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Processo 426/2009-JP

Data do documento 29 de janeiro de 2022

Relator

Perpétua Pereira

JULGADOS DE PAZ | CÍVEL

Sentença

DESCRITORES

Responsabilidade civil

SUMÁRIO

N.D.

TEXTO INTEGRAL

Sentença

I. Identificação das Partes Demandante: A

Demandada: B II- Objecto do Litígio

A Demandante veio propor contra a Demandada a presente acção declarativa, enquadrada na alínea h) do n.º 1 do art.º 9º da Lei n.º 78/2001 de 13 de Julho, pedindo a condenação desta a pagar a quantia global de

€1.775,73 (mil, setecentos e setenta e cinco euros e setenta e três cêntimos) pelos prejuízos decorrentes de um acidente de viação.

Alegou, para tanto e em síntese, que no dia 30 de Setembro de 2008, pelas 18:10 horas, conduzia o seu veículo automóvel de matrícula x pela Rua x, em Vila Nova de Gaia e, uma vez chegada ao entroncamento com a Rua do x e pretendendo virar para esta, foi embatida pelo veículo de matrícula x, cujo proprietário transferiu a sua responsabilidade civil para a Demandada.

Alicerça a indemnização do valor peticionado em danos patrimoniais de reparação do automóvel e privação de uso do seu veículo.

Juntou documentos.

A citação foi efectuada regularmente.

Pela Demandada foi apresentada contestação, admitindo alguns factos articulados no requerimento inicial,

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nomeadamente, a verificação do acidente, local, bem como os veículos envolvidos, impugnado, no entanto, a versão apresentada pela Demandante, imputando-lhe a responsabilidade pelo acidente, alegando, em suma, que o acidente ocorreu porque a condutora do veículo x ultrapassou o risco contínuo, ultrapassou dois veículos parados na sua frente e foi assim embater no veículo x, concluindo pela improcedência da acção e absolvição do constante do pedido.

Juntou cópia da apólice do seguro.

O Julgado de Paz é competente em razão da matéria, do objecto, do território e do valor.

O processo não enferma de nulidades que o invalidem na totalidade.

As partes gozam de personalidade e capacidade judiciárias e são legítimas.

Não há excepções, nulidades ou quaisquer questões prévias que cumpra conhecer.

Procedeu-se ao Julgamento com observância das legalidades formais como da acta se infere.

III- Fundamentação Fáctica

Da matéria carreada para os autos e com relevância para a decisão da causa, resultou provado que:

a) No dia 30 de Setembro de 2008, pelas 18:10 horas, na Rua x, Vila Nova de Gaia, ocorreu um acidente de viação entre o veículo ligeiro de passageiros de matrícula x, propriedade da Demandante e conduzido pela mesma e o veículo ligeiro de passageiros de matrícula x, propriedade de x, conduzido por x.

b) À data do acidente, o proprietário do veículo x havia transferido a sua responsabilidade civil para a Demandada, através da apólice n.º x.

c) No dia e hora indicados, o veículo x, circulava na x, sentido x, na hemi-faixa de rodagem direita.

d) Uma vez chegada ao cruzamento com a Rua do x, a condutora do veículo x, uma vez que pretendia virar à esquerda para aceder á referida via,

e) E constatando que não existiam veículos a circular em sentido contrário, f) Iniciou a mudança de direcção para a esquerda.

g) No mesmo sentido e direcção do veículo x encontravam-se, à frente deste, dois outros veículos para dos, em obediência ao sinal vertical/semáforo accionado na cor vermelha para a circulação de todos os veículos posicionados no aludido sentido x.

h) Para realizar a manobra de mudança de direcção, a condutora do veículo x ultrapassou o risco contínuo existente no respectivo eixo da via.

i) O veículo seguro na Demandada, provindo da Rua do x em direcção á aludida x, sentido x,

j) Ao aproximar-se do entroncamento e não parando no sinal de Stop aí existente, apenas cuidou em olhar para o seu lado esquerdo, entrou acto contínuo na x.

k) Indo embater no veículo x, já na hemi-faixa esquerda da referida x, atento o sentido x.

l) Do embate resultaram danos, nomeadamente no veículo x, no pára-choques, farol esquerdo, farol de nevoeiro e guarda-lamas.

m) A reparação dos danos no veículo x foi orçada pela Demandada na quantia de €1.675,73.

n) Para a reparação, o veículo x irá ficar paralisado durante quatro dias.

Não resultou provado que a Demandante vá sofrer danos advindos da privação do uso no montante de

€25,00 por cada dia de paralisação.

Motivação fáctica::

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Os factos assentes resultaram da conjugação dos documentos constantes dos autos, nomeadamente de fls.

8 a 14 (cópia do livrete e do título de regito de propriedade, participação de acidente de viação ao Destacamento Territorial de Vila Nova de Gaia, relatório de peritagem), 27 (cópia de apólice de seguro automóvel); da inspecção ao local; do depoimento testemunhal prestado em Audiência de Julgamento, sendo que os factos constantes da alínea a) b), c) e m) foram admitidos por acordo, nos termos do art.º 490º n.º 2 do Código de Processo Civil.

O facto não provado resultou da ausência de prova sobre o mesmo.

IV- O Direito

Pela presente acção pretende a Demandante efectivar a responsabilidade civil emergente de acidente de viação ocorrido em 30 de Setembro de 2008 que teve como intervenientes o veículo ligeiro de passageiros de matrícula x, sua propriedade e o veículo ligeiro de passageiros com a matrícula x, propriedade de x, o qual transferiu a responsabilidade civil para a Demandada.

No domínio da responsabilidade civil extracontratual por actos ilícitos, a regra é de que a obrigação de indemnizar só existe, para além dos restantes pressupostos, quando há culpa do agente, tendo carácter excepcional os casos em que dela se prescinde, nos termos do disposto nos n.ºs 1 e 2 do art.º 483º do Código Civil.

São pressupostos deste tipo de responsabilidade: a) a verificação do facto; b) a ilicitude; c) a culpa; d) a existência de danos; e) o nexo de causalidade entre o facto ocorrido e os danos verificados.

O facto terá de ser necessariamente aquele que é dominável e controlável pela vontade humana, a ilicitude traduz a reprovação da conduta do agente reflectida na violação do direito de outrem ou de qualquer disposição legal destinada a proteger interesses alheios.

De acordo com o art.º 487º do C. Civil, a culpa é apreciada face às circunstâncias concretas de cada caso pela “diligência de um bom pai de família”(critério de diligência abstracta), ou seja, de acordo com a capacidade e diligência do homem médio colocado na mesma situação do agente.

Os danos correspondem ao prejuízo que decorre para quem suporta a actuação ilícita e culposa, ligados pelas regras normais da causalidade.

Salvo havendo presunção legal de culpa, é ao lesado que incumbe provar a culpa do autor da lesão, art.º 487 n.º 1.

Tendo em conta a dinâmica e local onde se deu o embate, praticamente no meio da hemi-faixa esquerda da x, no sentido Porto/Espinho, que a condutora do x manobrou o seu veículo ultrapassando outros dois que estavam parados a aguardar o sinal verde do semáforo, que esta, para tal, passou uma linha contínua e ainda que a condutora do veículo x também não parou no sinal STOP existente à saída da Rua do x, olhando apenas para o seu lado esquerdo à entrada do entroncamento, ficou demonstrado que terão ambas as condutoras concorrido de igual forma, com culpa, para o embate.

Face ao exposto, entende-se que é de fixar em partes iguais a culpa das condutoras na eclosão do acidente, pois ambos não tomaram as devidas precauções, para circular com segurança, violando normas da legislação estradal (D.L. 114/94 de 3 de Maio alterado pelo D.L. 44/05 de 23 de Fevereiro),

No que toca aos danos que o Demandante pretende ver indemnizados, nos termos do art. 562º do C.C., a obrigação de indemnizar visa a reconstituição da situação que existiria na esfera jurídica do lesado se não

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se tivesse produzido o acidente, de acordo com a designada Teoria da Diferença, sendo indemnizáveis os danos patrimoniais e de carácter não patrimonial, estes últimos se merecerem a tutela do direito (nºs 1 e 2 do art. 564º e n.º 1 do art. 496º).

Assim, a Demandante terá direito a ser indemnizado em 50% da quantia que o Demandante despendeu já (conforme relatado pela testemunha X) e que consta do orçamento feito pela Demandada, isto é, no valor de €837,87.

Citando Abrantes Geraldes, “Pressupondo que a privação do uso do veículo representa sempre uma falha na esfera patrimonial do lesado e que, em regra, será causa de um prejuízo material, impõe-se avaliar qual a compensação ajustada ao caso, de acordo com a gravidade das repercussões negativas e o destino que, em concreto, era dado ao bem”; “Essa compensação pode variar de acordo com o circunstancialismo de cada caso, designadamente, tendo em consideração, a disponibilidade de outro veículo com idêntica função ou o grau de utilização que, efectivamente, lhe seria dado durante o período de privação. Mas, em princípio, a privação deverá ser compensada com a atribuição de um quantitativo correspondente ao desvalor emergente da acção”.

Ficou demonstrado (declarado pela referida testemunha) que a viatura da Demandante era diariamente utilizada para o exercício da profissão de enfermeira e esta não dispôs de outra viatura no tempo em que o automóvel esteve na oficina para reparação; parece-nos assim razoável, como compensação pelos incómodos causados, a quantia de €25,00 diários, nos termos peticionados e que, no seguimento do já exposto, deverá ser reduzida a 50% deste valor.

Nos termos dos artigos 804º e 559º do Código Civil, sobre a obrigação de indemnizar incide também a obrigação de pagamento de juros a partir do dia de constituição em mora. Tendo em conta o art.º 805 n.º 3 do mesmo diploma, no caso em apreço, são devidos juros de mora, à taxa legal de 4%, sobre a indemnização, contados desde a data da citação, até efectivo e integral pagamento

V- Decisão

Face a quanto antecede, julgo parcialmente procedente a presente acção e, em consequência, condeno a Demandada a pagar à Demandante a quantia de €887,87 (oitocentos e oitenta e sete euros e oitenta e sete cêntimos), acrescida dos juros de mora, à taxa de 4%, contados desde a citação até efectivo e integral pagamento, absolvendo-a do demais peticionado.

Custas na proporção do decaimento que se fixa em 50% para a Demandada e 50% para o Demandante.

Registe e notifique.

Vila Nova de Gaia, 6 de Junho de 2011 A Juíza de Paz

(Perpétua Pereira)

Processado por computador - art. 138º/5 do C.P.C.

Revisto pela Signatária. VERSO EM BRANCO Julgado de Paz de Vila Nova de Gaia

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Fonte: http://www.dgsi.pt

Referências

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