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Rev. Bras. Hist. vol.26 número51

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Academic year: 2018

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São Paulo: Olho d’Água, 2003, 300p.

Podemos entender as complexidades que a palavra “fronteira” pode con-ter se sua própria constituição se dá muitas vezes em con-termos historicamente mutantes, difusos, cercada de especificidades? Ou sucede o inverso: as fron-teiras se formam por processos semelhantes em lugares diferentes? Essas ques-tões são tratadas na coletânea Fronteiras: paisagens, personagens, identidades, organizada pelos professores Horácio Gutiérrez, Márcia Naxara e Maria Apa-recida Lopes. Ao privilegiar as três Américas como escopo (portuguesa, espa-nhola e inglesa), os autores que compõem o livro demonstram que muitas imagens criadas no “Novo Mundo”, em particular nas áreas de fronteira, esse espaço considerado demograficamente vazio e que acabou se tornando uma forma de legitimar a conquista, já não podem ser tomadas como corretas. A colonização entendida como um processo e as fronteiras como parte central desse processo são as linhas mestras seguidas no livro.

Os autores se comprometem a estudar as fronteiras, provando ser esta uma vertente importante para se entender os complexos mecanismos criados pela aproximação cultural dos diversos povos que conformam o mosaico ame-ricano. O estudo, composto por onze artigos, constitui um espaço de discus-sões para essa diversidade. O livro foi dividido em dois momentos que estão ligados entre si. A primeira parte é dedicada a pensar nas fronteiras como fun-dadoras de identidades, e segunda, a entender como essas fronteiras transfor-mam as paisagens e os personagens tocados nesse processo.

Considerando que a maioria do território americano começou sua colo-nização pelo litoral, a expansão para o far westtornou-se um terreno propí-cio para a criação de mitos embasados por ícones criados nessa expansão. As novas fronteiras trouxeram à tona personagens importantes nas suas

conquis-Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 26, nº 51, p. 291-293 - 2006

Horacio Gutiérrez, Márcia Naxara

e Maria Aparecida Lopes (Org.)

Fronteiras

: paisagens,

personagens, identidades

Reinaldo Nishikawa

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tas. Temos o pioneeramericano, o bandeirantebrasileiro e o gaucho argenti-no, personagens que estão intrinsecamente ligados à expansão territorial. En-tretanto, essa marcha implicou uma série de contrastes necessários para legi-timar a presença do colonizador em terras estranhas. A presença do outro

significava, em essência, um contato cultural, social, político e econômico de transformações irreversíveis. O livro em suas várias abordagens estuda esses impactos e procura entendê-los como um processo que engloba as Américas em suas diversas realidades.

A existência de “terras livres” nas Américas foi a justificativa encontrada por diversos colonizadores para legitimar as conquistas. Os artigos publica-dos neste livro nos mostram que a fronteira significa mobilidade e fluidez, e que não houve apenas uma única noção de fronteira na história das Améri-cas, mas várias. Nos últimos séculos, o continente latino-americano possuía fronteiras diversas, as produtivas (a pecuária, a de metais preciosos), as fron-teiras agrícolas (açúcar, café, algodão), e junto a elas, as fronfron-teiras militares, de poder, bem como as lingüísticas e culturais. Essa pluralidade implica en-tender o longo processo de formação das fronteiras, das identidades criadas no transcurso do tempo e os personagens que se fixaram nessas fronteiras, e transformaram as paisagens existentes nesse caminho.

Os artigos que compõem a obra dão destaque também à importância dos povos “conquistados” e da influência mútua que os povos mantiveram com os colonizadores. Mesmo de uma forma desigual e arbitrária, os habitantes das Américas conseguiram impor certas práticas, certas influência e costu-mes, o que nos leva a um outro tópico.

Pensar no outro, naquele que faz parte do processo e que muitas vezes é esquecido tornou-se uma porta rica de entrada para o estudo da história e para os historiadores interessados em saber muito mais do que apenas com-preender fronteiras como sinônimo de recorte espacial, ou como limites uni-camente geográficos. O estudo das fronteiras demonstra que sua complexi-dade e suas implicações não podem passar despercebidas aos historiadores, uma vez que foram essas fronteiras que muitas vezes moldaram a identidade, as paisagens e a economia dos povos que aqui habitam. Para a compreensão de todos os meandros dessas fronteiras, os autores utilizaram, como seria ne-cessário, variadas fontes de análises, que podem exemplificar-se no estudo de poemas, fotografias, pinturas, e até jornais, textos e relatos, prova de que a história não é estática e nem seus interlocutores.

É interessante perceber o quão ligados estão a fronteira e o sertão, ou o lugar considerado sertão enquanto uma construção histórica. As fronteiras

Reinaldo Nishikawa

Revista Brasileira de História, vol. 26, nº51

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vão ganhando especificidades e legitimidades dependendo de onde se origina tal conceito, e vários artigos que compõem o livro conseguem vislumbrar múltiplas gamas nas diversas regiões das Américas. O livro endossa a impor-tância das transformações econômicas, políticas e sociais relacionadas ao mo-mento em que as fronteiras são criadas e transformadas pela ação do homem. Em alguns artigos publicados nos últimos tempos, os autores afirmam que a questão da fronteira não é tão discutida na historiografia latino-ameri-cana quanto na norte-amerilatino-ameri-cana, desconsiderando, segundo esses historia-dores, o papel das fronteiras como formadoras das identidades criadas na América Latina. Talvez a publicação deste livro venha a dar resposta a essa afirmação, e demonstrar o interesse dos historiadores latino-americanos para a questão das fronteiras e suas implicações.

Ao fecharmos o livro, temos a impressão de que percorremos os quatro cantos das Américas (Estados Unidos, México, Caribe, Chile, Argentina, Uru-guai e o Brasil) e conseguimos entender por que situações tão díspares quan-to as colonizações portuguesa e inglesa, por exemplo, acabaram por percor-rer o mesmo caminho em direção ao Oeste na tentativa de formar suas fronteiras. Os autores conseguiram mostrar que a conquista territorial nas Américas foi feita com sorrisos, e principalmente com muitas lágrimas. O li-vro, sem dúvida, vale um bom curso de História.

Horacio Gutiérrez, Márcia Naxara e Maria Aparecida Lopes (Org.) Fronteiras: paisagens...

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Junho de 2006

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