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RESUMO

O objetivo deste projeto de iniciação científica auxiliar na atualização e no aprimoramento do Atlas da Questão Agrária Brasileira tendo como foco e recorte o mapeamento e análise da agricultura camponesa no estado de São Paulo. A referência teórica do trabalho está pautada na abordagem do campo a partir da questão agrária pela geografia, que considera os problemas no campo causados pelo desenvolvimento do capitalismo. Sendo assim, serão mapeados e analisados vários temas da questão agrária nacionalmente, contextualizando o estado de São Paulo e, em seguida, será realizada uma análise específica para a agricultura camponesa no estado, incluindo as mudanças recentes provenientes da territorialização do setor sucroalcooleiro no oeste paulista. Os procedimentos metodológicos são sobretudo o mapeamento e análise exploratória de dados, trabalhos de campo exploratórios e leituras. Com isso esperamos identificar e analisar as características da agricultura camponesa paulista e sua importância na estrutura agrária atual, bem como suas transformações recentes.

1. INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA

O Atlas da Questão Agrária Brasileira (AQAB), disponível em www.fct.unesp.br/nera/atlas, foi publicado em 2008 e é um produto da tese de doutorado do orientador deste projeto de pesquisa de iniciação científica. O AQAB foi elaborado a partir dos pressupostos da Cartografia Geográfica Crítica (CGC) (GIRARDI, 2008, 2011), cuja base é a leitura crítica do mapa e da cartografia (HARLEY, 1989) e três abordagens cartográficas: a semiologia gráfica, a

visualização cartográfica e a modelização gráfica (GIRARDI, 2008, 2011). Para a

CGC, o mapa deve ser compreendido como um instrumento de análise geográfica e

parte inerente ao discurso geográfico. Por tomar como referência a questão agrária,

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Desde sua publicação em 2008, exclusivamente on-line, o Atlas teve 79.359 acessos provenientes de 60 países1. Os mapas do AQAB foram utilizados por diversos jornais, pelos movimentos sociais e editoras de material didático (a título gratuito), além dos usos em trabalhos acadêmicos. Embora desde sua publicação vários dados novos tenham sido publicados pelas fontes utilizadas, só no final de 2013 uma atualização do AQAB teve início via aprovação de financiamento do projeto intitulado “Desenvolvimento do Atlas da Questão Agrária Brasileira e

análise da agricultura camponesa” no Edital Universal MCTI/CNPq Nº 14/2013. Os dois objetivos principais do projeto aprovado junto ao CNPq e cuja vigência vai até 10/2016 são: a) atualizar e aprimorar o AQAB, com a adição de mapas atualizados dos temas já existentes e também a inclusão de mapas de novos temas; b) fazer uma análise da agricultura camponesa brasileira que inclua discussões teóricas sobre os paradigmas de interpretação e também o mapeamento e análise de dados específicos deste tipo de agricultura.

Em 2012 o orientador iniciou, como projeto de pesquisa trienal, outra pesquisa intitulada “Setor sucroalcooleiro paulista: importância econômica,

internacionalização e impactos na questão agrária – 2000-2014”. Um dos objetivos

nesse segundo projeto também desenvolvido pelo orientador é analisar os impactos da expansão do setor sucroalcooleiro sobre a agricultura camponesa no estado de São Paulo, sendo necessário para isso uma avaliação da agricultura camponesa no estado de São Paulo, que é um dos objetivos do deste projeto de iniciação científica.

É no contexto dessas duas pesquisas desenvolvidas pelo orientador que se insere o presente projeto de iniciação científica, que contribuirá com esses dois projetos e desenvolverá atividades de investigação específicas, contribuindo para a

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formação científica do orientando. O objetivo principal do presente projeto de iniciação científica é auxiliar na atualização e no aprimoramento do Atlas da

Questão Agrária Brasileira tendo como foco e recorte o mapeamento e análise da agricultura camponesa no estado de São Paulo.

O Brasil é um país caracterizado por desigualdades sociais e regionais resultantes da histórica concentração da riqueza. A questão agrária passou a ser tema de pesquisa da Geografia principalmente a partir da década de 1980, no contexto do desenvolvimento da corrente da Geografia Crítica. As análises enfocavam questões teóricas e sobre o desenvolvimento histórico da questão, enfatizando a luta de classes e o processo desigual de apropriação privada da terra, formando latifundiários, camponeses e sem-terra (OLIVEIRA, 2007). Contudo, nunca havia sido elaborado um Atlas que tratasse especificamente da questão agrária, sendo o AQAB o primeiro sobre o tema, exceto um que representa unicamente a estrutura fundiária, publicado pelo INCRA.

O AQAB não é um simples conjunto de mapas descritivos, mas enfatiza a exploração analítica de dados de vários temas que compõem a questão agrária, em especial através da visualização cartográfica. O AQAB apresenta uma análise da questão agrária no Brasil e nele o mapa é utilizado como um importante instrumento na análise e no discurso geográfico sobre o tema. Para desenvolver a análise da questão agrária no AQAB, foi tomado como referência o paradigma da questão

agrária (FERNANDES, 2005), que enfatiza os conflitos e problemas no campo. A

partir desse paradigma foram desenvolvidas análises tomando como referência dois

territórios que configuram a questão agrária brasileira: o campesinato e o latifúndio e agronegócio. Esses territórios foram enfatizados tanto nos estabelecimentos

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problema agrário. Os principais temas analisados no AQAB são: a) a configuração

territorial; b) as características socioeconômicas que configuram o campo; c) a estrutura fundiária; d) a produção agropecuária; e) a luta pela terra e sua conquista; f) a violência no campo. O recorte da agricultura camponesa será outro

tema importante a ser adicionado ao Atlas.

Para iniciarmos uma reflexão sobre a questão agrária brasileira devemos nos remeter à ocupação do território brasileiro, pois esse processo e seus desdobramentos influenciam a questão agrária atual. As capitanias hereditárias foram o primeiro processo de apropriação do território brasileiro pelos colonizadores, sistema instituído no Brasil em 1536 pelo rei de Portugal, Dom João III, criando 14 capitanias, divididas em 15 lotes e distribuídas a 12 donatários, que eram representantes da nobreza portuguesa. A condição para a manutenção concessão de uso era a produção na terra e o consequente pagamento de tributos à Coroa. Segundo Faoro (2000) “a coroa conseguiu formar, desde os primeiros golpes da conquista, imenso patrimônio rural [...] cuja propriedade se confundia com o domínio da casa real.” (p.22).

A partir das capitanias hereditárias, as terras foram ocupadas com o regime de sesmarias, que eram parcelas de terra cujo uso era concedido ao sesmeiro ante a circunstância de promover o desbaste da mata e produzir na terra. Graziano da Silva (1980) salienta que o regime de sesmarias foi preponderante na formação do latifúndio sob trabalho escravo no sistema agrícola “plantation”. Naquele período a colônia, Brasil, tinha quase todas as suas atividades econômicas voltadas para agricultura comercial. (GRAZIANO DA SILVA, 1980).

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acontece em meados do mesmo século - o declínio do regime escravocrata, sendo

sine qua non para entender a questão agrária no período que se estende de 1822 até

1850, quando todas as concessões de terras foram suspensas, não havendo nenhum tipo de lei que o ordenasse até 1850, ano em que foi promulgada a Lei de Terras. Nesse período, conforme Feliciano,

A formação de ocupações das terras deu-se, portanto, através do denominado regime de posse de terrenos devolutos. Esse período comportou dois tipos de posses no Brasil. A grande ocupação, proveniente tanto das concessões anteriores, assim como sua própria expansão, pelos grandes apossamentos (sesmarias que não tinham sido regularizadas); e também as pequenas posses, que surgiram com a ousadia de colonos ou imigrantes, os quais não tinham outra possibilidade de reprodução senão pela ocupação acompanhada do cultivo e aproveitamento do solo. (FELICIANO, 2009, p.66)

A Lei de Terras instituía uma mudança na estrutura fundiária no que tange a propriedade das terras. Segundo Martins (1981) “a Lei de Terras proibia a abertura de novas posses, estabelecendo que ficavam proibidas as aquisições de terras devolutas por outro título que não fosse o de compra.” Em 1888 ocorre a abolição da escravidão, mas da Lei de Terras de 1850 já havia cuidado para que a massa a ser liberta e os imigrantes que haviam de chegar não tivessem acesso à terra e continuassem (tanto a terra quanto os trabalhadores) sob o domínio dos grandes proprietários, tendo reflexos até hoje. Era o cativeiro da terra como homem livre (MARTINS, 2010). A Lei de terras culminou na mercantilização da terra, a terra virando mercadoria, condição profícua para o conflito (FELICIANO, 2009).

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alterou o regime político do país, que passou de Império a República Federativa”. Com a elaboração da constituição brasileira de 1981, instalou-se o federalismo, descentralizando o poder legislativo. Feliciano (2009) evidencia que:

[...] ficou transferido aos Estados da Federação o poder de atuar sobre as terras devolutas. Com isso, os Estados passaram a ter o controle para legislar, agora sobre suas terras (exceto sobre a faixa de fronteira e de marinha), além de fixar normas sobre as demais atividades, como, por exemplo, imigração e agricultura. (FELICIANO, 2009, p. 67).

Os elementos que perpassam a questão agrária no período da República Velha evidenciam uma estrutura fundiária concentrada na mão das oligarquias e dos coronéis e uma grande produção de café para o mercado externo. Várias revoltas camponesas acontecem no campo brasileiro no período da República Velha, como a guerra de Canudos e do Contestado, Martins (1981) afirma que:

As primeiras grandes lutas camponesas no Brasil coincidiram com o fim do Império e o começo da República. Nas movimentações predominantemente camponesas, mas exclusivamente, do sertão de Canudos, na Bahia (1893-1897), e sertão do Contestado, no Paraná e em Santa Catarina (1912-1916), foram apresentadas e violentamente combatidas, por forças militares compostas por milhares de soldados do Exercito e das politicas estaduais, como se fossem tentativas de restauração monárquica. (MARTINS, 1981, p.41)

As Ligas Camponesas eclodem no Nordeste brasileiro em meados das décadas de 40 e 50. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi o principal organizador da luta dos camponeses frente ao latifúndio e pela reforma agrária neste período, a sua grande atuação se dá pelo momento politico vivido no Brasil.

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visto essa afirmação, “Foi, portanto, com as Ligas Camponesas, nas décadas de 40 a 60, que a luta pela reforma agrária no Brasil ganhou dimensão nacional”. A reforma agrária era tratada com urgência pelas Ligas, “Reforma agrária na lei ou na marra”, sendo o lema principal.

João Goulart, presidente do Brasil (1961 a 1964), período em que as Ligas estavam atuando em pró da reforma agrária, cria em 1962 a Superintendência da Política Agrária (SUPRA), que tinha como principal intuito executar programas de colonização e reforma agrária. Carvalho (2005) acentua que:

No dia 13 de março de 1964, foi assinado pelo presidente da república o decreto prevendo a desapropriação para fins de reforma agrária das terras localizadas numa faixa de dez quilômetros ao longo das rodovias, ferrovias e açudes construídos pela União. (CARVALHO, 2005, p.3)

Em abril de 1964 acontece o golpe de Estado, estabelecendo a Ditadura Militar no país. Oliveira (2007) evidencia que:

O movimento militar de 64, que assumiu o controle do país, instaurou a perseguição e “desaparecimento” das lideranças do movimento das Ligas Camponesas, e sua desarticulação foi inevitável. Deu-se, aí, o início de um grande número de assassinatos no campo brasileiro. (OLIVEIRA, 2007, p.110)

O período da Ditadura Militar é estreitamente importante frente à questão agrária brasileira e sobre o objeto da pesquisa, a análise da agricultura camponesa no Atlas da Questão Agrária. Neste período, a modernização da agricultura, fronteira agrícola e o Estatuto da Terra são características que implicam sobre campesinato de forma devastadora e também sobre o território brasileiro.

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no país e criava institutos, de Reforma Agrária (IBRA) e de Desenvolvimento Agrário (INDA), que substituíram a Superintendência da Reforma Agrária (SUPRA).

As principais finalidades da lei compreendiam segundo Andrade (1989):

Realizar uma melhor distribuição da propriedade, classificar os imóveis em categorias, dar função social à propriedade, criar o Fundo Nacional de Reforma Agrária, fazer zoneamento e levantamentos cadastrais, patrocinar a colonização oficial e particular, apoiar o desenvolvimento do cooperativismo, estimulando a implantação das Cooperativas Integrais de Reforma Agrária (CIRA), estimular o seguro agrícola, regulamentar a arrendamento rural, como a parceria agrícola, pecuária e extrativista. (ANDRADE, 1989, p.44).

Martins (1985) afirma que o verdadeiro caráter do Estatuto da Terra é a função de controle das tensões sócias e dos conflitos gerados por esse processo de expropriação e concentração da propriedade e do capital, o Estatuto garante a partir das suas aplicações, desmobilizar os conflitos e garantir o desenvolvimento econômico baseado nos incentivos à progressiva e ampla penetração do grande capital agropecuário. Assim, Martins (1985) também contribui:

O próprio Estatuto da Terra foi elaborado de tal forma que se orienta para estimular e privilegiar o desenvolvimento e a proliferação da empresa rural. O destinatário privilegiado do Estatuto não é o camponês, o pequeno lavrador apoiado no trabalho da família. O destinatário do Estatuto é o empresário, o produtor dotado de espírito capitalista, que organiza a sua atividade econômica segundo os critérios da racionalidade do capital. (MARTINS, 1985, p.33).

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A modernização da agricultura, junto com o discurso da Ditatura militar em ocupar o território brasileiro como quesito de segurança nacional, motivou a expansão da fronteira agrícola para os meandros da Amazônia e do Cerrado. Segundo Girardi (2008):

No início da década de 1970 o Centro-Oeste brasileiro (região dos cerrados) e a região amazônica passaram a ser a nova fronteira agropecuária brasileira. Configurada até então pela baixa densidade de ocupação e grande disponibilidade de terras, a região passou a receber os contingentes de camponeses expropriados de outras regiões e, ao mesmo tempo, o investimento de capitais produtivos e especulativos. O Estado teve papel determinante na definição desta nova fronteira agropecuária, ainda em expansão atualmente. A ocupação dessas novas áreas de fronteira ocorreu a partir de projetos de colonização públicos e privados em uma parceria entre Estado e capital. Grandes porções de terras foram vendidas a preços irrisórios ou doadas a empresas privadas para o estabelecimento dos projetos de colonização ou extrativismo florestal e mineral. (p.127).

A relação da fronteira agrícola com a modernização da agricultura se dá pelo fato da expropriação do campesinato pela expansão das monoculturas, requerendo grande proporção de terra, dessa forma o êxodo rural é imposto pela modernização, segundo Girardi (2008)

A migração para a fronteira agropecuária a partir do final da década de 1960 e início da década de 1970 foi ocasionada principalmente pela modernização da agricultura e consequente êxodo rural, pela não realização da reforma agrária nas áreas já densamente ocupadas e pela não solução do problema da seca e da pobreza no Nordeste. (p.312).

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No sul do país, considerado o berço do MST, o fenômeno da introdução da soja agilizou a mecanização da agricultura, seja no Rio Grande do Sul, com uma lavoura casada com o trigo, que já tinha uma certa tradição, seja no Paraná, como uma alternativa ao café. A mecanização da lavoura e a introdução, digamos, de uma agricultura com características mais capitalistas expulsaram do campo, de uma maneira muito rápida, grandes contingentes populacionais. (STEDILE e FERNANDES, p.15, 2005).

Os problemas da questão agrária, relativos à vida e produção no campo, compõem o conjunto de questões estruturais que barram outro modelo de

desenvolvimento para o país, mantendo suas características contraditórias em favor

de um pequeno número privilegiados que detém os meios de produção e controla a política e as finanças. Com apenas 15,8% da população rural e a extinção de 1,5 milhões de postos de trabalho no campo no período 1996-2006, o Brasil é o quinto maior exportador mundial de produtos agropecuários, especialmente soja, açúcar e álcool, suco de laranja, café, papel e celulose, fumo, algodão e milho, além de ser o maior exportador mundial de carne. Ao lado, convivemos com indicadores de extrema desigualdade social e concentração da riqueza, inclusive da terra, fruto do cercamento secular promovido no país, tornando as desigualdades do campo ainda mais graves. (OLIVEIRA, 2007).

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Na divulgação dos dados do Censo Agropecuário 2006 o IBGE (2006) realizou, com base na Lei 11.326, de 24 de julho de 2006, um recorte nos dados que permitisse a seleção dos estabelecimentos agropecuários familiares2 e não familiares. Segundo este recorte, os estabelecimentos de base familiar são 84,4% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros e compreendem 24,3% da área total dos estabelecimentos, com área média de 18,4 ha. A área utilizada com pastagens nos estabelecimentos familiares em 2006 representava 45% da área total desses estabelecimentos e as lavouras ocupavam naquele ano 22% da área. Segundo o IBGE (2006) a agricultura familiar é determinante no suprimento de alimentos para o país e teve a seguinte participação na produção nacional: 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 59% do rebanho suíno, 50% do rebanho de aves e 30% dos bovinos. (IBGE, 2006). Esses dados indicam a grande contribuição desse modelo de agricultura para o atendimento à demanda interna de alimentos no Brasil, sendo esta mais uma justificativa para intensificar seu estudo, objetivo da presente proposta de pesquisa.

O recorte feito pelo IBGE nos dados do Censo Agropecuário 2006 mostra que 74,7% dos agricultores familiares eram proprietários das terras. Os estabelecimentos familiares eram responsáveis por 74,4% do pessoal ocupado em todos os estabelecimentos brasileiros, sendo que 90% do pessoal ocupado em estabelecimentos familiares possuíam laço de parentesco com o produtor. Os estabelecimentos familiares respondiam por um terço da receita dos estabelecimentos brasileiros, porém 31% dos estabelecimentos familiares declararam não ter tido rendimento no ano de 2006. O rendimento médio dos estabelecimentos familiares que declararam ter tido rendimentos em 2006 foi de R$ 13,6 mil e 39%

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dos estabelecimentos familiares declararam ter tido em 2006 outras formas de rendimento externos ao estabelecimento, as quais perfaziam a média de R$ 4,5 mil, sendo provenientes principalmente de pensões, aposentadorias e salários. Quanto ao financiamento, apenas 17,9% dos estabelecimentos familiares captou alguma forma de financiamento.

Numa breve conclusão, na análise desses dados preliminares podemos afirmar que a agricultura camponesa brasileira é decisiva para o suprimento dos alimentos no país, principal responsável pelos postos de trabalho gerados no campo e, contraditoriamente, detentora de pouca terra, de baixo rendimento monetário e independente dos projetos governamentais, que se reduzem basicamente ao crédito, não captado pela grande maioria dos estabelecimentos familiares. O detalhamento dessas características gerais será perseguido no desenvolvimento desta pesquisa, sendo que o mapeamento de todas essas informações tomando como recorte a agricultura familiar, as quais ainda não constam no AQAB, será a principal contribuição deste projeto de iniciação científica.

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diretamente, principalmente com a pressão para o arrendamento das terras e poluição por agrotóxicos pulverizados por avião, que podem até inviabilizar outras culturas em terras próximas aos canaviais.

O desenvolvimento do setor sucroalcooleiro tem repercussões diretas na questão agrária brasileira. O primeiro aspecto diz respeito à concorrência da produção de cana-de-açúcar com culturas alimentares e com o rebanho de gado de leite. Embora a cana ocupe uma pequena porcentagem da área cultivável do país, ela está nas melhores terras, principalmente em São Paulo e no Paraná, áreas em que a produção de alimentos poderia ser desenvolvida de forma mais adequada, já que estão próximas dos grandes centros e também a necessidade de insumos seria menor. Os dados mostram que, embora o Zoneamento Agroecológico da Cana (MAPA, 2009) tenha proibido a expansão do seu Plantio na Amazônia, Pantanal e Alto Paraguai, o crescimento da área plantada no Centro-Sul tem deslocado o rebanho bovino de corte e de leite para essas regiões, forçando a expansão e consolidação da fronteira agropecuária. Além de competir a respeito do uso da terra com outras culturas socialmente mais importantes, a cana-de-açúcar também força a alta do preço da terra, dos insumos e capta recursos do Estado voltados à agricultura e que poderiam ser utilizados para outros fins. A própria burguesia agrária dos diferentes setores entra em um conflito setorial. (GIRARDI, 2011; NOVO et al., 2010; SCHLESINGER, 2007).

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cultura da cana promove este processo nas áreas de ocupação mais antiga, a exemplo do Pontal do Paranapanema, cujos problemas de legalidade da terra são bastante evidentes (FERNANDES, 1999; LEITE, 1998; MONBEIG, 1984 [1949]), mas também na fronteira agropecuária, já que os grandes latifúndios passam à criação de gado bovino com a migração do rebanho. (GIRARDI, 2011). Thomaz Jr. (2009) demonstra que o setor sucroalcooleiro promove um rearranjo da estrutura agrária com financiamento do BNDES, sendo este processo muito conveniente à burguesia agrária, que passa a se apropriar de forma crescente da renda da terra, além de ver as possibilidades de contestação da produtividade de sua terra se esvaírem.

Um terceiro impacto da cana-de-açúcar na questão agrária é relativo à entrada da cana dos assentamentos rurais, o que ocorre principalmente no estado de São Paulo, visto a grande área plantada da cultura e sua expansão para o Pontal do Paranapanema, região com o maior número de assentamentos no estado. Isso ocorre em parte pela ineficiência da política agrária, que não permite ao assentado condições adequadas de produção, sendo obrigado a submeter-se ao arrendamento de sua terra ou ao cultivo da cana. Trata-se de uma questão complexa a ser analisada a partir das possibilidades e perspectivas de produção e permanência dos assentados nos lotes. (FERNANDES; WELCH; GONÇALVES, 2010; GONÇALVES, 2011; THOMAZ JR., 2009).

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análise exploratória de dados (visualização cartográfica) (GIRARDI, 2008), que será subsidiado por trabalho de campo exploratório e leituras.

2. OBJETIVOS

2.1 OBJETIVO GERAL

Auxiliar na atualização e no aprimoramento do Atlas da Questão Agrária Brasileira tendo como foco e recorte o mapeamento e análise da agricultura camponesa no estado de São Paulo.

2.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

1. Auxiliar na atualização do Atlas da Questão Agrária Brasileira com o mapeamento, em escala nacional, dos dados de 2006 até 2012 dos diversos temas que compõem o Atlas, já que os dados mais recentes mapeados e publicados no AQAB são de 2006, os mais atuais disponíveis no momento da sua publicação em 2008. Neste processo será observado e analisado como o estado de São Paulo está contextualizado no Brasil;

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julho de 2006 e segundo a classificação da FAO, o que permitirá enriquecer o Atlas e ampliar as possibilidades de análise;

3. Realizar um diagnóstico e uma análise das dinâmicas recentes da agricultura camponesa no estado de São Paulo, especialmente sua importância na produção e no trabalho no campo, através de mapeamento exploratório, trabalhos de campo exploratórios e discussão de bibliografia específica;

4. Investigar as implicações do avanço recente (a partir de 2013) do setor sucroalcooleiro no estado de São Paulo para a agricultura camponesa e para a produção de alimentos;

5. Contribuir com a disponibilização e divulgação de material cartográfico que auxilie os diversos setores da sociedade e a academia na análise do tema da questão agrária;

3. PLANO DE TRABALHO E CRONOGRAMA

1. Revisão bibliográfica sobre a questão agrária, agricultura camponesa e a cartografia geográfica;

2. Levantamento e tratamento de dados junto ao IBGE e o INCRA; 3. Mapeamento dos dados;

4. Diagramação final dos mapas;

5. Análise dos dados com base na bibliografia revisada; 6. Apresentação dos resultados em eventos científicos; 7. Colóquios como orientador;

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CRONOGRAMA DE ATIVIDADES ATIVIDADE TRIMESTRE 1o 2o 3o 4o 1 x x x 2 x x x 3 x x x x 4 x x x x 5 x x 6 x 7 x x x x 8 x x 4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Coleta e sistematização dos dados: serão coletados dados do IBGE,

principalmente do Censo Agropecuário de 2006, sobre os estabelecimentos agropecuários classificados como familiares (o IBGE disponibiliza duas classificações: segundo a Lei 11.326, de 24 de julho de 2006 e segundo a classificação da FAO). Também serão utilizados dados do INCRA sobre a estrutura fundiária, cuja base de classificação é o módulo fiscal. Esses dados serão sistematizados em forma de tabelas, gráficos e mapas;

Mapeamento exploratório dos dados: os dados das três classificações acima

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vão formar uma mapoteca específica no AQAB. Quando forem necessárias ferramentas de SIG será utilizado o programa QGIS;

Revisão bibliográfica e discussão teórica: para dar subsídio às análises, serão

realizadas revisões bibliográficas sobre cartografia geográfica (base teórica e técnica para aprimoramento da prática cartográfica) e sobre agricultura camponesa. O objetivo será entender a discussão conceitual e política sobre agricultura camponesa e agricultura familiar a partir da questão agrária. Também serão levantadas e revisadas bibliografia mais ampla sobre a agricultura camponesa no Brasil;

Trabalho de campo: após o levantamento e análise inicial de dados serão

realizados três trabalhos de campo em regiões do estado de São Paulo que tenha agricultura camponesa mais significativa na estrutura agrária, incluindo a investigação sobre os impactos da expansão recente do setor sucroalcooleiro nessas regiões, se for o caso. Esses trabalhos de campo possuem caráter exploratório, para subsidiar as análises de dados e teóricas;

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Referências

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