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INVENIRE esp2015 106 113 Maria Alessandra Bilotta 002

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Academic year: 2019

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Editorial

Fernanda Maria Guedes de Campos

Fiat Lux

Maria Adelaide Miranda

Comentário aos Livros de Reis, de Rábano Mauro: um manual ajustado ao soberano cristão

Maria Coutinho

O iluminado 51 da Biblioteca Nacional de Portugal: uma Bíblia portátil do século XIII Luís Correia de Sousa

Os Beatos

Alicia Miguélez Cavero

Os livros das Sentenças de Pedro Lombardo na Biblioteca de Alcobaça Catarina Barreira

As Ilustrações do Cânon: a propósito dum Breviário e Missal de Santa Cruz Horácio Augusto Peixeiro

As técnicas e os estilos na iluminura da Crónica Geral de Espanha de 1344 e a representação da Igreja de Santo Isidoro de Leão

Catarina Martins Tibúrcio

Iluminar no feminino: o scriptorium do Mosteiro de Jesus de Aveiro no final do século XV

Paula Freire Cardoso

“Entre os Judeus Portuguezes e Espanhoes corriaõ algumas Traducções”: a Bíblia da Ajuda, um manuscrito em romance de iniciativa judaica Tiago Moita

A Escola de Lisboa de iluminura hebraica Luís Urbano Afonso

O cofre nº 24: um livro de horas do Palácio Nacional de Mafra, caso de estudo e de intervenção

Ana Lemos, Rita Araújo e Conceição Casanova

A iconografia das margens no Livro de Horas dito de D. Leonor Delmira Espada Custódio

Um exemplo da circulação dos manuscritos jurídicos iluminados na Europa medieval: três manuscritos jurídicos iluminados preservados em Portugal

Maria Alessandra Bilotta

Tempus (non) Fugit: o calendário medieval nos manuscritos iluminados em Portugal Joana Antunes

Bibliografia 5

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INVENIRE

Revista de Bens Culturais da Igreja

INVENIRE é uma edição do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja, organismo da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais.

Directora Sandra Costa Saldanha Coordenação deste número Fernanda Maria Guedes de Campos

Comissão Científica Catarina Barreira; Fernanda Maria Guedes de Campos; Isabel Cepêda; Maria Adelaide Miranda

Colaboram neste número Alícia Miguélez Cavero; Ana Lemos; Catarina Barreira; Catarina Martins Tibúrcio; Conceição Casanova; Delmira Espada Custódio; Horácio Augusto Peixeiro; Joana Antunes; Luís Correia de Sousa; Luís Urbano Afonso; Maria Adelaide Miranda; Maria Alessandra Bilotta; Maria Coutinho; Paula Freire Cardoso; Rita Araújo; Tiago Moita

Fotografia Academia das Ciências de Lisboa; Ana Lemos; Archivo del Monasterio de Santo Domingo de Silos; Arquivo Nacional da Torre do Tombo; Balliol College; Biblio-teca da Ajuda; BiblioBiblio-teca Geral da Universi-dade de Coimbra; Biblioteca Nacional de Portugal; Biblioteca Pública de Évora; Biblioteca Pública Municipal do Porto; Bibliothèque de Genève; British Library; Bodleian Library; Catarina Barreira; Cristina Montagner; Hispanic Society of America; José Pessoa - DGPC/ADF; Luís Correia de Sousa; Luísa Oliveira - DGPC/ADF; Museu Calouste Gulbenkian; Paula Cardoso; Pierpont Morgan Library; Projecto IMAGO; Ricardo Naito; Rita Araújo

Assinaturas e publicidade Rui Almeida Design e composição SNBCI Impressão e acabamento Sersilito Distribuição Vasp

ISSN 1647-8487

Depósito legal 316372/10

Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja

Quinta do Cabeço, Porta D 1885-076 Moscavide

t. 218 855 481; f. 218 855 461 e. [email protected]

www.revistainvenire.pt

Conteúdos redigidos segundo a antiga ortografia, excepto nos casos em que os autores optaram pelo uso do novo acordo.

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Abreviaturas

ACL Academia das Ciências de Lisboa

AMSDS Archivo del Monasterio de Santo Domingo de Silos ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa

ARTIS-IHA/FLUL Instituto de História da Arte/Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

BA Biblioteca da Ajuda, Lisboa

BC Biblioteca Casanatense, Roma

BlC Balliol College, Oxford

BdL Bodleian Library, Oxford

BG Bibliothèque de Genève

BGUC Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

BL British Library, Londres

BNP Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa

BPE Biblioteca Pública de Évora

BPMP Biblioteca Pública Municipal do Porto

CEAACP-UC Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património-UC CESEM-FCSH/UNL Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical-FCSH/UNL

DGPC/ADF Direcção Geral do Património Cultural/Arquivo de Documentação Fotográfica FCSH/UNL Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/Universidade Nova de Lisboa FCT/UNL Faculdade de Ciências e Tecnologia/Universidade Nova de Lisboa FLUC Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

HSA Hispanic Society of America, Nova Iorque IEM-FCSH/UNL Instituto de Estudos Medievais-FCSH/UNL IICT Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa

MAV Museu de Aveiro

MCG Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa MNAA Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa PML Pierpont Morgan Library, Nova Iorque

PNM Palácio Nacional de Mafra

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Um exemplo da circulação

dos manuscritos jurídicos

iluminados na Europa medieval

1

Três manuscritos jurídicos iluminados preservados em Portugal

Abstract

The inclusion of Portugal in the European cultural circles prevailing throughout the Middle Ages also becomes clear by the illuminated medieval juridical manuscripts held in Portuguese library collections. In fact, these manuscripts belongs to a set of precious material evidence as to the shared cultural identity (written, legal, intellectual, artistic) and as well as the dialogue between Portugal and the rest of Europe. These codices also reveal the propensity of then Portugal, and already in effect since the Middle Ages, towards cultural openness that placed it right in the midst of the social and cultural dynamics prevailing in the Europe of this period.

Resumo

A inserção de Portugal no espaço cultural europeu durante a Idade Média, manifesta-se também ao nível dos

manuscritos jurídicos medievais iluminados, preservados em bibliotecas portuguesas. Estes manuscritos são, de facto, parte de um conjunto de preciosos testemunhos materiais da identidade cultural comum (escrita, legal, intelectual, artística) e do diálogo de Portugal com o resto da Europa. Estes códices revelam também uma propensão de Portugal, desde a Idade Média, para uma abertura cultural que o coloca plenamente nas dinâmicas sociais e culturais que afectaram a Europa nesta época.

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por

Maria Alessandra Bilotta

IEM-FCSH/UNL

Ao lado: Coimbra, BGUC, Ms. 722, fl. 2r Domenicus de Sancto Geminiano, Lectrura super sexto libro Decretalium

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A

inserção de Portugal no espaço cultural europeu

durante a Idade Média manifesta-se, como tivemos já ocasião de demonstrar2, através dos manuscritos

jurídicos medievais iluminados, preservados em bibliotecas portuguesas. Estes manuscritos são, como veremos, parte de um conjunto de preciosos testemunhos materiais da identidade cultural comum (escrita, legal, intelectual, artís-tica) e do diálogo de Portugal com o resto da Europa. Estes códices revelam também a propensão de Portugal, desde a Idade Média, para uma abertura cultural que o coloca ple-namente nas dinâmicas sociais e culturais que afectaram a Europa nesta época3. Preciosos livros medievais,

contribu-em, assim, para preservar a memória do contacto e mere-cem, portanto, ser postos em relevo.

BIBLIOTECA NACIONALDE PORTUGAL, LISBOA MS. ILUMINADO 111, FUERO JUZGO

O primeiro manuscrito de que tratamos é o códice

Ilumina-do 111, preservado na Biblioteca Nacional de Portugal4.

Trata-se de uma cópia do século XIV com o texto do Fuero Jusgo,

uma tradução na língua castelhana do Liber Judiciorum (ou Lex

Visigothorum). O Codigo visigótico, ou Lex romana visigothorum,

foi uma compilação de leis visigodas, de carácter territorial, publicada provavelmente em 654 e preparada pelo rei visigodo Recesvinto (653-672). Trata-se de um verdadeiro monumento jurídico do período visigodo. O Codigo foi sancionado pelo VIII Concílio de Toledo (653), atestando também nesta altura a relevância da presença da Igreja na ratificação do direito. Esta compilação, com algumas mudanças, foi utilizada como fonte para a composição da legislação foralenga durante o reinado de Fernando III de Castela e Leon (1217-1252)

con-substanciada naoutorga de forais a algumas povoações no Sul da PenínsulaIbérica com o nome de Fuero Juzgo.

A Lex Visigothorum foi muito inspirada pela tradição

ro-mana, também do ponto de vista formal, pois o Codigo visigótico foi

dividido em doze livros, como o Código de Justiniano. O Fuero

Juzgo, com os respetivos costumes

municipais, constitui a base mais importante do direito durante mui-tos séculos. A lei visigótica revela-va uma identidade peninsular até ao século XII. Nesta época, de fac-to, esta lei foi substituída pelo

Co-dex de Justiniano no Direito civil e

pelo Decreto de Graciano no

Direi-to eclesiástico (MatDirei-toso, 1983: 115,

119). Em documentos portugueses,

o Código visigótico é

frequente-mente citado nas formas “lex

gotho-rum”, “lex gothica”, “liber judicum”,

liber judicialis”, facto que

testemu-nha bem como o Código visigótico foi extremamente útil no exercício da justiça na Península Ibérica e, consequentemente, como foi uma das compilações jurídicas mais importantes da Idade Média (Cf. Ferreira de Almeida, 1991: 206). Quando o Liber Visigothorum foi

traduzido para o castelhano e reno-meado Fuero Juzgo, o rei Afonso X

el Sabio (1252-1284) usou esta colecção e o seu clausurado para promulgar o Fuero real (dito também Fuero de las leyes),

entre 1252 e 1255 (Nascimento, 2000a: 364).

O manuscrito Iluminado 111, preservado na Biblioteca

Nacional de Portugal, pertencia a Juan Afonso, Regedor de Logroño, Espanha (1587) (Nascimento, 2000a: 364-365)5. O

códice encontra-se escrito em duas colunas de texto, embora em letra que não pode ser considerada como carolina, como

indicado na notícia do manuscrito no site da Biblioteca Nacio-nal de Portugal (Nascimento, 2000a: 364). De facto, não se trata nem duma escrita gótica textualis, nem duma escrita caro-lina. No primeiro caso, porque não são cumpridas todas as regras paleográficas da escrita gótica6. Por outro lado, não se

pode falar igualmente de escrita carolina, uma vez que o

pro-cesso de divisão dos traços é tão avançado que a escrita é pau-sada, observando-se bem a sua execução em muitos elementos justapostos, para compor as letras individuais. A denominação mais correcta para esta tipologia de escrita continua a ser

“minúscula de transição”. A partir da análise da sua escrita, o

manuscrito pode ser datado do século XIII, não sendo de des-cartar uma semelhança gráfica com produtos similares ingle-ses do mesmo período7. Por outro lado, uma certa semelhança

já havia sido notada no passado entre a escrita inglesa

(normanda) e alguns códices portugueses, certamente relacio-nados com a produção de Cister, como por exemplo os Passiones

Seu Miraculade São Tomás de Canterbury (Lisboa, Biblioteca

Nacional de Portugal, Alc. 1438), copiado no mosteiro de

Lor-vão (Cf. Cherubini-Pratesi, 2010: 427, nota 17). A escrita do

Fuero Juzgo de Lisboa é muito similar à escrita normanda,

particularmente na maneira de alcançar a letra “s”, geralmente

com os encontros das curvas para a cima, com ogivas muito

acentuadas; a letra “g”, sob a forma quase de um 8, com o olho baixo que forma um ângulo para a esquerda; e a letra “a”, com

“barriga” muito alta, respeitante ao trato vertical9. Estas

ob-servações não são surpreendentes à luz das relações existentes entre Portugal e o Norte da Europa nos séculos XII a XIII, devidas, não só a razões comerciais, mas também religiosas, como as Cruza-das na Terra Santa (Cf. Farelo,

2001-2002: 110-112, notas 33-37).

O Fuero Juzgo de Lisboa foi

embelezado com muitas letras ini-ciais filigranadas em azul, verde e vermelho, e com outras historia-das, correspondentes ao incipit de alguns dos capítulos e, muito pro-vavelmente, por duas mãos dife-rentes. A paleta de tinta usada foi muito simples, limitada ao verme-lho e verde, definidos com pincela-das grandes e planas. O espaço delimitado pelo corpo zoomórfico de todas as letras iniciais ilumina-das foi ocupado de um modo repe-titivo por duas personagens, um rei e um bispo, também representados no interior de arcadas trilóbulas, nos quadros iluminados, feitos no início de qualquer capítulo. A sua presença nas letras e nas iluminu-ras iniciais é de grande importância e valor, pois constituem a personi-ficação do poder temporal e do

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poder espiritual (Mattoso, 1983: 119). Este manuscrito perten-ce à fase inicial da iluminura de argumento jurídico, que se caracteriza por uma uniformidade quase absoluta nas escolhas iconográficas e composicionais, onde as figuras foram sempre colocadas rigidamente, de pé ou sentadas, e incorporadas em quadrados muito definidos. Essas personagens quase nunca têm uma ligação directa com o texto, mas evocam visual-mente um conceito mais geral do direito e do seu exercício, da ação judicial e do julgamento.

ARQUIVO NACIONALDA TORREDO TOMBO, LISBOA

ORDEMDE SÃO JERÓNIMO, MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE BELÉM, LIV. 81, DECRETALESCUMGLOSSIS

Uma fase mais desenvolvida da ilustração dos manuscritos jurídicos é representada pelo liv. 8110 (cota antiga: Casa Forte 146), do fundo do Mosteiro de Santa Maria de Belém,

conser-vado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Manuscrito de muito boa qualidade e bem cuidado na sua decoração, provinha do Mosteiro de Lorvão, de acordo com Isaías da Rosa Pereira

(Pereira, 1964-67: 30)11. No entanto, esta proveniência deverá

ainda ser esclarecida, o que nos propomos fazer numa próxima contribuição. Este códice, de grande formato (450x280 mm), contém o texto das Decretais compiladas por ordem do papa

Gregório IX (papa entre 1227-1241). Trata-se de um dos exemplares desta obra conservados em Portugal12. Como é

conhecido, o pontífice encarregou em 1230 o canonista domi-nicano Raimundo de Peñafort (1175-1275), seu capelão e con-fessor, de organizar todo o material canónico produzido desde o tempo de Graciano, as Quinque compilationes antiquae (Cahu,

2013: 18). As Decretais do Gregório IX fazem parte, portanto,

do Ius novum, iniciado por volta de 1140 com o aparecimento

do Decretumde Graciano (Cahu, 2013: 15). O papa Gregório

IX publicou as Decretais ou Liber Extra, o seu título técnico, em 1234, no dia 5 de Setembro, com a bula Rex pacificus.

Martin Bertram localizou até agora 675 manuscritos destas

Decretais (Cf. Bertram, 2010). Como estes dados indicam,

esta-mos assim perante uma obra muito difundida e utilizada na Idade Média, o que constituirá certamente um bom exemplo da produção de livros realizada em ambiente universitário medieval (Cahu, 2013: 21). Esta colecção (que o papa chamou

Compilatio), que se tornou uma parte do Corpus Iuris Canonicis,

estruturava-se em 5 livros: 1º Fontes de direito, bispos e juí-zes; 2º Matéria processual; 3º Do clero, sacramento e das coi-sas; 4º Matrimónio; 5º Delitos, penas e processo penal (iudex,

iudicium, clerus, sponsalia, crimen). A obra inclui 185 títulos (43

no Livro I, 30 no Livro II, 50 no Livro III, 21 no Livro IV, 41 no Livro V) e 1.871 capítulos (Cahu, 2013: 18). De acordo com a subdivisão estabelecida pelo jurisconsulto e canonista italia-no Bernardo de Parma (falecido em 1213), entre 1188 e 1192, as cinco secções das Decretais incluem: 1) De summa trinitate et

fide catholica; 2) De iudicis; 3) De vita et honestate clericorum; 4)

De sponsalibus et matrimoniis; 5) De accusationibus (Cf. L’Engle,

2012: 25).

No manuscrito da Torre do Tombo, o texto das Decretais foi organizado, como habitualmente, em duas colunas, sendo enquadrado de forma harmoniosa e ampla por outras duas colunas, com o texto da glosa13. Neste manuscrito trata-se,

como pudemos verificar, da glosa ordinária14 às Decretais

(glossa ordinaria in Decretales) do supracitado Bernardo de

Par-ma (Bernardus de Botone Parmensis), que por este motivo foi

apelidado Decretalium apparatus compilator. O incipit da glosa é: In huius libri principio quinque sunt precipue prenotanda videlicet

[...]; o explicité: [...] facere quis homagium compellatur. Explicit.

Explicit textus quinti libri decretalium. Deo gratias15. As duas

escritas presentes do manuscrito, a da glosa e a do próprio texto das Decretais, são muito diferentes. O texto das Decretais foi redigido numa escrita gótica, que imita a rotunda de

Bolo-nha, muito provavelmente por uma mão vinda do sul de França, onde esta escrita era geralmente usada (veja-se, entre outrascaracterísticas gráficas, o tratamento dos pés das letras que não é italiano ou ibérico). A glosa, por sua vez, foi redigida em escrita gótica textualis do norte de França (Paris ou um outro lugar no norte). Contudo, considerando a disposição gráfica das páginas, parece difícil defender que o texto e a glo-sa não sejam contemporâneos16. Consideramos, portanto, que

duas mãos contemporâneas (mas de diferentes culturas gráfi-cas), uma do norte e outra do sul de França, tenham colabora-do no trabalho de escrita deste manuscrito. A mise en page

tex-to/glosa neste manuscrito é "equilibrada", ou seja, as linhas do texto das Decretaisvariam nas páginas em função da densidade da glosa. Isto implica que a transcrição do texto tenha sido concebida a priori, em função da quantidade de glosa corres-pondente. Que o exemplar das Decretais da Torre do Tombo

tenha duas mãos diferentes, é algo perfeitamente possível e normal. De facto, nos contratos celebrados pelos estudantes da universidade de Bolonha para a produção de livros no século XIII, por exemplo, percebe-se muitas vezes que as operações

de scribere e de glosaresão confiadas a diferentes copistas, que

tinham de transcrever o texto e os aparelhos das glosas em duas paralelas de peças, que surgem em dois momentos dife-rentes. Se atendermos a que em todos os inventários dos li-vreiros da universidade - os estacionários (stationarii), as peças do texto e da glosa (em latim pecias; ou seja cada um dos

cader-nos independentes de que eram compostos os exemplares) - foram elaboradas em duas exemplaria (as cópias oficiais dos manuais universitários, licenciadas pelas universidades e consi-deradas autênticas, ou seja corretas) separadas, verificamos como tudo isso tornou muito desafiador o trabalho de pagina-ção para os copiadores17. Apesar do sistema de peça (em latim

pecia) não continuar tão em voga no século XIV, num

momen-to em que a procura não era tão intensa como o fora anterior-mente, podemos supor que as pecias do texto e da glosa do

nosso manuscrito foram contratadas em simultâneo, mas con-fiadas separadamente a dois copistas que trabalhavam em conjunto, o que possibilitou reduzir para metade o tempo de preparação do códice18. As Decretais da Torre do Tombo

apre-sentam tambémmuitas anotações, additiones, que têm a finali-dade de integrar o texto da glosa (Bertram, 1976: 30; Cahu,

2013: 86), nas margens e nos espaçamentos entre as colunas,

indicando que o códice foi utilizado e estudado. Um outro ele-mento muito interessante neste manuscrito, identificado por nós, é a fórmula de saudação que se lê na primeira página (fl.

1r), dirigida à Universidade de Toulouse: Gregorius episcopus servus servorum dei dilectis filiis doctoribus et scolaribus universis

Tholose commorantibus salutem et apostolicam benedictionem,

com uma marca de inserção para universis antes de Tholose19.

Esta anotação foi adicionada por uma terceira mão, que es-creveu numa tinta muito escura (e frágil). Esta mão, muito angular, com os seus plenos e esbeltos muito marcados, parece mais claramente de Toulouse, podendo comparar-se com a escrita do escriba francês meridional Amigotus (o copista da

(8)

observações demonstram,

portan-to, que o manuscrito das Decretais da Torre do Tombo estava desti-nado a um cliente da Universida-de Universida-de Toulouse e, dada a escrita do seu texto, foi também, com toda a probabilidade, transcrito por um escriba de Toulouse, talvez numa das oficinas universitárias de

cópia. Parece-nos interessante notar neste contexto que a Biblio-teca Nacional de Portugal preser-vada uma outra cópia das Decretais de Gregório IX, o manuscrito

Iluminado 49, em que a fórmula

de saudação está ligada à Univer-sidade de Paris (fl. 1r): Gregorius episcopus servus servorum Dei dilec-tis filiis doctoribus et scolaribus

Parisius conmorantibus [...] (Cf.

Pereira, 1962-63: 29). Estes dois manuscritos são, assim, uma pro-va da presença de manuscritos estrangeiros em Portugal e tam-bém um testemunho das relações culturais que uniam Portugal e França.

A decoração das Decretais da Torre do Tombo, como

sem-pre acontece nos manuscritos jurídicos, tinha a finalidade de subdividir visualmente a estrutura do texto em livros, capítulos e parágrafos, a fim de facilitar a leitura. A decoração deste códi-ce, datável da primeira metade do século XIV, reforçada pelo uso de folhas de ouro, deveu-se a uma mão. Na verdade, uma mão que realizou as iniciais decoradas com motivos vegetais, apresentando as diferentes secções da glosa e do texto das

De-cretais, e as iluminuras colocadas no incipit dos cinco Livros que

compõem a obra e que ocupam a largura correspondente a uma coluna do texto. O iluminador das cenas historiadas parece ligado ao contexto parisiense, e o seu trabalho situa-se na época dos primórdios de Jean Pucelle, entre 1315-1320.

No entanto, as hastes frondosas das iniciais são pintadas em rosa, como em Toulouse. Na verdade, as iniciais decoradas, muito semelhantes do ponto de vista estilístico àquelas às das

Decretais da Torre do Tombo, encontram-se noutros

manuscri-tos originários de Toulouse, como é o caso de um exemplar do

Decretumdo Graciano, da Biblioteca Apostólica Vaticana (Vat.

lat. 2493), que recentemente identificámos e estudámos, ilumi-nado em Toulouse em meados do século XIV (Bilotta, no prelo) e um outro exemplar do Decretum do Graciano, da Biblioteca

Municipal de Avinhão (ms. 659), iluminado em Toulouse entre

1340 e 1350 (Stirnemann, 1993: 124-127)21. Até mesmo as

inici-ais filigranadas (que no manuscrito da Torre do Tombo têm o corpo azul e filigranas vermelhas no contorno, ou vice-versa), apresentam características muito semelhantes às de outros ma-nuscritos originários do sul da França, de Toulouse e da sua região, como por exemplo o Decretum do Graciano, acima

men-cionado (Vat. lat. 2493), e um outro exemplar do Decretum do

Graciano, hoje, infelizmente, desmembrado, mas que temos vindo a estudar e reconstituir parcialmente (Bilotta, 2008). Du-as páginDu-as deste último manuscrito encontram-se actualmente preservadas e expostas no Museu da Fundação Calouste Gul-benkian em Lisboa22, juntamente com um belo exemplar do

Decreto de Graciano, datado da primeira metade do século XIV,

que será objecto de uma nossa próxima contribuição.

É possível encontrar este estilo de pintura do ilumina-dor das Decretais da Torre do Tombo (e essas hastes

pinta-das em rosa como em Toulouse) em dois manuscritos da Biblioteca Municipal de Reims, os manuscritos 818 e 82323,

dois Codices de Justiniano, talvez um pouco posteriores na

sua produção. Duas hipóteses são possíveis: ou este artista trabalhou em Paris, mas adaptou-se ao gosto de um cliente de Toulouse; ou mudou-se do norte para Toulouse, onde realizaria o seu trabalho. Esta segunda hipótese parece-nos a menos provável24.

Como referido anteriormente, o início de cada Livro das

Decretais é introduzido por uma iluminura25. Na primeira, das

Decretais da Torre do Tombo (fl. 1r), descreve-se uma cena de

apresentação da obra concluída ao seu cliente pelo autor, cer-cado por um grupo de prelados, um bispo, um monge e um cardeal, que evocam, muito provavelmente, os membros da Cúria. Trata-se de uma iconografia habitual, usada para ilus-trar o primeiro Livro das Decretais (L’Engle, 2012: 30-32;

Cahu, 2013: 142). Iconografias semelhantes à do manuscrito da Torre do Tombo estão presentes, por exemplo, noutros manuscritos franceses como o texto das Decretais, todos eles

datados de entre as últimas décadas do século XIII e o início do século XIV: o códice ms. 376 da Biblioteca Municipal em Angers26, fl. 2r; o códice ms. 359 da Biblioteca Municipal em

Amiens27, fl. 9r; o códice ms. 434 da Biblioteca Municipal em

Saint-Omer, fl. 1r (Cahu, 2013: 118, fig. 29); e o códice ms. E.

51 da Biblioteca Municipal em Rouen, fl. 1r (Cahu, 2013: 118,

fig. 27; 524, fig. 27). Num manuscrito italiano, iluminado em Bolonha e preservado na Biblioteca Apostólica Vaticana (Vat. lat. 1388), na cena de dedicação que introduz o texto do pri-meiro Livro das Decretais, a representação da Cúria papal é representada em detalhe28.

Embora não esteja ainda esclarecido como as Decretais da

Torre do Tombo chegaram a Lisboa, a presença em Portugal de manuscritos jurídicos originários de França não deve sur-preender. De facto, como foi esclarecido recentemente por Mário Farelo, o advento das universidades a partir do século

Lisboa, MCG (Gratianus, Decretum) LA 212, fl. 1r e M. 36B, fragmento (folha simples) Fotos MCG

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XIII e o seu desenvolvimento nos séculos subsequentes, incre-mentou o fenómeno de deslocação dos estudantes e mestres portugueses para as universidades europeias de maior nomea-da. É o caso das universidades de Paris (pense-se, só para dar algum exemplos, no conhecido médico e bispo Afonso Dinis e nos mestres franciscanos Álvaro Pais e Gonçalo Hispano), de Bolonha (como, por exemplo, o mestre João de Deus no século XIII) e, mais tarde, as de Oxford, Salamanca, Montpellier e Toulouse, como foi claramente demonstrado pelos trabalhos já clássicos de Joaquim Veríssimo Serrão (Cf. Farelo, 1999,

2001-2002: 162-163; Veríssimo Serrão, 1962, 1970, 1971). Dessa

forma, os estudantes portugueses participaram e alimentaram, nos séculos XIII e XIV, juntamente com os estudantes de outras universidades na Cristandade, o fenómeno da

peregrina-tio academica, ou seja, da peregrinação académica internacional,

como foi definida por Jacques Verger. Trata-se, como é conhecido, do fenómeno de deslocamento dos estudantes para alcançar precisamente tais universidades (Verger,

1991). Neste contexto de mobilidades, circulações e

intercâm-bios, é inteiramente possível, portanto, que os manuscritos jurídicos produzidos em França e noutras partes da Europa tenham sido transportados para Portugal. É claro que a pere-grinação académica e os diferentes fenómenos de circulação relacionados com a mobilidade universitária (circulações dos estudantes, dos mestres, dos iluminadores e dos copistas, transporte dos manuscritos) não foram a única causa desta circulação29, mas certamente estes fenómenos terão

contribuí-do para que chegassem a Portugal manuscritos estrangeiros. Sabemos, por exemplo, através do estudo de Sven Stelling-Michaud, que entre os séculos XIII e XIV, era costume entre os estudantes estrangeiros que tinham concluído os seus estudos em Bolonha levarem os seus livros manuscritos, feitos na cidade bolonhesa, para os países de origem, através de companhias comerciais (Cf. Stelling-Michaud, 1963). A presença de france-ses em Portugal, particularmente daqueles eclesiásticos oriun-dos do sul de França, entre os séculos XIII e XIV (estudada por GérardPradalier, Rosário Morujão e Mário Farelo), deve ter facilitado o transporte de manuscritos estrangeiros para Portugal. Mas também a presença de juristas italianos, como André Anes, neto do jurista italiano Francisco Acúrcio, docu-mentado em Coimbra (Pradalier, 1982; Morujão, 2005; Farelo,

2010). Além disso, os mesmos dois filhos de Francisco Acúrcio,

como é bem conhecido, terão ensinado: um em Salamanca

(Guilherme), outro em Inglaterra e, provavelmente, também

em Toulouse (Francisco) (Costa, 1962; Soetermeer 1985).

BIBLIOTECA GERALDA UNIVERSIDADE, COIMBRA MS. 3155, CORPUS IURIS CIVILIS

Um outro manuscrito que provavelmente chegou a Portu-gal proveniente da França meridional, é o códice ms. 3155, preservado na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra30.

Trata-se de um exemplar de grande formato (310x490 mm), datável do início do século XIV, com o texto dos cinco volu-mes do Corpus Iuris Civilis (em português Corpo de Direito Ci-vil), a compilação do direito romano, encomendada pelo impe-rador Justiniano: 1) as Pandectas ou Digesto Velho (Digesta seu

Pandectae, uma compilação de fragmentos de jurisconsultos

clássicos; fls. 1r-104v); 2) o Inforciatum (fls. 107r-194v); 3) o

Digesto Novo (fls. 195r-289v); 4) os três livros do Código (fls.

291r-410v); 5) os quatros livros das Institutiones ou Instituta

(um manual escolar que servia aos estudantes como

introdu-ção ao direito compendiado no Digesto; fls. 411r-428v) e o

Authenticum (colecção de 134 novelas que chegam até o ano

556; fls. 429r-472r). Como é sabido, o Corpus constitui o

fun-damento do ensino de Direito Civil nas universidades europei-as a partir do século XIII. Muitos dos códices do Corpus Iuris

Civilischegaram até nós intactos. Outros, no entanto, foram

posteriormente desmembrados e as suas folhas aproveitadas para outros fins, como pastas de documentos de arquivo, ou de capa a um volume encadernado no período moderno (como é o caso do fragmento que constitui a capa do documento nº 1383 do Arquivo Histórico Municipal do Porto). O códice de Coim-bra não tem a glosa de Acúrcio, sendo redigido numa escrita gótica textualis, não rotunda, provavelmente francesa, com

abreviaturas tipicamente italianas (especialmente a abreviatu-ra "qui"). Italiana é também, por exemplo, a conjunção et (7)

cortada com uma linha transversal. Características gráficas italianas estendem-se ainda a outros detalhes, como os tituli muito curtos e a diferença de tratamento entre os pés das le-tras m/n. Essas características paleográficas permitem supor que o copista tinha sido formado em Itália, ou sobre modelos italianos. Interessante é também o arranjo das rubricas, pro-longadas para baixo. Trata-se porventura de uma solução ad hoc, para remediar o tamanho errado dos espaços destinados às rubricas, cuja escrita deverá ser francesa. O copista do texto não é um mestre, pois verifica-se não ser bom no cálculo dos espaços utilizados para títulos. Nessa época, em Bolonha, as iniciais rubricadas ou decoradas já não estão nas margens ou nos espaçamentos entre as colunas do texto, mas eram incor-poradas no espaço do texto. Nos exemplarianão havia decora-ções e o escriba do códice de Coimbra copiou o exemplar sem

ter a habilidade dos copistas de Bolonha31. O manuscrito de

Coimbra é um manuscrito inteiramente copiado segundo no sistema universitário de peça (pecia) como se pode deduzir das

indicações escritas nas margens das páginas, onde são anota-dos os números progressivos de cada peça copiada32. Trata-se,

portanto, de um manuscrito realizado em contexto universitá-rio. Trata-se também de um manuscrito de luxo, uma vez que foi adornado com iniciais iluminadas, historiadas e ornadas, que apenas os estudantes muito ricos podiam comprar. É constituído por 39 cadernos, na maioria de seis fólios cada um, o que nos permite supor que foi feito em França, local onde os cadernos dos manuscritos jurídicos são compostos de seis folhas (enquanto em Bolonha são compostos de cinco folhas). A indicação do início da peciano códice também o liga a Fran-ça. Em Bolonha e

em Pádua, o texto

do Digestum Vetus

foi copiado por dois exemplaria, o

primeiro dividido em 38 peciae, o

segundo em 35. No manuscrito de Coimbra, na Pars

II do Digestum, a

primeira indicação

de peciaestá no fl.

54rb: .II. p. e a

última é no fl.

102rb: .XXXIIII. p.

Como o texto da

Coimbra, BGUC, Ms. 3155, fl. 1v

(Corpus Juris Civilis)

Foto BGUC 111

FI

A

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(10)

segunda parte termina no fl.

104v, é provável

que esta parti-ção coincida com a de Bolo-nha (= 35

peci-ae). A

possibili-dade de noutras universidades

(não italianas)

terem sido utili-zados exempla-riacom partição idêntica às dos m a n u s c r i t o s italianos não é surpreendente, considerando que os copistas e os mestres italia-nos, como referi-do, circularam pela Europa nesta altura. Como dissemos anteriormente, o manuscrito de Coimbra não contém a glosa, conhecida como a Magna Glossa, de Francisco

Acúrcio sobre o Corpus Iuris Civilis. Circunstância que não é habi-tual, a falta desta glosa poderá significar que quem o encomendou não estava interessado na glosa de Acúrcio33. O Digestum de

Coimbra, ao contrário das Decretais da Torre do Tombo, não apresenta additiones e os vestígios de uso, por conseguinte, a sua elaboração não pode ser circunscrita a um contexto universitário.

Uma anotação redigida no fl. 289v, em correspondência ao

explicit do Digestum novum (finis Digesti novi, amen), permite

apreender algumas informações sobre as vicissitudes pelas

quais passou este códice: “Ego Johanes Fabri recepi in solutum

hunc librum cum quod alio volumina in quo sunt glo. C. Et trium librorum instituta etiam autenticum pro XX libris. Datum die mar-cis post festum exaltacionis sancte crumar-cis anno domini M° CCC°

xlviij”34. O ano 1348 é, por conseguinte, um terminus ante quem

para a datação do códice. De acordo com Saul Gomes, este

Jean Fabri mencionado no códice de Coimbra poderia ser iden-tificado com o homónimo que foi bispo de Carcassonne entre

1362 e 1370 (Cf. Gomes, 2009: 55).

Muito provavelmente este manuscrito pertence ao núcleo primitivo da Biblioteca da Universidade de Coimbra (Cf. Mi-randa, 1999b: 274). Saul Gomes sugeriu também que o manus-crito do Corpus Iuris Civilis possa ter entrado nos fundos da

Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra juntamente com outros manuscritos legais, datados do século XV, com os co-mentários de Domenico de S. Gimignano (ms. 722) e João de Imola (ms. 721), a partir da antiga biblioteca do bibliófilo bre-tão D. Jean du Chastel, bispo de Carcassonne entre 1459 e

1475 (Cf. Gomes, 2009: 55-56), o ano da sua morte35.

A decoração do manuscrito é homogénea e consiste em iniciais rubricadas a vermelho ou a azul, decoradas com moti-vos vegetalistas e de animais, e iniciais historiadas (presentes até ao final do Digesto Velho ao fl. 104v). Estas últimas, assim como as iniciais decoradas, devem-se a uma única mão. As iniciais historiadas, embelezadas pela utilização do ouro, foram colocadas no início dos Livros e apresentam uma estreita liga-ção temática com as secções do texto, seguindo a configuraliga-ção ornamental elaborada na produção iluminada em Paris do terceiro quartel do século XIII. Na verdade, as letras iniciais com rebentos de plantas, que se estendem na área interna da letra inicial, em alguns casos, habitadas por animais, reais ou imaginários, e por cabeças humanas, são elementos ornamen-tais que se espalharam em Paris desde meados do século XIII. Trata-se, portanto, de uma decoração em estilo francês, o que nos permite supor que este manuscrito, tal como as Decretais da Torre do Tombo, foi iluminado em França. Dado que a escrita tem características gráficas italianas, é plausível que o nosso códice tenha sido escrito no sul de França, onde a escrita italiana era mais conhecida.

Os manuscritos examinados nestas páginas atestam, por-tanto, a presença de códices estrangeiros em Portugal, de-monstrando que, apesar da sua localização periférica, integrava já na Idade Média o espaço cultural europeu, entre os séculos XIII e XIV. Espaço fértil para o diálogo cultural, intercâm-bios, transmissões e circulações de pessoas, bens, objectos, modelos e livros, deram origem, com o seu dinamismo, a nu-merosas e fecundas experiências.

1. Gostaria de agradecer aos meus amigos e colegas, Mário Farelo,

Pedro Pinto, Gonçalo Silva, André Vitória, Rosário Morujão e Anísio Miguel de Sousa Saraiva, pelos conselhos e ajuda durante a preparação deste artigo. Agradeço também à Doutora Isabel João Ramires da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, pela amabilidade e valiosa colaboração.

2. M. A. Bilotta, Os manuscritos jurídicos iluminados da BNP. Quatro

exemplos significativos. Seminário realizado no dia 5 de setembro de

2013, na Biblioteca Nacional de Portugal. “Manuscritos iluminados.

A União Europeia também começou assim”, entrevista com Maria Alessandra Bilotta por Carolina Pelicano Falcão, publicada no dia 23

de setembro de 2013 no Jornal I. Disponível em http://

www.ionline.pt/artigos/liv/manuscritos-iluminados-uniao-europeia -tambem-comecou-assim [consultado a 10 de março de 2014].

3. Sobre este assunto, sobretudo a partir da análise da biblioteca do

mosteiro de Sta. Cruz de Coimbra conservada no Porto, veja-se Meirinhos, 2001.

4. Sobre os códices Iluminados da BNP veja-se a notícia no site da

Biblioteca (com bibliografia), disponível em http:// www.bnportugal.pt [consultado a 10 de março de 2014]. O códice

Iluminado 111 encontra-se inteiramente digitalizado no site da

mesma Biblioteca, disponível em http://purl.pt/23972 [consultado a 10 de março de 2014].

5. A descrição do manuscrito está disponível também on-line na base

de dados “PhiloBiblon” da Universidade de Berkeley; e o

manuscri-to, inteiramente digitalizado no catálogo on-lineda BNP, disponível

em http://purl.pt/23972 [consultado a 20 de março de 2014].

6. As três regras de Wilhelm Meyer, relacionadas com a

sobre-posição das curvas opostas e com o uso de "r" e "d" rodadas, e as duas preconizadas por Stefano Zamponi relativas à

eli-minação e ao encerramento das letras abertas à direita. Cf.

Zamponi, 1988. Artigo parcialmente disponível no site da Universi-dade de Cassino: http://www.let.unicas.it/dida/links/didattica/ palma/testi/zamponi1.htm [consultado a 20 de março de 2014].

7. Anteriormente, o códice foi datado do século XIV (Mattoso, 1983:

119; Ferreira de Almeida, 1991: 206).

Coimbra, BGUC, Ms. 721, fl. 2r (Johannes de Imola,

Commentaria super Decretales) | Foto BGUC

112

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8. Sobre este manuscrito veja-se Duggan, 1997. Diponível em http:// hispaniasacra.revistas.csic.es/index.php/hispaniasacra/article/ viewFile/77/76

9. Agradeço a Paolo Cherubini as importantes observações sobre a

escri-ta deste manuscrito (comunicação escriescri-ta de 26 de março de 2014).

10. O manuscrito está inteiramente digitalizado no site Digitarq do

Arquivo Nacional da Torre do Tombo: http://

digitarq.dgarq.gov.pt [consultado a 10 de março de 2014].

11. Sobre Lorvão como centro produtor de manuscritos veja-se Rocha,

2007/2008; Nascimento 2008, 2011.

12. Os outros são: Lisboa, BNP, Alc. 306, 307, 308; Iluminado 49. Cf.

Bertram, 2010.

13. Na verdade, como se sabe, a glosa é um comentário sobre o texto

legal em que são analisadas algumas passagens do texto ou algu-mas palavras específicas, a fim de ajudar o leitor a compreender melhor o texto. Num um texto jurídico podemos encontrar glosas interlineares, marginais, o aparelho e a glosa ordinária. Cf. Ascheri,

2000: 211; Cahu, 2013: 84.

14. A glosa ordinária é o comentário oficial ao texto legal aprovado pela Universidade. Cf. Ascheri, 2000: 212; Cahu, 2013: 85.

15. No Inventário dos códices iluminados até 1500 (1994) a glosa do

ma-nuscrito é erroneamente indicada como glosa do Guido de Baiso

(Guido Abaisi; latim medieval: Guido a Baysio, morreu em 1313),

jurisconsulto e canonista de Bolonha; trata-se em vez da glosa do

Bernardus de Botone Parmensis. Agradeço a Martin Bertram as

in-formações sobre o texto que me forneceu (comunicação escrita do 17 de março de 2014).

16. Agradeço a Marc Smith e François Avril as importantes

informa-ções sobre a análise paleográfica deste manuscrito (comunicainforma-ções escritas de 17 e de 25 de março de 2014).

17. Sobre a estrutura da glosa nos manuscritos jurídicos medievais veja

-se Maniaci, 2002; Devoti,1999, 2000.

18. Agradeço a Ezio Ornato as importantes observações sobre a glosa

deste manuscrito (comunicação escrita de 20 de março de 2014). Sobre o sistema da peça veja-se Soetermeer, 1997; Murano, 2005.

19. Agradeço a Marc Smith a ajuda na interpretação da inscrição

(comunicação escrita do 17 de março de 2014).

20. Agradeço a François Avril as informações sobre a anotação que me

forneceu (comunicação escrita de 25 de março de 2014). Sobre o

escriba Amigotus veja-se Stones, 2005.

21. As reproduções fotográficas deste manuscrito estão disponíveis

on-line na base "Enluminures": http://www.enluminures.culture.fr [consultado a 10 de março de 2014].

22. Lisboa, Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, M. 36A e M.

36B. Cf. Bilotta, 2008: 54-55, 62-63.

23. A reprodução destes manuscritos está disponível on-line na base

"Enluminures”, idem.

24. Agradeço a François Avril as importantes observações sobre o estilo

deste manuscrito (comunicação escrita de 25 de março de 2014).

25. A análise do programa iconográfico deste manuscrito será o

assunto duma nossa próxima contribuição.

26. A reprodução desta iluminura está disponível on-line na base

"Enluminures”idem. Veja-se também Cahu, 2013: 125, figs.

39, 256.

27. A reprodução desta iluminura está disponível on-line na base

"Enluminures”idem.. Veja-se também Cahu, 2013: 110, fig. 14.

28. A reprodução desta iluminura está disponível on-line na obra

Decretales Pictae. Le miniature nei manoscritti delle Decretali di

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tenuto all’Istituto Storico Germanico, Roma 3-4 marzo 2010,

a cura di Martin Bertram e Silvia Di Paolo, Indici compilati da Marta Pavón Ramírez, Università degli Studi Roma Tre, Roma 2012, p. 382, fig. 6: http://dspace-roma3.caspur.it/ handle/2307/711 [consultado a 10 de março de 2014].

29. Catarina Barreira fala em “Nomadismo” para definir esta circulação.

Cf. https://www.academia.edu/3603326/Contributos_para_o

_estudo_do_Compendium_Theologiae_Veritatis_no_scriptorium_de_

Sta._Maria_de_Alcobaca [consultado a 10 de março de 2014].

30. O manuscrito está inteiramente digitalizado no site Alma

Ma-ter da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:http://

almamater.uc.pt [consultado a 10 de março de 2014].

31. Agradeço a Marc Smith e a Giovanna Murano as importantes

observações sobre a escrita deste manuscrito (comunicações escritas de 22 e de 24 de março e de 1 abril de 2014).

32. Este aspecto do manuscrito já havia sido indicado por Gomes,

2009: 55.

33. Agradeço a Giovanna Murano as importantes observações

sobre o sistema da peciadeste manuscrito (comunicação

escri-ta de 24 de março de 2014).

34. Esta anotação também foi publicada por Gomes, 2009: 55.

35. Sobre o Jean du Chastel e a sua atividade de bibliófilo veja-se

o site editado por Jean-Luc Deuffic, Bibliophiles bretons du

Moyen Âge - Jehan du Chastel, disponível em https://

sites.google.com/site/bibliophilesbretons/ [consultado a 10 de março de 2014].

Porto, AHMP, 1383, capa (Digestum, fragmento/Justinianus) Foto AHMP

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