A TRISTE HISTÓRIA FELIZ DO PROFESSOR HONESTO
1Prof. Frederico Flósculo Pinheiro Barreto – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.
(Ilustração: “Epifania”, de Michelangelo (c. 1560)).
Um querido amigo, professor de Ciência da Computação, veio me relatar o cumprimento que um estudante lhe fez, ao final de um semestre bem sucedido. “Ele me agradeceu por não ter faltado a uma só aula. Por não ter, ao longo de qualquer das aulas, me ausentado das explicações, e ministrado as aulas. E por ter cumprido o plano de curso, que chamam de ementa, por estas plagas”.
O professor estava espantado por ser cumprimentado por fazer algo banal, trivial, essencial: ter honrado o seu trabalho, pelo que é pago. Talvez o estudante tivesse até mesmo gostado do conteúdo das
aulas, da didática, do estímulo à pesquisa e à aplicação, mas ficou aturdido com o básico do básico.
A que ponto esse aluno tinha chegado, para expressar, efusivamente, o reconhecimento por um professor que cumprira suas obrigações? Para esse professor, ele mesmo não tinha chegado a “ponto algum”, estava no mesmo lugar que deveria estar. O aluno é que parecia bem mal-tratado...
Em resposta, eu lhe contei a parábola de um dos mais honestos professores que conheci por aqui. Era um estrangeiro, que dava aulas de projeto de urbanismo na graduação e na pós-graduação, havia cerca de duas décadas quando soube de algo que o perturbou. Soube que exercia ilegalmente a profissão de arquiteto no Brasil.
Isso aconteceu numa reunião do conselho da faculdade. Um professor recém-ingresso, escolhido para representar a faculdade no conselho de engenharia, arquitetura e agronomia do DF, comunicou que era sua obrigação – de praxe, prevista na legislação – levar ao conhecimento do conselho profissional a lista dos professores que ensinavam disciplinas profissionalizantes e que tinham registro profissional, assim como o rol das disciplinas profissionalizantes (obrigatórias) e suas ementas.
A primeira dessas exigências é comum a todas as áreas profissionais que são regulamentadas por Lei.
Para que uma pessoa exerça uma profissão regulamentada por Lei ela deve, NECESSARIAMENTE, estar registrada em conselho profissional. Mesmo que se tenha o diploma, sem o registro em conselho, o exercício da profissão – como a arquitetura, a engenharia, a medicina, a enfermagem, o serviço social, entre muitas outras – é ILEGAL. Essa condição é um dos elos de uma “rede de legalidade” que garante um mínimo de controle de qualidade do exercício dessas profissões, em benefício da comunidade.
Entre as atividades profissionais privativas, que somente podem ser exercidas por profissionais devidamente registrados, está o ENSINO DA PROFISSÃO, sobretudo das disciplinas
profissionalizantes, essenciais para a formação dos futuros profissionais.
Pois bem, esse professor estrangeiro ministrava disciplinas obrigatórias de urbanismo havia cerca de duas décadas, e não conhecia um só parágrafo da legislação profissional brasileira. Ao ouvir o pedido daquele jovem professor, ele o procurou após a reunião, em busca de mais informações.
“O senhor está a exercer ilegalmente a profissão de arquiteto e urbanista”, disse o professor. “Tudo o que tem feito prejudica, legalmente, seus estudantes. Nada do que tem feito é válido, do ponto de vista da legislação profissional”.
Essas são afirmações que são totalmente contestadas por determinados círculos universitários. À época, na faculdade de arquitetura, poucos professores eram registrados no conselho profissional.
De um modo geral, havia até mesmo a repulsa a esse registro, por incrível que pareça. Era uma atitude que misturava uma interpretação toda própria do que seria AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA (a universidade como uma comuna, uma república dentro da república, com regras próprias de governo, com múnus próprio e independente do poder secular à sua volta, como em universidades medievais) com outra interpretação do que seria o chamado FAZER ARQUITETÔNICO, um feixe de idéias acerca da independência criativa de arquitetos artistas que os levava ao nível de revolucionários permanentes – que não abriam mão, contudo, da regularidade dos contracheques do governo, das licenças remuneradas, das viagens de estudos, dos privilégios da docência.
Assim, somente reacionários de direita podiam se preocupar com esse tipo de coisa (registros em conselhos profissionais, exercício legalizado da profissão regulamentada, etc.). Isso na própria Universidade que deveria preparar os jovens estudantes para o exercício profissional na sociedade “real”. Na sociedade “real”, fora do Minhocão e do Campus, o exercício ilegal da profissão (de arquiteto,
de engenheiro, de médico) é duramente punido, e pode ter conseqüências desastrosas para os que perseverarem nessa conduta de FAZER A PROFISSÃO COM AS PRÓPRIAS MÁOS.
Além disso, entender como essas profissões regulamentadas são “pensadas” por nossa sociedade brasileira é fundamental para que possamos aprimorá-las e, evidentemente, preparar os melhores profissionais para o melhor dos exercícios de profissões realmente importantes para a sociedade brasileira. Isso parece razoável, aceitável?
Não, não era – pelo menos para os professores daquela época, nos anos 1990, e anteriores. Esse professor estrangeiro pediu ao jovem professor que o auxiliasse no trabalho de reconhecimento de seu diploma, nos ajustes necessários ao seu registro profissional no Brasil, o que foi possível em apenas alguns meses.
Nossa legislação profissional, no campo da arquitetura, tem dispositivos que até facilitam a “adoção” de profissionais estrangeiros com proficiência em campos estratégicos do conhecimento e da prática profissional.
No entanto, esse esforço por “regularizar-se” foi ironizado, ridicularizado mesmo, por colegas de faculdade. Era como se o professor traísse o pacto de autonomia auto-declarada, e se rendesse às forças da fiscalização profissional burguesa e capitalista.
Mas o pior ainda estava por vir.
Esse professor ensinava no curso de pós-graduação da faculdade, que se restringia ao nível do Mestrado – e ele não possuía sequer o título de Mestre. Em novas conversações com o jovem legalista, o consciente professor ficou novamente perturbado: por força da amizade dos “Donos do Pedaço”, ensinava no Mestrado sem ser sequer Mestre. E não era caso isolado.
Foi aí que tomou a decisão mais desgastante de sua carreira na UnB: decidiu MATRICULAR-SE COMO ALUNO no mesmo curso de Mestrado onde atuara como professor por cerca de duas décadas.
Foi uma decisão escandalosa. Tentaram demovê-lo dessa decisão, que denunciava os picaretíssimos acordos internos, baseados na autoridade solene dos Donos do Pedaço. O lado “faz de conta” de nossa Academia seria publicamente exposto. E se há uma coisa que a Academia mais visceralmente abomina é a exposição pública de suas falhas e contradições, de sua arbitrariedade e autoritarismo.
Pois bem, o cabeça-duríssima do professor estrangeiro FEZ ISSO. E cumpriu todas as exigências, sentando-se ao lado, como aluno, dos que haviam sido seus alunos, sem constrangimento. Era mesmo de causar comoção a sua honestidade.
Para os ex-colegas, o honesto professor humilhava-se, expondo-se como aluno. Pior, era uma denúncia chocante dos espantosos pactos da Ciência dos Amigos, que não tem a menor responsabilidade para com a Ciência dos Cientistas, digamos. Uma ri da outra.
A conclusão a que cheguei, desse caso, com o meu amigo professor da Ciência da Computação, foi de que uma pessoa honesta pode ser a encarnação das piores denúncias, em uma ambiente onde a desonestidade diante das leis e da cidadania é a norma. Em uma instituição que é refém de panelinhas ciosas de sua auto-atribuída grandeza.
Esse professor, que havia sido coordenador do programa de pós-graduação (sem ter o Mestrado), membro da Câmara de Pesquisa e Pós-Graduação, agora estava em desgraça. Passados um par de anos, ou menos, depois da aprovação de sua dissertação de Mestrado, retirou-se de vez da faculdade de arquitetura, e da UnB, em paz e silêncio.
Talvez tenha sido o seu mais surpreendentemente honesto professor.