THAÍS BALEEIRO DOS SANTOS
FATORES DE RISCO E DE PROTEÇÃO À SAÚDE E A VIDA EM ADOLESCENTES DEFICIENTES VISUAIS
São Bernardo do Campo 2011
FATORES DE RISCO E DE PROTEÇÃO À SAÚDE E A VIDA EM ADOLESCENTES DEFICIENTES VISUAIS
São Bernardo do Campo 2011
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Saúde, da Universidade Metodista de São Paulo, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Psicologia da Saúde.
FICHA CATALOGRÁFICA
S59f
Santos, Thaís Baleeiro dos
Fatores de risco e de proteção à saúde e a vida em adolescentes deficientes visuais / Thaís Baleeiro dos Santos. 2011.
147 f.
Dissertação (Mestrado em Psicologia da Saúde) –Faculdade de Saúde da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2011.
Orientação de: Manuel Morgado Rezende.
1. Deficiência visual 2. Adolescência 3. Fatores de risco 4. Fatores de proteção I. Título
VISUAIS”, elaborada por Thaís Baleeiro dos Santos foi apresentada e aprovada em 14 de fevereiro de 2011, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Manuel Morgado Rezende (Presidente/UMESP), Profa. Dra. Maria Lucia Toledo Moraes Amiralian (Titular/USP) e Profa. Dra. Marília Martins Vizzotto (Titular/UMESP).
__________________________________________ Prof/a. Dr/a. Manuel Morgado Rezende
Orientador/a e Presidente da Banca Examinadora
__________________________________________ Prof/a. Dr/a. Maria Geralda Viana Heleno
Coordenador/a do Programa de Pós-Graduação
Programa: Pós-Graduação em Psicologia da Saúde Área de Concentração: Psicologia da Saúde
Sempre imaginei como seria o momento de redigir os meus agradecimentos, tinha a certeza que a emoção tomaria conta do meu coração e dos meus olhos, de um modo, que esse momento seria único e somente meu.
Agradeço a Deus e a Nossa Senhora de Aparecida, por ter estado ao meu lado, em todos os momentos, quando precisei de força para continuar, ou, simplesmente, ao agradecer.
Aos meus pais, tão amados, que sempre estiveram ao meu lado. Minha mãe querida, sempre com palavras de força e entusiasmo nos momentos de extremo cansaço. Meu pai (in memórian), pois sei que tudo compartilhou comigo. A eles, eu devo tudo, todos os ensinamentos mais preciosos que possuo.
À Profa. Dra. Claudiane Reis, que deu início a minha vida acadêmica e acreditou no meu talento. Incentivadora constante. Ela é uma referência pessoal e profissional, pessoa admirável e muito amada.
Agradeço, imensamente, a Profa. Dra. Eliana Ormelezi e a Sra. Moneda (coordenadora pedagógica), pois, atribuo a elas a oportunidade de ter realizado o meu trabalho, entre tantas negativas, recebidas. Profissionais queridas e admiradas.
À todos os adolescentes com deficiência visuais que, gentilmente, aceitaram participar desta pesquisa. Jamais esquecerei cada rosto e o privilégio dos momentos que juntos estivemos.
Agradeço pela composição da minha banca de qualificação e defesa na presença, tão significativa e especial, da Profa. Dra. Maria Lúcia Amiralian e a Profa. Dra. Marília Martins Vizzotto, em suas tão valiosas sugestões.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Manuel Morgado Rezende, que me acompanhou neste período tão significativo da minha vida, representado pelo
do ser humano. Conquistou uma fã!
Não poderia esquecê-los, meus amados amigos de todas as horas: Andréia Maria, Carine Naldi, Cláudio Neris, Esmeralda Oliveira, Márcia Santana, Selma Freitas e Valéria Bortoleto, muito obrigada, por compartilharmos um pouquinho de tudo. Vocês são especiais.
Aos meus, incondicionalmente, amados, Rafael e Júlia (sobrinhos), pela compreensão nos momentos que eu não podia brincar.
A todos os meus alunos, que sem dúvida, incentivaram-me a mais essa conquista.
Saúde da Universidade Metodista de São Paulo.
RESUMO
A condição da deficiência é observada ao longo da história da humanidade. Informações, da Organização Mundial da Saúde e do Brasil, mostram a existência no país de 3,6 milhões de pessoas com deficiências visuais, sendo 900 mil cegos e 2,7 milhões de pessoas com baixa visão. A evolução da deficiência visual está relacionada às questões, como o crescimento populacional, dificuldades econômicas, aumento da expectativa de vida, escassez de serviços especializados e falhas na prevenção. Os participantes, deste estudo, foram adolescentes com deficiência visual, possuidores de baixa visão. Foram investigados os fatores de risco e de proteção a saúde e a vida e a avaliação da qualidade de vida. O método de investigação é exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa e quantitativa, uma obtida com a aplicação de uma escala de auto-preenchimento, que aborda a percepção dos sujeitos sobre a qualidade de vida e a outra, a partir de entrevistas individuais. As análises dos dados obtidos apresentam, que a Qualidade de Vida é percebida e avaliada por eles, positivamente, pois, não existem indicadores negativos nesta questão. Os domínios com maior predominância foram o físico e o psicológico, em que se sobressaiu em comparação aos domínios das relações sociais e meio ambiente. Em relação aos riscos, observamos que existe maior vulnerabilidade em relação à locomoção em espaço público, o nível de deficiência, a superproteção materna e familiar, a dificuldade no processo de ensino aprendizagem, isolamento, fazer escolhas, bebidas alcoólicas e sexualidade. Relatam que lidam com esses riscos por meio da estimulação dos demais sentidos, pelo uso e estimulação da visão residual, boa, meio de uma boa saúde, integração grupal, utilização dos discursos disponíveis, como tecnologia e Braille e por meio da religiosidade. Revelam que a proteção ocorre a partir da auto-estima, do suporte social, por meio de amigos e familiares, pelos professores e um processo de ensino/aprendizagem adequado a esta condição, além do lazer. As expectativas para o futuro envolvem trabalho e estudo, além de questões de desenvolvimento pessoal, profissional e social. Os adolescentes, com deficiência visual, pesquisados, buscam mais autonomia e oportunidades para atravessar os desafios desta complexa etapa do ciclo vital da mesma forma que os demais adolescentes
Palavras-chave: deficiência visual, adolescência, fatores de risco, fatores de proteção.
Universidade Metodista de São Paulo.
ABSTRACT
The condition of disability is seen throughout the history of humanity. Information, the World Health Organization and Brazil show the existence in the country of 3.6 million people with visual impairments, and 900 000 blind and 2.7 million people with low vision. The evolution of visual impairment is related to issues such as population growth, economic hardship, increased life expectancy, lack of specialized services and failures in prevention. Participants in this study, adolescents with visual impairments, possess low vision. We investigated the risk factors and health and life protection and assessment of quality of life. The research method is exploratory and descriptive, qualitative and quantitative, one obtained by applying a scale of self-fulfillment, which addresses the subjects' perception on quality of life and the next, from individual interviews. The analysis of data obtained show that the quality of life is perceived and evaluated them positively, because there are no negative indicators on this issue. The areas with the highest prevalence were the physical and psychological, where he excelled in comparison to the areas of social relationships and environment. Regarding risk, we observe that there is greater vulnerability to mobility in public space, the level of disability, the overprotective mother and family, the difficulty in teaching and learning process, isolation, make choices, alcohol and sexuality. They report that deal with these risks through the stimulation of other senses, and stimulation by the use of residual vision, good, getting good health, group integration, use of the resources available, such as Braille and technology and by religiosity. Show that protection is provided from the self-esteem, social support through friends and family members, teachers and a teaching and learning appropriate to this condition, and leisure. Expectations for the future involve work and study, as well as issues of personal, professional and social. Adolescents with visual impairments, searched, seeking more autonomy and opportunities to cross the challenges of this complex stage of their life cycle in the same way that other teens.
APRESENTAÇÃO
INTRODUÇÃO ... 16
Deficiência Visual: Considerações Médicas, Educacionais e Psicológicas ... 20
CAPÍTULO I - FATORES DE PROTEÇÃO E QUALIDADE DE VIDA NA ADOLESCÊNCIA ... 24
1.1. Fatores de Risco na Adolescência ... 33
1.2. Estudos com Adolescentes Deficientes Visuais ... 42
1.3. Objetivos ... 47
CAPÍTULO II – MÉTODO ... 48
2.1. Sujeitos ... 48
2.1.1. Dados Sócio-Demográfico dos Participantes ... 49
2.2. Local/Ambiente ... 50
2.3. Instrumentos ... 50
2.6. Riscos e Benefícios ... 53
2.7. Aspectos Éticos ... 54
CAPÍTULO III – RESULTADOS OBTIDOS ... 55
3.1. Whoqol Individual ... 55
3.2. Whoqol do Grupo de Participantes ... 56
3.2.1. Análise das Perguntas que compõem cada domínio do instrumento Whoqol ... 57
3.2.1.1. Domínio Físico ... 57
3.2.1.2. Domínio Psicológico ... 60
3.2.1.3. Domínio Relações Sociais ... 62
3.2.1.4. Domínio Meio Ambiente ... 64
3.2.2. Qualidade de vida e saúde ... 67
3.3. Entrevistas ... 69
3.3.1. Dados de identificação do participante 1 ... 69
3.3.1.1. Transcrição da entrevista da participante nº 1 ... 70
3.3.2. Dados de identificação do participante 2 ... 73
3.3.2.1. Transcrição da entrevista do participante nº 2 ... 73
3.3.3. Dados de identificação do participante 3... 76
3.3.3.1. Transcrição da entrevista do participante nº 3 ... 76
3.3.4. Dados de identificação do participante 4 ... 78
3.3.6. Dados de identificação do participante 6 ... 84
3.3.6.1. Transcrição da entrevista do participante nº 6 ... 84
3.3.7. Dados de identificação do participante 7 ... 86
3.3.7.1. Transcrição da entrevista do participante nº 7... 86
3.3.8. Dados de identificação do participante 8 ... 88
3.3.8.1. Transcrição da entrevista do participante nº 8 ... 88
3.3.9. Dados de identificação do participante 9 ... 90
3.3.8.1. Transcrição da entrevista do participante nº 9 ... 90
CAPÍTULO IV – DISCUSSÃO... 96
4.1. Categoria 1 - Fatores de risco à saúde e a vida em adolescentes com deficiência visual ... 96
4.2. Categoria 2 - Como os deficientes visuais lidam com esses riscos ... 105
4.3. Categoria 3 - Fatores de proteção à saúde e a vida em adolescentes com deficiência visual ... 109
4.4. Categoria 4 - As expectativas em relação ao futuro ... 113
4.5. Categoria 5: O que consideram como qualidade de vida ... 114
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 116
REFERÊNCIAS... 120
Quadro I - Dados Sociodemográfico ... 49
Quadro II - Domínios Individuais, obtidos nos quatro domínios do Whoqol – bref ... 55
Quadro III - Análise dos domínios do Grupo - Whoquol - bref ... 56
Quadro A - Em que medida, você acha que sua dor (física) o impede de fazer o que precisa? ... 57
Quadro B - Você tem energia suficiente para o seu dia a dia? ... 57
Quadro C - Quão satisfeito você está com o seu sono? ... 58
Quadro D - Quão bem você é capaz de se locomover? ... 58
Quadro E - Quão satisfeito (a) você está com sua capacidade de desempenhar as atividades do seu dia a dia? ... 58
Quadro F - O quanto você precisa, de algum tratamento médico, para levar sua vida diária? ... 59
Quadro G - Quão satisfeito (a) você está com sua capacidade para o trabalho?... 59
Quadro H - O quanto você aproveita a vida? ... 60
Quadro I - O quanto você consegue se concentrar? ... 60
Quadro J - Quão satisfeito (a) você está consigo mesmo? ... 61
Quadro K - Você é capaz de aceitar sua aparência física? ... 61
Quadro L - Com que freqüência você tem sentimentos negativos, tais como: mau humor, desespero, ansiedade, depressão? ... 62
Quadro M - Em que medida você acha que sua vida tem sentido? ... 62
Quadro N - Quão satisfeito (a) você está, com suas relações pessoais (amigos, parentes, conhecidos, colegas)? ... 63
Quadro O - Quão satisfeito (a) você está, com o apoio, que você recebe de seus amigos? ... 63
Quadro P - Quão satisfeito você está, com sua vida sexual? ... 64
Quadro S - Você tem dinheiro, suficiente, para satisfazer suas necessidades?... 65 Quadro T - Quão satisfeito (a) você está, com seu acesso, aos serviços de saúde? ... 65 Quadro U - Quão disponível, para você, estão as informações que precisam no seu dia a dia? ... 66 Quadro V - Em que medida, você tem oportunidades, de atividades de lazer?... 66 Quadro X - Quão saudável é o seu ambiente físico (clima, barulho, poluição, atrativos)? ... 67 Quadro W - Quão satisfeito (a) você está com o seu meio de transportes? ... 67 Quadro Y - Como você avalia sua Qualidade de Vida? ... 68 Quadro Z - Quão satisfeito (a) você está com a sua saúde? ... 68
O interesse por este estudo surgiu a partir de uma reflexão pessoal desta autora, sobre as dificuldades e desafios enfrentados pelos deficientes visuais inseridos em uma sociedade predominantemente vidente. É pertinente estudar este tema porque possibilita ampliar o conhecimento e a compreensão da condição humana no tocante às informações que integram as diversas áreas e profissionais que atuam com a deficiência visual.
O enfoque desta pesquisa insere-se em uma abordagem biopsicossocial do processo de inclusão dessa deficiência no meio social, como condição para desenvolver a promoção e a proteção da saúde.
A evolução mundial da cegueira e deficiência visual está relacionada a questões como o crescimento populacional, dificuldades econômicas, aumento da expectativa de vida, escassez de serviços especializados, dificuldade de acesso aos serviços oftalmológicos e esforços limitados que visem à prevenção de agravamento das doenças oculares. Há também muitos vieses dessa evolução direta ou indiretamente relacionados à educação. Os níveis econômicos e sociais brasileiros refletem diferenças em relação à cegueira no país, podendo ser mais ou menos elevados (TEMPORINI; KARA JOSE, 2004).
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2006, com base na população mundial de 2002, indicaram estimativas da existência de 161 milhões de pessoas com deficiência visual, sendo 37 milhões de cegos e 124 milhões que apresentam baixa visão ou visão subnormal. A OMS ainda destacou a catarata como a maior causa mundial da cegueira e entende que esta havia aumentado em relação ao envelhecimento da população. A organização também acreditava que o desenvolvimento econômico dos países estava relacionado com o índice de cegueira uma vez que o maior número de deficientes visuais encontrava-se em países em desenvolvimento (OMS, 2006).
Dados recentes, datados em 2008, com análise das informações da OMS e do Brasil, indicam a existência, no país, de aproximadamente, 3,6 milhões de pessoas com deficiências visuais, sendo 900 mil cegos e 2,7
SAMPAIO; HADDAD; SOUZA; KARA JOSE, 2008).
No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, o Censo Populacional 2000 do IBGE constatou que 24,5 milhões de pessoas, o que corresponde 14,5% da população do país, possui alguma deficiência. Foram consideradas, também, deficiências incapacitantes graves, como as físicas, visuais e auditivas. Desse estudo, constatou-se que 48% de pessoas têm deficiência visual, 23% deficiência motora, 17% deficiência auditiva, 8% deficiência intelectual e 4% deficiência física. É importante salientar que idosos também fazem parte desta estatística.
Apesar da existência significativa de deficientes visuais, a perspectiva dessa população para 2020 não é animadora. A tendência, caso não haja ações preventivas, é um aumento para 76 milhões de casos de cegueira, em nível mundial (FRICK KD, FOSTER, 2003 apud TEMPORINI, KARA JOSE, 2004).
Para Temporini e Kara Jose (2004), a oftalmologia, além dos programas de prevenção, está diretamente relacionada à saúde pública, por envolver fatores políticos, econômicos, sociais e psicológicos. Relacionado a esse contexto, estão, também, a atuação profissional das diversas áreas, na busca comum da maior eficácia da acuidade visual, além do cuidado e da prevenção da perda total da visão.
Desta forma, a Psicologia da Saúde, de maneira interdisciplinar, reconhece a importância do indivíduo, na abordagem da promoção, prevenção e tratamento da saúde, e, principalmente, na conscientização e disseminação de cuidados a serem tomados, com base na educação e aprendizagem, de modo a gerar mudanças no comportamento e melhoria na qualidade de vida. Há necessidade de intervenção no processo de educação para a saúde, em uma visão biopsicossocial (CASTRO, 2004).
A Psicologia da saúde é uma área de conhecimento de origem na Psicologia, que procura perceber o indivíduo de forma integral, inserido na
e que abrange a percepção do estilo de vida, do ambiente, de suas escolhas saudáveis, e que se volta para proporcionar melhores condições de saúde e qualidade de vida ao ser humano.
Considero importante trazer para este trabalho a relevância do conceito de saúde definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS): “É um estado de bem-estar físico, mental e social completo e, não, somente, a ausência de doença ou incapacidade” (RIBEIRO, 2009, p.05). É este o conceito que norteou a investigação que aqui se apresenta.
Assim sendo, esta dissertação busca investigar a qualidade de vida e os fatores de risco e de proteção à saúde e à vida de adolescentes com deficiência visual, de modo a identificar a realidade vivenciada por eles e contribuir com subsídios para a elaboração de intervenções promotoras da saúde dessa população.
INTRODUÇÃO
A condição de deficiência é observada ao longo da história da humanidade. São diversos os mitos que compõem esta realidade, tendendo a situações diversas de estereótipos e caricaturas, colocando essas pessoas em situação de preconceito. No caso da deficiência visual não é diferente. Amiralian (1997) e Amaral (1998) relatam que as menções feitas à condição de ser cego, seja na literatura, na arte, no popularismo, ou na antiguidade, trazem metáforas que traduzem a condição de ser cego, tanto na posição de vítima, como de culpado, seja como uma benção divina, seja como maldição dos pecados. Os autores também explicitam as competências que são atribuídas aos deficientes visuais: sensibilidade, dom musical, cordialidade, um sexto sentido do cego.
Em uma leitura crítica do termo deficiência, Amaral (1998) relata, com autonomia, que a deficiência não é percebida como uma condição específica. É sim, percebida como uma situação generalizada de ineficiência total do indivíduo.
Omote (2004) reconhece o estigma carregado da condição de ser diferente como uma marca social, ainda camuflada e desvalorizada, na qual os deficientes são identificados, para uma maior atenção a esse público, como categorias ou grupos específicos, aos quais, apesar e por esta condição, ações, a própria nomenclatura atribuída e os serviços podem favorecer. De forma que a inclusão do diferente pela coletividade possa reduzir o impacto do que é considerado anormalidade pela sociedade, não atribuindo desvantagem, mas compartilhando sua atuação em um meio comum na sociedade. Compartilha do mesmo raciocínio Amaral (1998, p.15) [...] “pensar a anormalidade de forma inovadora: não mais e, somente, como patologia, seja individual ou social – mas como expressão da diversidade da natureza e da condição humana, seja qual for o critério utilizado”. [...].
No Brasil uma grande mudança na conceituação de deficiência ocorreu por meio do atendimento escolar especializado, que teve seu início em 1854, na gestão de D. Pedro II, no Estado do Rio de Janeiro, com a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, por influência de José Alvares de Azevedo. Em 1891, essa escola passou a chamar-se: Instituto Benjamin Constante (IBC). Quase quarenta anos depois, na cidade de São Paulo, surge o denominado e conhecido Instituto para
Cegos Padre Chico, na região do Ipiranga, em 1928. Mais tarde, em 1946, também em São Paulo, surge a Fundação para o livro do Cego no Brasil, Fundação Dorina Nowill, com o objetivo de educar, reabilitar e promover o bem estar social das pessoas cegas e portadores de visão subnormal, além de distribuir livros impressos em sistema Braille. O Braille trata-se de um código de escrita, adaptada por Louis Braille, em 1829, para atender a necessidade de escrita dos cegos. Baseia-se em seis pontos, que oferecem sessenta e três combinações. A partir de então, esse foi o instrumento mais eficaz para a comunicação escrita das pessoas cegas (MAZZOTTA, 2005).
Em 1953, no estado de São Paulo, houve a criação de classes Braille, nos diversos cursos, como pré-primário, primário, secundário e de formação profissional, destinados a alunos cegos e com baixa visão, conduzidos somente por professores formados pelo Instituto de Educação Caetano de Campos, especificamente especializados no ensino para cegos. Os alunos participavam das aulas comuns e da orientação especializada. Eles estudavam um período em salas comuns e outro em salas atualmente reconhecidas como sala de recursos, destinadas ao atendimento educacional especializado. (MAZZOTTA, 2005; NOWIIL, 1996),
Quase dez anos depois, em 1960, é fechado acordo entre o Governo do Estado de São Paulo e a Fundação para o cego no Brasil. Neste mesmo período, mudança das normas do Poder Executivo dá origem à classe Braille, conservação da vista para amblíopes, classe de ajustamento com necessidades complementares, classes especiais, além do Ensino itinerante, todas elas com professores, devidamente especializados (BRUNO, 1997; MAZZOTTA, 2005).
Nas décadas posteriores, de 70, 80 e 90, são vários os esforços e mudanças que ocorrem em relação à educação especial no Brasil. O CENESP (Centro Nacional de Educação Especial), que se transformou em SESP (Secretaria de Educação Especial). Em 1990, a SESP foi reorganizada, surgindo a SENEB (Secretaria Nacional de Educação Básica), inclusa a essa secretaria o DESE (Departamento de Educação Supletiva e Especial). E, em 1992, reaparece o SEESP, no Governo Itamar Franco, como secretaria, específica do Ministério da Educação e Desportos e é criada também a CORDE - Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (MAZZOTTA, 2005).
Mazzotta, (2005), ressalta que na Legislação Brasileira o documento mais importante da Educação Brasileira contemporânea surge na década de noventa, a LDB – (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) que corresponde ao projeto de Lei nº 101 de 1993, da Câmara Federal. Esse instrumento aborda entre suas ações que a educação é direito fundamental de todos e dever do estado, com a colaboração da sociedade. Além de caber ao Poder Público, essa legislação fortalece o comprometimento do Estado com a universalidade da educação básica em todos os seus níveis e modalidades, como também, o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência na rede regular de ensino e, ainda, define a Educação Especial como uma modalidade de educação escolar, assegurando questões de fundamental importância aos principais interessados, como o desenvolvimento e qualificação de professores e, também, a participação de todos os alunos nas atividades do ensino regular.
Na área da saúde, por intermédio do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, surgem esforços, desde a década de 70, no sentido de desenvolver programas de triagem oftalmológica em escolas públicas. Essa iniciativa é de caráter preventivo e ganhou maior força, nas décadas de 90 e de 2000. As ações são evolutivas e as campanhas ocorrem em parceria com o Ministério da Educação. A Campanha Nacional de Reabilitação Visual – Projeto Olho no Olho “Veja Bem Brasil” com triagem, consultas e oferecimento de óculos à milhões de crianças (RUSS, TEMPORINI, KARA JOSÉ, 2004; TEMPORINI, 2004).
Em virtude de seus resultados positivos, o projeto ganhou força do Programa VISION1 2020 da OMS, que tem como objetivo a eliminação da cegueira evitável até 2020, com o apoio de diversos segmentos da sociedade.
Kara José (2008) ressalta que muitos candidatos selecionados ao exame oftalmológico ainda não participam do projeto Olho no Olho “Veja Bem Brasil” por motivos das dificuldades econômicas para chegar ao local, falta de conhecimento dos pais em reconhecer a importância dos exames oftalmológicos na prevenção e evolução de patologias. O autor também lembra, positivamente, que, em decorrência dessa ação pode-se atribuir a redução à desistência escolar e à dificuldade escolar de aprendizagem por erros refrativos que são corrigidos, além de possibilitar
diagnosticar e evitar a evolução das dificuldades oculares. Afirma ainda que ações de provisão de exames oculares devem existir, com esforços conjuntos entre autoridades, famílias e o compromisso social dos oftalmologistas nas situações econômicas mais carentes, socialmente.
Também é da década de 90 a Lei nº 8.069/90 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que, em seu artigo 11, em seus parágrafos primeiro e segundo, afirma que:
§ 1º A criança e o adolescente portadores de deficiência receberão atendimento especializado.
§ 2º Incumbe ao poder público fornecer, gratuitamente, àqueles que necessitarem os medicamentos, próteses e outros recursos relativos ao tratamento, habilitação ou reabilitação, (BRASIL, 1990).
Ou seja, essa lei foi concebida para proteger esses cidadãos de forma integral, garantindo-lhes o direito à educação e à cidadania desde sua infância, independentemente de sua condição de deficiência de qualquer natureza.
_______________________________________________________________
1. Programa VISION 2020 da OMS: Programa para eliminar a cegueira evitável do mundo até o ano de 2020. (Conselho Brasileiro de Oftalmologia).
Deficiência Visual: Considerações Médicas, Educacionais e Psicológicas.
Conceituar deficiência visual envolve definições essenciais no que diz respeito à classificação e à terminologia que são expressas quando nos referimos ao comprometimento visual. Pessoas com deficiência visual não compõem um grupo homogêneo e específico. Essa conceituação será aqui abordada de modo a correlacionar-se com os objetivos desta pesquisa e, para tanto serão utilizados subsídios de definições médicas, educacionais e psicológicas.
Dentro da concepção de deficiência visual, existem grupos de indivíduos que apresentam problemas no órgão da visão, sendo uma limitação sensorial da percepção, pelo órgão da visão, ou seja, fazem parte dessa conceituação os cegos e as pessoas com visão residual (AMIRALIAN, 1997).
A Organização Mundial da Saúde, em 1972, estabeleceu critérios específicos para esclarecimento comum do que seria deficiência visual, aprovando o conceito proposto por Lowenfeld, em 1950 (apud Amiralian, 1997, p.30), ao considerar:
Cegos são aqueles que apresentam acuidade visual de 0 a 20/200 (enxergam a 20 pés de distância aquilo que o sujeito de visão normal enxerga a 200 pés), no melhor olho, após correção máxima, ou que tenham um ângulo visual restrito a 20º de amplitude. A restrição do campo visual, a chamada visão de túnel, também, é considerada cegueira, independente da acuidade visual possuída pelo sujeito, porque qualquer visão nesta amplitude impede a apreensão do ambiente como um todo, uma das características fundamentais da percepção visual. São considerados indivíduos com visão residual aqueles que apresentam acuidade visual de 20/200 pés a 20/70 pés no melhor olho, após correção máxima.
São duas as medidas utilizadas pelos profissionais oftalmologistas para atribuir o diagnóstico da deficiência: a acuidade visual (medida da capacidade visual central) e a amplitude ou capacidade do campo visual, (visão periférica) da área alcançada como um todo, independente da acuidade visual (ROCHA, 1987).
Segundo o Portal Brasileiro de Oftalmologia, no Brasil usa-se a medida em metros, que corresponde à mesma medida em pés, ou seja: o cego pode ver à seis metros, o que uma pessoa sem problemas na visão, pode ver a sessenta metros. (DR. VISÃO, 2010).
Segundo Rocha (1987), são considerados “cegos” indivíduos que apresentam:
• Cegueira Parcial (contam dedos a curta distância) e percebem vultos. • Existem aqueles que apresentam PERCEPÇÃO (conseguem distinguir
entre claro e escuro) e PROJEÇÃO LUMINOSA (direção de onde está a luz).
• Cegueira Total ou AMAUROSE (não há percepção de luz). Visão nula ou zero.
Amiralian (1997, p.29), explicita que “cego não é aquele que nada enxerga, vive nas trevas e na escuridão total, pois é muito rara a ausência total da percepção visual”. Para ela, são considerados cegos aqueles que necessitam do sistema Braille para a aprendizagem da leitura e escrita, e, também, aqueles cujos sentidos, como olfato, cinestesia e o toque físico, são os principais meios de contato com o mundo ao seu redor. Já Ormelezi (2000) expressa a mesma condição ao defini-la de um modo mais abrangente, considerando que essas pessoas possuem meios diferentes de perceber e organizar o mundo.
Como mencionado pela Organização Mundial da Saúde, na classificação de deficientes visuais, estão também os considerados as pessoas possuidoras de visão residual ou baixa visão (terminologia atualizada, que substitui o termo visão subnormal).
Segundo Amiralian (2004), indivíduos com baixa visão, apesar das limitações, possuem alguma visão útil, o que lhes dá condição e uso da visão residual, mesmo com prejuízo de qualidade de visão. Porém, ainda assim, é possível a realização de tarefas da vida diária, ter noção de espaço, de movimento, de mobilidade, de relação com o meio, e de aprendizagem da leitura e da escrita sem o uso do Braille. A estimulação de qualquer nível da visão residual é indicada, seja com apoio ou não de recursos ópticos.
Segundo Amiralian (1997) o diagnóstico médico, a evolução do histórico da conceituação de deficiência visual, no campo educacional ocorre a partir de 1970, após a percepção de diferentes desempenhos, entre crianças com a mesma acuidade visual, por meio da utilização de seus resíduos visuais individuais.
Percebe-se, então, a necessidade de mudanças de conceitos, bastante significativas, na forma pela qual o indivíduo percebe o mundo externo.
No contexto educacional, a cegueira está classificada em dois grupos: os cegos congênitos e os com cegueira adquirida. Com base em estudos de Lowenfeld, (1950 apud AMIRALIAN, 1997), a cegueira é considerada congênita, quando ocorre até os cinco anos de idade porque, até esse período, a criança não retém imagens visuais. Quando a cegueira é adquirida pode ocorrer por diversas situações e independe de idade. De acordo com Amiralian (1997), pode ser proveniente de diversas fontes, como: doenças oculares, a exemplo do glaucoma, cataratas e distrofias oculares, associado a outras disfunções como diabetes, questões neurológicas que afetam o nervo ocular, com possibilidades de evolução ou, ainda por situações (inesperadas), por acidentes que podem levar a cegueira.
No Brasil, na área da deficiência visual, a contribuição de dois estudos, em particular, merece destaque, por não partirem do referencial de videntes, são eles, Amiralian (1997) e Ormelezi (2000).
A primeira autora busca compreender, de forma inovadora, a dinâmica da personalidade dos sujeitos cegos, por meio das expressões gráficas e verbais. Seu trabalho nos traz opiniões divergentes de outros pesquisadores, e, ainda, nos conduz à realidade de pesquisa com deficientes visuais, a partir do próprio referencial da pessoa cega, buscando compreendê-los, inovando por não compará-los com videntes.
Amiralian (1997) defende a não existência de uma personalidade cega, comum e específica a todos os deficientes visuais, porém, ressalta a situação da cegueira como uma condição de ser diferente em um mundo que é visual, como um fator condutor a sentimentos e conflitos comuns entre eles. A cegueira demonstra-se complexa e presente na vida destes indivíduos, se manifesta em uma reorganização do ego nas relações, seja como defesa, incapacidade na dificuldade afetiva, na manifestação da inveja ou, na capacidade de reparação. Está presente na vida dessas pessoas, seja de forma central ou não.
Ormelezi (2000), que se norteia pelo referencial do próprio cego, se propôs, de forma enriquecedora, a pesquisar a aquisição do conhecimento em cegos
congênitos em uma investigação rodeada de sensibilidade, apresentando grande poder de síntese de suas conclusões, com base em sua ampla experiência com pessoas cegas.
De acordo com a autora, existe uma reorganização mental e psicológica do cego, visando a um melhor desempenho dos outros sentidos como tato e audição na busca da aquisição do conhecimento, atrelado a comunicação com o meio social que o cerca. Afirma que se trata de uma compensação sócio-psicológica, pois o cego necessita de experiências táteis-cinestésicas, ou seja, precisa tocar para saber o conceito, para entendê-lo, precisa associá-lo à audição, olfato e à linguagem, apoiada por explicações e descrições. Portanto, Nobre et. al (2009) atribuem à visão a importância de oferecer ao indivíduo contato com o mundo que o cerca, em proporcionar conhecimento imediato nas formas, no tamanho, na direção, na cor, ou, simplesmente, saber como as coisas são. Desta forma estes autores consideram que sua falta interfere no desenvolvimento do indivíduo.
CAPÍTULO I - FATORES DE PROTEÇÃO E QUALIDADE DE VIDA NA ADOLESCÊNCIA.
Destaco, inicialmente, a necessidade de definição do constructo da adolescência, de modo a facilitar o entendimento do que permeia essa fase. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a adolescência acontece no período de 10 a 19 anos, já no Estatuto da Criança e do Adolescente, entre 12 e 18 anos de idade. A primeira definição é a utilizada neste trabalho.
Este período de vida está relacionado com grandes mudanças na vida do indivíduo, modificações em diversos aspectos do desenvolvimento físico, psicológico, sexual e social, uma transição para a vida adulta: a busca de sua identidade e reconhecimento individual e social de si mesmo, ao mesmo tempo em que procura compreender essas mudanças. Alguns autores mencionam a importância deste momento no desenvolvimento global do indivíduo, com várias mudanças e preparação para o futuro (Gomes; Caramaschi, 2007), outros relatam sua importância e também a identificam como um momento de crise para o adolescente (JATOBA; BASTOS, 2007).
Segundo Aberastury (1986), o período da adolescência significa a entrada e participação no mundo dos adultos e o afastamento da infância. Situações e sentimentos são vivenciadas pelos adolescentes, tais como dor pelo abandono da segurança do seu mundo anterior e modificações constantes que lhe ocorrem, contradições, confusões que são inerentes ao processo da adolescência.
De acordo com Knobel a “adolescência é uma fase especial e específica do desenvolvimento humano” (2007, p.47). O autor a descreve como um processo evolutivo do desenvolvimento humano, com características próprias, que envolve aspectos biológicos, psicológicos e sociais, relacionados à busca de identidade e aos processos de elaborações, de forma dinâmica e sistêmica. O autor relata que esta fase está diretamente ligada a perdas, mudanças, luto, depressão, reivindicações, luta, psicopatias, experiências relacionadas à fase evolutiva de identidade, mudanças e realidades a serem assumidas pelo adolescente. Em sua visão, “É a época de grandes e muitas vezes definitivas reestruturações de nosso aparelho psíquico e de nossas relações objetivas” (KNOBEL 2007, p.50). Assume-se
aqui, juntamente com o autor, que se Trata de uma fase extremamente significativa para questões internas e externas, como a afirmação e permissão do indivíduo em relação à vida. Para ele (Knobel, 1986), à medida de realização da identificação e elaboração em relação ao que considera perda (identidade da infância, corpo, pais), poderá tornar seu mundo interno atual, mais fortalecido com menos conflitos internos e manifestados.
Inicialmente, Knobel (1986) estabelece que são dez as características ou sintomatologias que integram o que se concebe como síndrome da adolescência normal, pela qual passa de forma involuntária o adolescente. O autor explica que é a elaboração do luto pelo adolescente, que é fundamental e, desse modo, a normalidade ou anormalidade dessa síndrome está relacionada com as elaborações de luto que os adolescentes conseguiram realizar, para chegar à identidade adulta. A seguir, cada característica dessa síndrome da adolescência normal será explicitada.
A primeira característica é a busca de si mesmo e da identidade. Trata-se da elaboração e do conhecimento de si mesmo em questões biológicas e sociais. Estão diretamente relacionadas a está fase: o corpo e o esquema corporal. O corpo faz parte deste processo de forma bastante ativa, como um sistema que sofre transformações hormonais de crescimento e sexual.
O esquema corporal é a representação mental de como o sujeito se percebe em relação ao seu corpo e à evolução contínua da qual faz parte. Resultado de questões intrapsíquicas do sujeito (Knobel, 1986). Busca-se a noção de indivíduo e a busca do conhecimento no mundo interno e externo. Knobel afirma que nesse momento o processo de luto é muito importante, em relação à perda do corpo da infância, a representação mental em relação ao seu corpo e a si mesmo, em relação às mudanças das quais ele é obrigado a passar.
A segunda é a tendência grupal, apresenta-se como um comportamento defensivo, relacionado à conquista da segurança e auto-estima. Os adolescentes se identificam de forma intensa, comum e coletiva. Uma identidade diferente da familiar é assumida por eles em relação ao grupo, na busca da individualização e da identidade. Em grupo, parecem ganhar força neste período de transição.
A terceira característica é a necessidade de intelectualizar e fantasiar. Os adolescentes recorrem ao pensamento como uma forma de fuga para seu mundo interno, como forma de compensar o que sentem, como fracasso, onipotência e angústias, em relação à sua realidade externa de renúncia ao corpo, ao seu papel infantil, à sexualidade, aos pais e à infância. Aberastury (1986) considera que essa interiorização favorece o reajuste emocional, induz o adolescente a reflexões que o intelectualizam quanto aos princípios ético, filosófico, social que podem vir a permitir importantes mudanças em seu mundo externo, em seu plano de vida.
As crises religiosas são a quarta característica. Nela, o adolescente, tanto pode caracterizar-se como uma pessoa descrente absoluto, ou como um místico religioso fervoroso. O mesmo adolescente pode passar por ambas as situações. As crises religiosas e a própria religião, em si, são recursos na tentativa de solução da angústia que vive o ego, na busca de identificações. A busca de um Deus, por meio da religião, pode significar uma alternativa sobrenatural de solução.
A quinta característica, corresponde à deslocalização temporal. Trata-se da relação confusa do adolescente com o tempo e com o espaço. Traduz-se em situações de urgência total ou em situações de prorrogações do que já deveria ser sido feito, ou ainda em dificuldades temporais em relação a discriminar presente e passado, externo e interno, infantil ou adulto. Essa confusão pode ser considerada como uma defesa da realidade entre o passado infantil e o futuro, que para ele pode ser assustador, ou ainda uma defesa da permanência da criança no adolescente.
A evolução sexual desde o auto-erotismo até a heterossexualidade corresponde à sexta característica. Está relacionada ao caráter masturbatório (autoerotismo) e à iniciação do exercício genital de forma exploratória, às descobertas que ocorrem a partir do outro, do sexo oposto. Spiegel (1961 apud KNOBEL, 1986) relata que a sexualidade é vivenciada pelo adolescente como uma força sobre ele, uma necessidade do corpo, dos órgãos genitais, tanto do feminino quanto do masculino, que se manifesta, intensamente, sem qualquer ligação com seu estilo de personalidade.
A sétima característica é a atitude social reivindicatória. O adolescente tenta modificar a sociedade e isso ocorre como defesa do desprendimento da
realidade do mundo infantil em que enxerga o misterioso e temeroso mundo dos adultos. “Na medida em que o adolescente não encontra o caminho adequado para sua expressão vital e para a aceitação de uma possibilidade de realização não poderá jamais ser um adulto satisfeito” (KNOBEL,1986 p.54). Não raro muitos adultos se opõem a esse processo, não lhe são favoráveis, e, muitas vezes, reagem com rigidez e moralismo.
Contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta, a oitava característica dessa síndrome, descreve o processo em que o adolescente não mantém uma conduta específica, estável e serena, embora ele tente. Trata-se de uma característica de personalidade que é, facilmente, permissível aos processos de projeção e introjeção, de forma variável e intensa, o que gera uma conduta instável tão presente nos adolescentes.
A nona característica é a separação progressiva dos pais, como um dos principais lutos vivenciados nesta fase de mudanças pelos adolescentes. Paralelamente, esse afastamento na separação com os pais, gera neles, pais, angústia, pois, muitas vezes, eles negam o crescimento dos filhos, em decorrência disso, podem perseguir seus filhos, podendo vir a gerar mais conflitos. Boas imagens parentais, amorosas e criativas, podem facilitar essa separação e gerar maturidade do indivíduo como adulto. A angústia desta fase de separação pode ser mais ou menos intensa, em virtude de como foi vivenciada e elaborada.
Constante flutuação do humor e do estado de ânimo é a décima e última característica da adolescência, citada por Knobel (Op. Cit.). Tanto a depressão, que acompanha o processo identificatório, como a ansiedade, estão relacionados à adolescência. A resolução de conflitos decorrentes de ambas dependerá de como os lutos serão elaborados. O Ego busca situações de prazer, quando ocorre o desprazer surgem; a insatisfação, a sensação de fracasso, o refúgio em si mesmo e a solidão. As instabilidades de humor fazem parte deste processo na relação da não conquista do que o adolescente deseja. A tentativa da elaboração dos lutos de forma introspectiva, na preparação para a ação e reorganização faz parte deste processo.
De acordo com Saito (2000), neste período da adolescência, risco e vulnerabilidade são inerentes ao desenvolvimento psicoemocional dessa fase, como
questionamento em relação à conduta dos adultos. Também fazem parte desse período a sensação de onipotência, a timidez e a baixa auto-estima. O adolescente se expõe à fragilidade e a situações inadequadas, como aos grupos nos quais estão inseridos onde drogas podem fazer parte do contexto. Os grupos muitas vezes influenciam situações, para as quais os indivíduos não apresentam maturidade para vivenciar, tais como; iniciação sexual e drogas, gravidez precoce, AIDS, doenças sexuais, aborto, entre outros.
Avanci; Assis; Oliveira; Ferreira; Pesce, (2007), relatam a outra face deste período, o lado menos conflituoso, como uma fase de saúde, novas idéias, de inclusão na vida adulta, com responsabilidades e perspectivas.
Para o ano de 2020, de acordo com Cardoso e Cocco (2003), é previsto um número de 43,3 milhões de pessoas, entre adolescentes e jovens, com idade entre 10 e 24 anos. Os autores afirmam que muitas questões que envolvem os adolescentes sofrem influências de questões relacionadas à ordem econômica, questões de saúde, baixo nível de escolaridade dos pais, como também, questões sociais, culturais e de políticas públicas. Nesse contexto, a importância da promoção à saúde, de forma integral, destes adolescentes, de modo a contribuir com esse processo evolutivo da adolescência, nos aspectos físico, emocional, intelectual, social e psicológico.
Como se pode perceber, fatores de proteção e qualidade de vida estão também relacionados ao tema da adolescência, para tanto, é necessário conceituá-los, com base na literatura. Para Silveira; Silvares e Marton (2003), fatores de proteção estão relacionados a recursos pessoais e sociais que diminuem ou eliminam o impacto dos riscos. Para Schenker e Minayo (2005, p.711), a expressão “proteger, significa, sobretudo, oferecer condições de crescimento e de desenvolvimento, de amparo e de fortalecimento da pessoa em formação”.
Em relação ao constructo de qualidade de vida, por meio do WHOQOL GROUP, (1994, apud FLECK; LEAL; LOUSADA; XAVIER; CHACHAMOVICH; VIEIRA; SANTOS; PINZON, 1999), grupo de experts da Organização Mundial da Saúde, composto por diversas culturas, são considerados como três, os aspectos
fundamentais referentes ao constructo: 1. subjetividade; 2. multidimencionalidade; 3. presença de dimensões positivas e negativas.
Seidl e Zannon (2004), vêm auxiliar ao esclarecer que a subjetividade refere-se à percepção do indivíduo, como ele refere-se avalia, sua situação pessoal no refere-seu contexto de vida, em cada dimensão da qualidade de sua vida. A composição do constructo abrange várias dimensões, daí a multidimencionalidade, a conforme ressalta Fleck et. al (1999), ao mencionar a presença de dimensões positivas e negativas tais como a mobilidade ou a dor.
Assim sendo, o constructo e sua multidimensionalidade contribuíram para a origem e desenvolvimento, pela OMS, do instrumento de avaliação da qualidade de vida, denominado WHOQOL-100. Esse instrumento, composto por 100 questões, abrange seis domínios: físico, psicológico, nível de independência, relações sociais, meio-ambiente e espiritualidade / religião / crenças pessoais (FLECK et.al. 1999). Sua uma versão abreviada, denominada WHOQOL-bref, aborda quatro domínios: físico, psicológico, relações sociais e, meio-ambiente. Este segundo instrumento será utilizado na realização desta pesquisa.
A Organização Mundial da Saúde (1994) define qualidade de vida como: “A percepção do indivíduo sobre a sua posição na vida, no contexto da cultura e dos sistemas de valores nos quais ele vive, e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”.
Vários dos autores resenhados a seguir, apresentam estudos relacionados aos fatores de proteção e qualidade de vida entre os adolescentes, de modo a conhecer o que faz parte deste contexto nos diversos ambientes sociais, onde eles estão inseridos. Proteção no que permeia a conduta familiar em relação às drogas, o suporte familiar nas questões psicológicas e emocionais dos adolescentes, estilos parentais, influência cultural e moral, e a proteção na área da sexualidade, saúde, social e lazer e qualidade de vida no que tange a comunicação familiar, perspectivas de trabalho e futuro, autoimagem, bem estar e atividades físicas.
Os fatores de proteção relacionados com consumo de drogas estão associados à família como um fator fundamental e essencial de proteção ao não uso. Para Schenker e Minayo quando a família é “cuidadora, afetiva, amorosa e
comunicativa” atua como fator de melhor possibilidade para um desenvolvimento saudável dos filhos (2005, p. 715). Os autores enfatizam a importância da escola, dos pares, dos amigos, da comunidade e da mídia, além de serviços sociais, educacionais e de saúde, visando um desenvolvimento saudável da população adolescente sem as drogas.
A institucionalização de programas de orientação familiar aos pais, para melhor saberem como lidar com seus filhos adolescentes, tanto nas questões de proteção familiar em relação às drogas, como nas questões emocionais, nas quais a família possa melhor acolhê-lo em suas angústias, tomadas de decisões, apoio emocional e confiança, são sugeridas por tanto por Schenker; Minayo (2005) quanto por Pratta; Santos (2007b).
Além de leituras, atividades de lazer como ouvir música, assistir televisão, praticar esportes, sair com a família e ir à Igreja estão mais relacionadas com adolescentes que não se envolvem com o consumo de substâncias psicoativas. Essas atividades demonstram ser um fator de proteção de forma a influenciar o não envolvimento com as substâncias (PRATTA; SANTOS, 2007a).
Os estilos e práticas parentais, como fatores de proteção, são evidenciados, por Paiva e Ronzani (2009), ao citarem a importância familiar desenvolvida pelos pais, que podem contribuir com ações mais adequadas para a saúde e desenvolvimento dos filhos. Os autores mencionam como fatores que contribuem para o não uso de álcool e de drogas pelos filhos; maior apoio, suporte e compreensão familiar, e, também, afeto, interesse dos pais, tempo que dispõem com para convívio familiar, além de regras firmes de disciplina.
Na literatura, valores morais significantes para os pais refletem e são reproduzidos no comportamento dos filhos, podendo ser um fator mediador e reduzir comportamentos não adequados dos adolescentes. As virtudes devem ser fortalecidas pelos pais como referências, em situações onde os filhos se deparem com dilemas e os valores morais sejam determinantes (PRUST ; GOMIDE, 2007).
Pratta e Santos (2007b) lembram fatores importantes, relacionados ao futuro, mencionados pelos adolescentes, como estudar e constituir uma família, bem como o desejo de iniciar um curso superior, de ter uma melhor qualificação
profissional. Fatores correlacionados à tendência de poderem vir a usufruir de uma melhor qualidade de vida.
A proteção da sexualidade é mencionada por diversos autores e está relacionada com as áreas da educação e saúde. Romero; Medeiros; Vitalle; Webha, (2007) sugerem a realização de programas de educação sexual nas escolas, unida ao planejamento familiar e ao fornecimento de informações. Luz e Junior (2008) lembram que a escola é o espaço para a iniciação do namoro e de relacionamentos em si. Por tratar-se de um ambiente onde o conhecimento formal preventivo sobre doenças sexualmente transmissíveis (DSH), métodos preventivos e gravidez precoce é disseminado de forma mais natural e tranquila entre adolescentes, devem ser preparados professores para abordar o assunto da sexualidade. Camargo e Botelho (2006) sugerem que a proteção, em relação à sexualidade e à AIDS pode ocorrer por meio de uma comunicação mais voltada a eles, a partir de filmes, de panfletos, abordada por profissionais da saúde, propiciando que os jovens se sintam mais à vontade. Além das escolas, também a família pode ser uma importante fonte de informações, obtidas a partir de programas de orientação dos quais participem.
No tocante ao tema de gravidez precoce, mais uma vez, a importância do profissional de saúde é lembrada por Moreira; Viana; Queiroz; Jorge (2008), por estar esse profissional pronto a estabelecer confiança com a adolescente grávida, com o objetivo de evitar tentativas de suicídio e aborto por parte da gestante. Esta deve receber apoio dos seus pares mais próximos. O autor sugere ainda, palestras educativas e trabalhos em grupo, especificamente com adolescentes, bem como programas governamentais específicos, como o Saúde da Família, que devem visar a promoção da saúde da sociedade e considerar as necessidades sociais e econômicas, às quais essas adolescentes estão inseridas, confirmando a importância da saúde.
Silva; Horta; Pontes; Faria; Souza; Cruzeiro; Pinheiro (2007) lembram que situações socioeconômicas impactam diretamente a saúde e a vida dos adolescentes. Desta maneira, programas sociais que contribuam para uma melhor condição social, para minimizar a pobreza, para aumentar a escolaridade dos pais e para reduzir o consumo de álcool podem ser ações que venham a contribuir para a proteção dos adolescentes e para o bem estar na sociedade.
A comunicação familiar com o adolescente é abordada por Wagner; Falcke; Silveira; Mosmann (2002), como de fundamental importância neste período da vida do jovem, em que a mãe aparece como uma figura importante na relação e na comunicação familiar com o filho adolescente e como fator de qualidade de vida para esse filho.
Na relação pais-filho, a frequência das conversas é maior com a mãe, da mesma forma que se atribui a ela características de compreensão, possibilidades de negociação, coerência e entendimento, não só no que ela fala, mas nas ações que pratica. Ela exerce o papel de uma figura mediadora. Apesar de demonstrar credibilidade, com a figura paterna é menor o nível de comunicação e entendimento. É atribuído a ele um caráter de ordem, sendo ele, também percebido de forma positiva. Eventualmente, quando irmão mais velho assume o papel de substituto do pai, no processo de comunicação, torna-se uma referência, um apoio em relação às experiências já vividas apesar de ser esta época da vida, também, um período de conflito entre irmãos. O irmão mais velho, além de ser referência é, também, um mediador entre a família e o meio social (Wagner et.al. 2002). Este autor menciona que conflitos são inerentes à adolescência, na busca pela sua identidade.
O adolescente vê o trabalho e a sua representação social de forma muito positiva, relacionado à questões de desenvolvimento pessoal, estimulação das potencialidades, reconhecimento social, maior liberdade econômica, descobertas de reconhecimento pessoal, como a responsabilidade e o valor do próprio trabalho. Quando há a dupla jornada do adolescente, na conflituosa relação trabalho e estudo, ainda que reflita o esforço e o cansaço, é percebida, nesta relação, com o significado de futuro, de experiências a serem adquiridas, perspectivas de desenvolvimento profissional, social, de melhor qualidade de vida, além das questões financeiras e da preparação para o mundo (OLIVEIRA; FISCHER; AMARAL; TEIXEIRA; SÁ, 2005).
De acordo com Assis; Avanci; Silva; Malaquias; Santos; Oliveira, (2003), nessa fase da vida, os adolescentes possuem uma visão muito positiva em relação a si próprios. A autoimagem está caracterizada por terem bom humor, serem alegres, extrovertidos, otimistas, divertidos, por valorizarem o corpo, por possuírem satisfação e por buscarem respeito, amizade, igualdade entre as pessoas, por
auxiliarem as pessoas da família e outros. Essas características devem ser percebidas, pelos adultos, de forma positiva, buscando maior aproximação e entendimento deste período, pois, para um desenvolvimento adequado de suas potencialidades, esses jovens necessitam de apoio e segurança na elaboração e na estruturação da sua identidade.
Desta forma, o bem estar psicológico e os fatores que estão a eles associados como nível econômico elevado, prática da religiosidade, ir à Igreja, ter fé, o ato de não beber e fumar além do desejo de emagrecer, podem indicar uma melhor qualidade de vida, por parte dos adolescentes, e, assim sendo, atuam como fatores contribuintes para o bem estar psicológico entre os adolescentes e, portanto, afetam diretamente sua saúde (Silva et.al, 2007).
O auxílio da prática de atividades físicas ou esportivas no desenvolvimento do adolescente pode, para Alves e Lima, (2008), incluir prevenção da obesidade, aumento da massa muscular e da força, diminuição da pressão arterial, envolve também os benefícios para o sistema respiratório, muscular, cardíaco e auxilia no desenvolvimento motor, no desenvolvimento ósseo e de estatura além de contribuir positivamente para questões de socialização e de trabalho em equipe. De acordo com esses autores, as atividades sempre devem ser realizadas com orientações. Segundo o estudo realizado na Região Sul, a atividade física mais praticada pelos meninos é o futebol (82,5%), seguida do vôlei (18,2%), e para as meninas, vôlei (46,3%) e dança (25,4%).
As pesquisas que foram mencionadas nesta seção apontam como o que é vivenciado pelos adolescentes pode influenciar no seu contexto de vida de forma integral, contribuindo durante essa transição para sua vida adulta.
1.1. Fatores de Risco na Adolescência.
Várias pesquisas tratam dos riscos que fazem parte da realidade de vida dos adolescentes, indicam questões ambientais, sociais, emocionais, psicológicas, de sexualidade e de lazer, entre outros, relacionados aos jovens nessa fase de suas vidas. Muitos deles envolvem consumo de drogas, formas de violência, descoberta
da sexualidade, falta de prevenção doenças, gravidez indesejada, prática de aborto, depressão, sofrimento emocional e psíquico e a dificuldade na comunicação familiar.
Por definição, fatores de risco são definidos por Silveira, Silvares e Marton, (2003), como elementos com grande probabilidade de desencadear, ou de associarem-se ao desencadeamento de um evento indesejável. Neste sentido, a expressão risco é definida por Schenker e Minayo (2005), como conseqüência de uma decisão consciente de exposição a uma situação onde se busca a realização de um bem ou desejo, considerando que, no decorrer do trajeto, existe a possibilidade de perda, ferimento físico, material ou psicológico, enquanto Heidegger, (1980 apud SCHENKER et.al. p.708) afirma que “o risco é inerente a vida, ao movimento e a possibilidade de escolha”.
Iniciamos a abordagem dos riscos aos quais está sujeita a adolescência a partir do uso de drogas. Embora não seja algo novo, afinal faz parte da humanidade desde séculos passados, por intermédio de rituais simbólicos culturais, atualmente, a realidade deste uso sofre grandes modificações e torna-se um problema de saúde pública, com reflexos negativos, sociais e pessoais, relacionados ao futuro da sociedade, e, principalmente, dos jovens (MARQUES; CRUZ, 2000).
O consumo de substâncias psicoativas está presente em diversos países, e, com grande abrangência. Envolve diversas idades, está associado a questões geográficas, culturais, níveis sociais e traz consequências negativas, em relação às questões pessoais, familiar, social, ao custo econômico e à violência na sociedade tanto no meio familiar quanto nas relações interpessoais. Como se trata de um problema mundial afeta, cada vez mais, a saúde pública, não só no âmbito do Brasil (COSTA; ALVES; SANTOS; CARVALHO; SOUZA, P. e SOUSA, L. 2007)
Pesquisas relacionadas ao uso de drogas, em dez capitais brasileiras, observaram uma tendência evolutiva do consumo. O CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) coletou dados, entre 1987 e 1997, que evidenciam essa realidade. Entre as drogas mais utilizadas estão: maconha, cocaína, inalantes, crack, álcool e tabaco, sendo os dois últimos os mais consumidos em todo país. Na década seguinte, as pesquisas apontam que cocaína é a droga mais consumida nas regiões Sul e Sudeste (Costa et. al, 2007).
Sendo a adolescência uma fase de transição da infância para a vida adulta, é um período de grande vulnerabilidade e riscos. É um que proporciona, na visão de Marques e Cruz (2000), a inserção no mundo dos adultos, em um momento em que os jovens, afastando-se do convívio familiar, não aceitam orientações e, ao mesmo tempo, buscam um maior controle e poder sobre si mesmos, bem como a inclusão em grupos daqueles que são iguais a eles. Se nesse grupo houver a experimentação de drogas, esses jovens em busca de identidade podem ser induzidos ao uso de drogas. A aproximação do adolescente com as drogas tem sido algo comum. Entre as questões que podem estar latentes ao uso de drogas, estão as emocionais, o sofrimento psíquico, como depressão ou excesso de ansiedade, culpa e baixa autoestima.
Há outros fatores de riscos que agravam a tendência do adolescente para envolver-se com drogas, como os considerados por Newcomb, (1995 apud Marques e Cruz, 2000); a disponibilidade das substâncias, normas sociais, as privações econômicas extremas, o uso de drogas ou comportamento e atitudes positivas da família frente às drogas, conflitos familiares graves, comportamento como a demonstração de agressividade, alienação, rebeldia, baixo aproveitamento escolar, atitude favorável em relação ao uso, início precoce do uso, susceptibilidade herdada ao uso e vulnerabilidade ao efeito de drogas.
O tipo de lazer do adolescente também é um fator importante. Algumas atividades de lazer são mais praticadas por indivíduos que já são consumidores de substâncias psicoativas, como observado por Pratta e Santos (2007a), sendo atividades como ouvir música, assistir televisão, sair com os amigos do mesmo sexo ou sair com amigos do sexo oposto, frequentar clubes, praias e barzinhos, lugares estes com o maior número de pessoas, que corresponde a maior agitação, sendo assim considerados pelos jovens como mais interessantes. Schenker e Minayo (2005) lembram que o ambiente sociocultural de determinado grupo ou sociedade, pode ser um fator potencial, estimulador, de aprovação ou reprovação e, consequentemente, de iniciação e consumo das substâncias psicoativas.
A bebida alcoólica é consumida por 80% da população mundial, sendo que 10% da população são considerados como dependentes. Pesquisas realizadas no Brasil mostram que 68,7% dos indivíduos, consumiam álcool. O consumo maior está
entre os homens. Fatores de risco considerados estressantes, como condições adversas, presentes no ambiente familiar, podem ser um estímulo ao início do consumo de álcool pelo adolescente. O uso do álcool como um calmante pode ser comum na família, tido como hábito que oferece suporte para enfrentar as tensões da vida diária. Não raro pais que já consomem, permitem que os filhos façam a mesma coisa, gerando grande tendência ao consumo da primeira droga pelo adolescente, o álcool. Neste caso, a família é um fator de risco (LIMA; BION; BURGOS; ORANGE, 2008).
De acordo com Marques e Cruz (2000); Lima, et. al (2008), o álcool é uma das drogas mais utilizadas e comuns entre os adolescentes. O consumo inicial tem ocorrido, cada vez mais precocemente, quando estão acompanhados por amigos e parentes em festas, entre 10 e 14 anos. O consumo das demais substâncias psicoativas ocorre entre 15 e 16 anos, os principais motivos apontados são a curiosidade, e a busca pelo prazer (Costa et.al. 2007).
Frequentemente, a mídia, por meio da publicidade e da propaganda, principalmente no que se refere ao consumo de bebidas alcoólicas e de cigarros, vinculado à imagem de satisfação, bem estar e conquistas, fortalece a estimulação pelos adolescentes, de modo a desenvolverem atitudes e hábitos que os aproximem do uso destas substâncias (Costa et.al. 2007). Lembra Feijó (2001) que, muitas vezes, por meio de recursos, seja da música, televisão, internet ou jogos eletrônicos, se reduzem e se desvalorizam valores sociais, éticos e morais, podendo influenciar os jovens em diversos comportamentos negativos, inclusive de agressividade.
Em uma visão atual, Marques e Cruz (2000); Lima et.al (2008), além do caráter estimulador natural das drogas, também relatam os prejuízos e consequências negativas do uso de drogas (álcool, cocaína, anfetaminas, crack e maconha) como sendo graves, podendo vir a tornarem-se crônicos e acarretar sequelas, como comprometimentos e transtornos, de ordem cognitiva, psicológica e física, como respiratórias, intoxicações, nutricionais e aumento de doenças transmissíveis.
A violência é algo presente na vida do adolescente, “considera-se como violência social todas as formas de relações, de ações ou omissões realizadas por
indivíduos, grupos, classes, nações que ocasionam danos físicos, emocionais, morais e espirituais a si próprio ou aos outros” (SOUZA; JORGE, 2006, p.24).
Em uma visão mais recente, Sanches e Minayo, (2006) e Souza e Jorge (2006) relatam formas de manifestação da violência entre adolescentes e crianças. Neste sentido, ela ocorre por meio da violência estrutural (condições inadequadas de vida social e econômica como pobreza, renda financeira baixa, trabalho na rua e o trabalho para sobreviver e institucionalizados), ocasionando o comprometimento do desenvolvimento. Ocorre também pela violência intra-familiar, que ocorre dentro de casa com maus tratos e agressividade, da qual, muitas vezes, são vítimas a partir da vida estressante dos adultos. Com referência de educação, há a violência delinquencial (para se defenderem dela necessitam de auxílio, e medidas socioeducativas) que pode acarretar o envolvimento em drogas e desqualificação. E, por último, a violência institucional (a que ocorre dentro das diversas instituições, como internatos e ou escolas). Os atos de violência são classificados como negligência, violência física, sexual e psicológica, podendo levar até o óbito e a comprometimentos.
Nas principais capitais do Brasil, de acordo com Souza e Jorge (2006), a CID-10 (Classificação Internacional das Doenças por causas externas) considera o acidente e a violência como as principais causas de morte entre crianças e adolescentes, entre 5 e 19 anos. Os autores relacionam esses números às características gerais dessa população mais afetada; apresenta nível acadêmico baixo; mora nas periferias; é pobre e, na sua maioria, constitui-se de negros. Quanto ao fato de os meninos apresentarem maior envolvimento nas ações violentas, os autores o atribuem ao fato de seu gênero demonstrar seu poder de força, e, assim tornarem-se vítimas desta mesma situação. Afirmam também que questões socioculturais estão relacionadas com o perfil dos envolvidos, demonstrando que a violência ocorre de forma generalizada, mas com uma tendência maior na população, economicamente pobre.
Segundo Romero (et.al. 2007) dados do IBGE apontam que 19% da população são de adolescentes, estimando uma população aproximada de 34 milhões de jovens. Moreira et.al. (2008) afirmam que na fase da adolescência surgem as questões da sexualidade, da descoberta do corpo e dos órgãos sexuais.
Questões da sexualidade, intrinsicamente relacionadas ao sujeito, que contribuem para o desenvolvimento integral do adolescente (ROMERO et.al, 2007).
Percebe-se uma dificuldade de consenso quanto à idade de iniciação sexual dos adolescentes, porém, há proximidade do intervalo citado na literatura. Para Borges e Schor (2007), em relação aos meninos, a iniciação sexual ocorre, entre 15 e 19 anos. De acordo com Camargo e Botelho (2006), dados do Ministério da Saúde mostram que a idade média de iniciação dos meninos se dá aos 14 anos, e das meninas, aos 15 anos. Já Romero et.al. (2007) e Moreira, et.al. (2008) afirmam que o início da vida sexual dos adolescentes ocorre bem mais cedo do que comparado às gerações anteriores.
Nesta direção, Rieth (2002) já mencionava o comportamento do ficar (relação sem compromisso afetivo), como caminho que tende a direcionar para a descoberta da sexualidade, ou experiências de intimidades significativas para os adolescentes. Em uma visão mais atual de descobertas e experimentações da prática sexual do adolescente, existem dificuldades que fazem parte desta realidade (Romero et.al., 2007). Segundo os autores, eles não possuem o conhecimento da sexualidade que necessitam ou que demonstram ter, tampouco os conhecimentos relacionados às DSH (doenças sexualmente transmissíveis) e à prevenção.
Isso é, posteriormente, confirmado por Bezerra; Pinheiro; Alves; Barroso (2008), ao relatarem a vulnerabilidade às doenças sexuais, às quais os adolescentes se expõem por apresentam comportamentos de risco. Neste sentido Taquette; Ruzany; Meirelles; Ricardo (2003, p.6) relatam que “em geral os jovens se preocupam pouco com DST/AIDS, pois não acreditam que isso possa lhe acontecer, não pensam no futuro”.
De acordo com os autores Taquette, Vilhena e Paula (2004), alguns fatores contribuem para o comportamento de risco presente na sexualidade dos adolescentes, como o início precoce da atividade sexual, diferentes parceiros, o não uso de preservativo, como também, em uma visão bastante recente, o que é mencionado por Bezerra et.al. (2008), ao referir-se a imaturidade de, na busca de prazer e de aventura, não considerarem o contágio, ao se relacionarem com
pessoas conhecidas e consideradas saudáveis, atribuem a isso, uma situação de segurança, além de desejos e paixões deste período da vida.
Os adolescentes sabem da importância e significação do uso do preservativo de látex, quanto à prevenção das DSTs / Aids e prevenção a gravidez, porém, na prática isso não acontece, eles não o utilizam. Isso é confirmado por Taquette, et.al. (2004). Os motivos estão ligados ao desprazer durante o uso, ao esquecimento, e ao custo do produto, além da crença na prevenção da fidelidade sexual entre os adolescentes atribuída ao amor (LUZ; JUNIOR, 2008), (GUIMARÃES; WITTER, 2007). Atualmente também são considerados a falta de habilidade na comunicação e negociação da necessidade e importância do uso da prevenção física entre os parceiros, uma vez que há mais facilidade para se ter o preservativo e o seu custo está mais acessível (BEZERRA et.al. 2008). Camargo e Botelho (2006) relacionam em seu estudo que quanto maior a experiência, maior a dificuldade em relação ao uso da prevenção física através de preservativo. Guimarães e Witter (2007) lembram ainda, que as adolescentes apresentam pensamentos imaginários que a gravidez não acontece com elas e que o uso de anticoncepcionais seria um risco para que os pais descobrissem o início e prática da sua vida sexual.
Muitos já apresentam sintomas de contaminação das diversas DSTs, ainda na adolescência, mas, por desconhecimento e por preocupação de que os pais descubram que já iniciaram a vida sexual, esquivam-se. As questões econômicas e sociais também são importantes neste contexto de exposição e realidade, no qual os adolescentes estão envolvidos (BEZERRA et.al. 2008).
Mas, o risco ainda mais preocupante é o explicitado por Luz e Junior (2008), que expõem que, em 2007, o Ministério da Saúde, por intermédio do Boletim Epidemiológico referente a AIDS, menciona 474.267 casos de AIDS no Brasil, desde a década de 80 até o final de 2007. Deste total, 10.337 são adolescentes que estão infectados, com idade entre 13 e 19 anos.
Com a descoberta da sexualidade correlacionada à falta de prevenção, surge, também, entre as adolescentes a possibilidade do risco da gravidez indesejada, na adolescência.