Os manuscritos de um homem inominado

Texto

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Os manuscritos de um

homem inominado

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Introdução:

Por que escrever sobre um homem sem nome? É uma bela pergunta.

Afinal, não sei ao certo como o conheci, e nem sei se ele é real. Talvez tenha sido apenas um delírio após uma longa noite de estudos na qual eu, pobre homem, estive

subjugado.

Ao leitor, cabe dizer que há um lapso temporal entre os manuscritos. Não há nada que seja capaz de tornar a leitura confusa ou sem nexo, tudo que está escrito nessas páginas é proposital e faz parte do emaranhado de teias que desaguam na fonte máxima de ignorância do autor.

Sendo breve, sinto que a estética própria de tal obra não a faz merecedora de publicação ou qualquer tipo de

relevância, que o leitor tire pois suas conclusões.

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MANUSCRITO I

São quatro horas e cinquenta e oito minutos, é tarde de domingo, e estou sentado frente a tela de um computador em busca de respostas.

Você deve estar curioso em saber quem sou, afinal, tudo que o Paulo deve ter contado é que não tenho nome, e sim, eu o pedi que fizesse. Serei breve em explicações:

Conversaremos por meio de doze manuscritos que

tratarão de pontos difíceis de se abordar, na verdade nem tanto, talvez nem sejam importantes, mas serão

trabalhados da mesma forma, afinal, o que um homem sem nome pode fazer? Ora bolas, deixe-me escrever e aproveitar um pouco do ócio que me resta para falar sobre os dramas de um pobre e velho rapazote que almeja por um céu limpo e um ar puro.

Ok, chega de piadas e vamos começar.

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MANUSCRITO II

Vamos começar essa história como toda história deve começar, do meu nascimento.

Como qualquer outra pessoa, eu nasci da união entre dois seres humanos, meus pais, como costumamos chamar.

Minha mãe, uma mulher belíssima e repleta de

qualidades, há quem ainda procure algum defeito em sua essência, coitados. Meu pai, homem forte e repleto de amor, capaz de dar sua vida para que os outros sejam capaz de sobreviver, incrivelmente muitos ainda tentam difamar sua imagem com inúmeras formas de escárnio e flagelos.

Nasci numa noite de algum mês em algum hospital, não me faça perguntas difíceis, ora bolas! Como eu poderia saber “Que hospital?”, eu era apenas um recém-nascido, perdido em meio à confusão do nascimento. Nunca se perguntaram como deve ser para um bebê, nascer? Em um momento, você está descansando em um lugar quente e aconchegante, em outro, há um homem puxando sua cabeça e dando tapas em sua bunda, enquanto um monte de luzes estão apontadas para o seu rosto. E as cores?

Tantas cores novas e vibrantes batendo nos seus olhos e sendo transportadas até o cérebro com velocidade fulminante. Bom, acho que já conseguimos compreender que o nascimento é o maior choque de realidade da vida de um ser humano, afinal, é a partir daí que

contemplamos a verdadeira realidade.

Após o parto, fui enrolado em panos e colocado numa maternidade junto à outros recém nascidos, dentre eles, há dois que me lembro bem.

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Um, era um menino que assim como eu havia acabado de nascer, mas ele era diferente, parecia-me desconcertado e havia algo de triste em seu olhar. Então, com toda minha delicadeza, coloquei-me a escutar seus resmungos – que aos ouvidos dos adultos não eram nada além de choro – e foi aí que eu aprendi a primeira lição da minha vida: nós sentimos falta daquilo que nos torna confortáveis.

O pequeno rapaz estava a todo tempo gritando por desejar retornar ao lugar quentinho e aconchegante de onde ele estava, e veja bem leitor, não o julgo como louco. Afinal, quem em pleno uso de suas faculdades mentais gostaria de estar numa sala fria, em um local desconhecido e completamente distinto de tudo aquilo que já viu antes?

Ora bolas, somos apenas crianças! Se não recebíamos nem mesmo após o nascimento o devido respeito, que espécie de mundo é esse?

Ingênuo pensamento de um recém-nascido, estávamos em um dos melhores locais do mundo, sob os cuidados de pessoas que apenas desejavam cuidar de nossos indefesos corpos e nos nutrir enquanto não podíamos ir aos braços de nossas mães por conta própria. Mas nós homens somos um retrato do recém-nascido, por não compreender a realidade que me cerca, acabo por me tornar um escravo daquilo que meus sentimentos e visão deslumbrada consegue observar sem ao menos compreender a

totalidade e a grandeza daquilo que me envolve com todo o cuidado e carinho do mundo.

Após um longo período na maternidade - e não me perguntem o porquê, afinal, eu era apenas um bebê e já disse isso antes - voltei para casa nos braços de minha mãe, e nunca me senti tão bem assim.

Meu pai estava dirigindo, e nos levava com cuidado por todas as estradas esburacadas que os trabalhadores ainda não conseguiram tapar. A estrada era muito longa,

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lembro-me de admirar com meus pequenos olhinhos a grande extensão de asfalto que se assemelhava a uma serpente – não que eu soubesse o que era uma serpente, mas por favor, deixem-me usar de licença poética – e o verde nas laterais da estrada reluzia com o sol brilhante que por lá mostrava seu rosto.

Chegamos em casa, era uma bela casa, admito. Tinha um pouco de tudo, era possível ver um pedaço de cada lugar do mundo ali entre aquelas quatro paredes, minha mãe amava colecionar culturas, todos os tipos de cultura.

Entramos pela porta da frente, meu pai abriu a porta com um belo sorriso e estendeu o braço em sinal de afeto, como se estivesse dizendo “bem-vindo ao lar!”. A entrada da casa continha algumas peças de decoração bem

peculiares, coisas de muito tempo atrás, eram belas pinturas que simbolizavam um grande deserto e cabanas abaixo de um céu estrelado, em algumas delas era possível ver o mar, pessoas dentro d’água e inúmeras pessoas andando juntas, enfileiradas a caminho de algum lugar. O piso era feito de madeira de boa qualidade e tinha o cheiro do outono, a entrada era um largo caminho, próximo as pinturas encontravam-se muitos livros e documentos, coisas muito antigas, mas guardadas com muito zelo.

Passando pela entrada, minha mãe subiu as escadas e levou-me direto ao segundo andar, não consegui

deslumbrar o resto da casa por um bom tempo – além da cozinha, durante a primeira infância eu só consigo me lembrar do meu quarto – ela levou-me até um cômodo com uma bela porta de madeira de acácia, a porta dava acesso a um verdadeiro céu estrelado. As paredes de meu quarto eram de um azul claro como o céu, tudo era feito exatamente na correta medida para que eu me sentisse exatamente no meu lugar.

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O berço era de madeira branca, robusto mas

aconchegante, e possuía doze hastes de madeira em cada um de seus lados, com o espaço de mais ou menos um palmo entre elas, era coberto por um pequeno véu branco para que eu estivesse protegido dos insetos e a salvo dos monstros que podem pegar uma criança a noite.

O teto do quarto era da mesma cor da parede, e uma janela de madeira – da mesma madeira da qual era feita a porta – iluminava o cômodo com a luz do sol que estava a envolver tudo lá fora. O cheiro era do mais belo perfume, uma mistura de rosas e lírios, da mais pura fragrância de pureza e força que mantém a roda do mundo girando.

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Referências

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