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Confrontação não é tudo o que fazemos 1

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Academic year: 2022

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Confrontação não é tudo o que fazemos

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Quando ainda estava no seminário, num momento de conversa informal com os professores, um deles brincou dizendo que, quando alguém visse um seminarista, não deveria hesitar em chamar a sua atenção! Nossos olhos se arregalaram por um momento, até que alguém resolveu, corajosamente, questionar: “Mas por quê?” E a resposta veio pronta: “Porque, meu filho, por mais que nós não saibamos o motivo da reprimenda, o seminarista saberá...”. Na hora rimos de nervoso, mas acredito que a situação ilustre o ímpeto de confrontar que muitos conselheiros apresentam e que faz com que achemos pecado até onde não tem. Por mais que isso seja raro (o fato de não ter pecado ativo envolvido nalguma circunstância), acontece.

Reconheço que a palavra “confrontação”, num primeiro momento, soe aguerrida. Ela parece evocar imagens de reprovação, desagrado, vergonha e exigências. Ela nos faz lembrar que alguém está errado e precisa corrigir-se. Confrontação não é uma palavra que soa agradável aos ouvidos como as palavras amor, graça ou perdão. Apesar disso, vivemos em um universo de confrontação. Quando um chefe nos cobra aquela tarefa pendente, ou quando perguntamos por alguma coisa que ficou sob a responsabilidade de outra pessoa, ou ainda quando simplesmente perguntamos: “onde estás?”, “o que aconteceu aqui?”,

“alguém tem alguma explicação a dar?”, “o que você estava fazendo?”, inevitavelmente, estaremos confrontando...

Por que tememos a "confrontação" então? Por que ela nos soa tão desconfortável? Por que só de imaginar alguém nos fazendo esse tipo de pergunta, já ficamos tensos? Creio que boa parte da razão esteja na Queda. Desde que a Queda ocorreu, nos tornamos avessos à

1 Trecho do livro “Breve Manual de Aconselhamento Redentivo” de Jônatas Abdias de Macedo, que será lançado pela Editora Trinitas.

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confrontação. Ainda que tenha sido naquele contexto que a primeira confrontação aconteceu: o homem, que antes voluntariamente se apresentava ansioso pela comunhão com o Senhor, agora, é procurado pelo Senhor; ele tem que ouvir, detrás de um arbusto (Gn 3.9).

Lembremos também das inúmeras vezes que Deus confrontou o povo através dos profetas – as referências seriam muitas para serem todas elas listadas aqui. E, não bastasse isso, a Escritura está cheia de registros de confrontações e ordens para nós, como, por exemplo, as inesquecíveis injunções apostolares de Paulo em 2 Tm 4.2; 3.16 e Cl 3.16.

Entretanto, embora eu defenda a necessidade da confrontação

“estar sobre a mesa”, é importante dizer que conselheiros bíblicos não

"simplesmente confrontam", como nos lembra David Powlison. Ele diz que o conselheiro buscará fazer com que a confrontação venha em boa hora e seja efetiva. Além disso, ele também nos lembra que, por não vermos o coração, só as evidências, devemos ter cuidado e, no ímpeto de ajudar as pessoas a se verem tais como são aos olhos de Deus, nos certificar de que, no processo façamos com que o amor de Deus também se apresente como uma doce necessidade.

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Wadislau Gomes não está desalinhado com esta perspectiva. Ele diz que devemos lidar com o pecado com "confrontação persuasiva", confrontando o engano e o autoengano. Dentro desta estratégia, que ele chama de Reflexão , busca-se o arrependimento, lidando tanto com a culpa quanto com a resistência à mudança, procurando evitar as motivações erradas e alcançar a concretização da mudança pela reconstrução de padrões de vida (hábitos)

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. Esta confrontação, diz o Wadislau, é caracterizada pela gentileza e pela firmeza que não confunde seu caráter penetrante com o descuido intrusivo, que explica

2 POWLISON, David. A suficiência das Escrituras para diagnosticar e curar as almas, Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, v. 5, p. 6–23, 2006, p. 19.

3 GOMES, Wadislau Martins, Prática do aconselhamento redentivo: um modelo básico de aconselhamento cristão, 2.a. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018, p. 241–266.

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e não impõe, apresentando-se convidativa ao invés de constrangedora.

Mas repare que a confrontação não é a única estratégia: há ainda a esperança e o compromisso, que servem ao propósito de encorajar o desanimado e caminhar pacientemente com o fraco.

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Ele conclui:

"Verdade e amor devem orientar a mudança de maneira que não ignoremos a sensibilidade da pessoa nem suas razões e estratégias para a resistência... a maneira como o conselheiro lida com a resistência do aconselhado deve mostrar as mesmas virtudes que ele deseja motivar no aconselhado".5

A ideia de que os conselheiros bíblicos são como cães de caça, sempre farejando o pecado na vida do outro, latindo ao mais sutil sinal de erro, é uma caricatura fabulosa.

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Uma pessoa que prontamente corrija seu irmão por ter dito que “adora chocolate”, porque “não se deve adorar outro senão a Deus”, não é um conselheiro bíblico; ele é só um chato. Embora tenhamos que reconhecer, com pesar, que essa caricatura possa ser assumida como característica de um ou outro conselheiro, ela não reflete o padrão abrangente da Escritura. Como qualquer redução ou simplificação, o resultado é uma deformidade.

Um conselheiro mostrar-se-á sábio quando entender que Somente a Escritura, implica também em Toda Escritura . O quadro descrito pela Escritura, sobre nós e nossos problemas, apresenta uma complexidade maior do que as figuras simples que mentalmente fazemos. Assim como nós e nossos problemas, esse quadro possui mais que lados, ele tem profundidade e produz perspectivas e ângulos de visão, que um conselheiro bíblico deve levar em consideração.

De acordo com Falaye

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, o texto que resume em linhas gerais suficientemente abrangestes as principais estratégias do

4 Ibid., p. 267–288.

5 Ibid., p. 250.

6 Fabulosa de fábula mesmo. Quero dizer que é uma representação imaginativa, que não reflete a realidade pensar, e que tudo o que um bom conselheiro tem que fazer é procurar por pecados na vida do aconselhado.

7 FALAYE, Ajibola O., Counselling from the Christian point of view, IFE Psychologia, v. 21, n. 3, p. 54, 2013, p. 58.

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Aconselhamento Bíblico é 1 Tessalonicenses 5.14. Nele, o apóstolo Paulo nos diz: " Exortamo-vos, também, irmãos, a que admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimos para com todos ". Falaye destaca que confrontar (noutheteo: "admoestar") é a primeira, mas não a única estratégia do conselheiro bíblico. Partindo desse texto, ele explica que a palavra admoestar (confrontar) está intimamente ligada ao problema a que se endereça: uma situação de transgressão, de desordem. No texto bíblico, quem está sob esta condição é chamado de "insubmisso". Nesse caso, Falaye explica: o aconselhado deve ser conduzido à obediência e ao arrependimento. A confrontação é, portanto, necessária.

Mas confrontar não é tudo o que fazemos. Ainda baseado no texto de 1 Tessalonicenses 5.14, Falaye entende que, dentre as estratégias possíveis indicadas pelo apóstolo Paulo, há também o consolo ou o encorajamento, o amparo ou a assistência e a paciência ou a tolerância – que, em nossa língua, pode ser traduzida por longanimidade. Portanto, cada uma das quatro estratégias de aconselhamento está relacionada a uma situação específica: há momentos em que o aconselhado precisa de esperança, outros em que precisa de encorajamento e estímulo para perseverar, ou cura e restabelecimento, ou ainda nutrição para crescer e amadurecer.

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A partir disso, é possível concluir que alguém que só aprendeu a confrontar procurará por pecados a serem arrependidos não só no insubmisso, mas no desanimado, no fraco e assim por diante! De certo não convém que seja assim.

Me lembro que certa vez estávamos numa reunião da igreja com os pais das crianças que integravam o departamento infantil. Nosso propósito era incentivá-los a participarem mais ativamente na educação de seus filhos. Queríamos que eles se sentissem encorajados a fazer o culto doméstico. Sabíamos da importância disso e como liderança

8 Ibid.

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estávamos empenhados (eu diria até determinados) em fazê-los não só entender, mas de fato praticar o culto domiciliar. Mas nosso ímpeto se tornou um fardo: eles pareciam desanimados e alguns até contrariados pelo que ouviam. Já mais para o fim, eu havia desistido de convencê- los. Talvez Deus não quisesse usar aquele momento para encorajar seu povo nessa nobre missão. Mas durante uma pausa, alguém perguntou como eu e minha família fazíamos o nosso culto doméstico. Como eu era o pastor, achei que deveria começar a lista de exemplos.

Eu queria ser um farol na escuridão e apresentar-lhe os mais lindos e inspiradores exemplos de devoção familiar, mas terminei por falar a verdade. Falei das dificuldades e até confessei que a vida agitada roubava a assiduidade que eu gostaria de ver na minha própria vida. A reação ao que falei foi inesperada, mas revelou muito do que falamos até aqui: "Ao ouvi-lo, pastor, e ver que o senhor tem as mesmas lutas que nós, na verdade, isso me encoraja. Agora eu sei que não estou sozinha nessa batalha", disse uma das mães. Enquanto queríamos convencê-los de que estavam errados em não fazer o culto doméstico, esquecemos de perguntar, a eles e a nós mesmos, quais eram os possíveis motivos de impedimento. No final, percebi que não estávamos lidando com insubmissos, mas com desanimados. E, no lugar de buscar por pecados a serem corrigidos, seus corações precisavam de consolo, que, ao que parece, receberam quando meu coração se abriu e eles entenderam que não podiam desistir... nenhum de nós podia.

Falaye entende que o apóstolo Paulo apresenta também noutra

carta a mesma estrutura de quatro estratégias, só que sob a forma de

quatro fundamentos de utilidade da Escritura: " Toda a Escritura é

inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a

correção, para a educação na justiça (2 Timóteo 3:16). Segundo Falaye,

cada aspecto da Escritura serve a uma das estratégias do

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aconselhamento, de modo que a Escritura é, assim, fundamentalmente suficiente para suprir as demandas do aconselhamento.

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9 Ibid.

Referências

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