Que vida
desejo viver?
Ética e dignidade
humana
Adriano José Hertzog Vieira, Álvaro Augusto Schmidt Neto, Juan Miguel Batalloso Navas e Rosamaria de Medeiros Arnt
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Como vivemos no cotidiano, nas relações familiares, na escola, no trabalho, en-tre amigos, na vizinhança, na comunidade? O que é a felicidade? O que é dignidade humana? Existe relação entre a felicidade e a dignidade humana? O que é ética? Como despertar nossa humanidade, a paz e a felicidade que buscamos?
Neste fascículo você vai ser apresentado aos conceitos de felicidade, autoconhe-cimento, dignidade humana e ética e estimulado a estabelecer conexões entre esses conceitos. Pensar e construir referências que norteiem a sua vida, as suas condutas, a busca pela felicidade apontam para o processo de autoconhecimento, cujo caminho coincide com a própria existência humana.
Ao final da leitura deste material espera-se que o cursista seja capaz de: • Elaborar questionamentos sobre a sua existência como indivíduo e vida que deseja viver; • Propiciar um diálogo sobre os temas: felicidade, dignidade humana e ética;
• Refletir sobre o projeto de vida relacionando-o com os significados estudados de felicidade, dignidade humana e ética;
• Despertar para a necessidade de autoconhecimento.
Que vida desejamos viver?
Rosamaria de Medeiros Arnt
A gente não quer só comida A gente quer comida Diversão e arte A gente não quer só comida A gente quer saída Para qualquer parte... Comida (1987) Marcelo Fromer / Arnaldo Antunes / Sérgio Britto
Acordo de manhã para mais um dia. Tomo café, me arrumo e vou para a escola, para o trabalho, ou para outras atividades que estão entre minhas obrigações cotidianas.
Será que enquanto me preparo para viver este dia, penso na vida que desejo ter? Penso no que significa ser feliz? Será que eu me sinto feliz? Quais meus planos, meus projetos de vida, meus sonhos? Minhas ativida-des de hoje estão na direção da realização de meus sonhos? O que ativida-desejo? Como cantam os Titãs, desejo mais que comida. Será que quero saída para qualquer parte? Qualquer parte serve? Ou não?
Estas são as questões que propomos para iniciar curso Direitos Humanos e Geração da Paz. Estas são as questões que propomos para habitarem nossos
pensa-mentos a cada dia.
As respostas são pessoais, intransferíveis. Por isso os textos que iniciam este curso são repletos de perguntas de três professores: Adriano J. H. Vieira, Álvaro A. Schmidt Neto e Juan Miguel Batalloso Navas. Os estilos variam, de acordo com o jeito que cada um en-controu de expressar-se, de comunicar seus estudos, de dialogar com vocês.
Organizamos os textos começando pela Felicidade, que para nós é a grande aspi-ração humana. Continuamos destacando a importância do autoconhecimento, inclu-sive para entender que vida desejamos viver e o que traz felicidade para nós. Seguimos a reflexão pela dignidade humana e pela ética.
Tarde na noite, uma noite fria e silenciosa, o espírito pode estar mais acordado e lúcido do que nunca. No grande vazio em redor, a alma está carregada de energia, mas está tranquila como a superfície de um lago. Nesse instante, toda felicidade é possível Luiz Carlos Lisboa, O som do silêncio
A felicidade
Álvaro Augusto Schmidt Neto
O que é felicidade? Para alguns, viver um grande amor é o ápice da felicida-de. Para outros, ganhar muito dinheiro e viver viajando em um iate particu-lar é ser plenamente feliz. Há ainda aqueles que buscam a felicidade na sim-plicidade das coisas: uma refeição com amigos, a escola, um bom emprego.
Enfim, o que é felicidade1? Será que podemos afirmar com segu-rança que somos felizes? Sua vida está completa? Não está faltando nada para coroar sua alegria? Onde está a cereja do bolo?
Nós temos sonhos, ambições, desejos que podem nos trazer a sen-sação de felicidade. É uma sensen-sação de alegria, misturada com satisfação, bem estar e com uma pitada de paz e serenidade. Você pode acrescentar outros elementos nessa sensação de felicidade, mas o importante é notar que esse sentimento nos envolve totalmente e tem o poder de mudar nossas vidas. Quando estamos felizes, tudo fica mais fácil, concorda? Os amigos se aproximam, as vitórias são previsíveis, os amores se multipli-cam, a autoconfiança se eleva e caminhamos sentindo a energia da terra e o frescor do ar, sem medo do próximo passo.
Saber o que é a felicidade e como ela pode nos beneficiar não irá, necessariamente, fazer com que sejamos felizes para sempre, certo? A experiência mostra que saber as propriedades alimentícias contidas num
copo de leite não mata a fome e muito menos a vontade de tomar um copo de leite bem geladinho, de modo que, saber algo teoricamente não é o mesmo que vivenciá-lo e experimentá-vivenciá-lo. Essa separação entre o conhecimento teórico e o vivencial é uma questão filosófica muito importante e bastante discutida entre os filósofos e nos con-vida a refletir também o que é a felicidade em termos existenciais.
As pessoas podem nomear sua felicidade a partir de contextos e realidades diver-sos. Uma jovem, por exemplo, pode se sentir plena de felicidade com o seu casamento, enquanto uma amiga tem a mesma sensação logo após o divórcio. Nesse caso, o que provoca a felicidade para elas são realidades exatamente opostas. Isso nos faz pensar que talvez a felicidade não esteja nas coisas externas a nós, ou seja, em fatos,
aconteci-1. O que é felicidade para você? O que você precisa para ser feliz?
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mentos, conquistas, mas na nossa identidade e relação com tudo que está acontecendo ao nosso redor. Por isso, a felicidade depende muito de nós mesmos, daquilo que so-mos, que queremos e buscamos.
No livro A República, de Platão2 (século IV a. C.), no capítulo X, o autor narra o mito3 de Er. Er era um personagem armênio que havia morrido em combate e, saindo de seu corpo, foi para um lugar em que muitos eram julgados. Alguns após o julgamento tomavam um caminho à direita, que subia para o céu, outros, os injustos, tomavam o caminho à esquerda, que era para baixo. Do outro lado havia uma espécie de profeta que encaminhava as almas puras que saíam do céu e que tinham como destino viverem na terra. O profeta oferecia a essas almas alguns tipos de destinos e cada alma escolhia aquele que mais lhe agradava. Depois disso, a alma partia para o nasci-mento na terra, mas no caminho cada alma tinha que atravessar o rio Lettes, que significa esquecimento, e ao fazê-lo, as almas se esqueciam do destino que haviam escolhido. Assim, o nascimento e a existência de cada alma na terra era marcado pela busca de si mesmo, ou procurar recordar aquilo que havia escolhido ser.
Esse mito na obra de Platão nos faz refletir sobre muitas coisas e uma delas é que a nossa existência, ou a nossa vida aqui nesse mundo, é uma espécie de re-cordação daquilo que somos. Logo, quanto mais pró-ximo estivermos daquilo que realmente escolhemos ser, mais felizes e realizados estaremos. Por outro lado, quanto mais distantes, infelizes e frustrados seremos.
Ou seja, a vida é uma busca constante de nós mesmos. Por isso, vale a pena viver e vale a pena buscar a nossa felicidade de maneira intensa e de-terminada. Os acontecimentos e os fatos a nossa volta funcionam como símbolos daquilo que real-mente buscamos ser. Por isso que a felicidade de-pende muito mais da nossa identidade e relação que criamos com o nosso meio. A felicidade depende muito de como nos colocamos diante dos aconte-cimentos e desdobramentos do nosso destino. Por isso, que para os filósofos gregos, a felicidade era um diálogo constante da pessoa com a sua própria vida.
Seguindo o exemplo dos gregos, é importante dialogarmos um pouco mais com a nossa vida e com o nosso destino. Vamos perguntar a nós mesmos quais são os nossos so-nhos? O que estamos buscando? Onde queremos chegar? Quais são os nossos interesses mais secretos e profundos? Essas perguntas norteiam a busca de nós mesmos e são per-guntas fundamentais, ou seja, são perper-guntas que devemos estar sempre fazendo indepen-dentemente do nosso estado de ânimo. Essas perguntas ajudam a nos conhecer melhor, e
2. Platão (428-348 a. C) é filó-sofo grego, aluno de Sócrates e fundador da Aca-demia, conside-rada a precursora das universidades que se desen-volveram a partir da Idade Média. A influência de Platão na filosofia é provavelmente maior do que a de qualquer outro homem, pois além de grande pensa-dor era também grande escritor. Suas obras nos chegaram pratica-mente completas e se apresen-tam em grande parte na forma de diálogos, tendo Sócrates como personagem principal. Entre elas, A República, provavelmente o mais famoso dos diálogos de Platão. (RUSSELL, 2003) 3. Mitos são narrativas de significado simbó-lico, contadas de geração a geração, consideradas verdadeiras por determinados grupos. Também podem ser relatos sobre seres ou acontecimentos imaginários, acer-ca dos primeiros tempos ou de épocas heroi-cas (Dicionário Aurélio).
a partir disso, podemos ter um discernimento mais apurado com relação ao que queremos para nós mesmos e assim escolher os caminhos que vamos percorrer.
Conhecer nossos sonhos e escolher nossos caminhos para realizá-los é ser protagonista do seu destino, ou seja, é assumir a sua vida como sua e desfrutar dela a cada instante, sem se deixar escravizar por aquilo que você não é ou pelo que não se identifica. É importante sermos o que so-mos, independentemente de tudo aquilo que os outros dizem que devemos ser. Todo conselho e toda orientação que venha dos outros é válida, mas pouco poderá nos ajudar se não estivermos conscientes da nossa busca e dos nossos sonhos. Por isso, não abra mão da sua vida e não abra mão da sua felicidade, pois ela depende muito mais de você do que dos outros e das coisas.
Conheça-te a ti mesmo e seja feliz!
Autorretrato
Se me contemplo, Tantas me vejo, Que não entendo Quem sou, no tempoDo pensamento (...) Cecília Meireles
Autoconhecimento
Juan Miguel Batalloso Navas
...Somente o autoconhecimento pode trazer tranquilidade e felicidade ao homem, porque o autoconhecimento é o princípio da inteligência e da integração. A inteligência não é um simples ajuste superficial; não é o cultivo da mente, nem a aquisição de conhecimentos. A inteligência é a capacidade para entender os processos da vida; é percepção dos verdadeiros valores...
Jiddu Krishnamurti
Autoconhecer-se é ser capaz de utilizar as capacidades de observação, explicação e in-trospecção com o fim de identificar características pessoais. Assim, obtemos informações sobre nós mesmos como se fôssemos fazer uma descrição nossa. Sem dúvida, não é algo simples como tirar uma fotografia ou realizar uma prova de auto avaliação. Se fosse assim, bastaria aplicar os testes adequados para que tivéssemos um retrato aproximado mostrando como pensamos ou quais são os traços de nossa personalidade que aparecem em um mo-mento determinado de nossas vidas.
Os testes diagnósticos, ainda que sejam ferramentas úteis para nos auxiliar na com-preensão de nós mesmos, em síntese, o que nos informam é um pouco “como somos” ou “como nos vemos”. Deixam sem resposta o “que somos”, “quem somos4”, “por que somos assim” além de muitas outras perguntas em relação ao enorme e eterno mistério que é o co-nhecimento de nós, seres humanos.
O autoconhecimento vai além de pensar sobre mim e identificar aspectos de meu jeito de ser no mundo. É algo mais profundo, dinâmico e complexo. Nós, seres
Quem sou? Como sou? Por que sou assim? Você já pensou sobre isso neste ano?
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humanos, não somos estáticos, mas estamos em processo contínuo de mudança. Agi-mos de forma interativa, reconstrutiva, ou seja, agiAgi-mos e reagiAgi-mos em meio às pessoas e a tudo que nos rodeia.
Conhecer-nos significa ser capaz de explorar nossos próprios sentimentos, emo-ções, desejos, motivos, razões, interesses e valores, compreendendo as relaemo-ções, vín-culos, bifurcações e contradições que se produzem entre eles. Quero dizer com isso, entender o modo como impulsos e emoções influem sobre nosso comportamento, nossas atitudes e os objetivos que traçamos para nossa vida.
Por exemplo:
Observamos como reagimos quando alguém nos trata mal? Que emo-ções sentimos? E quando alguém diz coisas agradáveis sobre nosso com-portamento? Como reagimos então? Como nos sentimos ao chegarmos em um lugar estranho, onde ninguém nos conhece? Como nos sentimos quando estamos com amigos, que nos aceitam como somos? Você já teve um “branco” em dia de avaliação?
O medo, a ansiedade pode nos paralisar. Por outro lado, quando nos sentimos confiantes e aceitos, a memória, a fala, tudo flui com mais facilidade.
As emoções4 têm um papel importante em nossas relações, pois à medida que in-teragimos elas criam um estado ou um “cenário interior assim como geram também um cenário exterior”. Estes “cenários” podem favorecer ou dificultar a comunicação e a apren-dizagem. São nossos pensamentos e emoções, de forma integrada, nossos “sentipensamen-tos5” que configuram e dão colorido à percepção que temos de nós mesmos. É importante lembrar que nossas expectativas, bem como sermos valorizados pelas pessoas de nosso convívio, têm um papel fundamental na maneira como percebemos a nós mesmos.
Autoconhecer-se implica ser capaz de integrar e respeitar como fomos no passado, relacionando ao presente e projetando em direção ao futuro, com a consciência de que a vida somente pode ser vivida no momento atual, tomando decisões, antecipando as suas consequências. Trata-se de uma espécie de processo liberador dos condicionamentos que limitam, escravizam e entorpecem o desenvolvimento de nossas potencialidades, com um valor educativo transcendente, propiciando-nos ir além de nós mesmos.
Avançando um pouco mais, o autoconhecimento é um meio de autoinvestigação pessoal em todas as dimensões de nossa existência que se manifestam em relação às inte-rações com as pessoas de nosso convívio, com a sociedade e com a natureza da qual somos parte. É um processo ao mesmo tempo ecológico, social e pessoal, que exige o desenvolvi-mento de todas as nossas capacidades e inteligências, estando mais centrado na inteligência interpessoal6 que inclui tanto a inteligência emocional7, como a inteligência espiritual8.
A experiência de pessoas que se mantiveram por longos períodos no caminho do autoconhecimento nos diz que, à medida que tomamos consciência de nossas emoções e sentimentos, o conhecimento de nós mesmos ganha profundidade e consistência. Nossa consciência inicia uma espécie de expansão que vai espontaneamente abrindo novas portas para a compreensão de nosso ser e novas possibilidades para superação
4. Emoções são disposições cor-porais que criam domínios de ações. Isto quer dizer que nossas atitudes, nossas ações se desen-volvem a partir do estado emocio-nal em que nos encontramos. Por exemplo, se alguém está com raiva, dificilmente terá condições de escutar ou aten-der a um pedido. 5. Sentipensar (MORAES e TOR-RE, 2004), palavra criada pelo Prof. Saturnino de la Torre, da Univer-sidade de Barce-lona, que quer dizer “trabalhar de forma conjunta o pensamento e o sentimento, buscando uma ação integrada”.
do egocentrismo. Daí a importância de aprender a contemplar e reconhecer nossos sentimentos de alegria, mas também aqueles que estão na base ou onde nascem sofrimentos, muitos deles desnecessários. Contemplar, reconhecer e investigar o próprio sofrimento faz com que o entendimento e o amor surjam em nós, facilitan-do os processos de cura interior.
Não temos dúvidas de que o autoconhecimento é o caminho para a sabedoria. Sem ele estamos sujeitos a permanecer nas sombras, no sofrimento, na solidão in-terior, na raiva, no medo, na ignorância, nos apegos e nos condicionamentos. Visto como caminho de sabedoria, o autoconhecimento é uma das tarefas humanas mais difíceis e intermináveis que qualquer indivíduo pode empreender.
Autoconhecer-se é fazer emergir, construir e desenvolver o mestre interno que todo ser humano carrega consigo, prestando atenção e identificando o quê e como pensamos e identificando o quê e como sentimos. É também entender o que dizemos e quais são as motivações profundas de nossas palavras, e em que medida nosso falar, escrever ou expressar correspondem ao nosso pensar, sentir, agir.
Por onde iniciar um caminho de esperança, de equilíbrio, no qual sejamos nossos próprios terapeutas e mestres?
É certo que só podemos fazer o caminho ao caminhar e que corresponde a cada ser humano trilhar sua própria estrada e buscar suas próprias e singulares res-postas ao autoconhecimento. O que podemos fazer aqui, em síntese, é compartilhar nossa experiência de viver/conviver, reconhecendo que as aprendizagens que vêm da experiência, além de serem únicas, nunca estão concluídas. Aprender com a ex-periência implica sempre avanços e retrocessos, ensaio e erro, tropeçar muitas vezes na mesma pedra e, sobretudo, adotar uma atitude de humildade, ou seja, darmo-nos conta de que aquilo que pensamos ter aprendido e superado, se darmo-nos apresenta novamente como erro, fracasso, contradição, engano ou incoerência.
Sem dúvida, alguma o primeiro passo é aprender a silenciar, para assim con-templar o maravilhoso, misterioso e complexo milagre da vida e da existência hu-mana, fazendo tudo que seja necessário para cuidá-la, protegê-la, sustentá-la.
Você tem o hábito de silenciar, em algum momento do dia, obser-vando-se, refletindo, acompanhando os próprios pensamentos ou sim-plesmente ficando atento ao momento presente? De que maneira você busca o autoconhecimento, a razão, o sentido de sua vida?
A dignidade humana
Álvaro Augusto Schmidt Neto
Ohiyesa, um índio norte-americano e admirado sábio da tribo Sioux, diz que na vida do índio havia somente um dever inevitável – o dever da oração – o reconhecimento diário do Invisível e Eterno. Suas orações diárias eram mais necessárias que a comida
6. Inteligência interpessoal, de acordo com Howard Gardner (2001), está ligada à convivência, à capacidade de relacionar-se bem com outras pessoas, entendendo-as, compreendendo seus sentimentos e atitudes. 7. Inteligência emocional, segundo Daniel Goleman (1999), está relacionada ao reconhecimen-to dos próprios sentimentos e habilidade para lidar com eles, adequando-os às situações vividas; reconhecimento das emoções de outras pessoas; automotivação; habilidade no relacionamento interpessoal. 8. Inteligência es-piritual, conforme Zohar e Marshal (2001), é a habili-dade de perceber nossos atos e experiências de maneira mais ampla, dando-lhes um sentido e valor. Está ligada à necessidade humana de ter um propósito na vida, auxiliando no de-senvolvimento de valores éticos que fundamentam nossas ações.
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de cada dia. Ele se levanta ao nascer do dia, coloca os seus mocassins e se dirige ao rio. Ali ele molha o rosto com as mãos ou mergulha na água fresca e límpida do rio. Depois do banho se coloca de pé, frente à aurora crescente, frente ao sol que salta por cima do hori-zonte, e oferece uma oração silenciosa. Seu cônjuge pode rezar antes ou depois dele, mas nunca o acompanha. Cada alma deve encontrar o sol nascente, a nova terra perfumada e o Grande Silêncio sozinho.
O que podemos aprender com esse costume indígena apresentado por Ohiyesa? Ele nos diz que, para o índio, o dever da oração e de estar conectado com o Invisível e Eterno era muito importante, o que significa que essa atitude fazia parte da vida do índio. Antes de pensar em comer, beber, caçar, dormir ou qualquer outra coisa, o índio está preocupado em estabelecer sua relação com o Grande Criador e procurar no
silên-cio da sua alma a razão de ser de sua vida e de seu destino.
Como podemos associar esse costume indígena com a digni-dade humana? Bem, se formos ao dicionário veremos que a pala-vra dignidade significa nobreza, compostura, respeitabilidade.
Nobreza, por sua vez, indica elevação de sentimentos, distin-ção de maneiras e grandeza de ânimo.
Com essas definições podemos concluir que a condição do índio frente à sua vida e frente ao Criador, de acordo com sua cren-ça, é bastante nobre e digna. Não há ambição, ganância ou oportu-nismo. Há uma total conexão entre o homem e a natureza e entre o homem e seu Criador. Por isso, antes de conhecer, querer e amar algo, o índio estabelece uma relação com o seu Criador, e assim, dignifica a sua busca e suas atitudes. Isso significa que ele não age por si só ou de acordo com seu impulso imediato, mas em função de princípios que norteiam as atitudes de seus ancestrais e que fo-ram estabelecidos pelo Grande Criador.
Vivemos numa sociedade moderna em que os valores hu-manos estão fora de moda, ou seja, muitas vezes agimos apenas pensando em nós mesmos, não nos importando se o que fazemos prejudica os outros ou a natureza. Além disso, a televisão e a socie-dade em geral estabelecem alguns padrões de comportamento, que muitas vezes não concordamos, mas que acabamos aceitando em função da força que essas tendências ganham e acabam se impondo rapidamente.
A dignidade humana está muito ligada a retomarmos as rédeas do nosso destino e estabelecermos outro vínculo com a natureza e com os outros que estão a nossa volta. Esse caminho significa enobrecer nosso conhecimento, pois ele não pode ser reduzido a informações rápidas e incompletas destituídas de uma profundidade e de uma relação íntima com nossas próprias buscas e expectativas.
Da mesma forma nossa vontade não pode estar reduzida a busca imediata de prazer e de desejos. Antes, deve transcender nossos impulsos momentâneos e se conectar com nossos objetivos mais caros e estabelecer um pacto com a nossa vida. A felicidade é então
uma meta clara e podemos desfrutar dela em cada amanhecer e em cada respiração. Po-demos sentir a força da vida pulsando e aquecendo nossas escolhas e decisões.
Também nossas atitudes precisam espelhar nosso amor e nossas qualidades. Pre-cisamos aprender a valorizar cada gesto, cada rito, cada palavra, cada olhar. Não pode-mos desperdiçar as oportunidades que o destino nos oferece e acreditar que toda atitu-de movida pelo amor será melhor do que aquela em que o ódio e a inveja predominam. O amor também está associado à solidariedade e a generosidade. Ser solidário e generoso implica não subestimar o próximo e procurar olhar o semelhante com grandeza de alma, sem julgamentos prévios e sem preconceitos. Olhar o outro com humildade, ou esvaziado de si mesmo, garante uma relação humana digna e justa. É importante garantir ao outro a liberdade de ser o que ele é. Sempre que impomos nossos gostos, ideias e cultura sobre o outro, acabamos impedindo-o de se mostrar livremente. Além disso, querer moldar os outros aos nossos padrões sempre será uma espécie de escravidão. Por isso, a humildade é um componente fundamental na cons-trução da dignidade humana. Em outras palavras, ser digno é ser você mesmo e olhar o outro como ele é.
Há também outro componente da dignidade humana que são as adversidades que sempre rondam a nossa vida. Viver uma adversidade é se defrontar com algo que não queríamos e que não temos como escapar das suas garras. A morte de alguém querido, uma decepção amorosa, uma injustiça qualquer, são adversidades as quais sempre esta-mos sujeitos. É preciso nesse momento saber celebrar a vida com dignidade e suportar tudo isso com otimismo e não deixar que a adversidade tenha um peso maior do que realmente tem. Importante saber que a adversidade não é apenas um azar ou algo que nos surpreendeu por acaso.
As adversidades são momentos difíceis, sem dúvida, mas são também oportuni-dades de crescimento e de superação, desde que saibamos encará-las com naturalidade, firmeza e, sobretudo, coragem. As adversidades nos ajudam a ver a realidade de modo mais objetivo e sem tantas ilusões. Elas nos convidam a adentrar no mundo interior e analisar nossos erros e defeitos sem tanta compaixão por nós mesmos. Elas nos mos-tram que somos muito mais fortes do que imaginávamos e nos aproximam ainda mais dos outros.
Na adversidade aprendemos a compartilhar, a solidarizar, a olhar além do que podemos ver. Ela nos aproxima de nós mesmos e nos toca com suavidade, mas mostra que ser nobre e digno é saber se autocontrolar e se autoexaminar, sem medo do que iremos encontrar.
A dignidade humana é um caminho que procura restabelecer a relação do ser humano com o sentido da vida, com a natureza e com o outro. É um caminho espiri-tual, ético e social que se traduz numa atitude de enobrecimento daquilo que devemos conhecer, querer e amar.
Por isso a dignidade humana passa pela educação. Por uma educação transdisci-plinar, já que ultrapassa o limite das disciplinas e integra o conhecer, o querer e o amar. Isso significa que a escola deve não só valorizar o ato de conhecer, mas também a
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tade e o interesse do sujeito em buscar esse conhecimento. E também valorizar o ato de amar esse conhecimento, ou, em outras palavras, favorecer o sujeito a se conformar ao conhecimento, pois amar é tomar a forma do objeto amado.
Os gregos antigos diziam que conhecer é ser, o que indica que o conhecimento era in-corporado pelo sujeito. Talvez o primeiro passo para restituirmos a dignidade humana seja promover uma educação em que o conhecimento volte a ter uma dimensão mais humana, que os seus conteúdos tenham princípios e que possam ser vivenciados pelos sujeitos.
Assim, o grande chefe indígena Urso Erguido dizia:
[...] com relação à “civilização” que me deram desde os tempos da reserva indígena, nada foi acrescentado ao meu sentido de justiça, nem ao meu respeito pelos direitos da vida, nem ao meu amor pela verdade, a honra e a generosidade, nem a minha fé em Wakán Tanka, o deus dos Lakotas. Porque depois que foram pregadas e expostas todas as grandes religiões, ou que tenham sido explicadas por brilhantes eruditos, ou que tenham sido escritas em livros e embelezadas com linguagem elegante e belos adornos, o homem – todo o homem – continua estando frente ao Grande Mistério.
Assim que, se hoje eu tivesse que orientar um jovem para que iniciasse a viagem da vida, e me visse na obrigação de eleger entre a via natural dos meus antepassados e a via de “civilização” atual do homem branco, eu, para o seu bem, não duvidaria em iniciar os passos do jovem no caminho dos meus antepassados. Eu o educaria para ser um índio! (Fitzgerald, 1994, p. 28-9)
O que o chefe Urso Erguido chama de índio, podemos tam-bém interpretar como ser humano, pois essa atitude indígena é digna de qualquer ser humano.
Assim, pensamos que a dignidade humana está na relação que o ser humano estabelece com o sagrado da vida, se assim o crê, com seu Criador, com a natureza e com outro. Esta relação exige humildade e confiança, aspectos que deixaram de permear os cur-rículos escolares, mas que precisam recuperar o seu espaço e sua própria dignidade.
Retornamos à questão inicial deste texto: que vida deseja-mos viver? Podedeseja-mos responder a esta pergunta de muitas manei-ras, mas talvez possamos agora dizer que desejamos uma vida na qual tenhamos nossa dignidade humana preservada, cuidada, reconhecida. Talvez possamos dizer que desejamos uma vida que nos permita o contato profundo conosco, tornando-nos pessoas melhores para nós mesmos, para a comunidade em que vivemos, para a humanidade, para a natureza. Será que isso tem a ver com Ética? O que é a Ética? Como ela nos ajuda a pensar na vida que desejamos viver?
Conversando sobre a palavra ética
Adriano José Hertzog Vieira
Já era tarde quando Eduardo chegou da escola. Passou pela varanda, onde vovô Ro-mualdo tomava um ar após o almoço. Pouco depois voltou com o prato recheado de farofa, feijão de corda e um pedaço suculento de peixe que a vó Estelita tinha preparado. Sentou-se no chão, perto da rede onde o avô repousava e perguntou:
– Vovô, hoje minha professora disse que a gente vai estudar ética, algo muito necessário para nossa vida em sociedade. Mas eu estou muito curioso, acho que não vou aguentar esperar a próxima aula para saber o que é isso. O senhor pode me dizer que tal coisa é essa ética?
Seu Romualdo que, mesmo com pouca escola, era um homem muito vivido, que gostava de ler e saber das coisas, passou a mão pela cabeça, raspou a garganta e disse:
– Ética, Dudu, é uma coisa muito antiga, desde que existe gente nesse mundão, existe ética. Cada povo, cada grupo, tem uma forma de nomear e compreender isso que chamamos de ética, mas esse nome quem inventou foram os gregos antigos. No século IV a. C., um mestre, filósofo, chamado Epicuro (341 - 270 a. C.), propôs uma doutrina que buscava a felicidade por meio do prazer, do bem viver. Prazer era enten-dido como um bem realizado para o outro, não um bem para si mesmo, que seria o egoísmo. Epicuro e seus seguidores acreditavam que as sociedades deveriam ser como os jardins, onde as pessoas se encontravam e estabeleciam laços de amizade para aju-darem uns aos outros. O prazer estava relacionado ao bem viver, ao cuidado com as pessoas, ao cuidado com o planeta Terra, com o ambiente onde se vive. A esse modo de viver em comunidade, cuidando uns dos outros, na alegria e amizade, criando um clima agradável de solidariedade e qualidade de vida, foi dado o nome de ethos pelos epicuristas, daí surgiu a palavra ética.
– Então, retrucou Dudu, quando eu chego da escola e encontro um prato de comida, preparado pela vovó Estelita, e vocês se preocupam com minha alimentação, isso é ética? Porque, afinal de contas, vocês estão cuidando de mim, não é?
– De certa forma, sim, Dudu, disse o vô Romualdo. Ética é nosso modo de viver, de nos relacionarmos com as pessoas. Sempre que fazemos coisas que ajudam as pes-soas, promovem o crescimento humano, o desenvolvimento do bem, das boas coisas, estamos vivendo na perspectiva da ética da felicidade, do bem viver.
– Eram só os epicuristas, voinho, que se preocupavam com a ética, ou outros filósofos também falavam disso?
– Os epicuristas, Dudu, foram os primeiros que estudaram e desenvolveram o conceito da ética, mas muitos filósofos, quase todos, tematizaram essa questão. Platão, por exemplo, outro ateniense, que também viveu no século IV a. C., acreditava que a virtude e o bem viver residiam no conhecimento. A descoberta da sabedoria através da razão era o caminho para que os homens se tornassem bons e fizessem o bem para todos, vivendo, assim, numa sociedade perfeita.
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Já engolindo as últimas garfadas do delicioso almoço que a avó havia preparado, Dudu olhou fixo para o vô Romualdo e disse:
– Então, vovô, para os epicuristas a ética era a felicidade buscada no prazer de bem viver e fazer o bem aos outros; para os platônicos era a virtude do conhecimento buscada no exercício da razão, do raciocínio. Quem está certo: o platonismo ou o epicurismo?
Seu Romualdo levantou-se, esticou os braços para o alto, como se fosse pegar as nuvens e espreguiçou num suspiro profundo. Olhando o mar, que beijava o céu no horizonte, disse ao neto, voltando a deitar na rede:
– Meu neto, isso de uma coisa estar certa ou errada, quando se refere a um modo de pensar, de compreender a vida ou a realidade, é algo muito complexo. Precisamos aprofun-dar muito os entendimentos sobre tal assunto para dizermos se algo é certo ou errado. Em relação às compreensões do que seja ética, eu prefiro dizer que as duas, a do epicurismo e a do platonismo, estão certas. Elas não são contrárias, mas complementares. Quando algo é diferente de outro, não quer dizer que sejam contraditórios, mas só que são diferentes. O mais importante é descobrirmos os pontos comuns e em que podem se complementar.
– Eita, vovô, gostei de saber sobre a origem da palavra “ética” e sua importância em nossa vida. Agora vou contribuir com nossa ética e lavar meu prato e ajudar a vovó lavar as louças do almoço. Se entendi bem, as ações que beneficiam nosso bom convívio, contri-buem para a construção da ética, disse Eduardo, deixando o avô repousando na rede.
Ética e cultura
Quando parecia que o neto tinha ficado satisfeito com o diálogo, seu Romualdo er-gueu-se da rede e saiu em direção ao portão, a fim de dar uma caminhada na vila. Não demorou e Eduardo o chamou, fazendo-lhe sinal para que o esperasse. Logo, com a agilidade de seus 16 anos, já estava ao lado do vô, abraçando-lhe os ombros e oferecen-do sua companhia para a caminhada.
– Só quero entender mais uma coisa, vovô, disse Eduardo: o senhor me falou bem que a palavra “ética” surgiu na cultura grega, com os primeiros filósofos, isso eu compre-endi. Mas, então, a ética é uma coisa da cultura ocidental, europeia e que chegou até nós por causa de nossa herança cultural proveniente da colonização portuguesa? Os outros povos, as outras sociedades que não herdaram sua cultura dos gregos, não possuem ética?
O avô sorriu balançando a cabeça e deu uns tapinhas de leve no ombro do neto. Parou à sombra de uma mangueira e explicou:
– Olha, Dudu, todas as culturas, de alguma forma, têm seu jeito de manifestar a ética, o cuidado com as pessoas, a compaixão com os seres. Vou te contar uma história, muito interessante, que ouvi do seu Carlos Alberto, aquele vizinho que é bisneto de africanos e tem muita sabedoria que herdou de seus ancestrais. Uma vez, ele me con-tou uma história que dizia mais ou menos assim:
“Uma orixá, de nome Nanã, teve um filho chamado Omolu. Por causa da saú-de frágil e o corpo débil saú-de Omolu, sua mãe Nanã o saú-deixou na beira do mar para ser morto e servir de alimento aos peixes e animais marinhos. Iemanjá, a deusa dos mares,
o encontrou com o corpo já bastante mordido por peixes, e cuidou dele. Tratou das fe-ridas, alimentou-o e cuidou de seu desenvolvimento. Omolu cresceu e, envergonhado pelas cicatrizes de seu corpo, usava roupas de palha para esconder as marcas das feridas. Também cobria o rosto, pois seus olhos eram tão brilhantes que refletiam a luz do sol e se alguém olhasse para eles ficaria cego.
Numa grande festa dos orixás, Omolu não foi convidado por causa de seu aspecto feio e marcado pelas cicatrizes. Ele ficou, de longe, assistindo aos festejos. Iansã, a deusa da beleza, das tempestades e da determinação, o viu a distância e chamou-o para dançar com ela na festa. En-quanto dançavam, Iansã sentiu-se tão feliz por ter incluído Omolu na celebração que começou a rodopiar. Sua dança provocou uma ventania que soprou as palhas das vestes de Omolu. No lugar onde antes tinham feridas, saíram pipocas que alimentavam os comensais e todos se diver-tiram muito. Já Omolu ficou com a pele limpa, mostrando-se um homem muito belo e forte”. – Puxa, vovô, que história linda! Iemanjá e Iansã resgataram o Omolu. Uma no aspecto físico e a outra na dimensão da convivência, da inclusão social e comunitária.
– Muito bem, Dudu, é por aí mesmo. Embora os africanos não falem de ética, como nós ocidentais a compreendemos, seus contos, suas histórias, enfim, sua tradi-ção cultural manifesta a dimensão do cuidado com os outros, tanto na dimensão física como social, afetiva e espiritual. O que Iemanjá fez no cuidado com o corpo, com o crescimento físico de Omolu, Iansã fez na dimensão do afeto, da acolhida, chamando-o para participar dchamando-o bem viver de tchamando-odchamando-os.
– Legal, vovô, então podemos dizer que cada cultura tem uma forma de com-preender e de manifestar a ética, necessária ao convívio de todos os seres humanos. Podemos dizer, também, que o jardim de Epicuro pode ser, de certa forma, comparado à festa dos orixás?
– É isso aí, Dudu, disse o avô voltando com o neto para casa e complementando: ninguém vive sem ética, sem um conjunto de atitudes para o bem viver de todos, onde nossas ações visem o crescimento do outro e a felicidade comum.
Síntese do fascículo
Neste fascículo abordamos alguns conceitos que consideramos fundamentais para o respeito aos Direitos Humanos e à Geração da Paz. Em primeiro lugar, a
felicidade. Compreendemos a felicidade como um jeito próprio de atribuirmos
sentido à nossa vida, percebendo que ela está muito mais relacionada à maneira como encaramos os acontecimentos, oportunidades e aprendizagem do que a fato-res externos. Como um meio de entrarmos em contato mais profundo com nosso cotidiano, com nosso jeito de ser, sentir e agir, mergulhamos no autoconheci-mento, sua importância e significado. O autoconhecimento vai além da simples
observação de nossos pensamentos e sentimentos. É uma conexão profunda com nossos valores, nossos propósitos, nossas emoções, reações. Para esta busca, preci-samos também estar atentos às relações que mantemos com as pessoas de nossa
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mília, amigos, colegas com a comunidade onde vivemos. É um exercício que tam-bém requer silêncio, introspecção e o desenvolvimento da capacidade de refletir.
Auxiliando o entendimento de nós mesmos e da vida que queremos viver, compreendemos a dignidade humana como um caminho para restabelecer a
re-lação do ser humano com o sentido da vida, com a natureza e com o outro. Este caminho é espiritual, ético e social e se traduz numa atitude de enobrecimento do que devemos conhecer, querer e amar.
Por fim, chegamos ao conceito de Ética, como estando ligado ao nosso modo
de viver, de nos relacionarmos com as pessoas, promovendo o crescimento huma-no, o desenvolvimento do bem comum.
Na junção do autoconhecimento com o comportamento ético é preciso desper-tar a consciência de que não vivemos sós. Precisamos, portanto, encontrar meios de coexistência harmoniosa e pacífica, não só entre pessoas dos nossos círculos familiares e profissionais, mas também entre comunidades, grupos distintos, nações, povos.
Não há fórmulas prontas, mas acreditamos que o tema do próximo fascículo, sobre o diálogo, a escuta atenta e amorosa, podem nos proporcionar o entendi-mento do outro, de seu modo de sentir, pensar e agir, encaminhando-nos para a civilização da religação, como nos aponta Edgar Morin em seu livro Sete Saberes
necessários à Educação do Futuro. Uma civilização pautada na compreensão humana e
na reverência à vida. É possível ser feliz?
Atividades
1. Para você, a felicidade é um estado permanente do ser humano ou momentos dife-renciados da vida? Justifique sua resposta com um exemplo pessoal.
2. Vimos no texto que o autoconhecimento exige disciplina, esforço e introspecção. Por que é importante o autoconhecimento, e de que forma ele pode ajudar a pessoa a ser feliz?
3. A dignidade é um direito universal de todo ser humano. Mas ser digno para uma pessoa pode não coincidir com ser digno para outra pessoa. E aí? Como você faria para conciliar pontos de vista diferentes?
4. Na sociedade brasileira, hoje, é comum se ouvir pessoas afirmando que temos falta de ética. Você concorda com essa afirmação? Que ética nos faltaria? Você pode ilus-trar com exemplos recentes?
Referências bibliográficas
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.
FITZGERALD, Michael. Yellowtail: Autobiografía de um hombre medicina y jefe de la danza del sol de la tribu cuervo. Barcelona : Olañeta Editor, 1994.
GARDNER, Howard. La inteligencia reformulada. Las inteligencias múltiples en el siglo XXI. Pai-dós. Barcelona, 2001.
GOLEMAN, Daniel. La práctica de la inteligencia emocional. Kairós. Barcelona, 1999
MORAES, Maria Cândida e TORRE, Saturnino de la. Sentipensar: fundamentos e estratégias para reencantar a educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.
PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1949.
RUSSELL, Bertrand. História do pensamento ocidental. Volume 1. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. ZOHAR, D. y MARSHALL, I. Inteligencia espiritual. La inteligencia que permite ser creativo, tener valores y fe. Plaza y Janés. Barcelona, 2001
Autores
Adriano José Hertzog Vieira: Educador, doutorando em Educação na Universidade Católica
de Brasília, mestre em Educação (Unisinos), filósofo, pastoralista e psicoterapeuta. Professor no Curso de Pedagogia da Universidade Católica de Brasília. Trabalha com formação de professores na perspectiva da transdisciplinaridade, complexidade e ecoformação. Membro do Grupo de Pes-quisa Econtansd/CNPq, palestrante e conferencista. Autor do livro Eixos Significantes: Ensaios de Um
Currículo da Esperança na Escola Contemporânea (Brasília: Universa, 2008) e Organizador do livro A Esperança da Pedagogia: Paulo Freire – Consciência e Compromisso (Brasília: Liberlivro, 2012).
Álvaro Augusto Schmidt Neto: Pedagogo com mestrado em Filosofia da Educação pelo Centro
Universitário Nove de Julho (2005), mestrado em Gestão Educacional pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (2000) e doutorado em Educação (Currículo) pela Pontifícia Universida-de Católica Universida-de São Paulo e UniversidaUniversida-de Universida-de Barcelona (2009), com os temas “ComplexidaUniversida-de e Transdisciplinaridade”. Educador Corporativo da SPDM/Unifesp e membro do grupo de pesquisa Ecotransd/CNPq.
Juan Miguel Batalloso Navas: Doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Sevilla
(Espanha). Graduado e licenciado em Filosofia e Ciências da Educação. Orientador escolar e for-mador de professores. Colaborador da Revista de Diálogos, especializada em Educação de Adultos. Membro da secretaria técnica do Instituto Paulo Freire da Espanha. Foi professor de Ensino Fun-damental e chefe do Departamento de Orientação de Institutos de Educação Secundária na Espa-nha. É autor de livros e diversos artigos, além de conferencista nacional e internacional, atuando especialmente no Peru e no Brasil. Integrante do Grupo de Pesquisa Ecotransd/CNPq.
Rosamaria de Medeiros Arnt: Doutora em Educação pela PUC/SP, pós-doutorado na
Univer-sidade de Barcelona com o tema “Cenários de Aprendizagem e Docência Transdisciplinar”. Mem-bro do Grupo de Pesquisa Ecotransd/CNPq e pesquisadora visitante na Universidade Estadual do Ceará (UECE), junto à Pró-Reitoria de Extensão, coordenando o projeto “Rede de Agentes de Cidadania: caminhos para a vivência dos direitos humanos e geração da paz”.
Presidente João Dummar Neto | Coordenação do Curso Rosamaria de Medeiros Arnt | Coordenação Acadêmico-Administrativa |
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