O ESTADO FORA DO COMPASSO: A REALIDADE URBANA DO RIO DE JANEIRO DO INICIO DO SÉCULO XX NA OBRA DE HEITOR VILLA- LOBOS

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X Seminário de Pós-Graduação em Geografia da UNESP Rio Claro

ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP O ESTADO FORA DO COMPASSO: A REALIDADE URBANA DO RIO DE

JANEIRO DO INICIO DO SÉCULO XX NA OBRA DE HEITOR VILLA-LOBOS

Fernando LUCCI Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense, Geógrafo, Mestrando em Geografia, Rua araras N°84, Bairro Santa Cruz, Curvelo - Minas Gerais - CEP 35790-000 geolucci@yahoo.com

Resumo

Ao longo da história, Heitor Villa-Lobos teve seu nome constantemente associado ao governo ditatorial de Getúlio Vargas o que acabou por marcá-lo como o músico do Estado Novo. Neste momento, a idéia de se forjar uma identidade brasileira tendo como objetivo final a estruturação de uma nação estava ligada a uma pretensa superação da condição de atraso e subdesenvolvimento pela qual o país passava durante as três primeiras décadas do século XX. Condicionar a existência do compositor como mero instrumento do Governo é esfumaçar a sua existência social, espacial – real, as quais se fossem privilegiadas poderiam apresentar outra leitura que não apenas a do músico do Estado, levando a percepção dos lugares aos quais ele vivia. Com tal postura, seriamos levados a situá-lo em dois momentos de sua vida: um primeiro como “mediador simbólico” do Governo e um segundo sob pura influência de elementos da cultura popular citadina dos locais aos quais freqüentava no Rio de Janeiro. A realidade urbana sob este novo ângulo ganha uma nova percepção e significância, passa de um mero instrumento de definição de uma pretensa identidade nacional para elemento protagonico do entendimento da formação urbana de tal cidade a partir do universo da música erudita.

Palavras-chave: Geografia Urbana, Heitor Villa-Lobos, Choros, Geografia Cultural, Música.

Abstract

The State out of the compass: The urban reality of Rio de Janeiro in the beginning of the twentieth century in the work of Heitor Villa-Lobos

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP instrument of the Government is hide their social existence and their spatial existence, a study so under Villa-Lobos, would present another reading that not only the musician of the state, reveal the experience and perception of places to which he lived, leading us to place him on two occasions in his life: first as a "symbolic mediator" of the government and a second under the influence of pure elements of popular culture of the city frequented places for which Rio de Janeiro. The urban reality under the new angle gains a new perception and significance, is but a mere instrument for defining a national identity for allegedly starring element of understanding the formation of such urban city from the world of classical music.

Key words: Urban Geography, Heitor Villa-Lobos, Choros, Cultural Geography, Music.

AS TRANSFORMAÇÕES QUE O PAÍS PASSAVA

Com o fim do período monárquico no Brasil e a conseqüente instalação da República iniciou-se um processo de descentralização política e administrativa no país “onde a burguesia emergente obteve controle sobre certos poderes do Estado através de alianças com elites rurais em regiões mais atrasadas” (OLIVEN, 1986, p.68). Com isso, criaram-se laços de relacionamentos entre a burguesia emergente e as elites rurais, onde a troca de favores, principalmente entre os políticos e os coronéis se destacavam. Além disso, os coronéis exerciam influência nas regiões as quais pertenciam. Tal processo veio a se chamar de regionalismo.

Este regionalismo, ao contrário do que se esperava com a Proclamação da República, que buscaria uma maior unificação e centralização do território nacional, teve como conseqüência a permanência e/ou fortalecimento de uma estrutura política, econômica e social descentralizada e organizada em pontos do território:

em alguns casos, em que havia sérios obstáculos físicos ou em que a transição para o modo de produção capitalista era apenas parcial, a emergência de uma burguesia que buscava poder a nível nacional podia na verdade, fortalecer o poder das elites tradicionais a nível regional (OLIVEN, 1986, p.68).

Tal processo contribuiu para a fragmentação do território e o fortalecimento das elites regionais.

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP políticos de São Paulo e Minas Gerais, por representarem os maiores estados produtores de café.

Como colocado, durante a Primeira República caracterizou-se por uma descentralização política, administrativa e econômica, o que levou de certa forma a manutenção de um sistema de exploração do trabalhador pelo grande proprietário e a manutenção de uma economia embasada na agro-exportação. Tal panorama persistiu até fins da década de 1920 com a eclosão da Grande Depressão dos anos de 1929-30. Nas palavras de Singer (2001, p.93) “A depressão foi a mais longa e profunda crise econômica, que atingiu a mais forte das economias capitalistas – os Estados Unidos – e a partir dela irradiou-se às demais”. O seu reflexo foi tão incisivo que ocasionou uma profunda mudança no relacionamento do Estado Nacional com a economia de mercado de cada país, uma vez que o comércio internacional fora profundamente atingido com tais reflexos.

Com tal situação internacional, onde a compra de produtos industrializados dos países produtores era muito escassa e a venda dos produtos agrícolas era baixa, efetivou-se a crise do café no Brasil, o que deu início a desarticulação da política de camaradagem entre as elites regionais e a burguesia “política dos governadores”. Este processo desencadeou mudanças no cenário econômico surgindo revoltas sociais e militares que começaram na década de 1920, culminando com a Revolução de 1930.

“É a partir deste período que um aparelho de Estado mais centralizado é criado e que o poder se desloca crescentemente do âmbito regional para o nacional” (OLIVEN, 1986, p.72). Esta recentralização do poder, desencadeou-se no plano econômico com a abolição dos impostos interestaduais e uma maior intervenção na economia por parte do Estado “ajudando a fazer com que parte do excedente criado pelas oligarquias agrárias fosse usado para iniciar um novo processo de industrialização” (OLIVEN, 1986, p.72). Já “no plano social, o Estado regulamenta as relações entre capital e o trabalho, criando uma legislação trabalhista e um Ministério do Trabalho” (OLIVEN, 1986, p.72). O Estado cria também o Ministério da Educação a quem caberia ter “um papel fundamental na constituição da nacionalidade, o que deveria ser feito através da impressão de um conteúdo nacional à educação” (OLIVEN, 1986, p.72).

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP seja, as décadas que se sucederam a de 1930 foram marcadas por uma constante busca de construção de um Brasil moderno. Assim, medidas como a redefinição da política econômica interna, a definição de uma estrutura política administrativa, mais centralizadora e intervencionista no território nacional. E a implantação de um aparato técnico-burocrático passou a caracterizar o governo a partir de então. O Estado preocupava-se cada vez mais em formar, ou mesmo criar, um grupo cultural mais homogêneo que partilhasse das mesmas idéias e valores, isto é, tal período, retratou um pouco os anseios de um país que buscava a modernidade.

Tal preocupação do Governo em construir um grupo cultural mais homogêneo se justifica uma vez que o país não estava em mudança somente na economia e política, a sociedade também vinha se alterando durante as três primeiras décadas do século XX, começa-se a observar um aumento no número de cidades e nas maiores vê-se o início dos atuais problemas urbanos. Um significativo percentual de pessoas provenientes de áreas rurais passaram a se aglomerar em cortiços, e posteriormente em favelas, o que representava para os administradores públicos novos desafios que se projetavam frente às mudanças que vinham acontecendo na economia. Ou seja, era necessário preocupar-se também com questões econômicas e políticas, mas era preciso pensar a sociedade como um todo.

Era preciso, portanto, preocupar-se com uma sociedade que nesse momento não se via como parte pertencente de uma nação mas sim como grupos étnicos que pouco ou quase nada se relacionavam. Na perspectiva de Ianni (1994, p.89), tal preocupação demonstrava que aos poucos, alguns setores dominantes e os governos são levados a reconhecer que a questão social é uma realidade, uma vez que,

ainda que utilizam outras denominações e preconizem a violência contra as reivindicações e os protestos ainda assim se começa a reconhecer que algo pode mudar, que alguma negociação pode haver, sem que o status quo seja alterado. Tanto assim que ao longo das décadas de 20 e 30 os governantes e setores dominantes começaram a admitir que a questão social poderia deixar de ser considerada um problema de polícia e começar a ser tratada como um problema político (IANNI, 1994, p.89).

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP A conformação que o país apresentava na década de 30 do século XX colocava para o Estado a necessidade de se pensar as conseqüências que um país em via de industrialização e de modernização trazia consigo. Talvez este fosse o momento que congregava todos os fatores tanto técnicos como políticos que possibilitassem a criação da comunidade imaginada, o Brasil deste momento era um país multifacetado socialmente com uma pluralidade cultural muito grande e não existia a consciência de pertencimento a uma pátria.

É neste momento que a construção de uma nação emerge como uma conseqüência da conjuntura que o país vinha passando, sendo que esta idéia de construção da nação remete conseqüentemente a uma outra noção, a de mediação, uma vez que,

ao colocarmos a identidade como um elemento de segunda ordem, estamos implicitamente nos referindo aos agentes que a constroem. Se existem duas ordens de fenômenos distintos, o popular (plural) e o nacional, é necessário um elemento exterior a essas duas dimensões que atue como

agente intermediário (ORTIZ, 2003, p.139).

Este agente pode ser entendido aqui como sendo os “mediadores simbólicos”, ou seja, intelectuais, escritores, artistas, músicos, atores, etc., que funcionam como intermediários entre o popular, manifestação estruturada da cultura e o nacional, fruto de um interesse político governamental.

É dentro dessa perspectiva que se insere o processo de estruturação de uma identidade nacional, que na maioria das vezes busca uma interpretação que tende a homogeneizar os espaços e a produção cultural que é gerada neles.

É interessante observar que para se chegar a uma visão homogeneizadora da realidade, no caso da identidade, são escolhidas algumas manifestações regionais, próprias dos diversos grupos pertencentes ao território nacional e através daí reinterpreta-se ou reestrutura-se o seu significado a fim de serem alçadas à condição de símbolos nacionais.

Desse modo,

é por meio do mecanismo de reinterpretação que o Estado, através de seus intelectuais, apropria-se das práticas populares para apreapropria-sentá-las como expressões da cultura nacional. O Candomblé, o Carnaval, as Reisadas, etc., são, desta forma, apropriados pelo discurso do Estado, que passa a

considerá-los como manifestações de brasilidade (ORTIZ, 2003, p.140).

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP agentes mediadores para obterem êxito no seu trabalho interferirão de uma forma artificial na imaginação dos grupos humanos, modelando-as e distorcendo-as e criando percepções da realidade que ultrapassam a vivência destes grupos. Esta interferência no plano simbólico, com o objetivo de se criar um referencial pátrio para a futura nação, leva-nos a pensar na formação de uma psicosfera1, um emaranhado de referenciais simbólicos que conduzem à formulação de uma imagem mental. É dada uma forma e um contexto para as alterações que os mediadores simbólicos vinham trabalhando. Esta comunidade imaginada é a projeção de uma realidade pensada e estruturada, sendo o ideal de nação almejado pelos governantes para o país. Nela, no caso do Brasil, se projeta um país moderno e industrial sendo aí a forma encontrada pelos governantes de apresentarem um país que se livrava de vez das marcas de um país agrário, atrasado, que era refém das oligarquias e que se apresentava multifacetado socialmente. Mostrando para a população através da estruturação desta comunidade imaginada que o Brasil tinha a possibilidade de se tornar um país moderno e competitivo.

O processo de construção dessa comunidade imaginada se fez ao nível do simbólico, da representação de áreas, das impressões capitadas e tomadas como referência, um padrão que se apresente, uma nação. Esta comunidade imaginada tem como objetivo principal a criação de uma imagem mental acerca de um lugar de comum vivência para os habitantes. A existência de uma singularidade entre as regiões desperta na população uma sensação de pertencimento a um lugar comum que congrega anseios e vontades semelhantes.

Benedict Anderson (2005, p.46) propõe que o nascimento destas comunidades imaginadas, no caso específico da Europa do século XVIII, deva ser entendido através da estrutura básica de duas formas de imaginação desta época, o romance e o jornal, estes instrumentos explicitaram o tipo de comunidade imaginada que as elites passavam a construir para a nação.

O exemplo do romance é talvez o mais interessante, uma vez que era um instrumento de apresentação da simultaneidade no “tempo vazio e homogêneo” apresenta a possibilidade do entrelaçamento do mundo interior do romance com o mundo exterior e real, onde as realidades tendiam a se fundir.

Deste modo, para o processo de construção de uma comunidade imaginada, o desenvolvimento do meio técnico nas suas várias configurações foi de fundamental

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP importância para a disseminação das idéias e concepções acerca de um lugar. Ou seja, é necessário que exista uma tecnosfera2, uma estrutura mínima de meios técnicos para que as idéias e informações circulem, sobre o território, unindo os diversos pontos através da informação.

Neste sentido, o surgimento e fortalecimento de um mercado editorial, radiofônico e televisivo mais tarde, era a base para se pensar a formação de uma nação no país, uma vez que estes meios possibilitariam a difusão dos ideais dos governantes, dentre outras formas, pelas releituras que os “mediadores simbólicos” fariam da realidade apresentando-as como una e indivisa. Renato Ortiz (2001, p.187) mostra como se apresentava a situação destes meios técnicos no Brasil de 1900-30,

em todos esses setores [a Imprensa, os livros e o Cinema], pode-se dizer que seu desenvolvimento é fragmentado e incipiente. A rigor, seria até mesmo impróprio falar em ‘mercado’ editorial” e continua “os dados a esse respeito são eloqüentes. Em 1920, entre livreiros e folhetos, foram produzidos em São Paulo 209 títulos, totalizando 900 mil exemplares. Na década de 1920 foi editado, no Rio de Janeiro, algo em torno de 780 títulos por ano, atingindo uma tiragem de 2,2 milhões de exemplares (...) em São Paulo, entre 1900 e 1920, foram publicados 92 romances, além de novelas e contos uma média inferior a sete livros de

literatura por ano (ORTIZ, 2001, p.187).

Como se observa a estruturação eficiente de uma comunidade imaginada neste período não se faria tão eficaz, embora tenhamos um riquíssimo número de autores que publicavam suas obras carregadas das concepções políticas, econômicas sociais e culturais da época que mostram claramente como o Brasil das décadas de 1900-30 era pensado e difundido, como por exemplo, “a obra de Silvio Romero e Euclides da Cunha” (ORTIZ, 2003, p.130) e de “Nina Rodrigues, Oliveira Viana, Roquette Pinto, Afrânio Peixoto, Castro Barreto, e Arthur Ramos, entre outros” (IANNI, 1994, p.116). Para Ortiz (2003, p.129) a baixa produção do elemento técnico neste período e sua pequena abrangência em termos de difusão nacional também deve ser analisada sobre a perspectiva do mercado consumidor que neste contexto era bem limitado. Sendo que para isso ocorra espera-se que o comprador seja alfabetizado.

Somente a partir da década de 1930, com a maior importância dedicada ao ensino público, se comparado aos anos anteriores, é que esse quadro de analfabetismo começa a se alterar. Também neste período ocorre a introdução dos rádios de válvulas e o número de emissoras em todo país aumenta consideravelmente. Neste período esboça-se

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP uma cultura radiofônica com espetáculos, programas de músicas populares e as rádio novelas, criando-se as condições para a produção de uma teia imaginária sobre a idéia de uma nação brasileira. Portanto, observa-se que todo o meio técnico, ou tecnosfera, para a estruturação eficiente de uma nação apresenta-se com maior clareza no período pós 1930 e, desta forma, consolida-se a possibilidade de existência de uma nação no Brasil.

Com a existência destas condições básicas para a estruturação eficiente da comunidade política imaginada, o Estado pode,

preservar a integração social, promover o bem público, disciplinar e canalizar as ações individuais para a realização dos objetivos superiores da nação [e] subordinar os interesses individuais aos interesses coletivos. [Estas] tarefas foram fundamentais e intransferíveis do Estado modernamente concebido. E somente o Estado, na qualidade de intérprete do interesse maior da coletividade, detém os recursos necessários para estabelecer e impor diretrizes de

alcance geral (DINIZ, 1978, p.90).

Neste sentido, o nacional e o patriotismo talvez tenham sido as bandeiras mais importantes neste período que justificaram a maioria das ações tomadas pelos governantes, para se alcançar o ideal de um Brasil moderno nos seus vários aspectos. Num país que conviveu com tantas “rugosidades históricas” até fins da década de 1920, o Estado tinha como papel a apresentação de um ideal de nação, um norte a ser definido. Assim a criação de novos signos e símbolos foi necessário, mas não somente a sua criação, era importante fazê-los circular pelo território nacional, uma vez que agora já existia uma base técnica para que isso ocorresse “nesse processo de resemantização das culturas populares, os meios de comunicação tem um papel central. Por que sua abrangência, têm a capacidade de distribuir nacionalmente os novos signos e símbolos identitários” (ORTIZ, 2001, p.195).

Assim,

para realizar essa tarefa, o poder político precisa construir um semióforo fundamental, aquele que será o lugar e o guardião dos semióforos públicos. Esse semióforo-matrriz é a nação. Por meio da intelligentsia (ou dos intelectuais orgânicos [“mediadores simbólicos”]) [eles se apresentam sob a forma] da escola, (...) dos monumentos celebratórios, o poder político faz da nação o sujeito produtor dos semióforos nacionais e, ao mesmo tempo, o objeto do culto

integrador da sociedade una e indivisa (CHAUÍ, 2004, p.14).

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP invisível espacial ou temporal e de celebrar a unidade indivisa dos que compartilham uma crença comum ou um passado comum” (CHAUÍ, 2004, p.13).

O objetivo desta reorientação que o Estado instala é fundamentalmente a estruturação da nação que convergirá em si os ideais da classe no poder. A economia será o emblema de um país que aparentemente se transformou de agrário exportador em industrializado, passando uma idéia de fim do atraso e início de uma modernidade presente.

Na política o fim das relações de companheirismo entre as elites regionais e burguesia, que contribuíram para uma estrutura administrativa descentralizada embasada na “política dos coronéis”, que tinha sobre seu poder o controle regional, passava agora a uma condição de centralidade e união. Aparentemente era na área social que não se percebia reflexos visíveis das transformações que o país vinha apresentando, com uma sociedade multifacetada com a presença de imigrantes europeus, negros livres, brancos, mulatos, índios, todos vivendo em uma condição de pobreza e esquecimento, morando em áreas que não ofereciam estruturas mínimas para a habitação, com um significativo comprometimento das condições sanitárias, ou seja, se em outras áreas, aparentemente o Brasil vinha alcançando as tão almejadas características de um país que buscava ser moderno, no plano social, o Brasil não era mais do que uma “rugosidade histórica” que apresentava as reminiscências das épocas passadas, apresentando-se como um grande mosaico multifacetado, o oposto do que se pensava sobre uma nação, daí a importância da formulação de uma comunidade imaginada que irá apresentar um país mais homogêneo para a população.

Pode-se supor que a “imaginação” como definida por Cosgrove (2000, p.36), entendida como elemento que metamorfoseia a comunidade humana e o meio natural, gera através desta inter-relação elementos simbólicos, que podem ser aqui entendidos como os semióforos, relacionando o visível e o invisível. Assim, compreendemos que as comunidades imaginadas surgem da interferência/alteração entre a imaginação e os semióforos uma vez que é através da imaginação que os grupos humanos criam uma representação através da interpretação do seu lugar de vivência, tendo como agentes interventores os “mediadores simbólicos”.

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP UM “MEDIADOR SIMBÓLICO” OU UM INTERPRETE DOS VÁRIOS “BRASIS”?

Como a força e a intensidade de uma idéia de modernidade já era sentida nos primeiros anos do século XX, a busca e a necessidade de consumo de elementos que refletissem tal ideal de avanço, progresso e abandono de uma condição de atraso, pobreza e isolamento acabaram por levar

a questão da modernidade [adquirir] a sua máxima consistência simbólica e expressão cristalina [no] âmbito das artes, particularmente a música e as artes cênicas, vindo depois as artes plásticas,

poesia, literatura de ficção, e ensaismo (SEVCENKO, 2003, p.231-32),

companhias de teatro européias eram trazidas ao país para apresentarem o que estava na vanguarda da Europa, exposições de artes eram organizadas e orquestras, regentes e intérpretes de renome internacional eram trazidos para se apresentar, mas junto desta busca incessante pelo moderno europeu era percebido também com uma intensidade e projeção cada vez maior o despertar de uma cultura popular, como os Chorões no Rio de Janeiro.

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP refletia um pouco o processo de mudança econômica que o país começava a viver, com a vinda das famílias para as cidades.

Segundo Guérios (2003, p.51-52), um exemplo claro disso foi o surgimento dos Chorões, que eram grupos de músicos constituídos, em sua maioria, por “imigrantes do nordeste brasileiro”. Tais grupos se constituíam como o resultado do fascínio que a cidade exercia naquele contexto sobre a população das diversas regiões do país. Assim, os Chorões, pode-se dizer, expressavam através de sua característica musical, os vários ritmos da cidade, as transformações que vinham ocorrendo em um país que se modernizava e passava a sentir a experiência da vida urbana, que era regida pelo tempo cronometrado do relógio.

A transição de uma forma à outra [de um erudito, formal, europeu para o popular] teria o acesso suave de uma ponte, com ambas as formas convergindo uma em direção da outra (...) uma dessas pontes seria a cantora lírica Vera Janocopoulos divulgando e promovendo a música de Villa-Lobos nos palcos paulistas já em 1920 e ressaltando suas características populares, brasileiras e

modernas (SEVCENKO, 2003, p.250),

aqui fica explícito o início, meio que a contra gosto de alguns, da união cada vez maior do popular e do erudito na música, contribuindo para o surgimento de uma música nacional brasileira, tendo como o seu representante mais notório neste período o compositor Heitor Villa-Lobos.

Uma grande parte da obra de Villa-Lobos retratava a imagem de um conjunto de regiões do Brasil, através dos temas utilizados nas composições, que eram retirados de elementos regionais. Nas Cirandas, foram utilizados os elementos da vida cotidiana das crianças, os seus medos, as suas alegrias, a imaginação em criar elementos fantásticos, ou seja, a perspectiva vista e entendida do espaço em que elas estavam inseridas. Nas Bachianas Brasileiras, o compositor estruturou um emaranhado de temas típicos das regiões do Brasil, articulando-se aos elementos indígenas, pássaros do Brasil, ou mesmo situações corriqueiras do dia-a-dia, em algumas peças. Nos Choros percebe-se as influências que a urbanização impregnava na imaginação do compositor.

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP dois momentos claros da trajetória do compositor, um primeiro como “mediador simbólico” – que se apresenta pós a sua entrada no governo Vargas - e um segundo relacionado com a sua estratégia de realização pessoal que abrange outros momentos da vida do compositor, ate mesmo se mostrando presente no período de sua ligação ao governo Vargas.

É importante que se note também que ambos os momentos podem se apresentar concomitantemente, como exposto acima, uma vez que tais divisões temporais não seguem uma ordem cronológica apenas, mas sim, interesses próprios do compositor. Por isso é que ao mesmo tempo em que está compondo obras de caráter ufanista para o governo ditatorial de Vargas, pós 1930, está compondo também, no mesmo período, obras que aparentemente nada tem a ver com os interesses do Governo o que é o caso das Bachianas Brasileiras que são compostas entre 1930 a 1945.

Neste aspecto, de uma forma mais intensa, no primeiro momento, as Concentrações Orfeônicas organizadas por Villa-Lobos constituíram-se em espaços de exaltação e circulação de elementos regionais. Assim, mesmo as representações mais simples eram alçadas à condição de símbolos e referências nacionais. Elementos que comungavam perfeitamente com a perspectiva de construção de uma comunidade política imaginada. Mas um problema se coloca: sendo Villa-Lobos um compositor erudito, grande parte de sua obra não apresenta um referencial tão explícito quanto aos elementos regionais como ocorrem com os Cantos Orfeônicos, que por possuírem letras possibilitam um estudo mais objetivo quanto a questão regional presentes nestas obras, mas no entanto, mesmo sem a presença da letra, ainda sim é possível identificar a presença da mesma nas obras. Em alguns Cantos Orfeônicos este problema de certa forma também existia, sobretudo quando as crianças eram instruídas a emitir sons onomatopaicos (Zzimmm, Zzoóimmm, Djimmm, Djóimmm), do agudo para o grave, mas não era algo predominante no período.

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP Adotar tal qualificação para Villa-Lobos mais esconde do que revela sobre os verdadeiros motivos que o levaram a compor músicas de caráter ufanistas, levando-o imediatamente a ser qualificado única e exclusivamente como um “mediador simbólico”, com tal postura não se leva em conta a sua trajetória de vida, os anseios que possuía a fim de se projetar como grande músico, nem mesmo os motivos que o levaram a começar a compor músicas com elementos regionais brasileiros com mais intensidade somente a partir de sua primeira viagem à França em 1923, não fora a Semana de Arte moderna de 1922 que lhe transformara em músico brasileiro, fora sim, “a necessidade de inserção no meio artístico parisiense” (GUÉRIOS, 2003, p.141). Olhando as condições econômicas, sociais, culturais, históricas que foram apresentadas no início do trabalho pode-se compreender melhor em que condições se encontrava o país nesse momento de sua história, o que acabava levando os governantes a pensar a necessidade de uma comunidade política imaginada. Naquele momento o compositor estava no local, na hora certa e com as condições políticas propícias para conseguir a sua tão almejada projeção no cenário nacional da música.

O que o acabaria marcando exclusivamente nos livros de história como um músico do Estado Vargas – um “mediador simbólico”, momento este que estamos qualificando aqui como o primeiro. Tal postura muito mais esconde do que revela sobre a verdadeira existência mundana do músico, o que fica um pouco mais perceptível através do que estamos chamando aqui de segundo momento.

Estudar Villa-Lobos, a partir desse segundo momento, e aqui mais especificamente através de sua obra Choros, nos apresenta a possibilidade de perceber como o compositor vê e interpreta a realidade urbana da cidade do Rio de Janeiro nos primeiros anos do século XX, realidade esta que ele esteve imerso boa parte de sua vida e efetivamente viveu e conviveu com a população da cidade carioca do início daquele século.

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP Quincas Laranjeiras e João Pernambucano e o maranhense Catulo da Paixão Cearense “como se vê, os músicos citados eram imigrantes do Nordeste brasileiro. No final do século XIX e início do século XX, o Rio de Janeiro tornou-se um pólo de destino de imigrantes, tanto do próprio Brasil quanto do exterior” (GUÉRIOS, 2003, p.212). É curioso como este estilo musical que é constantemente retratado como urbano/brasileiro se estruture, tendo como uma de suas raízes os “ritmos europeus como a polca e os schottisches” (GUÉRIOS, 2003, p.51) e uma outra raiz na “fusão do lundu, ritmo de sotaque africano à base de percussão” (DINIZ, 2003, p.13). Com o exposto percebe-se a complexidade que a formação de um estilo musical como o Choro Popular se apresenta, sendo muito perigoso delimitá-lo como música urbana apenas, apagando-se com isso toda uma influência de suas raízes/baapagando-ses fundadoras. O que apagando-se quer chamar a atenção aqui não é para uma negação do Choro Popular como música popular urbana, mas sim que este estilo musical apresenta elementos provenientes de suas várias influências fundadoras, como elementos da música européia, da própria vivência urbana do Rio de Janeiro na qual ele estava inserido e também em grande medida por influências dos próprios músicos que faziam parte dos grupos, e que eram provenientes de regiões distantes do Rio de Janeiro, ou seja, oriundos de uma realidade camponesa/rural, neste momento.

Assim, o Choro Popular nasce na cidade, mas sofre e é marcado por elementos exteriores a ela, sendo que

a vida urbana compreende mediações originais entre a cidade, o campo, a natureza. (...) Essas mediações não podem ser compreendidas sem os simbolismos e representações (ideológicas e

imaginárias) da natureza e do campo como tais pelos citadinos (LEFEBVRE, 1969, p.66).

Desta forma, os Choros compostos por Villa-Lobos entre 1920 até 1929 se apresentam impregnados de toda essa marca de mudança e efervescência que o Rio de Janeiro daqueles primeiros anos do século XX passava. Os Choros de Villa-Lobos são composições que trazem em sua linha melódica ou mesmo no tipo de instrumentos utilizados referências a uma urbanidade em formação e uma ruralidade em aparente esfacelamento.

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP popular/urbano, no sentido de vulgar, do povo. Ou seja, Villa-Lobos ao utilizar o violão nesta primeira obra, trouxe toda uma simbologia e leitura da vida urbana do Rio de Janeiro daqueles anos.

Villa-Lobos ao inserir-se e passar a freqüentar as rodas de Choro dos Chorões passa a perceber e se contaminar com aquele estilo musical que era feito por pessoas provenientes de várias regiões do Brasil, ele consegue perceber as sutilezas destas misturas que a cidade proporcionava e as transfigurava para as suas obras. Nelas, não vamos ver apenas elementos característicos da urbanidade, mas também peças que retratam a ruralidade, como no Choros Nº 3 (pica-pau), onde a mesma pode se caracterizar como uma,

síntese entre a música ameríndia, a música popular dos Chorões e a música erudita. Villa-Lobos utiliza inicialmente um tema recolhido por Roquette-Pinto junto aos Parecis, Nozani-ná. Esse tema é apresentado em um canto cuja polifonia vai crescendo até ser cantado a quarto vozes. Em seguida, inicia-se um coro que utiliza as sílabas da palavra “pica-pau” em staccato3, como se fosse o pássaro bicando uma árvore; esse canto é acompanhado de uma fórmula rítmica inconstante, feita por instrumentos de sopro em registros mais graves, aludindo às danças rituais indígenas. A seguir, o coro de “pica-pau” é acompanhado por um ritmo popular urbano, sobretudo ainda à inconstância rítmica anterior. É então retomado o tema de Nozani-ná e a obra é

finalizada (GUÉRIOS, 2003, p.143).

Ou seja, Villa-Lobos em sua obra Choros retoma toda aquela riqueza de vivência e percepções de mundo a que se alude quando se refere a uma ruralidade ou uma urbanidade, ele consegue com essa obra trazer para o ambiente erudito toda aquela riqueza de pessoas de vários lugares do país que viviam numa mesma área – a cidade – e o mais interessante ao se analisar os seus Choros ao contrário do que afirma a bibliografia não são obras somente “urbanas”, que expressam apenas aquela urbanidade das cidades, mas sim são obras que retratam tanto a urbanidade quanto a ruralidade. Como aparece também no Choros Nº 8, que começa

com um solo de “caracaxá”, instrumento de percussão indígena, seguido imediatamente por um tema “molengo, manhoso e característico, à maneira do Choro popular”, nas palavras de Villa-Lobos (...) já em seguida multiplicam-se os temas em um desenvolvimento “sensivelmente complexo e atonal”, com várias melodias folclóricas e da música popular aparecendo em segundo plano, em meio a uma densa orquestração. O compositor cita “temas sertanejos”, melodias de domínio público, “células melódicas de caráter extremamente rude e selvagem”,

trechos em piano inspirados em músicas de Ernesto Nazareth (GUÉRIOS, 2003, p.144).

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP Villa-Lobos, ao pensar os Choros, coloca em evidência toda uma relação de alegria-tristeza, riqueza-pobreza, exploração-submissão, desterritorialização-reterritorialização presentes nas cidades, sendo que a partir dela, pode-se perceber um grande número de fatores que mostram como se deu a estruturação da cidade naquelas primeiras décadas, retrata também um esfacelamento das relações tradicionais que o urbano coloca frente a realidade rural, constantemente usurpada de suas marcas de ruralidade.

Muito mais do que um simples conjunto de obras, os Choros de Villa-Lobos, resgatam e trazem à tona toda a complexidade a que se referia Lefebvre (1969, p.20) “a vida urbana pressupõe encontros, confrontos de diferenças, conhecimentos e reconhecimentos recíprocos (inclusive no confronto ideológico e político) dos modos de viver ‘padrões’ que coexistem na cidade”. Nos Choros, que são insistentemente caracterizados como composições urbanas, apenas, vê-se as nuancias e penumbras da conformação da realidade urbana, não devendo assim ser classificados como tal, somente porque são compostos na cidade – mascarando assim as suas outras influências – além do urbano as matrizes européias, que embora possam ser caracterizadas como expressões da urbanidade européia também são influenciadas por características rurais daqueles países e por último com suas matrizes africanas.

A obra de um compositor como Heitor Villa-Lobos é uma rica fonte para estudos que tenham como interesse analisar como os elementos regionais são percebidos e usados pela arte, neste caso a música erudita, podendo também ser objeto de estudos da realidade urbana: a pintura, as artes plásticas, o Cinema, a poesia, o teatro, a dança, a literatura, etc, enfim, um sem número de análises que ficam subjugadas em outras abordagens da realidade espacial pela Geografia.

Villa-Lobos é constantemente associado ao governo ditatorial de Getúlio Vargas apenas como um reprodutor dos idéias governistas o que poderia qualificá-lo como um “mediador simbólico”. Mas um estudo mais crítico sobre o compositor nos mostra que ele adota tal ou qual postura em função da projeção e do destaque que tal posto ou situação poder-lhe-ia oferecer.

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP E é nesse momento que dentre tantas histórias fantásticas de contatos com índios canibais, viagens por rios antes nunca navegáveis que a sua mais autêntica, significativa e verdadeira influência se faz presente. O convívio com os músicos populares do Rio de Janeiro - os Chorões - trouxe para o universo erudito toda aquela leitura e compreensão de mundo que aquelas pessoas, na sua maioria imigrantes, negros livres, mestiços, mulatos, funcionários públicos, etc, possuíam naquele momento da cidade onde viviam. Num Rio de Janeiro onde ainda se percebia a presença clara da ruralidade de grande parte desses grupos não é de se espantar a sua presença nos Choros de Villa-Lobos, como apresentado a pouco.

Portanto, a simples e despretensiosa inserção do compositor apenas como um instrumento do governo – um “mediador simbólico” – põe em segundo plano toda a rica e complexa trajetória pessoal do mesmo e se perdem as verdadeiras inquietações pelas quais passava.

Nas ruas da cidade do Rio de Janeiro daquelas três primeiras décadas do século XX, com toda a efervescência política, cultural, econômica e social, gestava-se a primeira manifestação musical autenticamente brasileira – fruto do encontro das trajetórias pessoais possibilitadas pelo espaço urbano - o Choro Popular, que anos mais tarde veio a influenciar Villa-Lobos a escrever um conjunto de obras em sua homenagem.

Dentre as obras compostas pelo compositor, os seus Choros podem ser, talvez, a mais autentica representação desta realidade espacial transposta para o universo erudito. Nesta obra pode-se ver uma sincera e autentica homenagem ao espaço urbano, uma vez que Villa-Lobos efetivamente viveu e conviveu com os principais expoentes da música popular daquela época.

Qualificar o compositor apenas como um “mediador simbólico”, como constantemente é taxado, esconde a sua existência social, cultural e principalmente espacial uma vez que o principal lugar do país que apresentava as bases necessárias para o surgimento da música popular – que tem no Choro Popular o seu maior representante fora a cidade do Rio de Janeiro – berço de sua existência.

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ISBN: 978-85-88454-20-0 05 a 07 de outubro de 2010 – Rio Claro/SP Estudar Heitor Villa-Lobos com os olhos atentos no que estamos chamando aqui de segundo momento de sua vida abre um campo novo e provocante para a compreensão de como se dá a percepção dos espaços rurais e urbanos pelas artes e aqui mais especificamente na música erudita do compositor.

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Referências