UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
ESCOLA DE MÚSICA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFISSIONAL EM MÚSICA
WILSON FERNANDO TEIXEIRA DA SILVA
PLANO SETORIAL DE MÚSICA:
UMA PROPOSTA DE GESTÃO PARA O SETOR MUSICAL DA BAHIA
Salvador
2017
PLANO SETORIAL DE MÚSICA:
UMA PROPOSTA DE GESTÃO PARA O SETOR MUSICAL DA BAHIA
Trabalho de Conclusão Final apresentado ao Programa de Pós-Graduação Profissional em Música, Escola de Música, Universidade Federal da Bahia, como requisito para obtenção do Grau de Mestre em Música.
Orientadora: Profa. Katharina Doring
Salvador
2017
S586 Silva, Wilson Fernando Teixeira da
Plano Setorial de Música: uma proposta de gestão para o setor musical da Bahia / Wilson Fernando Teixeira da Silva.-- Salvador, 2016.
74 f.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal da Bahia. Escola de Música, 2016.
Orientadora: Profa. Katharina Doring
1. Plano Setorial de Música – Bahia. 2. Lei Orgânica da Cultura. I. Título.
CDD 780
A minha Mãe,
Ruth Teixeira da Silva, pelo exemplo de vida, pela formação de meu caráter, pela dedicação e carinho sempre presentes. E pela memória de meu Pai, Aldair José da Silva.
A minha amada Cida, esposa querida, pelo incentivo, confiança, auxílio, companheirismo e amor a mim dedicados há mais de 23 anos de feliz convivência.
Aos meus filhos, Heron, Khadija e Thainá, pelo incentivo, amizade e o grande amor que nos une.
Em primeiro lugar a Deus, pela sua misericórdia, e por me permitir saúde, vontade de viver, e conduzir-me a escolha da música como profissão de vida.
À Profa. Dra. Katharina Dóring, pela orientação, incentivo, paciência, competência e confiança dispensados durante o desenvolvimento e conclusão deste trabalho de pesquisa; Aos meus Professores do Mestrado profissional: Mara Menezes, Flavia Candusso, Lucas Robatto pela oportunidade da convivência e ensinamentos durante o período do curso, e uma saudação especial ao Prof. Dr. Paulo Costa Lima, pelo seu jeito de ensinar com muita intensidade, conhecimento e sabedoria;
Um agradecimento especial ao Prof. Dr. Celso José Rodrigues Benedito, pelo incentivo, confiança e grande amizade que vem sendo irmanamente cultivada há muitos anos.
Aos novos amigos do Mestrado, turma 2015, André Felipe, Astrid Evers, Clistenes André, Cristiano Lira, Danilo Valadão, Isabela Rêgo, Franklin Araújo, Hugo Sanbone, Marialice Regis, Saulo Ferreira, Tiago Lobatto e Valnei Souza, pelo início de fortes amizades, convivência harmoniosa e companheirismo durante este curso de Mestrado Profissional.
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo registrar suscintamente, através do presente memorial, a trajetória do plano setorial de música, com destaque para minha atuação pessoal na política do setor musical na Bahia. Além disso, são apresentadas as atividades como discente no Mestrado Profissional da Escola de Música da UFBA, abrangendo aquelas exercidas durante a pesquisa, com a descrição das disciplinas e os respectivos trabalhos realizados. O trabalho é completado pelo artigo intitulado, “Plano setorial de música: uma proposta de gestão para o setor musical da Bahia” como resultado da investigação realizada. Em anexo consta a minuta do Decreto para aprovação do Plano Setorial de Música e texto do referido Plano, e os formulários de registro das Práticas Profissionais Orientadas.
Palavras-chave: Plano Setorial de Música; Sistema Estadual de Cultura; Lei Orgânica da Cultura.
de Música, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2016.
ABSTRACT
The present work aims to record briefly, by means of this memorial, the trajectory of the music sector plan, with emphasis on my personal performance in the musical sector policy in Bahia. In addition are presented as activities students in Master of the school of music of the UFBA, including those carried out during the search, with the description of the subjects and their work. The work is completed by article titled, "Sector plan: a management proposal for the musical sector of Bahia" as a result of the research carried out. In annex the draft Decree account for approval of Sectoral Plan of music and text of the plan, and the registration forms of Professional-oriented Practices.
CEC - Conselho Estadual de Cultura
CNPC – Conselho Nacional de Política Cultural ETEFES – Escola Técnica Federal do Espírito Santo
FAZCULTURA - Programa Estadual de Incentivo à Cultura FUNART – Fundação Nacional de Artes
FUNCEB - Fundação Cultural da Bahia
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IMA – Independência Musical Associada
LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação MinC – Ministério da Cultura
MPB – Música Popular Brasileira
PSMBa - Plano Setorial de Música da Bahia PEC – Proposta de Emenda Constitucional PNC – Plano Nacional de Cultura
PT – Partido dos Trabalhadores
SAI – Secretaria de Articulação Institucional SEC – Sistema Estadual de Cultura
SECULT – Secretaria Estadual de Cultura SIC – Sistema de Informações Culturais
SIIC – Sistema de Informações e Indicadores em Cultura SNC – Sistema Nacional de Cultura
SUDECULT – Superintendência de Cultura UFES – Universidade Federal do Espírito Santo UFBA – Universidade Federal da Bahia
1 MEMORIAL 10
APRESENTAÇÃO... 10
1.1 UM POUCO DE MINHA HISTÓRIA MUSICAL 11 1.1.1 O despertar para a música... 11
1.1.2 Vivenciando a política musical... 13
1.2 O MESTRADO PROFISSIONAL DE MÚSICA DA UFBA 14 1.2.1 Do projeto de pesquisa... 14
1.2.2 Das disciplinas... 17
2 ARTIGO ACADÊMICO... 23
2.1 INTRODUÇÃO... 24
2.2 A POLÍTICA CULTURAL NO BRASIL: BREVE HISTÓRICO... 26
2.3 CRIAÇÃO DO SISTEMA NACIONAL DE CULTURA – SNC... 28
2.4 O PROCESSO DE IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA ESTADUAL DE CULTURA DA BAHIA... 32 2.5 A CONSTRUÇÃO E IMPLANTAÇÃO DOS COLEGIADOS SETORIAIS DE ARTES DA BAHIA... 36 2.6 O PLANO SETORIAL DE MÚSICA DA BAHIA – PSMBa... 38
2.6.1 Objetivos e estratégias do Plano Setorial de Música da Bahia – PSMBa... 40
2.6.2 A implantação do PSMBa: processos, expectativas e ressonâncias... 41
2.6.3 PSMBa - Potencialidades e fragilidades... 45
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 47
REFERÊNCIAS... 49
ANEXOS 51 ANEXO 1 – Minuta de Decreto do Plano Setorial de Música da Bahia... 51
ANEXO 2 – Plano Setorial de Música da Bahia... 54
1 MEMORIAL
APRESENTAÇÃO
O presente memorial visa a integralização dos créditos necessários para a conclusão do Curso de Mestrado Profissional em Música da Universidade Federal da Bahia (UFBA) iniciado no primeiro semestre de 2015. O Memorial compõe-se de duas partes.
A primeira apresenta a minha trajetória pessoal, abrangendo, a história do meu despertar para música, descrevendo suscintamente a minha vivencia musical, no que concerne a estudos e trabalho profissional até o presente momento. E ainda destacando a descoberta da política da área musical, que tem marcado e transformado a minha atuação na música, considerando a minha atuação como presidente do Colegiado Setorial de Música da Bahia e atualmente, como membro titular do Conselho Estadual de Cultura da Bahia.
A segunda parte apresenta o Projeto de Pesquisa intitulado “Plano setorial de música: uma proposta de gestão para o setor musical da Bahia”, explana sobre as disciplinas cursadas e seus programas, ementas e os trabalhos disciplinares desenvolvidos ao longo do curso, que forneceram elementos conceituais importantes para a contextualização e análises do objeto de estudo, que direta ou indiretamente auxiliaram na compreensão e elaboração da pesquisa.
A pesquisa tem por objetivo principal descrever o novo modelo de gestão de política cultural, iniciado no Brasil em 2003, compartilhada entre o Poder Público e a Sociedade Civil, traçando um novo rumo nas decisões sobre as políticas culturais no Brasil. Anteriormente, as ações das políticas culturais, quando existiam, eram resolvidas nos gabinetes, com decisões impostas pelo poder público à sociedade.
A mudança ocorrida na gestão do Ministro Gil, e acompanhada pelo seu sucessor Juca Ferreira, tem como cerne a gestão compartilhada com a sociedade civil. Deste momento em diante, o Poder Público assumiu a cultura como uma política de Estado. Nesse contexto, tem-se o Plano Setorial de Música da Bahia – PSMBa, que consta de uma reivindicação ocorrida durante as Conferências Estaduais de Cultura que ocorreram a partir de 2005, tendo sido realizadas a cada dois anos na Bahia.
1.1 UM POUCO DE MINHA HISTÓRIA MUSICAL
1.1.1 O despertar para a música
Eu nasci carioca da gema, morador da zona norte do Rio de Janeiro, filho de um casal de mineiros. Um pintor/pedreiro e uma atuante costureira. Cresci ouvindo Dalva de Oliveira, Maísa, Luiz Gonzaga, Cauby Peixoto, Dircinha e Linda Batista, Ivon Cury, Hebe Camargo, Dick Farney, Francisco Alves, Dóris Monteiro, Marlene, e a preferida de minha mãe - Emilinha Borba a rainha do rádio do programa Cesar de Alencar, e como poderia me esquecer do álbum de recortes das revistas “Fatos e Fotos” e “Manchete” com fotografias de artistas do rádio que minha mãe, com muito orgulho, colecionava. Já meu pai ouvia Moreira da Silva, Jamelão, Lupicínio Rodrigues, Nelson Gonçalves e aos domingos os LPs de Glenn Miller Orchestra, Ray Conniff, Orquestra Tabajara, Bienvenido Granda com “Perfume de
Gardenia”, e a inesquecível voz rouca de Louis Armstrong com seu trompete agudíssimo,
entre outros LPs, que guardo até hoje.
Havia também a música da escola de samba do bairro, “Independentes de Cordovil”. Mas meus pais, talvez pela mineirice, quem sabe, e por não pertencerem a “tradição” do samba, não frequentavam os ensaios. Eu ouvia muita música em casa, e gostava de cantar. Lembro de minha mãe me levando para cantar no Clube do Guri um programa da Rádio Tupy, uma experiência boa e marcante.
Mudamo-nos para Vitória/ES, e a música continuou sempre presente em minha vida. Aos doze anos ganhei o meu primeiro violão, e comecei meu aprendizado observando outras pessoas tocarem. O que me motivava eram as rodinhas de violão, onde rolava o violão rasgado, como se dizia na época, onde aqueles que sabiam tocar, metiam a mão mesmo. E se ouvia de tudo, da jovem guarda ao samba enredo, passando pela seresta.
Talvez por observar o meu interesse, minha mãe levou-me ao meu primeiro professor de violão, Sr. Tassiano, onde comecei a compreender as posições e o nome dos acordes do violão. Posteriormente estudei com o professor Maurício de Oliveira, um grande violonista capixaba, que me abriu novos caminhos na execução do violão. Comecei a ouvir Baden Powell. A partir daí a música tomou conta de mim e passei a me dedicar mais aos estudos.
Por influência de meus pais ingressei, em 1971, no curso técnico de Estradas na antiga Escola Técnica Federal ES (ETFES), atualmente denominada CEFETs. Continuando a caminhada nos estudos, algum tempo depois, ingressei na Universidade Federal do ES - UFES e me formei em Geografia, em 1986, partindo logo depois para a Especialização Latu
Sensu em Sensoriamento Remoto na UNESP, em 1987 (Rio Claro/SP). Trabalhei com cartografia, sensoriamento remoto e georrefenciamento na Fundação Jones dos Santos Neves, autarquia do Governo do Estado do ES.
Casei e durante alguns anos de minha vida afastei-me da prática e do estudo do violão. Mas a música sempre estava ali, presente, colada em mim. Alguns anos depois, o casamento acabou. Apesar de ter trabalhado por mais de uma década como geógrafo, e estar em um emprego seguro na área de Planejamento Urbano na Fundação Jones dos Santos Neves, a música sempre esteve presente em minha vida. Mantinha os encontros em rodas para tocar, e continuava pesquisando de forma tão pulsante, que a partir de 1990, tomei a firme decisão de abandonar a geografia e passar a me dedicar totalmente à música.
Casei novamente, com alguém que gosta de minha música. Decidimos ir para São Paulo, em 1994, para estudar. Ela foi fazer Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, e eu graduação em música. Estudei por dois anos na Faculdade Livre de Música Tom Jobim. Depois ingressei na Faculdade Mozarteum e me formei em Bacharelado em Música, em 1999. Neste período tive como professor o violonista Henrique Pinto. Também ingressei em cursos livres de música, como: Curso de Harmonia com Claudio Leal – arranjador de Ivan Lins, e no curso de teoria e prática de instrumento na Escola Groove, com Levy Miranda. Entreguei-me totalmente a viver da música, ministrando aulas de violão, teoria musical, tocando em festas de aniversário a casamentos. Trabalhei como músico profissional nas noites paulistanas por muitos anos, que, com certeza foi a minha residência profissional.
Ainda em São Paulo, iniciei o Mestrado em música na UNESP em 2001, mas abandonei. O meu projeto de pesquisa teria como tema o Congo do Espírito Santo - uma manifestação musical profano/religiosa, onde são utilizados tambores feitos de pau cavado, às vezes oco por sua natureza, tendo em uma das extremidades uma cobertura de couro. Eles tocam um ritmo muito marcante com letras que falam de suas vidas e fatos pitorescos. A música “Madalena” que foi gravada por Martinho da Vila é um exemplo clássico, e era o Congo da Barra do Jucú, o local que escolhi para pesquisa. Mas ao constatar que estas manifestações não aconteciam só no Espírito Santo, mas também em outros Estados do Brasil, e que já haviam várias dissertações sobre o assunto, parafraseando Roberto Freire - perdi o
tesão e abandonei o Mestrado. Soma-se a isso o fato que já estávamos há dez anos em São
1.1.2 Vivenciando a política musical
Após dez anos de vivencia em São Paulo e a conclusão da graduação em música, nos mudamos para Salvador/BA, onde iniciei um trabalho com aulas de música em várias escolas, como: Portinari, SartreCoc, Escola São Paulo. Ao mesmo tempo comecei a desenvolver um trabalho musical em igrejas, como regente de coral e com cantos litúrgicos durante as missas. Durante cinco anos, liderei a banda “Oscaravelho”, apresentando composições próprias e releituras da MPB. Posteriormente, adquiri e coordenei um estúdio de gravação; fui coordenador geral da Independência Musical Associada – IMA. Com o término da banda
Oscaravelho montei a banda “Musikus.som” para atuar em eventos. Trabalhei também com
produção musical e shows autorais.
Mas o fato que tem marcado e transformado a minha atuação na música, desde que cheguei a Salvador, foi a “política cultural”. Venho acompanhando desde 2005, dois anos após a entrada de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, este novo modelo de gestão das políticas públicas para a cultura. Pude observar uma revolução de ideias na política cultural, com a introdução do conceito de gestão compartilhada, que tem como base a inserção da sociedade civil nas discussões e decisões destas políticas, ressaltando-se a prioridade do Poder Público em adotar a cultura como uma política de Estado.
Nesse processo acompanhei a criação das Câmaras Setoriais de Música pela FUNARTE, participei dos Fóruns Estaduais de discussão sobre a música; acompanhei as Conferências sobre Cultura tanto a nível nacional como estadual, e participei das Feiras Internacionais de Música que aconteceram em Recife e Belo Horizonte. Fui eleito membro do Colegiado Setorial de Música do Conselho Nacional de Política Cultural – CNPC, em Brasília, e também, no mesmo período, na Bahia, fui eleito membro e presidente do Colegiado Setorial de Música da Bahia – ligado a SECULT, de 2012 a 2014.
No Colegiado Setorial de Música/BA, entre outros trabalhos, podemos destacar: a abertura de diálogo com a Secretaria de Educação sobre implantação da Lei 11.769/2008 que dispõe sobre a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas; e a elaboração e conclusão do Plano Setorial de Música da Bahia - PSMBa, como está previsto na Lei 12.365/2011 - Lei Orgânica Estadual da Cultura. O PSMBa estabelece diretrizes, objetivos e ações, pelos próximos dez anos, que promovam, protejam e incentivem a cultura musical considerando a sua diversidade.
A motivação, portanto, para a realização da minha pesquisa decorre do fato da minha atuação profissional como músico e produtor musical em Salvador, aliado à participação ativa
nos Colegiados, em âmbito federal e estadual, e, consequentemente no processo de elaboração do Plano, acompanhando desse modo, o momento atual caracterizado por um novo modo de pensar a cultura, e em particular, o setor musical.
Fui eleito como membro Titular do Conselho Estadual de Cultura da Bahia - CEC/BA, onde continuo ativo até o final de 2018. Neste sentido e com o propósito de melhor compreender e contribuir com a erudição e fruição na evolução da cultura musical, retornei à academia. Busco neste Mestrado Profissional (UFBA) aprofundar meus estudos sobre política cultural, tendo com recorte a música, por ser minha área de atuação.
1.2 O MESTRADO PROFISSIONAL DE MÚSICA DA UFBA
1.2.1 Do Projeto de Pesquisa
A atuação do Ministério da Cultura (Minc) no Brasil tem como marco divisório o Governo Lula, em 2003, que trouxe consigo a gestão do Ministro Gilberto Gil, tendo representado, sem sombra de dúvida, um enorme avanço relativamente ao novo papel que a importância da cultura e da política cultural passou a desempenhar no cenário nacional. Nesse sentido, pode-se registrar uma revolução de ideias sobre a gestão cultural, ressaltando a prioridade em adotar a cultura como uma política de Estado. Além disso, a introdução do conceito de gestão compartilhada, com a inserção da sociedade civil nas discussões e decisões com relação às políticas públicas, estratégias e ações, inaugurou um novo paradigma para alavancar o desenvolvimento e o fortalecimento do setor em nosso país.
Com relação à área musical, em particular, foram realizadas vários esforços e ações que permitiram ao MinC, em mais de uma década de trabalho, alavancar avanços importantes na consolidação de uma gestão inovadora e participativa. Dentre as várias ações implementadas pelo Minc para alavancar a política cultural no país destacamos: em 2005, a criação da Câmara Setorial de Música pela FUNARTE, instituição pertencente ao Ministério da Cultura, contando com a participação de representantes dos Fóruns Estaduais de Música e de diversas entidades públicas e privadas que agregam a cadeia produtiva da música no país. Foram realizadas sete reuniões, entre maio e dezembro de 2005, tendo como objetivo diagnosticar os principais problemas e as necessidades da área, possibilitando traçar estratégias e ações que serviram de base para a elaboração do Plano Nacional de Cultural. Consolidou-se, desta forma, a participação da sociedade civil na elaboração das políticas
públicas voltadas ao setor, bem como na definição de diretrizes, ações e metas a serem concretizadas por estas políticas.
Ainda nesse sentido, iniciou-se em 2007, a reestruturação do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC). Em 2009, foi criado o Colegiado Setorial de Música Nacional, instância que integra o CNPC (Decreto 6.973/2009), consolidando, desse modo, a parceria entre o MinC e a sociedade civil na construção de políticas públicas para a área musical. Em 2010, o Regimento Interno foi aprovado pelo Ministro de Estado da Cultura - João Luiz Silva Ferreira.
Outro avanço pode ser registrado em 2010, quando foi sancionada a Lei Federal n. 12.343 que instituiu o Plano Nacional de Cultura e criou o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais – SNIIC, instituindo, desse modo, o Sistema Nacional de Cultura – SNC.
No Estado da Bahia, o Governador Jaques Wagner sancionou a Lei n°12.365/2011 que instituiu o Sistema Estadual de Cultura, denominado Lei Orgânica da Cultura, que dispõe sobre a Política Estadual de Cultura e institui o Sistema Estadual de Cultura – SEC, com seus componentes, tais como os Mecanismos de Gestão Cultural e as Instâncias de Consulta, Participação e Controle Social. Entre estes componentes está prevista a instituição dos Colegiados Setoriais das Artes. Este processo envolveu a participação de representantes de diversos segmentos: sociedade civil, setores artísticos, Conselho Estadual de Cultura e de órgãos do governo federal, estadual e municipal.
Em 25 de agosto de 2012 ocorreu a eleição do Colegiado Setorial de Música da Bahia, realizada na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, com a presença de representantes dos municípios e dos Territórios de Identidade. Vale ressaltar que a Bahia foi um dos primeiros Estados da federação a implantar o Sistema Estadual de Cultura e, por conseguinte, os Colegiados Setoriais das Artes.
No período 2013/2014 – referente à primeira gestão do Colegiado Setorial de Música da Bahia – os titulares discutiram e compilaram as informações das conferências estadual e territoriais, considerando também as metas do Plano Nacional de Cultura e as diretrizes do Plano Setorial de Música Nacional, resultando na formulação do Plano Setorial de Música da Bahia, com ações e metas que deverão ser cumpridas a partir de sua aprovação pelo CEC – Conselho Estadual de Cultura e sancionado pelo Governador do Estado, passando a auxiliar na elaboração de políticas públicas para o setor nos próximos dez anos. Com o referido Plano, objetiva-se dar sustentabilidade à cadeia produtiva da música, através da formação; da organização e fomento da produção musical, da regulamentação da profissão, e da efetiva
implementação de um sistema de informações e indicadores, que sirva de subsídio para a formulação de políticas públicas para o setor, com a participação da sociedade civil.
Nesse contexto, o projeto de pesquisa tem como propósito realizar uma análise acerca desse novo modelo de formulação de políticas públicas com a participação da sociedade civil, tendo como objeto de análise o Plano Setorial de Música/BA, abrangendo os desafios que estão postos para a concretização das respectivas ações e metas, com vistas à organização da cadeia produtiva da música na Bahia. O trabalho visa também analisar os avanços preconizados neste Plano e consequentemente a expectativa de impacto que poderá ocorrer no setor musical da Bahia em decorrência de sua implantação. Para examinar como se dará esta transformação no processo de gestão pública das políticas da área musical, é preciso investigar o comportamento e consciência participativa dos agentes envolvidos.
Além das pesquisas documentais e bibliográficas busquei incluir como metodologia um pequeno estudo de caso participativo, mediante reuniões presenciais e a realização de entrevistas semiestruturadas. Elegeu-se como área de estudo o bairro do Candeal, devido a tradição do bairro, da concentração de músicos profissionais que vivem os vários problemas que angustiam o setor musical, e que reflete a realidade da maioria dos bairros de Salvador com agravantes para o interior do Estado. Nessas reuniões foi possível perceber a necessidade de apoio, que os músicos profissionais de diversos contextos socioculturais e demais agentes que integram o setor musical da Bahia, precisam para se organizar e exigir a participação no mercado de trabalho, através de políticas de incentivo, fomento, reparo, formação, acesso e valorização profissional.
O processo de elaboração do trabalho de pesquisa se desenvolveu a partir de reuniões periódicas com a Orientadora, nas quais eram discutidos a revisão bibliográfica e o tratamento dos dados obtidos nas entrevistas semiestruturadas.
A presente pesquisa se justifica, em primeiro lugar, pela necessidade de sistematização desse processo e da análise dos avanços na formulação de políticas públicas, onde se preconiza o diálogo entre Estado e sociedade civil. Em segundo lugar, a referida análise poderá contribuir como subsídio para uma revisão futura das ações e metas do Plano. Em terceiro lugar, pela originalidade da proposta, haja visto não haver nenhum estudo específico sobre o tema proposto. A motivação para a realização da pesquisa decorre do fato da atuação ativa do músico proponente nos Colegiados Setoriais de Música: nacional (CNPC), como delegado eleito; e no estadual, como Presidente do Colegiado, tendo acompanhando desse modo, o momento atual caracterizado por um novo modo de pensar a cultura, e em particular, o setor musical.
1.2.2 Das disciplinas
MUS 539 - Fundamentos da Educação Musical I - Profa: Mara Menezes Kröger
A disciplina procura estudar as bases sociológicas, históricas e filosóficas da educação musical. Introduz nas teorias psicológicas da aprendizagem aplicadas ao ensino da música e observa áreas de pesquisa em educação musical.
Conteúdo programático: Textos sobre o ensino da música; História da educação musical no Brasil; Métodos, teorias e abordagens de Educação Musical.
As aulas focaram na leitura e discussão de textos sobre o ensino da música e porquê ensinar músicas nas escolas, destacando autores como: Maura Penna, Beineke e Couto. Além disso, foram realizados Seminários onde cada aluno apresentou um período da história da educação musical no Brasil. São eles: A vida musical e ensino de música no Brasil colônia (1500 – 1808); A vida musical e ensino de música no Brasil império (1808 – 1888), Rumos da Educação durante a primeira e segunda repúblicas (1889 – 1936); Villa-Lobos e o Canto orfeônico (1920 – 1944); Legislação brasileira: LDB 5.692/71, 9.394/96, PCN e Lei 11.769/08 e Diretrizes do CNE para o ensino de música; Educação musical hoje (Brasil e Bahia): contextos e espaços. Apresentei o Seminário discorrendo sobre Diretrizes do CNE para o ensino de música, focado na Lei nº 11.769, de 18 de agosto de 2008, que altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, para dispor sobre a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica.
Em seguida foi programado o segundo Seminário, no qual cada aluno realizou uma apresentação sobre Métodos, teorias e abordagens de Educação Musical. Os educadores apresentados foram: Dalcroze, Kodály, Willems, Orff, Martenot, Suzuki, Schafer, Paynter, Joel Barbosa, Lucas Ciavatta, Pontes e Jusamara Souza. Neste apresentei o método pedagógico desenvolvido por Martenot, educador que além de contribuir na criação de uma boa proposta pedagógica de ensino musical, também traz uma parcela de contribuição na área de execução musical como inventor, com a criação do instrumento “Ondes Martenot”.
É importante ressaltar que, este primeiro contato com a disciplina Fundamentos da Educação Musical I, foi muito enriquecedor na minha compressão sobre o ensino musical. Me graduei como Bacharel em música, e tinha como visão musical, uma tendência para o tecnicismo, a formação do músico executante e performático. Também nos foi requisitado a elaboração de um memorial sobre a história da minha vida desde a mais tenra idade. Foi uma experiência avassaladora, onde pude me conhecer melhor, e recordar dos bons e difíceis
momentos, através das lembranças vividas. Agradeço a dedicação e delicadeza da Professora Mara, no envolvimento e condução de nossas aulas.
MUS 549 – Fundamentos da Educação Musical II - Profa. Flavia Candusso
A disciplina Fundamentos II busca dar continuidade aos estudos das bases sociológicas, históricas e filosóficas da educação musical. Indica teorias psicológicas da aprendizagem aplicadas ao ensino da música e observa áreas de pesquisa em educação musical. Tem por objetivos: aprofundar as discussões e as argumentações a respeito da importância do ensino de música na escola e em diversos contextos educacionais; ampliar a percepção e potencializar olhar sensível sobre a realidade que nos circunda; pesquisar, analisar e discutir conceitos de música a partir de diferentes perspectivas; conhecer e estabelecer conexões entre educação musical e etnomusicologia, e educação musical e música popular; discutir as relações étnico-raciais tendo em vista a aplicação das Leis 10.639/03 e 11.645/08 nas aulas de música; vivenciar práticas de ensinar música em diferentes contextos. Conteúdo programático: Textos sobre o ensino da música; História da educação musical no Brasil; Métodos, teorias e abordagens de Educação Musical, e atividades como apresentar um resumo expandido do trabalho final.
A disciplina apresentou vários textos para leitura e discussão, em que destacamos: “Os Velhos Capoeiras Ensinam Pegando na Mão” de Pedro Rodolpho Jungers Abib; “As Cores do Som: Estruturas e Concepção Estética na Música Afro-Brasileira” de Tiago de Oliveira Pinto. Com a disciplina pude aprofundar meus conhecimentos e questionamentos sobre educação numa visão global, através da análise do documentário “ESCOLARIZANDO O MUNDO” que mostra a tentativa de expansão e imposição do imperialismo americano com a utilização da educação na desconstrução dos costumes e modos de vidas outros países, e ficando evidente a hegemonia imposta pelos países dominantes, na introdução de uma pedagogia educacional que não considerava a cultura, nem os costumes regionais dos países em questão.
Vários textos foram apresentados para leitura e discussão, podendo-se destacar: “MÚSICA EM DEBATE: perspectivas interdisciplinares” de Samuel Araújo, Gaspar Paz e Vincenzo Cambria – Organizadores; “Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido” de Moacir Gadotti. Também filmes e documentários foram apresentados como: “Janela da Alma” de João Jardim e Walter Carvalho, que trata a questão da sensibilidade, do conhecimento e entendimento que o ser vivo poderá ter do mundo, destacando o ser humano, utilizando o foco da câmera durante o documentário como o olho do observador, com cenas desfocadas ou fora do foco do ponto de vista “normal”.
Outro filme apresentado para discussão foi “ESCOLA DE ROQUE”, dirigido por Richard Linklater, em que a narrativa gira em torno de um músico desempregado, expulso de sua banda, que resolve aceitar dar aulas em uma escola particular, mesmo sem ter licença para lecionar, assumindo a identidade de um amigo que possui esta licença. Ele intuitivamente, começa a utilizar uma pedagogia baseada na execução de um projeto de formação de uma banda de rock onde é valorizada a participação ativa dos alunos no processo ensino-aprendizagem. Através da discussão sobre o filme foi possível conhecer e questionar os problemas pedagógicos e os desafios enfrentados por um professor de música em sala de aula.
Como parte da disciplina aconteceram também aulas com a Professora Laila Rosa, com estudos de gênero, com a leitura e debate sobre o livro “Estudo de gênero, corpo e música: Abordagens metodológicas”, focado na participação da mulher como compositora, instrumentista, na tradição do samba carioca, na projeção internacional e na educação musical. Trata também da problematização de gênero nas entrevistas e análises de participação de mulheres negras. Externo o meu agradecimento a Professora Flávia Candusso pela excelente condução dos debates em sala de aula e na criteriosa escolha dos temas apresentados.
MUS 502 - Estudos Bibliográficos e Metodológicos - Prof. Dr. Paulo Lima
A disciplina trata dos estudos abrangentes das principais categorias de recursos bibliográficos para os estudos musicais e musicológicos. Avaliação de seu potencial, como categoria, a ser aferido pelo confronto do tratamento de tópicos específicos de interesse do pós-graduando, nas diversas obras de referência consultadas. Técnicas de pesquisa, documentação e redação de trabalhos científicos. Estilos bibliográficos. Apresentação e discussão de relatórios orais, semanais, sobre os tópicos individuais selecionados, visando a informação bem documentada e o desenvolvimento da capacidade crítica. Elaboração e redação de trabalho final, de interesse bibliográfico e documental. Tem por objetivo realizar estudos sobre a abordagem de métodos de pesquisa, conhecer novos conceitos e definir, de forma consciente, o método de pesquisa a ser utilizado no projeto de estudo de cada aluno, como também na escolha dos autores consagrados para a construção do conhecimento.
Todos os alunos apresentaram os seus respectivos projetos de pesquisa em sala de aula, com o objetivo de argumentar e debater com a classe a sua investigação, objetivando neste sentido repensar e melhorar o título e clarear o entendimento sobre o seu objeto de pesquisa. Esta ação foi muito importante para todos, pois realmente agregou substancialmente
conteúdo em nossos trabalhos, pois percebe-se que os alunos geralmente possuem problemas em definir qual o método a ser utilizado, como também quais autores deve buscar para a construção do conhecimento.
Também nos foi entregue um glossário com frases, termos e palavras para serem pesquisados, com o intuito de auxiliar a compreensão dos textos relativos à pesquisa científica. Textos de enfoque na delimitação temática de métodos, análises de dados, revisão bibliográfica, entrevistas e questionário, análise e relatório final, foram apresentados para leitura e discussão, trazendo, desta forma, subsídios para elaboração e embasamento de nossos trabalhos.
Quero ressaltar que as aulas em módulos foram muito interessantes para a concentração na “tempestade” de informações e ideias introduzidas pelo Prof. Paulo Lima. Destaco, por conseguinte, uma atividade que ele denominou de “Folha de Almirante”, onde, num primeiro momento, o aluno deveria condensar todo o seu projeto de pesquisa em apenas uma folha de papel ofício, com título, objeto de estudo, objetivos, justificativa metodologia e resultados esperados. Confesso que num primeiro momento, achei impossível. Mas foi, sem dúvida, o exercício mais desafiador e recompensador que experimentei neste mestrado. Além disso, o trabalho final constou da apresentação de 10 páginas de Almirante, sobre dissertações ou teses que cada aluno deveria buscar no Repositório Institucional da UFBA – Comunidade de Música. Escolhi e li dez trabalhos e preparei as páginas em um mês, Apesar de cansativo, auxiliou muito na elaboração e finalização de meu projeto de pesquisa. Ao Prof. Paulo Lima devo agradecer pela sua generosidade e dedicação ao nosso aprendizado e em particular ao meu crescimento intelectual, em que apesar de constatar que pouco sei, e que tenho muito a aprender, o trabalho consciente do pesquisador é muito importante e compensador.
MUS D46 - Estudos Especiais em Educação Musical - Música e Cultura Profa. Katharina Doring
A disciplina trata de subsídios teóricos e práticos e para uma educação musical baseada nas dimensões culturais da tensão entre global, nacional e local. Cultura, multi-culturalidade, diversidade e identidade cultural. Estudos Culturais, Sound Ecology, Global
Music Education, Etnomusicologia, Popular Music Studies, História oral e os métodos ativos
em educação musical que apontam para teoria e prática da educação musical contemporânea no Brasil.
Tem por objetivo obter maior conhecimento pessoal na área de educação e no desenvolvimento da pesquisa. Foram apresentados durante o curso vários textos para leitura e
discussão, que foram distribuídos de acordo com os temas dos vários seminários propostos, divididos entre 1. Ecologia e paisagem sonora, audição musical ativa; 2. Estudos culturais e a música da diáspora africana; 3. Musica Popular como campo de estudos (internacional), com foco na música popular brasileira. Ao meu grupo, composto por três alunos, coube o tema: “Popular Music no contexto euro-americano e/ou na música popular brasileira: história, consumo, comportamento e mercado musical em torno das músicas “pop” e suas consequências e debates e teorias para a educação musical”. Para este seminário, foram propostas várias leituras, entre outros de autores internacionais, os seguintes textos no contexto brasileiro: “Consumo da música periférica: cultura, identidade e representações Sociais” de Cristiano Nascimento Oliveira e Leonardo Trindade Araújo; “A Estética do Brega: Cultura e Consumo e o Corpo nas Periferias do Recife” de Fernando I. Fontenella; “A Música Popular Brasileira (MPB) dos Anos 70: resistência política e consumo cultural” de Marcos Napolitano; “Música popular massiva e gêneros musicais: produção e consumo da canção na mídia” de Jeder Janotti Junior; “Abordagens Teóricas para Estudos Sobre Cultura Pop” de Thiago Soares.
Paralelo ao estudo dos três tópicos principais, nos foi requisitado a elaboração de um
Time-line musical, em que cada aluno deveria apresentar a história e memoria da música
escutada e percebida ao longo de sua vida, desde a mais tenra idade. Esta atividade está baseada na pesquisa “A Música Começa na Pessoa” – Memoria e Construção Musical Subjetiva, desenvolvida pela Professora Katharina Doring, a partir dos autores alemães Christoph Khittl e Christian Harnischer.
Foi uma experiência avassaladora, onde pude me conhecer melhor musicalmente, e entender, por assim dizer, a origem do meu gosto musical. O meu time-line musical foi preparado com as principais músicas que busquei lembrar, que marcaram minha vida, desde a minha infância até hoje. Iniciei um vídeo-time-line pela época de ouro do rádio, por influência de minha mãe, com artistas como: Emilinha Borba e Marlene; com a dor de cotovelo de Dalva de Oliveira, Lupicínio Rodrigues, Maísa; O romantismo de Dalva de Oliveira e Cauby Peixoto, Francisco Alves; e por influência de meu pai, as grandes orquestras, como: Glenn Miller, Ray Conniff, Orquestra Tabajara, Moreira da Silva, Bienvenido Granda e o Sathmo Luiz Armstrong.
Na sequência foi incluída a Jovem Guarda com Roberto e Erasmo Carlos, Golden Boys, e também neste período o som de Simonal que muito me influenciou; a Tropicália com Gil, Caetano, Novos Baianos; então fui descobrindo Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso; Tim Maia, Jorge Benjor; de súbito percebi a Bossa-Nova com Tom Jobim, Vinícius de Morais,
João Gilberto, e a minha grande influência no violão - Baden Powel; descobri também o samba com: Paulinho da Viola, Cartola, Ivone Lara, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Clementina de Jesus, Clara Nunes. Atualmente a MPB é muito presente em minhas audições, com destaque para Chico Buarque, João Bosco, Djavan, Ivan Lins, Lenine, mas procuro ouvir de tudo, música Brasileira, Internacional, clássica, folclórica. O meu Vídeo-Time-line tem cinquenta e três minutos, e a última música é de minha autoria, intitulada “Feitiço da Maresia”, que mostra a mistura das minhas influências musicais.
Quero agradecer de forma especial a Professora e Orientadora Katharina, pelo mergulho que me conduziu às minhas lembranças musicais, que me fez recordar de momentos tão bons e marcantes em minha vida, através da música. E também pela paciência e sabedoria que conduziu e me orientou durante a elaboração do meu trabalho de pesquisa. Que Deus abençoe a todos meus mestres e que lhes conceda saúde e vida longa, para que muitos possam ter conhecimento com sabedoria.
2 ARTIGO ACADÊMICO
PLANO SETORIAL DE MÚSICA:
UMA PROPOSTA DE GESTÃO PARA O SETOR MUSICAL DA BAHIA
RESUMO
O presente artigo apresenta uma investigação sobre o processo histórico de implantação do Colegiado Setorial de Música da Bahia - CSMBa, e da elaboração do Plano Setorial de Música da Bahia – PSMBa, por este Colegiado. Esta investigação utilizou como técnicas de pesquisa o levantamento bibliográfico e documental e a observação participante. A pesquisa de campo foi realizada entre 2013 e 2014, durante a primeira gestão do CSMBa. Utilizou como desenho metodológico a pesquisa qualitativa, abrangendo cinco etapas: Contextualização da política cultural no Brasil e no Estado da Bahia de 2005 a 2014; Análise da estruturação do Colegiado Setorial de Música da Bahia, Análise do Plano Setorial de Música da Bahia considerando seu potencial de mudança para o setor musical; Contextualização da construção e implantação dos Colegiados Setoriais das Artes; O processo de construção do PSMBa: objetivos, estratégias, potencialidades e fragilidades do plano. O referencial teórico está fundamentado em autores que discutem este modelo de gestão cultural, ressaltando a prioridade em adotar a cultura como uma política de Estado, considerando, além disso, a introdução do conceito de gestão compartilhada. Esta pesquisa trará como contribuição, a sistematização do processo de construção do PSMBa, junto com a análise dos avanços na formulação de políticas públicas, onde se preconiza o diálogo entre Estado e sociedade civil.
Palavras-chave: Plano Setorial de Música da Bahia, Política Cultural, Sistema Estadual de Cultura, Lei Orgânica da Cultura.
ABSTRACT
This article presents a research on the historical process of Collegiate Music Industry deployment of Bahia-CSMBa, and Sectorial plan of music of Bahia-PSMBa, by this Board. This investigation used as research the techniques bibliographical and documental and participant observation. The field research was carried out between 2013 and 2014, during the first administration of the CSMBa. Used as methodological design the qualitative research, covering five stages: Contextualization of cultural policy in Brazil and in the State of Bahia in 2005 to 2014; Analysis of the structuring of the Music sector Collegiate of Bahia, analysis of the Sectoral Plan of music of Bahia considering your potential for change for the music industry; Contextualization of the construction and implementation of the Sectoral Committees of the arts; The process of construction of the PSMBa: objectives, strategies, strengths and weaknesses of the plan. The theoretical framework is based on authors who discuss this model of cultural management, emphasizing the priority in adopting the culture as a State policy, considering, in addition, the introduction of the concept of shared management. This research will bring as a contribution, the systematization of the process of construction of the PSMBa, along with the analysis of the advances in the formulation of public policies, where calls for dialogue between State and civil society.
Key words: Sectoral Plan of music, Cultural Policy, State System of culture, organic law of culture.
2.1 INTRODUÇÃO
O presente artigo foi motivado pela participação ativa na elaboração do Plano Setorial de Música da Bahia (PSMBa), durante o período em que o autor presidiu o Colegiado Setorial de Música, de 2013 a 2014, visando contribuir no questionamento de uma realidade socioeconômica deficitária e de uma ação política equivocada para os músicos brasileiros, em particular os baianos, e para os profissionais envolvidos na cadeira produtiva da música.
A pesquisa tem como objetivo apresentar e avaliar o processo de elaboração do PSMBa, que visa desenvolver uma nova gestão de políticas públicas para a área musical, que possa orientar e incrementar as ações do poder público para o setor, no contexto do processo de mudança de paradigma de gestão da área cultural que vinha ocorrendo no Brasil, com a proposta de implantação do Plano Nacional de Cultura.
O setor musical da Bahia encontra(va)-se desorganizado e explorado por empresários de shows e de uma indústria musical voltado exclusivamente para megaeventos (vide Carnaval), com o pagamento de baixíssimos caches aos músicos e demais integrantes da cadeia produtiva da música, como técnicos de som, luz, assistentes de palco. Nesse contexto, apesar do movimento “axé”, que explodiu na década de 1980, ter contribuído para a criação de um modelo bem-sucedido do cenário musical baiana, em nada modificou a condição profissional precária da grande maioria dos músicos profissionais, tendo privilegiado uma pequena parcela de artistas/interpretes, e uma parte do empresariado dominante do setor musical da Bahia, voltados unicamente para o mercado de consumo em massa. Segundo pesquisadores, como Moura (2001), o movimento axé construiu a identidade musico/cultural baiana, apoiada principalmente pela mídia patrocinada e pelos interesses do empresariado do setor musical.
Apesar da mesmice devido à crise criativa e artística, o carnaval baiano foi, e continua sendo, o grande palco do movimento axé, onde a mistura de ritmos dialoga com a Bahia tradicional e contemporânea. Acontece que é justamente nesse ambiente que se observa as maiores distorções do setor musical, já que o mesmo não foi direcionado em benefício e aperfeiçoamento dos músicos e agentes envolvidos na cadeia produtiva da música. Os empresários continuam insistindo em um modelo que está se esgotando, haja vista a evidente
diminuição da venda de “abadas”1 e a preocupação dos blocos em sair pelo menos uma vez sem “cordeiro”2 durante o carnaval.
Em movimento contrário, a partir de 2005, tem início na Bahia o processo de construção do Sistema Estadual de Cultura, durante o governo de Jacques Wagner, consolidado posteriormente, em novembro de 2011, com a aprovação da Lei Orgânica da Cultura, em sintonia com o processo de transformação cultural nacional que teve início a partir de 2003 na política cultural em âmbito federal, em que a participação da sociedade civil se tornou política de Estado.
Para a realização da pesquisa de caráter qualitativo, foi utilizada a pesquisa bibliográfica (livros, dissertações e teses) e documental (leis; documentos das políticas públicas culturais; textos das Conferências Estaduais de Cultura da BA). Em caráter complementar, foi realizada uma pesquisa de campo no bairro Candeal em Salvador, onde reuni diversas vezes com músicos do bairro, para debater o PSMBa e conhecer melhor suas realidades e necessidades enquanto músicos na sua grande maioria não formados em universidades, o que que representa a realidade da maioria dos profissionais do setor musical da Bahia. Foi utilizado um questionário simples para compreender mais sobre suas preocupações e indagar seus conhecimentos prévios sobre o processo e sentido da criação do PSMBa.
O artigo está estruturado em cinco tópicos. O primeiro tópico trata da contextualização da política cultural no Brasil e no Estado da Bahia, ressaltando os principais momentos de mudança nas políticas culturais ocorridos no país. O segundo tópico relata a criação do Sistema Nacional de Cultura – SNC, a partir de uma análise sobre a aplicação da proposta de gestão compartilhada, com a inserção da sociedade civil nas discussões e decisões com relação às políticas públicas, estratégias e ações, com vistas a alavancar o desenvolvimento e o fortalecimento do setor cultural. O terceiro tópico aborda sobre o Sistema Estadual de Cultura da Bahia, observando as dificuldades e a importância da participação da Bahia neste novo modelo de gestão cultural. O quarto tópico discorre sobre a construção e implantação dos Colegiados Setoriais das Artes, descrevendo as etapas de implantação e o seu papel fundamental na democracia participativa. O quinto tópico apresenta o processo de construção do Plano Setorial de Música da Bahia (PSMBA), acompanhado da análise dos avanços na formulação de políticas públicas, onde se preconiza o diálogo entre
1 Abadá - Nome que se dá a fantasia ou camisa que é usada para ter acesso aos blocos de carnaval em Salvador. 2 Cordeiro - Pessoa contratada pela organização do bloco para segurar a corda, mantendo a delimitação dos foliões da pipoca (sem abadá).
Estado e sociedade civil, e de uma visão interna pela participação ativa do autor no processo, observando os objetivos e as diretrizes de atuação do plano, e sobre o financiamento e monitoramento do mesmo; a expectativa de operacionalização e aplicação no contexto atual, a partir de uma visão externa – com base na investigação junto à músicos profissionais; e a análise sobre as potencialidades e fragilidades do PSMBa.
É importante ressaltar a observação participante do autor em organismos de controle da gestão cultural, acompanhando, desde 2005, as Conferências, Nacional e Estadual de Cultura, e a participação ativa no período 2013/2014, durante a primeira gestão do Colegiado Setorial de Música da Bahia, quando eleito como membro titular e presidente, através de eleição conduzida pela FUNCEB. A partir de 2015, até o momento atual, como Conselheiro Titular do Conselho Estadual de Cultura da Bahia (CEC) e integrante da Comissão de fiscalização do Fundo de Cultura.
Por fim, o presente artigo visa contribuir para a reflexão do tema e revisão futura dos objetivos e ações propostas pelo plano, adequando soluções para os novos desafios encontrados no setor musical da Bahia, considerando a atual conjuntura política do país e do Estado da Bahia que não conseguiu colocar em pratica, os avanços iniciais empreendidos pela participação da sociedade civil nas instituições recentemente implantadas, mas estagnadas na ação concreta.
2.2 A POLITICA CULTURAL NO BRASIL: BREVE HISTÓRICO
A história da política cultural no Brasil, como relata RUBIM (2007, p.101) “pode ser condensada pelo acionamento de expressões como: ausência, autoritarismo e instabilidade”. A partir da “Era Vargas” (1930) até a crise do neoliberalismo, em 2002, podemos aventar a hipótese de que a história da política cultural no Brasil está sintetizada em quatro momentos principais:
O primeiro, durante o governo de Getúlio Vargas – 1930 a 1945 e de 1951 a 1954, onde as políticas públicas na área cultural eram concentradas no governo federal;
O segundo, no período da ditadura militar, de 1964 a 1985, onde as expressões artísticas foram deliberadamente vigiadas e censuradas, e as políticas culturais eram decididas autoritariamente pelo poder militar central;
O terceiro momento, com a redemocratização do País e promulgação da Constituição de 1988, bem como a criação do Ministério da Cultura, em 1986, que reforça o discurso da participação da sociedade civil nas políticas públicas;
O quarto se inicia em 1990 até 2002 com a introdução do modelo neoliberal que conduziu a Reforma do Estado, como afirma GUIMARÃES (2007, p. 1), “o processo de redemocratização foi infiltrado pelo discurso da redução dos gastos públicos e diminuição do tamanho e dos papéis do Estado. A cultura tornou-se um “problema de mercado” e nesse período se consolidou a política baseada na renúncia fiscal”.
Neste contexto, pode-se constatar que o longo período de estado de exceção que o Brasil atravessou – de 1964 a 1985, sem dúvida, foi o principal fator que causou uma certa apatia no povo brasileiro, uma espécie de recolhimento em exercer a sua cidadania de forma plena e participativa, na exigência de seus direitos constitucionais, apesar de sempre realizarem ações que corroboraram para reestruturação da cultura brasileira, como afirma Rubim:
A ditadura reafirmou a triste tradição do vínculo entre políticas culturais e autoritarismo. Os militares reprimiram, censuraram, perseguiram, prenderam, assassinaram, exilaram intelectuais, artistas, cientistas e criadores populares, mas, ao mesmo tempo, constituíram uma agenda de “realizações” nada desprezível para a (re-)configuração da cultura no Brasil. (2012, p. 34)
Nos vinte e um anos da ditadura no Brasil, a gestão cultural ficou sufocada. As artes foram censuradas, reprimindo a sua expressão e criação, o que levaria vários anos para se configurar uma ação cultural renovada e expressiva. A música e cultura brasileira sempre foram criativas e surpreendentes, apesar de muitos baques que levou, mas principalmente nos últimos treze anos, pode-se observar um significativo crescimento na participação da sociedade civil nos espaços de discussão sobre políticas culturais, tais como, Conferências de Cultura, Fóruns de Gestão Cultural, Fóruns de Educação, entre outros espaços do âmbito da cultura, demonstrando um aumento no interesse da participação dos agentes envolvidos.
A partir de 2003, surge um marco divisório e histórico na atuação do Ministério da Cultura (Minc), a partir da gestão do Ministro Gilberto Gil, no momento em que se insere a consulta e participação da sociedade civil nas decisões das políticas públicas de cultura, rompendo, desta forma com a ultrapassada prática de decisões de gabinete. Nesse contexto, o poder público assume a cultura como uma Política de Estado, representando sem dúvida, um enorme avanço, com relação ao novo papel que a cultura passou a desempenhar no cenário nacional, de acordo com Guimarães:
Com a crise do modelo neoliberal e dos programas de enxugamento do Estado, em 2002, a Coligação liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT)
vence a eleição para o governo federal e lança um amplo discurso de participação social na gestão pública, sobretudo na área de cultura. O PT apresenta a política do governo federal para a cultura, o Sistema Nacional de Cultura (SNC), um sistema articulado de gestão, informação e promoção de políticas públicas de cultura, com objetivo de democratizar a gestão e construção das políticas públicas culturais e ampliar a participação social. Apenas em 2004 começou-se a discutir nos estados e municípios do país a ampliação da participação social na construção das políticas públicas culturais. (GUIMARÃES, 2007, p.1)
Nesse sentido, pode-se registrar uma (r)evolução de ideias sobre a gestão cultural. Além disso, a introdução do conceito de gestão compartilhada, com a inserção da sociedade civil nas discussões e decisões com relação às políticas públicas, estratégias e ações, inaugurou um novo paradigma para alavancar o desenvolvimento e o fortalecimento do setor cultural. Entretanto, a mudança radical imposta a partir de maio 2016, com a entrada abrupta do governo Temer, trouxe medidas que invertem o conceito sobre a política de participação social nas decisões de políticas públicas, implantadas nos últimos treze anos. A manutenção dos espaços democráticos é vital, para continuidade dos avanços implementados, pois é preciso, segundo Mamberti,
Redefinir formas de convívio social, explodir as matrizes do pensamento excludente embrutecedor que sedimenta o secular pacto das elites no Brasil, garantir direitos constitucionais já existentes, criar novos direitos e eliminar privilégios são compromissos essenciais para uma gestão democrática da cultura, assumindo o cidadão como prioridade (MAMBERTI, 2003, p. 15). As decisões impostas pelo governo atual demonstram um temeroso retrocesso com respeito aos avanços sociais conquistados na história política recente. Nesse contexto, minha pesquisa e atuação contribui para uma reflexão crítica sobre gestão cultural, a partir da concepção da cultura como uma política de Estado, iniciados e implementados na gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, com ênfase na análise do processo de elaboração do PSMBa.
2.3 CRIAÇÃO DO SISTEMA NACIONAL DE CULTURA - SNC
A partir de 2003, com a posse do Governo Lula, inaugurou-se no Brasil uma nova era para a cultura brasileira. O modelo das políticas culturais utilizado no país, por governos anteriores, era muito criticado pela classe artística, intelectuais e produtores culturais, que preconizavam o apoio do Estado da formulação democrática das políticas públicas e de gestão da cultura, considerando que a Constituição Federal de 1988 já garantia o exercício dos
direitos culturais a todos os cidadãos brasileiros. As tendências de uma nova forma de gestão de políticas culturais já podiam ser observadas no discurso de posse Gilberto Gil a frente do MinC:
Logo, não se trata somente de expressar, refletir, espelhar. As políticas públicas para a cultura devem ser encaradas, também, como intervenções, como estradas reais e vicinais, como caminhos necessários, como atalhos urgentes. Em suma, como intervenções criativas no campo do real histórico e social. Daí que a política cultural deste Ministério, a política cultural do Governo Lula, a partir deste momento, deste instante, passa a ser vista como parte do projeto geral de construção de uma nova hegemonia em nosso País. Como parte do projeto geral de construção de uma nação realmente democrática, plural e tolerante. Como parte e essência de um projeto consistente e criativo de radicalidade social. Como parte e essência da construção de um Brasil de todos.3
Deste momento em diante, verifica-se uma revolução de ideias sobre a gestão cultural, ressaltando a prioridade em adotar a cultura como uma política de Estado. Neste sentido, objetivando possibilitar esta mudança de conceito sobre a gestão de política cultural, o Ministério da Cultura realizou, neste mesmo ano - 2003, os seminários “Cultura para Todos”, que teve como foco principal, aperfeiçoar o debate sobre a Lei Rouanet. Em 2005, foi realizada a primeira Conferência Nacional de Cultura que apontou diretrizes que balizaram a elaboração do Plano Nacional de Cultura – PNC. Em seguida foi realizada a primeira Conferência Nacional de Cultura - CNC, em 2005, indicando diretrizes para a formulação do Plano Nacional de Cultura (PNC) - aprovado em 2010 pelo Legislativo, com vigência até 2020 - conforme descrito na página do Plano Nacional de Cultura:4
Realizada de quatro em quatro anos, a Conferência Nacional de Cultura (CNC) é o principal espaço de participação da sociedade na construção e aperfeiçoamento de políticas públicas de cultura.
A 1ª Conferência Nacional de Cultura, realizada em 2005, contou com a participação de cerca de 60 mil pessoas, de 1.190 cidades e 17 estados. A 2ª Conferência Nacional de Cultura, realizada em 2010, contou com 220 mil participantes, envolvendo todos os estados, o Distrito Federal e 57% das cidades brasileiras.
A 3ª Conferência Nacional de Cultura, realizada em 2013, contou com a participação de representantes dos 26 estados e do Distrito Federal. O Nordeste foi a região que mais enviou representantes para o evento: 31% do total, seguida do Sudeste, com 22%, Centro-Oeste, com 21%, Sul (12%) e Norte (9%).
3 Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u44344.shtml>. Acesso em: 09 set. 2016.
4 Disponível em: <http://pnc.culturadigital.br/metas/conferencias-nacionais-de-cultura-realizadas-em-2013-e- 2017-com-ampla-participacao-social-e-envolvimento-de-100-das-unidades-da-federacao-ufs-e-100-dos-municipios-que-aderiram-ao-sistema-nacional-d/>. Acesso em 02 nov. 2016.
A criação do Sistema Nacional de Cultura – SNC, aconteceu em 2012 com a aprovação da (conhecida PEC da Cultura), proposta de emenda constitucional que acrescentou o artigo 216-A, na Constituição Brasileira, com o intuito de garantir a continuidade das políticas culturais, servindo como instrumento de gestão e precípuo articulador na esfera federal do Plano Nacional de Cultura. Além disso, a introdução do conceito de gestão compartilhada, inaugurou uma nova forma de gestão cultural, com vistas a alavancar o desenvolvimento e o fortalecimento do setor cultural em nosso país, conforme afirma Rubim:
A interlocução com a sociedade concretizou-se através de uma assumida opção pela construção de políticas públicas. Elas emergem como marca significativa das gestões ministeriais de Gil e de Juca. Proliferam encontros; seminários; câmaras setoriais; consultas públicas; conferências, inclusive culminando com as conferências nacionais de cultura de 2005 e 2010. Através destes dispositivos, a sociedade pôde participar da discussão e influir na deliberação acerca dos projetos e programas e, por conseguinte, construir, em conjunto com o Estado, políticas públicas de cultura. (RUBIM, 2010, p. 14)
Com relação à área musical, em particular, foram realizadas vários esforços e ações que permitiram ao MinC, em mais de uma década de trabalho, alcançar avanços importantes na consolidação de uma gestão inovadora e participativa. Registra-se, em 2005, a criação da Câmara Setorial de Música pela FUNARTE, órgão pertencente ao MinC, contando com a participação de representantes dos Fóruns Estaduais de Música e de diversas entidades públicas e privadas que agregam a cadeia produtiva da música no país. Foram realizadas pela Câmara Setorial de Música sete reuniões, entre maio e dezembro de 2005, tendo como objetivo diagnosticar os principais problemas e as necessidades da área, possibilitando traçar estratégias e ações que serviram de base para a elaboração do Plano Nacional de Cultural (PNC). Consolidou-se, desta forma, a participação da sociedade civil na elaboração das políticas públicas voltadas ao setor, bem como na definição de diretrizes, ações e metas a serem concretizadas por estas políticas.
Ainda nesse sentido, tem-se em 2007, a reestruturação do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) - órgão colegiado integrante da estrutura básica do Ministério da Cultura, conforme Decreto 5.520/2005. Este órgão tem por finalidade propor a formulação de políticas públicas, objetivando articular o debate entre as diferentes esferas de governo e a sociedade civil organizada, visando o fomento e o desenvolvimento das atividades culturais em nosso País. Desse modo, essa reestruturação representou um marco político no processo
de fortalecimento das instituições do Estado e da participação social. Em 2009, foi criado o Colegiado Setorial de Música Nacional, instância que integra o CNPC (Decreto 6.973/2009), consolidando, desse modo, a parceria entre o Minc e a sociedade civil na construção de políticas públicas para a área musical. Posteriormente, em 2010, o seu Regimento Interno foi aprovado pelo Ministro de Estado da Cultura - Juca Ferreira. Um outro avanço pode ser registrado ainda em 2010, quando foi sancionada a Lei Federal n° 12.343 que instituiu o Plano Nacional de Cultura (PNC) e criou o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC), instituindo, desse modo, o Sistema Nacional de Cultura – SNC, conforme nos afirma Roberto Peixe5,
O Sistema Nacional de Cultura é, sem dúvida, o instrumento mais eficaz para responder a esses desafios através de uma gestão articulada e compartilhada entre Estado e Sociedade, seja integrando os três níveis de governo para uma atuação pactuada, planejada e complementar, seja democratizando os processos decisórios intra e inter-governos e, principalmente, garantindo a participação da sociedade de forma permanente e institucionalizada. (PEIXE, 2010, p. 27).
O SNC tem como objetivo servir de marco de orientação aos governos e instituições à formulação de políticas públicas, em diálogo com a sociedade civil. A partir deste momento os estados e municípios brasileiros ficaram encarregados de criar e instituir os seus respectivos Sistemas de Cultura.
Dentro desta (r)evolução de ideias, podemos destacar o Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania – Cultura Viva, implantado também pelo Ministério da Cultura no início da gestão de Gil. Foi concebido para fortalecer as demandas advindas da sociedade civil, possibilitando a valorização das iniciativas culturais das comunidades através da implantação dos Pontos e Pontões de Cultura. “O programa foi concebido para fortalecer o protagonismo cultural na sociedade brasileira, valorizando as iniciativas culturais de grupos e comunidades, ampliando o acesso aos meios de produção, circulação e fruição de bens e serviços culturais, tendo como base os Pontos e Pontões de Cultura.”6 A partir desse “pontapé” inicial, foi lançado o Programa “Mais Cultura” pelo Governo Federal, em outubro de 2007, com o Decreto 6.226, que já indicava investimentos de 4,7 bilhões para a Cultura de 2007 a 2010. Este programa instituído pelo governo Lula, no início da gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, segue as seguintes diretrizes: a) Contribuir para o acesso à produção
5 Coordenador do Sistema Nacional de Cultura em 2010.
de bens culturais; b) Promover a autoestima, o sentimento de pertencimento e a cidadania; c) Dinamizar os espaços culturais dos municípios; d) Gerar oportunidades de emprego e renda.
Na Bahia foi elaborado a Lei Orgânica da Cultura (Lei nº 12.365 – 30/11/2011) que dispõe sobre o Sistema Estadual de Cultura da Bahia, na qual destaca-se a construção e implantação dos Colegiados Setoriais das Artes, instância de consulta, participação e controle social. Dentre as várias atribuições destes Colegiados destaca-se a elaboração de um Plano Setorial específico, de cada setor cultural, destacando-se o PSMBa, contemplando o planejamento decenal para setor musical da Bahia.
2.4 O PROCESSO DE IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA ESTADUAL DE CULTURA DA BAHIA
A Bahia é um Estado que apresenta uma cultura diversa, sofisticada e rica, que além do acervo arquitetônico das igrejas, é considerada o berço de manifestações culturais populares em vários setores das artes, onde podemos citar com relevância, por exemplo, a culinária e a música. A diversidade da música baiana é uma característica forte, o seu principal gênero, chamado de Música Axé, que nasce da fusão de estilos, sendo o carnaval a principal mola propulsora desta criatividade musical e mistura de ritmos com predominância marcante dos ritmos, movimentos e instrumentos afro-brasileiros, conforme nos retrata Moura7 em seu artigo:
As práticas especificamente musicais estão no centro de todo tipo de festa carnavalesca. A presença dos diversos tipos de instrumento e o posicionamento das pessoas com relação a estes assume importância fundamental. ... além de uma improvisação interessante, sobretudo no caso da percussão, com a incorporação de latinhas, xequerês, chocalhos, etc. Entretanto, no cortejo oficial dos blocos afro, os tambores reinam no centro das fotografias, associados a coreografias emblematizadas como africanas e a um determinado tipo atlético e altivo de negro/ negra. (MOURA, 2009, p. 112)
Entretanto, se pensarmos dentro de uma visão mercadológica, encontramos distorções causadas pela influência da indústria do axé nos blocos afro, como nos relata Pereira:
No formato da Axé Music, as canções dos grupos negros compõem os álbuns das bandas de trio e de cantoras solo como Daniela Mercury e Ivete Sangalo, que chegam a vender milhões de discos, enquanto os blocos afro
7 Milton Araújo Moura, Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor Associado do Departamento de História da UFBA. Autor de, entre outros artigos, “Notas sobre a presença da música caribenha em Salvador, Bahia”. Revista Brasileira do Caribe, v. IX, 2009.