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“A Revolução Comercial” de John Commons Nota Técnica

Prof. Murillo Cruz, D.Sc.

Thorstein Veblen, John Commons, Clerence Ayres, e Wesley

Mitchell são considerados – sem controvérsias – os fundadores da

(Autêntica e Original) Escola Institucionalista norte americana de Economia. O grande expoente desta Escola é Thorstein Veblen (1857 – 1929), dado a anterioridade, abrangência e profundidade de seus conceitos e de sua erga obra. Muitos autores admitem que a revolução operada por Veblen no campo da Economia e da Teoria Social foi de tal ordem que sua importância não se deve a uma “contribuição” original ou a um up-grade dos conceitos existentes em Economia até aquele momento, mas sim a uma completa e diferente forma de abordar e analisar a Economia e a sociedade. É claramente admitido, nos meios acadêmicos competentes, que Veblen operou uma ´revolução copernicana´ no estudo da Economia e da teoria social como um todo.

John Rogers Commons (1862 – 1945) não deixou, em termos

conceituais, uma obra tão abrangente como a de Veblen - embora tenha produzido e publicado inúmeros livros, artigos e Ensaios -, mas muitos de seus conceitos são igualmente bastante originais. Alguns ´tão´ originais que a compreensão perfeita dos mesmos exige uma atenção e um estudo cauteloso.

As principais obras de Commons são: Industrial Goodwill (1919);

Legal Foundations of Capitalism (1924); Institutional Economics

(1934); History of Labor in the United States (1918 – 1935).

Legal Foundations of Capitalism e Institutional Economics são livros

´obrigatórios´ para aqueles que buscam compreender o esquema teórico de Commons. E para este objetivo contribui também a leitura de sua auto-biografia, intitulada Myself, de 1934.

Commons é também conhecido pelas suas importantes

contribuições ao que poderíamos designar por “Economia do

Trabalho”. O estudo das condições e da história do trabalho nos

Estados Unidos sempre estiveram presentes em seus escritos e reflexões. Vale lembrar que as suas contribuições concretas para as modificações das legislações trabalhistas são fatos e peças importantes de sua vida e de sua obra. Aliás, Commons possui uma

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proposta absolutamente revolucionária no campo do direito do trabalho, proposta esta que apresentarei resumidamente ao término destas notas.

O seu artigo “Commercial Revolution” que, de fato, é uma transcrição de uma palestra por ele oferecida, em 16 de julho de 1920, é um dos artigos mais originais e significativos de Commons. Principalmente por sua originalidade em reinterpretar um dos conceitos mais importantes para os que desejam compreender as economias modernas, que é o conceito de Goodwill.

Para os economistas que estão familiarizados com o segundo livro de Veblen, The Theory of Business Enterprise, de 1904, hoje um clássico indispensável para a compreensão do capitalismo financeiro corporativo, pode parecer que Commons, nesta palestra, tenha apenas “reproduzido” o papel primordial que o Goodwill possui na avaliação dos rendimentos putativos esperados das Corporações, conforme Veblen explicou em 1904.

Veblen, de maneira totalmente original e pioneira, explicou detalhadamente que o ´capital comercial´ (market cap) de qualquer Corporação depende de duas variáveis: (i) a capacidade (putativa) de rendimento do empreendimento (the earning capacity of the

going concern); e (ii) da taxa de juros básica do mercado. E que,

por sua vez, a “capacidade (putativa) de rendimento” das Corporações encontra-se em função direta das qualidades e das vantagens competitivas que tal empreendimento possui vis-à-vis os demais competidores de seu mercado. Em outras palavras, a “earning capacity of the corporation” depende (ou é função) das Assimetrias que uma determinada Corporação obtém e detém comparativamente às demais corporações concorrentes.

Estas ´vantagens competitivas´ acima assinaladas encontram-se divididas em dois grupos basicamente: (i) vantagens ´ipso facto´, isto é, vantagens reconhecidas como positivas mas destituídas de títulos formais de propriedade; e (ii) vantagens ´ipso jure´, isto é, de direito, ou seja, vantagens protegidas por leis e/ou normas que protegem legalmente o detentor destas vantagens. No primeiro grupo podemos citar, para exemplificar: o know-how e o trade secret (i.e., as habilidades e os conhecimentos não protegidos por patentes); a reputação de qualidade, pontualidade, honestidade, etc., do empreendimento; e tantas outras. E no segundo grupo,

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podemos citar: as patentes, as marcas, franchises; denominações de origem, concessões pública de várias ordens, etc.

Todos os itens que compõem as vantagens ´ipso facto´ ou ´ipso

jure´, vistas acima, compõem o que genericamente conhecemos por Goodwill. Pois são tais vantagens (por posse ou por direito) que

fornecem as diferenças das empresas, e que irão cristalizar-se, em última instância, na “capacidade (putativa) de rendimentos” da corporação ou do going concern como um todo.

A palestra de Commons, em julho de 1920, trata, igualmente, do tema acima. Mas com uma originalidade imensa, e nunca antes apresentada por intelectuais de forma tão lúcida e profunda. Para Commons, os ´direitos ao mercado´ e sua comercialização formal, ou, em suas palavras, o ´direito à liberdade´ (de comercializar) são os itens mais importantes para entendermos o aparecimento do ´capitalismo´, em contraposição ao regime feudal. Como ele magistralmente explica: se eu vender para um terceiro a minha empresa (ou os cabedais da mesma), vinculando nesta venda somente os itens tangíveis e o capital patrimonial da mesma, não estarei ´vendendo´ (ou negociando), provavelmente, o que de mais precioso eu possuo da minha ´empresa´, que é o Goodwill.

Para Commons, foram necessárias algumas revoluções

institucionais, ocorridas na Inglaterra, e especialmente sob a batuta ou a premonição de Edward Coke, para que os ´comerciantes´ pudessem negociar (ou não) esta “parte” do empreendimento - o

Goodwill – em separado dos demais valores tangíveis do mesmo.

Commons irá afirmar que ESTA é precisamente a revolução

comercial capitalista, que antecede, e é conceitualmente superior

em importância, à revolução industrial que todos nós conhecemos. Commons é da opinião de que o capitalismo fundamentalmente ´negocia´ direitos ou ´acessos ao mercado´, como bens intangíveis. É errônea – em sua opinião – a noção de que o capitalismo ´preocupa-se´, prioritariamente, com bens tangíveis. Para ele, isto é ´feudalismo´.

A reestruturação do direito comercial na Inglaterra, de acordo com Commons, para permitir que tais ´intangíveis´, como o Goodwill (e a

propriedade intelectual como um todo), pudessem ser negociados

como ´ativos proprietários´, foi a grande revolução institucional (e

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grande revolução institucional e comercial moderna, foi a

modificação (ou a Aufhebung)1 na definição de Goodwill

empreendida pelas Cortes britânicas: de uma ´coisa´ atrelada à empresa ou ao possuidor, como posse de cabedais ou de objetos “tangíveis”, para uma ´coisa´ (intangível), mas passível de negociação. Um ´direito ao mercado´.

Existem, unicamente, algumas (pequenas) controvérsias acerca da origem e da anterioridade destas importantes transformações que Commons apresenta. Para Commons, tais revoluções institucionais (plenas), que irão fornecer as bases do capitalismo moderno, e, para ele, do próprio ´capitalismo´, ocorrem, somente, de 1569 a 1700, na Inglaterra.

Algumas das transformações institucionais que Commons aponta em sua aula e artigo já haviam sido parcialmente implementadas em Florença, em Veneza, e em outras repúblicas ´italianas´ no século XV. Por exemplo, a primeira lei de patentes (de invenção), com as características semelhantes ao que conhecemos hoje, aparece em Florença, no século XV. E grandes processos de contrafações de marcas famosas já eram levadas a tribunal – por violação de direitos (mercantis) – até antes do século XV. Em suma, tanto o direito de patentes (de invenção), como o de copyright e o de marcas, que Commons faz referência em sua histórica aula e artigo, já estavam “parcialmente” estabelecidos (bem) antes de Edward Coke, e antes do Parlamento inglês aprovar a famosa ´Lei dos Monopólios´, de 1623, e que dará início, é fato, na Inglaterra, ao Direito (moderno) de propriedade Industrial e Intelectual. Entretanto, é óbvio que Commons tinha conhecimento dos fatos históricos descritos acima. É óbvio que Commons sabia que Florença, Veneza, e outras repúblicas, no século XV, já haviam instituídos regimes de proteção às invenções, às marcas, etc. Mas o aspecto “revolucionário” no capitalismo, para Commons, ou seja, a clivagem

1 Aufhebung é uma palavra alemã, com evidente conotação ´técnica´ em filosofia, claramente

identificada com parte da obra de Hegel. Não há tradução sintética para o português, mas, genericamente, pode ser traduzida por “superação conservante”. E, em inglês, “sublate” e “sublation” são os termos e as palavras que mais se aproximam. Ver abaixo.

“Aufheben is a German word with several seemingly contradictory meanings, including "to lift

up," "to abolish," or "to sublate.". The term has also been defined as "abolish," "preserve," and "transcend." In philosophy, aufheben is used by Hegel to explain what happens when

a thesis and antithesis interact, particularly via the term "sublate."

In Hegel, the term Aufhebung has the apparently contradictory implications of both preserving and changing, and eventually advancement (the German verb aufheben means "to cancel", "to keep" and "to elevate"). The tension between these senses suits what Hegel is trying to talk about. In sublation, a term or concept is both preserved and changed through its dialectical interplay with another term or concept. Sublation is the motor by which the dialectic functions

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definitiva entre o “direito à propriedade (mercantil), exercido este através e acoplados aos objetos”, e o “direito à propriedade tout

court, o “direito ao mercado”, ou o direito ao Goodwill em separado

dos objetos que lhes dão lastro ou vinculação tangível ou

“referencial”, este sim é o aspecto verdadeiramente revolucionário,

e ocorre unicamente com as decisões das cortes britânicas do período 1569 – 1700. E são estas decisões institucionais que abrem efetivamente as avenidas principais por onde irão transitar todos os

demais aspectos institucionais/comerciais do capitalismo

(moderno).

Esta aula de Commons reproduziu também inúmeros outros conceitos que Commons defendia em outras passagens, e que são da maior relevância, como por exemplo, uma idéia que o perseguiu por muitos anos, que era a percepção de que, da mesma forma que os ´proprietários´ tinham proteção (formal) de seus bens ou de suas ´propriedades´, os trabalhadores deveriam possuir, igualmente, direitos aos seus postos de trabalho.

Referências

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