PRESTÍGIO E POBREZA: O DIA DO PROFESSOR NA HISTÓRIA DA PROFISSÃO DOCENTE (1945 - 64)
Paula Perin Vicentini
Faculdade de Educação - USP O presente texto propõe-se a examinar as representações acerca da profissão docente veiculadas entre 1945 e 1964 na grande imprensa paulista a propósito do Dia do Professor, tendo em vista o significado dessa comemoração no âmbito do processo de profissionalização do magistério. Tal análise faz parte da pesquisa desenvolvida em nível de doutorado com o financiamento da FAPESP, Imagens e Representações na
História da Profissão Docente no Brasil: Imprensa Periódica Educacional e Jornais de Circulação Diária, cujo objetivo é investigar a imagem social do professorado no Brasil, detendo-me nos casos do Rio de
Janeiro, do antigo Distrito Federal (transformado no estado da Guanabara em 1960) e de São Paulo. Estruturada em torno do exame de duas fontes distintas, tal pesquisa envolve o confronto entre as representações (na concepção de Chartier) relativas à profissão divulgadas pelos periódicos das entidades representativas de diferentes segmentos da categoria - o professorado primário e o secundário - e por jornais sem vínculo direto com o campo educacional, a fim de investigar as relações entre estas duas instâncias na produção da imagem social dos docentes. Assim, pretende-se apreender tanto a forma pela qual os professores desses dois níveis de ensino se definiam como categoria profissional, quanto o modo como jornais de perfis distintos os retratavam, localizando indícios sobre diferentes modos de construir as imagens do magistério. No caso de São Paulo, optou-se pela análise dos dois principais jornais do estado na atualidade - O Estado de S. Paulo (fundado em 1875 como A Província de S. Paulo) e a Folha de S. Paulo/Folha da
Manhã (1925-60) - e do matutino da empresa de Assis Chateaubriand, o Diário de S. Paulo (1929), que
publicava a coluna Educação e Ensino, de Elisiário Rodrigues de Sousa, cuja repercussão junto ao magistério era bastante expressiva. Pertencente à família Mesquita, O Estado constitui o jornal mais tradicional da grande imprensa paulista e caracteriza-se pela defesa “dos postulados liberais” e pela pretensão de formar a “opinião pública” (Capelato e Prado, 1980, p. XIX). Já o grupo Folhas editava uma versão matutina “com uma linguagem mais sóbria”, destinada aos pequenos comerciantes e aos profissionais liberais e uma versão vespertina (a Folha da Noite) “mais popular, (...) para a classe trabalhadora”, cuja fusão em 1960 resultou na
Folha de S. Paulo que, segundo Cohn e Hirano, ampliou significativamente o seu público após passar por
uma reestruturação que alterou o seu sistema de impressão e distribuição, tornando-se, em 1963, o jornal de “maior circulação paga no Brasil”.
Tais jornais foram examinados de 10 a 17 de outubro de cada ano, num procedimento semelhante ao empregado por Ferreira (1998) em seu trabalho sobre o “lugar social do professor” na cidade do Rio de Janeiro com base no estudo do Jornal do Brasil entre 1940-92. Tal estratégia foi adotada para permitir que o estudo contemplasse um período mais longo e o exame do material acabou por revelar que, no caso de São
Paulo, a existência de um dia dedicado ao professorado foi fruto de uma luta da categoria e, após a sua instituição, a sua celebração em 15 de outubro foi ganhando projeção e assumiu um significado especial para a análise da imagem social do magistério no Brasil. Entretanto, tal comemoração foi objeto de um discurso ambíguo quanto à recompensa simbólica e financeira da profissão, pois ora se afirmava a necessidade de uma celebração desse gênero, ora se desqualificava a mesma apontando o vazio das “belas palavras” dedicadas ao professor nesta data tendo-se em conta a sua baixa remuneração. No período marcado pela expansão da rede de ensino paulista e pela desvalorização salarial do magistério devido à alta do custo de vida, a análise da instituição do Dia do Professor e do modo pelo qual a data ganhou projeção permite identificar diferentes formas de celebração e representação social da categoria e, assim, apreender aspectos relevantes do processo de afirmação da profissão docente em momentos distintos de sua história.
Assim, as associações representativas de diversos segmentos do magistério - oficial e particular, secundário e normal, entre outros - empenharam-se para que o Dia do Professor fosse oficializada - o que ocorreu em nível estadual em 1948 e em nível federal nos anos 50 - embora haja informações de que a data fosse celebrada desde 1933 no Instituto de Educação do Rio de Janeiro (Ferreira, 1998, p. 28). A primeira notícia localizada a esse respeito sugere que, em São Paulo, a principal escola normal do estado também celebrava a data antes do seu reconhecimento oficial, pois a Folha da Manhã descreveu a sessão comemorativa, chamada de “festa da saudade”, realizada no auditório da Escola Caetano de Campos em 15/10/1946, na qual as alunas prestaram homenagem aos diretores e professores aposentados e aos diplomados em 1895-96. Em 1947, O Estado de S. Paulo noticiou as atividades da “comissão (...) pró-oficialização do Dia do Professor”, sem explicitar o processo de sua formação. A comissão procurou divulgar a comemoração junto à imprensa, à rádio, às autoridades escolares e parlamentares e recebeu a adesão do Sindicato do Ensino Primário e Secundário, do Sindicato do Ensino Comercial, da Associação dos Professores do Ensino Secundário e Normal Oficial do Estado de São Paulo (APESNOESP), fundada em 1945, da União Paulista de Educação (UPE), presidida por Sólon Borges dos Reis, e da Sociedade Beneficente de Professores e Auxiliares de Administração, sem nenhuma menção ao Centro do Professorado Paulista (CPP), criado em 1930. Segundo O Estado, a comissão solicitou que o dia 15 de outubro fosse considerado feriado escolar - o que também foi reivindicado pelo Sindicato dos Professores Secundários de Campinas através de um telegrama enviado à Assembléia Legislativa. Esta entidade realizou uma missa, um almoço, uma romaria ao Cemitério da Saudade para reverenciar os professores falecidos - o que passou a ser uma tradição nos anos subsequentes - e a UPE fez um “apelo ao povo”
"no sentido de que cada cidadão dedique um instante desse dia do mestre, ao professor ou professora, que lhe ensinou as primeiras letras, ou que maior influência haja exercido na formação de sua personalidade. Aqueles que desejam atender este apelo da União Paulista de Educação, prestigiando o trabalho de educadores (...), deverão fazer uma visita ou escrever uma carta ao seu antigo mestre. No
caso do professor já ter falecido, a homenagem poderá ser prestada através de um prece em sua memória”. 1
Em 1948, o governador Adhemar de Barros declarou feriado escolar “a data de 15 de outubro, considerada o Dia do Professor” (lei nº 174, de 13/10/48), ressalvando que esta medida não atingia as escolas secundárias, cujo funcionamento era regido pela legislação federal. No mesmo ano, segundo o Diário de S.
Paulo, “o Departamento de Educação recomendou aos Delegados de Ensino, Diretores de Ginásios,
Colégios e Escolas Normais, as providências necessárias no sentido de se dar um cunho solene às festividades do dia”, lembrando que seria oportuno “colocar em relevo a dedicação do mestre-escola (...), bem como a missão elevada do professor na formação moral e espiritual da infância, do adolescente e do adulto”. Para tanto, deveriam “ser realizados trabalhos escritos acerca do assunto, nas classes adiantadas dos grupos escolares e em todos estabelecimentos de ensino, enviando a melhor prova ao Departamento”. A partir de então, começaram a surgir notícias sobre as solenidades organizadas por grupos escolares, escolas normais, ginásios e colégios, as quais se tornaram cada vez mais freqüentes e contavam com “sessões lítero-musicais”, missas, conferências, homenagens a velhos mestres ou ao patrono do estabelecimento de ensino mediante a entrega de medalhas e de “diplomas de honra”.2
Ao relatar os festejos que, pela primeira vez, tiveram caráter oficial em São Paulo, a Folha destacou a cerimônia organizada pela Liga do Professorado Católico e o almoço promovido pelo SESI numa de suas cozinhas distritais, ao qual compareceram cerca de 100 professores e várias autoridades. Tanto a Liga quanto o SESI sobressaíram-se como as primeiras entidades que realizaram atividades em homenagem ao Dia do Professor e que, durante o período estudado, acabaram por se tornarem tradicionais. O SESI caracterizou-se pela realização de um almoço-homenagem aos professores de seus cursos populares que merecia ampla cobertura da grande imprensa em matérias com fotos do evento. Rodrigues de Sousa, em sua coluna no
Diário, louvou a iniciativa como um exemplo a ser seguido, lembrando que o SESI “tem dispensado cada
vez mais carinho à missão dos professores”. Já a Liga do Professorado Católico (criada em 1919) comemorava, todos os anos, o Jubileu de Ouro dos professores formados há 50 anos numa solenidade, descrita pel’O Estado em 1956, sob o título de “Meio século de Apostolado”. Nessa matéria, o jornal informou que os católicos celebravam o dia de Santa Teresa de Jesus, considerada “padroeira dos professores”, por corresponder à data de sua morte (4/10/1582) após a mudança do calendário. Mas segundo uma nota distribuída pelo CPP em 1953, a escolha do Dia do Professor devia-se a um fato da história da
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“Dia do Professor”. Folha da Manhã, 17/10/1946, Segundo caderno, p. 6. “Dia do Professor”. O Estado de S. Paulo, 12/10/1947, p. 12. “Dia do Professor: as comemorações de amanhã na capital”. O Estado de S. Paulo, 14/10/1947, p. 7. “Campinas: Comemorações do Dia do Professor”. Folha da Manhã, 15/10/1947, Segundo caderno, p. 4. Cabe notar que, na
Revista do Professor (1934-65), editada pelo CPP, não foi localizada nenhuma referência à comemoração anterior à
nov/1950.
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“Governo do Estado: feriado escolar”. Folha da Manhã, 14/10/1948, Segundo caderno, p. 5. “Instruções sobre o Dia do Professor”. Diário de S. Paulo, 13/10/1948, Primeiro caderno, p. 6.
educação brasileira, pois em 15/10/1827 o Senado do Império criou os cursos primários no Brasil e designaram um vigário para as paróquias existentes no Brasil, taxando os honorários do professor entre 200$000 e 500$000 anuais. A nota deixou entrever um certo saudosismo quanto ao salário docente no Império, dizendo que com este valor “vivia o mestre-escola, a sua vida trabalhosa e honesta” e louvou a associação da Igreja e da escola na sociedade brasileira que constituíam “as duas maiores forças vivas de nossa nacionalidade.”3
Após o reconhecimento oficial, o Estado, ora se esforçando para “abrilhantar” os festejos em homenagem ao magistério, ora deixando a data cair no esquecimento, fez com que o Dia do Professor tivesse diferentes significados no âmbito da luta da categoria por melhores vencimentos e maior prestígio social. Em nível estadual, além das providências tomadas na primeira gestão de Adhemar de Barros em prol da celebração da data, a Chefia do Ensino Primário do Departamento de Educação, no governo de Nogueira Garcez, recomendou que a data fosse “lembrada com carinho pelos escolares paulistas, levando-os a externarem de maneira espontânea seus sentimentos de respeito e gratidão a esses incansáveis batalhadores da causa educacional, na pessoa de seu primeiro mestre”. 4 Em 1960, foi criado o título de Mestre do Ano,
entregue ao então governador Carvalho Pinto - ao qual alguns jornais chamavam de professor - num grande evento promovido no Ibirapuera. Em 1961, Dorina Gouveia Nowill, deficiente visual e presidente da Fundação do Livro do Cego no Brasil, foi escolhida a Mestra do Ano por uma “comissão especial de representantes de entidades de classe do magistério e da Secretaria da Educação”. Sem ter sido realizada em 1962, último ano do mandato de Carvalho Pinto, a entrega desse título voltou a cena em 1963 - ano da primeira greve do magistério paulista - durante o qual se reverenciou aos professores mais velhos do estado. 5 Em nível federal, foi decretado feriado escolar em todos estabelecimentos de ensino do território nacional no Dia do Professor em 1954, 1956, 1958, 1959 e 1963. A União em 1951 divulgou instruções para a celebração da data, dizendo que o mestre - “símbolo da educação e da cultura de qualquer país” - era o principal responsável pelo “engrandecimento nacional (...) expressão do valor de um povo o culto a seus educadores, guias do espírito da juventude”. Em 1956, o Ministro da Educação lançou um concurso entre
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“Significativas solenidades assinalaram ontem o transcurso do Dia do Professor”. Folha da Manhã, 16/10/1948, Primeiro caderno, p. 3. SOUSA, E. R. de “Comemorações do Dia do Professor”. Diário de S. Paulo, 13/10/1957, Primeiro caderno, p. 10. “Meio século de apostolado”. O Estado de S. Paulo, 16/10/1956, p. 13. “Aprovado na Assembléia projeto que modifica o sistema de concurso de remoção do ensino primário”. Folha da Manhã, Administração e ensino, 15/10/1953, Assuntos especializados, p. 8.
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“Comemorações do Dia do Professor”. Diário de S. Paulo, 11/10/1951, Primeiro caderno, p. 6. Convém dizer aqui que, além de ter sido interventor do estado de São Paulo entre 1938 e 1941, Adhemar de Barros ocupou o cargo de governador eleito do estado em duas ocasiões: 1947-50 e 1963-65.
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“Enaltecido o magistério com a homenagem ao Mestre do Ano”. Folha de S. Paulo, 16/10/1960,p. 15. “A Mestra do Ano receberá seu título depois de amanhã. Dorina Gouveia Nowill”. Folha de S. Paulo, Educação, 12/10/1961, p. 8. “Prof. Oton de Albuquerque é um dos mestres do anos”. Folha de S. Paulo, 13/10/1963, p. 12. “Homenagem do Professorado”. Folha de
professores do ensino médio sobre a didática especial da sua disciplina, cujo prêmio seria um estágio de três meses no Centro Internacional de Sevrès (França) que se manteve até 1959.6
Afora os festejos oficiais, as associações docentes também organizavam atividades a fim de celebrar o Dia do Professor. Além da Liga do Professorado Católico, o CPP a partir de 1950 passou a realizar sessões solenes de grande vulto; a APESNOESP - que até 1956 organizou em conjunto com a Associação dos Docentes do Ensino Industrial e Agrícola (ADEIA) e a Secretaria Municipal da Cultura sessões artísticas - passou a promover uma “reunião-almoço” da qual participaram inicialmente 100 professores e o Sindicato dos Professores do Ensino Secundário e Primário de São Paulo entregava pergaminhos como símbolo de uma “distinção de ouro”. Assim, a comemoração do Dia do Professor caracterizou-se pelo culto ao primeiro mestre, aos professores mais velhos e aos já falecidos, contribuindo para constituir a memória coletiva (Pollak, 1989) do magistério mediante a homenagem aos profissionais dignos de distinção no interior da categoria e a exaltação dos valores que indicavam o pertencimento ao grupo. Além da preocupação com os profissionais doentes (com tuberculose, hanseníase etc.), a principal marca dessas comemorações era a exaltação da abnegação, da dedicação e do sacrifício que marcavam a vida dos membros do magistério, numa tentativa de lembrar profissionais geralmente esquecidos e anônimos que, no dizer de Rodrigues de Sousa, “são milhares que vivem e sofrem a sua vida de sacrifícios, nas quatro paredes da sala de aula, sem jamais perder a fé, o entusiasmo, a paciência e o amor com que alicerçam a sua obra educativa.” Para reverenciar estes profissionais anônimos, o colunista do Diário instituiu a tradição de homenagear os seus mestres por ocasião do Dia do Professor, sobressaindo-se o caráter afetivo desse tipo de homenagem.7
Por outro lado, a partir do final dos anos 50 a celebração do Dia do Professor para algumas associações docentes passaram a ter uma conotação de protesto contra a política governamental em relação à categoria, envolvendo também a recusa em participar das comemorações oficiais, a fim de explicitar a sua dissociação com relação ao Estado. Ao mesmo tempo que lutaram, na década de 40, para que a data fosse reconhecida oficialmente com o intuito de melhorar o estatuto profissional do magistério, as entidades representativas de diversos níveis do magistério, ao constatarem que os festejos oficiais não contavam com uma contrapartida material relativa à sua remuneração, passaram a utilizá-la para expressar as suas insatisfações sobretudo quanto a este aspecto, elegendo-a como marcos para as campanhas reivindicatórias ou como uma forma de protesto. Pode-se dizer, então, que instaurou-se entre o Estado e as associações docentes
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“Será comemorado solenemente nesta capital o Dia do Professor”. O Estado de S. Paulo, 15/10/1954, p. 12. “Festejado ontem o Dia do Professor”. O Estado de S. Paulo, 16/10/1956, p. 13. “Dia do Professor”. Folha da Manhã, 14/10/1959, p. 8. “Novas possibilidades de registro do diploma de licenciados em filosofia”. Folha da Manhã, Ensino e Magistério, 10/10/1958, Assuntos Especializados, p. 5. “Goulart decretou feriado escolar no Dia do Professor”. O Estado de S. Paulo, 11/10/1963, p. 7. “Dia do Professor no Distrito Federal”. Diário de S. Paulo, 10/10/1951, Primeiro caderno, p. 6. “Criticada na Assembléia Legislativa a indiscriminada criação de escolas médias”. Folha da Manhã, Ensino e Magistério, 12/10/1956, Assuntos especializados, p. 17. “Dia do Professor: melhor remuneração para a classe”. Folha da Manhã, 17/10/1959, Primeiro caderno, p. 6.
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uma disputa para apropriar-se da comemoração e atribuir-lhe diferentes sentidos tanto para o movimento docente quanto para a imagem social dos professores. O discurso veiculado na grande imprensa sobre o significado do Dia do Professor para o estatuto profissional do magistério girava em torno da recompensa simbólica e financeira do trabalho docente, oscilando entre a total vinculação entre estes dois aspectos e a desqualificação das atividades que integravam a sua celebração. Ao comentar a oficialização do Dia do Professor, Rodrigues de Sousa interpretou o ato do governador de São Paulo como um sinal de que o Estado pretendia “colocar o professor na posição que de justiça lhe cabe” a qual, ao seu ver, não se traduzia apenas numa “remuneração condigna”, mas também no “prestígio e o apreço a que fazem jus perante o poder público e o próprio povo.” Nessa perspectiva, a comemoração representaria uma oportunidade para que pais, alunos e autoridades expressassem a sua gratidão à categoria conferindo-lhe prestígio, assim como um modo dos professores alcançarem visibilidade para enaltecer a nobreza de sua missão.
Nos anos subsequentes, Elisiário Rodrigues de Sousa, em seus artigos sobre o Dia do Professor, tomava a projeção alcançada pela comemoração como indicativo do reconhecimento de diferentes esferas da sociedade quanto à importância do trabalho do magistério para o desenvolvimento nacional, queixando-se da negligência por parte dos poderes públicos e da população no tocante às homenagens à categoria. Cerca de um ano após a oficialização da data, o colunista do Diário alertou para a frustração do magistério com o impacto causado pela sua instituição, pois exceto “iniciativas isoladas das entidades de classe e (...) da direção do SESI, nada mais está sendo feito (...) para enaltecer a obra realizada pelo apostolado cívico do professor.” O colunista ressaltou, ainda, que a sua inclusão no “calendário cívico-escolar” não fora resultado de uma ação espontânea do Estado, mas sim fruto de uma campanha das associações docentes que contou com a colaboração da imprensa. Embora tenha dito que a maior recompensa para um professor era a amizade, a admiração e o progresso de seus alunos, Rodrigues de Sousa lamentou que os pais brasileiros não se preocupassem em homenagear os mestres e mencionou como exemplo a carta de um general americano que alertava para a responsabilidade dos pais em relação aos professores de seus filhos, inclusive quanto à remuneração de seu trabalho e ao prestígio que gozavam na sociedade.8
Em 1955, num tom bem mais enfático, o colunista referiu-se a expectativa de uma “nova era” para o magistério que havia sido criada com a oficialização do Dia do Professor e que foi totalmente frustrada pelo abandono em que foi relegada a categoria em decorrência do veto de Nogueira Garcez ao projeto de reajustamento de seus vencimentos no ano anterior e o anúncio de um abono de emergência pelo governador Jânio Quadros. Cabe observar que tal projeto foi enviado à Assembléia Legislativa em 15 de outubro de 1951, com base no estudo realizado por uma comissão constituída de representantes das associações docentes, levando a coluna do Diário a efetuar uma contagem regressiva para a chegada da data. Ele também
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criticou a caracterização da docência como um sacerdócio, lembrando que o professor necessitava de recursos financeiros para sobreviver. No dizer de Sousa, quando foi instituído o Dia do Professor,
"imaginaram os professores, na sua eterna e santa boa fé, revelando sensível ingenuidade, que novos rumos se abriam à vida do magistério (...). Todos quiseram ver naquelas atitudes o princípio de nova era, na qual o professor viesse a ocupar o lugar que de direito e por justiça lhe cabe no conceito dos homens do governo, dos dirigentes das classes conservadoras e das profissões liberais, e do próprio povo. Ouviam-se, amiúde, (...) expressões que bem definem o estado de espírito do professor, como esta: - 'Afinal, parece que estão querendo compreender o valor de nosso trabalho e o alcance da missão de educar'. Mas a realidade está aí para mostrar que as coisas não mudaram muito. O professorado (...) esquecido e abandonado à própria sorte. (...) É preciso esclarecer que não nos referimos apenas à situação econômica da classe. (...) Ouvimos falar, muitas vezes, (...) que o magistério é sacerdócio, é missão, é posto de sacrifício e de resignação. Por isso o professor precisa estar preparado para viver as penosas experiências que lhe imporá o missionarismo educativo. Com os olhos voltados para o sublime ideal de servir à Pátria, o mestre-escola deverá encontra forças para suportar todas as provações. Isso tudo é muito bonito para discursos e festas cívicas. Mas a vida é muito diferente, principalmente para os que se dedicam exclusivamente ao magistério e têm família para sustentar. O professorado paulista, na verdade, está vivendo um Dia do Professor meio desanimado e muito triste, porque percebe que todo o seu trabalho, todo o seu esforço, toda a sua dedicação não têm contribuído, na medida das necessidades para recolocar o magistério no seu devido lugar. Entretanto, nada lhe abaterá a fé e a confiança na sua obra."9
Ainda na gestão de Jânio Quadros, o colunista voltou a lamentar a falta de entusiasmo da categoria em 15 de outubro, atribuindo em 1957 tal estado de espírito não só as privações decorrentes da baixa remuneração, mas também ao “visível desapreço ou desinteresse da sociedade pela vida do professor”. Em 1959, Sousa expressou a sua indignação quanto ao fato do Dia do Professor continuar a ser uma “festa em família” e não ter conseguido assegurar o reconhecimento do Estado e da população quanto à importância da missão docente, ressaltando que nem o comércio havia se engajado na sua comemoração. Embora o colunista tenha dito que “as flores, beijos e até pequenos presentes” dos alunos constituíssem a maior alegria dos professores, ele observou que, com o decorrer do tempo, os mesmos acabavam por esquecer de reverenciá-los. Mesmo apontando o baixo salário como um fator determinante da falta de alegria dos professores para comemorar o seu dia, Sousa constantemente reiterava que este aspecto não era determinante da péssima situação da categoria, procurando dissimular o peso da recompensa financeira para o seu estatuto profissional. Contudo, os resultados obtidos em 1961 pelas campanhas salariais, promovidas pelo CPP (em conjunto com outras associações docentes) desde 1958, levaram o colunista a exaltar um “progresso sensível” na situação do magistério, pois a categoria ganhava “terreno a olhos vistos, ainda que sob o impulso de movimentos, campanhas e lutas sem tréguas, que têm exigido não poucos esforços e até alguns prenúncios de sacrifícios pessoais”. Desse modo, Sousa acabava por difundir os valores tidos como apropriados para o exercício do magistério, cuja vinculação ao apostolado - embora algumas vezes criticadas pelo colunista - constituía o traço principal da imagem que ele veiculava da docência. Assim, a hesitação em colocar em primeiro plano a retribuição econômica para a melhoria do estatuto profissional do professorado associava-se à descrição do
mestre como um ser modesto, simples e humilde, para quem o progresso e a estima de seus alunos consistiam na sua maior alegria. Além disso, a fé e o entusiasmo que o caracterizavam fazia com que o professor não se deixasse abater diante das provações e dos sacrifícios com os quais se defrontava ao longo de sua carreira.10
Numa perspectiva contrastante, a Folha, nos editoriais sobre o Dia do Professor, desqualificavam quase que completamente as atividades que constituíam a sua celebração (discursos, entrega de medalhas etc.), alegando que as mesmas eram destituídas de sentido face ao descaso do Estado quanto à situação do magistério. O jornal que criticava esta contradição, ironizando os discursos proferidos nessas ocasiões pelo uso de “lugares-comuns” para exaltar a profissão docente. Ao comentar a oficialização da data em 1948, a
Folha alertou para a necessidade de um plano para o desenvolvimento do ensino que, ao invés de permitir a
criação de escolas normais e ginásios em excesso ocasionando uma “superprodução de professores”, buscasse ampliar o curso primário e eliminar o tresdobramento do horário dos grupos escolares, sugerindo que, no futuro, a data se transformasse no Dia da Educação. Em 1951, quando os professores aguardavam que Garcez enviasse o projeto de reajustamento de seus vencimentos, sob especulações de que o aumento seria pago em duas parcelas, o editorial da Folha desqualificou as “bonitas frases” acerca do apostolado do magistério, dizendo que as mesmas já eram recebidas “com um sorriso sarcástico” pela categoria devido ao contraste com a ausência de medidas efetivas em prol da melhoria da sua “situação de patente e visível inferioridade, tanto no serviço público como no campo do ensino particular, em relação a outros profissionais de formação idêntica ou menos difícil.” A Folha praticamente retomou esta argumentação no comentário sobre o Dia do Professor em 1955, lembrando que, no ano anterior, os diversos setores do funcionalismo foram beneficiados, exceto o magistério devido ao veto de Garcez ao referido projeto e que, em 1955, Jânio Quadros anunciou um abono de emergência com um caráter “de favor do que como satisfação a um direito”:
“As comemorações do Dia do Professor (...) encontram o magistério em estado de espírito que não lhe permite receber com muito entusiasmo as homenagens que se anunciam. Se aos professores fosse dado pronunciar-se, certamente diriam que sessões solenes, desfiles, discursos, missas, medalhas de ouro etc. (...) é muito bonito mas não basta. Para uma classe que todos os anos ouve sonoras palavras de exaltação à sua missão, sem que se registrem atos paralelos e concretos de reconhecimento da importância dela, muito pouco podem significar homenagens como as que estão programadas em São Paulo."11
Em 1956, a Folha da Manhã destacou a melancolia e a frieza que marcaram o Dia do Professor, pois não havia motivo para comemorar por parte dos professores particulares, devido à greve realizada em
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SOUSA, E. R. de “Fé e confiança do professorado”. Diário de S. Paulo, 15/10/1955, Primeiro caderno, p. 6. Sobre as expectativas criadas no CPP com a eleição de Garcez, ver “O Governador-Professor: a dignificação da classe e o veto ao reajuste salarial” (Vicentini, 1997, p. 113-123).
10
SOUSA, E. R. de “Sobre o Dia do Professor”. Diário de S. Paulo, 16/10/1957, Primeiro Caderno, p. 8. SOUSA, E. R. de “Palavras sobre o Dia do Professor”. Diário de S. Paulo, 16/10/1959, Segundo Caderno, p. 11. SOUSA, E. R. de “Nossa mensagem no Dia do Professor”. Diário de S. Paulo, 15/10/1961, Segundo Caderno, p. 8. SOUSA, E. R. de “Fé e confiança nos destinos da educação e do magistério”. Diário de S. Paulo, 16/10/1962, Segundo caderno, p. 7.
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“Cuidemos do ensino primário”. Folha da Manhã, Editorial, 15/10/1948, Primeiro caderno, p. 4. “A expectativa do professorado”. Folha da Manhã, Editorial, 14/10/1951, Primeiro caderno, p. 6. “Franqueza com os professores”. Folha da
setembro, e por parte do magistério oficial que ainda estava sob o impacto da frustração causada pela “falseta do ano anterior”, quando o governador não concedeu o abono de emergência anunciado. No mesmo ano, o Sindicato dos Professores do Ensino Secundário e Primário solicitou que no dia 15/10 houvesse aulas nas escolas particulares para “ressarcir qualquer prejuízo que os alunos possam ter tido com a greve do dia 26/09, em sinal de protesto pelas pretendidas alterações do regulamento do Fundo Nacional do Ensino Médio (FNEM) e pelas manobras protelatórias do Ministério da Educação e Cultura para cumprimento dos portarias que regulamentam a condignidade da remuneração dos professores”. Entretanto, o conflito entre os professores secundários das escolas particulares e o governo federal atingiu seu ápice em 1958, quando as entidades representativas desse segmento do categoria recusaram-se a participar das comemorações oficiais do Dia do Professor em protesto à “sonegação do pagamento devido pelo FNEM, correspondente a 50% da cota de suplementação de 1957”. A APESNOESP e outras associações ligadas ao magistério secundário oficial também aderiram a este protesto em razão da “situação vexatória que lhes têm dispensado os poderes públicos (...), padecendo de amargas decepções, esbulhados que foram na justa revalorização de seus padrões de vencimentos”. Ao divulgarem sua decisão, tais entidades anunciaram um programa próprio para a data e ironizaram a atitude do Ministro em instituir a Semana do Professor, apontando a contradição entre a tentativa de mostrar o apreço aos professores e o descaso quanto à sua remuneração:
“o Sr. Clovis Salgado [Ministro da Educação], enquanto procura burlar o cumprimento de um diploma legal, que assegura ao professor um mínimo de condignidade da remuneração, determina por um ato ministerial que se exalce este ano mais do que nunca o papel de relevância que têm os professores, recomendando, ainda, num arroubo de ternura de magnanimidade, que as comemorações não se realizem num único dia, mas durante toda a semana, como se os professores - ainda que reconheçam o sacerdócio dos seus misteres - pudessem viver de flores e discursos. Muito platônico e generoso o Sr. Ministro da Educação. Todavia, (...) jamais os escolares e suas famílias regatearam espontaneamente aos professores o devido respeito, reconhecimento e gratidão que merecem.”12
Tal decisão teve o apoio da União Paulista dos Estudantes Secundários (UPES), da União Estadual dos Estudantes (UEE) e da União dos Estudantes Secundários Paulistas (UESP) como atesta o seguinte comunicado:
“Os estudantes paulistas, ciosos de seus deveres, repudiam recomendações oficiais para prestar nessa significativa data as homenagens mais carinhosas e espontâneas a que fazem jus os nossos mestres, de cujas amarguras e decepções compartilhamos, lamentando que os poderes públicos não lhes dêem e merecido respeito e tratamento compatível com a elevada função social que desempenham na formação intelectual, moral e cívica da mocidade brasileira.”13
Entretanto, a Secretaria da Educação cancelou as atividades previstas para o Dia do Professor devido à morte do Papa Pio XII, o que levou as entidades do magistério secundário oficial e particular a atribuir tal atitude ao “receio do insucesso nas festividades oficiais, em virtude de associações verdadeiramente
12
“O melancólico Dia do Professor”. Folha da Manhã, Editorial, 16/10/1956, Primeiro caderno, p. 4. “Criticada na Assembléia Legislativa a indiscriminada criação de escolas médias”. Folha da Manhã, Ensino e Magistério, 12/10/1956, Assuntos especializados, p. 17. “O magistério de São Paulo e as comemorações do Dia do Professor”. Folha da Manhã, Ensino e Magistério, 10/10/1958, Assuntos Especializados, p. 5.
representativas do magistério terem decidido realizar um programa à parte que realmente traduz o anseio e a aspiração da classe por um ambiente de trabalho mais condizente com as legítimas reivindicações do professorado.” Segundo a grande imprensa, as comemorações destas entidades “se desenvolveram em ambiente de incontido entusiasmo e até certa exaltação, como atitude de revolta contra as medidas protelatórias e a indiferença, com que o Ministério de Educação e Cultura está encarando o problema do pagamento da suplementação de salário, correspondente ao ano de 1957 e a Inspetoria Seccional de São Paulo (...) vem-se comportando com mostras de inimiga da classe, embora se lhe reconheça que antes procurava estimular e amparar os professores.” Em 1963, com a iminência da greve de toda a categoria, as associações docentes, inclusive o CPP, recusaram-se a participar das “homenagens oficiais promovidas pelo Departamento de Educação (...) diante da situação desesperada em que se encontra a classe em geral, não só quanto à remuneração, mas especialmente pela forma como vem sendo tratada pelo Governo do Estado.” No mesmo ano, a Folha dirigiu duras críticas a Adhemar de Barros por ocasião do Dia do Professor, dizendo que, ao invés de “mensagens ocas” sobre a docência, o governador deveria ter enviado à Assembléia Legislativa a mensagem com o aumento salarial reivindicado pela categoria:
"O governador requintou-se no uso de comoventes lugares-comuns, começando por dirigir-se ao ‘esclarecido professorado de São Paulo’ (...). A seguir, proclama não ignorar 'as preocupações que afligem a devotada classe’ (...) Em tempo, 'o esclarecido professorado de São Paulo', 'a devotada classe', 'o abnegado mestre paulista', no seu dia, 'tão grato no coração de todos nós', não estava interessado em mensagens ocas desse tipo. Esperava outra mensagem que, concedendo padrões de vencimentos condignos ao magistério, lhe restituísse o estímulo que começa a perder.”14
Após o Golpe Militar de 64, o jornal renovou suas críticas a Adhemar de Barros, que se associou à “justa e meritória homenagem” prestada em 15 de outubro ao professorado, lembrando mais uma vez que as suas “bonitas palavras” não se coadunavam com a política adotada com relação à categoria, pois além do atraso no pagamento dos professores secundários contratados havia ocorrido uma série de demissões de professores universitários sem a devida explicação. 15 Assim, no discurso veiculado pela grande imprensa a
respeito desse tipo de comemoração, ora a recompensa simbólica, cuja principal expressão eram as homenagens promovidas no Dia do Professor, aparecia como signo de uma “nova era” para a categoria, na qual o reconhecimento dos poderes públicos quanto à importância de sua missão se traduziria numa melhor remuneração, ora era apresentada como uma forma de dissimular a deficiência de seus vencimentos e, até certo ponto, como algo antagônico a medidas concretas em prol da melhoria do seu estatuto profissional.
13
“Os estudantes secundários e o Dia do Professor”. Diário de S. Paulo, Educação e Ensino, 11/10/1958, Segundo caderno, p. 9.
14
“Por causa da morte do papa foram suspensos os festejos do Dia do Professor”. O Estado de S. Paulo, 11/10/1958, p. 10. “Comemoração do Dia do Professor”. Folha da Manhã, 14/10/1958, p. 7. “Comemorações do Dia do Professor”. Diário de
S. Paulo, Educação e Ensino, 14/10/1958, p. 6. “Homenagens do Dia do Professor”. Folha de S. Paulo, Educação,
13/10/1963, p. 12. “Frases”. Folha de S. Paulo, Editorial, 16/10/1963, Primeiro caderno, p. 4.
15
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