http://dx.doi.org/10.1590/0104-530X3896-16
Abstract: Public policies to support small enterprises have emerged in Brazil in the 2000s, having it as major milestones the Microenterprise and Small Size Business Statute, published in December 2006 via the complementary law n.123 and its successor, the Complementary Law 128 of December 2008, which became known as the Individual Micro Entrepreneur (MEI) Law (MEI’s law). This paper addresses, as an object of study, the implementation process of the latter legal instrument in a spatiality deined by the municipality of Araraquara. The methodological strategy used was a qualitative research, outlined as a single case study of exploratory character, employing as instruments for data collection: both documental research as well as interviews with structured scripts. Results have shown that the dynamic imposed by the implementation of the law can be characterized by fragile inter-organizational ties and relations based on the maximization of individual interests, to the detriment of collective interests, which ought to be pursued by public policies. It was veriied, on the analysis of the direct and indirect impacts and results, that the local government was not ready for the execution of the policy designed on the federal level. The agents in local level proceed in a manner to fragment the formalization into small bits, in which each one of them acts on its own environment, without interaction or complementation; as a consequence, the formalization process is carried out following a hierarchical order, which results in a segmented and fragmented implementation.
Keywords: Entrepreneurship; Public agents; Araraquara; Microenterprise.
Resumo: As políticas públicas de apoio a empreendimentos de pequeno porte despontam no Brasil, a partir dos anos 2000, tendo como principais marcos o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, publicado em dezembro de 2006 por meio da Lei Complementar n. 123, e a sua sucessora, Lei Complementar n. 128, de dezembro de 2008, que passou a ser conhecida como Lei do Microempreendedor Individual – Lei do MEI. Este artigo trata, como objeto de estudo, do processo de implementação desse último instrumento legal em uma espacialidade delimitada pelo município de Araraquara. A estratégia metodológica foi a da pesquisa qualitativa, delineada como estudo de caso único, de caráter exploratório, utilizando como instrumentos de coleta de dados a pesquisa documental e entrevistas com roteiros estruturados. Os resultados revelaram que a dinâmica imposta pela implementação da lei pode ser caracterizada por laços e relacionamentos interorganizacionais frágeis, pautados na maximização dos interesses individuais, em detrimento de interesses coletivos que deveriam ser perseguidos por políticas públicas. Veriicou-se, na análise dos impactos e resultados diretos e indiretos proporcionados pela lei, no plano local, que o poder público não estava preparado para a execução da política projetada no plano federal. Os implementadores da política procedem de forma a fragmentar a formalização em pequenas partes, nas quais cada um atua em seu ambiente, sem interação e sem complementação; como consequência, o processo de formalização é colocado em uma ordem tal que, organizada hierarquicamente, resulta em uma implementação segmentada e fragmentada.
Palavras-chave: Empreendedorismo; Agentes públicos; Araraquara; Microempresa.
Formulação e implementação, convergências
e desvios: facetas da política pública do
MicroEmpreendedor Individual (MEI) no plano local
Formulation and implementation, convergences and deviations: facets of the Individual MicroEntrepreneur (MEI) public policy in the local plan
Lucas Jose Campanha1
Helena Carvalho De Lorenzo2
Sergio Azevedo Fonseca3
Luiz Fernando de Oriani e Paulillo4
1 Universidade de Araraquara – UNIARA, Av. Altino Correa de Almeida Moraes, 49, ap. 3, Vila Der, CEP 14801-080, Araraquara,
SP, Brasil, e-mail: [email protected]
2 Universidade de Araraquara – UNIARA, Rua Voluntários da Pátria, 1309, Centro, CEP 14801-320, Araraquara, SP, Brasil,
e-mail: [email protected]
3 Departamento de Administração Pública, Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho” – UNESP, Rodovia Araraquara-Jaú, Km 1, Sala 63, CP 174, CEP 14800-901, Araraquara, SP, Brasil, e-mail: [email protected]
4 Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, Rodovia Washington Luís, Km 235, CEP 13565-905, São Carlos, SP, Brasil,
e-mail: [email protected]
1 Introdução
A política pública é reconhecida como um instrumento fundamental que os governos adotam buscando o
alcance do bem-estar comum (Halabí & Lussier, 2014). Spink (2013) observa que discutir políticas públicas
de fomento ao empreendedorismo em micro e pequenas empresas no Brasil é, simultaneamente, uma esperança e um alerta. Uma esperança no sentido que o uso da expressão “política pública” apresenta a expectativa de uma ação governamental contínua, coerente tecnicamente e coordenada com a mobilização dos recursos necessários para produzir impactos positivos sobre o assunto em foco. Um alerta, no sentido que o uso da expressão – acompanhado por pronunciamentos de autoridades, apresentações, artigos de imprensa e leis – é, muitas vezes, o início
de um problema e não seu im.
O alerta é embasado no fato de que toda política pública é passível de reinvenção e reinterpretação de acordo com as prioridades e possibilidades dos gestores, a necessidade de corte e rearranjo do gasto público, de modo que a implementação muitas vezes foge do previsto. Políticas de apoio ao empreendedorismo são embrionárias, sua complexidade e seu caráter
“híbrido” são marcantes. Nota-se que, diferentemente
de outros campos de políticas públicas, onde há certa estabilidade de atores, interesses, posicionamentos e proposições, incluindo as divergências, a temática do fomento ao empreendedorismo se encontra muito incipiente, na prática há pouca vinculação entre as ações, muito menos clareza sobre onde e o que precisa
ser discutido (Spink, 2013).
Atualmente, muitas pessoas, organizações públicas, instituições bancárias, associações e também muitos
micro, pequenos e médios empresários não se identiicam
com a expressão empreendedorismo e, muito menos, se consideram parte ativa de um campo. Nas escolas de administração de empresas é possível encontrar matérias sobre empreendedorismo e até Centros de Estudos, mas em nenhum momento a temática tem
presença constante, transversal e central (Spink, 2013). Não há dúvida de que essa diiculdade é, em parte,
consequência da permanência no imaginário social de
um modelo especíico de desenvolvimento econômico
e de um conceito de trabalho ancorados no princípio do emprego remunerado em organizações estáveis de grande porte. Modelo esse que, durante anos, colocou na berlinda e tornou invisíveis outros tipos de relações, outros tipos de empreendimentos e outras iniciativas, sendo também um produto resultante da própria complexidade das estratégias e políticas de
desenvolvimento (Spink, 2013).
No Brasil, o esforço de estruturar políticas públicas para micro e pequenas empresas e para o empreendedorismo é recente. As poucas iniciativas existentes sobrepunham a atuação de atores nacionais e regionais, tinham foco generalizado e setorial. Entretanto,
desde a criação do Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte e da sua sucessora, lei do Microempreendedor Individual, conhecida
como lei do MEI (Lei 128/2008) (Brasil, 2008), foram
estabelecidos alguns mecanismos que, pela primeira
vez na história do país, conigurariam uma política especíica voltada para as micro e pequenas empresas.
Pela nova lei, o Microempreendedor Individual é a pessoa que trabalha por conta própria e que se legaliza como microempreendedor individual – MEI. Para ser um microempreendedor individual é necessário faturar no máximo até R$ 60.000,00 por ano e não ter participação em outra empresa como sócio ou titular. O MEI também pode ter um empregado
contratado que receba o salário-mínimo ou o piso da categoria. A Lei Complementar nº 128, de 19/12/2008 (Brasil, 2008), criou condições especiais para que
o trabalhador conhecido como informal pudesse se tornar um MEI legalizado.
Entre as vantagens oferecidas por essa lei está o registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas
(CNPJ), o que facilita a abertura de conta bancária,
o pedido de empréstimos e a emissão de notas
iscais. Além disso, o MEI, no Simples Nacional, ica isento dos tributos federais (Imposto de Renda,
Programa de Integração Social – PIS, Contribuição
para o Financiamento da Seguridade Social – Coins,
Imposto Sobre Produtos Industrializados – IPI e
Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido – CSLL).
Paga apenas o valor fixo mensal de R$ 40,40
(comércio ou indústria), R$ 44,40 (prestação de serviços) ou R$ 45,40 (comércio e serviços), que é
destinado à Previdência Social e ao Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS ou ao Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza – ISS. Essas quantias são atualizadas anualmente, de acordo
com o salário-mínimo. Com essas contribuições,
o Microempreendedor Individual tem acesso a benefícios como auxílio maternidade, auxílio doença, aposentadoria, entre outros.
Havia a expectativa de que as principais causas que, até então, diicultavam a formalização do MEI, tais
como a comprovação de renda, a falta de comprovação legal de aquisição de suas mercadorias, as reclamações trabalhistas, a falta de benefícios previdenciários para o próprio empreendedor, entre outros obstáculos que os trabalhadores informais enfrentavam para a comprovação legal de suas atividades, fossem removidas
com o advento da lei 128/08, dado que a lei agilizou
trâmites burocráticos e facilitou a administração dos
empreendimentos formais recém-surgidos (Cordeiro, 2013). Contudo, apesar dos inúmeros avanços, a nova
lei ainda apresenta alguns entraves à formalização, assim, o que se discute neste artigo são as condições
de implementação dessa política pública: se favoráveis
às MEI, dentro de uma lógica sistêmica, caracterizada
contraponto, em condições mais individualistas, em que cada agente busca maximizar suas ações em
detrimento/despreocupado com os efeitos totalizantes
dos resultados.
O objetivo deste artigo é analisar o processo de
implementação da lei do MEI, veriicando a dinâmica contextual de implantação e as relações e inter-relações estabelecidas pelos diferentes agentes econômicos
e políticos diretamente envolvidos no processo de implementação da política pública no plano local, do mesmo modo que os decorrentes impactos e resultados, diretos e indiretos. Derivado desse objetivo, o artigo busca responder à seguinte questão orientadora da
pesquisa realizada: Quais as principais dissonâncias
existentes no processo de implementação da lei do MEI em plano local, vis-à-vis os objetivos propugnados pela política pública de apoio ao empreendedorismo, inspiradora da lei?
O texto foi estruturado em quatro seções, além
desta introdutória. Na seção 2 discute-se o papel do
Estado na promoção do empreendedorismo e redução da informalidade em diversos países. Na sequência,
apresenta-se a postura adotada pelo Estado brasileiro,
as principais análises sobre a lei do MEI e as políticas de apoio ao empreendedorismo no Brasil. Na quarta
seção aborda-se a dinâmica de implementação da
política do MEI no município de Araraquara e, por
im, são formuladas as conclusões.
2 Estado, informalidade e
empreendedorismo
Número expressivo de países tem criado programas para apoiar o empreendedorismo em seu território
(Barba-Sánchez & Atienza-Sahuquillo, 2012; Ghani et al., 2014; Halabí & Lussier, 2014; Mayer-Haug et al., 2013; Obaji & Olugu, 2014;
Pickernell et al., 2013; Poschke, 2013; Román et al., 2013;
Slonimczyk & Gimpelson, 2015) e para combater a informalidade (Castro et al., 2014; Centeno & Portes, 2006; Hu, 2014; Kus, 2014; Nguyen et al., 2014; Webb et al., 2014).
São iniciativas que, em grande parte, apresentam o duplo objetivo de, por um lado, estimular o desenvolvimento de novas empresas e, por outro, apoiar a transição da informalidade para a formalidade. São programas de interesse tanto de países desenvolvidos quanto dos
emergentes e menos desenvolvidos (Castro et al., 2014; Nguyen et al., 2014; Obaji & Olugu, 2014; Slonimczyk & Gimpelson, 2015; Webb et al., 2014).
No caso dos países menos desenvolvidos, a informalidade está diretamente relacionada com
dois fatores: o primeiro é decorrente da incapacidade
de o Estado fazer cumprir seus próprios marcos regulatórios; o segundo abrange o próprio grau de
regulação da economia (Kus, 2014). Buscando reduzir o grau de regulação da economia tem-se o exemplo da
China que, no combate à informalidade e buscando
estimular o empreendedorismo, reduziu barreiras
institucionais (Hu, 2014). Já na Turquia, nos anos de deterioração econômica, após a crise do petróleo de 1974, foram implementadas, metodicamente,
várias políticas que se propunham a remover as barreiras à entrada no mercado, viabilizar o comércio
internacional, lexibilizar as leis do trabalho, facilitar o acesso ao inanciamento e reduzir os impostos. Esperava-se que tais medidas fossem suicientes
para a redução da informalidade e para a ampliação da taxa de empreendedorismo. Contudo, o país não apresentava capacidade de controlar a supervisão de seus mecanismos de regulação e, por consequência,
as políticas implantadas não foram suicientes (Kus, 2014). Na América Latina, vários países seguiram
o mesmo caminho, contudo a tentativa de promover um regime de normas mínimas que, a princípio, deveriam desencadear o crescimento do setor privado e promover a formalização, não deram o resultado
esperado (Centeno & Portes, 2006). O processo é semelhante ao ocorrido na Turquia, onde a incapacidade
de estabelecer formas adequadas de controle impediu o cumprimento das leis. Nas sociedades latinas, onde os traços da pobreza e da desigualdade são elevados, as forças sindicais são fracas e o Estado não dispõe de adequados mecanismos de controle, o descumprimento da legislação acaba criando mais oportunidades para
as empresas privadas se beneiciarem dos canais informais (Centeno & Portes, 2006). Com isso, de acordo com Kus (2014), as reformas neoliberais e a
transformação dos instrumentos normativos acabam promovendo o crescimento do setor privado sem que, no entanto, a burla às normas jurídicas seja
combatida. Há evidências de que grande parte do novo empreendedorismo na Anatólia (e em toda a Turquia), em 1980 e 1990, tenha permanecido informal.
A maioria dos empreendimentos eram instalações de base familiar em indústrias de trabalho intensivo, como a têxtil, a de vestuário e a de processamento
de alimentos. Tratava-se de empreendimentos com
capital limitado, empregando trabalhadores com poucos benefícios de segurança social ou de saúde, sonegando impostos e, muitas vezes, deixando de
se registrar como entidades jurídicas (Kus, 2014).
Buscando entender o insucesso da implementação das políticas de incentivo à formalização em países
emergentes, Orsi et al. (2014) argumentam que a
dinâmica de transição de uma economia informal para uma economia formal se sustenta no tripé de três
diferentes políticas iscais: corte de impostos gerais;
aumento do esforço de monitoramento; combinação
dessas duas práticas. Algo que, para os autores, ica
de apoio formal (como consultores privados ou
proissionais de negócios). Em termos das categorias
de aconselhamento oferecidas por meio do governo
identiicam-se as seguintes áreas: estratégia de negócio;
organização administrativa; marketing; pesquisa de mercado; publicidade; relações públicas; design de produto ou serviço; novas tecnologias; serviços de informática, pessoal e recrutamento; tributação; e
inanças (Pickernell et al., 2013).
Na Índia, o empreendedorismo é tratado como
política pública e as variáveis pensadas como inluentes na taxa empreendedora são: dados demográicos
básicos, educação da força de trabalho local, qualidade da infraestrutura local, acesso ou tempo de viagem para cidades indianas maiores, rigor das leis trabalhistas e as condições bancárias. Ao longo dos anos, as principais políticas implantadas visaram à formação de aglomerados distritais, semelhantes aos Arranjos Produtivos Locais – APL e parques
tecnológicos do Brasil (Ghani et al., 2014).
Na Nigéria, diferentes administrações em vários momentos mobilizaram esforços para desenvolver o espírito empreendedor da população, vários instrumentos de assistência de desenvolvimento
e inanceira foram empregados. Tais investidas,
no entanto, foram mal sucedidas dado o excesso de procedimentos burocráticos, a corrupção, a
insuiciência da infraestrutura, a desgovernança
local e a falta de vontade governamental de operar
os mecanismos propostos (Obaji & Olugu, 2014)
Um interessante exemplo da importância do papel do Estado no incentivo ao empreendedorismo é o do Vietnã. Para facilitar a transição dos empreendedores para a economia formal, o governo vietnamita introduziu vários programas de apoio a empresários, entre eles a Lei Empresarial que abrange o processo de entrada de novas empresas formais e fornece
créditos iscais e isenção de impostos para essas
empresas durante certo período; outra é o Fundo Garantidor de Crédito, que abarca a realização de empréstimo para pequenas e médias empresas
(Nguyen et al., 2014)
Os incentivos de créditos e sua garantia são apontados por diversos autores como essenciais para o sucesso de uma política para o empreendedorismo. A garantia de crédito por cooperativas ou bancos especializados tem sido muito utilizada em diversos
países europeus desde os anos 1970, como é o
caso da Itália no desenvolvimento da região do
Mezzogiorno (Bacattini, 1994; Casarotto & Pires, 2001; Vázquez Barquero, 1995).
No caso dos países de baixa e média renda, segundo
Grimm & Paffhausen (2014), as políticas públicas de
estímulo ao empreendedorismo devem ser apoiadas
em cinco eixos: (i) o acesso ao inanciamento, (ii) a formação para o empreendedorismo,
(iii) os serviços de desenvolvimento empresarial, (iv) as subvenções salariais, e (v) a melhoria do ambiente de negócios (por exemplo, procedimentos de registro). Contudo, os exemplos históricos e os
próprios autores mencionados mostram que esses
incentivos nem sempre são suicientes. Para esses
autores é necessário despertar a motivação interna de cada indivíduo. Não se pode negar que o apoio
inanceiro através de subvenções ou empréstimos são
apoios fundamentais para o processo de criação de uma empresa e que a falta de capital inicial é um dos principais obstáculos apontados pelos empresários.
No entanto, na maioria dos casos, o apoio inanceiro é insuiciente se não for acompanhado de um apoio
adequado para a formação e que incentive outras
motivações, além do autoemprego (Barba-Sánchez & Atienza-Sahuquillo, 2012).
Nesse contexto, a educação desempenha um papel de grande importância no desenvolvimento do espírito empreendedor entre os indivíduos
(Barba-Sánchez & Atienza-Sahuquillo, 2012; Ghani et al., 2014; Mayer-Haug et al., 2013). Faz-se
necessária a inclusão da formação empreendedora já
nos níveis iniciais da educação (Barba-Sánchez & Atienza-Sahuquillo, 2012). Mayer-Haug et al. (2013)
sugerem a sincronia entre a educação infantil
(formal) e a educação para o empreendedorismo
como condição para a aquisição de habilidades necessárias aos empreendedores adultos.
Mantendo essas premissas, os novos empreendimentos deveriam ser criados não só por aqueles que
podem fazê-lo, isto é, pelas pessoas que são
capazes de fazer, mas também por aqueles que têm a motivação necessária para fazer. Assim, os diferentes órgãos e entidades interessados em apoiar o empreendedorismo deveriam incorporar os mecanismos pertinentes para medir o compromisso de potenciais empreendedores com as ideias novas
(Barba-Sánchez & Atienza-Sahuquillo, 2012). Observa-se ainda, nos estudos mais recentes
sobre as condições de efetivação das políticas de empreendedorismo, que sempre deve prevalecer uma entidade articuladora das ações propostas e, nessa esfera, é destacado o papel do Estado como
frente de ação. Entre as políticas mais eicazes
para o combate à informalidade e a promoção do empreendedorismo estão também o fornecimento
de capital de risco, o acesso ao inanciamento, à
educação e à contratação pública, o desenvolvimento de programas de formação empresarial, as ligações entre as universidades e os empresários, as incubadoras, os parques tecnológicos e as câmaras de comércio.
3 O Estado brasileiro frente à
questão do empreendedorismo e
da informalidade
O esforço de estruturar políticas públicas para as empresas de pequeno porte no Brasil é recente. O descaso esteve presente ao longo da história, desde o início da industrialização até fase da industrialização por substituição das importações,
das décadas de 1950 a 1970, passando pela crise econômica da década de 1980 até o período de neoliberalismo econômico da primeira metade da década de 1990 (Sarfati, 2013). Apenas no período
mais recente, empresas desse porte passaram a receber
maior atenção (Naretto et al., 2014; Sarfati, 2013). Sarfati (2013), estudando as políticas de apoio ao
empreendedorismo no Brasil, aponta a existência
de dois grupos: políticas regulatórias e políticas de
estímulo. As políticas regulatórias que afetam as micro e pequenas empresas – MPE e o empreendedorismo
são aquelas que deinem as regras de entrada e saída
de negócios, as regras trabalhistas e sociais, as regras de propriedade, as regras tributárias, as regras de propriedade intelectual, as regras de falência e as regras que afetam a liquidez e disponibilidade de
capital – incluindo taxas de juro e acesso a inanciamento (Sarfati, 2013).
Essas políticas (regulatórias) ganharam força na década de 1960, com a promulgação do Decreto-lei n. 486/1969, que apresentou tratamento diferenciado para o pequeno comerciante, dispensando-o da realização da escrituração obrigatória (Brasil, 1969).
Essa postura foi ampliada na constituinte de 1988.
No artigo 170 há explicitada a indicação de “[...] dar
tratamento favorecido para as empresas brasileiras de
capital nacional de pequeno porte [...]” (Brasil, 1988).
A democratização da formalização avançou mais com a
Lei nº 9.317/96 (Brasil, 1996), que instituiu o Sistema
Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições
(Lei do SIMPLES). Essa lei procurou estimular e
reduzir o número de impostos, racionalizando a sua cobrança e dispensando a escrituração contábil para
ins iscais, objetivando legalizar as micro e pequenas empresas (Brasil, 1996).
Os impactos produzidos pela Lei 9.317/96 izeram-se
sentir também na revisão do código civil, já que
com a promulgação da Lei n. 10.406/2002 (novo código civil) ocorreu uma reformulação no conceito
de empresário, que passou a ser considerado como
aquele que: “[...] exerce proissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços [...]” (Brasil, 2002). Até então
só eram considerados empresários aqueles que
praticavam o comércio (Oliveira, 2012). Ademais, o
novo código civil assegurou tratamento favorecido,
diferenciado e simpliicado ao empresário rural e ao
pequeno empresário que queiram fazer a inscrição
como pessoa jurídica. Observa-se, naquele momento,
que a figura do empresário sofreu mudanças. Mais adiante, em 2003, a Emenda Constitucional
n. 42/2003 (Brasil, 2003) desonerou o processo
de legalização das pequenas empresas, alterando o
Sistema Tributário Nacional e dispensando tratamento
diferenciado e favorecido para as microempresas e para as empresas de pequeno porte.
Novas mudanças foram introduzidas em 2006, quando a Lei do Simples foi revogada em sua totalidade. Em seu lugar passou a vigorar a Lei Complementar n. 123, de 14 de dezembro de 2006
(Brasil, 2006), denominada de Lei Geral das Micro e
Pequenas Empresas, que instituiu o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte
(Simples Nacional), promovendo uma simpliicação
na arrecadação de impostos, principalmente para
Microempresas (ME) e Empresas de Pequeno Porte (EPP), além de individualizar as pequenas e
microempresas pela mensuração de suas receitas brutas anuais. Essa lei representou a primeira
postura oicial do governo para reduzir o quadro
de incertezas e para combater a informalidade no
país (Brasil, 2006). Essa postura foi aperfeiçoada (“maximizada”) com a edição da Lei 128/2008, em
vigor desde 1º de julho de 2009, que alterou a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas, para instituir
no cenário jurídico a igura do Microempreendedor Individual – MEI (Brasil, 2008). Mais à frente, a Lei n. 139, de 10 de novembro de 2011 (Brasil 2011),
reduziu a carga tributária do MEI, de forma que a alíquota para previdência social passasse de 11% para
5%. Outras contribuições da mesma lei (Brasil, 2011)
reduziram a carga tributária do MEI e ampliaram em
50% os limites de faturamento previstos, permitindo
que mais empreendedores participassem do regime
que simpliica o entendimento e diminui a tributação.
Em análise das políticas de apoio à atividade empreendedora, contidas na legislação brasileira,
Lastres & Lemos (2003) identiicam quatro conjuntos de ações. O primeiro refere-se aos instrumentos utilizados
para a promoção das atividades empreendedoras, que incluem os programas de divulgação, demonstração e premiação – como o estabelecimento de datas comemorativas, a realização de feiras e torneios de empreendedorismo – e também a disponibilização de infraestrutura, logística, serviços básicos etc. Nesse âmbito, a ênfase tem sido conferida à constituição de incubadoras, empresas juniores, parques tecnológicos
e arranjos produtivos locais. O segundo refere-se a
serviços de apoio, incluindo programas de informação, capacitação e consultoria. As políticas desse conjunto vêm procurando apoiar as empresas, fortalecendo suas capacidades e competências centrais de forma continuada, dentro de uma perspectiva de longo
prazo. Destaca-se a tendência à descentralização dessa
o estabelecimento de instituições que atuam como uma porta de entrada para a solução dos mais variados problemas das empresas. A principal referência como
centro descentralizado de apoio é o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).
O terceiro refere-se a formas de inanciar a criação
e o desenvolvimento de MPE, variando desde
inanciamentos diretos (a fundo perdido ou com retorno), incentivos iscais e sistemas de venture capital,
até destinações especíicas de parcelas do orçamento
público e compras governamentais. Essas políticas têm procurado aperfeiçoar os mecanismos existentes e diminuir os tradicionais entraves enfrentados para
a obtenção de inanciamentos. Nesse conjunto, a
ênfase tem sido conferida à ampliação de linhas de
inanciamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, da Financiadora de
Estudos e Projetos – Finep, das fundações estaduais de amparo à pesquisa – FAP, do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Cientíico e Tecnológico – CNPq,
do Programa Federal de Geração de Renda – Proger e do Programa Nacional do Microcrédito Produtivo Orientado – PNPO. Nessas políticas, os seguintes aspectos
positivos podem ser destacados: a) a redução nos custos e a diluição de riscos associados ao inanciamento a
empresas individuais e, particularmente, às de menor
porte; b) a superação das tradicionais barreiras ligadas ao fornecimento de garantias e ao inanciamento de médio e longo prazo; c) o fortalecimento das relações
entre atores nos arranjos e sistemas, visando o aumento das sinergias coletivas e o desenvolvimento de formas interativas de aprendizado.
Um quarto conjunto diz respeito à simpliicação
da burocracia. Os principais esforços visam reduzir procedimentos e prazos para facilitar a criação de novas
empresas, sua atuação e seu inanciamento. Um exemplo
de iniciativas como essas é o Módulo Estadual de Licenciamento do Via Rápida Empresa do Estado de
São Paulo. Trata-se de iniciativa que integra os sistemas
Cadastro Web e o Sistema Integrado de Licenciamento
(SIL) para coleta de dados para o registro empresarial,
consulta prévia da viabilidade de localização apenas para os municípios conveniados, e as licenças para o
exercício das atividades econômicas, envolvendo os municípios paulistas (conveniados ou não) e os órgãos estaduais responsáveis pelo licenciamento: Vigilância Sanitária (representada pelo Centro de Vigilância Sanitária – CVS), Meio Ambiente (representado pela
Cetesb – Companhia Ambiental do Estado de São
Paulo) e Corpo de Bombeiros.
Além desses conjuntos de medidas, é possível apontar que, em todas as políticas de estímulo ao empreendedorismo pode ser observada a presença de
dimensões verticais, focadas em setores especíicos (como biotecnologia) e grupos de indivíduos – negros, mulheres, jovens (Sarfati, 2013).
Em síntese, os estudos sobre o tema concordam que, do ponto de vista legal, o estabelecimento do Estatuto das Micro e Pequenas Empresas e a criação da Lei do
MEI representaram mecanismos que, pela primeira
vez na história do país, conigurariam uma ampla
política de apoio às MPE e ao empreendedorismo. Para as MPE, abrangendo formas de apoio mediante a criação de instituições, marcos legais e normas tributárias específicas, além da mobilização de mecanismos no âmbito das instituições públicas de
suporte ao sistema produtivo – bancos oiciais, agências
de fomento, institutos de pesquisa e universidades
(Naretto et al., 2014). Para os MEI, a expectativa
alimentada era de que os entraves que os trabalhadores informais enfrentavam para a comprovação legal de suas
atividades, a comprovação de renda, a diiculdade para
a aquisição de mercadorias legalmente, as reclamações trabalhistas, a falta de benefícios previdenciários, entre
outras, seriam removidos com o advento da Lei 128/08,
que supostamente agilizaria trâmites burocráticos e facilitaria a administração dos empreendimentos
formais recém-surgidos (Cordeiro, 2013).
A realidade observada, contudo, não veio ao encontro das expectativas. Apesar dos instrumentos
criados legalmente, ainda se constatam diiculdades
no cumprimento dos mesmos, como será revelado nas seções que seguem.
4 A dinâmica de implementação da
política do MEI
Nesta seção são relatados os primeiros resultados da pesquisa, realizada em Araraquara, município do interior do Estado de São Paulo.
4.1 Metodologia para a formalização de MPE e fontes de dados para a
pesquisa: um primeiro conlito
Para alcançar o objetivo deste artigo, inicialmente
efetivou-se uma busca junto às instituições e
organizações locais que apoiam a formalização dos MEI, tais como o Sebrae, a Prefeitura Municipal de Araraquara, os escritórios de contabilidade e o portal do empreendedor. Esse procedimento inicial
visou o alcance de dois propósitos: o primeiro, a identiicação da quantidade e da qualidade das
informações disponíveis nas instituições consultadas; o segundo, a coleta e o tratamento dos dados colocados à disposição, o que culminou na criação de um banco de dados próprio, dotado de informações qualitativas
e quantitativas, que foram usadas na deinição do grupo amostral objeto da pesquisa. Constatou-se a
existência de assimetria de informações junto aos
órgãos consultados. Cite-se, como exemplo, que a
prefeitura de Araraquara não dispõe de um banco de dados completo e atualizado dos MEI. Isso se dá, principalmente, pelo fato de a prefeitura atualizar os dados cadastrais à medida que os MEI se formalizam
exigidas por lei para emissão do alvará permanente de funcionamento.
Por outro lado, aqueles que efetivam o registro junto ao portal do empreendedor de forma direta e
independente no site e/ou que não buscam as demais licenças icam à margem da iscalização municipal.
A título de exemplo merece menção o fato de que o banco de dados da prefeitura de Araraquara é composto
por informações de 3.589 MEI, enquanto no banco
de dados do Portal do Empreendedor esse número
alcança a casa de 6.882 (ambos os dados são do ano de 2015) unidades cadastradas. Essa assimetria de
informações muito provavelmente se repete em todo o território nacional, dando a denotar que muitos
microempreendedores individuais encontram-se
parcialmente formalizados.
Diante desse quadro, cabe questionar a metodologia
de formalização adotada pela lei: o portal do empreendedor (sítio que viabiliza a formalização),
ao mesmo tempo que desburocratizou o sistema de formalização, criou um vazio institucional que impede a veiculação de informações, problema que poderia ser facilmente resolvido interligando o sistema com os demais órgãos regulamentadores.
4.2 As etapas de implementação do MEI
A política objeto de estudo nesta pesquisa, a Lei do MEI, se constitui como uma política distributiva que desconsidera as limitações orçamentárias para privilegiar
certo grupo social (empreendedores individuais de certas atividades econômicas), oferecendo vantagens objetivas e subjetivas (principalmente, isenção tributária e de direito previdenciário) com o intuito de, supostamente, promover a inclusão socioeconômica das pessoas beneiciadas. Na tipologia de políticas públicas de empreendedorismo [políticas de estímulo
ou políticas regulatórias, tais como as defendidas
por Sarfati (2013)], a Lei do MEI se enquadra no
tipo de política que é regulatória. No texto da lei são encontradas regras de entrada e saída de negócios, regras trabalhistas e sociais, regras tributárias e regras que afetam a liquidez e disponibilidade de capital
(incluindo taxas de juro e acesso a inanciamento). Para Sabatier & Mazmanian (1980), a implementação
é a efetivação de uma decisão sobre uma política
em que se identiica o problema (ou os problemas) que deve ser enfrentado, estipulam-se os objetivos a serem perseguidos e, de diversas formas, estrutura-se
o processo de implementação. Os autores indicam que o processo se desenvolve em vários estágios, começando com a aprovação da lei, seguida pelos
resultados (decisões) das agências implementadoras, pela observância dos grupos-alvo da política com relação a essas decisões, pelos impactos (desejados e não desejados) desses resultados, pelos impactos percebidos das decisões das agências e, inalmente,
pelas revisões na legislação. No plano local, a implementação da Lei do MEI representa parte desses estágios, sendo excluídas as fases de aprovação e de revisão da legislação.
Em termos processuais, a formalização do MEI pode se dar por dois caminhos. A primeira opção se caracteriza por um cadastro que é realizado diretamente e, de forma independente, por meio do acesso ao portal do empreendedor. Nesse caminho, o interessado preenche uma série de formulários e obtém
o Certiicado da Condição de Microempreendedor
Individual. A segunda opção é marcada pela busca de auxílio junto a um escritório de contabilidade. Nessa opção, o empreendedor se comporta como agente passivo e todos os procedimentos operacionais são realizados pelo contador. A formalização do MEI é gratuita, podendo ser feita em qualquer época, por
meio eletrônico, inclusive quando o empreendedor
busca ajuda de um contador. A Figura 1 apresenta as seis etapas necessárias à formalização.
É importante salientar que um passo fundamental do processo de formalização enquanto MEI é o conhecimento das normas da Prefeitura para o funcionamento do negócio que será formalizado, devendo o empreendedor conhecer ou ir à busca dos requisitos municipais necessários, principalmente em relação à possibilidade de atuar no endereço pretendido, e de outras licenças necessárias. Em relação
ao processo de inscrição no portal, faz-se necessário
que o empreendedor individual informe o número do último recibo de entrega da Declaração Anual de Imposto de Renda Pessoa Física – DIRPF ou o título de eleitor, caso não seja obrigado à entrega da DIRPF
(ou seja, é isento de declaração de imposto). Nota-se que
não há a necessidade de assinaturas ou envio de
documentos e cópias. Tudo é feito eletronicamente. O segundo procedimento, Emissão do Certiicado da
Condição de Microempreendedor Individual, é a fase onde a formalização é feita pela internet, propiciando que o CNPJ, a inscrição na Junta Comercial e no INSS e o Alvará Provisório de Funcionamento sejam obtidos imediatamente, gerando um documento único, que
é o Certiicado da Condição de Microempreendedor
Individual – CCMEI. Após a formalização no Portal do Empreendedor, o MEI deve providenciar
a inscrição estadual e/ou municipal e deve buscar a autorização para impressão de notas iscais ou emissão da nota iscal eletrônica. Adicionalmente,
após 180 dias, o MEI deverá providenciar o Alvará
ou Licença de Funcionamento deinitivo. Para tanto,
em alguns casos, deverá solicitar licenças sanitárias e ambientais, conforme as exigências para a atividade exercida. No município de Araraquara, todos os Microempreendedores Individuais que buscam o Alvará
de Licença de Funcionamento deinitivo precisam
se inscrever no Módulo Estadual de Licenciamento do Via Rápida Empresa do Estado de São Paulo. Esse é um programa que integra os sistema Cadastro
Web e o Sistema Integrado de Licenciamento (SIL),
para coleta de dados para o registro empresarial, consulta prévia da viabilidade de localização apenas para os municípios conveniados, e as licenças para
o exercício das atividades econômicas, envolvendo os municípios paulistas (conveniados ou não) e os órgãos estaduais responsáveis pelo licenciamento: Vigilância Sanitária (representada pelo Centro de Vigilância Sanitária – CVS), Meio Ambiente (representado pela Cetesb – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e Corpo de Bombeiros.
4.3 Agentes públicos na implementação da Lei do MEI: atores em discordância Seis grupos de diferentes agentes econômicos e
políticos participam do processo de implementação
dos MEI no plano local (Figura 2). A análise de
suas condutas e inter-relações evidencia parte das
oportunidades e limites para a implementação da lei.
Secchi (2013, p. 55) destaca o papel dos atores
envolvidos na implementação das políticas públicas e na execução prática das decisões governamentais
mostrando que “[...] na implementação, regras, rotinas
e processos sociais são convertidos de intenções em
ações”. No momento da implementação destacam-se
intensas negociações, balizadas por consensos e
conlitos, que podem ser consideradas um “jogo” no
qual uma autoridade central procura induzir os agentes implementadores a colocar em prática os objetivos e as
estratégias de uma política (Viana & Baptista, 2008). No caso analisado foi possível identiicar o intenso
“jogo” estabelecido na implementação da política do MEI, averiguando e delimitando os diferentes
posicionamentos adotados por todos os interessados e envolvidos no processo de formalização. Nos relatos
dos agentes públicos entrevistados icou evidente
que as posições dos atores são diversas e que não há um entendimento único e comum sobre o que é essa
política pública. Exempliicando, o iscal da prefeitura é responsável por identiicar os domicílios iscais
e iniciar o procedimento de emissão de licenças, podendo, além da ação imposta pelo regulamento jurídico, conceder isenção de taxas, com uma tolerância maior em relação ao rigor metodológico da
iscalização. Essa tolerância não foi institucionalizada,
é algo próprio da cultura organizacional derivada da constatação de que os MEI, em sua grande maioria, se apresentam na forma de empreendedores humildes
que estão à procura de uma independência inanceira.
Esse mesmo posicionamento foi verificado nas entrevistadas realizadas, principalmente no
que refere à iscalização ambiental. Sendo o MEI
formado preponderantemente por indivíduos simples, desconhecedores da lei, em muitos casos os agentes da secretaria atuam como consultores, isso porque os empreendedores não conseguem preencher os formulários necessários à emissão das licenças.
Os relatos das entrevistas mostram que os iscais
atuam com uma postura mais branda em relação às exigências legais para a emissão das licenças, reforçando uma cultura segundo a qual todos seguem como se fosse um “acordo de cavalheiros”, prevalecendo a tolerância relativa aos prazos de adequações, tempos para esclarecimentos e demais questões dessa ordem.
Esse posicionamento mais brando não foi observado nos relatos dos demais entrevistados pertencentes aos quadros de servidores da Cetesb, do Corpo de Bombeiros e da Vigilância Sanitária. Um caso
extremo foi o da Vigilância Sanitária. Constatou-se,
na entrevista realizada, a inexistência de tratamento diferenciado para o MEI, os processos são orientados pela data de entrada por meio do via rápida ou por
iscalização na rua. Seguindo norma jurídica própria,
é concedida isenção da cobrança de taxas durante o primeiro ano, isenção essa suspensa nos anos subsequentes. É válido salientar que essa prática vai na contramão da lei. Em uma análise detalhada do
aparato normativo, percebeu-se que o MEI é isento
de toda e qualquer cobrança de taxa por parte do setor público, seja no ato de emissão, seja no ato de renovação. A cobrança, portanto, é indevida e mostra o despreparo do setor público para a implementação da lei. Ao mesmo tempo demonstra que os próprios empreendedores desconhecem seus direitos, caso contrário não aceitariam tal oneração.
Esse diferente posicionamento relete aquilo que Secchi (2013) já havia apontado, que a implementação
deve ser encarada não como um mero problema técnico, mas sim como um complexo conjunto de elementos políticos que condicionam e afetam o
processo de implementação, podendo direcioná-lo
em sentido contrário ao projetado no momento do planejamento e da formulação da política. O que se observou foi que os agentes públicos operam de forma
independente das (muitas vezes indiferentes às) reais
necessidades dos MEI, em regra orientados pelas políticas e diretrizes das instituições e departamentos aos quais estão vinculados.
Outro importante aspecto da implementação é o entendimento acerca da política pública por parte dos agentes locais de implementação. O que se detectou nas entrevistas é que cada agente público dispõe de uma
visão especíica sobre o objetivo da política pública. No caso analisado, três visões sobre o signiicado da política pública do MEI se destacaram: a primeira
entende que a lei visa ampliar a arrecadação tributária, sendo secundária a função de formalizar e contribuir para o sucesso do empreendimento; a segunda entende que a lei ajudou muitos empreendedores a se formalizarem, a exemplo das empresas de limpeza
de carro tipo “lava-jato”, que passaram a seguir a
legislação de descarte da água; e a terceira atribui à lei a tarefa de oferecer isenções de taxas para certos tipos de empreendimentos. Como se pode observar, todas bastante limitadas e mesmo equivocadas sobre o alcance da política pública.
Pressman & Wildavsky (1984) salientam que o
início do processo de implementação é o momento da transformação da política em programa, isto é, quando por ação de alguma autoridade governamental, são criadas as condições iniciais necessárias à execução de uma política. Dessa perspectiva no plano local,
nota-se que a criação dessas condições iniciais não foram efetivadas. Isso icou evidente nas falas dos iscais responsáveis por identiicar os domicílios iscais.
A política foi planejada sem o devido reconhecimento do procedimento burocrático e o município não estava
(e ainda continua) sem a infra-estrutura, física e de
pessoal, necessária ao despacho de todos os processos que se acumularam. A pesquisa também apurou que em pouco tempo o número de empreendimentos
que deveriam ser iscalizados ampliou-se de forma
considerável e que a prefeitura permanecia com um
quadro de apenas dois iscais responsáveis por todos
os procedimentos.
A implementação implica também processos de
gestão. Nas entrevistas icou evidente que as instâncias
públicas envolvidas, no município, não dispõem de estruturas, normas, procedimentos administrativos ou sistemas de informação, particulares e apropriados, que as capacitem para atuarem como implementadoras
do MEI. Exempliica essa fragilidade o fato de que
do Empreendedor, o município não é informado de sua existência.
Para além dos agentes públicos, na esfera privada, um ator que se destaca são os escritórios de contabilidade. Sua contribuição é vital para o entendimento acerca da dinâmica de implementação da lei. Como será evidenciado nos parágrafos que se seguem, muitas ações executadas pelos contadores alteram o teor inicial que havia sido proposto pela Lei do MEI.
4.4 Os escritórios de contabilidade como agentes de implementação do MEI: benefícios e desinteresses
Os contadores são atores importantes na implementação do MEI porque são obrigados a ofertar atendimento gratuito aos microempreendedores individuais durante um ano. Essa exigência não é seguida por espontaneidade e não é realizada de bom grado e se faz apenas como contrapartida aos benefícios tributários concedidos pela lei aos escritórios que integram a rede de escritórios de contabilidade que prestam atendimento ao MEI. Nas palavras de
um contador, o descontentamento é evidente: “[...]
atendemos o primeiro ano inteiro de graça, quando
enviamos a mensalidade ao empreendedor ele nunca mais volta [...]”.
Em muitos casos, os serviços prestados, legalmente previstos para serem gratuitos, são relevantes ao
microempreendedor. Destacam-se: orientações
gerais sobre a Lei do MEI; cadastro no Portal do Empreendedor; assessoria para obtenção das licenças necessárias à execução das atividades; treinamento
para emissão de notas iscais; treinamento para a execução do mínimo controle inanceiro; emissão
das guias de recolhimento tributário; emissão da primeira Declaração Anual de Rendimentos.
A gratuidade, no entanto, acaba sendo recorrentemente quebrada em virtude da frequência com que os escritórios acabam criando taxas extras, como forma de custeio indireto dos serviços prestados. Como exemplo, pode ser citada a taxa de entrega, cobrada mensalmente quando do envio da guia de recolhimento tributário ao empreendedor.
Outro dado que chamou a atenção foi o Cadastro no Portal do Empreendedor. Os entrevistados
(representantes dos escritórios de contabilidade)
relataram que muitos indivíduos procuram se enquadrar
como MEI a im de obter benefícios previdenciários. Em um relato é explicitada tal ação:
[...] muitos chegam aqui falando que querem abrir uma empresa, começamos a explicar os procedimentos e os tipos de formalização existentes e eles nos respondem ‘não, não, quero abrir aquela empresa mais simplesinha’.
Além dos benefícios previdenciários, em alguns casos os empreendedores buscam a formalização para obter crédito bancário, evidência essa objeto
do seguinte relato:
[...] observo casos em que os empreendedores já obtiveram crédito como pessoa física e recorrem ao MEI para angariar empréstimos como pessoa jurídica também!.
Tais propósitos, em lagrante desvio das prescrições
da lei, motivam números não desprezíveis de pessoas a recorrerem aos escritórios de contabilidade para dar entrada a processos de formalização sem qualquer retorno posterior. Esse tipo de comportamento foi
objeto do seguinte relato: “Abro muitos MEI, porém
não acompanho todos, muitos, seguramente mais de 20%, não voltam depois da abertura da empresa”.
Em contraponto a esses relatos de tom negativo, alguns dos contadores entrevistados ofereceram depoimentos favoráveis ao trabalho com os MEI. Um dos aspectos abordados foi o relativo à obtenção de licenças ou alvarás permanentes de funcionamento,
tal como expresso na seguinte fala:
[...] geralmente os microempreendedores que querem se formalizar conseguem os alvarás permanentes de funcionamento de forma tranquila, eu trabalho nesse ramo faz 12 anos, conheço todos os caminhos [...]!
Observou-se também que os contadores acabam
indicando soluções aos entraves burocráticos.
Como exemplo, cita-se o fato de que, em Araraquara,
os vendedores de roupa não podem dispor de endereço domiciliar. Como solução, um contador entrevistado aconselha os empreendedores a criarem sites e
divulgarem ao isco a empresa como pertencente ao comércio eletrônico, mesmo que isso não seja a realidade: “[...] indico para que abram o CNPJ como
e-commerce e que mantenham um site no ar até a
visita do iscal da prefeitura”.
Finalmente, não deve ser descartado o depoimento
de um contador que aponta que parcela (embora não muito signiicativa, menos de 20%) dos MEI que se
tornaram clientes do escritório acabaram migrando
para a categoria de Microempresa (ME), dado que,
contudo, não pode ser extrapolado.
4.5 Síntese das dissonâncias existentes no processo de implementação da Lei do MEI
Como apresentado inicialmente, o artigo busca responder à seguinte questão orientadora da pesquisa
realizada: Quais as principais dissonâncias existentes
um paralelismo entre os dois estágios da política pública, confrontando os objetivos pactuados pela
lei (Brasil, 2008) e as dissonâncias observadas no
processo de implementação.
Em síntese (Quadro 1), o caso analisado mostrou que a implementação da lei tem sido um processo em
que decisões são tomadas e executadas mas há conlitos
interinstitucionais, brechas e ambiguidades legais, omissão de normas operacionais, entre outros fatores que
comprometem o sucesso da política. Percebe-se ainda
que se trata de uma política implementada por meio
de diversos agentes (públicos e privados), no âmbito
de diversas organizações, sem que haja articulação, ou
mesmo diálogo, entre os mesmos. Constata-se ainda
que, sendo uma política no formato top-down, há clara separação entre as fases de formulação e de
implementação: a prefeitura não estava preparada
para executar as novas atividades que lhe foram propostas; muitos servidores não foram preparados para entender a lei em sua plenitude.
Como resultado, a implementação vem alterando o
planejamento. Esse resultado complementa e conirma a perspectiva de Lipsky (2010), segundo a qual os burocratas de nível de rua (os agentes públicos com
a responsabilidade de interface entre governo e
empreendedores) não são só implementadores, são policymakers, isso porque o burocrata faz escolhas
e, ao fazê-las, tem a capacidade de alterar a política,
o que foi possível apurar na pesquisa.
5 Considerações inais
O que icou evidenciado nesses resultados é que
a questão da informalidade precisa ser mais bem equacionada. O estudo realizado mostrou que o efeito
direto da Lei 128/2008 na redução da economia informal foi apenas parcial. Observou-se que a política do MEI
se tornou uma plataforma, com números robustos que proporcionam belas impressões sobre o impacto gerado. A notícia de que o número de empreendedores que
formalizaram já ultrapassou o número de 5 milhões
vem sendo ampla e recorrentemente veiculada pela mídia. Contudo, os resultados reais proporcionados pela lei são mascarados, os dados não são contestados. O fato de que mais da metade dos microempreendedores individuais não estão cumprindo efetivamente com as contribuições tributárias, estando inadimplentes e, portanto, formalizados parcialmente, não é divulgado na mesma proporção.
O que se constatou, a partir da pesquisa realizada, é que os novos “empreendedores” enxergam a formalização de seus “empreendimentos” em termos de múltiplas escolhas estratégicas que se desenrolam ao longo do tempo e não são simplesmente excluídos da formalização pelo custo ou pela complexidade
do registro. Sugere-se que a classiicação binária
de empresas formais contra informais, em que a
literatura de gestão tende a classiicar essa decisão,
precisa evoluir em um continuum multidimensional que seja sensível às diferenças institucionais e variação cross-country. Isso porque constatou-se a existência de dois grupos de MEI. Um formado por empreendimentos que buscam o reconhecimento social
e almejam tornar-se dotados de direito. Na busca
pela legitimação, passam a integrar formalmente
a sociedade, registrando-se em todas as instâncias
necessárias, e passam a pautar suas ações na legislação
vigente. Nesse grupo, por mais que as diiculdades
de formalização sejam evidentes, os benefícios
proporcionados pela Lei 128/2008 (Brasil, 2008), em
uma análise racional, levam os mesmos à completa formalização. Um segundo grupo é formado por indivíduos que não são empreendedores de fato, são cidadãos que enxergam na lei uma oportunidade de burlar as regras trabalhistas vigentes e acessar direitos previdenciários e bancários.
Na análise da dinâmica de implementação da lei
observou-se que se trata de um processo no qual
as decisões são tomadas e executadas por diversos
agentes (públicos e privados), no âmbito de diversas organizações, mas há conlitos interinstitucionais,
Quadro 1. Objetivos e dissonâncias da política.
Objetivo Dissonâncias observadas
Permitir a regularização de microempresários que, de outra forma, permaneceriam na informalidade.
Regularização parcial do empreendimento, sem obtenção do alvará permanente, em parte pela inexistência de integração entre os sistemas federal e municipal de regularização jurídica, de outra parte, pela ineiciência da iscalização.
Permitir que as empresas enquadradas como MEI possam gozar de isenções tributárias.
Inadimplência iscal elevada, por fragilidade de iscalização, implica formalização parcial. Ofertar trâmite especial, simpliicado, no processo
de registro do MEI, além de gratuidade de taxas e emolumentos.
Essa informação não é de conhecimento público, a ponto de serem realizadas cobranças indevidas.
Dispensar a adoção de procedimentos detalhados de contabilidade.
Os contadores dispensam pouca importância aos MEI que atendem.
brechas e ambiguidades legais, omissão de normas operacionais, entre outros fatores que possibilitam aos implementadores tomarem decisões relevantes ou não para o sucesso da política.
Por im, nunca é demais lembrar que os resultados
da pesquisa devem ser tratados dentro dos seus limites, puramente exploratórios, seja pela abrangência territorial delimitada ao município de Araraquara, seja pela abordagem metodológica, impeditiva de qualquer possibilidade de extrapolação, seja ainda pelo próprio estágio do conhecimento a respeito
desse objeto particular (a Lei do MEI), claramente incipiente. Fica, portanto, o compromisso e o desaio
para ulteriores avanços, aprofundamentos e expansões de novas pesquisas.
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