospitais. Na nossa sociedade atual, as atitudes diante do morrer e da morte tornam-se, cada vez mais distantes, a morte incomoda e desafia a onipotência humana. A medicalização é uma maneira de afastar a morte e prolongar a vida. De acordo com Brêtas et all, “Nenhum outro evento vital é capaz de suscitar nos seres humanos, mais pensamentos dirigidos pela emoção e reações emocionais que ela, seja no indivíduo que está morrendo, seja naqueles à sua volta” (2006, p.478) 5. Brêtas, Oliveira e Yamaguti (2006), ao realizarem uma pesquisa6 acerca do assunto morrer e morte, categorizaram algumas atitudes diante do tema, através das seguintes falas: “Nunca estamos preparados para enfrentar a morte, é importante expressarmos tudo o que sentimos e dizer o que sentimos pelo outro”. 5. Lunardi Filho WD. Sulzbach RC. Nunes AC. Lunardi VL. Percepções e condutas dos profissionais de enfermagem frente ao processo de morte e morrer. Texto Contexto Enferm. 2001:10 (3) :60-81. 6 Pesquisa feita com estudantes de primeiro ano do curso de graduação em Enfermagem da UNIFESP, 2006..

(33) 20 “Sinto muito a morte dos outros. Tenho dificuldade em lidar com o assunto”. “Quanto mais velho a morte é mais aceitável”. “É um acontecimento inevitável”. “É difícil lidar com a separação e a perda”. “O tempo é a melhor forma de se conformar e começar a pensar em momentos bons”. “Os que ficam sofrem mais do que os que vão, a maioria não lida muito bem com a morte, com a dor da saudade, com o inconformismo. Poucos percebem a naturalidade desse processo”. “Até que ponto a Universidade prepara o profissional para lidar com a morte?” (p.480). Essas citações suscitam as dificuldades internas que as pessoas sentem em lidar com o morrer e a morte. Mesmo profissionais que lidam de forma mais constante com o processo de morrer e a morte, como é o caso dos enfermeiros, relatam que a proximidade com a morte de um paciente, pode despertar sentimentos como “impotência e culpa” (BRÊTAS et all, 2006, p.481). Essa dificuldade dos profissionais não só da saúde, como também da educação e outros setores está ligada, dentre outros fatores, à falta de discussão desse tema nas Universidades, como formadoras de profissionais, devendo criar espaços para uma sensibilização e reflexão sobre o assunto morrer e morte, possibilitando uma nova mudança de atitudes em relação ao fato. Atitude que perceba o sujeito em suas particularidades e em diversas circunstâncias de vida, não se limitando a uma relação linear, como professor-aluno, médico-paciente, e sim ampliando essas relações para um contexto maior de significados. Ultimamente, fala-se muito numa “Universidade para o amanhã”, buscando uma evolução transdisciplinar na Universidade, na qual a sua finalidade é a compreensão do mundo atual, e um dos imperativos é a unidade do conhecimento. Um aprendizado que deve começar desde a infância e continuar por toda a vida, pois uma “atitude transcultural, transreligiosa, transpolítica e transnacional, permitirá, então, aprofundar mais a própria cultura, defender melhor os interesses nacionais, respeitar mais as próprias.

(34) 21 convicções religiosas e políticas” (Nicolescu et all, p.5) 7. E por que não dizer também, possibilitar uma melhor visão sobre os assuntos psicológicos da nossa vida. Para Nicolescu (1999), a educação transdisciplinar deve ser permanente e efetiva, não restringindo-se apenas no âmbito escolar, mas a todos os lugares em que vivemos e para toda a vida. O autor aponta quatro pilares de sustentação para um novo tipo de educação, fundamentados pelo Relatório Delors, elaborado pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, ligada à Unesco e presidida por Jaques Delors8. Os pilares mencionados são: 1. Aprender a conhecer – exprime o saber diferenciar o que é real do que é ilusório, como também estabelecer pontes entre os diferentes saberes e suas significações na nossa vida diária. 2. Aprender a fazer – significa fazer algo novo, criativo. Abrir um leque de possibilidades para as próprias potencialidades criativas do ser humano. 3. Aprender a conviver – designa o respeito às normas que regulamentam as relações sociais que compõem um grupo, e para que elas sejam respeitadas devem ser validadas pela experiência interior de cada um. 4. Aprender a ser – denota aprender a nos conhecer, descobrir os nossos condicionamentos, harmonias e desarmonias entre nossa vida individual e social, para a descoberta das nossas convicções. Cunha (2003) faz uma reflexão sobre esses quatro pontos abordados e afirma que a educação integral do homem, baseada na trans-relação que serve como ponto aos pilares acima, é algo a ser buscada pelo homem numa verdadeira interação entre corpo, inteligência,. sensibilidade,. arte,. esporte,. ciência,. aprendizagens. transpolítica,. transnacional, transreligiosa e transcultural. Com relação a uma educação voltada para o morrer e a morte, que prefere-se utilizar, uma educação para a vida, Bessa (1984) defende que: 7. Projeto CIRET-UNESCO, 1997. DELORS, Jacques (org.). Educação: um tesouro a descobrir – Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. 10ed. São Paulo:Cortez, Brasília, DF: MEC: UNESCO, 2006 8.

(35) 22 “uma educação (desde criança) para o morrer se impõe a fim de aliviar o homem de seu medo e o apavoramento diante da morte. Este deve preparar-se para o processo tanático do morrer e da morte (sua e dos outros). Isso paradoxalmente, para que viva melhor, curtindo a existência no saborear de cada dia, na realidade do hoje, na concretude do aqui e agora, sem sentimento de perda do ontem ou a desesperança do amanhã. Enfim, que o homem se concilie com a morte que nele vive permanentemente” (p.16).. Pensar em atitudes transdisciplinares diante do morrer e da morte não só é entender a relevância desse fato para o homem, como também reconhecer a complexidade do assunto. A morte não é apenas um fato distante, alheio e improvável para nós, mas é uma ocorrência profundamente humana, sofrida e concreta. O termo Transdisciplinaridade foi adotado em 1970 por Piaget, num colóquio em Nice, que foi usado para designar “para além das disciplinas” (BRITO, 2005, p.1). Segundo Nicolescu (1996) a transdisciplinaridade diz respeito “ao que se encontra entre as disciplinas, através das disciplinas e para além de toda a disciplina” (apud BRITO, 2005, p.1). Daí, o termo transdisciplinaridade não significa a negação às disciplinas, e sim um olhar que vai através e além delas, permitindo uma nova visão da realidade. Dessa forma, o que seria uma atitude transdisciplinar? Para Santos (2005) o termo pode ser novo, mas a atitude transdisciplinar acompanha o homem desde a sua origem. Como o homem é produto da natureza biofísica e cósmica, essa mesma natureza que sempre se comportou de forma transdisciplinar, faz com que o homem traga na sua estrutura esse modo de se inserir e evoluir no ambiente social. A atitude transdisciplinar, assim como a prática e a pesquisa transdisciplinares defendidas por Nicolescu (2001), fundamentam-se em três pontos (apud CUNHA, 2003, p.4) : 1. Rigor – que é um aprofundamento do rigor científico uma vez que leva em consideração a comunicação efetiva entre os seres, valorizando “a procura do lugar certo em mim e no outro” (aspas da autora). 2. Abertura – que contempla o constante nascimento/morte do desconhecido, do inesperado e do imprevisível..

(36) 23 3. Tolerância – que admite a existência de idéias e verdades de caráter oposicionista à transdisciplinaridade. Nesse sentido, Santos (cit.), confirma que a tolerância e a abertura são imprescindíveis no diálogo entre os diferentes saberes, diferentes culturas, diferentes teorias e diferentes modos individuais de ser, pois a vida só adquire sentido quando contextualizada, por meio de todos os saberes acumulados, aceitando o direito de todo ser humano, qualquer que seja a sua religião, sexo, cultura e raça, para que se possa conviver e contribuir, respeitando e sendo respeitado pelas diferenças individuais e grupais. Atitude transdisciplinar implica em reconhecer a existência de diferentes níveis de realidade, regida por diferentes lógicas, é uma disposição a manter uma direção constante na travessia dos diferentes níveis de Realidade (social) e dos diferentes níveis de percepção (individual), diante de qualquer complexidade de situação ou dos acasos da vida (NICOLESCU et al, 2000). Afetividade e efetividade, atributos da atitude transdisciplinar, garantem a nossa competência de ação no mundo e na vida coletiva, enquanto povo, nação e humanidade (ALIATTI e BELTRÃO, 2005). De acordo com Catalão (2005) “a atitude transdisciplinar demanda um olhar sem viseiras e uma escuta sensível capaz de fazer emergir a natureza encoberta do corpo que sente” (p.6). Ter um olhar aberto e uma escuta “sensível” diante dos processos de morrer e morte é dar significado e relevância a momentos decisivos da vida do outro e da nossa. É mostrar que ser humano é fazer a diferença na vida do outro, é entender que: “O homem não acaba em seu passado, nem com ele, mas, ao invés, este se adentra em seu porvir; ele vive também em suas obras, de seus amores, na memória dos que o amam. E até por seu futurível, isto é, naquilo que planejou com convicção e que não pôde realizar” (EVALDO, 1984, p.18).. Possuir uma escuta sensível exige do professor um aprendizado novo, nada fácil, mas essencial nos dias atuais. Barbier (2004) afirma que conceber uma escuta sensível constitui a plena consciência do momento atual, seja em um gesto, seja em uma atividade diária, requer um distanciamento da teoria e conceitualização, no entanto exige uma representação imaginária sobre o mundo, como também um desejo de realizar algo. Dessa forma, a escuta atinge um estado de máxima atenção para o que está sendo exposto..

(37) 24 Falar de uma escuta sensível diante do morrer e da morte na educação, significa uma mudança de postura dos educadores, uma atitude madura e aberta aos novos conhecimentos. A aceitação na complementaridade dos conhecimentos, fora do seu campo de domínio e a busca e criação de novas maneiras de agir, respeitando as diferenças em sua totalidade, ou seja, cultura, tradição e religião,. reconhecendo e. buscando a harmonia entre os diferentes níveis de realidade e de percepção, regido por diferentes lógicas. Ao escutar o aluno, com seus medos, indagações sobre o morrer e a morte, o professor vai além da disciplinaridade, liberando o aluno a romper com a dicotomia entre o cognitivo e o afetivo. Refletir sobre a realidade vivida dos alunos, valoriza-se cada um, em particular, e possibilita um diálogo aberto e plural das necessidades que esses alunos apresentam. Repensar uma mudança educacional que se valorize uma atitude transdisciplinar diante do morrer e da morte deve ter como fundamental essa valorização da escuta sensível do professor aos desejos dos alunos, os quais aprenderão a conviver com as fatalidades da vida, a conviver melhor com o outro, a respeitar a interioridade sua e do próximo, respondendo ao chamado da sua subjetividade, por meio da afetividade, a intuição e a espiritualidade. Na parte a seguir, aborda-se o tema luto, pois da mesma forma das atitudes diante do morrer e da morte, o luto foi sendo encarado de diversas maneiras no decorrer da história. Atualmente, em geral, os enlutados vivenciam a dor da perda sozinhos, já que os conhecidos preferem se afastar do acontecimento da morte, recalcando a dor da perda ao invés de manifestá-la. Para Mannoni (1995), o luto, da forma que é concebido nos dias atuais, não é mais, somente, uma homenagem aos que se foram, mas sim uma maneira de proteção aos que ficam, confrontando-se com a morte dos seus..

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Gráfico  1.  Sentimentos  que  a  palavra  morte  desperta  mais  frequentemente  nos  indivíduos

Gráfico 1.

Sentimentos que a palavra morte desperta mais frequentemente nos indivíduos p.89
Gráfico  2.  Adultos  que  conviveram  com  uma  criança  a  perda  de  uma  pessoa  querida

Gráfico 2.

Adultos que conviveram com uma criança a perda de uma pessoa querida p.90
TABELA 2. Explicações sobre o que acontece após a morte.

TABELA 2.

Explicações sobre o que acontece após a morte. p.93
TABELA 3. Utilização de livros infantis que abordem o tema morte.

TABELA 3.

Utilização de livros infantis que abordem o tema morte. p.94
TABELA 4. Abordagem do tema morte nas escolas.

TABELA 4.

Abordagem do tema morte nas escolas. p.99
TABELA 5. Participação das crianças nos rituais fúnebres.

TABELA 5.

Participação das crianças nos rituais fúnebres. p.100
TABELA 6. Percepção das crianças sobre a morte e justificativas.  PERCEPÇÃO  PÚBLICA  Pais       Professoras  PARTICULAR  Pais      Professoras  TOTAL  FANTASIOSA

TABELA 6.

Percepção das crianças sobre a morte e justificativas. PERCEPÇÃO PÚBLICA Pais Professoras PARTICULAR Pais Professoras TOTAL FANTASIOSA p.102
TABELA 7. Papel da religião na morte.

TABELA 7.

Papel da religião na morte. p.103
Gráfico 3. Religião dos participantes.

Gráfico 3.

Religião dos participantes. p.104
TABELA 8. Representações sobre a morte por pais.

TABELA 8.

Representações sobre a morte por pais. p.105
TABELA 9. Representações sobre a morte por professoras.

TABELA 9.

Representações sobre a morte por professoras. p.106

Referências