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Implanta​çã​o da t​é​cnica de registro de c​é​lulas de lugar utilizando microdrives de tetrodos m​ó​veis em ratos

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Academic year: 2021

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Universidade Federal do Rio Grande do Norte  

Programa de Pós-Graduação em Neurociências – Instituto do Cérebro             DISSERTAÇÃO DE MESTRADO            

IMPLANTAÇÃO DA TÉCNICA DE REGISTRO DE CÉLULAS DE LUGAR  UTILIZANDO MICRODRIVES DE TETRODOS MÓVEIS EM RATOS   

IMPLEMENTATION OF PLACE CELL RECORDINGS USING   MOVABLE TETRODES IN RATS 

     

   

Estudante: Rafael Hugo de Andrade Pedrosa 

Orientador: Prof. Dr. Adriano Bretanha Lopes Tort  Co-orientador: Prof. Dr. Hindiael Aeraf Belchior 

          Natal / RN   2018 

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IMPLANTAÇÃO DA TÉCNICA DE REGISTRO DE CÉLULAS DE LUGAR  UTILIZANDO MICRODRIVES DE TETRODOS MÓVEIS EM RATOS 

            por           

Rafael Hugo de Andrade Pedrosa            Dissertação  apresentada  ao  Programa de Pós-Graduação      em  Neurociências  da  Universidade Federal do Rio        Grande do Norte como requisito          parcial para a obtenção do título        de Mestre em Neurociências. 

        Orientador: Prof. Dr. Adriano Bretanha Lopes Tort  Co-orientador: Prof. Dr. Hindiael Aeraf Belchior            Natal / RN   2018 

 

 

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Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN  Sistema de Bibliotecas - SISBI 

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial  Árvore do Conhecimento - Instituto do Cérebro - ICE 

  

    

Pedrosa, Rafael Hugo de Andrade.

Implanta​çã​o da t​é​cnica de registro de c​é​lulas de lugar utilizando microdrives de tetrodos m​ó​veis em ratos / Rafael Hugo de Andrade Pedrosa. - Natal, 2018.

102f.: il.

Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Instituto do C​é​rebro. Programa de P​ó​s-Gradua​çã​o em Neuroci​ê​ncias.

Orientador: Adriano Bretanha Lopes Tort. Coorientador: Hindiael Aeraf Belchior.

1. C​é​lula de lugar. 2. Microdrive. 3. Tetrodo. 4. Oscila​çõ​es. 5. Hipocampo. 6. Labirinto linear. I. Tort, Adriano Bretanha Lopes. II. Belchior, Hindiael Aeraf. III. T​í​tulo.

RN/UF/Biblioteca Setorial ​Á​rvore do Conhecimento, Instituto do C​é​rebro. CDU 612.82

   

      

   

    

Elaborado por ISMAEL SOARES PEREIRA - CRB-15/741

   

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Agradecimentos 

Agradeço antes de tudo a minha mãe e meu pai por todo o apoio e        paciência ao longo desses 2 anos. Foram meus financiadores e budas em todo o        processo. Também agradeço a meu irmão pelo apoio quase filosófico que me fez        ser um humano menos ignorante.  

Agradeço imensamente ao professor Adriano Tort por ter me aceitado e        confiado no meu trabalho. Antes mesmo de trabalharmos em conjunto, você já era        uma inspiração para mim. Hoje, mais que tudo, é um exemplo do cientista que        almejo ser. É uma referência que com certeza vou levar pro resto da minha vida.        Enfim, no mais, eu espero que tenha correspondido minimamente suas        expectativas. 

Ao meu pai científico, Hindiael Belchior. Seu respeito, paciência e confiança        só me fizeram querer crescer. Além disso, nunca se inibiu de me ensinar qualquer        coisa de seu conhecimento, é uma virtude que poucos conseguem ter. Foi muito        gratificante trabalhar esse tempo desde a iniciação científica com você, levo seu        nome no meu currículo com muito orgulho.  

A Richardson pela ajuda material para que eu tivesse condições de fazer os        experimentos, e Katarina por todas as dicas e conselhos ao longo do meu tempo        no ICe. Além disso, ambos, juntamente com Diego Laplagne se disponibilizaram        em me acompanhar durante o mestrado. 

Ao meu Robin científico, Alan Michel, que sem sua proatividade e        cooperação esse trabalho não poderia ter sido feito.  

Aos meus colegas e ex de laboratório Lockmann, Bryan, Robinho        maravilha, Vitor, Zé, Rodrigo, Arthur, Pavão, César e Izabela por me ajudar sempre        que precisei. 

Aos iceanos Annie, João Patriota, Renzo, Ana Raquel, Daniel Filho, Bruna,        Ingrid, Daiane, Davi, Jéssica, Lyvia, Martin, Janine, Andressa, Carolina e que me        ajudaram de alguma forma ou foram efetivos na manutenção da minha saúde        mental. Também agradeço ao corpo de funcionários do Instituto do Cérebro.  

A algumas companhias que facilitaram o trabalho: Sci-hub, Monster, Open        Ephys e Google.  

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“Hamlet” - William Shakespeare 

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Resumo  

 

A formação de mapas espaciais depende do hipocampo e de estruturas        associadas. A atividade eletrofisiológica na região CA1 do hipocampo codifica        representações espaciais através de aumentos da taxa de disparos de neurônios        piramidais, conhecidos por células de lugar. O presente trabalho visou a        implementação da técnica de registro eletrofisiológico hipocampal através da        utilização de microdrives de múltiplos tetrodos móveis. Para isso, desenvolvemos        um protótipo de microdrive e fizemos cirurgias estereotáxicas em ratos para o        implante crônico bilateral. O novo protótipo de microdrive conteve 16 tetrodos        móveis e permitiu o posicionamento progressivo individual dos tetrodos na        camada piramidal da região CA1 do hipocampo dorsal. Após a recuperação        cirúrgica dos animais, realizamos o registro da atividade eletrofisiológica        extracelular da região CA1 enquanto ratos buscavam por recompensa de água        nas extremidades de um labirinto linear. As formas de onda dos potenciais de        ação registrados foram então ​classificadas como unidades neuronais individuais        por algoritmos de classificação semi-automáticos​. Cada disparo de um dado        neurônio foi então associado à posição instantânea do rato no labirinto linear, e        assim detectamos campos receptivos das células de lugar. Dessa forma,        pudemos validar o protótipo de microdrive desenvolvido e, com isso, fornecer uma        base metodológica importante para futuros estudos almejando entender a        codificação espacial do ambiente e a formação de memórias espaciais. 

 

Palavras chave: ​Células de lugar, Microdrive, Tetrodos, Hipocampo, Labirinto          linear. 

   

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Abstract 

 

The formation of spatial maps depends on the hippocampus and associated        structures. Electrophysiological activity in the CA1 region of the hippocampus        encodes spatial representations through increases in the firing rate of pyramidal        neurons, known as place cells. The present work aimed the implementation of        hippocampal electrophysiological recording technique through the use of        microdrives of multiple movable tetrodes. For this, we developed a microdrive        prototype and performed stereotaxic surgeries in rats for bilateral chronic implant.        The new prototype microdrive contained 16 movable tetrodes and allowed the        individual progressive positioning of the tetrodes in the pyramidal layer of CA1        region of the dorsal hippocampus. After the surgical recovery of the animals, we        recorded the extracellular electrophysiological activity of the CA1 region while rats        searched for water reward at the ends of a linear track. The waveforms of recorded        action potentials were then classified as individual neural units by semi-automatic        classification algorithms. Each firing of a given neuron was then associated with        the instantaneous position of the rat on the linear track, and thus we detected        place fields of the place cells. Thus, we validated the microdrive prototype        developed and, thereby, provide an important methodological basis for future        studies aiming to understand the spatial encoding of the environment and the        formation of spatial memories. 

 

Keywords: ​Place cell, Microdrive, Tetrodes, Hippocampus, Linear track.   

   

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Lista de abreviaturas 

 

MRO - ​Movimento rápido dos olhos (​Rapid eye movement​).  SOL - ​Sono de ondas lentas (​Slow wave sleep)​. 

CA1 - ​Cornu Ammonis area 1.  CA2 - ​Cornu Ammonis area 2.  CA3 - ​Cornu Ammonis area 3.  CE -​ ​Córtex entorrinal​. 

GD -​ ​Giro denteado​. 

PRE -​ ​Sessão de sono anterior à tarefa espacial.  POS -​ ​Sessão de sono posterior à tarefa espacial.  PCL -​ ​Potencial de campo local. 

V1 - ​Velocidade 1.  V2 - ​Velocidade 2.  V3 - ​Velocidade 3.  A1 - ​Aceleração 1.  A2 - ​Aceleração 2.  A3 - ​Aceleração 3.  IM - ​Índice de modulação. 

CNC -​ Comando numérico computadorizado. 

PSD - ​Power spectral density ​(densidade de potência espectral). 

                 

 

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Lista de figuras 

 

Figura 1 |​ Esquema das subdivisões hipocampais e suas projeções.  Figura 2 ​ ​|​ Esquemático das principais projeções hipocampais.  Figura 3 |​ Ritmos oscilatórios do cérebro de roedores. 

Figura 4 |​ Ilustração de 4 células de lugar que apresentam potenciais de ação 

associados às posições em que o rato se encontra no espaço. 

Figura 5 |​ Esquema ilustrativo da classificação de unidades neuronais a partir do 

registro eletrofisiológico feito com tetrodo. 

Figura 6 |​ Ilustração de um microdrive implantado em um rato. 

Figura 7 |​ Comparação entre os diferentes tipos de microdrives que existem 

atualmente. 

Figura 8 |​ Processo de manufatura do tetrodo e microdrive.  Figura 9 |​ Microdrive de 8 tetrodos móveis. 

Figura 10 |​ Microdrive de 16 tetrodos móveis. 

Figura 11 |​ Testes de deslocamento e tensão na base de proteção.  Figura 12 |​ Reposicionamento dos tetrodos ao longo dos dias. 

Figura 13 |​ Ilustração do protocolo de labirinto linear utilizado na tarefa 

comportamental. 

Figura 14​ ​|​ Exemplo de classificação autônoma utilizando o Klustakwik. 

Figura 15 |​ Exemplo de classificação autônoma utilizando o modelo de misturas 

de gaussianas desenvolvido em nosso laboratório. 

Figura 16 |​ Posições do animal no labirinto linear em diferentes sessões.  Figura 17 |​ Atividade neuronal registrada por um tetrodo. 

Figura 18 |​ Seleção de candidatos a células de lugar. 

Figura 19 |​ Seletividade espacial de neurônio de CA1 dorsal. 

Figura 20 |​ Células de lugar ao longo da trajetória percorrida no labirinto linear.  Figura 21 |​ Neurônio de CA1 dorsal seletivo e acoplado em teta. 

Figura 22 |​ Potencial de campo local de CA1 durante uma travessia no labirinto 

linear. 

Figura 23 | ​Potenciais de campo local de CA1 em alguns estados. 

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Figura 24 |​ Comodulograma de estados do animal.  Figura 25 |​ Lesão eletrolítica e histologia. 

Figura 26 |​ Ilustração do protocolo de velocidades e acelerações da tarefa.  Figura 27 |​ Ilustração da tarefa de locomoção na esteira. 

Figura 28 |​ Exemplo de oscilações delta (1-4 Hz) durante a exploração do animal 

no labirinto linear. 

Figura 29 |​ Análise espectral durante três protocolos de velocidades constantes 

(20, 30 e 40 cm/s). 

Figura 30 |​ Análise espectral durante a aceleração (2,5 cm/s²) no protocolo da 

esteira. 

Figura 31 |​ Análise espectral do PCL hipocampal em três protocolos de 

aceleração (2, 2,5 e 3 cm/s²). 

Figura 32 |​ Pico da frequência e amplitude normalizado em delta e teta através 

dos 20 segundos binados. 

Figura 33 |​ Frequência respiratória durante a corrida de velocidade constante na 

esteira. 

Figura 33 |​ Comodulograma da fase-amplitude e a energia por fase dos três 

protocolos de velocidade constante. 

 

 

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Sumário 

 

Resumo Abstract Lista de abreviaturas Lista de figuras Apresentação 11  I - Introdução geral 1​2  A formação hipocampal 1​3  Eletrofisiologia hipocampal 1​6 

Microdrive de tetrodos móveis 2​3 

II - Capítulo 1: Desenvolvimento dos microdrives de tetrodos móveis 2​7 

1. Objetivos 2​8 

2. M​étodos 2​8 

3. Resultados 3​1 

III - Capítulo 2: Implantação da técnica de registro de células de lugar utilizando 

microdrives de tetrodos móveis em ratos 3​5 

1​. Objetivos 3​7 

2. ​Métodos 3​8 

3​. Resultados 4​5 

4​. Conclusão 5​8 

IV - Capítulo 3: Velocidade de corrida modula a oscilação delta no hipocampo de 

ratos 6​0  1​. Objetivos 6​1  2​. M​étodos 6​2  3​. Resultados 6​4  4​. Conclusão 7​6  V. Discussão​ geral 7​7 

VI. Animais implantados 8​1 

VII. Referências 8​2  VIII. Anexos 9​6   

 

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Apresentação 

 

O presente trabalho constitui uma síntese das atividades de pesquisa        desenvolvidas durante o curso de mestrado. A dissertação tem como tema central        a atividade eletrofisiológica do hipocampo de roedores durante a realização de        comportamentos exploratórios, protocolos de exercícios físicos, e ciclos de        sono/vigília. Para integrar os assuntos, o texto foi dividido em uma introdução        geral seguida de três capítulos que abordam principalmente (1) a implementação        de técnicas de registro neurofisiológico intracerebral utilizando microdrives de        tetrodos móveis; (2) a realização de registros da atividade de disparo de células de        lugar e do potencial de campo hipocampal durante a exploração de um labirinto        linear; e (3) a realização de registros eletrofisiológicos do hipocampo de roedores        durante corridas de velocidades crescentes e constantes em uma esteira elétrica        controlada por computador. Além disso, os capítulos apresentam as respectivas        análises dos sinais neurais, comportamentais, e interpretações dos resultados        obtidos de modo a trazer contribuições originais a cada um desses campos        individualmente. 

 

 

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I - Introdução geral

  

_________________________________________________________________________________ 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A formação hipocampal 

 

 

O hipocampo é uma estrutura cerebral localizada no lobo temporal medial        que exerce papel fundamental na codificação de memórias declarativas ou        explícitas (Scoville e Milner, 1954; Buzsáki e Moser, 2013), além de codificar        representações espaciais durante a navegação juntamente com o córtex entorrinal        (CE) (Hafting et al, 2005; Buzsáki e Moser, 2013). A anatomia hipocampal começou        a ser conhecida no final do século XIX a partir dos trabalhos iniciais de Camilo        Golgi e Santiago Ramón y Cajal. Eles desenvolveram uma técnica de coloração        por nitrato de prata capaz de marcar o meio intracelular dos neurônios, sendo        assim possível visualizar as unidades neuronais através do microscópio óptico        (Bentivoglio e Swanson, 2001). A partir dessa técnica, foi possível observar que o        hipocampo possui subdivisões com diferentes características e projeções        (Bentivoglio e Swanson, 2001; Insausti, 1997; Freund e Buzsáki, 1996).  

A anatomia hipocampal hoje é separada em três subáreas chamadas de       

Cornu Ammonis: CA1, CA2 e CA3 (Figura 1-A). Uma das principais projeções        neuronais para o hipocampo se dá pelo CE a partir de duas vias (Insausti, 1997).        (1) A via perfurante, que tem início na camada II do CE e que cruza o subiculum        até chegar no giro denteado (GD) e em CA3. O GD se projeta para o CA3 a partir        das fibras musgosas (​mossy fibers​), e CA3 se conecta com CA1 pelas colaterais              de Schaffer . (2) A via temporoamônica, que se origina na camada III do CE e  1        projeta diretamente para CA1 (Figura 1-B). Tanto a via perfurante (CE II - DG)        quanto a temporoamônica (CE III - CA1) enviam projeções unidirecionais para o        hipocampo, as camadas IV e V do CE por sua vez recebem projeções        hipocampais originadas em CA1 (Insausti, 1997; van Groen, 2003). No geral, a        atividade excitatória e inibitória do CE é composta de neurônios piramidais        glutamatérgicos e interneurônios GABAérgicos, respectivamente. Nas duas vias        de projeção para o hipocampo (perfurante e temporoamônica), os neurônios de        projeção do CE são excitatórios. 

1 Essa conexão que envolve o ​CE ​até CA1 a partir do ​GD ​e CA3 é conhecida como via trisináptica

(Amaral e Witter, 1989; Insausti, 1993). É a maior comunicação entre o hipocampo e o córtex.

(15)

 

Figura 1: Esquema das subdivisões hipocampais e suas projeções. (A) A imagem mostra uma          visão do hipocampo a partir de um corte coronal com coloração Nissl à esquerda e à direita um        esquemático com as subdivisões de CA1, CA2, CA3 e giro denteado. Em (B) uma ilustração das        projeções hipocampais. Modificado de Andersen et al, 2007. 

 

A citoarquitetura do hipocampo é formada por uma complexa rede de        neurônios piramidais e diferentes classes de interneurônios. Em CA1, CA2, CA3 e        GD é possível observar uma alta densidade neuronal, composta de um        agrupamento de neurônios piramidais. Modulando a atividade dos neurônios        piramidais, interneurônios GABAérgicos projetam seus axônios em diferentes        níveis do corpo celular piramidal (Freund e Buzsáki, 1996; Klausberger e Somogyi,        2008). Os interneurônios são classificados de acordo com suas características de       

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projeção sobre o neurônio piramidal, sendo eles: axo-axônicas (​chandelier cells) ,        2 

basket cells , oriens lacunosum-moleculare ​(OLM) cells e bistratified cells .  3 4 5

A organização morfológica dos interneurônios e das células piramidais        separa as regiões de CA1, CA2, CA3 e GD em 5 diferentes lâminas ou estratos:       

stratum oriens​, ​stratum pyramidale ​(onde se localiza o corpo celular dos neurônios              piramidais), ​stratum lucidum​, ​stratum radiatum e ​stratum lacunosum-moleculare               

(Figura 2)​. ​Exclusivamente em CA3 o perfil laminar se dá pelas 5 camadas, sendo          os ​stratum lucidum, ​pyramidale ​e ​oriens ​alvos de projeções do DG. CA2 por sua                  vez é composto de apenas 4 camadas, todas com exceção do ​stratum lucidum         

(Amaral e Witter, 1989). Sua principal via de entrada se dá pelo ​stratum        lacunosum-moleculare ​com inputs do CE II, e oriens ​que recebe projeções das                        colaterais associativas. Similar à CA2, CA1 apresenta as mesmas 4 camadas,        onde sua principal vía de entrada é o ​stratum lacunosum-moleculare ​que recebe              projeção do CE III. CA1 tem como principal camada de saída o ​stratum oriens ​que            tem projeções de ​feedback ​para as camadas V e VI do EC. Além disso, CA1              recebe inputs de CA3 no ​stratum radiatum pelas colaterais de Schaffer (Amaral et              al, 2006). 

 

2 As ​chandelier cells ​são interneurônios que possuem seu corpo celular junto ao do neurônio

piramidal no ​stratum pyramidale ​e têm conexão axo-axonal ​(Freund e Buzsáki, 1996). 

3 Interneurônio de alta taxa de disparo que inibem a região peri-somática dos neurônios piramidais

(​Freund e Buzsáki, 1996​).

4 As células OLM regulam a atividade dos neurônios piramidais e possuem corpo no ​stratum oriens

com projeções axonais no ​stratum lacunosum-moleculare.

5 Essas células apresentam seus somas no ​stratum pyramidale​ e atividade inibitória nos dendritos

das células piramidais no ​stratum oriens ​(​Klausberger e Somogyi, 2008; Wheeler et al, 2015​).

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Figura 2: ​Esquemático das principais projeções hipocampais. Na figura pode-se ver as principais          projeções de entrada e saída do hipocampo nas diferentes camadas celulares. O ​CE ​e ​GD        fornecem projeções de entrada (em verde musgo e rosa). CA1 gera projeções de saída (verde).  

 

Eletrofisiologia hipocampal 

 

 

As trocas iônicas entre os meios intracelular e extracelular para que ocorra        o potencial de ação neuronal desencadeiam uma diferença de potencial capaz de        ser identificada por meio de eletrodos, como foi descrito por Luigi Galvani no        século XVIII (​    Verkhratsky et al, 2006​      ). O conjunto dessas ativações neuronais gera        um sinal elétrico extracelular chamado de potencial de campo local (PCL) (da        Silva, 2009). O PCL representa uma propagação espacial em torno do eletrodo de        aproximadamente 400 ​   µ​m na horizontal e 1 mm na vertical . Quando medido no      6        hipocampo, o PCL apresenta diferentes bandas de frequências que se relacionam       

6 Essa dispersão é discutida atualmente por influência da condição de volume local x global.

Trabalhos atualmente descrevem sua influência como sendo de uma área entorno de 6 mm (Kajikawa e Schroeder, 2011).

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com diferentes estados comportamentais (Buzsaki, 2006; O'Keefe e Reece, 1993;        Csicsvari et al, 2003; Senior ​et al, 2008; Sirota e Buzsaki, 2008). As principais                    bandas podem ser resumidamente separadas em: delta (1-4 Hz), teta (5-10 Hz),        beta (10-30 Hz ), ​low gamma ​(LG) ​(30-50 Hz) e ​high gamma ​(HG) ​(50-80 Hz) (Figura                                3). Em estudos mais recentes, foi possível observar que esses ritmos oscilatórios        podem coexistir e estar acoplados. É possível encontrar uma relação de        fase-amplitude-frequência entre dois diferentes ritmos, em geral esse        acoplamento se dá entre uma oscilação de alta frequência e uma de baixa        frequência (Scheffer-Teixeira e Tort, 2016; Scheffer-Teixeira e Tort, 2017; Colgin et        al, 2009). 

 

Figura 3: Ritmos oscilatórios do cérebro de roedores. (A) Espectro de potência de diferentes          ritmos hipocampais durante o sono. (B) Diferentes classes de ritmos oscilatórios do cérebro por        bandas de frequências. Modificado de Buzsáki e Draguhn, 2004. 

 

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No geral, o estado global do cérebro é definido como “alerta” e “quieto” a        partir das oscilações predominantes no hipocampo (Battaglia et al, 2011; Kirov et        al, 2009): oscilações delta (1-4 Hz) caracterizam o estado quieto, e as oscilações        teta (5-10 Hz) o estado alerta. Teta ocorre fortemente associado a oscilações        gama ​(30-80 Hz), que estão relacionadas a processos cognitivos (Sheffzuk et al,        2011; Tort et al , 2009; Kirov et al, 2009). Delta, teta e gama são atualmente os        ritmos hipocampais mais estudados, e podem estar envolvidos no processo de        transmissão de informações entre as áreas cerebrais. Por isso, introduziremos        abaixo seus principais aspectos individuais: 

Delta. A oscilação delta é descrita como uma oscilação lenta entre 1 e 4        Hz, predominante no hipocampo de roedores durante estados de anestesia geral,        imobilidade na vigília e em períodos de sono descrito como sono de ondas lentas        (do inglês, ​slow wave sleep ou ​“SOL”). O ritmo delta reflete períodos tônicos de                  despolarização e hiperpolarização cortical referidos como estados “​up​” e “​down​”        (Steriade et al, 1993). O estado ​up ​é descrito como o aumento do balanço entre a                  atividade excitatória e a inibitória dos potenciais pós-sinápticos na comunicação        do hipocampo com o córtex, que gera um aumento do potencial de membrana        nessas áreas (Haider et al, 2006; Headley e Paré, 2017). Além disso, durante as        oscilações delta, um evento de alta frequência chamado de complexo ​sharp wave          ripple (SWR) (150-250 Hz) ocorre periodicamente durante o início do estado ​up       

(Isomura et al, 2006; Battaglia et al, 2004). O SWR é caracterizado pela        sincronização de neurônios piramidais de CA1 com interneurônios de CA3, e        exerce um papel fundamental no processo de consolidação de memória (Ylinen et        al, 1995; Girardeau e Zugaro, 2011).  

Teta. ​A oscilação teta no hipocampo dorsal de roedores pode variar entre 5          e 10 hz, e é presente tanto em atividades voluntárias, como andar, correr, pular, e        nadar dentre outras, quanto atividades involuntárias como durante o alerta e o        sono de movimento rápido dos olhos (MRO) (​      Vanderwolf, 1969; Buzsáki, 2002​      ).  Além disso, foi mostrado que a oscilação teta apresenta funções cognitivas,        como tomada de decisão, aprendizagem, memória espacial e associação        contextual (Belchior et al, 2014; O’Keefe e Recce, 1993; Tort et al, 2009;        Benchenane et al, 2010). Sua atividade é dependente da banda medial/diagonal       

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do septo, que possui projeções GABAérgicas, colinérgicas e glutamatérgicas para        o hipocampo (Buzsáki, 2002; Lee et al, 1994). Trabalhos anteriores mostraram que        lesões no septo e via septohipocampal abolem a atividade do ritmo teta tanto em        GD quanto em CA1 (Sainbury e Bland, 1981; Andersen et al, 1979). Além disso,        Quilichini ​et al, 2010 mostraram que lesões no CE também influenciam a atividade        do ritmo teta em todo o hipocampo, o que indica uma função do CE como um        modulador externo do teta hipocampal. 

A atividade de teta ao longo do tempo foi extremamente explorada por ser        o principal ritmo durante o estado alerta do cérebro de roedores. Dentre esses        estudos, McFarland et al em 1975 observaram a correlação desse ritmo com a        atividade locomotora de roedores. Ao mostrar que há um aumento da amplitude e        da frequência de teta durante a locomoção, seu trabalho se tornou precursor de        uma série de estudos seguintes que relaciona esse ritmo à dedicação física do        indivíduo. Em 1998, ​     Slawińska e Kasicki mostraram que o aumento da frequência        teta durante a locomoção tem um fator motivacional inserido que modifica sua        dinâmica a partir de influências emocionais. Mais recentemente, Kuo e        colaboradores (2011) descobriram que essa dinâmica de atividade de teta é        variável com o tempo. Eles mostraram que no início da corrida há um aumento de        amplitude e de frequência dessa banda, mas que com o passar do tempo a        frequência retorna a um nível basal. Em outro trabalho publicado em 2014, Kuo e        Li também mostraram que há diferença na ritmicidade de teta entre corridas        voluntárias e involuntárias (Li et al, 2014). Os resultados mostram que nas    7        corridas involuntárias os animais apresentaram uma maior potência na frequência        de teta quando comparado com as corridas voluntárias. Nas corridas involuntárias        também foram encontrados aumentos nos batimentos cardíacos. Os autores        sugerem que interações emocionais e sensoriais durante a corrida podem estar        relacionadas com essas diferenças de atividade cerebral e cardíaca. 

Em suma, a oscilação teta é fundamental para a aprendizagem e        consolidação de memória, além de estar envolvida nas principais ações do        indivíduo durante seu estado de vigília. Sua atividade modula diversos processos       

7Experimentos executados em uma roda de correr e em uma esteira controlada por computador.

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cognitivos, dentre eles a formação de mapas espaciais (Buzsáki e Moser, 2013),        que será discutido mais à frente. 

Gama. ​As oscilações gama possuem frequência entre 30 e 80 Hz. Sua        atividade ocorre ao longo do córtex, hipocampo e estriado tanto durante o sono        MRO quanto na vigília. A geração do ritmo gama é bastante estudada, sendo        atualmente dividida em dois modelos: (1) Modelo baseado na comunicação        inibitória de interneurônios, que se dá através de ​drives excitatórios que agem em        uma rede de interneurônios inibitórios. Quando esses ​drives ​atingem um            determinado nível de atividade, os interneurônios acabam silenciando        temporariamente sua própria rede, causando uma sincronia de disparos quando        saem da inibição. Essa atividade se torna cíclica e contínua (Wang e Buzsáki,        1996). (2) Em outro modelo, os neurônios piramidais ativam os interneurônios que        causam um ​feedback ​de inibição. Com o diminuir dessa inibição, as células            piramidais voltam a disparar, excitando novamente as pequenas redes de        interneurônios, que por sua vez voltam a prover ​feedback ​de inibição (Borges e                Kopell, 2003). Essa atividade também se torna cíclica e gera uma oscilação na        banda gama. 

Atualmente, o ritmo gama observado em ​CA1 ​é dividido em dois                  componentes que apresentam frequência, origem e funções diferentes. O ​low        gamma ​(LG) ​(30-50 Hz) é oriundo de CA3 e apresenta relação com a codificação          de memórias hipocampo-dependentes (Colgin e Moser, 2010). Enquanto o ​high        gamma ​(HG) ​(50-80 Hz) possui origem no CE e participa de processos de          associações espaciais (Colgin e Moser, 2010; ​Quilichini ​et al, 2010). Trabalhos        mostram que há um maior acoplamento entre teta e gama em tarefas que exigem        demandas associativa e cognitiva (Igarashi et al, 2014; Tort et al, 2009; ​Bott et al,        2016​). 

Dessa forma, durante a navegação espacial no ambiente, o hipocampo        possui atividade oscilatória de teta (5-10 Hz) e ​gama (30-80 Hz). Essas oscilações                modulam a atividade de disparos de potenciais de ação de diversas classes de        neurônios, dentre elas os neurônios piramidais (células principais). Foi descoberto        que alguns desses neurônios piramidais modulados por teta e gama apresentam       

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preferência de disparo em um lugar específico no ambiente (O’Keefe e Dostrovsky,        1971) e participam portanto da codificação espacial, tópico da próxima seção.  

 

Células de Lugar 

Em 1971, O’Keefe e Dostrovsky observaram que neurônios piramidais no        hipocampo de ratos disparam potenciais de ação em locais específicos do        ambiente (O’Keefe e Dostrovsky, 1971); estes neurônios são hoje em dia        chamados de “células de lugar” (do inglês, ​place cells​). Essa descoberta deu                suporte à teoria do Mapas Cognitivos, a qual postula que no hipocampo são        integradas informações sensoriais recebidas de áreas corticais primárias, criando        assim uma representação espacial do ambiente (O’Keefe e Nadel, 1978). Por outro        lado, desde a descrição do caso do paciente H.M., já havia sido proposto que o        hipocampo e estruturas parahipocampais desempenham uma função primordial        na formação de novas memórias declarativas (Scoville e Milner, 1954). Atualmente,        de acordo com essa teoria, as células de lugar forneceriam o substrato neural        fundamental para a construção de representações dos contextos envolvidos na        memória episódica (Eichenbaum, 2000b; Wood et al., 2000). Contudo, a        interligação entre essas duas teorias ainda permanece por ser esclarecida.  

Mais recentemente, em um labirinto linear com recompensas de água nas        extremidades, foi possível observar o disparo sequencial de populações de células        de lugar em função da posição e da direção do animal no espaço (Figura 4)        (Wilson e McNaughton, 1994; Jensen e Lisman, 2005; Dragoi e Buzsaki, 2006;        Foster and Wilson, 2006). Foi visto também que a sequência de células de lugar        ativas ao longo do percurso era frequentemente reativada durante os momentos        de vigília quieta e durante os episódios de sono pós-experimento (Louie e Wilson,        2001; Foster e Wilson, 2006). Essas reativações acontecem acompanhadas de        sharp-wave/ripples (150-250 Hz) (Buzsáki, 1998; Battaglia et al., 2011; Carr et al.,        2011). Uma série de estudos demonstrou que a interrupção das sharp-wave ripple        afeta o processo de aprendizagem e a consolidação de novas memórias        (Girardeau et al., 2009; Ego-Stengel e Wilson, 2010; Girardeau e Zugaro, 2011). 

 

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Figura 4: Ilustração de 4 células de lugar que apresentam potenciais de ação associados às          posições em que o rato se encontra no espaço (o exemplo mostra a plataforma de um labirinto        linear). À direita tem-se a representação espacial do campo de lugar em escala de cor. Retirado de        Nakazawa e colaboradores (2004). 

 

Os  desenvolvimentos  técnicos  e  a  evolução  das ferramentas    computacionais para análise de dados permitiram avanços na compreensão da        atividade eletrofisiológica do hipocampo. Por exemplo, (1) foi observado que a        ativação das células de lugar está acoplada a determinadas frequências do        potencial de campo local (PCL), como as oscilações teta (5-10 Hz) e gama (30-80        Hz) (O'Keefe e Reece, 1993; Csicsvari et al., 2003; Senior ​et al., 2008).              Observou-se ainda que (2) as oscilações teta e gama acontecem no hipocampo de        roedores não somente durante os estados de alerta e de exploração ativa da        vigília, mas também surgem durante o sono MRO (Buzsaki, 2002;        Scheffer-Teixeira et al., 2012). Além disso, as análises da relação entre a fase das        oscilações e os disparos de potenciais de ação mostraram que (3) os disparos das        células de lugar ao longo do seu campo receptivo espacial variam em função da        fase do ciclo da oscilação teta subjacente (O'Keefe e Reece, 1993). Essa variação        de fases acontece de maneira ordenada, dando origem a uma precessão das        fases da onda onde os disparos acontecem à medida que o animal atravessa o        campo espacial dessa célula (Jensen e Lisman, 2000; O'Keefe e Reece, 1993).        Além da relação com as oscilações teta, acredita-se que (4) a coordenação       

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temporal exercida pelo PCL sobre os disparos de grandes populações de        neurônios permita a formação de assembleias neuronais (Harris et al., 2003),        descrita por Donald Hebb em 1949 como agrupamentos de neurônios que se        ativariam juntos para codificar uma representação mental (Hebb, 1949). 

Mais recentemente, Hafting e colaboradores (2005) registraram no córtex        entorrinal medial, uma região que envia projeções ao hipocampo, e descobriram        neurônios que disparam potenciais de ação periodicamente no espaço, com        campos espaciais em formato de grades, chamando-lhes assim de células de        grade (do inglês, ​grid cells​). Esse achado, acompanhado da descoberta das              células de lugar ocorrida no anos 70, fez com que John O’Keefe, Edvard Moser e        May-Brit Moser fossem agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia        em 2014 (Moser, Moser e O’Keefe, 2014). 

 

Microdrive de tetrodos móveis 

 

  

Uma dificuldade técnica para a obtenção de registros extracelulares da        atividade de disparos de unidades neuronais individuais no hipocampo de        roedores decorre do fato de as camadas celulares CA1, CA2 e CA3 apresentarem        os corpos celulares altamente compactadas em densas camadas. Para sobrepor        essa dificuldade, foram desenvolvidas duas técnicas para discriminar potenciais        de ação provenientes de diferentes neurônios a partir de registros extracelulares.        Inicialmente, foram usados estereotrodos (McNaughton et al., 1983), que se        caracterizam por dois eletrodos de mesmo material e espessura, agrupados        paralelamente e girados sobre o próprio eixo (O'Keefe e Reece, 1993; Wilson e        McNaughton, 1993). Posteriormente, foram usados tetrodos, caracterizados como        quatro eletrodos agrupados da mesma forma (Figura 5-A). Esses eletrodos        registram os mesmos disparos provenientes de uma pequena população neuronal,        e análises computacionais posteriores permitem então a caracterização de        unidades neurais individuais de acordo com os parâmetros do formato de onda        dos potenciais de ação registrados simultaneamente nos diferentes canais do        tetrodo (Figura 5-B). Esses desenvolvimentos metodológicos ​tornaram o registro       

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utilizando tetrodos a principal técnica eletrofisiológica para o estudo de        populações de neurônios individuais no hipocampo de roedores, e assim        permitiram a caracterização detalhada da atividade de disparos das células de        lugar. 

 

 

Figura 5: Esquema ilustrativo da classificação de unidades neuronais a partir do registro        eletrofisiológico feito com tetrodo. A figura à esquerda (A) representa um esquemático de um        tetrodo localizado nas proximidades de 3 neurônios representados pelas cores vermelho, verde e        azul. A figura à direita (B) mostra um exemplo do processo de registro e classificação neuronal. O        sinal eletrofisiológico bruto é filtrado em baixas (1-1000 Hz) e altas (500-6000 Hz) frequências para        se obter o potencial de campo local e os disparos neuronais, respectivamente. A classificação dos        disparos é feita a partir da discrepância do formato de onda do disparo de cada neurônio,        mostrado na figura pelas cores seguindo os neurônios da figura (A). Figura ilustrada por Rodrigo        Pavão e modificada por Rafael Pedrosa. 

 

Junto das técnicas de estereotrodo e tetrodo, foi desenvolvido também um        sistema para a movimentação progressiva dos eletrodos após a cirurgia de        implante, o microdrive. Esse aparelho permite a execução de ajustes finos no        posicionamento de modo que a ponta dos eletrodos esteja o mais próximo        possível dos neurônios registrados. Dependendo da necessidade, os eletrodos        podem se mover juntos ou individualmente, múltiplas vezes, e até mesmo com os        animais acordados. O uso dos microdrives também permite que o        experimentalista atinja o alvo no cérebro em diferentes camadas a partir de um        sistema móvel de parafuso que controla a altura do eletrodo no cérebro após a        cirurgia. Um exemplo de microdrive é mostrado na Figura 6. 

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  Figura 6: Ilustração de um microdrive implantado em um rato. Em (A) e (B) temos um exemplo de          um animal implantado com um microdrive revestido de um papel laminado. (C) mostra o microdrive        pós implantado. Figura retirada de J. Yamamoto e Matthew Wilson (2008). 

 

Os primeiros microdrives eram construídos usando componentes de metal        e plástico líquido, mas hoje em dia sua principal base é feita de componentes        plásticos produzidos por impressoras 3D. A principal vantagem desses        componentes plásticos é o baixo peso, alta precisão, baixo custo e a velocidade        da produção, consumindo muito menos tempo que o modelo anterior. Além disso,        as versões mais recentes se aprimoraram também em utilizar um maior número de        canais para registro, juntamente com técnicas de manufatura mais rápida. 

Atualmente, o foco de melhorias nessa técnica ainda está voltado para o        aumento de número de tetrodos para controle individual juntamente com redução        do peso. Dos microdrives disponíveis no mercado atualmente, o flexDrive® é o        que apresenta uma melhor versão da relação peso/tetrodos, sendo o mais       

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utilizado nos laboratórios que trabalham com registro de unidades neuronais em        larga escala (Figura 7).   

 

 

Figura 7: Comparação entre os diferentes tipos de microdrives que existem atualmente. O eixo X é          o número individual de agrupamento de eletrodos que se podem mover individualmente. Em Y o        peso de cada microdrive. A linha cinza é o peso limite que um camundongo pode sustentar.        Retirado de Voigts et al (2013). 

 

O assunto abordado nesse tópico da introdução será necessário para o

       

entendimento do capítulo 1 desta dissertação. A saber, o trabalho desenvolvido        visou a implementação da técnica de registro eletrofisiológico através da utilização        de microdrives de múltiplos tetrodos móveis, uma tecnologia ainda incipiente no        Instituto do Cérebro da UFRN e no Brasil. Conforme visto nos outros tópicos        abordados nesta introdução, o desenvolvimento de tal tecnologia permitirá a        realização de pesquisas sobre importantes temas atuais da eletrofisiologia        hipocampal, como o estudo da atividade das células de lugar e de suas relações        com as oscilações neuronais. 

   

 

 

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II - Capítulo 1: Desenvolvimento de microdrives de 

tetrodos móveis

  

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A técnica de microdrive de tetrodos móveis, além de ser a mais eficaz        quanto ao quesito de número de neurônios registrados, vem sendo extremamente        utilizada em diversos laboratórios ao redor do mundo. Apesar de haver avanços        em sua eficiência, esse sistema ainda é dependente de peças e ferramentas        específicas produzidas por empresas ou grupos que monopolizam o mercado, e,        com isso, o valor individual de compra de cada microdrive ainda é inviável para        muitos laboratórios de países em desenvolvimento. Pensando nisso, e com        interesse em implementar a técnica no Brasil, desenvolvemos dois diferentes        protótipos de microdrives utilizando uma impressora 3D e uma máquina de        comando numérico computadorizado (CNC).  

 

1. Objetivos 

   

1.1 Objetivo geral 

Desenvolver um novo protótipo de microdrives de tetrodos móveis e        implantar sua técnica no Laboratório de Neurofisiologia Computacional do        Instituto do Cérebro da UFRN. 

 

1.2 Objetivos Específicos 

1 – Desenvolver um protótipo de microdrive móvel para implantes em ratos.   

2 – Utilizar o método de montagem em blocos para facilitar sua manufatura. 

  

2. Métodos 

   

2.1 Microdrive de tetrodos móveis 

Desenvolvemos um protótipo próprio de microdrive inspirado em modelos        já existentes na literatura. Foram testadas tanto estratégias de confecção dos        protótipos via CNC quanto através de impressão 3D, e utilizados ​polylactic acid          (PLA) e ​acrylonitrile butadiene styrene (ABS). Foram empregados conectores             

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Omnetics® para a conexão do microdrive ao sistema de registro. Além disso,        parafusos e cânulas mais baratos foram adaptados aos microdrives        desenvolvidos. 

 

2.2 Tetrodos 

Os tetrodos foram formados por quatro microeletrodos de nicromo ou        tungstênio de 12,5 µm de diâmetro, revestidos de Teflón® (Politetrafluoretileno), e        emaranhados a partir de giros em relação ao seu eixo principal. Antes da cirurgia        de implante, os microeletrodos tiveram sua impedância corrigida para        aproximadamente 70 KΩ a 100 KΩ a partir da eletrólise em solução de ouro        contendo nano tubos de carbono, e de acordo com Redish e colaboradores        (2009).  

 

2.3 Manufatura do microdrive de tetrodos móveis 

Para a manufatura do microdrive é necessário imprimir e construir as partes        (usando a impressora 3D): 1) ​Support board - placa central em que o microdrive        será montado; 2) ​Protection base – estrutura tipo um cone que prevê sua        proteção; 3) ​Guide platforms – componentes para guiar o tetrodo, controlados por        parafusos; 4) ​Guiding base – peça encaixada embaixo da protection base e usada                  para a distribuição espacial dos tetrodos no eixo XY; 5) ​Microdrive cover - tampa        para a proteção do microdrive quando não estiver em uso. A Figura 11 mostra um        passo a passo do processo de manufatura. As peças podem ser encontradas para        impressão no link: ​https://github.com/tortlab/Open-Source-Microdrive​. 

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Figura 8: ​Processo de manufatura do tetrodo e microdrive. (A) Para a manufatura do tetrodo,          cortamos dois pedaços de fio revestido de 20 cm de comprimento (níquel-cromo ou tungstênio,        12,5 µm diâmetro), dobramo-os juntos em forma de U e prendemos o laço na presilha pelas 4        pontas. B) & C) Abaixamos o suporte para suavemente prender a presilha no imã magnético para        começar o protocolo de giro. D) depois do giro, usamos a ​heatgun ​para grudar os fios. Em seguida,              cortamos o tetrodo perto da presilha e removemos cuidadosamente. E) Materiais usado para a        confecção dos tetrodos/microdrive com o sistema de aquisição. Soldamos o conector ​Omnetics na       

printed circuit board (PCB) ​usando solda em pasta. Parafusos e porcas foram usados para prender                a PCB na ​Support board​. ​O terra (fio de prata ou aço inoxidável) também foi soldado na ​PCB e                  preso aos parafusos na ponta. F) Partes 3D do Microdrive: ​Microdrive cover​, ​Support board, Guide                platforms, Protection base ​e ​Guiding base. ​Cada uma das 16 ​guiding units ​é composta de barras                                de 19Ga, parafuso, porcas e uma cânula de 22Ga. ​Para cada ​guiding unit, tem-se 3 furos                      radialmente alinhados com a ​Support board ​para a barra, parafuso e cânula de 22Ga. Um pequeno                  tubo de sílica (que vai carregar o tetrodo) foi inserido dentro da cânula de 22Ga, e colado nele junto        da ​Guide platform​. A ​Guide platform desce pelo apoio da barra de 19Ga a partir do giro do                parafuso, onde carrega a cânula de 22Ga e o pequeno tubo de sílica para a ​Support board​. Dentro            da ​Support board​, o pequeno tubo de sílica desliza dentro de um tubo de sílica maior de 27G. A         

Support board encaixa na ​Protection base e essa por sua vez na ​Guiding base​. G) Um passo                          adicional no conjunto do microdrive é o ancoramento das ​guiding units e das sílicas maiores de              27Ga (azul) dentro da ​Support board​. Note que o pequeno tubo de sílica (verde) vai dentro do tubo                da sílica de 27Ga (azul). Em outra etapa, as ​guiding units são baixadas a partir do giro dos              parafusos, sendo ambas as sílicas cortadas na parte superior da ​Guiding base​. Depois, eles são                movidos de volta para cima e os tetrodos são carregados e colados nos pequenos tubos de sílica.        H) Vista superior do microdrive sem as ​guiding units​. A ​Support board possui 3 filas circulares de                    furos, através das quais são inseridas a cânula de 22Ga (fileira interna), o parafuso (fileira do meio,        porca marcando em verde) e a barra de 19Ga (fileira externa). I) Vista frontal/lateral da ​Protection        base​, ​Guiding base (fixada dentro por resina acrílica) e o tubo de sílica de 27Ga ainda não cortada.          Figura retirada de capítulo submetido. 

 

3. Resultados 

   

3.1 Microdrives 

3.1.1 Microdrive de 8 tetrodos móveis 

O primeiro protótipo de microdrive desenvolvido promove o movimento        simultâneo de 8 tetrodos que convergem na mesma região. O microdrive (5,0 cm        de altura; 1,4 cm de raio) apresenta uma parte móvel associada a 8 tetrodos        guiados por um parafuso de bronze com um passo de 0,28 mm a cada volta        (Figura 9). Uma placa de circuito impresso de fenolite foi desenvolvida para        conexão dos tetrodos e fio terra com o conector Omnetics®. As placas base        foram feitas com cortes precisos em uma CNC de modelo 3020. Os tetrodos se        encontram presos à sílica guia que se movimenta proporcionalmente ao passo        dado pelo parafuso guia. Em paralelo, as sílicas base estão fixadas à cânula presa        à placa base para estabilizar e direcionar a sílica guia com os tetrodos. 

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  Figura 9: Microdrive de 8 tetrodos móveis. Na figura vemos o esquemático do microdrive, sendo a        primeira figura à esquerda, a representação de perspectiva do protótipo, seguido da vista lateral e        por último da vista superior. São indicadas por letras as peças: a - tetrodos; b - parafuso guia; c -        Base de proteção; d - Conector Omnetics®; e - Sílica guia; f - Sílica base; g - Placas base. 

 

Ao todo 5 ratos foram implantados com esse modelo de microdrive, dos        quais foram obtidos registros de apenas 3. Os tetrodos foram progressivamente        aprofundados até a região do hipocampo. Os registros foram iniciados um dia        após observadas características eletrofisiológicas típicas do hipocampo, como a        ocorrência de SWR, oscilações teta de alta amplitude, rajadas (“bursts”) de        disparos de neurônios (típicos de neurônios piramidais). Ao fim de cada sessão de        registro, os tetrodos foram levemente aprofundados para o registro de novos        neurônios na sessão seguinte com intervalo mínimo de 20 horas entre sessões.    

3.1.2 Microdrive de 16 tetrodos móveis  

Com o objetivo de ampliar o número de tetrodos por implante, de se obter        movimentação individualizada, posicionamento preciso dos tetrodos de registro, e        de aumentar a quantidade de neurônios registrados, um segundo protótipo de        microdrive foi desenvolvido para o implante e registro bilateral da atividade        eletrofisiológica dos hipocampi de ratos. O microdrive (3,6 cm de altura; 2,3 cm de        raio e 14 gramas de peso) possui um sistema móvel de 16 tetrodos guiados        individualmente por 16 parafusos de bronze com um passo de 0,32 mm a cada        volta (Figura 10). Uma placa de circuito impresso de fenolite (modelo disponível        online pelo projeto ​Open ephys​) foi utilizada para conexão dos 64 canais trilhados             

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com conectores Omnetics® (2 conectores com 32 canais cada). As peças        plásticas para a montagem do corpo do microdrive foram impressas em PLA por        uma impressora 3D com bico extrusor de 0,4 mm de precisão aquecido a 220 ​°C,        a partir de um modelo desenvolvido 3D por nós​. 

No total, 5 ratos foram implantados com o microdrive de 16 tetrodos        móveis, dos quais foram obtidos registros de apenas 3 animais. Por enquanto,        nem todos os registros colhidos foram analisados (ver na seção “VI - Animais        implantados”). 

 

 

Figura 10​: Microdrive de 16 tetrodos móveis. Na figura vemos um protótipo 3D do microdrive,        sendo apresentado na sequência as vistas de perspectiva, frontal e superior. As peças são        indicadas por letras: a - Tetrodos; b - Base de proteção; c - Plataforma guia; d - Conector        Omnetics®; e - Base guia.  

   

3.1.2.1 Testes de resistência da Base de proteção 

Testes de deslocamento e tensão (von Mises Stress) foram feitos para o        desenvolvimento de uma melhor estrutura de proteção do Microdrive (Figura 11).        Em simulação, foram definidos parâmetros como: material Abs, base fixada na        região inferior da Base de proteção e uma força de 2 N na região superior/lateral        para uma simulação de uma eventual batida forte do animal após implantado.  

A simulação mostra que a peça apresenta maior deslocamento na região        superior, onde não há contato direto com nenhuma outra parte do microdrive        (Figura 11-A), podendo assim se movimentar sem que haja qualquer dano na       

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estrutura. A parte inferior, que é fixada na cabeça do animal com acrílico, não        apresentou qualquer movimentação no teste, proporcionando assim uma baixa        força de cisalhamento entre o implante e o acrílico. 

Figura 11​: Testes de deslocamento e tensão na base de proteção. Em (A) vemos um mapa de

         

calor do deslocamento da estrutura quando aplicada uma força de 2 N (representada pela seta        branca). Note que a região inferior da Base de proteção, a qual será fixada no animal, segue intacta        a qualquer movimento. (B) mostra o ​von Mises Stress​, um tipo de medida de tensão da peça.                Perceba que existe pouco estresse no geral e que o vazamento ajuda na dissipação da tensão.  

 

O ​von Mises Stress ​é uma medida de tensão baseada na relação da energia                de cisalhamento com o limite máximo de tensão do objeto. Foi observado que        houve pouco estresse na estrutura no geral (Figura 11-B). Os vazamentos da peça        ajudam na dissipação da tensão sofrida na base e na diminuição do peso,        influenciando assim na durabilidade do implante. 

 

3.2 Posicionamento dos tetrodos 

Como já dito anteriormente, uma das principais vantagens do uso de        microdrives é o reposicionamento dos tetrodos para registro de diferentes        neurônios ao longo do tempo. Como forma de validar o funcionamento do passo        dos parafusos, fizemos implantes crônicos dos microdrives em ratos com alvo em        CA1 e registramos sua atividade ao longo de diferentes camadas do tecido        cerebral (mais informações no capítulo 2). Sabendo que cada volta completa no        parafuso representa 0,32 mm, descemos os tetrodos progressivamente no        decorrer dos dias. Inicialmente o dado de cada tetrodo colhido foi filtrado entre       

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500-6000 Hz para detecção dos disparos e seus formatos de onda foram        armazenados. Em seguida analisamos a diferença de pico/pico de dois canais em        diferentes tetrodos ao longo de seu deslocamento no tecido cerebral (Figura 12).        Com propósito de registrar a camada piramidal de CA1 dorsal (2,3 mm de        profundidade a partir do início do córtex), espera-se que aproximadamente 7,2        voltas no parafuso seja suficiente para atingir o alvo. Nos registros da figura 12, a        camada piramidal foi atingida com 7,5 e 7,2 voltas no parafuso.  

Nossos resultados mostram também que no decorrer da descida dos        tetrodos, particularidades da camada piramidal puderam ser observadas, como        maiores agrupamentos de disparos (Figura 12- A e B). Vimos também que, quando        no alvo, um leve torque no parafuso é suficiente para avistar novos agrupamentos        de disparos (Figura 12-C). Esse resultado se assemelha com o do Flexdrive® já        mostrado por Voigts e colaboradores, 2013. 

Figura 12​: Reposicionamento do tetrodo ao longo dos dias. Em (A) e (B) vemos dois tetrodos em        diferentes alturas no tecido cerebral, onde comparamos o pico/pico de 2 canais. Em cinza temos       

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um provável alvo da camada piramidal. (C) Representa um tetrodo possivelmente na camada        piramidal que apresenta diferença de agrupamentos no decorrer de pequenas descidas.

 

 

 

 

 

 

 

 

III - Capítulo 2:​

Implantação da técnica de registro de células 

de lugar utilizando microdrives de tetrodos móveis em ratos 

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Embora o estudo dos correlatos neurais da codificação espacial constitua        uma área extremamente ativa de pesquisa atual, até o presente momento nenhum        laboratório no Brasil publicou estudos envolvendo registro de células de lugar, o        que portanto caracteriza um atraso científico de mais de 40 anos em relação aos        laboratórios de países desenvolvidos. O Laboratório de Neurofisiologia        Computacional do Instituto do Cérebro da UFRN, coordenado pelo orientador do        aluno de mestrado da presente dissertação, possui grande interesse nesta área de        pesquisa, e, de fato, já vem contribuindo para tal através da análise computacional        de registros de células de lugar colhidos por terceiros e que estão disponíveis na        internet em sites de compartilhamento de dados científicos (por exemplo, ver       

www.crcns.org​). Contudo, por já estarem colhidos, as perguntas que podem ser        respondidas por estes dados são restritas. Neste sentido, a fim de ganhar mais        autonomia científica, torna-se necessário que o laboratório, além de sua expertise        na análise computacional dos registros, também desenvolva expertise        experimental na coleta de seus próprios dados de atividade de células de lugar.        Para tanto, uma primeira etapa crucial é a implementação da tecnologia de        registros eletrofisiológicos do hipocampo através do uso de microdrives de        tetrodos móveis. Portanto, almejamos aqui uma validação da técnica, que servirá        de importante base para estudos futuros visando compreender a formação de        novas memórias espaciais dependentes do hipocampo.  

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Assim, o presente estudo visou implementar um sistema de registro        eletrofisiológico utilizando o novo protótipo de microdrive contendo 16 tetrodos        móveis desenvolvido no presente projeto (ver capítulo 1). Para validar este        protótipo, registramos a atividade de populações de células de lugar na região        CA1 do hipocampo dorsal de ratos durante uma tarefa de exploração de um        labirinto linear associado a recompensas de água nas extremidades.  

           

1. Objetivos 

    1.1 Objetivo geral 

Implementar no Laboratório de Neurofisiologia Computacional do Instituto        do Cérebro da UFRN a técnica de registro de potenciais de ação de células de        lugar no hipocampo de ratos utilizando um novo protótipo de um microdrive de        tetrodos móveis. 

 

1.2 Objetivos Específicos   

1 – Utilizar o novo protótipo de microdrive para o implante crônico de 16 tetrodos        móveis que possam ser precisamente posicionados após a cirurgia de implante.   

2 – Utilizar tetrodos para registro eletrofisiológico do potencial de campo local e        da atividade de neurônios hipocampais individuais. 

  

3 – Realizar o registro eletrofisiológico de potenciais de ação e de potenciais de        campo local na subárea CA1 do hipocampo dorsal de ratos enquanto os animais       

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buscam recompensa de água nas extremidades de um labirinto linear e durante o        sono pré e pós tarefa para futuras análises. 

  

4 – Aplicar ferramentas de classificação de disparos (“​spike sorting​”) para            identificação de unidades neuronais individuais a partir das propriedades das        formas de onda do potencial de ação. 

  

5– Fazer a análise do registro eletrofisiológico para quantificação da taxa de

       

disparos neuronal em relação à posição do animal ao longo do labirinto linear, a        fim de detectar células de lugar. 

         

Métodos 

    2.1 Sujeitos experimentais 

Utilizamos 10 ratos wistar machos adultos (​Rattus Norvegicus​) entre 2 e 4              meses de vida. Os animais foram mantidos em gaiolas coletivas sob ciclo        claro-escuro de 12 horas com água e ração ​ad libitum​. Os experimentos foram                  realizados em sua maioria na fase clara do ciclo. Todos os experimentos seguiram        as normas éticas estabelecidas pelo comitê de ética animal (CEUA 058/2016). 

 

2.2 Protocolo de aprendizado espacial 

Os animais foram submetidos a uma tarefa de aprendizado espacial para        obtenção de recompensa de água em labirinto linear. Alguns animais também        foram submetidos a sessões de sono de uma hora de duração antes e após a        execução da tarefa (Figura 13). Os animais foram privados de água durante as 18        horas que antecederam os experimentos. Ao final das sessões diárias de        experimento, os animais receberam água ​ad libitum durante 6 horas. A cada dia                 

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do protocolo da tarefa, o animal foi submetido a uma sessão de exploração do        labirinto linear (180 cm de comprimento por 21 cm de largura) com duração de 30        minutos. A tarefa consistiu do deslocamento espacial do animal a partir de uma        extremidade do labirinto até a outra para a obtenção de uma recompensa de        água. A presença dos animais foi detectada por sensores de infravermelho        instalados nas paredes do labirinto e localizados a 25 cm do local de recompensa.        Ao passar pelos sensores, a presença do animal ativa um sistema automatizado        que aciona a liberação de 60 µL de água. A próxima recompensa liberada por esse        sensor só pode ser acionada após o animal visitar a outra extremidade do        labirinto. Foram registrados automaticamente os instantes de tempo em que o        animal atravessa os sensores. O comportamento dos animais foi registrado por        meio de uma câmera de vídeo digital (Logitech® c920) localizada        aproximadamente 200 cm acima do labirinto linear. Os arquivos foram adquiridos        à taxa de 30 imagens por segundo e armazenados em disco rígido para análise        posterior.  

 

  Figura 13: Ilustração do protocolo de labirinto linear utilizado na tarefa comportamental. O labirinto       

é feito de madeira em suas extremidades e revestido de acrílico em suas paredes, sendo ele        conectado a sensores de infravermelho próximos à extremidade para detectar a presença do        animal e liberar a recompensa de água. Um LED vermelho é acoplado com o sensor infravermelho        para a sincronização do registro eletrofisiológico por vídeo. 

 

2.3 Neurocirurgia para implante de microdrive 

Cada animal foi submetido a uma cirurgia estereotáxica para o implante        permanente de um microdrive contendo oito ou dezesseis tetrodos móveis. Os        animais foram anestesiados através da administração intramuscular de sulfato de       

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atropina (0,04 mg/kg), seguido de cloridrato de cetamina (100 mg/kg) e cloridrato        de xilazina (8 mg/kg).       ​Durante a cirurgia, o nível da anestesia era periodicamente        verificado através de alterações das frequências cardíaca e respiratória, e de        outros sinais fisiológicos como o reflexo da cauda. Doses suplementares de        cetamina (metade da dose inicial) eram administradas quando necessário. Todos        os esforços foram empregados para minimizar o sofrimento animal durante os        procedimentos experimentais. Após tricotomia, o animal foi posicionado em um        aparelho estereotáxico (Kopf). Lidocaína foi injetada no tecido subcutâneo        craniano onde foi realizada uma incisão longitudinal, expondo o crânio. O centro e        os quatro pontos marginais da craniotomia foram marcados segundo as        dimensões do microdrive de tetrodos e segundo as coordenadas estereotáxicas        da subárea CA1 do hipocampo dorsal (AP: -4,16 mm; ML: +2,4 mm; DV: 2,40 mm).        Brocas dentais de diâmetro apropriado foram utilizadas para a realização da        craniotomia de uma janela quadrada, e de seis pequenas perfurações para        inserção  de  parafusos  de  sustentação  e  de  dois  parafusos  de  sustentação/aterramento. Os dois parafusos de sustentação/aterramento foram        implantados na região occipital, e entraram em contato com o líquido        cefalorraquidiano cerebelar, servindo como aterramento elétrico dos eletrodos de        registro. Os parafusos de sustentação/aterramento foram soldados a fios de aço e        conectados ao canal de referência da placa de circuito acoplada ao microdrive.        Após craniotomia da janela, as meninges cerebrais foram cuidadosamente        retiradas, expondo assim o córtex cerebral e permitindo a penetração dos        tetrodos. Durante a cirurgia de implante, os tetrodos foram inseridos apenas        superficialmente no tecido cerebral, aproximadamente 1 mm (equivalente a 3        voltas no parafuso-guia). O posicionamento final dos tetrodos na camada        piramidal de CA1 foi realizado conjuntamente à visualização dos sinais captados,        após a recuperação pós-cirúrgica dos animais. Acrílico dental polimerizável foi        usado para confeccionar um capacete sobre o crânio, dando sustentação e        estabilizando a posição final do microdrive. Após a cirurgia, os animais receberam        antibiótico Fluotril (i.m.) na dose de 2,5 mg/kg. Os animais tiveram acesso livre        diário a 200 ml de água contendo 20 gotas do analgésico paracetamol (200       

Referências

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