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A EPISTEMOLOGIA DA COMPLEXIDADE E AS CIÊNCIAS MILITARES NO BRASIL. Thiago da Rocha Passos Gomes* Ana Luiza Bravo e Paiva*

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Academic year: 2022

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Thiago da Rocha Passos Gomes*

Ana Luiza Bravo e Paiva*

RESUMO

A presente pesquisa tem como objetivo relacionar as ciências militares no país com a epistemologia da complexidade. Este trabalho utilizou a metodologia qualitativa, com base na técnica de análise de conteúdo, sendo observados textos científicos, legislação nacional, além de dados constantes de sítios eletrônicos das Forças Armadas brasileiras, do Ministério da Defesa e do Governo Federal. Inicialmente, são apresentados os principais fundamentos e características da epistemologia da complexidade em diversos campos de estudo e, posteriormente, são caracterizados como os conceitos presentes nesse pensamento aplicam-se nas ciências militares, de uma forma geral. Em seguida, o estudo identifica como as ciências militares estão estruturadas no Brasil, sendo, por fim, realizada uma análise dos dados e apresentadas as principais contribuições da investigação.

Palavras-chave: Epistemologia. Ciências militares. Complexidade.

THE EPISTEMOLOGY OF COMPLEXITY AND THE MILITARY SCIENCE IN BRAZIL ABSTRACT

This research aims to relate the military sciences in the country with the epistemology of complexity. This work used the qualitative methodology, based on the technique of content analysis, it being observed scientific texts, national legislation, in addition to data from websites of the Brazilian Armed Forces, the Ministry of Defense and the Federal Government. Initially, the main foundations and characteristics of the epistemology of complexity are presented in several fields of study and, later, they are

* Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) do Instituto Meira Mattos (IMM), Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Atualmente é aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME. E-mail: infagomes@yahoo.

com.br

** Doutora em História Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em História Comparada

(PPGHC/UFRJ). Professora Adjunta no Programa de Pós-graduação em Ciências Militares

(PPGCM) do Instituto Meira Mattos (IMM), Escola de Comando e Estado-Maior do Exército

(ECEME), Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: [email protected]

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characterized as the concepts present in that thought apply in the military sciences, in general. Then, the study identifies how the military sciences are structured in Brazil, and finally, an analysis of the data is carried out and the main contributions of the investigation are presented.

Keywords: Epistemology. Military science. Complexity.

LA EPISTEMOLOGÍA DE LA COMPLEJIDAD Y LAS CIENCIAS MILITARES EN BRASIL RESUMEN

Esta investigación tiene como objetivo relacionar las ciencias militares en el país con la epistemología de la complejidad. Este trabajo utilizó la metodología cualitativa, basada en la técnica de análisis de contenido, observando textos científicos, legislación nacional, además de datos de sitios web de las Fuerzas Armadas de Brasil, el Ministerio de Defensa y el Gobierno Federal. Inicialmente, los principales fundamentos y características de la epistemología de la complejidad se presentan en varios campos de estudio y, posteriormente, se caracterizan como los conceptos presentes en ese pensamiento se aplican en las ciencias militares, en general.

Luego, el estudio identifica cómo se estructuran las ciencias militares en Brasil, y finalmente, se realiza un análisis de los datos y se presentan los principales aportes de la investigación.

Palabras clave: Epistemología. Ciencias militares. Complejidad.

1 INTRODUÇÃO

A ciência é uma das grandes forças da sociedade moderna, exercendo muita influência nas expressões econômica, militar, cultural e social, uma vez que, por exemplo, pode gerar tecnologias que impulsionam as economias nos dias atuais, criar elementos químicos e físicos que transformam a guerra, ajudar na resolução de crimes e desenvolver remédios para cura de doenças. A produção de conhecimento científico é realizada por meio da observação, pela interação e teste de teorias, além do fato de os grandes cientistas estarem interessados em resolver problemas de ordem prática (HELLYER, 2003).

A ciência moderna tem quatro características: ela não reconhece autoridades,

exceto a da própria natureza; é experimental; explica os fenômenos naturais tanto

quanto possível por analogia com um mecanismo; além de tentar descrever ou

explicar coisas e eventos naturais em termos matemáticos ou quantificando

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qualidades. Um conceito pouco debatido no Brasil, porém muito importante na literatura científica, é o de epistemologia, que grosso modo poderia ser definido como o estudo da natureza e dos limites da produção de conhecimento (HELLYER, 2003).

Nesse sentido, as ciências militares, conforme abordado por Franchi (2020), proporcionam reflexões e análises a respeito do que ocorre no mundo, a fim de embasar mudanças nas políticas públicas de defesa, de fomentar novas estratégias e doutrinas militares, além de diversas outras ações. A colaboração de conhecimentos e métodos científicos, juntamente do conhecimento empírico advindo de experiências práticas, desenvolve pesquisas que pensam criticamente sobre os desafios enfrentados, as respostas e resultados nas questões militares, com a consequente produção de aprendizados para eventos futuros.

E um dos debates epistemológicos mais desenvolvidos no âmbito das ciências militares é o da complexidade. Segundo Morin (2006), os modos simplificadores do conhecimento científico mais atrapalham do que elucidam as realidades e os fenômenos estudados. O pensamento simplificador desintegra a complexidade do real, ao passo que o pensamento complexo integra tanto quanto for possível os modos simplificadores de pensar, aspirando ao conhecimento multidimensional.

Dessa forma, a presente pesquisa tem como objetivo relacionar as ciências militares no país com a epistemologia da complexidade. Ela teve como principal motivação o seguinte questionamento: de que maneira a epistemologia da complexidade tem influenciado o desdobramento da agenda de pesquisa das ciências militares no Brasil?

Para responder essa pergunta, este trabalho utilizou a metodologia qualitativa, com base na técnica de análise de conteúdo, sendo observadas fontes primárias e secundárias. Realizou-se uma pesquisa de fontes primárias sobre bases de dados e sítios eletrônicos das Forças Armadas brasileiras, do Ministério da Defesa e do Governo Federal. Ademais, foram consideradas fontes secundárias, tais como, revistas, jornais e artigos indexados, aderentes à temática, por meio dos seguintes sítios eletrônicos: SAGE

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, Periódicos CAPES

2

1 Disponível em: https://journals.sagepub.com

2 Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Fundação do Ministério da Educação responsável por obter apoio financeiro para a realização de eventos científicos e tecnológicos no país e no exterior; obter autorização para a abertura de novos cursos de pós- graduação stricto sensu no Brasil; entre outros (BRASIL, 2020a). Disponível em: www-periodicos-

capes-gov-br.ezl.periodicos.capes.gov.br/índex.php?.

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e Google Acadêmico

3

. Foram utilizadas como parâmetro, na estratégia de busca, as expressões epistemologia da complexidade e ciências militares. Em seguida, realizou-se a análise das fontes colhidas, a fim de verificar a ligação destas ao objetivo da investigação.

Como critérios de inclusão, foram consideradas as fontes publicadas nos idiomas português, inglês e espanhol. Quanto aos estudos selecionados, foram priorizados os de nota qualis-periódicos de grande relevância e que abordassem temas importantes para os estudos de segurança e de defesa. O recorte temporal da análise sobre as ciências militares no Brasil restringiu-se do ano de 1996 em diante, visando à realização de um estudo mais atualizado, tendo como marco a lei de diretrizes e bases da educação nacional.

Devido à originalidade dos dados ora apresentados e da limitação de debates que versam sobre a questão, destaca-se a relevância da temática e da premência de maior atenção por parte da comunidade acadêmica. Muitos pesquisadores desconhecem a epistemologia da complexidade, que tem contribuído com a evolução de inúmeras áreas do conhecimento científico. Da mesma forma, desconhecem a existência das ciências militares, que em muito pode contribuir para com o desenvolvimento e para com a segurança nacionais.

Inicialmente, são apresentados os principais fundamentos e características da epistemologia da complexidade em diversos campos de estudo e, posteriormente, são caracterizados como os conceitos presentes nessa corrente de pensamento aplicam-se nas ciências militares, de uma forma geral. Em seguida, o estudo identifica como esta seara do conhecimento está estruturada no Brasil, sendo apresentadas nesse momento as principais contribuições da investigação.

2 A EPISTEMOLOGIA DA COMPLEXIDADE

Até por volta do ano de 1900, a ciência estava preocupada com questões de duas variáveis, chamadas problemas de simplicidade, sendo que, após esse período, alguns cientistas passaram a pensar em métodos analíticos capazes de lidar com inúmeras variáveis. Esses eram conhecidos por problemas de complexidade desorganizada. Nesse caso, cada uma das muitas variáveis tem um comportamento individualmente errático ou talvez totalmente desconhecido, sendo que apesar desse comportamento, o sistema como um todo tem certas propriedades médias ordenadas e analisáveis. Há, ainda, os problemas de complexidade organizada, que

3 Disponível em: https://scholar.google.com.br/?hl=pt

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envolvem lidar simultaneamente com um número considerado de fatores inter- relacionados em um todo orgânico (WEAVER, 1948).

Assim, uma das formas de entender um sistema como um todo integrado é buscar a compreensão dos padrões de relacionamento entre seus agentes. Por meio da teoria da complexidade, verifica-se que os sistemas têm elementos, mas é a interdependência somada às interações entre os elementos que criam a noção de todo e, portanto, o estudo desses relacionamentos, bem como a unidade do próprio sistema, proporciona inferências críticas para a compreensão de uma organização e suas propriedades de sistema. Desse modo, o método de estudo de caso pode ser utilizado para revelar essa interdependência pela observação direta, combinada com métodos de entrevista que explorem as explicações e análises dos participantes que prestaram atenção às interdependências entre pensamento e ação. A ciência da complexidade sugere, ainda, que percepções importantes podem ser obtidas estudando o comportamento que ocorre além das fronteiras que definem o caso (ANDERSON et al., 2005).

Para Richardson e Cilliers (2001), existem pelo menos três comunidades que caracterizam o esforço de pesquisa direcionado à investigação de sistemas complexos: um rígido, um suave e algo intermediário. O primeiro, o reducionista, está fortemente aliado à busca de uma teoria de tudo, que visa descobrir os princípios gerais de sistemas complexos, reduzindo a ampla riqueza da realidade a equações da física, com a ajuda de computadores poderosos. O segundo grupo é o da comunidade científica organizacional, em que a complexidade fornece uma lente poderosa para ver as organizações, de forma que o mundo social é intrinsecamente diferente do natural, sendo constituído por meio da linguagem e do significado, ou seja, a antítese da visão naturalista. A terceira comunidade tem uma linha diferente, que enfoca as consequências epistemológicas de assumir a ubiquidade desse pensamento e considera os limites de nosso conhecimento à luz dessa teoria, além da natureza limitada e provisória de todo o entendimento.

Há duas contribuições da ciência da complexidade para uma concepção do

que é ser científico. A primeira delas refere-se ao fato de que as questões complexas

exigem um pluralismo metodológico, sem conceder um status superior a qualquer

método e necessitando tanto de equações matemáticas quanto de descrições

narrativas. A segunda contribuição decorre do fato da finitude, da natureza não

linear das interações em sistemas complexos, tornando-os incompreensíveis

e, por isso, não há descrições perfeitas de sistemas complexos que sejam mais

simples do que os próprios sistemas. As descrições e os modelos científicos

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reduzem a complexidade para gerar entendimento, sendo que a ênfase muda do desenvolvimento de uma compreensão exata e, portanto, compreensão científica, para o desenvolvimento de uma compreensão dos limites de nosso conhecimento (RICHARDSON; CILLIERS, 2001).

A era atual é da rede, uma vez que, seja em termos socioeconômicos, tecnológicos ou ideológicos, são tempos cada vez mais caracterizados pelo surgimento e disseminação de formas fluídas e descentralizadas de organização social, em que os dispositivos de informação e telecomunicações desempenham papéis fundamentais. A crescente aplicação de computadores ao estudo de problemas científicos, a exploração da matemática não linear e uma extensão da análise cibernética de sistemas a questões de auto-organização abriram caminho para novas abordagens científicas que eventualmente se materializaram nas teorias do caos e complexidade (BOUSQUET, 2008).

Nesse contexto, o sistema adaptativo complexo é um conceito importante da teoria da complexidade, definido como uma rede dinâmica de muitos agentes agindo de forma simultânea, constantemente agindo e reagindo ao que outros agentes estão fazendo. Ele tem capacidade de mudar e aprender com a experiência, tendendo a ser altamente disperso e descentralizado, sendo que qualquer comportamento coerente no sistema surge da competição e cooperação entre os próprios agentes. É o acúmulo de todas as decisões individuais tomadas pela multidão de agentes que produzem o comportamento geral do sistema, que pode, portanto, ser considerado emergente (BOUSQUET, 2008).

Outra característica dessa teoria é o reconhecimento da existência da dinâmica de aumento ou de redução da complexidade. Por exemplo, o ser humano busca construir sistemas complexos em tecnologia devido à sua maior eficiência.

Muitos dos avanços recentes em ciência e tecnologia apontam para um cluster emergente de engenharia de sistemas sociotécnicos, que buscam integrar práticas profissionais com tecnologias de pesquisa avançadas em áreas específicas. Por outro lado, o ser humano busca reduzir as complexidades, a fim de ser capaz de descrever, aprender a compreender os efeitos dos sistemas que são construídos, ou seja, os efeitos indesejáveis e não intencionais que eles podem ter. Portanto, nesse processo coevolucionário da ciência e da sociedade, é necessária uma compreensão teórica mais profunda da complexidade, não como uma matemática, mas como um fenômeno social (NOWOTNY, 2005).

Larsen-Freeman (2013) sintetiza o paradigma da complexidade da seguinte

forma: sem negar o princípio da universalidade, adota também o princípio

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complementar de que o indivíduo e o local são compreensíveis em si mesmos; integra elementos em seus conjuntos ou complexos; procura auto-organização; procura relacionamentos; coloca o observador de volta no ambiente experimental, em vez de separar sujeito de objeto e observador de observado; considera as contradições como paradoxos, como índices de uma realidade mais profunda, em vez de tratar a contradição como um erro; e pensa dialogicamente, relacionando conceitos contrários de maneira complementar. Para a autora, a principal contribuição dessa perspectiva está em seu potencial para estimular formas alternativas de pensar e abrir os olhos para diferentes formas de ver o mundo e as coisas que o conformam.

3 A EPISTEMOLOGIA DA COMPLEXIDADE E AS CIÊNCIAS MILITARES

A guerra é um dos fenômenos que proporcionam novidades de grande importância, que tem impacto na resolução de problemas complexos cotidianos. O desenvolvimento de tecnologias flexíveis, com grande capacidade e velocidade, é uma dessas evidências, pois estas permitem lidar com problemas que antes eram muito complicados, justificando e inspirando o desenvolvimento de métodos de análise aplicáveis a novos problemas de complexidade organizada. O segundo dos avanços do tempo de guerra é a abordagem de “equipe mista” para análise de operações, com a participação de especialistas de diversos campos das ciências, e montada na tentativa de responder a problemas tão amplos de tática ou mais amplos de estratégia. Verificou-se que membros de grupos tão diversos podiam trabalhar juntos e formar uma unidade muito maior do que a mera soma de suas partes, enfrentando problemas de complexidade organizada para obtenção de respostas úteis (WEAVER, 1948).

Os conceitos científicos e as estruturas teóricas têm influenciado o

pensamento e as práticas militares desde o início da revolução científica, sendo

que o tráfego entre a ciência e a guerra não tem sido totalmente unilateral, visto

que as atividades militares também têm estimulado as descobertas tecnológicas

e científicas. A prática da guerra pode ser entendida como a tentativa de impor

ordem ao caos, de exercer controle onde ele mais ameaça escapar e de encontrar

previsibilidade em meio à incerteza. Logo, pode ser traçado um paralelo com

a ciência, uma vez que os cientistas também se esforçam para extrair padrões,

identificar regularidades na névoa da aleatoriedade, descobrir as leis que regem o

comportamento da natureza e revelar a ordem oculta por trás de seu aparente caos

(BOUSQUET, 2008).

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Nos anos imediatamente anteriores e durante a Segunda Guerra Mundial, como resultado de uma longa união do pensamento científico modernista com as artes militares antigas, surgiu a análise operacional. Trata-se de um método científico de análise, baseado no modelo matemático, que fornece assistência útil para uma ação executiva eficaz, além de fornecer aos comandantes e chefes uma base quantitativa para as decisões relativas às operações sob seu controle. A análise operacional tentou trazer aplicação do raciocínio imparcial e da estruturação racional de problemas para complementar a sabedoria e a intuição dos militares, sendo utilizada, durante a Guerra Fria, para outras finalidades, tais como para justificar as decisões dos compradores de equipamentos e daqueles que devem equilibrar o investimento em Defesa (RICHARDSON; GRAHAM; CILLIERS, 2000).

O pensamento de complexidade destaca as limitações da atitude positivista dominante que caracteriza a filosofia da análise operacional militar contemporânea.

Para enfrentar adequadamente os desafios atuais, uma nova instituição sensível à complexidade deve ser construída, ou seja, uma instituição que reconheça a combinação única de capacidades que diferentes contextos exigem. Desse modo, três características dessa epistemologia são importantes: a crença de que a tecnologia pode ser usada para resolver quaisquer dificuldades sociais, visto que muitos especialistas acreditam que a tecnologia de comunicações e processamento de informações é a chave para o domínio no campo de batalha moderno; o fato que o pensamento da complexidade problematiza o reconhecimento e a alocação de limites; e o pensamento pluralista, devendo priorizar perspectivas múltiplas e visando a capacidade de inovar e de ser flexível como um elemento-chave de uma filosofia analítica baseada na complexidade, uma vez que essa capacidade está sendo sufocada pela atual instituição analítica positivista (RICHARDSON; GRAHAM;

CILLIERS, 2000).

Assim, um novo pensamento baseado nas ciências não lineares emergentes

começou a penetrar na teoria militar, como a formulação do ciclo OODA (observar

– orientar – decidir – agir), descrevendo o processo de tomada de decisão em

combate. Com ele, tenta-se impor uma estrutura geral de ordem à desordem,

prescrevendo o fluxo geral de ação em vez de tentar controlar cada evento e

observando a organização militar como um organismo vivo, de modo que nunca

está em um estado de equilíbrio estável, mas ajustando-se continuamente. Em

virtude de a coordenação de cima para baixo, inevitavelmente, resultar em atrasos

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e erros nas disposições de força, os militares devem procurar adquirir a capacidade de uma força bem informada para organizar e coordenar atividades de guerras complexas de baixo para cima (BOUSQUET, 2008).

No cenário pós-Guerra Fria, as chamadas operações diferentes da guerra, tais como as operações de paz e as operações de ajuda militar às autoridades civis, fornecem muito menos estabilidade em termos de contexto político e social para o conflito e visam alcançar objetivos políticos muitas vezes pouco claros e variáveis.

Nesse contexto, os sistemas sobre os quais a análise operacional está sendo solicitada a pensar são complexos e culturais, tanto que o pensamento sistêmico ingênuo e baseado na mecânica não é suficiente. A análise operacional está sendo forçada a reconhecer o conflito como uma interação social entre diversas organizações de pessoas, em vez do choque de dois titãs tecnológicos opostos. Portanto, verificam- se métodos confiáveis que parecem incapazes de lidar com todo o problema e há abordagens de ciências sociais que abrangem todo o problema, mas muitas vezes carecem do nível de rigor que a análise operacional tradicionalmente exige (RICHARDSON; GRAHAM; CILLIERS, 2000).

Nos anos 2000, o Pentágono adotou a doutrina da guerra centrada em rede e expôs sua visão de unidades de combate autônomas como enxames e autossincronizadas, conectadas umas às outras por links de dados de alta velocidade e conhecimento superior do campo de batalha. No entanto, o inimigo nos dias atuais também está mais conectado, mais descentralizado, como observado nos movimentos insurgentes no Iraque e no Afeganistão. Portanto, é preciso uma rede melhorada para vencer outra rede (BOUSQUET, 2008).

Há diversos debates em torno do pensamento militar e um que ocorre gira em torno dos racionalistas versus reflexivos. Inúmeros países seguiram os ensinamentos do pensador clássico Jomini, que concebia a guerra como uma arte e procurou descobrir as suas leis gerais para desenvolver e treinar as Forças Armadas, sendo o Processo de Tomada de Decisão Militar um dos produtos dessa tradição racionalista (BEAULIEU-B; DUFORT, 2017).

No entanto, há aqueles que dizem que os conflitos contemporâneos, as

formas híbridas de guerra, fornecem forte resistência a esse ideal. E para isso,

surge a importância de escavar raízes mais profundas de um problema, tais como

questionar o enquadramento, políticas ou normas subjacentes. A reflexividade,

portanto, incita os profissionais de defesa a pensar no metanível sobre as ações, suas

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implicações e suas consequências potenciais. Isso permite que eles questionem a definição de um problema, em vez de tentar corrigi-lo diretamente ou, ainda, trazer à consciência profundos compromissos ontológicos, como princípios, identidades ou valores, como parte de um problema. Eles podem encontrar maneiras de resolver essas questões mudando esses compromissos profundos. Para Israel, por exemplo, a transição dos conflitos convencionais aos assimétricos durante a primeira guerra do Líbano (1982-1985) e a primeira intifada (1987-1993) gerou uma virada reflexiva, consolidada pelo Operational Theory Research Institute

4

entre 1995 e 2005 (BEAULIEU-B; DUFORT, 2017).

4 AS CIÊNCIAS MILITARES NO BRASIL

A fim de verificar a relação do debate epistemológico, apresentado até o momento, com as ciências militares no Brasil, esta seção do artigo tem por finalidade apresentar como esta está estruturada no país e um pouco de como ocorreu sua evolução, para que as inferências possam ser realizadas.

A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, ou lei de diretrizes e bases da educação nacional, em seu artigo 83, aborda que o ensino militar é regulado em lei específica, admitida a equivalência de estudos, de acordo com as normas fixadas pelos sistemas de ensino (BRASIL, 1996).

Dessa forma, no Exército Brasileiro, a lei de ensino foi regulamentada pelo Decreto nº 3.182, de 23 de setembro de 1999, visando qualificar os recursos humanos necessários à ocupação de cargos previstos e ao desempenho de funções definidas em sua estrutura organizacional (BRASIL, 1999). No que se refere aos cursos de pós-graduação stricto sensu, que são ligados às áreas de pesquisa nas ciências militares, estes foram incluídos pelo Decreto nº 9.171, de 17 de outubro de 2017, conferindo a militares a diplomação de mestre profissional e, a militares e civis, a titulação de mestre acadêmico, de doutor ou o certificado de pós-doutor em decorrência do tipo de trabalho específico exigido para o curso (BRASIL, 2017a).

A Portaria nº 734, do Comandante do Exército, de 19 de agosto de 2010, conceitua o termo ciências militares como sendo o sistema de conhecimentos

4 Grupo de reflexão dedicado ao nível operacional no Departamento de Doutrina do Estado-Maior

General das Forças de Defesa de Israel, que fracassou devido a uma discrepância entre as

intenções do instituto e as suas capacidades reais (LIBEL, 2010, p. 321, p. 323). Atualmente,

o principal think tank sobre política e estratégia no país é o The Dado Center for Interdisciplinary

Military Studies (THE DADO CENTER, 2020).

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relativos à arte bélica, obtido mediante pesquisa científica, práticas na esfera militar, experiência e observação dos fenômenos das guerras e dos conflitos, valendo-se de metodologia própria do ensino superior militar. Trata-se de um sistema integrado à grande área do conhecimento da defesa e incluído no rol das ciências estudadas no

país, resguardados os aspectos bélicos exclusivos das Forças Armadas.

O estudo das ciências militares no Exército Brasileiro tem por finalidades: a formulação da doutrina militar terrestre, o avanço do conhecimento em defesa e a preparação de líderes militares, de pesquisadores, de planejadores e de gestores dos recursos colocados à disposição da instituição para o cumprimento de sua missão constitucional, em tempo de paz e de guerra. Nessa portaria, uma série de disciplinas constitui áreas de concentração de estudos abrangidas pelas ciências militares (BRASIL, 2010).

De acordo com Serrano (2008, p. 101), a pós-graduação no nível stricto sensu, no Exército Brasileiro, deve restringir-se a assuntos de nível político-estratégico ou a assuntos administrativos que impactem a Força Terrestre de uma forma geral.

Os objetivos dessa pós-graduação são produzir conhecimentos úteis para a força e para o país, promover o intercâmbio com instituições acadêmicas civis, além de inserir e promover os pontos de vista do Exército no debate nacional sobre defesa e segurança.

Para atingir esses objetivos, foi criado por meio da Portaria nº 724, do Comandante do Exército Brasileiro, de 6 de setembro de 2012, o Instituto Meira Mattos (IMM), como parte integrante da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) (BRASIL, 2012). Com isso, o Ministério da Educação reconheceu por meio da Portaria nº 1.009, de 10 de outubro de 2013, o mestrado em ciências militares na ECEME (BRASIL, 2013). E em 17 de fevereiro de 2017, por meio da Portaria nº 242, o curso de doutorado em ciências militares no mesmo estabelecimento de ensino (BRASIL, 2017b), sendo que ambos os reconhecimentos ocorreram dentro da área do conhecimento de ciência política.

A lei de ensino da Marinha do Brasil foi regulamentada pela Lei nº 11.279, de 9 de fevereiro de 2006. A Escola de Guerra Naval (EGN) é o estabelecimento de ensino responsável pelos cursos de educação superior de pós-graduação em ciências navais (BRASIL, 2006). Nesse campo do conhecimento científico, a EGN conduz o programa de pós-graduação em estudos marítimos, contando com os cursos de mestrado profissional e de doutorado profissional em estudos marítimos, reconhecidos pela CAPES (BRASIL, 2021a).

Já na Força Aérea Brasileira, a Lei nº 12.464, de 4 de agosto de 2011 é a lei

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de ensino em vigor. A fase de pós-formação, descrita nessa lei, tem a finalidade de qualificar, dentro de cada nível educacional, militares e civis da Aeronáutica para o desempenho dos cargos e exercício das funções que requeiram habilidades e conhecimentos específicos, sendo desenvolvida por meio de cursos de especialização, de aperfeiçoamento, de altos estudos militares e de programas de pós-graduação (BRASIL, 2011). A Universidade da Força Aérea (UNIFA) é o estabelecimento de ensino responsável por conduzir o programa de pós-graduação em ciências aeroespaciais, com os cursos de mestrado e doutorado, para civis e militares, na modalidade profissional e, do mesmo modo, reconhecidos pela CAPES (BRASIL, 2021b).

Verifica-se que as Forças Armadas observam a Estratégia Nacional de Defesa no tocante à valorização das ciências militares. Isso porque o objetivo nacional de defesa VI, que é o de ampliar o envolvimento da sociedade brasileira nos assuntos de defesa nacional, relaciona a estratégia de defesa nº 13, que é a de promover a temática de defesa na educação. Essa estratégia de defesa tem as seguintes ações estratégicas: buscar a inserção da temática de defesa no sistema de educação nacional; realizar, promover e incentivar atividades de ensino relacionadas ao tema de defesa nacional; contribuir para a ampliação de programas de apoio à pesquisa científica e tecnológica relacionados aos temas de defesa nacional; apoiar as iniciativas no sentido de reconhecer o tema defesa como subárea de conhecimento junto às agências de fomento de pós-graduação; e consolidar a Escola Superior de Guerra como uma instituição nacional acadêmica, nos campos do ensino, da pesquisa e da formação de recursos humanos sobre pensamento de defesa, bem como o Instituto Pandiá Calógeras

5

como instituição de estudos de defesa, dedicada à promoção da participação acadêmica e social (BRASIL, 2020b, p. 71).

Corroborando com esse pensamento, Domingos (2006) aborda que a sociedade brasileira precisa ampliar e aprofundar o conhecimento acerca das instituições militares, das necessidades da defesa, do pensamento, do comportamento do militar e dos temas relacionados à soberania. Ele afirma que um passo importante seria o reconhecimento da defesa e segurança como área do conhecimento científico. Para ele, a classificação das áreas do conhecimento adotada por órgãos públicos deixou de corresponder aos rumos tomados pelo

5 “O Instituto Pandiá Calógeras (IPC) é um órgão de assistência direta e imediata ao Ministro de

Estado da Defesa. Sua missão é oferecer à pasta assessoramento estratégico preciso, útil e opor

tuno na área de defesa, embasado em altos estudos e em ampla participação acadêmica,

institucional e social” (BRASIL, 2020c).

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desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro e deve compreender uma atualização de conceitos, novos acordos hierárquicos e o reconhecimento de áreas emergentes.

A proposta apresentada pelo Ministério da Defesa à CAPES e ao Conselho Nacional e Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

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, e que consta do Plano Nacional da Pós-Graduação (PNPG) 2011-2020, define a área do conhecimento científico de defesa e segurança nacionais, com a divisão nas seguintes subáreas:

políticas e estratégias de defesa nacional; tecnologias de defesa; ciências militares conjuntas; ciências militares navais; ciências militares terrestres; ciências militares aeroespaciais; e segurança pública. Desse modo, o Ministério da Defesa posiciona as ciências militares, constituinte das três forças singulares, enquanto área científica, com autonomia ao pensamento militar em defesa (CUNHA; MIGON, 2019).

Cunha e Migon (2019) ressaltam que há uma abordagem científica própria pelas ciências militares e uma comunidade epistêmica aglutinada em função do objeto de estudos de defesa, sendo que determinados pesquisadores notam a defesa como dependente de um breviário teórico multidisciplinar ou a observam com complexidade no que se refere à sua conceituação ou identificação de delimitação de seu campo de ação. Os estudos de defesa ainda apresentam carências estruturais, ausentes em ciências em processo de consolidação. Para eles, no âmbito da CAPES, ou seja, do ensino de pós-graduação nível stricto sensu, os esforços devem ser no sentido de fortalecer a inserção de ambas as perspectivas, da área científica de ciências militares e a inserção do campo de estudos de defesa.

No âmbito do CNPq, onde são sistematizadas as pesquisas em andamento, isto é, os objetos de estudos, o tópico defesa ou estudos de defesa tem maior possibilidade de ser inserido.

5 ANÁLISE DOS DADOS

Dentre os propósitos centrais de uma análise qualitativa estão: explorar os dados; impor uma estrutura sobre estes, organizando-os em unidades e categorias;

compreender o contexto que envolve os dados e vincular os resultados aos conhecimentos disponíveis (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 2014, p. 418).

Dessa forma, devido à natureza conceitual e teórica do presente tema e visando atender os propósitos citados, esta seção do artigo buscou responder à

6 Entidade ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações para incentivo à pesquisa no

país (BRASIL, 2020d).

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pergunta do estudo, com os dados apresentados, por meio de três questões de pesquisa e partindo das ideias colocadas na formulação do problema e do objetivo da investigação. A primeira questão de pesquisa visou responder a seguinte pergunta: As ciências militares são reconhecidas como uma área do conhecimento científico no Brasil?

Weaver (1948) mostra que o desenvolvimento tecnológico está intimamente ligado à existência da guerra. Bousquet (2008) traça um paralelo entre a ciência e a guerra, visto que tentam encontrar previsibilidade em meio à incerteza, além de identificar regularidades na névoa do aleatório. Quando Hellyer (2003, p. 1) aponta que a ciência também transforma a guerra, fecha-se um ciclo, que demonstra para a comunidade científica a importância das ciências militares para explicação desse fenômeno social, que procura entender também tudo relacionado à defesa e à segurança de uma nação.

Assim sendo, as ciências militares no Brasil foram reconhecidas pelo Ministério da Educação, conforme o que prevê a lei de diretrizes e bases da educação nacional e a lei de ensino do Exército. A Marinha e a Aeronáutica, por meio da mesma legislação nacional e por suas leis de ensino, tiveram reconhecidas as ciências navais e as ciências aeroespaciais. Nesse sentido, Domingos (2006) aponta que classificação das áreas do conhecimento adotada por órgãos públicos deve compreender uma atualização de conceitos, novos acordos hierárquicos e o reconhecimento de áreas emergentes, como defesa e segurança.

E quais características e conceitos relativos à epistemologia da complexidade têm relacionamento com as ciências militares no Brasil? Essa foi a segunda questão de pesquisa que pretendeu elucidar o problema do trabalho.

A lei de ensino do Exército Brasileiro, com a grande quantidade de disciplinas que constitui as áreas de concentração de estudos, demonstra uma peculiaridade do pensamento da complexidade. Trata-se da necessidade de abordagem de equipes mistas para análise das operações, conforme considerações de Weaver (1948), de modo que o trabalho em equipe forma uma unidade muito maior do que a mera soma das partes, a fim de enfrentar problemas de complexidade organizada e visando a obtenção de respostas úteis. Tal característica, por exemplo, observa- se na realização das operações conjuntas do Ministério da Defesa, nas operações interagências na faixa de fronteira ou, ainda, em operações de garantia da lei e da ordem.

Nas operações supracitadas, nos adestramentos realizados e em operações

de paz, a título de exemplo, as Forças Armadas brasileiras lidam contra oponentes

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complexos por natureza, ou seja, contra organizações que têm padrões de relacionamento, interdependências e interações entre seus agentes ou contra comportamentos individualmente erráticos e, por vezes, desconhecidos, materializando o observado na epistemologia da complexidade e conforme dito por Anderson et al. (2005). Da mesma forma, as próprias Forças Armadas são um sistema adaptativo complexo, outro conceito desse pensamento, uma vez que busca a auto-organização no enfrentamento dos problemas, sem um equilíbrio estável e ajustando-se continuamente, de acordo com a visão de Bousquet (2008).

Esse mesmo autor também diz que o inimigo, em operações de guerra, ou a força adversa, em operações de não guerra, estão muito mais conectados, atuando de forma descentralizada, sendo necessária uma rede melhor que a deles para vencer. Ressalta-se, portanto, a importância da utilização da tecnologia e da montagem das equipes multidisciplinares, além da necessidade de capacitação de forças que sejam bem informadas e organizadas.

De acordo com todo esse pensamento referente à segunda questão de pesquisa e tendo em vista a dinâmica não linear e as soluções singulares e/

ou mecanicistas para responder ao comportamento complexo das ameaças identificadas pela Política Nacional de Inteligência, Santos, Silva e Gallera (2020, p.

141) apresentam, por exemplo, um estudo propondo um modelo empírico para a gestão integral da segurança nacional, ressaltando a necessidade de uma Política Nacional de Segurança Integrada e visando a realização de uma abordagem sistêmica e a harmonização das operações interagências nas três esferas de governo.

A terceira e última questão de pesquisa a auxiliar na reflexão da presente investigação foi: Quais são as influências concretas da epistemologia da complexidade nas ciências militares no Brasil?

A primeira delas é a existência do objetivo da Estratégia Nacional de Defesa de ampliar o envolvimento da sociedade brasileira nos assuntos de defesa nacional.

O fomento à pesquisa científica na pós-graduação stricto sensu na Marinha, no Exército e na Aeronáutica, com a participação de civis, está associado às três características da ciência da complexidade descritas por Richardson e Cilliers (2001), isto é, o incremento do pluralismo metodológico, a ampliação dos limites do conhecimento e a importância da linguagem e do significado, fornecendo outra lente poderosa para ver as organizações.

Fazendo referência a Larsen-Freeman (2013), há um estímulo a formas

alternativas de pensar e abrem-se os olhos para diferentes formas de ver o mundo

e as coisas. E esse estímulo é ainda maior com o reconhecimento, pela CAPES, do

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mestrado e do doutorado acadêmicos do IMM, na ECEME, assim como os mestrados e doutorados profissionais ministrados pela EGN e pela UNIFA.

A segunda das influências concretas é o incentivo à criação de institutos como o Meira Mattos, o Pandiá Calógeras, além de outros cursos e programas de pesquisa em instituições civis, com o reconhecimento da CAPES e do CNPq, que debatam estudos estratégicos, defesa e segurança nacionais. Tudo de acordo com a característica reflexiva do pensamento da complexidade, que estuda as raízes mais profundas para a resolução dos problemas atuais, conforme o abordado por Beaulieu-B e Dufort (2017).

Por isso, a proposta apresentada pelo Ministério da Defesa à CAPES e ao CNPq em 2010, que se trata da terceira influência, está alinhada à epistemologia da complexidade, por discriminar quatro ciências militares: conjuntas, navais, terrestres e aeroespaciais. Todas elas têm autonomia para pensar em defesa e segurança. Logo, tal proposta reforça as ideias dessa teoria, no que se refere à importância das equipes mistas e da multidisciplinaridade, além de proporcionar um melhor entendimento por parte da sociedade civil, que não diferencia, por exemplo, ciências militares de ciências navais ou ciências aeronáuticas.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observa-se que há uma relação muito forte entre a epistemologia da complexidade e as ciências militares, de uma forma geral, no mundo. Respondendo o problema de investigação, que busca verificar de que maneira essa lente de pesquisa tem influenciado as ciências militares no Brasil, verifica-se que no país, a Política e a Estratégia Nacionais de Defesa, de forma direta ou indireta, abarcam os conceitos dessa teoria. Do mesmo modo, a atuação das Forças Armadas e os trabalhos realizados em suas escolas e institutos demonstram a influência dessa epistemologia, fruto da grande quantidade de pesquisadores que utilizam essa lente para a realização de seus estudos.

Os conceitos do pensamento da complexidade auxiliaram a refletir as ciências militares no Brasil e mostrar que estas se encontram em constante progresso, buscando a resolução de problemas práticos na área do conhecimento científico, defesa e segurança nacionais. As ciências militares necessitam, cada vez mais, da participação da sociedade brasileira nesses debates.

Por meio da reflexão dessa teoria, verifica-se a importância de as Forças

Armadas intensificarem a realização das operações conjuntas e interagências, além

de participarem da criação de centros integrados de operações permanentes. Essas

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estruturas permitiriam o trabalho constante de equipes mistas e multidisciplinares, utilizando a melhor tecnologia disponível, a fim de manterem suas forças capacitadas, informadas e organizadas, de modo a aprimorar a coordenação e o controle frente aos complexos desafios e forças adversas que enfrentam ou que possam vir a enfrentar.

Outra contribuição do presente estudo refere-se à necessidade de expandir a comunidade epistêmica que trata dessa área do conhecimento científico. Nessa mesma linha de raciocínio, é importante o reconhecimento das quatro ciências militares propostas pelo Ministério da Defesa à CAPES em 2010. Quanto a trabalhos futuros que podem complementar este artigo, sugere-se uma pesquisa que verifique a influência de outras epistemologias nas ciências militares no mundo e no país.

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Recebido em: 22 jan. 2021

Aceito em: 17 maio 2021

Referências

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