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Coordenação Leonardo Garcia coleçãoSINOPSES
paraconcursos
DIREITO DA
CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE
20198.ª
edição?
II
C a p í t u l o
Direitos
fundamentais
1. DIGNIDADE DA PESSOA HUMANAA Constituição da República estabelece como um dos dogmas de nossa so-ciedade a dignidade da pessoa humana (art. 1º, inc. III). Trata-se de um norte, um objetivo a ser perseguido por toda a sociedade. Cada cidadão deve ter respei-tada a sua dignidade, ou seja, seus direitos devem ser observados e atendidos pelos demais membros da sociedade e pelo Poder Público.
Embora de difícil definição, o princípio da dignidade da pessoa humana é composto por um núcleo duro, o mínimo existencial. A esse respeito, Ana Paula de Barcellos explica:
5.1) O efeito pretendido pelo princípio da dignidade da pessoa humana consiste, em termos gerais, em que as pessoas tenham uma vida digna. Como é corriqueiro acontecer com os princípios, embora esse efeito seja indeterminado a partir de um ponto (variando em função de opiniões políticas, filosóficas, religiosas etc.), há também um conteúdo básico, sem o qual se poderá afirmar que o princípio foi violado e que assume caráter de regra e não mais de princípio. Esse núcleo, no tocante aos elementos materiais da dignidade, é composto pelo mínimo existencial, que consiste em um conjunto de prestações materiais mínimas sem as quais se poderá afirmar que o indivíduo se encontra em situação de indignidade.
5.2) Ao mínimo existencial se reconhece a modalidade de eficácia jurídica positiva ou simétrica – isto é, as prestações que compõem o mínimo exis-tencial poderão ser exigidas judicialmente de forma direta –, ao passo que ao restante dos efeitos pretendidos pelo princípio da dignidade da pessoa humana serão reconhecidas apenas as modalidades de eficácia negativa, interpretativa e vedativa do retrocesso, como preservação do pluralismo e do debate democrático.
5.3) Uma proposta de concretização do mínimo existencial, tendo em conta a ordem constitucional brasileira, deverá incluir os direitos à educação fundamental, à saúde básica, à assistência no caso de necessidade e ao acesso à justiça.1
1. BARCELLOS, Ana Paula de. A eficácia jurídica dos princípios constitucionais: o princípio da dignidade da pessoa humana. Rio de Janeiro: Renovar, 2002, p. 304-305.
Com crianças e adolescentes, a questão é ainda mais sensível. Sua especial condição de pessoa em desenvolvimento indica a necessidade de maior atenção para a tutela de seus direitos fundamentais, a fim de se alcançar a dignidade da pessoa humana de forma mais plena possível. Bem por isso, a Constituição da República determina que seus direitos sejam atendidos com prioridade absoluta (art. 227).
O Estatuto da Criança e do Adolescente, com base forte nessa diretriz e na doutrina da proteção integral, elenca de forma minuciosa os direitos fundamen-tais entre os artigos 7º e 69.
Dignidade da pessoa humana
– Condição especial de pessoa em desenvolvimento – Proteção integral
– Atendimento com prioridade absoluta
ECA: previsão de direitos fundamentais
(arts. 7º a 69)
O rol dos direitos fundamentais da criança e do adolescente no Estatuto vai desde os direitos à vida e à saúde, até a disciplina do direito à convivência fa-miliar, seja na família natural ou em família substituta (guarda, tutela e adoção). Conforme será estudado ao longo desta obra, os direitos fundamentais contidos no Estatuto são, em sua maioria, de caráter prestacional, ou seja, contêm de-veres de fazer ou de dar impostos ao Poder Público e aos pais e responsáveis. São tipicamente direitos de segunda geração, cuja tutela é oponível a quem quer que não os respeite.
Confira-se o quadro esquemático de direitos fundamentais previstos no Estatuto:
Direitos fundamentais no ECA
– Direito à vida e à saúde (arts. 7º a 14)
– Direito à liberdade, ao respeito e à dignidade (arts. 15 a 18) – Direito à convivência familiar e comunitária (arts. 19 a 52-D) – Direito à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer (arts. 53 a 59) – Direito à profissionalização e à proteção no trabalho (arts. 60 a 69)
2. DIREITO À VIDA E À SAÚDE
Não há a menor dúvida em afirmar que o direito à vida é o de maior valor para toda a estruturação do ordenamento jurídico. Não é possível se falar em qualquer outro tipo de tutela de direitos ou em princípios e regras ou em siste-ma jurídico, sem que haja vida husiste-mana. Assim, o direito à vida somente poderia estar mesmo elencado como o primeiro do rol dos direitos fundamentais do Estatuto (art. 7º), o que está em consonância com a previsão constitucional de in-violabilidade do direito à vida na Constituição (art. 5º e art. 227, este relacionado à criança, ao adolescente e ao jovem).
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Cap. II • Direitos fundamentais
Trata-se de direito fundamental homogêneo considerado como o mais ele-mentar e absoluto dos direitos, pois indispensável para o exercício de todos os demais. Não se confunde com sobrevivência, pois no atual estágio evolutivo, implica no reconhecimento do direito de viver com dignidade, direito de viver bem, desde o momento da formação do ser humano.2
Ao lado do direito à vida, desponta o direito à saúde, que é justamente a qualificação daquele primeiro direito. É dizer, não basta garantir o direito à vida, mas sim o direito à vida com saúde. Nesse contexto, o artigo 7º prevê a neces-sidade de “efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e
desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência”.
O meio para garantir o direito à vida e à saúde daquele que ainda vem ao mundo perpassa, necessariamente, por cuidados com a gestante, que é o veícu-lo da vida. Por isso, o capítuveícu-lo do Estatuto que trata do direito à vida e à saúde de crianças e adolescentes traz previsões relativas à gestante e ao seu atendi-mento hospitalar. O artigo 8º garante o acesso aos programas e às políticas de saúde da mulher e de planejamento reprodutivo. Além disso, a gestante tem o direito a uma nutrição adequada e atenção humanizada à sua gravidez, ao parto de forma a englobar o atendimento pré-natal, perinatal e pós-natal, através do Sistema Único de Saúde (CR, art. 198).
Confira-se a integralidade do artigo 8º:
Art. 8º É assegurado a todas as mulheres o acesso aos programas e às po-líticas de saúde da mulher e de planejamento reprodutivo e, às gestantes, nutrição adequada, atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao puer-pério e atendimento pré-natal, perinatal e pós-natal integral no âmbito do Sistema Único de Saúde.
§ 1º O atendimento pré-natal será realizado por profissionais da atenção primária.
§ 2º Os profissionais de saúde de referência da gestante garantirão sua vinculação, no último trimestre da gestação, ao estabelecimento em que será realizado o parto, garantido o direito de opção da mulher.
§ 3º Os serviços de saúde onde o parto for realizado assegurarão às mu-lheres e aos seus filhos recém-nascidos alta hospitalar responsável e con-trarreferência na atenção primária, bem como o acesso a outros serviços e a grupos de apoio à amamentação.
§ 4º Incumbe ao poder público proporcionar assistência psicológica à ges-tante e à mãe, no período pré e pós-natal, inclusive como forma de preve-nir ou minorar as consequências do estado puerperal.
§ 5º A assistência referida no § 4o deste artigo deverá ser prestada tam-bém a gestantes e mães que manifestem interesse em entregar seus filhos
2. AMIN, Andréa Rodrigues. In: MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade. op. cit., p. 32 (grifos do original).
para adoção, bem como a gestantes e mães que se encontrem em situação de privação de liberdade.
§ 6º A gestante e a parturiente têm direito a 1 (um) acompanhante de sua preferência durante o período do pré-natal, do trabalho de parto e do pós-parto imediato.
§ 7º A gestante deverá receber orientação sobre aleitamento materno, alimentação complementar saudável e crescimento e desenvolvimento in-fantil, bem como sobre formas de favorecer a criação de vínculos afetivos e de estimular o desenvolvimento integral da criança.
§ 8º A gestante tem direito a acompanhamento saudável durante toda a gestação e a parto natural cuidadoso, estabelecendo-se a aplicação de cesariana e outras intervenções cirúrgicas por motivos médicos.
§ 9º A atenção primária à saúde fará a busca ativa da gestante que não ini-ciar ou que abandonar as consultas de pré-natal, bem como da puérpera que não comparecer às consultas pós-parto.
§ 10. Incumbe ao poder público garantir, à gestante e à mulher com filho na primeira infância que se encontrem sob custódia em unidade de privação de liberdade, ambiência que atenda às normas sanitárias e assistenciais do Sistema Único de Saúde para o acolhimento do filho, em articulação com o sistema de ensino competente, visando ao desenvolvimento integral da criança.
Uma gestação adequada previne doenças e permite o desenvolvimento sa-dio do feto, de maneira que o recém-nascido terá melhores condições de vida.
A gestante possui amplo rol de garantias para uma gestação saudável e para um parto que respeite a dignidade desse momento especial e importante no ciclo da vida. O § 4° do artigo 8° prevê o dever de prestar assistência psico-lógica durante a gestação e após o parto, com os olhos voltados à prevenção do estado puerperal. O objetivo, logicamente, é preservar a vida e a saúde do recém-nascido.
Após dispor sobre aspectos pertinentes ao nascimento com vida e dar aten-ção especial à gestaaten-ção e ao parto, o Estatuto impõe ao Poder Público e aos em-pregadores da iniciativa privada o dever de proporcionar condições adequadas para o aleitamento materno:
Art. 9º O poder público, as instituições e os empregadores propiciarão con-dições adequadas ao aleitamento materno, inclusive aos filhos de mães submetidas a medida privativa de liberdade.
É dever dos profissionais das unidades primárias de saúde desenvolver ações para promoção e apoio ao aleitamento materno e à alimentação saudável (§ 1º). Por fim, os serviços de unidade de terapia intensiva neonatal devem dis-por de banco de leite ou unidade de coleta (§ 2º).
No âmbito do direito do trabalho, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) também prevê o direito de aleitamento à empregada:
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Cap. II • Direitos fundamentais
Art. 396. Para amamentar o próprio filho, inclusive se advindo de adoção, até que este complete 6 (seis) meses de idade, a mulher terá direito, du-rante a jornada de trabalho, a 2 (dois) descansos especiais, de meia hora cada um. Parágrafo único. Quando o exigir a saúde do filho, o período de 6 (seis) meses poderá ser dilatado, a critério da autoridade competente.
A redação do artigo 396 da CLT foi dada pela Lei n. 13.509/2017 – mais es-pecificamente, o dispositivo foi alterado para incluir o direito à amamentação em caso de filho advindo de adoção. É possível que o leitor estranhe a regra à primeira vista, uma vez que a mãe adotiva não produz leite materno, justamente por não ter engravidado. A mensagem do legislador aqui é muito interessante, porque amplia a preocupação para além do ato de nutrição em si. A amamenta-ção do filho adotivo, garantido na CLT, tem como objetivo o desenvolvimento do afeto, do laço mãe-filho. O momento da amamentação, seja de peito ou de ‘fór-mula’, é de grande intimidade e conexão entre ambos; portanto, indispensável tanto para a mãe biológica, quanto para a mãe adotiva.
Como se vê, os diferentes dispositivos caminham na mesma direção, que é a de garantir o adequado desenvolvimento do recém-nascido durante os pri-meiros meses de vida.
O direito alcança, inclusive, mães submetidas a medidas privativas de liber-dade, direito fundamental garantido também na Constituição da República (art. 5º, inc. L). O que se está a garantir é o direito à saúde e ao desenvolvimento sadio da criança, ou seja, o direito não é da mãe, mas sim do filho.
A Lei do Sinase, Lei nº 12.594/2012, reforçou tal garantia ao prever que de-vem ser proporcionadas condições adequadas à mãe-adolescente para ama-mentar seu filho. É o que estabelece o § 2º do artigo 63: “Serão asseguradas as
condições necessárias para que a adolescente submetida à execução de medida socioeducativa de privação de liberdade permaneça com o seu filho durante o pe-ríodo de amamentação.”
O capítulo do Estatuto sobre o direito à vida e à saúde se encerra com o ar-tigo 14, que trata da assistência médica e odontológica, a ser prestada pelo SUS com foco específico em doenças e enfermidades que afetam a população mais jovem. A atuação é notadamente preventiva, tanto que o § 1º prevê a vacinação como obrigatória. Os parágrafos 2º e 3º se ocupam da atenção odontológica, para prever um amplo cuidado bucal.
O § 5º tem como foco a detecção prematura de possíveis riscos ao desen-volvimento psíquico da criança. O objetivo da norma é trabalhar com precaução para identificar possíveis problemas e estabelecer parâmetros de atuação que minimizem riscos ou, ainda, que sejam desenvolvidos trabalhos específicos para superação de problemas futuros.
2.1. Substituição da prisão preventiva pela domiciliar
Questão marcante e recente no Judiciário brasileiro diz respeito à possibili-dade de substituição da prisão preventiva pela prisão domiciliar.
O Código de Processo Penal autoriza a substituição da prisão preventiva pela domiciliar quando a mulher possui filho de 12 anos incompletos, crianças (art. 318, inc. V). A previsão tem origem nas Regras de Bangok – Regras das Na-ções Unidas para o tratamento de mulheres presas e medidas não privativas de liberdade para mulheres infratoras, de 2010.
A regra foi introduzida no CPP em 2016 e, desde então, tem suscitado inúme-ros Habeas Corpus, razão por que há diversos casos julgados pelo STJ a respeito da matéria.
Em um dos casos, o a Corte examinou a situação da paciente que, presa por participação em organização criminosa, pleiteou a substituição da prisão preventiva por prisão domiciliar, ao argumento de que tinha filho menor de 12 anos, ou seja, criança. Na instância de origem, o Habeas Corpus fora negado ao argumento de que a criança não precisava dos cuidados maternos. O STJ refor-mou a decisão por entender que a manutenção da prisão exigiria fundamenta-ção concreta. Confira-se:
3. Examinando a decisão judicial atacada, vê-se como descabida a dis-cussão de necessidade dos cuidados maternos à criança, pois condição legalmente presumida, e não devidamente justificada a insuficiência da cautelar de prisão domiciliar. Ao contrário, consta dos autos que a pacien-te é mãe de filho menor de 12 anos de idade, de modo que, conforme entendimento pessoal, o excepcionamento à regra geral de proteção da primeira infância pela presença materna exigiria específica fundamentação concreta, o que não se verifica na espécie, evidenciando-se a ocorrência de constrangimento ilegal.
4. Recurso em habeas corpus provido para a substituição da prisão preven-tiva da paciente KATIA SILVA por prisão domiciliar, sem prejuízo de determi-nação de outras medidas diversas de prisão, por decisão fundamentada. (RHC 103.051/MG, Rel. Min. Nefi Cordeiro, 6ª Turma, julgado em 27/11/2018, DJe 05/12/2018)
Para manutenção da prisão cautelar em detrimento da prisão domiciliar é preciso fundamentação específica do juízo. Confira-se:
2. Apresentada fundamentação concreta para a decretação da prisão pre-ventiva, evidenciada na gravidade do delito, haja vista que o crime contra a vítima foi cometido por motivo fútil, uma vez que a mesma começou a discutir com seu companheiro por motivos banais e na discussão passou a ameaçá-lo, dizendo que iria matá-lo. Com isso, sacou de um revolver e disparou contra o mesmo, no entanto, este se esquivou e acertou a vítima Andressa que estava sentada do lado e no fato de a recorrente ter fugido do local do crime e não se sabe o seu paradeiro, não há que se falar em ilegalidade.
3. Havendo a indicação de fundamentos concretos para justificar a custódia cautelar, não se revela cabível a aplicação de medidas cautelares alterna-tivas à prisão, visto que insuficientes para resguardar a ordem pública.
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4. Ainda que a paciente seja mãe de filho menor de 12 anos, a substitui-ção da prisão preventiva pela domiciliar foi negada com fundamento em situação excepcional, nos termos do HC n. 143.641/SP, evidenciada no fato de que praticou crime com violência, inclusive em ambiente familiar, não há manifesta ilegalidade.
5. Não demonstrado o preenchimento dos requisitos previstos no art. 318, III, do CPP, tendo em vista que esta refere à criança menor de 6 anos e a recorrente alega que possui três filhos menores, com 15, 12 e 7 anos de idade, não há ilegalidade.
6. Recurso em habeas corpus improvido.
(RHC 101.367/SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, 6ª Turma, julgado em 06/11/2018, DJe 26/11/2018)
3. IDENTIFICAÇÃO ADEQUADA
O artigo 10 do Estatuto possui a seguinte redação:
Art. 10. Os hospitais e demais estabelecimentos de atenção à saúde de gestantes, públicos e particulares, são obrigados a:
I – manter registro das atividades desenvolvidas, através de prontuários individuais, pelo prazo de dezoito anos;
II – identificar o recém-nascido mediante o registro de sua impressão plan-tar e digital e da impressão digital da mãe, sem prejuízo de outras formas normatizadas pela autoridade administrativa competente;
III – proceder a exames visando ao diagnóstico e terapêutica de anorma-lidades no metabolismo do recém-nascido, bem como prestar orientação aos pais;
IV – fornecer declaração de nascimento onde constem necessariamente as intercorrências do parto e do desenvolvimento do neonato;
V – manter alojamento conjunto, possibilitando ao neonato a permanência junto à mãe.
VI – acompanhar a prática do processo de amamentação, prestando orien-tações quanto à técnica adequada, enquanto a mãe permanecer na unida-de hospitalar, utilizando o corpo técnico já existente.
Esse dispositivo regula precipuamente a adequada identificação dos recém--nascidos e de suas genitoras, a fim de evitar a troca de identidades. Inclusive, os artigos 228 e 229 do Estatuto preveem como crime as condutas omissivas daqueles deixam de cumprir esse dispositivo. Os prontuários das atividades de-senvolvidas devem ser individuais e mantidos pelo prazo de 18 anos (art. 10, I). Dentre os documentos referentes à identificação do recém-nascido, desta-ca-se a declaração de nascido vivo, DNV (art. 10, inc. IV), pois possibilita à genito-ra registgenito-rar o recém-nascido no registro civil de pessoas natugenito-rais. Além disso, é documento de que sempre se vale o Judiciário no procedimento de regularização de registro civil (art. 102).
De forma pouco sistemática, artigo 10 foi acrescido do inciso VI pela Lei n. 13.436/2017 para destacar um trabalho importante a ser realizado nos hospitais e estabelecimentos de saúde, as orientações acerca da amamentação. A regra estaria melhor colocada no artigo 8º, que trata dos cuidados com a saúde de gestantes e mulheres, tendo como consequência a ampla proteção do direito à vida e à saúde do recém-nascido. De qualquer forma, a regra em si é importante e deve ser observada pelos estabelecimentos de saúde.
Trata-se do dever de acompanhar a prática do processo de amamentação e de prestar orientações quanto à técnica adequada. Não há dúvidas quanto à importância do aleitamento materno tanto para a saúde do bebê e seu desen-volvimento sadio, quanto para a criação de laços mais estreitos de afeto entre mãe e filho. Entretanto, as primeiras amamentações não são tão simples, nem sempre o bebê consegue uma ‘pega’ adequada para sucção. Não se trata aqui de impossibilidade de amamentar pela mãe, mas tão somente de identificar a forma correta de fazê-lo, conhecimento este que os profissionais desses esta-belecimentos de saúde dominam amplamente. Daí a importância do dispositivo legal para tornar obrigatório o acompanhamento e as instruções pertinentes. 4. MAUS-TRATOS, CASTIGO FÍSICO E TRATAMENTO CRUEL OU DEGRADANTE –
COMUNICA-ÇÃO AO CONSELHO TUTELAR
A violência contra a criança e o adolescente pode tomar diversas formas. O Estatuto regula a matéria com a previsão de que a criança e o adolescente devem ser protegidos contra casos de suspeita ou confirmação de castigo físico, tratamento cruel ou degradante e maus-tratos (art. 13). Comumente tais formas de violência surgem no âmbito familiar, praticados lamentavelmente por aqueles que exercem o poder familiar – pai, mãe, padrasto e madrasta. Podem ocor-rer também em locais frequentados pela criança ou adolescente, como creche, escola, projeto beneficente, paróquia religiosa, local de trabalho etc. Qualquer que seja o local ou o agressor, é necessária a comunicação ao Conselho Tutelar para adoção de providências (art. 13). Inclusive, o Estatuto define como infração administrativa a não-comunicação de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente, quando se tratar de médico, professor ou res-ponsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche (art. 245).
A redação original do artigo 13 se referia apenas a maus-tratos e sua am-pliação para a redação atual foi fruto do advento da Lei n. 13.010/2014, que ficou popularmente conhecida como Lei da Palmada ou Lei Menino Bernardo.
5. PREOCUPAÇÃO COM ENTREGA DA CRIANÇA À ADOÇÃO
O Estatuto possui como diretriz a preservação da família natural. Ao longo do diploma legal, há diversos dispositivos que materializam esse princípio. Dois deles são o parágrafo 5º do artigo 8º e o parágrafo primeiro do artigo 13.
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Cap. II • Direitos fundamentais
O parágrafo 5° do artigo 8º estabeleceu a necessidade do acompanhamento psicológico à mãe que externa seu desejo de entregar seu filho à adoção: “A
assistência referida no § 4º deste artigo deverá ser prestada também a gestantes e mães que manifestem interesse em entregar seus filhos para adoção, bem como a gestantes e mães que se encontrem em situação de privação de liberdade.”
É possível o encaminhamento da gestante/mãe para atendimento especia-lizado na rede pública de saúde ou via assistente social. Se ainda assim a ges-tante/mãe não quiser criar seu filho, faz-se o encaminhamento para adoção. O procedimento a ser adotado pelo Juizado da Infância e da Juventude nesses casos está regulado pelo artigo 19-A.
Na mesma linha principiológica, o parágrafo 1º do artigo 13 estabelece que a mulher que demonstrar interesse em entregar seu filho para adoção deve ser encaminhada à Justiça da Infância e da Juventude, para que seja devidamente orientada e auxiliada: “As gestantes ou mães que manifestem interesse em entregar
seus filhos para adoção serão obrigatoriamente encaminhadas, sem constrangimen-to, à Justiça da Infância e da Juventude.”
O objetivo é buscar a preservação da família natural. O não encaminhamen-to da mulher à auencaminhamen-toridade judiciária pelo médico, enfermeiro ou dirigente de estabelecimento de saúde caracteriza infração administrativa, prevista no artigo 258-B.
O objetivo dessas normas é combater o puro e simples abandono de crian-ças recém-nascidas à própria sorte – na rua, em terreno baldio, na porta de hospital etc. O acompanhamento da gestante e da mãe que acabou de ter o bebê preserva a vida e a saúde da criança, além de preservar, frequentemente, os laços maternos. A doutrina explica:
Se as dificuldades são de ordem social, o encaminhamento para o SUS pode bastar. Se as dúvidas são em relação à capacidade de criar o filho, não raro sozinha, o acompanhamento e “capacitação” da mãe podem se mostrar suficientes. Mas, se apesar dos esforços das equipes de apoio das unidades de saúde e da rede social a genitora se mantiver firme no pro-pósito de entregar o filho em adoção, todo o processo e as consequências de sua decisão deverão lhe ser passadas, propiciando uma manifestação de vontade consciente.3
6. DIREITO À LIBERDADE, AO RESPEITO E À DIGNIDADE
O segundo rol de direitos fundamentais contém previsões acerca da liberda-de, do respeito e da dignidaliberda-de, e estão previstos nos artigos 15 a 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Há nítida relação entre o rol do Estatuto e as ga-rantias fundamentais previstas na Constituição da República (art. 1º, inc. III, art. 5º, caput). Os artigos 16, 17 e 18 abordam separadamente cada um dos direitos
enumerados no art. 15. Liberdade, respeito e dignidade da pessoa humana são valores sociais que permeiam todo o sistema jurídico, da Constituição a atos normativos de menor hierarquia.
O direito de liberdade é a faculdade de agir como melhor lhe aprouver, exceto pelas restrições referentes aos direitos dos demais membros da socie-dade. A Constituição da República é clara a esse respeito, pois estabelece que
“ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (art. 5º, inc. II).
O artigo 16, em rol exemplificativo, destrincha o conteúdo do direito à liber-dade, que compreende os seguintes direitos:
Direito de liberdade
– direito de ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais;
– direito de opinião e expressão; – direito de crença e culto religioso;
– direito de brincar, praticar esportes e divertir-se;
– direito de participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação; – direito de participar da vida política, na forma da lei;
– direito de buscar refúgio, auxílio e orientação.
As previsões acerca do direito de liberdade não se esgotam no artigo 16 do Estatuto, pois há diversos outros dispositivos que tutelam e restringem aspectos referentes à liberdade, como o ingresso e permanência em shows e casas de espetáculo (arts. 74 a 76), a autorização para viajar (arts. 83 a 85) e, com maior destaque, a privação de liberdade em caso de prática de ato infracional (art. 106).
Por sua vez, o artigo 17 prevê o direito ao respeito, que “consiste na
in-violabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.”
Direito ao respeito Inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral para preservação de – imagem – identidade – autonomia – valores – ideias e crenças – espaços – objetos pessoais
A partir desse rol, é possível extrair que o direito ao respeito de que trata o Estatuto guarda relação com os direitos da personalidade. A proteção ao direito de imagem de crianças e adolescentes aparece dentro do Estatuto na forma de tipificação de crime e infração administrativa para quem viola essa direito infan-to-juvenil. A tutela se espraia também para a regulação da aparição de crianças e adolescentes em shows, filmes, desfiles e eventos festivos.