‘
Organizadoras
Leonice Seolin Dias Sandra Medina Benini
Estudos ambientais aplicados em BACIAS HIDROGRÁFICAS
2
aEdição
Revisada e Ampliada
TUPÃ - SP ANAP
2016
Editora
ANAP - Associação Amigos da Natureza da Alta Paulista Pessoa de Direito Privado Sem Fins Lucrativos
Fundada em 14 de setembro de 2003 Rua Bolívia, nº 88, Jardim América, Cidade de Tupã, Estado de São Paulo.
CEP 17.605-31 Diretoria da ANAP
Presidente: Sandra Medina Benini
Vice-Presidente: Allan Leon Casemiro da Silva 1ª Tesoureira: Maria Aparecida Alves Harada 2ª Tesoureiro: Jefferson Moreira da Silva 1ª Secretária: Rosangela Parilha Casemiro 2ª Secretária: Elisângela Medina Benini Diretoria Executiva da Editora
Sandra Medina Benini Allan Leon Casemiro da Silva Leonice Seolin Dias
Suporte Jurídico
Adv. Elisângela Medina Benini Adv. Allaine Casemiro
Contato: (14) 3441-4945 www.editoraanap.org.br www.amigosdanatureza.org.br [email protected]
Organizadoras
Leonice Seolin Dias
Possui graduação em Ciências pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Tupã (1984), graduação em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de Araraquara (2000), Habilitação em Biologia pelas Faculdades Adamantinenses Integradas (2000), Especialização em Ciências Biológicas (2001), Mestrado em Ciências Biológicas pela Universidade do Oeste Paulista - UNOESTE (2004) e Mestrado em Ciência Animal pela UNOESTE (2008). Doutorado em Geografia na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – FCT/UNESP (2016).
Sandra Medina Benini
Possui Graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Marília (1995), Bacharelado em Direito pela Faculdade de Direito da Alta Paulista (2005), Licenciatura em Geografia pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais (2014), Especialização em Administração Ambiental pela Faculdade de Ciências Contábeis e Administração de Tupã (2005), Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho (2008), Mestrado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2009), Doutorado em Geografia na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2015), Doutorado em Arquitetura e Urbanismo na Mackenzie/SP (2016) e atualmente esta cursando o Pós-doutorado em Arquitetura e Urbanismo (PNPD/Capes) pela FAAC/UNESP - Câmpus de Bauru. Tem experiência na área de Planejamento e Gestão Urbana, atuando principalmente nos seguintes temas: Estatuto da Cidade, Planos Diretores, Políticas Públicas Urbanas, Uso e Ocupação do Solo Urbano, Áreas Verdes Públicas e Infraestrutura Verde.
Conselho Editorial Interdisciplinar
Profª Drª Alba Regina Azevedo Arana – UNOESTE
Profª Drª Angélica Góis Morales – UNESP – Campus de Tupã
Prof. Dr. Antônio Cezar Leal – FCT/UNESP – Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. Antonio Fábio Sabbá Guimarães Vieira – UFAM
Prof. Dr. Antonio Fluminhan Jr. – UNOESTE Prof. Dr. Arnaldo Yoso Sakamoto – UFMS
Prof. Dr. Daniel Dantas Moreira Gomes – UPE – Campus de Garanhuns Profª Drª Daniela de Souza Onça – UDESC
Prof. Dr. Edson Luís Piroli – UNESP – Campus de Ourinhos Prof. Dr. Eraldo Medeiros Costa Neto – UEFS
Prof. Dr. Erich Kellner – UFSCAR Profª Drª Flávia Akemi Ikuta – UFMS
Profª Drª Isabel Cristina Moroz Caccia Gouveia– FCT/UNESP – Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. João Cândido André da Silva Neto – UEA / CEST
Prof. Dr. Joao Osvaldo Rodrigues Nunes– FCT/UNESP – Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. Jorge Amancio Pickenhayn – Universidade de San Juan – Argentina
Prof. Dr. José Carlos Ugeda Júnior – UFMS
Prof. Dr. José Manuel Mateo Rodriguez – Universidade de Havana – Cuba
Prof. Dr. José Mariano Caccia Gouveia – FCT/UNESP – Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. Junior Ruiz Garcia – UFPR
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Prof. Dr. Luciano da Fonseca Lins – UPE – Campus de Garanhuns Profª Drª Maira Celeiro Caple – Universidade de Havana – Cuba Profª Drª Marcia Eliane Silva Carvalho – UFS
Prof. Dr. Marcos Reigota – Universidade de Sorocaba
Profª Drª Maria Betânia Moreira Amador – UPE – Campus de Garanhuns Profª Drª Maria Helena Pereira Mirante – UNOESTE
Profª Drª Martha Priscila Bezerra Pereira – UFCG Profª Drª Natacha Cíntia Regina Aleixo – UEA
Prof. Dr. Paulo Cesar Rocha – FCT/UNESP – Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. Pedro Fernando Cataneo – UNESP – Campus de Tupã
Prof. Dr. Rafael Montanhini Soares de Oliveira – UTFPR Profª Drª Regina Célia de Castro Pereira – UEMA
Profª Drª Renata Ribeiro de Araújo – FCT/UNESP – Campus de Presidente Prudente Prof. Dr. Ricardo Augusto Felício – USP
Prof. Dr. Ricardo de Sampaio Dagnino – UNICAMP
Profª Drª Roberta Medeiros de Souza – UFRPE – Campus Garanhuns Prof. Dr. Roberto Rodrigues de Souza – UFS
Prof. Dr. Rodrigo José Pisani – Unifal Prof. Dr. Rodrigo Simão Camacho – UFGD Prof. Dr. Ronaldo Rodrigues Araújo – UFMA Profª Drª Rosa Maria Barilli Nogueira – UNOESTE
Profª Drª Simone Valaski – Universidade Federal do Paraná Profª Drª Silvia Cantoia – UFMT – Campus Cuiabá
Profª Drª Sônia Maria Marchiorato Carneiro – UFPR
Índice para catálogo sistemático Brasil: Geografia
D541e Estudos ambientais aplicados em bacias hidrográficas / Leonice Seolin Dias e Sandra Medina Benini. 2ª ed. rev. amp. – Tupã: ANAP, 2016.
218 p ; il. Color. 21,0 cm ISBN 978-85-68242-29-2
1. Bacias Hidrográfica 2. Meio Ambiente 3. Planejamento I. Título.
CDD: 900
CDU: 911/47
Sumário
Prefácio 08
Capítulo 1
HISTÓRIA E DESAFIOS DO MAPEAMENTO AMBIENTAL PARTICIPATIVO NO ESTADO DE SÃO PAULO
Ricardo de Sampaio Dagnino Salvador Carpi Junior
11
Capítulo 2
MAPEAMENTO AMBIENTAL PARTICIPATIVO: EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA UGRHI TURVO E GRANDE
Salvador Carpi Junior Maria Conceição Lopes Flávia Darre Barbosa
Antonio Lucio Mello Martins
28
Capítulo 3
CARACTERIZAÇÃO LIMNOLÓGICA DE AMBIENTES DEPOSICIONAIS DA PLANÍCIE FLUVIAL NA RESERVA PARTICULAR DO PATRIMÔNIO NATURAL FOZ DO RIO AGUAPEÍ
Renata Ribeiro de Araújo Paulo Cesar Rocha
Renato Franco Rodrigues Tainá Medeiros Suizu
54
Capítulo 4
A INFLUÊNCIA DA TEMPERATURA DE SUPERFÍCIE NA ANÁLISE DA PAISAGEM NA FOZ DOS RIOS AGUAPEÍ E PEIXE NO OESTE PAULISTA, A PARTIR DE IMAGENS LANDSAT 8
Carla Rodrigues Santos Paulo César Rocha
67
Capítulo 5
A ESTRUTURA GEOECOLÓGICA DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS DO ALTO VALE DO RIO PIRAPÓ, NORTE-CENTRAL DO PARANÁ, BRASIL
Cássia Maria Bonifácio Maria Teresa de Nóbrega Hélio Silveira
79
Capítulo 6
ESPACIALIZAÇÃO DOS FENÔMENOS DE ESCOAMENTO SUPERFICIAL EM UMA BACIA HIDROGRÁFICA NO PERÍODO DE 30 ANOS
Rodrigo José Pisani Paulina Setti Riedel
91
Capítulo 7
MONITORAMENTO DAS VARIÁVEIS DE QUALIDADE DAS ÁGUAS: UM SUBSÍDIO AO GERENCIAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS NO ESTADO DO PARANÁ
Rosane Freire
Cássia Maria Bonifácio Roselene Maria Schneider Célia Regina Granhen Tavares
108
Capítulo 8
INTERAÇÕES SOCIOAMBIENTAIS E A OCORRÊNCIA DE DOENÇAS RELACIONADAS À ÁGUA
Natacha Cíntia Regina Aleixo João Cândido André da Silva Neto
123
Capítulo 9
ÁGUA, PODER E POLÍTICA: ÉTICA, JUSTIÇA E SOLIDARIEDADE Ana Paula Novais Pires
Antonio Cezar Leal
140
Capítulo 10
MODELOS DE GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS EM PAÍSES DA AMÉRICA DO SUL
Andrés Hincapié M Antonio Cezar Leal
158
Capítulo 11
O REGIME HIDROLÓGICO NA UNIDADE DE GERENCIAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS PARANAPANEMA: VARIABILIDADE INTERANUAL E ESPACIAL
Paulo Cesar Rocha Alex Paulo de Araújo
205
Prefácio
Arnaldo Yoso Sakamoto1
Esta publicação apresenta 11 capítulos na forma de artigos sobre “Estudos Ambientais Aplicados em Bacias Hidrográficas”, organizada por Leonice Seolin Dias e Sandra Medina Benini, da Associação Amigos da Natureza da Alta Paulista (ANAP).
Os artigos abordam de uma maneira geral os aspectos fisiográficos, hidrológicos, ecológicos, de sustentabilidade, de saneamento, de aproveitamento de resíduos, de aterro controlado, de políticas públicas, de modelos de gestão e manejo de recursos hídricos abrangendo bacias transfronteiriças, de uso de tecnologias de informação, de estratégia, buscando, a compreensão de uso e ocupação do solo e de planejamento e gestão ambiental, que visam a auxiliar no entendimento técnico-científico das características das unidades da paisagem das bacias hidrográficas, para buscar medidas de recuperação e conservação de áreas degradadas.
Nesse sentido, a caracterização do meio físico tem como principal objetivo fornecer elementos para uma avaliação das potencialidades dos recursos naturais, bem como das fragilidades dos sistemas naturais e a presença de áreas degradadas, como subsídio para a elaboração de planos diretores, metas e ações voltadas para a gestão, preservação e conservação dos recursos naturais.
A expansão demográfica e, concomitantemente, a expansão urbana tem gerado grande pressão junto ao meio em que vivemos, na forma de processos constantes de emissão de poluentes líquidos, sólidos e gasosos nos meios receptores, tais como no ar, no solo e na água, assim como a ocorrência de erosão, inundação, assoreamento dos cursos de água, além de grandes áreas de alta suscetibilidade a processos de degradação ambiental.
Atualmente, várias regiões do território brasileiro vêm sofrendo com o avanço da ocupação desenfreada e com a ausência de gestões administrativas voltadas para a
1 Graduado em Ciências Políticas e Sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1973) e em Geografia pela Universidade de São Paulo-USP (1979), mestre em Geografia (Geografia Humana) pela USP (1989), doutor em Geografia (Geografia Física) pela USP (1997) e pós-doutor pelo INPE (2005).
planificação da ocupação, baseadas em ações e técnicas para a conservação e preservação de ambientes vulneráveis.
Entende-se que uma área degradada é aquela que sofreu, em algum grau, perturbações em sua integridade, seja de natureza física, química ou biológica. Deste modo, destaca-se a importância da integração dos elementos naturais e sociais no entendimento das degradações ambientais e compreender as alterações ambientais nas unidades de paisagens, como uma unidade territorial para o planejamento e gestão dos recursos hídricos.
Segundo Ab’Sáber (1969, p. 11 - 12), “a grande prévia consiste em se saber o que é planejamento. Planejar significa elaborar planos de melhoria. Significa encontrar diretrizes para corrigir os espaços mal organizados e improdutivos. Significa encontrar meios e propiciar condições para interferir nos setores menos favoráveis de uma estrutura ou de uma conjuntura”. Planejar é buscar antecipar as necessidades para as futuras gerações de maneira a garantir o equilíbrio do ambiente. Para isso, é importante conhecer o processo histórico de uso e ocupação do solo das unidades das paisagens, elaborar o diagnóstico e estabelecer diretrizes para a sustentabilidade.
Considera-se planejamento e gestão ambiental como um sistema administrativo com enfoque aos aspectos ambientais voltados para a sustentabilidade. Dessa forma, entende-se a gestão ambiental como de práticas e métodos que visam a reduzir os impactos ambientais de atividades econômicas nos recursos naturais.
Para que seja eficaz a sustentabilidade, é fundamental a gestão integrada promovendo planos, metas e ações associadas e buscando a qualidade de vida da sociedade.
Nesse sentido, o Plano Diretor é o instrumento básico da política de desenvolvimento do município. Sua principal finalidade é orientar a atuação do poder público e da iniciativa privada na construção dos espaços urbano e rural na oferta dos serviços públicos essenciais, visando a assegurar melhores condições de vida para a população e assegurar o equilíbrio e a sustentabilidade dos recursos naturais de uma bacia hidrográfica.
As bacias hidrográficas são unidades completas de estudo. Assim, torna-se viável elaborar estudos geoambientais que orientem o uso equilibrado da terra, pois, na bacia hidrográfica a integração e a modificação dos sistemas geoecológicos são impactadas por todos os proprietários e seus ocupantes.
Nessa perspectiva, confirma-se a viabilidade de utilizar como unidades da paisagem para análises geográficas as bacias hidrográficas, bem como para estabelecer metas, diagnósticos e recomendações para o uso equilibrado da terra. A integração e modificação dos sistemas geoecológicos são sentidas por todos os proprietários.
A implantação de sistemas integrados de gerenciamento de bacias hidrográficas, descentralizados, tem sido a solução mais indicada e promissora para planejamento e gestão de recursos hídricos, assim como o combate à degradação ambiental dos recursos naturais é de responsabilidade dos gestores públicos, com o objetivo de promover e executar políticas públicas, leis e ações que visem ao uso sustentável dos recursos naturais.
É necessária uma atuação política, de conhecimento técnico-científico sobre paisagem, por meio de da atuação de todas as entidades que compartilham da responsabilidade de evitar a degradação ambiental e atuar nas ações de preservar e conservar as unidades das paisagens.
Os artigos apresentam estudos e análises das unidades da paisagem, em sua maioria, abordando os aspectos que apresentam as características de estratégias, de ações e desafios na contemporaneidade, na análise de sustentabilidade e bioenergia da cana, da avaliação de aterro controlado de resíduos sólidos urbanos, da agroecologia e desenvolvimento sustentável do campo, do regime hidrológico de rios e a busca de modelos de gestão e manejo de recursos hídricos transfronteiriços na América do Sul. Há de se levar em conta os limites transfronteiriços, pois nem sempre a legislação ambiental de um país é compatível com interesses de outros países fronteiriços.
Em suma, os artigos apresentam estudos geográficos que possibilitam a compreensão técnico-científica das unidades das paisagens. Porém, ainda carecemos de políticas públicas associadas à Política Nacional de Recursos Hídricos e Política Estadual de Recursos Hídricos para gestão e planejamento, visando a assegurar a qualidade de vida a sociedade e ao meio ambiente.
Capítulo 1
HISTÓRIA E DESAFIOS DO MAPEAMENTO AMBIENTAL PARTICIPATIVO NO ESTADO DE SÃO PAULO
Ricardo de Sampaio Dagnino2 Salvador Carpi Junior 3
INTRODUÇÃO
Existem diversos métodos de mapeamento participativo e de elaboração de cartografias sociais e populares e diferentes enfoques temáticos e recortes espaciais ou sociais. Este trabalho visa à descrição de um método de mapeamento que vem sendo adotado desde o início dos anos 1990, em várias áreas do Estado de São Paulo, principalmente pelos pesquisadores Oswaldo Sevá Filho (1997) e Salvador Carpi Junior (2001, 2012), ambos ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O mapa apresentado por Acselrad e Coli (2008, p. 26) permite visualizar as experiências de mapeamento realizadas no Brasil, entre 1992 e 2008, que somam 126 desenvolvidas com atores locais. Desse total, quase 70% foram realizadas nas regiões Norte e Nordeste, sobretudo no Pará (26 experiências, que equivalem a 20% do total) e Amazonas (21 experiências ou 16%). Apesar do mapa de Acselrad e Coli (2008) mostrar apenas três experiências realizadas entre 1992 e 2008 no estado de São Paulo, o levantamento realizado por Carpi Junior (2012), cujas experiências são analisadas neste capítulo, mostra que foram realizados cinco mapeamentos envolvendo atores locais no Estado.
Grande parte dos mapeamentos desenvolvidos nas regiões Norte e Nordeste do Brasil está ligado à luta pela terra efetuada pela população local, como indígenas e
2 Geógrafo - Doutor em Demografia e Mestre em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pesquisador de Pós-Doutorado na Unicamp no projeto Análises demográficas espaciais para o estado de São Paulo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
3 Geógrafo - Doutor em Geociências e Meio Ambiente. Pesquisador, Instituto de Geociências - Universidade Estadual de Campinas.
tradicionais. Esse papel de ferramenta política do mapeamento fica claro no trabalho pioneiro de Almeida (2004) e os desdobramentos documentados na série de trabalhos e fascículos com os casos de Cartografia Social - desde o primeiro fascículo sobre as quebradeiras de coco babaçu no Piauí (ALMEIDA, 2005).
Em linhas gerais pode-se dizer que, diferentemente do que ocorreu no Norte e Nordeste, os mapeamentos realizados em São Paulo foram direcionados para diagnósticos voltados às áreas urbanas ou periurbanas (ou seja, no contato entre áreas rurais e urbanas) e, na maior parte das vezes, relacionado a aspectos ambientais (o meio social incluído) e à qualidade da água e gestão de recursos hídricos. Entretanto, apesar desse foco diferenciado, os procedimentos adotados nos mapeamentos participativos em São Paulo possuem pontos em comum com outros mapeamentos e cartografias sociais realizados por outros grupos de pesquisadores brasileiros, notadamente os trabalhos elaborados dentro do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ), encabeçados por Henri Acselrad (2008, 2010) e os trabalhos realizados na Amazônia e no Nordeste pelo grupo ligado a Alfredo Wagner de Almeida (2005).
Alguns trabalhos publicados recentemente na América Latina sobre mapeamento participativo têm destacado os avanços metodológicos experimentados nos últimos anos (DIEZ TETAMANTI e ESCUDERO, 2012; FEREZ et al., 2013; SLETTO et al., 2013). Nesse sentido, o trabalho de Rocha (2013, p. 174) chama a atenção para o papel da cartografia social como fortalecedora dos processos de politização e instrumentalização dos sujeitos sociais em suas caminhadas. O trabalho de GEPCyD/IIGG e UNPEPROCH (2013, p. 266) menciona que:
La cartografía social, al estar sostenida en un acuerdo entre la comunidad y el equipo de investigación, impone una ética de coproducción, donde la validación de los contenidos y su difusión no se realizan primeramente, ni exclusivamente, por fuera del vínculo, en un ámbito académico. Se trata de un pacto entre iguales.
No caso brasileiro, deve-se ter em mente que os diagnósticos participativos são inclusivos, do ponto de vista social (COSTA et al., 2006); são científicos e válidos, do ponto de vista acadêmico (CARPI JUNIOR, 2001); possuem amparo legal (BRASIL, 2001); e podem ser considerados como atos políticos (SYDENSTRICKER-NETO, 2008).
MÉTODO DE MAPEAMENTO PARTICIPATIVO
Desde as primeiras experiências no Estado de São Paulo os mapeamentos participativos foram voltados para a identificação de situações de risco ambiental. À medida que os trabalhos foram se desenvolvendo foi dada maior ênfase às ações positivas em relação ao ambiente local, em função do interesse das comunidades locais em relatar e apontar aspectos relacionados à recuperação e preservação ambiental. Daí a denominação mudar, no decorrer dos últimos anos, de “Mapeamento de Riscos Ambientais” para
“Mapeamento Ambiental Participativo”.
Na Figura 1 pode ser visualizado o mapa de localização das experiências de mapeamento de riscos em São Paulo, numeradas em ordem cronológica e o quadro com a descrição das características gerais de cada mapeamento (Figura 2). Na organização do painel foram considerados alguns critérios: (a) para a descrição da localização das áreas segundo a região, foi utilizada a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); (b) a quantidade de pessoas participantes corresponde a um número aproximado, pois inclui os grupos de pesquisadores ou organizadores das atividades, assim como eventualmente colaboradores indiretos; (c) as áreas foram calculadas em Sistema de Informação Geográfica através dos polígonos das Ottobacias da Agência Nacional das Águas e dos limites municipais do IBGE. No cálculo das áreas procurou-se o mínimo de sobreposição para não superestimar a área total coberta pelos levantamentos. Nesse sentido, as áreas das experiências 4 e 5 não foram contabilizadas e algumas outras experiências tiveram parte da área (km²) subtraída.
Tanto nas primeiras experiências de mapeamento de riscos quanto nas mais recentes, toda a atividade de mapeamento propriamente dita – que ocorre em reuniões públicas ou oficinas de mapeamento, como veremos adiante – é iniciada com o contato e cadastramento de pessoas e entidades da região, definição de local adequado para a reunião e organização de material cartográfico (DAGNINO; CARPI JUNIOR, 2006). Na etapa de divulgação das reuniões alguns temas importantes a serem levantados já são previamente informados na carta convocatória enviada ou entregue às pessoas, ou durante as reuniões.
Figura 1 – Painel com mapa de localização e quadro descritivo dos mapeamentos ambientais participativos no Estado de São Paulo.
Fonte: Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (limites administrativos e localidades do Censo 2010), Agência Nacional de Águas (bacias hidrográficas) e Natural Earth (rios e lagos).
Organização: Os autores (2016).
Figura 2 – Quadro descritivo dos mapeamentos ambientais participativos no Estado de São Paulo.
Experiências
Áreas de Estudo
Área (km2)
Período de realizaç
ão
Pessoas envolvidas
(aprox.)
Perfil principal dos participantes
Demanda ou iniciativa
Fonte de recursos
Instituições envolvidas
Referência principal do
trabalho final
Mapeamento Participativo de Riscos Ambientais
1. Região de
Campinas 12 695 1994-
1997 100
Alunos de curso de extensão
Coordenador
do Projeto Unicamp NEPAM e FEM / Unicamp
Sevá Filho (1997) 2. Bacia do
Rio Mogi- Guaçu
15 397 1998-
2001 330 Funcionários públicos
Comitê da bacia, prefeituras municipais
Prefeituras Municipais
CBH Mogi, NEPAM/Unicamp
e CCA/UFSCar
Carpi Jr (2001) 3. Município
de Apiaí 548 2000-
2002 230 Estudantes Aluna de
mestrado
CNPq e Unicamp
IG/Unicamp, Diretoria Estadual
de Ensino
Scaleante (2002) 4. Bacia do
Ribeirão das Anhumas
150 2004-
2006 300
Comunidade em geral e Agentes de saúde
Pesquisadores FAPESP
Diversas, destaque para
IAC, PMC, IG/Unicamp
Carpi Junior et al (2006) 5. Bacia do
Ribeirão das Pedras
30 2005-
2007 100
Comunidade em geral e Agentes de saúde
Aluno de mestrado
FAPESP e CAPES
IG/Unicamp, IAC, PMC
Dagnino (2007)
Mapeamento Ambiental Participativo
6. UGRHI Sorocaba/
Médio Tietê
9 112 2010 140 Membros de
ONG
Coordenadore
s do projeto FEHIDRO
OSCIP 5 Elementos, IG/Unicamp
Não publicado 7. Manancial
Alto Rio Santo Anastácio
2 154 2010-
2011 210
Pequenos agricultores e
pecuaristas
Pesquisador e instituição
UNESP- Presidente
Prudente
UNESP Presidente Prudente, IG/Unicamp
Carpi Junior (2011) 7.1 Bacia do
Córr.
Palmitalzinho
7,5 2010-
2011 35
Pequenos agricultores e
pecuaristas
Aluno e instituição
UNESP- Presidente
Prudente
UNESP Presidente Prudente, IG/Unicamp
Oliveira (2011) 7.2 Bacia do
Córr. Embirí 19 2010-
2011 35
Pequenos agricultores e
pecuaristas
Aluno e instituição
UNESP- Presidente
Prudente
UNESP Presidente Prudente, IG/Unicamp
Santos (2011) 8. Bairro de
Pedrinhas e entorno (Ilha
Comprida)
4,6 2011-
2012 40
População tradicional e
caiçaras
Aluna de
mestrado FAPESP IG-Unicamp Santos (2012) 9. UGRHI
Turvo/Grand e
15 955 2011-
2013 40 Professores
Pesquisadores e técnicos
locais
FEHIDRO
IG/Unicamp e APTA Centro
Norte
Carpi Junior et al (2014) 10. UGRHI
Alto Paranapane
ma
22 581 2011-
2012 80
Alunos de curso de especialização
Pesquisador e instituições
FEHIDRO e FAPESP
UNESP Presidente Prudente e
Ourinhos, IG/Unicamp
Almeida (2012) 10.1.
Município de Piraju
505 2011 20
Alunos de curso de especialização
Pesquisador e estudante de especialização
FEHIDRO
UNESP Ourinhos, IG/Unicamp/NEAD
UNESP
Batista (2011) 10.2.
Município de Fartura
429 2011-
2012 10
Alunos de curso de especialização
Pesquisador e estudante de especialização
FEHIDRO e FAPESP
UNESP Presidente Prudente e
Ourinhos, IG/Unicamp
Almeida (2012) 10.3. Floresta
Estadual de Avaré
0,5 2012-
2013 30
Funcionários e frequentadores
da área
Chefe da Unidade de Conservação
FEHIDRO e
I.F. IF e IG/UNICAMP
Carpi Jr, Silva e Linder (2014) 11. Município
de São José do Rio Pardo
420 2014-
2016 50
Pequenos agricultores e
pecuaristas
Estudante de
mestrado CAPES
IG/UNICAMP e Prefeitura Municipal
SILVA (2016)
Fonte: trabalhos realizados pelos autores.
Organização: Autores (2016).
A principal etapa do método proposto é a realização das reuniões públicas de mapeamento. Nessas reuniões é feito o levantamento dos problemas que afetam o ambiente local e das ações positivas. Essa atividade tem sido igualmente utilizada para a elaboração de propostas e recomendações ao poder público e às próprias comunidades envolvidas. Além de fornecer a maior parte das informações sobre o ambiente local, elas possuem um papel fundamental como instrumento de gestão, planejamento e educação ambiental.
O termo “reunião pública” passou a ser utilizado a partir dos trabalhos efetuados na bacia do Ribeirão das Anhumas, em Campinas, onde parte da equipe de pesquisa e alguns participantes preferiam utilizar também as denominações “oficina de trabalho”,
“oficina de mapeamento” ou simplesmente “oficina” (CARPI JUNIOR et al., 2006). Nos trabalhos anteriores, na região de Campinas (SEVÁ FILHO, 1997) e bacia do Rio Mogi- Guaçu (CARPI JUNIOR, 2001), o termo utilizado foi “sessão de mapeamento”, pois era enfatizada a questão do avanço progressivo do mapeamento de riscos em termos territoriais ou temporais. Na prática, contudo, embora com alterações na denominação, a essência da atividade não se modificou.
As reuniões públicas são abertas para qualquer interessado e programadas para serem realizadas em uma jornada parcial ou completa. Na realização dessas reuniões, os participantes passam por um processo de alfabetização cartográfica4 que propicia que o indivíduo ou grupo identifique os pontos de referência e se familarize com as características do mapa base – mapas com as principais ruas e avenidas, as toponímias locais, como nome dos bairros, e a localização de escolas, postos de saúde, etc.
A seguir, os participantes, utilizando de seu conhecimento sobre a área pesquisada, e com auxilio de material de desenho (basicamente canetas coloridas), indicam no mapa- base em quais áreas ocorrem situações de riscos ambientais e, também, em quais áreas existem aspectos ambientais positivos ou potencialidades. Conjuntamente com os mapas podem ser colhidos, através de anotações em planilhas ou gravações, alguns relatos, depoimentos e observações dos participantes, porém sempre garantindo o sigilo e anonimato dos depoimentos, pois o mais importante é obter a localização e a descrição do
4 A alfabetização cartográfica não é considerada aqui no sentido de uma simples transmissão de conhecimento técnico-acadêmico para pessoas de formação escolar inferior, mas sim, um exercício de integração entre as informações contidas nos mapas impressos, que são elaborados pelos órgãos oficiais, e os mapas mentais, frutos da experiência cotidiana.
ponto de interesse ambiental através do mapa e o relatório com as informações ambientais, e não o nome do informante. Nesse caso, o anonimato da informação garante maior liberdade aos participantes das reuniões.
Importante notar que os conceitos de risco ou potencialidade não são apriorísticos, pelo contrário, eles são construídos e definidos em conjunto com a população que participa do mapeamento. Depois, estes conceitos são aplicados empiricamente a partir de atividades práticas ou de pesquisa adaptadas a cada contexto, sem a preocupação de se adotar definições rígidas ou padronizadas, como ficou detalhado em Dagnino e Carpi Junior (2007).
A adoção dessa estratégia permite criar um ambiente mais favorável para a participação de pessoas de perfil muito variado, seja na área de atuação, seja no grau de escolaridade.
Depois de realizada a reunião, as informações registradas são compiladas e em parte verificadas através da utilização de métodos complementares: trabalhos de campo, entrevistas, aplicação de questionários, formação ad posteriori de grupos de trabalho, pesquisa e análise bibliográfica. Dessa forma, essa etapa de compilação e verificação pode ser um importante momento de checagem das informações e de refinamento da localização – sobretudo quando se utilizam imagens aéreas - daquilo que foi apontado nos mapas-base.
Depois, realiza-se o tratamento computacional das informações recolhidas durante as reuniões de mapeamento formando um banco de dados georreferenciados. Essa etapa envolve a digitalização dos mapas, o georreferenciamento dos pontos, áreas e linhas mencionados nas reuniões e, por último, o tratamento gráfico de cores e ícones. Os dados e informações são sistematizados e, depois, apresentados à população interessada por meio de reuniões públicas de apresentação dos resultados que poderão ainda sugerir inclusão de algo que tenha ficado fora do mapeamento ou correções de eventuais erros.
Por último, os materiais produzidos são disponibilizados às prefeituras municipais, entidades de fiscalização ambiental da região e demais instituições visando à elaboração de propostas e recomendações para evitar as situações de risco constatadas, colaborar nas práticas de conservação ambiental e orientar ações de recuperação e planejamento ambiental.
DESCRIÇÃO DAS EXPERIÊNCIAS REALIZADAS
As experiências foram sintetizadas nas Figuras 1 e 2 que mostram tanto as que tomaram por base o mapeamento de riscos ambientais, quanto as que utilizaram o mapeamento ambiental participativo.
A primeira experiência de mapeamento de riscos ambientais a utilizar alguma forma de método participativo em São Paulo ocorreu entre 1991 e 1992, na região do ABC paulista.
Essa experiência, coordenada por Barbosa e Sevá Filho (1992), não será detalhada no presente texto, pois trata-se de uma experiência diferenciada e que necessitaria de uma análise pormenorizada. Por ora, cabe mencionar que essa experiência foi elaborada a pedido da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e contou com a cooperação técnica e financeira da central sindical italiana Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL), que foi responsável por ensinar e divulgar o método de mapeamento participativo, mais tarde replicado para outras regiões por Sevá Filho (1997).
Esse trabalho organizado pelo Professor Oswaldo Sevá Filho (1997), na Região de Campinas, é o primeiro que de fato iremos relatar no presente trabalho. Ele teve o seu relatório final organizado na forma de um kit de texto com 90 páginas e cinco mapas temáticos da região, destacando os seguintes temas: (a) Instalações industriais e outros focos de riscos técnicos; (b) Ocupação do território, uso do solo urbano e rural; (c) Situação dos Recursos hídricos (d) Petróleo e eletricidade; (e) Resíduos sólidos de origem industrial e urbana. As sessões de mapeamento de riscos ocorreram em duas etapas, com distintos grupos de participantes: numa primeira rodada de cursos de formação de lideranças comunitárias, promovido por organizações não governamentais da região, participaram mais de 60 pessoas de vários municípios; numa segunda ocasião, num curso de extensão universitária, participação de mais de 35 pessoas, também de vários municípios.
O segundo trabalho de mapeamento de riscos ambientais ocorreu no setor paulista da bacia hidrográfica do Rio Mogi-Guaçu (CARPI JUNIOR, 2001; SEVÁ FILHO; CARPI JUNIOR, 2002; CARPI JUNIOR; PEREZ FILHO, 2005). Visou atender a uma demanda explícita por parte das Prefeituras e do Comitê de Bacia – CBH Mogi, no sentido de ressarcir os prejuízos decorrentes do acidente da estação de tratamento de esgotos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo – SABESP, em agosto de 1997 em Espírito Santo
do Pinhal. O esgoto atingiu o Ribeirão dos Porcos e o trecho do Rio Mogi-Guaçu à jusante, e o objetivo do trabalho foi de rastrear e avaliar situações de risco similares para tomar medidas de prevenção e evitar que um acidente semelhante ocorresse. Entre agosto e dezembro de 1998, foram realizadas seis sessões de mapeamento, com a participação das equipes do Núcleo de Estudos Ambientais (NEPAM), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e do Centro de Ciências Agrárias (CCA), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), nas quais foram reunidas pessoas das cidades-sede e de cada setor da bacia hidrográfica do Rio Mogi Guaçu.
O trabalho de Scaleante (2002) sintetiza a terceira iniciativa de mapeamento realizada no município de Apiaí, no sul do estado, consistindo numa adaptação do trabalho anterior. Foram aplicados questionários, entrevistas e consultas públicas junto à comunidade escolar e, depois, o diagnóstico foi complementado com trabalhos de campo. O envolvimento da comunidade escolar, mediante parceria com a Diretoria Estadual de Ensino em Apiaí, impulsionou o debate sobre as questões ambientais locais, gerando demandas por novas discussões e palestras, com destaque para as situações que caracterizam uma ameaça ao bem estar das pessoas, como por exemplo, o excesso de agroquímicos na lavoura, a poluição de cursos d'água por material lixiviado e chorume oriundos de lixão, esgoto domiciliar não tratado, enchentes, etc.
Na bacia hidrográfica do Ribeirão das Anhumas foi realizada a quarta pesquisa envolvendo mapeamento participativo como parte de um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e desenvolvido em parceria com o Instituto de Geociências da Unicamp, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Prefeitura Municipal de Campinas (PMC) e outros. Nas reuniões públicas foi definido o apontamento das situações de risco ambiental categorizados em seis temas, sendo que esse tipo de divisão foi realizado em função da necessidade de facilitar a aquisição e posterior sistematização das informações (CARPI JUNIOR et al., 2005, 2006). Essa experiência na bacia do Ribeirão das Anhumas teve uma expressiva participação de pessoas, gerou uma grande variedade e quantidade de informações sobre riscos e apresentou diversos desdobramentos, entre eles o desenvolvimento de outros projetos de pesquisa e diversos trabalhos acadêmicos (BRIGUENTI et al., 2007; DAGNINO et al., 2012a, 2012b).
Um dos desdobramentos desse trabalho constituiu-se na quinta experiência de mapeamento participativo, realizado na bacia hidrográfica do Ribeirão das Pedras
(DAGNINO, 2007). Nessa importante sub-bacia do Ribeirão das Anhumas, nos municípios de Campinas e Paulínia, localizam-se os campi de diversas instituições de ensino e pesquisa como a Unicamp e existem diversas situações de riscos, muitas delas ocasionadas por deficiências no tratamento de esgotos, poluição atmosférica e, sobretudo, uma fiscalização ambiental ineficiente para garantir uma qualidade ambiental. Esse trabalho apresentou um interessante avanço metodológico, detalhado em Dagnino e Ladeira (2005), ao vislumbrar a possibilidade de incluir as ações positivas e as potencialidades do ambiente juntamente com as situações de risco, lançando as bases para o que mais tarde foi chamado pelo termo de Mapeamento Ambiental Participativo (CARPI JUNIOR, 2012). Cabe notar que, entre 2005 e 2006, outra experiência de mapeamento participativo envolvendo alunos e professores foi realizada no campus da Unicamp (MARANDOLA JUNIOR et al., 2006).
Durante a sexta experiência, na Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos (UGRHI) Sorocaba/Médio Tietê, as atividades de mapeamento de riscos estiveram articuladas com a produção do Atlas Socioambiental coordenado pela Organização Social e Cultural de Interesse Público “5 Elementos” (OTERO, 2009). Uma das atividades do projeto de elaboração do atlas foi a realização de oficinas de Educação Ambiental com a aplicação do método de mapeamento ambiental participativo em cinco municípios, cobrindo parte daquela bacia hidrográfica.
No trabalho efetuado no manancial Rio Santo Anastácio (CARPI JUNIOR, 2011;
CARPI JUNIOR; LEAL, 2011; CARPI JUNIOR, LEAL; DIBIESO, 2012), a sétima experiência de mapeamento, buscou-se aliar a identificação dos riscos ambientais por meio do mapeamento ambiental participativo com o apoio às atividades de planejamento e mobilização participativa relacionadas à criação da Área de Proteção e Recuperação do referido manancial. Foram selecionados diversos setores da área do manancial para a realização das reuniões públicas, com destaque para comunidades rurais com forte tradição em organização comunitária e que enfrentam problemas ambientais típicos do oeste paulista como, por exemplo, a ocorrência de erosão, riscos relacionados à escassez e poluição das águas, alterações ambientais decorrentes do avanço da urbanização e a dificuldade de acesso das diversas comunidades aos serviços de saneamento básico. Como desdobramento deste mapeamento, foram elaborados os diagnósticos no córrego Palmiltalzinho (OLIVEIRA, 2011) e no córrego do Embirí (SANTOS, 2011).
O oitavo trabalho teve início com a dissertação de mestrado de Santos (2012) em Ilha Comprida, litoral sul de São Paulo, durante a qual o mapeamento foi utilizado como subsídio para a compreensão da dinâmica da paisagem e para o planejamento ambiental da ilha e áreas de entorno. Em 2011 e 2012 foram realizadas reuniões públicas de mapeamento, seguidas de trabalhos de campo, e realização de entrevistas e análise bibliográfica.
O nono mapeamento participativo, realizado na UGRHI Turvo/Grande (CARPI JUNIOR et al., 2013), teve início em julho de 2011 como parte integrante do curso de capacitação de educadores do projeto de educação ambiental “Bacia Hidrográfica: um instrumento na Educação”, financiado pelo Fundo Estadual de Recursos Hídricos (FEHIDRO), e realizado na Agência Paulista de Tecnologia de Agronegócios (APTA) Polo Centro Norte, município de Pindorama. Nessa ocasião, cerca de 50 participantes, sendo a maior parte formada por educadores e técnicos atuantes na área ambiental e oriundos de 11 municípios da UGRHI, apontaram as situações de risco que conheciam.
O décimo mapeamento participativo em São Paulo foi realizado na UGRHI Alto Paranapanema (ALMEIDA, 2012), mas com enfoques específicos em cada um dos municípios dessa bacia. Nessa pesquisa foi feita uma parceria entre dois campi da Universidade Estadual Paulista (UNESP), sediados em Ourinhos e em Presidente Prudente. Em outubro de 2011 foram realizadas atividades de mapeamento com cerca de 40 participantes do curso de especialização “Gerenciamento de Recursos Hídricos e Planejamento Ambiental em Bacias Hidrográficas”, promovido pela UNESP-Ourinhos, que se dividiram em grupos para analisar o ambiente no trecho da bacia que perpassa Piraju, município sede do curso de especialização.
Dentre os desdobramentos desse mapeamento estão os trabalhos com enfoques específicos:
o Mapeamento de Risco Ambiental no Município de Piraju (BATISTA, 2011), no qual a autora contou com a colaboração de participantes do curso de especialização oriundos de Piraju; no qual a autora contou com a colaboração de participantes do curso de especialização oriundos de Piraju; o mapeamento realizado no município de Fartura (ALMEIDA, 2012); e por fim o trabalho realizado por Linder (2012) e Carpi Junior, Silva e Linder (2014), no qual os autores identificaram os Riscos Ambientais na Floresta Estadual de Avaré e na área de entorno por meio do Mapeamento Ambiental Participativo.
No momento, a última experiência de aplicação do MAP foi efetuada em dissertação de mestrado com objeto de estudo focado na porção sudoeste do município de São José do Rio Pardo (SILVA, 2015), na qual a autora integrou o método participativo com o levantamento da percepção da população local em relação aos riscos presentes na sua área rural. Para obter essa integração entre correntes metodológicas distintas, a autora aplicou questionários com os participantes das reuniões públicas realizadas em dois bairros rurais do município, com o intuito de obter o perfil dos moradores da área, notadamente o estilo de vida dessas comunidades.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A observação do mapa de localização (Figura 1) e do quadro comparativo das experiências realizadas (Figura 2) permite notar que a área total de cobertura dos mapeamentos participativos totaliza 79 mil quilômetros quadrados de um total de 248 mil quilômetros quadrados do território do Estado de São Paulo, ou seja, foram realizados mapeamentos participativos em 32% do território paulista.
Nota-se que a maioria das experiências ocorreu no contexto de bacias hidrográficas, mas em algumas delas foi ou está sendo adotada uma abordagem regional, municipal ou local. Houve grande variedade de demandas que deram origem às experiências (de alunos de pós-graduação a Prefeituras Municipais), diversidade da origem do financiamento (Fundações de amparo à pesquisa, Universidades e Prefeituras, entre outras), natureza das organizações (Governamentais e Não Governamentais) e amplitude no número de participantes (algumas experiências somaram 300 participantes, ao passo que outras ficaram com 40, sendo que no total contou-se mais de 1500 participantes presentes nas reuniões públicas de mapeamento).
As noções de risco e potencialidade ambiental e de diagnóstico participativo adotados nas experiências relatadas admitem adaptação segundo os temas de interesse, a área de atuação dos participantes, tanto convidados das reuniões públicas como pesquisadores responsáveis pela pesquisa, categoria profissional (acadêmicos, técnicos ou trabalhadores em geral) e os objetivos da pesquisa.
Convém destacar que as experiências relatadas têm apresentado uma série de desdobramentos e resultados: produção de mapas e relatórios, repercussão na mídia, apoio à formação técnica e profissional, mobilização participativa, avanços
metodológicos, trabalhos acadêmicos, idealização e elaboração de novos projetos, subsídios para políticas públicas e ações de planejamento, estabelecimento de parcerias com órgãos públicos, entre outros.
Em geral, os melhores resultados e desdobramentos obtidos decorrem principalmente do montante de recursos financeiros e materiais utilizados, da qualidade e quantidade de parcerias e do maior envolvimento dos participantes nas atividades de mapeamento. Um dos casos que representam esse envolvimento é o de Briguenti (2013) que, depois de ter participado do mapeamento na Bacia do Ribeirão das Anhumas (CARPI JUNIOR et al., 2006) participou de um projeto derivado daquele e, ao final, conseguiu traduzir a linguagem do mapeamento participativo para o uso em sala de aula.
Ademais, a aplicação adequada desse método de pesquisa pode constituir-se em importante instrumento na gestão ambiental, sobretudo se forem levados em conta alguns pontos principais:
1) Realizar mapeamentos participativos é mais do que ouvir a população e coletar dados. É semelhante a um ato político onde as pessoas são chamadas a se reunir e são ouvidas, num processo que valoriza a cultura, a memória coletiva, a percepção, a linguagem popular e a experiência histórica dos participantes. Reúne a indignação da comunidade, dá voz e espaço para a organização política. É justamente isso que diferencia as sessões de mapeamento das tentativas de administrar conflitos, já que, ao contrário, a sessão pretende evidenciar os conflitos e não administrá-los.
2) Os dados obtidos nas sessões de mapeamento devem ser “traduzidos” sem cortes ou filtros para uma linguagem visualmente atraente e, ao mesmo tempo, economicamente viável (com utilização de Sistemas de Informação Geográfica e de softwares livres, sempre que possível). Ao final, o produto cartográfico deve ser apresentado segundo as técnicas cartográficas e contemplando a sensibilidade artística (em termos da arte de fazer mapas).
3) Os frutos do mapeamento e a utilidade prática que poderá ter para a comunidade mapeada/mapeante independe da publicidade dada ao mapeamento. Isso quer dizer que mesmo quando o trabalho não é tornado público, seja por causa do sigilo quando tratamos com dados estratégicos para a comunidade e que não podem “vazar”, o mapeamento tem um resultado positivo por ser uma forma de mobilizar a população.
Ao final não podemos esquecer a importante lição do geógrafo francês Yves Lacoste (1988): “A Geografia serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”. Se ela serve para fazer a guerra e o mapa é uma arma importante, podemos e devemos aprender a manusear essa arma para combater melhor. Mas armar-se de mapas para combater deve ser um ato de ação coletiva e informada. Porém, combater no mesmo campo que o inimigo pode ser um grande erro tático. Ao invés disso, devem-se buscar outros campos e outras formas de combater e, assim, a geografia poderá servir - antes de mais nada – para alcançar igualdade, solidariedade e amor.
DEDICATÓRIA
Dedicamos esse trabalho ao Professor e amigo Oswaldo Sevá Filho que nos inspirou a respeitar os saberes, a memória coletiva, a percepção das pessoas que conhecem seus lugares e ambientes.
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