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Dieter Kremer (Trier) D. Carolina M ichaelis de Vasconcellos com o lexicógrafa

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Academic year: 2021

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D. C arolina M ichaelis de V ascon cellos

com o lexicógrafa

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D. C arolina M ichaelis de V asconcellos é, sem dúvida algum a, um a das poucas «grandes dam es» na história da Filologia R om ânica. N ada m ais justo , pois, que dedicar um colóquio à sua m em ória (celebra-se em O utubro o septuagésim o sétim o aniversário da sua m orte).1 Ao fazê-lo é tão im portante enquadrá-la adequadam ente na historiografia linguística quanto o é um a inventariação actualizada da sua obra e suas repercussões. F ilóloga na m ais perfeita acepção rom anística da palavra, C arolina M ichaelis de V asconcellos representa um a tradição hoje praticam ente desaparecida — sobretudo no contexto alem ão. N ão é m inha intenção analisar m ais em profundidade este facto, m as sim ­ plesm ente constatar que poucos são os rom anistas que pensam nela ou se debruçam sobre a sua obra. A sua edição do C ancioneiro da A juda, segundo R am ón Lorenzo «um a das obras m ais im portantes da investi­ gação rom ânica e continua a ser de consulta indispensável para todos os investigadores»,2 é um a obra de referência incontornável. Só que: quem é que, hoje, na A lem anha, trabalha ainda «filológicam ente» ou na tradição filológica? Ao m esm o tem po, C arolina M ichaelis de V as­ concellos representa um tipo de investigador que oscila entre duas culturas: por um lado recebe a sua extraordinária form ação científica na A lem anha, ainda que fora da U niversidade, por outro está perfei­ tam ente integrada na C ultura Portuguesa, o que, para além da falta de interesse por tem as relacionados com Portugal, dificulta a receptivida­ de para a sua obra na A lem anha.

N este sector há colegas que se m ovim entam m uito m ais à vontade do que eu. O convite que me foi feito para participar neste encontro — e que aceitei com o m aior gosto — deve-se certam ente ao «C entro de D ocum entação sobre Portugal» — em alem ão P ortugalzentrum — que tive a honra de criar em 1991 e no qual a D outora U lrike

1 As datas são contraditórias: 22 de O utubro ou 16 de N ovem bro de 1925. 2 Dicionário da literatura m edieval galega e portuguesa, p. 665b.

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M ühlschlegel trabalhou durante algum tem po com o auxiliar. A biblioteca do C entro com eçou por receber o nom e de Joseph M. P iel,3 m eu professor e orientador académ ico e professor honorário da U niversidade de Trier. N o decorrer das longas negociações para conseguir a criação e financiam ento de um a C átedra de Estudos Portugueses, o D outor A dão da Fonseca, na altura Presidente do Instituto C am ões, fez questão de que, na m elhor tradição britânica, se escolhesse um nom e para a m esm a. D epois de algum a hesitação entre Joseph M. Piel e C arolina M ichaelis de V asconcellos — am bos personagens de relevo no contexto luso-alem ão — acabei por dar a preferência a esta filóloga, j á que ao integrar tam bém a Literatura, C arolina M ichaelis de V asconcellos representaria ainda m elhor a F ilologia Portuguesa de raiz na R om anística alem ã. Esta escolha aliás nunca foi oficializada. O nom e é utilizado pela parte portuguesa, a parte alem ã não o leva sequer em consideração. U m exem plo deste facto — e que poderia considerar-se com o um a anedota, dispensando qualquer com entário — é o endereço para onde é enviado o Journal

d e Letras:

Exma.SE.Dr“

CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELOS UNIVERSITÄT TRIER / PORTUGALZENTRUM 0-0 TRIER ALEMANHA

N este contexto, a D outora M ühlschlegel considera que, através do m eu professor e orientador académ ico Joseph M . Piel, eu m e enqua­ draria na tradição directa de D. C arolina. O que não é totalm ente cor­ recto. A pesar de Piel ter assum ido a cátedra de C arolina M ichaelis de V asconcellos em 1939, a verdade é que nunca a conheceu pessoal­ m ente, visto ter ido para C oim bra em 1926, já depois de esta ter fale­ cido: A sua orientação filológica está enraizada na escola de W ilhelm M eyer-Lübke.

Seja com o for, am bos são notáveis representantes da R om anística alem ã tradicional, dedicados especificam ente a Portugal, m as sem jam ais perderem de vista o contexto da R om anística na acepção clás­ sica da palavra. Paralelam ente, pode dizer-se que tanto os tem as quan­ to a m etodologia de trabalho de am bos apresentam fortes sem elhan­

3 A ctualm ente, o m eu m entor académ ico dá o nom e à biblioteca do Centro de D ocum entación de Galicia (G alicien-Zentrum), juntam ente com Fr. M artín Sar­ m iento, um a das figuras galeão da Filologia Galega.

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ças. À sem elhança de todos os especialistas da sua era, Piel analisou em porm enor a obra de D. C arolina e abordou pontualm ente algum as questões fílológico-etim ológicas. N os prim eiros tem pos da sua estada em C oim bra, Piel fez edições críticas de várias obras básicas da L ite­ ratura Portuguesa, válidas ainda hoje.4

N ão me cabe, porém , hoje e aqui, debruçar-m e sobre a obra de Piel, tarefa aliciante sem dúvida e que poderá ser enfrentada quando do planeado «Colóquio sobre lexicografia e etim ologia histórica por­ tuguesa». G ostaria, sim, de, recorrendo a alguns exem plos, abordar o trabalho de D. C arolina no sector da etim ologia e da história das p ala­ vras. N a verdade, e ju ntam ente com os trabalhos do fundador da F ilo­ logia Portuguesa A dolfo C oelho, com os estudos lexicais de G onçal­ ves V iana, cujas A postilas aos dicionários p o rtugueses aliás foram dedicadas «à excelentíssim a Senhora D ona C arolina M ichaelis de V asconcelos, a quem as Letras Portuguesas tanto devem », com a figu­ ra dom inante dos Estudos Portugueses, L eite de V asconcellos, e al­ guns outros im portantes especialistas de L inguística Portuguesa, C aro­ lina M ichaelis de V asconcellos constitui o fundam ento da L inguística P ortuguesa m oderna e encontra-se, m ais ainda do que esta, na linha directa da tradição «rom anística» alem ã dom inante naquela altura. A todos eles a ligavam elos estreitos de am izade, e seria injusto relegar para segundo plano a im portância dos seus contem porâneos: um nú ­ cleo coeso de investigadores, que colocou o estudo da L íngua P ortu­ guesa em bases sólidas e duradouras. Entre os finais do século X IX e o prim eiro quartel do século X X , a era de ouro da Filologia R om ânica em geral enche-nos ainda hoje de adm iração. Face ao então consegui­ do, pouco tem os a contrapor com o term o de com paração. Talvez que o enorm e volum e de inform ação possível e um a form ação insuficiente estejam na base deste fenóm eno ou intim idação. P or outro lado, os trabalhos de D. C arolina estendem -se por um longo período de tem po, não se restringindo ao princípio do século XX. O facto de pertencer a um a classe social que nunca deixou de ser abastada e se inserir num am biente caracterizadam ente científico facilitou certam ente a sua pró­ pria abordagem do trabalho que desenvolveu. A liás não penso que tenha tido grandes dificuldades em im por-se com o «m ulher»: tanto a

4 Entre estas é de especial interesse as vicissitudes da edição de A D em anda do Santo Graal, edição de Joseph-M aria Piel, concluída por Irene Freire N unes, in­ trodução de Ivo de Castro, Lisboa: IN -CM (1988).

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classe social a que pertencia quanto o seu «exotism o» — essa «fada que a A lem anha nos m andou»5 — terão contribuído para tal. P essoal­ m ente tenho sérias dúvidas sobre a possibilidade de, hoje em dia, p o ­ derm os atingir um nível científico sem elhante. C om o porém e ao m esm o tem po não sou grande defensor de cultos pessoais, vou tentar avançar algum as inform ações pertinentes.

2

E tarefa difícil tentar resum ir os vastos cam pos de interesse e investi­ gação concreta de C arolina M ichaelis de V asconcellos. Em prim eiro plano, e paralelam ente a um a actividade filológico-literária focalizada especificam ente sobre as C antigas m edievais e o século X V I (e aqui, em bora não exclusivam ente, sobretudo Gil V icente, Sá de M iranda, C am ões e o R om anceiro), encontra-se um m odo de ver histórico- -cultural: sem este pano de fundo só m uito dificilm ente se pode com ­ preender o surgir e o alcance da Literatura. E adm irável verificar a riqueza de conhecim entos históricos porm enorizados m encionados nas suas edições e com entários. A juntar-se-lhe um m arcado interesse por um questionam ento etnográfico, de m ãos dadas com um espírito m uito observador da realidade portuguesa do seu tem po (não é raro ver de­ term inados factos técnico-linguísticos «testem unhados» por um a cria­ da ou p o r um a cozinheira). O conhecim ento da tradição histórica e da crítica literária e o dom ínio, hoje m uito raro, do instrum entário rom a- nístico, transform am precisam ente os seus estudos lexicais em exem ­ plos clássicos da arte da etim ologia rom ânica. U m a arte que deixou praticam ente de existir — pelo m enos poucos são os estudos etim oló­ gicos actuais de que tenha conhecim ento. Um trabalho que não deve ser confundido com a elaboração de dicionários etim ológicos. No contexto português, pelo m enos, deparam o-nos frequentem ente com um equívoco: num dicionário com o o de A ntónio G eraldo da C unha, facilm ente apresentado com o o de m ais de confiança, resum e-se ao m áxim o a inform ação sobre o estado actual dos nossos conhecim entos etim ológicos, dispensando-se toda e qualquer crítica ou reporte ao

5 H em âni Cidade, D icionário de H istória de Portugal 6, p. 252, tradução livre da citação de M enéndez Pelayo: «Carolina é a fada benéfica que a A lem anha enviou a Portugal, para ilustrar gloriosam ente as letras peninsulares», citado se­ gundo A mérico Lopes de O liveira, D icionário de m ulheres célebres, Porto: Lel- lo & Irmão 1981, s.v. M ichaelis de Vasconcelos.

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autor da etim ologia. N ão há debate. M achado, com o seu dicionário etim ológico tão frequentem ente criticado, vai bem m ais longe intro­ duzindo citações históricas e, face a casos de interpretação problem á­ tica, espelhando o debate em curso, tom ando posição nele e, sobretu­ do, citando os autores. N a mais recente obra da, a m eu ver, não m uito pobre lexicografia portuguesa — o D icionário H ouaiss da L íngua

p ortuguesa — os dois aspectos vêem -se, ainda que eclécticam ente,

reunidos. Por um lado é avançada um a prim eira datação precisa, mesm o quando ela regra geral se reporta apenas a um a form a da pala­ vra e não ao seu significado. Por outro lado, e se considerarm os que estam os perante um dicionário linguístico, dá suficientes inform ações etim ológicas, incluindo esporadicam ente um com plem ento sobre o debate e a bibliografia — apesar de estas se lim itarem na sua m aioria ao dicionário de N ascentes, onde se vai encontrar m ais porm enores.6 A liás, o dicionário de N ascentes, que inclui, por exem plo, as inform a­ ções do D icionário m anual etim ológico de A dolfo C oelho7 deveria ser sem pre consultado. O debate etim ológico em si tem lugar em revistas ou publicações da especialidade, das quais são exem plo, ainda que não exclusivam ente, as citadas A postilas de G onçalves V iana, as m uito num erosas «achegas» ou a colecção M iscelânea de etim ologia p o rtu ­

guesa e galega de Joseph M. Piel, dedicada aliás «A m em ória da in­

signe R om anista e Professora da Faculdade de Letras da U niversidade

6 Mais criticável a parte m orfológica (formação das palavras). Houaiss não men­ ciona nenhum trabalho de Carolina M ichaelis de Vasconcellos («Referências bi­ bliográficas», pp. 2914-2922) ou, pelo menos, é difícil encontrar um a sigla cor­ respondente na «selva» das abreviaturas («Bibliografia das fontes de datações etimologia», pp. LXV I-LXXX III), sendo ela expressamente citada no «grande» M orais Silva: «A apurada já com segurança nos mais recentes trabalhos sobre o assunto, em que podem lançar m uita luz o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, por A ntenor N ascentes, os Comentários a Alguns Arabism os do mesm o Dicionário, por José Pedro M achado, os trabalhos de D. Carolina M ichaelis de V asconcelos, de A ugusto M agne, etc. Em caso da conjectura pro­ vável, o ponto de interrogação da dúvida, e em caso de desconhecim ento, a de­ claração franca de «etim ologia desconhecida».», vol. I, p. 14. D eve-se esta con­ sideração sem dúvida ao co-autor do m aior dos dicionários portugueses, José Pedro M achado. A acrescentar talvez que este dicionário fornece ocasionalm ente prim eiras datações ignoradas pelos dicionários etim ológicos (inclusive M acha­ do).

7 Francisco Adolfo Coelho, D icionário m anual etimológico da lingua portuguesa, Lisboa: Plantier s.d. [1890]. Cf., por exemplo, a apreciação em M iscelânea Adolfo Coelho, vol. I, pp. 22-24 (A. N ascentes) e 25-30 (E. Paxeco).

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de C oim bra C arolina M ichaelis de V asconcelos» ou, precisam ente, os trabalhos de C arolina M ichaelis de V asconcellos.

3

Estes trabalhos encontram -se dispersos por séries tem áticas ou nos com entários e glossários. N a base desta m inha intervenção encontram - -se trabalhos de C arolina de M ichaelis de V asconcellos que cobrem o período que vai de 1882 («Etim ologias Portuguesas») a 1925 («M isce- las etim ológicas»). P or vezes trata-se apenas de breves apontam entos, sobretudo nos glossários, na m aior parte dos casos, porém , estam os perante uma análise porm enorizada de questões etim ológicas e da história da palavra em questão. Os exem plos por ela avançados são tiradas quase sem pre do sector em que se enquadravam os seus estu­ dos da história da literatura ou da cultura, e, à sem elhança destes, não devem jam ais ser considerados isoladam ente. C arolina M ichaelis de V asconcellos recorre sem pre a um a técnica de trabalho filológica e rom anística — ou seja, baseando-se em textos (é espantoso constatar de quão vastos conhecim entos dispunha não apenas no cam po literário com o tam bém no da literatura digam os adm inistrativa), tem conheci­ m entos linguísticos sólidos e conhece a fundo a discussão linguística (que, na altura, era ciência viva). C ontribuições de que diz G onçalves V iana «N a sua m aior parte estas etim olojias estão abundantem ente docum entadas, com o, em Portugal, som ente a vastíssim a erudição filolójica da autora o pode fazer...» (1908: 239). Ou, nas palavras de Jacinto Prado C oelho «R igor de m étodo e m ultím oda cultura são suas virtudes prim ordiais».8

A este elogio, C arolina M ichaelis de V asconcellos responde com um a m odéstia consciente:

Dunklen Stoffs genug für den Kommentator. Zu viel sogar für einen, der, den Quellen nahe und doch so fern, über so dürftige historische Hilfsmit­ tel verfügt wie ich (.Randglossen 1901: 132).

[Terreno por desbravar suficiente para o comentador. Demasiado mesmo para alguém que, como eu, tão perto e oh! tão longe das fontes, dispõe de tão escassos recursos como eu.]

A o m esm o tem po está bem consciente da posição de excepção que é a sua, podendo perm itir-se um a crítica global, segundo o esquem a:

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Inclinado, tal qual em Portugal o nosso Leite de Vasconcellos (e o bene­ mérito Gonçálves Viana, de saudosa memoria) a explicar termos nacio­ nalizados por evoluções exclusivamente fonéticas, complicadas, invero­ símeis e não documentadas ás vezes... (1925: 455).

Para depois acrescentar, com o nota de pé de página:

Não seria excessivo falar de sugestionismo fonético, embora, dentro das evoluções fonéticas, êlas admitam tambem influxos analógicos.

N esta passagem C arolina de M ichaelis de V asconcellos discutia preci­ sam ente a etim ologia de m arfim por ela defendida, vendo-se obrigada a ouvir de Juan C oram inas:

sólo C. Michaelis... se obstina en su antigua etimología: alfil «elefante» cruzado con mármol. Repetidas veces he rechazado por razones metódi­ cas estos cruces de voces de significado heterogéneo, que sólo pudieron producirse en la mente de un filólogo obsesionado por una preocupación etimológica...9

A inda que a sua im ersão na cultura portuguesa seja adm irada (cita­ se sobretudo o livrinho da sua autoria sobre a saudade), e sublinhado o trabalho pioneiro realizado com as C antigas m edievais, a verdade é que não faltam as críticas. R odrigues Lapa pensa ter de constatar:

A crítica da eminente romanista é, como se vê, um modelo de incompre­ ensão estética. Esse desajuste e aparente inconsequência, que tanto a im­ pressionaram, é que constituem o supremo encanto da poesia (...).10 Tam bém G onçalves V iana critica ocasionalm ente:

A propósito da palavra entrevado, diz-nos a autora (p. 47) que o povo «transforma o termo, dizendo empregado [por empregado] (como se de­ rivasse de prégo, epigrus) e entregado». — Será assim no Pôrto, mas em Lisboa ninguém pronuncia de tal modo o segundo e (1908: 244).

Q uando se trata aqui de interpretações rigorosam ente científicas, a vertente didáctica da form ação académ ica é um a parte im portante das actividades docentes de C arolina M ichaellis, de que as Lições são testem unho eloquente:

Lembranças apenas. Ideias. Criações de um momento. Etimologias sem documentação alguma. Eis o que são as Nótulas que hoje ofereço aos lei­ tores desta Revista. Exemplos característicos da invencionice caprichosa e bem-humorada que distingue a mocidade académica. Foi em contacto com os meus ouvintes que, em qualquer das minhas Lições de Filologia portuguesa, no constante empenho de lhes apresentar e explicar forma­

9 DCECH 3,849a, s.v. marfil.

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ções linguísticas privativamente portuguesas, — amostras daquele vege- tabilismo exuberante, de ingenua espontaneidade que distingue as artes e letras nacionais - oportunamente lancei (ou trovei) as origens de piegas;

caturra; cábula; e caloiro (1917: 316).

C urioso o título alem ão «E tym ologische Einfálle» de um texto portu­ guês num a revista p o rtu g u esa" e característico o sublinhar do «tipi­ cam ente português (ou nacional)».

C ite-se de passagem a riqueza expressiva do estilo de C arolina M ichaelis de V asconcellos, um dom ínio da língua hoje praticam ente perdido. A penas dois exem plos escolhidos ao acaso: por um lado, a arte de dizer m uito em poucas palavras:

Als ich den Anfängen der Don-Juan-Sage (übrigens erfolglos) nach­ ging... (Randglossen 1896: 187).

P or outro, a arte de definição, neste caso do verbo am brar.

...Ich denke, damit sei die Gangart der Südländerinnen gemeint, die sich durch Tragen von Lasten auf dem Kopfe daran gewöhnen, in sehr gefäl­ liger Haltung mit steifem Nacken und aufrechter Büste, doch auffälliger Bewegung der Hüften einherzuschreiten (Randglossen 1896: 207).

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M as passem os agora a alguns exem plos concretos, sendo interessante saber o que pensava da lexicografia portuguesa e, sobretudo, quais as repercussões dos seus estudos etim ológicos e da história das palavras.

Para C arolina M ichaelis de V asconcelos a utilização dos grandes dicionários da lexicografia portuguesa, de B luteau a C aldas A ulete ou Figueiredo, m ais actuais, passando por M orais Silva (em diferentes 11 R egra geral separa os idiomas em que pratica. V er também «Da die kleine

Schrift [Leite de Vasconcellos, D ialectos Estremenhos] im A usland so gut wie unbekannt ist, biete ich in dieser und der nächstfolgenden Anmerkung den gan­ zen Artikel...» (1905: 614-615, nota 7). Para a discutida questão da língua de publicação de textos científicos ver tam bém o com entário de M. Rodrigues La­ pa: «O prim eiro [texto] é deveras significativo por ser escrito em português, o que em revista científica estrangeira tem considerável im portância e é de certo m odo excepcional, como é excepcional o cuidadoso português que ali se com ­ põe, sem os erros ridiculos, as deturpações afrontosas, habituais em casos análo­ gos», M. Rodrigues Lapa, «Portugal na A lem anha», M iscelânea de língua e lite­ ratura portuguesa m edieval, Coimbra: Universidade 1982, pp. 401-408 (402) [= Língua Portuguesa 2 (1930-1931), pp. 364-369], recensão de Cláudio Basto, «Em prego translato de nomes de anim ais na língua portuguesa», Volkstum und Kultur der Romanen 4 (1931), pp. 65-71.

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edições), C onstâncio ou D om ingos V ieira, é algo de evidente, não poupando porém nas críticas. A ssim , desculpa um a etim ologia errónea de Friedrich Diez com um «... irregeführt durch die untauglichen D e­ finitionen nationaler L exikographen» (1905: 607). A o discutir gronho (com o qualificativo de certas m açãs e peras) introduzido pela prim eira vez por M orais Silva a partir de um a passagem do C ancioneiro G eral, constata:

Desejo e espero que todos os leitores dirão, um pouco admirados: «Que quer dizer gronhol Nunca ouvimos tal palavra.» Confesso que tambem ha pouco a desconhecia. Lubriguei-a apenas nos vastos, tristonhos mas indispensáveis cemiterios da lingua — nos Diccionarios... (1887/1889: 301).

Para depois, poucos anos m ais tarde, pedir desculpa e anular esta objecção, dizendo que se trata na realidade de um term o técnico, cuja etim ologia, ao que parece, não é clara (1895: 168-169). A m bas as possibilidades apresentadas pela filóloga — negronho ou um a form a deoním ica de L ogroño — m erecem consideração. Entre os dicionários concretos, Bluteau assum e para ela um a posição de excepção, por exem plo ao afirmar:

Bluteau, que parece ter visto mais claro do que os posteriores lexicógrafos, comquanto se abstenha por completo de propostas etimológicas, define lampa como: «cousa que se manda para o dia de S. João de presente», e s.v. lampas como «presente de figos» (1908: 11, nota 1).

N o entanto, C arolina M ichaelis não consulta sem pre B luteau e forçoso é constatar que, até hoje, os «posteriores lexicógrafos» não explora­ ram sistem aticam ente Bluteau: H ouaiss parece ser o prim eiro a fazê-lo de um a form a com pleta. C arolina M ichaelis de V asconcellos usa com m uita frequência o dicionário de C aldas Aulete, seu contem porâneo, sem porém poupar nas suas críticas. Um exemplo:

Dieses Zeitwort [inçar] wird am besten von Caldas Aulete (richtiger von Santos Valente, dem eigentlichen Verfasser des Diccionario Contempo­

ráneo) definiert (1905: 610)

ou

das moderne, und im Ganzen gute, nur im etymologischen Teile ganz unbrauchbare [Lexikon] von Caldas Aulete... (1883: 103).

De um a form a global acusa os peritos na m atéria de não levarem sufi­ cientem ente em conta a tradição histórico-literária. U m exem plo, onde se refere à conjunção em que\

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Ein Beweis dafür wie wenig die alten portugiesischen Autoren gelesen werden! (1883: 109).

Pelo seu lado, a filóloga caracteriza-se especificam ente pelo co­ nhecim ento profundo e pelo aproveitam ento de fontes históricas, se­ ja m elas de natureza literária ou adm inistrativa. A ssim , a legislação ou

as «O rdenações» são-lhe tão fam iliares com o o são os grandes histo­ riógrafos ou, com o ela própria confessa, a fam osa «tabela dos preços» ou lista alfandegária de 1253, um docum ento que não foi, até hoje, explorado na sua globalidade em nenhum dos dicionários actuais.12

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U m fenóm eno m uito interessante do ponto de vista ético e de história da ciência é a atribuição da autoria de um a etim ologia conseguida. Por vezes devido a razões estranhas ao trabalho em si — por exem plo, um volum e pré-determ inado — os dicionários dão um tratam ento diferen­ ciado a esta questão. R egra geral, porém , as obras de consulta incluem apenas um a inform ação sucinta sobre a origem , sem qualquer referên­ cia ao debate científico ou à autoria. U m hábito que, sobretudo quando de palavras não claram ente esclarecidas, pode ser bastante desagradá­ vel: sem para tal se cham ar a atenção do leitor, escolhe-se apodictica- m ente um a de entre várias explicações possíveis.

A ssim , e para dar apenas um exem plo, seria de questionar qual das inform ações correspondentes a elo «argola de corrente; grilhão;

gavi-12 «W ären diese Randglossen speziell für Portugal bestim mt, so m üßte ich über cendal, sendal, sindal Längeres und Breiteres mitteilen, da ein so gründlicher K enner des M ittelalters w ie G am a Barros I 534 bekennt, er w isse nicht w as das im Elucidario fehlende W ort bedeute. D a ich dem A usland jedoch nichts w e­ sentlich N eues über Stoff, Farbe, W ert und V erw endung zu bieten habe, verw ei­ se ich die hiesigen Forscher au f Fr. M ichel’s Recherches sur les E toffes de soie (Paris 1852) und P. M eyer’s A nm erkungen zum Flam enca-Rom an; D u Cange s.v. cendalus, sendalus. — W as Portugal betrifft, so sei nur bem erkt, daß cendal auffallenderweise in der Preistabelle vom J. 1253 nicht vorkom mt, w ohl aber in der K leiderordnung A lfons IV. Im Liederbuch begegnen w ir ihm in CV 847 und 948 (in B raga’s Ausgabe auch noch in No. 1031); bei A lfons X. in CM 292,14. — Als F utterstoff steht es m eist gegensätzlich der penna, d.h. dem Pelzfütter gegenüber. W o es sich um W ertangabe handelt, neben Sam m et und Purpur oder Scharlachtuch» (Randglossen 1901: 139), «...quando D. A lfonso III fez elaborar em 1253 a fam osa tabela de preços à qual terei de recorrer m ais de um a vez para docum entar vocábulos raros» (1910: 268).

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nha» é a m ais correcta: «D o lat. anellus» (assim o actual D icionário da A cadem ia das C iências), «D o lat. ãnellus, -T, através de um a form a

*ãelo» (com o form ula Cunha 289a, sem subordinar esta form a à en­

trada principal anel), «lat. a n n e llu s j [sie] ‘anelzinho, an e l’, através de um a form a *aelo [sem qualificar o a \» (assim H ouaiss 1112c) ou «Por outro lado, o lat. anellu- originou em port. arc. ãelo [com rem issão à contribuição de C arolina M ichaelis, sem contudo m encionar o seu nom e], donde e/o» (com o argum enta M achado, D ELP 1,251a). A l­ guém terá encontrado a etim ologia correcta, antes de ela se to m ar do dom ínio público. Provavelm ente terá sido C arolina M ichaelis de V as­ concellos (1887/1889: 301).

Seguindo este esquem a poderia apresentar num erosos exem plos, com o seja toscanejar, do qual diz:

Toscanejar é um termo metaphorico, por meio do qual o povo graceja,

rindo do dorminhoco que quando devia conservar-se acordado, está a cabecear e cahir com somno, abrindo (muito pouco) e fechando a miude os olhos, como se fossem um par de tesouras de tosquiar. Um poeta do

Canc. C. Br., n° 1:359, já dizia no seculo XIII ou XIV: «e tosquiavam estes olhos meus». - Penso que toscanejar é uma contaminação dos

verbos tosquiar e pestanejar, que ambos tinham a mesma significação (1895: 187).

E sta etim ologia é retom ada por N ascentes, com m enção da prim eira datação e da autora desta etim ologia, e no «grande» M orais S ilva.13 M achado, coeditor do M orais Silva, não conhece esta explicação, mas, sem m ais fundam entações, põe a hipótese de existir um relacionam ento com tosquiar.14 Figueiredo pergunta «de toscar?».15 C unha não cita esta palavra, H ouaiss avança «cruzam ento de tosco ‘ru d e ’ e p estanejar» com o etim ologia não ju stific ad a.16 A o contrário do que acontece com quase todos os dicionários actuais, este verbo já

13 Em anteriores edições rem ete-se para N unes do Lião, por exemplo, D iccionario da lin g u a portugueza por Antonio de M oraes Silva, 7.a edição melhorada, e m ui­ to accrescentada com grande num ero de term os novos usados no Brasil e no por- tuguez da índia, 2 tom os, Lisboa: Souza N eves 1877, tom o II, p. 763a.

14 D ELP 5,319 «De tosquiar? Séc. XVI, segundo Morais2, onde tam bém se citam tosquenejar».

15 Vol. I, p. 626b, tam bém nas edições posteriores.

16 P. 2740b. C ontraditória igualmente a datação: enquanto cita tosquenejar a.1569 (Cardozo) como prim eiro testem unho, inclui um a entrada própria tosquenejar, datada de 1886.

(12)

não é citado pelo Dicionário da A cadem ia das C iências (2001). Posso citar, com o prim eiro testem unho:

mas este coraçone posto q(ue) era bõ letrado, e grande escriuã, e notador se(m)pre tosquoneiaua ou durmitaua, e pore(m) mete(n)doo e(m)patrica falaua como home(m) letrado, e discreto, e por aqi podeis ver quãto faz o custume...

E ncontram o-lo nos bem conhecidos «C olóquios dos Sim ples», de G arcia d ’Orta, datados de 1563,17 um a outra obra que nunca foi explo­ rada lexicográficam ente de form a sistem ática. Por fim, é de citar mais um a vez B luteau. Este autor rem ete a D uarte N unes do Lião, que, bem no espírito de C arolina M ichaelis de V asconcellos, inclui toscanejar entre os «vocábulos que os P ortugueses tem seus nativos, que naõ tom araõ de outras gentes que nós saibam os» (N unes 1784: 102) e rem ete para os dicionários de C ardoso, B arbosa e a «Prosódia» de Pereira.

6

Podia apresentar num erosos exem plos interessantes de etim ologias encontradas ou discutidas por C arolina M ichaelis de V asconcellos. O par filh ó /b eilh ó , com unm ente reconduzido a *FOLIOLA,18 é especial­ m ente interessante, reduzindo-se a questão form al à variante beilhó (ou bilhó), explicada, por cruzam ento popular com b o lo } 9 A m bas as denom inações m ereceriam possivelm ente um a análise m aterial e dia­ lectal m ais porm enorizada. O significado básico é claram ente «bolo chato frito em óleo», devendo pôr-se em questão a denom inação «fi- lhó m ourisca» utilizada por Bluteau. A dificuldade culinária situa-se entre a filh ó tradicional portuguesa «feita de abobora-doce, farinha e vários condim entos»20 e a filh ó tipo crêpe, a que corresponde a fillo a 17 P. 155b (Colóquio 41, tratando do ópio ou amfião). N a edição do Conde Ficalho, inutilizável para estudos de história da língua, a passagem lê-se como segue: «... sempre toscanejava ou durm itava» (vol. II, p. 175).

18 A especificação fonética de H ouaiss 1342b é de difícil compreensão: «o- rig.contrv.; lat. *foliõla, pl. de foliõlum por fo liõ lu m , dim. mase, de folium , i ‘fo­ lha’».

19 «Em últim a análise, belhó, bilhó apresentam -se como continuadores do antigo bolhó, influenciados por filh ó , no que respeita ao sentido, e por bolo quanto ao b- inicial», M.L. W agner, Revista Portuguesa de Filologia 6 (1953/1955), p. 20. 20 Cf. G iacinto M anupella, no «G lossário» do Livro de Cozinha, p. 176-177. Não

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galega. O significado avançado por V iterbo para beilhoos «castanhas assadas e lim pas já de casca», retom ado nos dicionários, que se encon­ traria na bilhó da B eira Alta, não parece m uito correcta. A passagem por ele citada de um texto datado de 1508 não perm ite praticam ente esta interpretação, correspondendo claram ente à denom inação clássi­ ca.21 N ão posso aprofundar hoje e aqui esta problem ática, m as não posso deixar de rem eter m ais um a vez a Bluteau, cujo nom e nunca aparece no debate. D iz ele:

[beilhó:] Massa em que entrão ovos, manteiga, açucar, &ca. a modo de sonhos. He huma specie de golodice quasi da feição da que os antigos chamavão Artolaganus.i Masc.Plin.Cic. «Deste modo se fazem sonhos, ou Beilhos», Arte da cozinha, p. 135 (vol. 2, p. 87, s.v. BEILHO).

[filhó:] Golodice de maça, q(ue) tem alguma semelhança com o que Ho­ racio chama Laganum, i,Neut. Porque a filhò Mourisca he feita de maça, estendida, & delgada, frita no azeite, & passada por açucar, ou por mel, & na explicaçaõ da palavra Laganum, allega Martinio com hum Diccio­ nario antigo, que diz, Fiunt lagaña de pasta, quasi quaedam membranulae, que quandoque statim in oleo friguntur, & postea melle condiuntur etc.2“ De assinalar o significado de filh ó em sentido figurado dado por Bluteau, ao considerá-la com o urna cataplasm a preparada no óleo.23 Tam bém aqui algum as atestações m ais antigas m as igualm ente inte­ ressantes: «singulas sartaginatas de fo lo o s (...)» a. 1258 PM H Inq 685a corresponde perfeitam ente ao que parece (e à excepção dos ingredien­ tes) à receita de beilhos darroz no «Livro de C ozinha» d a Infanta

21 «Em X ofeens som doze cabaneiras, e de todas seis duzeas de beilhoos, e dê cada hum huum capam. Em Freiximil dê cada huum hua fogaça, e quatro duzeas de beilhoos» (docum ento da Universidade), Elucidário 2, p. 26. Cf., no entanto, D. Carolina: «belhó, pronunciado tam bém bulhó, designa em Tras-os-M ontes ex­ clusivam ente a castanha pilada (= descascada ou debulhada) e nunca um bolo de farinha (nem o de m assa delgada e estendida como fo lh a , nem tam pouco o que é da finura de fio )...» (1895: 133).

22 Vol. 4, p. 121. Esta palavra, de origem grega, LAGÄNUM, segundo REW 4850 «eine nicht näher zu bestim m ende Speise», sobrevive em formas variadas no Sul da Itália.

23 «Filhò. Cataplasma. Emplastos. Nestes oleos coados se frija hüa Filhò de estopa ensopada em tres gemas de ovos batidos, &ca, & a poràõ sobre o embigo. C ur­ vo,Observac. 131» (vol. 4, pp. 121-122).

(14)

D. M aria de Portugal, escrito por volta de 1500.24 E V alentim F ernan­ des anota, referindo-se a S. Tom é:

Estes ynhames vsam em lugar de pam / comem no assado e cosido com came e peixe E raspam no e fazem delle filhoos e todos outros manjares como nos do pam.2

7

U m outro exem plo ilustra bem tanto a erudição de C arolina M ichaelis de V asconcellos quanto o funcionam ento da lexicografia portuguesa.

L ouro, no significado de «papagaio» é, de acordo com H ouaiss, um a

palavra m uito recente na língua portuguesa, datada de 1919/21, ou seja, a data de publicação do G lossário luso-asiático de R odolfo Se­ bastião. C unha dá o ano de 1881 (ou seja C aldas A ulete) e fala «de origem controversa». M achado cita a explicação de D algado, sem dar um a atestação histórica. N a verdade, falta por exem plo a denom inação em B luteau, em V ieira ou na 7.a edição do M orais Silva. N a prim eira edição de Figueiredo loiro «papagaio» está inserido com o popular no adjectivo loiro, com pletado com a pergunta «do lat. a ureus?» (vol. II, p. 58). N a sétim a edição, loiro ou louro recebe um a entrada individua­ lizada com a indicação da etim ologia malaia. Paralelam ente encon­ tram os neste im portante dicionário, sem rem issão a loiro, a entrada individual «nore s.m. o m esm o que loiro, papagaio», rem etendo para as D écadas de João de B arros (vol. II, p. 447); esta entrada foi depois incluída no M orais Silva, igualm ente sem rem issão a louro (vol. VII, p. 319). Em anteriores edições desta obra encontrava-se porém já a entrada «nóre, s.m. Passaro das ilhas M olucas; especie de papagaio», com um a rem issão a C outo.26 N ascentes (1932: 473) reproduz a situa­ ção em que se encontrava o debate na altura, cita Lokotsch e G onçal­ ves V iana, ignorando porém o debate surgido entre este e C arolina M ichaelis de V asconcellos. N enhum outro lexicógrafo português cita

24 Pp. 72-75. Contém outra indicação interessante: «tom ay aquelles veos do cabrito e fazeios e(m) pedacinhos em taõ o rrecheo m etido naquelles veos fritos como beylhos» [a. 1500] LCozinhaD M aria 32.

25 [a. 1507] CodVFem andes, pp. 175-176 (S. Tomé). 26 7.a Edição (1878), vol. II, p. 358a.

(15)

o resum o de L okotsch27 ou rem ete para o R EW 5125a, onde se citam a

28

etim ologia m alaia e os seus correspondentes em espanhol e catalão.“ Com o ponto de partida surge G onçalves V iana que, nas suas A p o s­

tilas, propõe a etim ologia m alaia núri ou nóri (1906/2: 83). C arolina

M ichaelis de V asconcellos (1908: 52-53) segue esta proposta e apre­ senta, com o prim eira atestação, um a passagem da quarta «D écada» da

Á sia — de, segundo ela, João de B arros e não D iogo do C outo, erro

repetido por C orom inas, Figueiredo e outros — independentem ente de B luteau já que pelo m enos a citação da localização dessa passagem não corresponde. V iana responde:

A etimolojia malaia de louro não é minha; mensionei-a nas Apostilas, e não me recordo onde a vi. É curiosíssimo a forma ñores, que se me apon­ ta em João de Barros, poque é quási a transcrição fiel do malaio nóri. ¿Qual seria, porém, o singular, nor ou norel Ocorrerá este singular em outro escritor português? (1908: 241-242).

T am bém aqui vam os encontrar m ais um a vez B luteau com o ponto de partida, ao citar a passagem com pleta da 4a D écada de D iogo de C ou­ to,29 que, ao que parece, se reporta a um a anterior descrição das M olu-cas:30

Destes papagaios, a que chamão nores, ha alguns que ensinados fallão bem, entre os quaes ouvi de hum que, estando são, disse: «Morro, mor­ ro!» E morreo logo.31

27 «Mal. lori: ‘A rt Papagei’, bes. a u f den M olukken, seit dem XIV. Jahrhundert in Südindien und seit dem XVI. Jahrhundert in Europa eingefuhrt, auch nori [Pjn 212]; hieraus frz. lauri, loury, sp. loro, pg. louro, nore, it. nuro; engl, lory, loory, (alt) nory, nury, ndl. noeri, dtsch. L ori [und hiernach häufig Lora]» (1337). 28 «Kat. llori, sp. loro, port, louro, vgl. dt. Laura als N am e der Papagaien». 29 «Decad. 4. de Couto, 1, 140. col 2.», vol. 5, p. 747 (s.v. nore).

30 Cf. «H istoria das M alucas» (a. 1561) und «Informação das cousas de M aluco» (a.1569) por G abriel Rebello, D oclnsulindia 3,192-343 e 345-508. Cf., acerca da im portância desta documentação, K rem er (2003).

31 a. 1569 D oclnsulindia 3,371, com a variante (a.1561): «Ha m uitos papagaios de muitas cores e feições e nomes», ibid., p. 310.

(16)

Pessoalm ente posso atestar nore j á para os anos 1516 e 1523:

Nestas ilhas de Bandão e Maluco ha muitos papapaios vermelhos e de muitas fermosas cores, muito domésticos, a que os mouros chamam ño­

res e são muito estimados antre eles.32

o dito rey de Maluco e el-rey de Tidore, sabendo que elle, testemunha, era chegado a Banda, lhe mandara obediencia, com dous nores de pre­ sente.33

Sendo a prim eira passagem j á citada no célebre H obson-Jobson de 1886,34 na tradução espanhola de 1524 escreve-se nore. A form a louro encontra-se integrado no léxico português pelo m enos desde Bacellar (1783: 429). A o que parece e no que respeita à língua portuguesa, a etim ologia é clara, e a m udança l/n e a interpretação popular da cor

louro não constituem qualquer dificuldade. N o entanto, o espanhol

/o ra 35 só m uito difícilm ente pode ser separado do português louro. De acordo com C oram inas, esta form a encontra-se atestada desde 1540, era com preendida no M éxico com o um a denom inação espanhola e é explicada por C oram inas pelo caribenho ra ra : existiriam assim possi­ velm ente dois étim os diferentes para as denom inações espanhola e portuguesa.36

C onfesso que é um pouco difícil seguir este raciocínio. N a verdade, as denom inações indígenas e espanholas m isturam -se num a passagem do inca G arcilaso de la V ega, entre os diferentes tipos de papagaio só a denom inação guacam ayaca é original da região, com o denom ina­ ções europeias encontram os para além de loro tam bém p eriq u illo e

32 a. 1516/1518 BarbosaO riente 2,403, com as variantes nure, nurre. 33 a. 1523 D oclnsulíndia 1,179.

34 Pp. 521-522, s.v. lory. A prim eira atestação parece ser «quos nuros appellant hoc est lucidos» [a. 1430] (Conti), ibid., p. 522, provavelm ente de pers. nur «luz».

35 A forma catalã llori citado no REW e no FEW provavelm ente não existe, o catalão usa a form a lloro como castelhanismo paralelam ente à forma papagai (papagall) (DCVB 7,58; D ECat 5,270) e um outro castelhanismo guacam ai (cast, guacam ayo).

36 D CECH 3,696s. É equívoca a informação do FEW 20 (1968) 103a: «L ori (mal.) art papagei. Nfr. lori m. ‘genre de perroquets’ (seit 1787, Bem SPierre). — Auch kat. llori. Sp. loro aber kom m t wahrscheinlich aus der m undart der Karaiben, Friederici 348. Dazu noch RLE 56,211.» Contradiz FEW 19 (1967) 14-15, nota 5: «Zu einer ähnlichen Verdrängung von sp. papagayo, pg. papagaio vgl. Die volkstüm liche bezeichnung pg. louro, sp. loro aus mal. nüri, D algado 1,533b; H obson 521b».

(17)

catalnilla.37 N a verdade, parece estarm os perante a denom inação da cor louro, sendo necessário porém um estudo m ais aprofundado do sem antism o desta palavra. Seja com o for, a cor de pele loro caracteri­ za os índios am ericanos38 e os escravos das C anárias.39 E um portu­ guês identifica sem dúvida o papagaio pela cor verde-am arelo da ca­ beça, a saber se a cor louro pode ter este matiz. M as parece-m e con­ vincente explicar louro a partir do m alaio nore, com cruzam ento popular de louro. Esta interpretação poderia ver-se eventualm ente cim entada pelo caso paralelo em francês perroquel, na gíria «copo de absinto» e actualm ente «m élange de pernod et de m enthe».40

8

Podia continuar com m uitos outros exem plos para ilustrar os vários aspectos da investigação lexicográfica de C arolina M ichaelis de V as­ concellos. Estes aspectos dizem respeito à história cultural (ratinhos), aos dicionários em geral e, sobretudo, à discussão histórico- -etim ológica e à sua repercussão no m undo rom anístico e lexicográfi­ co. São casos interessantes, por ordem alfabética, am eixa/am eijoa,

arlota, banha, brinco, castiçal, chouriço, coteife, espantar, garvaia, ichó, ilhó, jog u ete, morcela, queijada, tourão, trapaz, etc., dos quais

não posso tratar aqui por falta de tem po e para evitar o «toscanejar» geral, sendo a tem ática pouco indicada para um a apresentação oral...

37 «A los m uy chiquillos llaman periquillos', a otros algo m ayores llaman catalni- llas; a otros más m ayores que hablan m ás y m ejor que los dem ás llaman loro. A los muy grandes guacamayacas', son torpísimas para hablar, mas nunca hablan; solamente son buenas para mirarlas, por la herm osura de sus colores y plumas. Estas diferencias de papagayos han traido a España para tener en jaulas y gozar de su parlería; y aunque hay otras más, no las han traido; debe de ser porque son m ás torpes» a. 1609 Garcilaso de la Vega, el Inca, §442 (= CORDE). Cf. tam bém «En Potocsi, por los años de m il y quinientos y cincuenta y cuatro y cincuenta y cinco, hubo un papagayo de los que llaman loro, tan hablador, que a los indios e indias que pasaban por la calle les llam aba por sus provincias, a cada uno de la nación que era (...)», a. 1609, G arcilaso de la Vega, el Inca, §443 (= CORDE). 38 Cf. «era delgado de pocas carnes, la color baza, como de loro, de la m anera que

todos los de su nación» [M ontezuma] a.1560 F. Cervantes de Salazar, Crónica de la Nueva España §436 (= CORDE).

39 Ver K rem er (2001: 355). 40 FEW 8 (1958: 331a).

(18)

É certo porém que outras propostas de interpretação não foram tão felizes ou aceites pelos especialistas. A ssim , por exem plo, sisón que nos aparece num contexto óbvio e com o alcunha, é por ela interpreta­ da com o variante regional de pinta ssilg o e cuidadosam ente relaciona­ do com o francês sansonnet (vindo este do nom e pessoal Sam son) (1920: 86). N o entanto, não conhece todas as atestações das C antigas

d ’escarnho e m aldizer. Trata-se claram ente do português sisão «per­

nalta da fam ília das abetardas, caracterizada por um a constante expul­ são de gases fétidos», tal com o esclarece R odrigues Lapa, sem porém se referir à interpretação de C arolina de M ichaelis de V asconcellos. O nom e não vem nos dicionários etim ológicos, é porém já citado por B luteau.41

Só de passagem queria m encionar que C arolina de M ichaelis de V asconcellos não descuidou o m undo dos nom es. C om o especialista das C antigas, em particular os d ’escam ho e m aldizer, e por exem plo os Livros de linhagens m edievais era de facto difícil ignorar esta im ­ portante fonte do com portam ento linguístico e léxico popular. N ota- -se, porém , a falta de experiência com esta m atéria que só a partir da m agistral A ntroponím ia p o rtu g u esa de Leite de V asconcellos42 se

41 Vol. 7, p. 663: «Ave do tam anho de Adem, entre branco, & pardo, com colar preto no pescoço. N ão sey que tenha nom e proprio Latino (G arçotas, Sizoens &

Zam bralhos, A rte da caça, p. 41)». O dicionário de Bivar, até hoje m enospreza­ do, dá duas identificações: «nome vulgar da ave limícola, burhinus oedicnemus,

tam bém chamada alcaravão, galinha-do-mato, etc. E da ave alectórida, otis te- trax tetrax, tam bém cham ada siseirão, etc.» As características citados por Ro­ drigues Lapa não são identificáveis na literatura especializada, sendo caracterís­ tico a suspeita, a desconfiança, ver p.ex. Roger Peterson, G uy M ountfort, P.A.D. H ollom , Guía de campo de las aves de España y demás países de Europa, se­ gunda edición, traducción y adaptación española por M auricio G onzález Diez, Barcelona: O m ega (1967: 134). N ão se cita sisão ou siseirão em Delm ira M açãs,

Os animais na linguagem portuguesa, Lisboa: Centro de Estudos Filológicos (1950).

42 Antroponímia portuguesa. Tratado comparativo da origem, significação, classi­ ficação, e vida do conjunto dos nomes próprios, sobrenomes, e apelidos, usados por nós desde a Idade-Média até hoje, Lisboa: Im prensa N acional (1928). Cf. tam bém José Pedro M achado, Dicionário onomástico etimológico da língua portuguesa, 3 vols., Lisboa: Editorial C onfluência [1984], e D ieter Kremer, «B em erkungen zu den m ittelalterlichen hispanischen cognomina», I a VII, em:

Aufsätze zur portugiesischen Kulturgeschichte 10 (1970: 123-183), 11 (1971: 139-187), 12 (1972/1973: 101-188), 13 (1974/1975: 157-221), 14 (1976/1977: 191-298), 16(1980: 117-205), 17(1981/1982:47-147).

(19)

converteu num a área de investigação séria. A o lado de algum a inter­ pretação ou tradução bem conseguida, do tipo «... um seiner Jovialität w illen, den Scherznam en o Pinto (= das lustige H ühnchen) führte»

(Randglossen 1896: 194) encontram os um a equiparação questionável

entre nom e pessoal e lexem a em Lope, L ópez que «traduz» por lobo e

W olfssohn,43 C ontinua no entanto válida a sua apreciação global ainda

que tingida pelo pudor da época:

Dass ein großer Teil der altportug. Familiennamen ursprünglich Spitz­ namen, alcunhas, tur ein einzelnes Familienmitglied waren; dass die un­ ausrottbare Sitte, Jedermann solch ein individualisierendes Beiwort an­ zuhängen, noch heute in üppigster Blüte steht und besonders vom Volke und der Jugend in Schule und Universität gepflegt wird, habe ich schon öfters Gelegenheit genommen zu erwähnen. — In diesem Aufsatz be­ gegnen uns an solchen sobrenomes [s. CV. 1070,363 und Scriptores I p. 383]: Esgaravunha, Alvelo, Vuitorom (?), Pinto, Baveca, Gata. Der Can­

cioneiro bietet noch viele andere: Camela, Bodalho, Sacco, Bolo, Chora, Cheira, Corpo-delgado. Im Adelsbuche kommen sie auf jeder Seite vor

— oft von so barbarischer Rohheit, dass die Feder sich sträuben würde, sie nachzuschreiben — oft aber auch von kraftvoller Schönheit: Cabellos

d ’Ouro, Das quatro mãos, Mãos d ’Aguia, Bel-Pastor, Lucifer, Pão- -centeio, Tiçom. Ein hübsches Beispiel lese ich aus dem Livro de Linha­

gem p. 169 und 334 auf. Da erscheinen als Kinder des Pero Soares Es­

caldado'. Joam Pires Redondo, Pero Pires Coelho, Martim Pires Zote, Pero Pires Bravo und M aña Pires Brava... (Randglossen 1896: 200, no­

ta 2).

9

C om o acabám os de nos referir a «saudade», gostaria de m e debruçar ainda m uito rapidam ente sobre esta palavra chave, estudada por C aro­ lina M ichaelis de V asconcellos. N ascentes apresenta o m elhor e mais porm enorizado resum o do debate etim ológico, focando igualm ente um a possível interferência árabe (saudá), não citada nos dicionários actuais. C unha e, posteriorm ente, H ouaiss, referem apenas a etim olo­ gia com unm ente aceite do lat. SÖLITÄ TE, sem tocarem na questão

43 Randglossen (1902: 61) e segs. Cf. D ieter Kremer: «Le loup dans l ’an- throponym ie rom ane», em: Studia ex hilaritate. M elanges de linguistique et d ’onom astique sardes et romanes ojferts à M onsieur H einz Jürgen Wolf, publiés par D ieter K rem er et A lf M onjour, Strasbourg-Nancy: K lincksieck (1996: 211- 225).

(20)

so idade/saudade,™ M achado (com o tam bém no grande M orais Silva)

resum e «com provável influência de saúde», um a explicação já antiga. C láudio B asto referira-se a um a «falsa latinização», tese decididam en­ te rejeitada pela filóloga:

Temos de recorrer, repito-o, à analogia, à associação de ideias, ou à eti­ mologia popular, isto é a processos psicológicos, para encontrarmos a chave do enigma e explicar a substituição de o-i por au, que, aumentando a sonoridade melancólica do vocábulo, aumentou ao mesmo tempo sua significação: o conteúdo, o espírito, a alma. O influxo que houve, pode ou deve provir de palavras que principiavam com saud... (1914: 54-55). Tem a que desenvolve a seguir discutindo as analogias com saúde e

SKU JTkLLlsaudade e até sãzúfacfe/SA N ITÃ TE. N ão sei se recorreu a B luteau (que não é citado por N ascentes), m as encontram os aqui a equiparação a lat. DESIDERIUM e o resum o dos com entários aos L usía­

das de M anuel Faria e Sousa,45 que explica a «corrupção» soidade > saudade de um a forma análoga.46 N este âm bito, perm itam -m e citar

apenas três exem plos para o vasto leque de significados que possui esta denom inação tão portuguesa, mas igualm ente presente noutras culturas.47 Em m eados do século X V , faz-se dizer ao «Infante Santo» D. Fernando:

me começou de viir ao coraçom hüa grande soidade e desejo de me hir deste mundo.48

U m século m ais tarde Sam uel U sque fala da «saudade» ou da «nostal­ gia da pátria» dos judeus portugueses:

44 Utilizando, porém , uma explicação confusa e contraditória: «port, saudade onde ocorrem ainda as formas sodade, com monotongação au > o, e soidade com alt.

au > oi» (H ouaiss 2001: 2525).

45 M anoel de Faria e Sousa, Comentarios de Camoens, 2 vols., M adrid 1639. A este respeito nota C. Eduardo de Soveral: «E autor que não recebeu ainda a de­ vida ponderação, por isso que, de um lado, os successos principais da sua bio­ grafia, do outro, a tem ática do que produziu, o situam entre dois fogos: a antipa­ tia da crítica lusa e a indiferença da espanhola...», Dicionário das literaturas portuguesa, galega e brasileira, p. 787.

46 Bluteau, vol. 7, pp. 512-513.

47 Cf., por exemplo, ultim amente a fórmula «das eigentümliche Ich-weiß-nicht-w as-soll-es-bedeuten-dass-ich-so-traurig-bin, die schöne und grundlose Lebenstraurigkeit des deutschen Intellektuellen», Iris Radisch, crítica a Judith Hermann, «Nichts als G espenster», em: Die Zeit 6, 30.1.2003, p. 41.

(21)

Os que com desejo, de suas terras andam longos años desterrados, ao fim do tempo lhe daa remedio a suas suydades e a ellas os toma com ale­ gria.49

Finalm ente um exem plo para a utilização idiom ática, para a qual nor­ m alm ente é difícil conseguir-se um a datação:

dei ordem à cea dos novos hospedes [cafres] e a matar as saudades a An­ tonio, e assim àquelles mandamos duas grandes panelas de arros cosido em agoa e a este, para convidar tãobem o rey, hum lenço de biscouto e huma palangana de calda de sydrão que acaso achamos em hum bo- yão...

Parece-m e interessante a derivação saudoso, pertencente a este grupo, mas não levada em conta por C atarina M ichaelis de V asconcel­ los, está na base de um grupo de palavras desde saudosam ente até

saudosism o. M achado e outros reconduzem o adjectivo saudoso a um

hipotético *saudadoso, sendo seguido por C unha (e depois dele H ouaiss), que fala de um a form a haplológica. Esta interpretação está certam ente correcta, m as cham a a atenção o facto de a form a básica

*saudadoso não se encontrar testem unhada, pelo que um a ligação

directa a saúde seria m ais evidente do ponto de vista form al, m as im ­ plicaria um a form a final SALUTÃTE para saudade, tal com o C arolina de M ichaelis de V asconcellos refere. De acordo com o «fichário» de Cunha, H ouaiss dá com o prim eira datação um a form a soydoso no século XV, M achado cita (m as num a grafia errada) saudoso na Vita

C hristi.51 Com o prim eira atestação posso acrescentar um a alcunha: «C atalyna a Soidossa pateira» (a. 1403),52 que não perm ite, claro, um a interpretação sem ântica definitiva; caberia porém recorrer tam bém aqui a B luteau.53 O significado sobressai claram ente da seguinte pas­ sagem , tam bém testem unhada mas não citada por N ascentes:

muytos delles chorauam cõ soydoso pensamento (a. 1452/76 ZuraraGuiné 141).

49 a. 1553 U sque 3,xl v.

50 a.l639(or.) L oboltinerário 582.

51 «segundo os teus saudossos am oestam entos», a. 1495 V itaChristi, p. 264a (ver­ são im pressa), M achado cita a partir da versão do Códice Alcobacense.

52 1403 LVereaçõesPorto 1,193.

53 «Mil guizados fazem os Portuguezes desta palavra (...) Saudoso. V istoso, ame­ no, capaz de deyxar depois de perdido, m uyta saudade. Amcenus,a,um. Aspectu delectabilis...» (vol. 7, p. 516).

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Estou a chegar ao fim da m inha intervenção, com a qual nada m ais quis senão, recorrendo a alguns exem plos colhidos ao acaso e a num e­ rosas citações, delinear grosseiram ente o im portante papel desem pe­ nhado por C arolina M ichaelis de V asconcellos tam bém no cam po da lexicografia histórica portuguesa e rom ânica. C om H em âni Cidade:

Muitos ensaios publicados nas revistas portuguesas mais notórias, fran­ cesas, italianas, espanholas, sobretudo alemãs, mais concretamente ro­ manistas estão a reclamar um volume que a todos colija e a alguns actua­ lize... {Dicionário de História de Portugal 6, p. 253).

José Pedro M achado publicou em 1969/72 um a antologia deste género (reunindo exclusivam ente os textos em língua portuguesa), sem incluir um índice rem issivo nem tentar um a actualização de várias aborda­ gens etim ológicas. E é aqui que assistim os ao fechar do círculo: à excepção da M iscelânea de 1953, encontram os um a situação sem e­ lhante — com um núm ero m uito m ais elevado de pequenas «achegas» etim ológicas ou de história das palavras — na obra de Joseph M. P iel.34 U m a obra com parável sob m uitos aspectos com a área de inves­ tigação de C arolina M ichaelis de V asconcellos, que por assim dizer continua ao substituí-la na cátedra de C oim bra. N ão quero porém aprofundar hoje e aqui este aspecto.

V oltando à personalidade que é princípio e fim desta intervenção, perm itam -m e um a últim a citação de G onçalves V iana, que define correctam ente o trabalho de um especialista de etim ologia:

E findo aqui a minha análise ao primoroso estudo da abalisada romanista. Não se cuide que os reparos mínimos que fiz impliquem o intuito de desmerecer o trabalho consciencioso e pontual que critiquei sumáriamente. Conhece a Sr.a D. Carolina Michaelis de Vasconcelos a admiração e respeito que tributamos ao seu talento excepcional e vastíssimo saber, aos assinalados serviços, que, num ambiente por ora ainda ingrato, tem prestado à filolojia e às boas letras portuguesas. Conhece também que estudos desta natureza estão sujeitos a minucioso exame e a larga discussão, antes que os seus resultados obtenham o consenso dos que podem ter voto em tais assuntos; e é de certo com o aplauso de quem cultiva êste ramo de ciências, que contam todos aqueles que lidam no mesmo campo, e não com o louvor inconsciente e superficial de quem elojia sem competência, e quantas vezes sem mesmo ter lido o que enfáticamente encarece (...) (1908: 247).

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Referências

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