POLÍTICAS MACROECONÔMICAS COMO FATORES CRÍTICOS
PARA O SUCESSO DAS RELAÇÕES DE COOPERAÇÃO: ESTUDO
DE UMA COOPERATIVA DE ARTESANATO
RESUMO: O atual ambiente de negócios e o crescente aumento na concorrência têm levado as empresas a buscarem, cada vez mais, vantagens competitivas. Dentre estas vantagens os relacionamentos cooperati
desempenho, compartilhando recursos e realizando atividades conjuntas num determinado mercado, no entanto a dinâmica existente nas redes de cooperação tem sido apresentada também como resultante de uma série de aspectos que reúnem em uma mesma rede de relacionamento, cooperação e competição. No cenário competitivo atual tem se proliferado um grande número de interações entre organizações concorrentes que cooperam entre si para alcançar objetivos comuns, de maneira que se assume o pressuposto de que o estabelecimento de relacionamentos cooperativos influencia o comportamento competitivo das organizações (CHEN, 1996; GIMERO, 2004; GNYAWALI; MADHAVAN, 2001).
Os fatores facilitadores e dificultadores dos relacionamentos cooperativos são os aspectos ambientais e organizacionais que estimulam ou inibem um determinado relacionamento, ou seja, eles influenciam a formação ou manutenção do relacionamento cooperativo (CANDIDO; ABREU, 2004; OLIVER, 1990). Dentro dessa concepção, vários termos encontrados na literatura são usados para referirem-se a esses aspectos, tais como: antecedentes (BRASS et al., 2004; GRANDORI; SODA, 1995;; OLIVER; EBERS, 1998; WHETTEN; LEUNG, 1979); condicionantes (OLIVER, 1990); fatores situacionais (HALL, 2004) e fatores críticos de sucesso (CANDIDO; ABREU, 2004).
Considerando que as características do ambiente têm conduzido setores e segmentos econômicos a buscarem a competitividade para a sua sobrevivência e desenvolvimento, Candido e Abreu (2004) tentaram identificar e validar um conjunto de fatores para o sucesso da formação, desenvolvimento e manutenção dos relacionamentos cooperativos. Os autores classificaram tais fatores por meio de quatro dimensões que formam um conjunto de aspectos que devem ser considerados para as ações cooperativas, que são: I) ambiente de negócios; II) aspectos antropológicos e sócio-culturais; III) políticas macroeconômicas; e IV) processo de formação.
Para fins desse trabalho a dimensão considerada refere-se às Políticas Macroeconômicas. De acordo com Candido e Abreu (2004) essa dimensão subdivide-se em dez: I) interação entre os diversos agentes envolvidos; II) planejamento e Coordenação das Ações das Instituições de Apoio; III) Mecanismos para fortalecer os relacionamentos e interações; IV) políticas direcionadas para o fortalecimento da capacitação tecnológica; V) participação indireta do poder público; VI) política de difusão de tecnologia de informação e conhecimento; VII) integração das diversas políticas de apoio; VIII) existência de concorrência saudável; IX) independência e autonomia das empresas participantes; X) estabilidade.
2 METODOLOGIA
Esta pesquisa classificou-se como sendo do tipo descritiva e como estratégia de pesquisa nas ciências sociais, apresenta-se com destaque, o estudo de caso que se caracteriza como um tipo de pesquisa cujo objeto é uma ou poucas unidades que compõem um fenômeno, dentro de seu contexto real (GODOY, 1995b; CAMPOMAR , 1991; EISENHARDT, 1989; YIN, 2001).
Para atender aos objetivos deste estudo, a coleta utilizou dados primários e secundários. Quanto aos dados primários, foram obtidos por meio de 17 entrevistas semi-estruturadas, sendo: 03 membros da diretoria e 09 membros cooperados e 05 ex-cooperados. Além das entrevistas, utilizou-se do método de observação não-participante com roteiro previamente estruturado para a coleta de dados primários.
impressos quanto eletrônicos, tais como: sítios na internet; atas; estatuto da cooperativa; documentos cadastrais dos associados fornecidos pela cooperativa; e dados de órgãos oficiais.
Por fim, para a análise de dados, utilizou-se como referência a dimensão sugerida por Cândido e Abreu (2004), denominada Políticas Macroeconômicas e suas respectivas sub-dimensões as quais serviram de base para toda a análise dos dados coletados.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A cooperativa de artesanato em estudo é um projeto do poder público municipal com intuito de expandir o setor industrial na cidade para proporcionar empregos e renda. Dessa forma, foram oferecidos dois cursos de capacitação para confecção artesanal.
O curso foi realizado de outubro a novembro de 2004 e de janeiro a fevereiro
de 2005, com duração de um mês e meio. Os participantes do curso tiveram um apoio do poder público local de 70% no custo das aulas. Ainda no período de realização dos cursos foram efetuadas viagens a pólos que produzem o mesmo tipo de artesanato.
Ao término do curso algumas pessoas se reuniram e levando adiante a ideia do poder público formaram a cooperativa em 29/05/2006, sendo esta, em parte, custeada financeiramente pela cidade. A cooperativa era composta por 36 associados que compuseram a diretoria e o conselho fiscal.
Diante dos dados coletados com a pesquisa, traçou-se um paralelo entre as políticas macroeconômicas como fatores críticos para o sucesso, segundo Cândido e Abreu, e a suas aplicação dentro dessa cooperativa. Observou-se que:
3.1 Interação entre os diversos agentes envolvidos: cooperados, fornecedores, instituições de apoio e distribuidores devem trabalhar juntos para que haja um pleno desempenho das atividades produtivas(CANDIDO; ABREU. 2004). Porém, nessa cooperativa de artesanato, entre os cooperados há um certo desentendimento e competitividade, pois os entrevistados relataram não igual tratamento no momento da comercialização e há a existência de conflitos internos.
Para a confecção das peças, a matéria prima é buscada em cidades distante e comprada individualmente ao invés de buscarem melhores valores comprando em cooperação.
A venda das peças era realizada através de revendedores, representastes comerciais e de pequenas lojas individuais dentro da cede da cooperativa e futuramente em uma loja atacadista em Maringá , mas também apresentaram graves problemas pois cada cooperada buscava o destaque de suas peças e detrimento dos produtos dos outros.
3.2 No planejamento e coordenação das ações das instituições de apoio: visando a potencialidade de um mercado em ascensão, o poder público municipal viu na fabricação artesanal um caminho para proporcionar emprego e renda a cidade e é a principal instituição de apoio a cooperativa. Investiu em mídia para divulgar o projeto, custeou viagens e parte significativa dos cursos ofertados aos interessados.
A divulgação foi feita através da Televisão e do site do poder público municipal e obteve resultados positivos, pois muitos dos entrevistados tiveram o interesse
despertado após assistirem noticias na TV ou lerem no site.
Os cursos foram ofertados pelo SENAI e subsidiado pela prefeitura local em 70% do valor, o objetivo era capacitar pessoas a fabricarem seus próprios produtos e se interessarem pela cooperativa atuando como investidores, apesar do curso ter sido considerado bom pela maioria dos entrevistados, houve um consenso entre eles de que o curso foi muito básico e por isso não formava profissionais aptos. Alguns entrevistados declaram que o primeiro passo para a melhoria da cooperativa seria um curso mais completo e com instrutores mais qualificados para assim poderem investir com segurança e ao ver deles, o que o objetivo do curso nunca foi formar profissionais aptos e sim cooperados que pudesse investir e buscassem por contra própria o aperfeiçoamento na área.
Neste sentido, percebe-se uma falha no que seria a base para atrair cooperados e investidores em potencial. Com cursos inadequados as pessoas não se sentiram seguras para investir e muitos deles produziram apenas no período do curso.
Outra importante instituição de apoio é o Universidade Sem Fronteiras um programa elaborado e desenvolvido pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná e vem trabalhando desde dezembro/2008 até Março de 2010, com o Projeto de apoio a Cooperativa de artesanato.
O projeto envolve acadêmicos, professores e recém formados dos cursos de Administração, Publicidade e Propaganda e Ciências da Computação e tem por objetivo geral consolidar a atuação da Cooperativa de Artesanato , buscando ferramentas para sua expansão e servindo de instrumento de apoio para ações no sentido de promover a geração de renda para os atuais e futuros cooperados, no entanto o projeto não recebeu apoio da própria cooperativa que dificultou a obtenção de informações e não deu abertura suficiente para a atuação das envolvidos no projeto.
3.3 Mecanismos para fortalecer os relacionamentos e interações: a Cooperativa entra em contato com seus cooperados por meio da Assembleia Anual, que é divulgada no jornal da cidade.
Alguns ex-cooperados relatam que a após o termino do curso, aceitaram se tornar cooperados e depois disso não foram procurados pela cooperativa, atuais cooperados também afirmam não serem informados das reuniões.
Outro ponto fraco na relação entre cooperados e a cooperativa está no fato de que alguns cooperados dizem querer se desligar da mesma, mas são pressionados pelos demais cooperados a ficar, sendo responsabilizados caso a cooperativa termine.
3.4 Políticas direcionadas para o fortalecimento da capacitação tecnológica: o poder público municipal investiu em equipamentos de solda, maçarico, botijão, alicates e matéria-prima porém, os cooperados não estavam cientes que poderiam fazer uso desse equipamento e quando abordada sobre o assunto. Por outo lado, a cooperativa informa que as máquinas estão paradas porque os cooperados não se interessam em utilizá-las.
3.5 Participação indireta do poder público: através de observações notou-se que a Cooperativa desde o inicio é dependente dos recursos públicos que além de ceder o espaço onde se localiza a sede, paga desde o aluguel da loja em Maringá e o contador até a conta de água, luz e telefone.
3.6 Política de difusão de tecnologia de informação e conhecimento: em entrevista foi citada a criação de um site para vendas criado para a cooperativa, no entanto a falta de divulgação, de atualização e a disfuncionalidade do mesmo levaram ao desativamento do endereço eletrônico.
3.7 Integração das diversas políticas de apoio: prefeitura, SENAI e Universidade sem Fronteiras deveriam trabalhar juntas para o pleno sucesso da Cooperativa, mas o que se observou foram ações isoladas e falta de comunicação adequada entre as instituições de Apoio.
Quando se fala em “políticas de apoio” tem-se também que considerar o protagonismo da instituição que recebe apoio e que deve ser capaz de planejar e gerenciar seu próprio crescimento e desenvolvimento.
3.8 Existência de concorrência saudável: na cooperativa um dos motivos de maior descontentamento entre os integrantes é justamente a falta de uma
concorrência saudável.
3.9 Independência e autonomia das empresas participantes: outro grande problema apontado pelas entrevistas foi a falta de autonomia financeira entre os cooperados e interessados que não tinham capital suficiente para investirem na cooperativa e comprarem os materiais necessários para a produção, grande parte tem renda próxima de um salário mínimo.
3.10 Estabilidade: a cooperativa possui como parceira desde seu início o poder público, que arca com despesas como água, luz, telefone, contador e também o espaço físico à Cooperativa, apesar do suporte dado pelo poder público nota-se dificuldades na gestão desses recursos, pois a cooperativa não consegue se manter com recursos próprios, afetando sua autonomia.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Num mercado cada vez mais competitivo, as relações de cooperação têm se mostrado uma grande alternativa para a geração de emprego e renda, mas o sucesso dessas relações depende de fatores não só organizacionais como ambientais.
Dentre os fatores ambientais - nessa pesquisa identificados como:ambiente de negócios; aspectos antropológicos e sócio-culturais; políticas macroeconômicas e processo de formação – focalizou-se as politicas macroeconômicas e suas subdivisões para entender o porquê do sucesso ou insucesso nas relações de cooperação.
Através de um estudo de caso em uma cooperativa local, pôde-se entender o que são os Fatores Críticos para o Sucesso e verificar se os mesmos se mostravam presentes nestas relações de cooperação, e neste caso não estavam, podendo-se observar a frágil linha que os separa do fracasso.
Conhecendo tais fatores torna-se mais fácil para os envolvidos nestas relações, planejar e executar o que é realmente crucial para o desenvolvimento sustentável de uma coletividade.
5 REFERÊNCIAS
BRASS, D. J.; GALASKIEWICZ, J.; GREVE, H. R.; TSAI, W. Taking stock of networks and organizations: a multilevel perspective. Academy of Management Journal, v. 47, n. 6, p. 795-817, dec. 2004.
CAMPOMAR, M. C. Do uso do “Estudo de Caso” em pesquisas para dissertação e teses em administração. Revista de Administração, São Paulo, v. 26, n. 3, p. 95-97, jul./set. 1991.
CANDIDO, G. A.; ABREU, A. F. Os conceitos de redes e as relações interorganizacionais: um estudo exploratório. In: ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO, 24., 2000, Florianópolis. Anais... Florianópolis: ANPAD, 2000. 1 CD-ROM.
CHEN, M. Competitor analysis and interfirm rivaly: toward a theoretical integration. Academy of Management Review, v. 21, n. 1, p. 100-134, jan. 1996.
EISENHARDT, K. M. Building theories from case study research. The Academy of Management Review, v. 14, n. 4, p. 532-550, oct. 1989.
GODOY, A. S. Introdução à pesquisa qualitativa e suas possibilidades. Revista de Administração de Empresas, v. 35, n. 2, p. 57-63, mar./apr. 1995a.
GIMENO, J. Competition within and between networks: the contingent effect of competitive embeddedness on alliance formation. Academy of Management Journal, vol. 47, n.. 6, p. 820–842, 2004.
GNYAWALI, D. R.; MADHAVAN, R. Cooperative networks and competitive dynamics: a structural embeddedness perspective. Academy of Management Review, v. 26, n. 3, p. 431-445, jul. 2001.
GRANDORI, A.; SODA, G. Inter-firm networks: antecedents, mechanisms and forms. Organizations Studies, v. 16, n. 2, p. 183-232, Spring, 1995.
HALL, R. H. Organizações: estruturas, processos e resultados. São Paulo: Prentice Hall, 2004.
OLIVER, C. Determinants of interorganizational relationships: integration and future directions. Academy of Management Review, v. 15, n. 12, p. 241-265, apr. 1990. RING, P. S.; VAN de VEN, A. H. Structuring cooperative relationships between organizations. Strategic Management Journal, vol. 13, n.17, p. 483-498, oct. 1992. WHETTEN, D. A.; LEUNG, T. K. The instrumental value of interorganizational relations: antecedents and consequences of linkage formation. Academy of Management Journal, v. 22, n. 2, p. 325-344, jun. 1979.