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Bioetica e novos deveres-direitos humanos

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Academic year: 2022

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Bioetica e novos deveres-direitos humanos

ANTONIO BERISTAIN S.J.*

1.

Etica nao

dual

PedroLAINENTRALGO1.

O presentetextoumatranscrigao,comlevescorrecqdesde estilo, da cotnunicagaoapresentada em4 de Junho de 1993, na Universidade

, Catedrdtico de Direito Penal e Director do Institute Basco deCriminologia, San Sebastian.A tradu?ao deste artigo foi feita por Dionisio MartinezSoler e Ana Blaser Gaspar, e arevisaotCcnicaporMiguel Pedrosa Machado.

1 P. LAIN ENTRALGO, El cuerpohumano. Teona actual,2*edi^ao,Espasa Universidad, Madrid, 1989,p. 334.

**Todaaac?aohumanatemcardcter moral,seja perfectivo (moralidade solitu sensu) ou defectivo (imoralidade)oseumodo de oter; nenhuma 6 amoral.

Ainda menos,se o termo da ac^ao6 a vida deoutro homem ou aprdpria vida. Res sacra homoydiziam os romanos**.

SUMARIO: 1. Etica nao dual 2.A Bioetica salvard a Etica e osDireitos Humanos 3. Os novos direitos sao deveres-direitos 4. Dever-Direitodeuma visao nova 5. Dever-Direito de continual a inves- tigar 6. Deveres-Direitos na nova ordem economica mundial 7. Aposdlha: o dever do optimismo.

(2)

80 D1REITOEJUSTICA

Carlos HI (Getafe, Madrid), dentro do "Semindrio Internacional sobre problemas actuais dos Direitosfimdaineiuais,', organizadopelo Prof. Dr.

Eusebio Fernandez, Director do Instituto de Direitos Humanos Bartolom^

de las Casas, da mesma Universidade Carlos HI.

Durante a exposigao foram projectadas e comentadas imagens de obras de eminentes artistas, aos quais se faz referenda no texto: Chillida, Dali, Rodin y Tapies, porque tanibem a arte favorece a compreensao dos assuntos e dos direitos humanos2.

2Cfr. G. PECES-BARBA, "Introducci6n", in IDEM (Comp.), Ley y Conciencia.

Moral legalizada y moral cntica en la aplicacidn del Derecho, Universidad Carlos III de Madrid, Boletfn Oficial del Estado, Madrid, 1993, p. 11.

3 Cfr. T. F. DIVINE, Interest: An Historical and Analytical Study in Economics and Modem Ethics, Milwaukee, 1959.

Permitam-me dedicar esta comunica^ao a Funda^ao Banco Bilbao Vizcaya (BBV), por multiplos motivos. Antes de mais, como prova de agradecimento pelas suas preocupa^des em prol de uma etica a altura do terceiro milenio. Para o confirmar, podemos ler as primeiras linhas da “Declaraq五o de Bilbao", datada de ha poucos dias, ao finalizar o Encontro Internacional sobre o Direito perante o Projecto Genoma Humano, ao qual tive a sorte de assistir. Diz o seguinte: "Estamos num momento chave para a Humanidade. No futuro conheceremos as origens da nossa especie, a sua maravilhosa variedade, as suas rela^des com todas as criaturas, o seu lugar no meio ambiente e a sua visao de futuro. E essencial que os cientistas ejuristas de hoje sejam capazes de responder ao desafio desta nova era com humildade, imaginagao e um sentido de justiqa global".

Que este paragrafo inicial e os outros da "Declaraq我o de Bilbao", juntamente com os livros publicados pela mesma Funda^ao BBV, Proyecto Genoma Hutnano: Etica, cuja segunda edi^ao acabou de aparecer, e America Latina: contradicciones y esperanzas, de Nicole Rosensohn e Bertrand Schneider, cheguem como amostra do muito que esta Funda^ao bancaria esta a trabalhar e a conseguir no campo da etica, da bioetica e dos direitos fundamentals. Granas as preocupa^des tao humanas e humanitarias desta Funda^ao e de outras similares, podemos afirmar que a etica atingiu a sua maioridade; superou, por exemplo, os tempos em que qualquer emprestimo de dinheiro a juros era considerado pecado e mesmo delito de usura3; superou a dualidade

(3)

81

-BIO-^TICAE NOVOSDEVERES** - DIREITOSHUMANOS

itnplicaciones eticas; La procreacion artificial:

nuvens e necessidade de inculcar o controlo da da etica civil face a etica eclesiastica; aquela rastejava excessiva- mente rente a terra, enquanto esta voava por cima das

esquecia, por exemplo, a

natalidade em alguns paises do terceiro mundo, etc.

E gratificante constatar que o livro Proyecto Genoma Hutnano:

Etica dedica quarenta das suas 480 paginas as considera^des religiosas, concretamente nos seguintes quatro estudos: El punto de vista catolico en sus itnplicaciones eticas; La procreacion artificial: un punto de vista islamico; Actitudes eticas de un cientifico judio en relacion con la intervencion genetica; El protestantismo y el Proyecto Genoma Hiunano.

Esta integra^ao do religioso com o cientifico, para avan^ar no desenvolvimento do Projecto Genoma Humano, lembra-nos a escultura de Rodin intitulada "A catedral". Certamente, hoje a etica e uma catedral aconfessional-ecumenica, um local de encontro construfdo por duas maos unidas, embutidas, a do cientista especialista da bioetica civil com a do especialista da bioetica religiosa. Mesmo que a ciencia e a tecnica possam eliminar a etica tradicional, nunca serao suficientes para dar a luz nem para fundar por si mesmas uma nova etica: sempre precisarao das religioes4.

Seguindo este caminho nao dual, integrador, formulam-se em seguida algumas breves consideragdes sobre os novos direitos humanos, deveres-direitos, em rela^ao com a bioetica.

Visto que, segundo o programa deste Seminario Intemacional sobre problemas actuais dos Direitos fiindamentais, nas comunica?6es de hoje sobre ^Bioetica e novos Direitos Humanos" colaboram duas conhecidas professoras catedraticas de Etica, Adela Cortina e Espe­

ranza Guisan, parece oportuno que a minha colabora^ao trate dos novos Direitos Humanos mais do que da Etica propriamente dita.

4 H. KUNG, "A la busquedade un 'ethos' bdsico universal de las grandes religiones",Concilium, num.228,marzo 1990, pp. 302 ss.

5 A. CORTINA, “Elica comunicativa": in V. CAMPS, O. GUARIGLIA, F.

SALMERON (Comps.), Concepciones de laEtica,Trotta, Madrid, 1992, pp. 177 ss.

Com razao, Adela Cortina, no seu artigo "Etica comunicativaM5, declara que a afirma^ao de Toulman — "a bioetica salvara a Etica"—

2. A Bioetica salvara a Etica e os Direitos Humanos

(4)

82 D1REIT0EJUSTICA

nao lhes

universitaria medica ja nao pode reduzir-se h tecnica, esquecer a dimensao etica. Esta que tanta aten^ao

6 D. MIETH, Etica teo!6gicaebioEtica", Concilium, Maio 1989, pp.395ss.;

cfr. tambem todo o numero 228 desta re vista,de Marqo de 1990.

7 1993 PARLIAMENT OF THE WORLD'S RELIGIONS, A Global Ethic, Chicago, Illinois,28Agosto - 5 Setembro1993, cap. IV, num. 1, p. 9.

lhe agrada. Como a ela, tambem nos agrada a muitos de n6s, porque nao s6 se descobre que a bioetica constitui hoje o novo rosto da etica cientifica e que facilita a convergencia da etica civil com a religiosa, mas tambem que ainda nos motiva, a nos juristas, criminologos e vitimologos, para formular novos direitos humanos (e aos teologos para renovar as ciencias do conhecimento de Deus e as que regulam as nossas rela^oes interpessoais)6.

Os 6.000 dirigentes de 130 religioes reunidos em Chicago de 28 de Agosto a 5 de Setembro deste ano de 1993, na Declara^ao de uma etica global, ao falarem da urgencia em conseguir uma mudanga das nossas consciencias, enumeram as questdes concretas hoje em discussao, e citam em primeiro lugar a Bioetica7.

Satisfaz-nos, a todos, que a bioetica esteja a criar algo de novo no ambito da Etica e do Direito. Acertadamente, a Declaragao de Bilbao insiste repetidas vezes em quanto importa que a bioetica nos tome

"capazes de responder ao desafio desta nova era... O horizonte das suas actividades seria um novo tratamento intemacional... Deveria establecer-se um novo discurso regulador dos principios fundamen- tais...” (sublinhado meu).

As transcendentais descobertas e os subsequentes problemas da bioetica contemporanea que os meios de comunica^ao tomam patentes a todas as pessoas (mesmo que so saibam ler ou simplesmente ver, nos ecrans da televisao) obrigam muitos Professores das Faculdades de Medicina (como o mostra um inqu^rito feito recentemente na Univer- sidade de Gottingen) a mudarem radicalmente o seu metodo docente:

dantes, esses Professores limitavam-se a ensinar o que os alunos teriam de fazer no futuro na sua profissao medica, mas

explicavam por que tem de o fazer, nem para onde devem orientar a sua actividade como medicos, nem como programar esta actividade.

Em poucas palavras, gramas (em grande parte)可 bioetica, a docencia nao pode mereceu dos

"galenos" em tempos remotos, especialmente na Grecia, e que com naturalidade unia Direito e Moral, ciencia e religiao, hospital e templo.

(5)

83

o

8 H.KUNG,Proyecto de ^tica mundial, Trotta, Madrid, 1991,pp. 18 ss.

9 T. MCCARTHY, Multicultural universalism. Variationsonan enlightement theme, Fundacidn BBV,Coleccidn Catedra, Madrid, 1993,pp. 17 ss.

"BI0-6TICA E NOVOS DEVERES' - DI REITOSHUMANOS

Algo

similar exprimiu

Dali,

em

1951, no seu oleo sobre

tela

intitulado 4

Cabega

rafaelesca

rebentada*, quando nos mostra a cara

de

uma

Madona

desintegrada e, no interior dela, a

estruturade caixotdes de

uma

cupula de estilo

renascentista.

A sua mensagem

consiste em tratar, como

estrutura da

cabega da

Virgem,

o

interior

da

cupula

renascentista, encaixando

com

naturalidade

razao

e fe, ideias e cren^as.

Nessas

mesmas

datas e com

um

sentido parecido,

Dalf

comenta a

sua

'CUpula

fonnada

por carrinhos de

mao

contorcionados

,

com as seguintes

palavras: "Nenhuma das descobertas filosoficas, morais, esteticasou

biologicas permitem

negarDeus. Pelocontrario,otemplo cujos muros

levantaram

as ciencias particulares

so poderia

tercomo

tecto o ceu divino".

Convem lembrar

que

os

extraordinarios avanqos tecnicos

no campo

dascienciasda vida

tomam patente

que

nos

encontramos

num

momentohistorico

de mudan^a

que exige-e

em

parte

vai conseguindo-

um

radical, paralelo,

amadurecer

inovador nos

valores eticos,

como indica Hans Kling

8

.

Oprofessor

catedratico de Tubingen, com solidez cientffica,

obriga-nos

a

saltar

da modemidade a

pos-modemidade,

e a considerar

afaltade

etica

comoum

dos principals factores etiologicos

da quedadasuperpotencia

sovietica, e tambem a

esperar pela

supera^ao

dacrise

do moderno racionalismo

numanovapercep^ao

da

moralnao

linear mas

complexa, nao

de

rectas

e curvas

estatisticas,

mas

um

complete

cruzamento de

redes e de vincula^oes, uma

comunidade

mundial

multicultural

e multiconfessional, com uma ampla e

profunda

dimensao estetica e

eticadohomem,damulher

e do cosmos

9

.

Tambem

entre

os

criminologosaparece

esta convic^ao e preocu- pa^ao

da

mudanqa,

da

novidade\ isso

explica

o

temacentral

do

nosso XI Congresso

mundial (Budapest,

Agosto 1993), organizado pela

Sociedade Internacional

de Criminologia: "A

mudanqa socio-politica e

o

delito

- umdesafiodoseculo

XXI".

Quanto 我 novidade

ou,se preferirmos,

evolu^ao,

fique

claro

que portai entendemos nao

o

mero desenvolvimento

do

quejd subsistia

oculto, mas a cria^ao de novidades

reais,nao

do

nada,

mas

sim

criadas

verdadeiramente pela

pessoa

enquantoimagem

de Deus.

(6)

84 DIREITOEJUSTIQA

3. Os novos direitos sao deveres-direitos

Actualmente, aos cultivadores do Direito penal e de Criminologia, a Bioetica brinda-nos com novas perspectivas para reflectir e formular alguns comentarios sobre os novos direitos humanos, considerando-os e intitulando-os como deveres-direitos.

Historicamente, a Declara^ao de 1948 surge, em pleno clima de pos-guerra, como resposta contra a macro-viola^ao que milhoes de pessoas sofrem dos sens direitos mais elementares, levada a cabo pelos poderes ditatoriais. Por isso insiste tanto no respeito devido aos direitos das pessoas, e tao pouco na nossa obriga^ao de cumprir os deveres.

Muito provavelmente pode dizer-se que essa Declara^ao universal contribuiu para uma convivencia mais digna nos paises que fomen- taram o conhecimento, reconhecimento e respeito por esses direitos fundamentals. Todavia, temos de reconhecer que desde 1948 passarain muitos anos, com notaveis progresses nos campos da industria, da economia, da tecnica, da informatica, dos voos espaciais, da enge- nharia genetica, etc. Mas estes avangos nao tem sido seguidos para- lelamente pelo devido e esperado desenvolvimento correlativo no ambito da paz, da justiga, da solidariedade e da harmonia mundial.

Entre os multiplos factores etiologicos deste desequilfbrio talvez se encontre, em certo sentido, a Declaragao de 1948 por enfatizar despro- porcionadamente os nossos direitos, com a relega^ao dos nossos deveres.

Temos de lamentar -embora nao seja costume- que, dos trinta artigos da citada Declara^ao universal, apenas o numero 29 fale explicitamente em deveres, e que o faga com suma brevidade, porque se limita a proclamar que “Toda a pessoa tem deveres para com a comunidade, pois so nela e que pode desenvolver livre e plenamente a sua personalidade''. Nao preenche esta lacuna a inicial e indirecta referencia deontologica, quando no primeiro artigo se diz que "Todos os seres humanos tem o dever de (sublinhado meu) se comportar uns com os outros com espirito fraternal".

Nao parece errado afirmar que nos nossos- dias se chegou a uma mal entendida hipertrofia dos direitos dos individuos e dos povos.

Tem sido publicados milhares de artigos e de livros, por exemplo, sobre os direitos da mulher e sobre os direitos do povo servio, mas

(7)

85

-BIO-^TICAE NOVOS DEVERES” - DIREITOS HUMANOS

muito menos tern sido escrito sobre os deveres das mulheres e os deveres do povo servio, etc. Algo de parecido se pode dizer de outros conflitos e problemas sociais.

Hoje, podemos perguntar-nos se chegou a hora de os juristas, os politicos, os crimi nologos, os sociologos, os economistas, os religiosos, etc., programarmos uma nova maneira de pensar, de sentir, de nos aproximarmos da realidade e de actuarmos10. E se esta nova maneira de conviver deve girar tanto a volta dos deveres, como a volta dos direitos.

Eusebio Fernandez, ja no ano de 1984, inclui acertadamente os deveres dentro do conceito generico dos direitos humanos. No seu livro Teoria de la Justicia y Derechos humanos^, escrevia: "No con­

ceito contemporaneo dos direitos humanos fundamentals encontramos a concretiza^ao teorica e pratica desse conjunto de necessidades, exigencias, direitos e deveres'' (sublinhado meu). Posteriormente, na revista Derechos y libertades, volta ao tema, no artigo intitulado

"Concept。de Derechos Humanos y problemas actuales"”; nas paginas 46 e 47 repete meia duzia de vezes a palavra deveres, porque "Os direitos humanos fundamentals incluem varias coisas ao mesmo tempo:

respondem a necessidades humanas essenciais que se traduzem em exigencias morals e pretendem ser reconhecidas e garantidas pelo Direito, gerando deveres". Tambem se ocupa dos deveres e das obriga^des em outros trabalhos. E suficiente citar o seu artigo 4tCon- ciencia y respeto al Derecho"”, com as referencias as suas publica- goes de 1987 e 1990.

Hoje em dia, a nossa convivencia e a nossa consciencia social postulam que cada pessoa cumpra os seus deveres quotidianos e leve a serio as suas correspondentes responsabilidades e se faqa responsavel

10 Sobre uma nova maneira de nos aproximarmos da realidade, D. T. SUZUKI,

"Conferencias sobre Budismo zen”,in D. T. SUZUKI, E. FROMM, Budismo zen y psicoandlisis,Fondo de Cultura Econdmica,MExico,1992,pp. 20 ss.

11 E. FERNANDEZ, Teona de la Justicia y Derechos Humanos, Debate, Madrid, 1984, p.38.

12 E. FERNANDE乙 “Concept。de DerechosHumanosy problemas actuales", Derechos y libertades, Revista do Institute Bartolomede las Casas, anoI,num. 1, Fevereiro-Outubro 1993, p. 46.

13 E. FERNANDEZ, "Conciencia y respeto al Derecho", in G.PECES BARBA (comp.),Ley y conciencia..., Madrid, 1993, nomeadamente as pdginas64 s., e 68.

(8)

86 DIREITOEJUSTICA

mais importantes em rela^ao h

4. Dever-Direito de uma visao nova

Platao,Timeo, 47 a, 47b.

Um dos nossos Jeverej-direitos fundamentals, perante a pro- blematica da bioetica e perante muitas outras problematicas, e reflec- tir sobre as nossas teorias e experiencias cognitivas para aprender a olhar a partir de uma perspectiva nova, mais humana, mais tolerante, mais solidaria, mais global e mais ludica.

Em certo sentido, nao em todos, convem superar essa tradi^ao cultural da palavra como o comedo da convivencia, "no principio ja

"Os olhos foram criados para ser, em nosso beneficio, o principio da maior utilidade... todas as coisasquevemos...

... para que celebrar tudo o que isso representa de beneficiosinteriores?*'

14 H.-H. JESCHECK, “Das Schuldprinzip als Gundlage und Grenze der Strafbarkcit im deutschen und spanischen Rechl", in J. CARO BAROJA, A.

BERISTAIN (Comps.), Ignacio de Loyola, Magister Artium en Paris 1528-1535、San Sebastian, 1991, pp. 405 ss.

13 N. ROSENSOHN e B. SCHNEIDER, America Latina: contradicciones y esperanzas,trad. Ann Johnston, ClubdeRoma,Fundacidn BBV, Bilbao,1993, pp. 18 s.

por elas (Zubiri), de maneira que se nao o faz e considerado culpado e ate e criticado e sancionado com penas severas14.

Olhando para o futuro da Bioetica e do Direito, convem reflectir seriamente sobre uns direitos humanos novos, ou melhor, uns deve- res-direitos humanos novos, sublinhando a primeira palavra: deveres.

Oxala um grupo de especialistas se dedique com seriedade a reelaborar a Declaragao Universal de direitos humanos para a transformar na Declara^ao Universal dos deveres e direitos humanos, pois "o gozo dos direitos nao se pode garantir sem a aceita^ao das obrigagdes -os direitos tem de ser compensados pelos deveres; os privilegios pelas responsabilidades-. Ambos sao essenciais para o govemo das na^oes e das sociedades"i5.

Em seguida refiro tres ou quatro deveres-direitos concretos que considero, em certo sentido, os

bioetica.

(9)

,•BIO-^TICA E NOVOS DEVERES1*- DIREITOSHUMANOS 87

existia o verbo,M6. Ou melhor, temos de afirmar que a constru^ao so­

cial da realidade surge inicialmente desde a nossa peculiarpercep^ao, individual e social, da realidade; que o observador e actor e criador de tudo, quem ve ilumina ("Se o teu olho estiver sao, todo o teu corpo andara iluminadon)17.

Provavelmente, parte destas ideias quis fazer significar Antoni Tapies com o vitral na igreja dos Capuchos, em Sion (S响a). Pinta-nos e presenteia-nos esses oculos para, atraves deles, olharmos e vermos a a

Quando tentamos conhecer, analisar e resolver um problema de bioetica, nos, os juristas, e nao so os juristas, temos de come^ar por olhar para co mo olhamos para a realidade social: recordando-nos do inteligente poema de Pedro Salinas: "Ver lo que veo" ["Ver o que vejo"].

"Quisiera mis que nada, mds que sueiio, ver lo que veo...

A la orilla del no de su calma, quieto, contemplo.

Por la visidn de lo que estd delante, dejo el proyecto...

["Neste mundo de amor nada e verdade nem mentira, tudo depende da cor do vidro com que se mira”]

Los dos amantes, dulce no abajo, sueltan los remos;

que los lleven las ondas sosegados, amor es lento...

16 S. JOAO, Evangelho, cap. I, vers. 1.

17 S. MATEUS, Evangelhoy cap. VI, vers. 22; S. LUCAS, Evcuigelho, cap. XI, vere. 34.

18 Campoamor ve este mundo "traidor”.

"En este mundo de amor 18 nada es vcrdad ni es mentira, todo es segun el color del cristal con que se mira"

paisagem suiqa. Tapies sugere-nos a seguinte pergunta: temos obrigagao (gratificante obriga^ao) de olhar com uma nova pupila?

Lembremo-nos de que:

(10)

88 DIREITO E JUSTICA

Sf. Ver lo que se ve".

Sim. Ver o que se vE"...]

melhor, devemos olhar para

Esta mensagem de

PedroSalinaspodeajudar-noscomfrequencia,

nos juristas, por exemplo

quando

temos

de

aplicar o artigo

3

do

匕Es lo que veo el no, o es el no?

:Soy yo los dos amantes, o son ellos?

["Quereria mais do que tudo, mais do que sonho, ver o que vejo...

Os dois amantes, docc no abaixo, largam os remos;

que os levem as ondas sossegados, amor e lento...

A beira do no da sua cal ma, quieto, contemplo.

Pela visao do que esta 丑 frenie, deixo o projecto...

E o que vejo o no, ou e o no?

Sou eu os dois amantes, ou sao eles?

in A. Beristain, J. L.

en Derecho penal intemacional y espahol, Universidad del Pais Vasco/Euskal Herriko Unibertsitatea, San Sebastian, 1989, p. 157; A. BERISTAIN, “Re-encantamiento criminoldgico en projimidad desde el des-encantamiento", Actualidad penal, num. 25,21 al 27 de junio 1993, pp. 343 ss.

a

CodigoCivil espanhol,segundo

o qual:

"As normas

interpretar-se-ao

segundo

o

sentido proprio das

suas palavras,

em rela^ao

com

o

contexto, os

antecedenteshistoricos

e

legislatives,e

a

realidadesocial do

tempo em

quetem

de

seraplicadas" (sublinhado

meu). E o

que

eu

vejo

a realidade,

ou

e a realidade?.

Convem que olhemos,

ou

melhor, devemos olhar

para as

realidades", parau

este mundo", da bioetica

naocom

o

tao

estendido

desencanto de

Campoamor e Max Weber, porque,

como

diz Aranguren,

chegamos

ja a

uma epoca em que, se repararmos

bem, devemos e

podemos aprender

a

superar

o

desencanto19

.

O desejavel

reencanto

pode

surgir, em

grande

parte, a partir de algumas das

novas

teorias

19 J. L. L. ARANGUREN, “£iica y Derechos Humanos**.

de la Cuesta (Comps.), Proteccidn de los Derechos Humanos

(11)

89

5. Dever-Direito de continuar a investigar

cognitivas que nos ensinam a olhar atraves de outra pupila mais propicia a felicidade20.

Este dever-direito de aprender a olhar atraves de outra pupila coincide com o postulado recentemente expresso pelo Clube de Roma, quando, em Montevideo e Punta del Este (Uruguay), em Novembro de 1991, pede que cada pessoa adquira uma nova concep^ao global do mundo, ou melhor, do cosmos, como jd o viam, denominavam e valorizavam os gregos.

"BIO-^TICA E NOVOS DEVERES** - DIREITOS HUMANOS

De acordo com o artigo primeiro da Declara^ao de 1948, "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e dotados como sao de razao e consciencia...n Permitam-me que, depois de manifestar a minha aceita^ao entusiastica desta formula, acrescente uma pequena cntica, a partir da atalaia de Heidegger, Zubiri e outros filosofos, por considerar que estas palavras ・"dotados como sad"'- mostram pouco a inexoravel dimensao existencial e temporal do ser (Sei" und Zeit, de Heidegger), da pessoa, e da ciencia (Natura- leza, Historia y Dios, de Zubiri); e mostram pouco a nossa obriga^ao de continuar a investigar. Esta obriga^ao merece dois comentarios.

Primeiro: Quando nascemos, nenhuma pessoa esta dotada de consciencia21. Mais ainda, infelizmente, algumas pessoas ja adultas tambem nao o estao suficientemente, por omissoes ou carencias no seu curriculum vitae. Todos vamos adquirindo e desenvolvendo a nossa consciencia, uns mais e outros menos. Todos temos o dever- -direito de ir amadurecendo passo a passo a nossa ciencia e a nossa consciencia moral em geral, e sobre os problemas da bioetica, em particular. Assim no-Io pedem as investiga^oes de Piaget, de Kohlberg e dos sens continuadores, quando nos explicam como se forma e refortna a pupila etica, como pode e deve cada homem e cada mulher ir culminando a sua metanoia, o seu amadurecimento

20 J. M. RODRIGUEZDELGADO, La felicidad. D6nde se sientey c6mo se alcanza. Como cultivaryaumentar la felicidad personal, 14° edi^ao, Madrid, 1992, pp. 133 ss.

21 J. M.RODRIGUEZ DELGADO,“ThePsychophysiology of Freedom'; Po­

liticalPsychology,vol. 4, num. 2, 1983, pp. 355-374.

(12)

90 DIREITOEJUSTICA

'T A incidencia do conhecimento genetico no ser humano ja requer uma detida reflexao dos juristas para dar resposta aos problemas que a sua utilizagao acarreta.

2a A investigagao cientifica sera essencialmente livre, sem outros entraves para alem dos impostos pelo autocontrolo do investigador. O respeito pelos direitos humanos consagrados pelas declaragdes e conven^oes intemacionais marca o limite de toda a actua^ao ou aplica^ao de tecnicas geneticas no ser humano.".

22 L. KOHLBERG, Psicologia del desarrollo moral, trad, de A. Zubiaur, Desclee de Brouwer, Bilbao, 1992, pp. 49 ss., 185 ss.; F. DIGNEFFE, Ethique et d^linquance. La ddinquance comme gestion de sa vie, Ed. MGdecine et Hygidne, Meridiens Klincksieck,Gendve, 1989, pp.57ss.,77 ss.

etico22. Com acerto Rigoberta Menchu, Premio Nobel da Paz de 1992, intitula o seu livro Asi nacio mi conciencia [Assim nasceu a minha consciencia], e nele descreve o seu lento caminhar de consciencia- lizagao, mostrando-nos que cada dia procura esclarecer e fortalecer mais os sens criterios e compromissos.

Tambem Chillida considera que toda a pessoa preocupada com a Etica precisa de estar constantemente aberta a luz da verdade, ao durante o dia e as estrelas durante a noite. Por isso, a sua "Casa de Goethe", colocada no centro da cidade de Frankfurt am Main, carece de tecto. Goethe ・ sugere-nos a escultura do artista de San Sebastian - desejava viver sempre ao ar livre, a procura de mais ciencia e de mais consciencia, mais luz, mehr Licht... Assim, este desejo susteve-o durante toda a sua existencia, e com ele morreu.

Os que de alguma maneira estamos relacionados com a bioetica, devemos lembrar-nos com frequencia da nossa obriga^ao de procurar incessantemente mais luz, nova luz. Nunca podemos parar, nem cansar-nos de estudar.

Os participantes no recente Congresso Internacional celebrado em Bilbao sobre o Projecto Genoma Humano: Etica, repetidas vezes expressaram esta necessidade de mais claridade, de mais investiga^ao.

Nomeadamente reclamam-na nas suas Conclusoes la e 2a:

(13)

•,BIO-^TICAE NOVOS DEVERES - DIREITOSHUMANOS 91

6. Deveres-Direitos na nova ordem economica mundial.

De forma semelhante se manifestaram Felix Goni, nos seus dois ultimos artigos23, Eduardo Lopez Azpitarte24 e outros especialistas.

Segundo comentario: Umas breves linhas, mas paradigmaticas, de Pedro Lam Entralgo tomam patente a possibilidade e necessi- dade de ver com outros olhos temas tradicionalmente intocaveis, como o do aborto. Lain Entralgo diz o seguinte: uparece-me inteiramente inadmissivel a atitude dos que, em nome das suas cren^as sobre a procriagao da nossa especie, pretendem impor legalmente a total proibi^ao do aborto e converter a sua pratica nao criminosa em delito punivel,,Z5.

fase terminal e do Projecto Genoma Humano, que agora comentamos.

Ja os moralistas escolasticos do seculo XVII estabeleciam a nao obriga^ao de gastos extraordinarios para manter em vida os doentes.

Hoje em dia, o adiamento do 6bito de determinado paciente de cancro grave e incuravel, mesmo que nao chegue at€ a terapia mais insis- tente, muitas vezes implica ou exige gastos extraordinarios a Segu- ranga Social, isto e, a sociedade e/ou a familia. Todavia, infelizmente, nao se costuma infonnar nem perguntar ao paciente se deseja ou nao tai dispendio.

Muitas pessoas, nos ultimos meses da sua existencia, estao a levar a Seguran^a Social a dispendios muito por cima do comum, sem o saberem nem o quererem. Mais ainda, querendo elas evita-lo. Alguns medicos nao cumprem o estabelecido na Resolu^ao do Conselho da

Pode dizer-se que no fundo da maior parte dos problemas de bioetica subjaz uma questao economica. Tambem em algumas interrogagoes de doentes em

23 F. GONl, "DNA y herencia: problemas eticos y aplicaciones mGdico-legales", Eguzkilore. Cuaderno del Instituto Vasco de Cnminologfa.num. 5 extr. sobre Droga, Bio-6tica e Politica,SanSebastian, 1992, pp. 97 ss.; IDEM, **Mas sobre los aspectos paracientificos de la tecnologfa del DNArecombinante",Eguzkilore.

Cuaderno del InstitutoVasco de Criminologia, num. 7, San Sebastian, 1993, pp. 245 ss.

24 E. LOPEZ AZPITARTE, ttica y vida. Desafios actuales,ed., Paulinas, Madrid, 1990,pp. 176 ss., com abundantebibliografia.

25 P. LAIN ENTRALGO, Elcuerpohumano,Espasa Universidad..., p.335.

(14)

92 DIREITOEJUSTICA

de pessoas

vivam

mal,

Europa-Comissao

de Saude e

Assuntos

Sociais, de

29 de

Janeiro de

1976^6, porque, apesar

de

essas

pessoas

lhes

pedirem para serem

completamente

informadas sobre a

sua doenga e sobre

o

tratamento previsto,

ocultam-lhes ou negam-lhes

que

se encontrem

em fase

terminal; e, as vezes,

dizem-lhesqueotratamento

tem como objective a cura

(muito) provavel, quando

na

realidade

sabem que

apenas

prolonga a sua

agonia, por

mais

semanas

ou

meses.

Conheci pessoas religiosas

que

durante toda a

sua

vida cumpriram com grande

gostoo seu

voto de pobreza num grau de

extrema

heroicidade,

e desejaram vive-lo

tambem na sua ultima doenqa; mas os

medicosimpediram-nos, ocultando-lhes

o seu diagnostico e o

seu tratamento

extraordina- riamente

caro,que

apenas

pretendiaprolongar

a sua

doenqa,de

tai ma-

neira

que, as vezes,

setomavadificil

distingui-lo da

terapia

insistente.

Nao ha qualquer razao etica

quejustifique

uma limita^ao

nas novas tecnologias

carissimas, mas parece imprescindivel

que,

antes da

sua

aplica

,seja conhecida a vontade

do

paciente, devidamente infomado,

comosujeito,nao

mero objeto "propriedade”

do

medico.

Por

outraspalavras,

no campo da

saude,

como

noutroscampos,

a

nossa sociedade

do

primeiro

mundo esta a

desperdigar quantias fabulosas

de

dinheiro,enquantoo

terceiro mundo lamenta

quemilhoes

em extrema

pobreza,

e milhoes

de

crian^as morram nos

primeiros

meses. Concretamente,

segundo

o

Relatorio

deste

ano

de

1993, da UNICEF 27,

pelo

menos mil milhoes de

seres

humanostem

vedado

o

acesso a

necessidades consideradas basicas,

como

uma

alimenta^ao

adequada,

agua potavel, sistemas

seguros

de

saneamento, uma

habita^ao digna,

um

tratamento

da saude fiavel

e

umaeduca^aominima.

Peranteestas

e outras considera^des, convem

que

se facilite

mais

o conhecimento e a

assinatura

do testamento vital, no

caso

de

alguem

26 COMISAO DE SAUDE E ASSUNTOS SOCIAIS DO CONSELHO DE EUROPA, Resoluqao. Estrasburgo,29 deJaneirode 1976, num. 10: "Recomenda o Comit6 deMinistrosdo Conselho da Europa (os Ministros da Saude) que convidem os Govemos dosEstadosMembros (dezoito): (...) b) A chamarem a aten^ao dos medicos para quesaibam queosdoentes tem direito, seassimo manifestarem, de ser informados completamente sobre a sua doenqae otratamento previsto e actuar de modoque no momento da admissao sejam informados no que respeita ao funcionamento e 公 equipa medica do estabelecimenton.

27 FUNDO INTERNACIONALDASNAQOES UNIDAS PARA A AJUDA A INFANCIA (UNICEF), Oprogresso das Naq6esRelaidrio do ano 1993.

(15)

93

,•BIO-^TICA E NOVOS DEVERES',-DIREITOSHUMANOS

TESTAMENTO VITAL B.I.

que se utilizem com este fim todos

Revista de Medicina de la Universidad de Navarra, Janeiro-Margo 1993, p.

57.

o desejar. Aqui adequa-se plenamente a peti^ao de Rilke que deseja a cada um "a sua propria morte,, (den eigenen Tod). Tambem cabe criticar a opiniao dos que consideram que o direito a vida tem "um conteudo de protec^ao positiva que impede configura-lo como um direito de liberdade que inclua o direito a propria morte" (como diz a Sentenqa do Tribunal Constitucional [espanhol] 120/1990, de 27 de Junho) 28. Jd que muito poucas pessoas conhecem o texto classic© do testamento vital e, o que e pior, ja que uma ou outra revista medica publicou um texto deformado, pois acrescenta-se, por exemplo,uque nao me seja aplicada a eutanasia activa>,29, parece oportuno trans- creve-lo aqui.

Eu B.I maiorde

idade, residente em faqo constar quetemo

mcnos o adiantamento da minha hora final do queos sofrimentos inuteis e a dcgrada^ao e indignidade da pessoa e, por conseguinle, considerando que a passagem para a morte fazparte do mais intimo do ser humano e que ninguem pode expropriar-nie do que constitui a expressao maxima do meu direito A intimidadecomopessoaadulta, juridicamentecapaz, cidadao livrenum povo livre,nodia de hoje, depois de madura reflexao e de acordo com o meuprdprio criterio,espontaneamente declaro: ,

Primeiro.- Se algum diachegar a padecerdedoenqaoudanoffsico grave e manifestamente incurdvel e que me provoque grandes sofrimentos ou me incapacitepara uma existenciaracionale autdnoma, nao quero ser obrigado a respirar por meio de uma mdquina, nem ser alimentado A forqa,nem ser mantido porqualqueroutromeioindefinidaeartificialmenteno que para mim seriauma insuportdvel caricatura de vida. Como esse estado significaria quejd morrera o que eu considero que constitui realmente a minha pessoa.peqoque, secairnele, mesejam administrados quantosfdrmacos sejam necessaries para me evitar dores e sofrimentos e que se utilizem com este fim todos os procedimentos disponfveis mesmo que isso possa adiantar o momento daminha mortetotal.

28 C.LAMARCA, t4Regimenpenitenciario y derechos fundamentalesM, Estudios penales y criminoldgicos, XVI, Universidadde Santiagode Compostela, 1993,pp.

233 s.;A. ESER, "Freiheitzum Sterben - Kein Rechtauf Tdtung*\ Juristen-Zeitung, 1986, pp. 786 ss.; L. SCHOLLHAMMER, Die Rechtsverbindlichkeit des PatiententestamerUs. Eine Untersuchung aus zivilrechtlicher Sicht, Duncker &

Humblot,Berlin, 1993, pp. 17 ss., 67 ss., 147 ss.

29

(16)

94 DIREITOEJUSTICA

******

citado Con-

blicos

os

conhecimentos

que

Segundo.- Se me encontrarinconsciente ena situa^ao descrita no primeiro pardgrafo, devidamente comprovadae certificadapor pelomenosdois medicos, dever-se-ao seguirasinstru^desda pessoa que eupreviamente tenha designado (ver no verso) para a efectividade do solicitado no dito pardgrafo. Na sua ausencia, peqo que se ocupedissoo medico encarregue do meu caso; no caso de se recusar, devetransferir-meaquempossaequeira cumprir a minha vonlade segundo o expresso.

Terceiro.- Respeiio sinceramente toda a opiniao eop?ao contr^ria e na mesma medida espero que seja respeitada aminha,quese refere a minha vidae aminha pessoa, e nao A de outrem, e que estd baseada nos artigos 10, 15, 17 e 18 daConstitui^aoespanhola;na resolu^ao 613/76 da Assembleia Parlamentar do Conselhoda Europa, Doc-3699, Doc-3735, Rec-779, sobreos direitos de doentes e moribundos; najurispmdencia intemacional que estabeleceu que:

-o direito constitucional a intimidade delimita um ambito prdprio, pessoal, do cidadao, que incluiaop?aode recusar tratamento medico;

-perante sofrimentos estereis derivadosdelesaoou doenqa irreversivel e grave, o direito a morrer cuja reivindica海 por umadulto capacitado podeser provada, como compreendido nesse ambito privado, tem primazia sobre as razoescorrentesde uinteressepublico0ou "bem comum".

Quarto.- Se o acaso daminha hospitaliza^ao me situar sob a autoridade depessoas que depois de terem sido notificadasdeste documento persistemem antepor as suascren?as minha vontade eme obrigam asuportar um tratamento que expressamente rejeilo, peqoao meu representantead hoc ou, na sua ausencia, ao portador do presente, que coloqueao corrente dos factos a procuradoria ao abrigodo art. 124 da Constitui^aoecomopossivelmenteconstitutivos do delito decoac^oes previsto noart.496do Codigo Penal.

Assino esta declara^ao perante as testemunhas maiores de idade e nao meus familiares que constam no verso, em a de

demil novecentos

De outro

dever-direito

economico

se

falou no

gresso sobre o

Projecto Genoma

Humano, em

Bilbao.

Discutiu-se a questao

da

patentabilidade das sequencias geneticas. O Premio Nobel

Craig Venter

mostrou-se a favor como

meio

de obter

meios

econo-

micos

para

continuar

a investigar e

como caminho para tomar pu-

se vao adquirindo

e

evitar assim

a

esterilidade do

segredo.

Pelo

contrario,

a maior

parte

dos

congres-

sistas

opunham-se

a

patentabilidade. Na teoria, todos concor- davam

em

queo

corpo

humano,porrespeito

点 dignidade

pessoal, nao

deve ser susceptivel

de

comercializagao. Posteriormente,

mani-

festa-se

com formulagao parecida

a

Declara^ao de utna etica gio-

(17)

95

••BIO-^TICA E NOVOS DEVERES“- DIREiTOS HUMANOS

7. Apostilha: o dever do optimismo.

1993 PARLIAMENT OF THE WORLD RELIGIONS, A Global Ethic,

Cfr. A. CORTINA, ^tica minima, Tecnos, Madrid, 1986.

33

Para acabar, lembro o discurso de D. Felipe de Borbon y Grecia, na abertura da conferencia celebrada em Montevideo, a 18 de Novem- bro de 1991, quando destacou o facto de as pertinazes desigualdades que ainda existem entre os seres humanos apenas poderem ser supe- radas, no nosso mundo complexo e incerto, se houver uma maior coo- pera^ao a todos os nfveis e um regresso aos valores eticos. Expres- samente proclamou que "temos o dever (sublinhado) de transmitir ao mundo o optimismo de uma vida enriquecida com liberdade, respon- sabilidade e com o exercicio de valores eticos e moraisn...32.

A dimensao cidada de todo o homem e de toda a mulher implica o nosso gratificante dever etico elementar33 de participar responsa- velmente na organiza^ao e no sucesso da coisa publica, bem como de procurar a nossa felicidade individual e a dos outros.

baPQ quando declara que a pessoa deve sempre ser sujeito de direitos, fim e nunca meio, nem objecto de comercializa^ao ou industrializa^ao no campo economico, politico e dos media, ou em institui^des de investigagao e nas corpora^oes industrials ("Humans must always be the subjects of rights, must be ends, never mere means, never objects of commercialization and industrialization in economics, politics and media, in research institutes, and industrial corporations"). Todavia, na prdtica, torna-se dificil responder a alguns destes problemas concretos. A cada novo dia sera preciso formular novas respostas a novas interrogates, como a de Hans Kling: "Por que e que nas experiencias e na terapia do cientista da natureza e do especialista da reprodugao o homem nunca deve ser objecto de comercializa^ao e industrializa^ao (o proprio embriao como artigo de venda e objecto comercial), mas sempre sujeito de direito e objective final?'”】.

30

1993, cap. H, p. 4.

H. KUNG,"Alabusquedadeun 'ethos' b^sicouniversal...**, p. 290.

32 N. ROSENSOHN e B. SCHNEIDER, America Latina:contradicciones y esperanzas,trad.Ann Johnston, Club deRoma,Fundacidn BBV, Bilbao,1993, pp. 18

(18)

96 DIREITOEJUSTIQA

Em sentido semelhante, a Declara^ao de uma etica global pede-nos para cultivarmos, e ensinarmos a juventude, um estilo de vida (yvays of life) amigavel (friendly), alegre (joy) e feliz (happiness).

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