UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES – CCHLA
DEPARTAMENTO DE ARTES
PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES CÊNICAS - PPGARC
HYAGO PINHEIRO DA SILVA SOUSA
UM DOCUMENTO EM OBRA: MEMÓRIAS DE UM AFETO
NATAL/RN 2019
HYAGO PINHEIRO DA SILVA SOUSA
UM DOCUMENTO EM OBRA: MEMÓRIAS DE UM AFETO
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre.
Área de conhecimento: Artes Cênicas
Linha de pesquisa: Práticas investigativas da cena: poéticas, estéticas e pedagogias.
Orientadora: Drª. Larissa Kelly de Oliveira Marques.
NATAL/RN 2019
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Central Zila Mamede Sousa, Hyago Pinheiro da Silva.
Um documento em obra: memórias de um afeto / Hyago Pinheiro da Silva Sousa. - 2019.
138 f.: il.
Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Natal, RN, 2019.
Orientadora: Dra. Larissa Kelly de Oliveira Marques.
1. Processo de Criação - Dissertação. 2. Documentos -
Dissertação. 3. Memória - Dissertação. 4. Teatro - Dissertação. 5. Dança - Dissertação. I. Marques, Larissa Kelly de Oliveira. II. Título.
RN/UF/BCZM CDU 7:159.928
Prefácio
Nem tudo foram flores...
Pensar, dialogar, construir e dissertar sobre processo criativo nas artes cênicas me faz pensar também sobre o processo de construção e formação do ser humano em outras áreas para além da acadêmica.
O que seria um processo? Pretendo responder a essa pergunta de duas maneiras: utilizando referências diversas para chegar a um entendimento do teor da palavra, como também explicar, neste prefácio, o meu processo pessoal e doloroso de aceitação desta pesquisa.
Tudo começa em março de 2017, com a mudança do projeto e a vontade de escrever sobre a documentação no teatro a partir da vida de uma pessoa que não está mais entre nós. Ela se chama Natália Cecília e a nossa relação é de afeto e amor. Acredito nisso, pois desde cedo eu sinto que ela está junto a mim, cuidando-me, guiando-me e me protegendo. Talvez você, caro leitor, não consiga entender, pois essas são as primeiras linhas de uma história que fala sobre ela, sobre mim e sobre você.
Dentre muitos documentos, o primeiro diário que li foi o último em que ela escreveu sobre os seus derradeiros dias de vida. Logo na primeira página, a minha primeira limitação:
Fonte: Arquivo pessoal do pesquisador. 2019
“Neste diário será escrito somente dias inesquecíveis que aconteceram comigo e o mais importante de tudo: confidencial. Por isso faça-me um favor de não ler sem minha permissão. Obrigado! Natália Cecília”.
Eu estava indo de férias ao Maranhão e, durante as 25 horas de viagem, fechei e abri o diário algumas vezes, até que eu me permiti ler, não me importando com o que dizia a primeira página. A cada dia, hora e momentos registrados nas páginas do pequeno diário, a vontade de torná-lo cena crescia. E assim criar e escrever sobre esse processo de criação a partir de uma tríade: documento, memória e tempo, foi a ideia base, porém, nem tudo foram flores...
Diante de um grande conflito interno, me vi preso a não permissão de ler, investigar, criar e escrever. Invadir uma história que não era minha, uma vida que se foi e que talvez quisesse ficar guardada dentro do baú que continha todos os instantes de uma menina mulher, me procrastinava.
O começo; escolha dos atores; não identificação com a escolha; paro; recomeço; escolho-me como ator; um diretor-ator; diretor ou ator? Diretor! Recomeço; paro; descubro o meu lugar de ator; convido uma atriz; recomeço; penso a
dramaturgia; ensaio; escrevo? Não tenho permissão! O tempo passa; aflição; dúvidas; mudar o projeto ou desistir de tudo? Frustação; boicotando-me; o tempo passa; mas eu não tenho a permissão dela! Pensar e não sair do lugar! Converso; desabafo aos amigos; boicotando-me; passaram-se dois anos e o que tenho: a introdução do meu trabalho!
São dois extremos: acreditar na potência do trabalho artístico, executando todas as ideias na prática. O outro extremo, não ter a permissão direta da autora da história. É extremamente frustrante!
Você deve estar se perguntando, confuso leitor, “o que te fez escrever, então?” Vejamos...
Dedico esta dissertação à memória viva de Natália Cecília Miranda de Sousa Teixeira. Uma menina. Uma mulher. Uma santa. Uma verdadeira artista. A sua história é um remédio que me cura diariamente. Tudo o que aqui escrevo é sobre amor e afeto e isso eu aprendi também com você. Gratidão, minha prima, minha irmã.
PEQUENOS BILHETES DE AGRADECIMENTO
Agradeço primeiramente à energia superior que está acima de mim, sem ela eu não teria mais um dia de vida. Gratidão, meu Deus!
Agradeço ao programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRN, por ter acolhido o meu projeto para desenvolvimento de pesquisa e escrita da dissertação.
Larissa Marques, todas as nossas orientações me ensinaram bem mais a ser humano e falar de amor. Tudo isso eu trouxe para cá, com toda a minha honestidade e autenticidade. Pelos arrepios, sorrisos, fé, coincidências, persistência e paciência: GRATIDÂO!
Aos membros da banca, Dr. Adriano Moraes (UFRN) e Dr. Fernando Abath (UFPB), a sensibilidade de vocês é necessária para que entendam o afeto que escrevo nesse diário tão meu, tão dela e tão nosso. GRATIDÃO por cada página lida, refletida e corrigida. Em especial ao professor Dr. Adriano Moraes, que por algumas vezes acalmou meu coração em momentos de conflito.
A minha amiga Cléo Morais, eu te amo e isso basta! Gratidão por sempre estar de mãos dadas comigo, acreditando em todas as minhas loucuras. O que nós vivemos esses últimos dias levarei comigo para sempre, pois, quando falamos de amor somos mais felizes. Nunca deixe de amar e sorrir. Gratidão por me ensinar a ser sensível.
Meus padrinhos, pais amados, sou artista porque vocês foram os primeiros a perceberem minha inclinação e a me incentivarem, mesmo que de forma indireta. Obrigado, minha madrinha Josineide, por todas as vezes em que você foi contra todos, para ser por mim e pela minha arte. Você foi a única que acreditou em mim desde criança. Esta dissertação é para que você lembre sempre do ser sensível que sou, o que aprendo diariamente com você. Obrigado, meu padrinho Hanilton, por me ensinar que podemos amar em silêncio e ser da maneira mais verdadeira possível. Gratidão pela confiança concedida para que eu pudesse falar de nossa Natália.
Tia Francideide, obrigado pela família, pelo amor, pelas conversas regadas a cervejas e sorrisos. Obrigado pela honestidade e por todas memórias sobre Natália. Esta pesquisa é nossa. Nunca esqueça que eu te amo e sempre vou estar te ensinando a amar um dia após o outro.
Mainha, em meio a um turbilhão de momentos difíceis você estava aqui sempre que eu precisava, fazendo o possível para me ver bem. Eu sou a pessoa mais feliz do
mundo por ter você na minha vida, apoiando, incentivando e cuidando, da sua maneira. Você tem um filho incrível, não tenha medo de mim! Eu amo você para a eternidade.
Aos meus amigos Ivan de Melo e Maria Flor, às vezes é preciso ouvir o nosso coração e nos abrir por inteiro, revelando o nosso ser mais bonito. Eu aprendi isso com vocês naquele laboratório do tempo. Gratidão pelos primeiros passos dessa caminhada e por acreditar em mim mesmo em momentos de dúvida!
Meus irmãos Everson Oliveira e Sebastião de Salles, gratidão pelas sorrisos e lágrimas, vocês foram e são extremamente importantes para a minha jornada enquanto artista, acadêmico e ser humano. Todos os momentos vividos e sentidos são o meu combustível para nunca parar, mesmo não acreditando tanto no amanhã. Vocês são a certeza de que anjos existem e eles estão perto de nós.
A Cia Pérola de Teatro, por sempre acreditar nas loucuras que saem da minha cabeça. Em especial a Rafael Alves, Stéfano Alves, Juciê Borges e Lurian Luz, sem vocês o meu ser afetuoso não existiria. A sensibilidade de vocês para com a minha história é o que me mantém vivo. Gratidão meus amigos, gratidão!
A minha amiga e parceira de sorrisos, Raquel Guedes. Gratidão por toda a verdade extraída da nossa amizade e dessa pesquisa. Os laboratórios de criação se constroem com seu amor e com sua vontade de amar.
A Makários Maia, pelos ensinamentos de uma vida, em uma tarde regada a café e biscoito. A nossa última aula foi a mais importante, pois eu descobri que sou grandioso igual a você. Gratidão pela honestidade.
Agradeço aos colegas de trabalho pela ajuda nos momentos de sufoco com a carga de trabalho, vocês foram incríveis comigo!
Jaqueline Camargo, seu ser faz parte de mim desde 1932 anos atrás e nossa ligação transcende essa ideia de mundo, que somos colocados para entendermos quem somos e por que precisamos estar aqui. Eu agradeço a cada segundo de dedicação a mim e a essa pesquisa, mesmo de forma indireta. Você é uma luz que invadiu o meu ser e que me faz acreditar cada vez mais no amor de irmãos.
Às amigas Janaina Damasceno e Angélica Porto, gratidão. Por toda a compreensão e ajuda nos momentos de aflição em que eu só precisava de um abraço e uma palavra amiga. Vocês são sensacionais!
Ao amigo, irmão e primeiro incentivador para ser artista, Wendel Roniere, essa vida que eu tenho faz mais sentido quando aprendo contigo o que é ser humano. Você para sempre estará em todo o meu ser (AR)tísta.
Ao amigo Geovan Mouzinho, pela sinceridade dos olhos mareados ao lembrar de uma parte dessa história que também é sua. Obrigado por compartilhar momentos teus e de Natália acentuando ainda mais o amor que sinto e o respeito que tenho por essa história. Gratidão!
Agradeço a todos os amigos e parceiros que de forma direta e indireta ajudaram no desenvolvimento dessa pesquisa, que chamo de história de amor e afeto.
Por fim, e não menos importante agradeço a você, Natália, minha chicuta mundica. Obrigado por me ajudar a escrever a tua história. Eu te amo!
RESUMO
Opresente trabalho propõe descrever e discutir um processo de criação, que se configura a partir da seleção e investigação de documentos comprobatórios da vida e morte de uma jovem adolescente. Os documentos foram registrados em cartas, diários, fotografias e relatos. As memórias documentadas nesses diversos materiais arquivados e das lembranças atravessadas por afetos são a base dramatúrgica deste compor. O processo criativo hibridiza a linguagem do teatro e da dança entendendo a importância de se pensar a arte na contemporaneidade. A reflexão teórica se dá através do resultado da prática cênica e dialoga com autores que discutem sobre memória e processos criativos nas artes da cena tais como Salles (2006), Izquierdo (2012), Fabrini (2013) dentre outros. Pudemos perceber ao longo dos laboratórios e da escrita textual que trabalhar com a história real não é somente um impulso, se torna uma necessidade, pois encontrar no outro a nossa história nos move enquanto artistas. O processo criativo suscita questões e o lidar com escolhas, com sensações diversas entre frustações e prazeres, somas e perdas, que entrelaçam o nosso mundo individual e o coletivo. A pesquisa se faz importante para a área de conhecimento da arte ao destacar o documentar em cena como propulsor da criação. Espera-se contribuir com um material para a formação de atores, diretores e pesquisadores interessados num fazer e pensar nas artes cênicas que não dissocie a construção artística da vida sócio-afetiva do artista-pesquisador.
ABSTRACT
The present work proposes to describe and discuss a process of creation, which is configured from the selection and investigation of documents about the life and death of a young adolescent. The documents were recorded in letters, journals, photographs and reports. The memories documented in these various archived materials and memories traversed by affections, are the dramaturgical basic of this composing. The creative process hybridizes the language of theater and dance, understanding the importance of thinking art in contemporary times. The theoretical reflection takes place through the result of the scenic practice and dialogues with authors who discuss about memory and creative processes in the scene arts such as: Salles (2006), Izquierdo (2012), Fabrini (2013) among others. We have been able to realize throughout the labs and textual writing that working with real history is not only an impulse, it becomes a necessity because to find in the other our history moves us as artists. The creative process raises questions and cope with choices, with diverse sensations between frustrations and pleasures, sums and losses, that intertwine our individual and collective worlds. The research becomes important for the area of art knowledge by highlighting the documenting on the scene as the propulsor of creation. It is hoped to contribute with a material for the formation of actors, directors and researchers interested in doing and thinking in the Performing Arts that does not dissociate the artistic construction of the socio-affective life of artist-researcher.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – A capela ... 14
Figura 2 – Página do diário de Natália ... 41
Figura 3 – Self ... 44
Figura 4 – Vestido 1 ... 44
Figura 5 – Vestido 2 ... 45
Figura 6 – Primeiro contato (Maio de 2018) ... 46
Figura 7 – Laboratório de criação (junho de 2018) ... 47
Figura 8 – Laboratório de criação (junho de 2018) ... 48
Figura 9 – Texto em ponto cruz ... 54
Figura 10 – Certidão de nascimento ... 61
Figura 11 – Quem sou eu ... 63
Figura 12 – Portfólio 1: Infância ... 67
Figura 13 – Portfólio 1: Olhar ... 68
Figura 14 – Portfólio 2: Bonecas ... 70
Figura 15 – Portfólio 2: Aniversário de Boneca ... 72
Figura 16 – Portfólio 2: Infância ... 73
Figura 17 – Portfólio 2: Vida familiar ... 74
Figura 18 – Portfólio Allan: Sacramentos religiosos ... 76
Figura 19 – Portfólio Allan: A dança ... 77
Figura 20 – Portfólio Allan: A dança 2 ... 78
Figura 21 – O artista ... 80
Figura 22 – A artista ... 80
Figura 23 – O afeto ... 82
Figura 24 – Janna e Natália ... 89
Figura 25 – Natália e Vitor ... 90
Figura 26 – Apresentação/sonhos ... 91
Figura 27 – Mosaico modelo ... 93
Figura 28 – Diário com cadeado ... 94
Figura 29 – Eneaotil ... 97
Figura 30 – Os foras ... 98
Figura 31 – Atenção ... 99
Figura 33 – Portfólio 1: Amigas e viagens ... 103
Figura 34 – Portfólio 2: Amizades ... 104
Figura 35 – Fita Cassete ... 106
Figura 36 – O Vitor ... 109
Figura 37 – Quantidade de beijos ... 111
Figura 38 – Para meu professor ... 113
Figura 39 – De Geovan para Natália ... 115
Figura 40 – O término... 116
Figura 41 – Para Natália... 117
Figura 42 – Para Geovany ... 119
Figura 43 – Portfólio 2: Última Feira de Ciências ... 121
Figura 44 – Portfólio 2: Último Natal ... 122
Figura 45 – Portfólio 2: Última brincadeira registrada ... 122
Figura 46 – O último diário ... 123
SUMÁRIO
1 A PRIMEIRA CARTA QUE TE ESCREVO – INTRODUZINDO TODO O
MEU AFETO 13
2 DOCUMENTO UM – CERTIDÃO DE NASCIMENTO 25
2.1 ODOCUMENTARCOMOPROPULSÃODACENAARTÍSTICA:
REFLEXÕESSOBREOMEUNASCIMENTOENQUANTOARTISTA 27 2.2 QUANDONOOUTROMEENCONTRO–NASCEUMAPESQUISA 36 2.3 QUANDOEUNÃOMAISEXISTIR,PROCUREM-NOSNASNOSSAS
MEMÓRIAS 53
2.4 ONASCIMENTODENATÁLIAOUDOSARTISTAS–ONASCEREO
PERPERTUARDAMEMÓRIAAPARTIRDOINVENTÁRIO 59
3 DOCUMENTO DOIS – CARTEIRA DE ESTUDANTE 83
3.1 UMAMENINAMULHER–PARAALÉMDESEUTEMPO 90 3.2 ASMEMÓRIASEOSAMIGOS:REFLEXÕESSOBREACRIAÇÃO
CÊNICAUTILIZANDOOSDOCUMENTOS 100
3.4 ASPÁGINASNUNCAMAISESCRITAS... 120
4 ATESTADO DE ÓBITO – UM POSSÍVEL FIM PARA A CONTINUIDADE
DA VIDA 126
13
1 A PRIMEIRA CARTA QUE TE ESCREVO – INTRODUZINDO TODO O MEU
AFETO
Olá, Natália, tudo bem?
Esta é a primeira carta que te escrevo e confesso, não sei muito bem escrever cartas. O mundo mudou de um tempo para cá. Vivo em uma época em que a caneta foi trocada pelo teclado digital e as palavras estão abreviadas, pois a falta de tempo é nosso inimigo diário. A velocidade com que as coisas acontecem, com que as informações são transmitidas assustam um pouco.
Demorei a te escrever, já faz vinte anos desde quando você foi embora. Sinto saudades, principalmente quando fecho os olhos e lembro daquela vez a que assistimos ao filme Titanic, eu te pedi para que você me avisasse quando fosse passar aquela cena que eu tinha medo. E tu não avisou de propósito. Lembra que eu reclamei contigo? Sua chicuta danada. Eita, esqueci que você não gosta que eu te chame assim. Posso te chamar de mundica? Brincadeira!
Ontem eu comi mocotó e foi inevitável não lembrar de você e de como nós brigávamos pela canela com tutano. Mas, não tem algo que me faça lembrar mais de você do que ouvir Legião, principalmente a música Pais e filhos. Ei, eu lembro que você tinha um walkman amarelo, foi por onde eu a ouvi pela primeira vez.
A última vez que te vi, nem sei se era realmente você ou se foi somente uma projeção sua que saiu da minha mente. Tive um pouco de medo, desculpas, eu fechei os olhos e saí correndo. É que foi muito difícil para todos desde aquele dia 13 de janeiro de 1999. Você faz falta!
Enfim, não temos tempo para tristeza. Eu te escrevo para contar algumas coisas que aconteceram depois que você foi embora para o céu. Não sei se você sabe, mas no lugar onde aconteceu o acidente, hoje há uma capela em sua homenagem. Estou enviando uma foto junto com esta carta para você dar uma olhada.
14 Figura 1 – A capela
Fonte: Arquivo pessoal do pesquisador.
Foi um fazendeiro que morava próximo ao local que fez isso para você e Camila. Por falar nela, como ela está? Eu não a conhecia, mas já ouvi falar muito bem. Diga que a mando um abraço. Voltando ao fazendeiro, ele me contou que estava passando por uma situação bem difícil na família e que tal situação também tinha relação com a cidade de Timbiras. Disse que conversou com vocês duas e, caso vocês o ajudassem, ele ia construir uma capela como forma de agradecimento.
Pois bem, todos os dias são trazidas velas, flores e algumas pessoas vão lá rezar por vocês – foi o que eu fiquei sabendo. Ah, tem até uns Ex-votos como forma de agradecimento pelas graças alcançadas. Parece que vocês são boas mesmo. Fiquei sabendo que são conhecidas como as meninas santas. Só posso me encher de felicidade por saber que não foram esquecidas e que a morte não é a finitude da vida.
Mas o que eu quero te contar é sobre outro assunto, que eu não sei se você vai gostar muito de saber, por isso, vou ser direto. Todas as suas coisas estão comigo! A madrinha me deu um baú e um portfólio cheio com teus diários, fotos, cartas, agendas, documentos e algumas roupas que ela guardava. Eu trouxe para Natal, mas não se preocupe, estou só guardando. Sabe, depois que você foi embora, as coisas
15 mudaram, sua mãe só conservou as coisas que ela achava mais importantes, e eu tinha medo que fossem parar no lixo.
Então, eu li seus escritos, vi as fotos... desculpa! Mas eu posso explicar, foi tudo por um motivo acadêmico. Menina, é tanta coisa que eu tenho para te contar, que não sei de que tamanho vai ser esta carta. Sou artista, pois é, por sua culpa! Me formei em teatro e agora estou no mestrado. O meu trabalho dissertativo é sobre você. Sobre sua vida, o que tinha no baú, o que eu lembro da nossa convivência e o que me contaram de ti, ou seja, as nossas memórias. O meu trabalho é sobre afeto!
Natália, eu construi um afeto por você e por nossa história, e em muitos momentos desta carta essa palavra se repetirá. Na verdade, a nossa história é entrelaçada por esse sentimento, que é um elemento básico da afetividade humana, o qual faz parte da vida de muitas pessoas. Que fez e sempre fará parte da nossa história de vida.
O afeto é um
[...] conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sob a forma de emoções, sentimentos e paixões, acompanhados sempre de impressão de dor ou prazer, de satisfação ou insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou de tristeza (CODO & GAZZOTTI, 1999: 48-59)
Eu escrevo com todo o meu amor e afeto e, em muitos momentos desta escrita, um turbilhão de emoções guiaram as minhas reflexões sobre nós dois. O afeto que tenho se construiu na dualidade da vida, dos momentos bons e ruins que estão guardados na minha memória.
Às vezes eu tenho a impressão de que o afeto está interligado com os demais sentimentos e que é por meio dele que nos formamos enquanto seres humanos. Só o afeto, a empatia, o amor, podem transformar a gente. Essa impressão é quase uma certeza, pois, foi o afeto e todos os sentimentos interligados a ele que me fizeram escrever para ti e para o outro. Sabe o que me move Natália? As memórias, minhas e suas, carregadas do mais puro e grandiosos afeto.
As nossas memórias documentadas nos diversos materiais arquivados e nas lembranças atravessadas por nossos afetos são a base de construção desta pesquisa teórico-prática, que versa sobre a importância de vida (real) documentada na cena
16 artística. Deixa eu ser mais claro, eu estou construindo um espetáculo para contar a sua história de vida, relacionando-a a minha.
Eu não quero chamar de um espetáculo de teatro, por mais que ele se configure em sua grande maioria dessa maneira, entretanto, nós dançamos, cantamos, narramos e performamos nas cenas. Falo no plural, “nós”, porque convidei algumas pessoas para estarem no processo criativo comigo. Só que precisei tomar algumas decisões e fazer a escolha das pessoas. Artistas amigos iniciaram o trajeto comigo, mas por razões diversas não puderam seguir. Foi quando convidei uma atriz e amiga para entrar nesse processo e ela permanece até hoje na parceria. Ela se chama Cléo Morais e amou te conhecer. Se identificou muito contigo e com o que você escrevia.
Então, esta pesquisa, Natália, propõe a investigação, elaboração e discussão de um processo de criação de um espetáculo em que o documento, a narração, o movimento, a voz, o canto e o corpo, juntos, são o texto cênico da obra. A reflexão teórica da dissertação se dá por meio da trama de uma prática cênica, que se configura como um produto inacabado, em processo contínuo, propondo diálogos com autores que discutem sobre processo criativo e memória nas Artes Cênicas.
Depois que Cléo entrou no processo, foi que eu consegui organizar todos os encontros por meio de um cronograma semanal. Nas reuniões iniciadas em março de 2019, entrávamos com os documentos (fotos, diários, agendas, cartas, bilhetes e memórias) que tínhamos em mãos sobre você e antes de qualquer laboratório, conversávamos sobre o que queríamos criar ou vivenciar naquele dia. Não tinha um laboratório pré-estabelecido, os impulsos aconteciam nos encontros semanais a partir do que o baú nos revelava e do que discutíamos.
Sabe, Natália, no mundo das Artes Cênicas, existem vários processos criativos, maneiras diferentes de se chegar a um produto cênico. O modo que decidi trabalhar foi direto, tentando pensar em como a sua história, seus documentos, as nossas memórias se tornavam cena. É disso que eu trato nesta dissertação, como os documentos foram impulsos para criar o espetáculo.
Lógico, não posso negar que todas as minhas experiências artísticas foram importantes para esse processo. A experiência como ator, diretor, encenador e bailarino, são a minha base para entender e construir um processo criativo. Não é original e autêntico, mas se torna a partir das minhas vivências que foram particulares e individuais em um contexto de afeto com a sua história, e coletivas por compartilhar
17 muitas das experiências com outras pessoas que somaram no desenvolvimento desse produto que se encontra num processo de inacabamento.
É uma pena que você não tenha tido a oportunidade de conhecer o mundo das artes assim como eu estou vivenciando. Pelo menos não na teoria, dentro de uma universidade. Mas, não se preocupa, sempre lembro de ti. Todas as vezes em que estou prestes a entrar em cena, converso contigo e ofereço aquele momento para você como forma de agradecimento. É uma maneira de estar contigo sempre, em algo que nos uniu desde quando o nosso afeto foi criado.
Preciso também contar que foi uma “resenha” para entrar no curso de teatro. Em 2011, quando passei no vestibular, meus pais não queriam de jeito nenhum que eu fizesse esse curso, mas os seus pais e meus padrinhos foram quem fizeram de tudo para que eu pudesse realizar esse sonho. Acho que eles sempre viram um pouco de você dentro das minhas vontades. Eu descobri muita coisa legal dentro da UFRN, muitos autores com os quais me identifiquei. Modéstia parte eu sempre me destaquei nas produções artísticas em que me envolvia.
Eu sou engajado, socialmente falando e, dentro do teatro, comecei a me aproximar de estéticas que tinham essa característica. Eu gosto de trabalhar com estórias reais, colocando-as em cena, provocando críticas diante de questões sociais e políticas, gerando em quem assiste uma série de reflexões individuais e coletivas.
O Teatro Épico foi a primeira estética que me possibilitou a investigação, pois seus elementos possibilitam que essas discussões se façam cena em uma perspectiva dialética, com um cunho social e político. Trabalhar com o fato, o acontecimento real, impulsiona a minha criação nas artes cênicas.
Debruçando-me em tal ideia, descobri uma estética teatral em que o documento se torna a base dramatúrgica e cênica da criação. O Teatro Documentário foi um objeto de investigação atrelado à estética do Teatro Épico, porém, de todos os elementos que constituem o Teatro Documentário, o que me interessa é a transformação do documento em cena, que é o que se torna pertinente para esta pesquisa.
Natália, eu transformo os seus documentos em cena, mesmo não tendo a sua permissão de forma direta. Mas, se eles vieram parar em minhas mãos, alguma coisa sinto que devo fazer, além de guardá-los. Mais uma vez peço desculpas, caso esteja
18 chateada por eu estar fazendo essa espécie de homenagem, é que, de certa forma, me impulsiona, e acredite, tudo está ficando muito lindo.
Eu não quero que sua memória seja esquecida pelo tempo, muito menos que seja pesado lembrar-nos de você. Pelo contrário, acho que essa história já foi guardada por bastante tempo, ela precisa sair de dentro do baú. Não só por você, ou por nossa família, que ainda sente muito a sua falta, mas por mim também. Sinto que firmei um certo “pacto” com você e precisava estar vivo para realizar isso, para lhe fazer viva no meu escrito, na prática cênica, na inteireza do meu ser.
A memória é outro ponto importante deste estudo, tanto as memórias registradas nos seus documentos, quanto as minhas memórias de vida. Ao deparar-me com o acervo, entendi o quanto nossas histórias de vida são parecidas. Assim, começo a entender que esta pesquisa vai para além de uma biografia, adentrando o campo autobiográfico.
Falar sobre mim é inevitável, ao dispor-me de tantas relações entre nossas histórias, principalmente as que envolvem as artes. Dois jovens, artistas, sonhadores, que viam no mundo do teatro e da dança uma possibilidade de vida.
É de extrema importância para esta pesquisa perpassar o campo das linguagens híbridas e contemporâneas, por isso, utilizo o teatro e a dança como linguagens principais para a construção do produto prático, como também para entender os processos criativos nas Artes Cênicas.
“A contemporaneidade, é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este, e ao mesmo tempo, dele toma distâncias” (AGAMBEN, 2009, p. 59). Se pensarmos na contemporaneidade e em como a cena pode se constituir nas relações híbridas das linguagens, entenderemos que a relação de tempo enquanto contemporâneo pode ser moldado a partir das relações descobertas por meio dos materiais a que chamo de documento.
Sabe, Natália, entrar em contato com o passado ajuda a compreender melhor o presente e aponta uma caminhada mais consciente em direção ao futuro. Estou tentando ser o mais detalhista possível nesta carta para que você entenda tudo e perceba que o meu objetivo é falar de afeto e amor. Você é uma inspiração!
O título da dissertação é “Um documento em obra: memórias de um afeto”. É uma pesquisa que se faz importante para mim e para o estudo das Artes Cênicas, pois o processo criativo propõe uma reflexão sobre a história real como base de um
19 espetáculo e a importância do documentar em cena. Já o nome do espetáculo é, adivinha, “Quando eu não mais existir...”. Pois é, foi a partir do seu texto que me veio a ideia de colocar tal nome. Ei, a gente se arrepiou quando encontrou esse texto nas suas coisas, logo quando você foi embora.
Como eu já te expliquei, o que estou fazendo é um estudo acadêmico, não somente uma homenagem para você. A proposta metodológica da pesquisa é de natureza qualitativa descritiva (TELES, 2012), pois se dá por meio de uma escrita em forma de diário, em que interrogarei e me aprofundarei nos conhecimentos sobre processo de criação, memória e principalmente o ato de documentar em um processo criativo, no qual encontro os meus principais interlocutores.
Ei, Natália, o mundo das Artes Cênica é muito legal. Os processos de criação são completamente diferentes de como a gente vivenciava na escola. Você lembra como eram os nossos ensaios para o festejo junino do Colégio Diocesano? É muito diferente do que vivencio hoje. Por exemplo, a gente nunca se preocupou em fazer um alogamento ou aquecimento, para dançarmos. A gente chegava, dava a mão para o par e aprendia a coreografia.
Mas, depois que eu entrei no curso de teatro, menina, aprendi tanta coisa. Eu tenho certeza que você ia amar tudo o que vivo hoje. Para construir o espetáculo, primeiro analisamos todos os seus documentos, só depois que a Cléo e eu entramos para a sala de ensaio a fim de fazer laboratórios de criação.
Nós seguíamos um roteiro, que se modificava a cada encontro. Mas sempre chegávamos na sala, alongávamos nossos corpos e nos aquecíamos, dançando advinha o que? Isso mesmo, a dança portuguesa. Havia encontros em que nos aquecíamos ao som de Cacuriá, Bumba Meu Boi, só música da nossa cultura. Após isso, abríamos o baú e, depois de muitas leituras e discussões acerca do que estava lá dentro, íamos para os laboratórios de criação.
Em alguns encontros, eu já chegava com algo para ser trabalhado, as fotografias, as suas cartas ou os seus diários. Ah, também tínhamos a proposição de trabalhar por temas, tipo, os amores, as amizades, a família, tudo relacionado e retirado de dentro do baú e de nossas memórias. Fizemos laboratórios muito intuitivos, que aconteciam na hora, sem uma preparação prévia. Mas sempre fazíamos esse ritual de abrir o baú e te conhecer um pouco mais.
20 Como eu quero te contar tudo, vou apresentar o roteiro: nossos encontros ocorriam toda quinta-feira às 9h até as 12h30min e sexta-feira, das 18h às 21h30min na sala 1 do Departamento de Artes ou à sala 12, conhecida como teatro laboratório Jesiel Figueiredo. Colocávamos um estímulo músical e íamos nos alongar, de forma individual. Durante tal momento, tentávamos nos esvaziar dos estresses do dia e nos conectavámos com a sala de ensaio e tudo que iríamos vivenciar ali dentro. Aquecíamos o corpo dançando. Tirávamos 30 minutos para fazer isso em todo os encontros.
Depois íamos para o ritual de abertura do baú. Líamos, analisávamos e discutíamos e de uma forma natural as cenas começavam a surgir. Eram impulsos criadores a partir do que você deixou escrito e do que o baú revelava. Em alguns encontros, eu chegava para a Cléo com uma ideia estruturada a partir de um determinado documento ou de algum tema também retirado das nossas memórias.
A ideia era que escrevêssemos as sensações vivenciadas em um diário de bordo, entretanto, essas sensações eram tão fortes e estávamos tão cansados ao final do encontro, esgotados física e emocionalmente, que esquecíamos. É, Natália, falar de você não é nada fácil e é muito forte.
Busco chegar a uma identificação de uma pesquisa para além do emocional, mas também no campo pedagógico de formação do ator e do público. Para tanto foi necessário pensar em alguns nomes que serviram de base para conceituar minha escrita. Natália, foi bem difícil o processo de entender o que de fato eu estava querendo discutir. As primeiras referências estavam relacionadas ao Teatro Documentário, pois, ainda na graduação, tive contato com a referida estética teatral.
As pesquisas de Marcelo Soler, intituladas “Teatro documental: a pedagogia da não-ficção” e “O campo do teatro documentário: morada possível de experiências artísticos pedagógicas”, continuam sendo referências para os meus estudos. O autor introduz as peculiaridades de uma prática de teatro documental, demonstrando como o seu caráter estético traz em si mesmo o caráter educacional (SOLER, 2010, p. 32).
Entretanto, cheguei à conclusão que o que me interessava no discurso desse autor é a relação que estabelece entre a memória e o documento, e como se transforma em cena. Não utilizo esse teatro como fórmula de construção cênica, por mais que muitos elementos do espetáculo sejam métodos do Teatro Documentário, vejo-o mais como uma referência teórica.
21 Outra referência com a qual dialogo no texto é a Cecília Salles em seu livro “Redes da Criação – construção da obra de arte”. A mesma propõe uma série de ideias em função da criação artística, em que todo o processo criativo se estrutura a partir de uma rede de relações, ou seja, “parte da necessidade de pensar a criação como rede de conexões, cuja densidade está estreitamente ligada a multiplicidade das relações que a mantém” (SALLES, 2006, p.17).
Sabe, Natália, a autora supracitada me fez pensar para além desta pesquisa, pois defende que as obras de arte estão em constante processo de inacabamento. Sendo assim, eu consigo perceber que os meus produtos artísticos se configuram de tal maneira, se transformam, se atualizam de acordo com as questões sociais, políticas e culturais.
A Verônica Fabrini (2013) é uma outra referência que trago para dialogar sobre “Corpo e Artes da Cena” nos processos criativos, pois ela discorre sobre “pensar o corpo não como função ou instrumento de trabalho, mas como sujeito, como unidade mínima da cena. Pensar o corpo como ser, como mistério da existência, composto de muitas camadas” (FABRINI, 2013, p. 39). Identifico-me com o que ela discute pois fala do corpo enquanto paixão, fragilidade, relações, vida, tempo e dor como impulsionador da criação cênica.
Dialogando com conceitos e proposições do autor Ivan Izquierdo (2012), no livro “Tempos de memória: Vestígios, ressonâncias e mutações”, sinto a necessidade de entender o que de fato é a memória e porque ela é tão importante nessa construção cênica. É por meio de sua conceituação que entendo “nossa história pessoal, a de cada um de nós, nossa história autobiográfica, nossa memória autobiográfica, que é a memória dos eventos” (IZQUIERDO, 2012, p.19).
O autor vai sugerir o conceito de memória relacionado aos acontecimentos da nossa vida. Ou seja, tudo o que recordamos nada mais é do que uma seleção daquilo que desejamos lembrar, que queremos manter na nossa memória. Ele contextualiza o conceito de memória em um âmbito mais amplo, diferente de José A. Sanchez (2012), que vai relacionar a memória como “um espaço de sedimentação e fermentação do passado, onde as experiências, as sensações e os conhecimentos vão se acumulando” (SANCHEZ, 2012, p.33).
Natália, a carta ficou grande, mas precisei te contar tudo detalhadamente, pois uma coisa que você não sabe é que demorei muito para de fato colocar a pesquisa
22 para frente. Eu nunca tive a sua permissão de uma maneira direta e isso mexeu bastante comigo. Ficava apreensivo se devia ou não revelar suas memórias, torná-las cenas. Mas foi a partir das leituras sobre memória que fui recordando de todas as vezes que você me permitiu estar contigo, mesmo depois de sua partida e, assim, aceitei e segui com todo o processo criativo.
As pesquisas citadas acima são as principais referências deste trabalho. Utilizei as discussões de cada autor como base para criação do produto cênico, e escrevi como se deu o processo de criação, gerando as reflexões teóricas na dissertação.
A prática desta pesquisa parte das minhas memórias e dos documentos comprobatórios da sua vida como impulso para o ato de criar. Iniciamos a investigação a partir da seleção de documentos, depois fomos aos laboratórios de criação, em seguida, a construção dramatúrgica do espetáculo. O texto cênico é a base para contar a sua história, a narração e a demonstração das cenas propõem o jogo entre mim e a Cléo.
Junto a essa narração, propus através do corpo que dança recortes das minhas memórias no convívio contigo. Não há uma separação do que é dança e do que é teatro, há uma inter-relação entre ambas as linguagens propostas pelo corpo: o nosso corpo dança e narra as nossas histórias. Entendo a importância de estar imerso no processo como intérprete-criador, um desafio pelo qual me vejo responsável por tratar de uma história tão próxima a mim.
Natália, toda a discussão teórico-prática citada está dividida em dois capítulos. O primeiro capítulo, chamo-o de Documento Um – certidão de nascimento. Nele estão os nascimentos que constituem essa pesquisa. Apresento o meu nascimento enquanto artista, desde os primeiros impulsos na escola, passando pelas produções artísticas na graduação e nos grupos dos quais faço parte.
Apresento também o nascimento da pesquisa na teoria e na prática. Demonstro como foi a construção do espetáculo a partir dos documentos, seguindo os conceitos de memória e processo criativo e, por fim, exponho um inventário em que analiso os documentos oficiais e não-oficiais que fazem parte desse processo criativo. Ah, é a partir de um portfólio de imagens que conto sua história de vida de uma maneira cronológica e discuto a fotografia enquanto memória.
No Documento 1, conto a sua história de vida desde o seu nascimento até seus primeiros passos enquanto artista. A escrita é em forma de diário – enquanto
23 você conversava com seus diários, eu converso com minha dissertação. Acho que vai ser bem divertida a leitura. Entretanto o primeiro capítulo não é composto somente por uma escrita diária, feita todos os dias e datadas, visto que eu o construí com o que eu vinha escrevendo desde o início do mestrado. Ah, ia esquecendo, aqui também nasce o processo criativo e como utilizamos os documentos enquanto impulso para a criação cênica. Muitos foram transformados em cena, outros, nos ajudaram a conhecer você e saber mais sobre sua história.
O segundo capítulo chamo-o de Documento Dois – carteira de estudante. Nele dou continuidade ao inventário, porém, sendo mais minucioso em como cada documento foi sendo transformado em cena por meio do processo criativo. Continuo propondo uma discussão sobre processo criativo e memória, e faço uma análise sobre as questões sociais, políticas e culturais que dão sustentação às cenas, pensadas, estruturadas e descritas a partir dos laboratórios de criação cênica. Trago algumas relações das nossas histórias, diante da transformação do tempo ocasionada pelas duas décadas de mudanças na sociedade.
Por fim, eu espero contribuir com um material para a formação de atores, diretores e pesquisadores interessados em um fazer e pensar teatral que não dissocie a construção artística da do indivíduo. Sabe, Natália, o processo criativo nas Artes da Cena que tem como base a história de vida se faz importante pois propõe o discurso real, verídico, como aproximação da realidade individual e coletiva, gerando várias reflexões sujeitas a inúmeras interpretações.
Eu espero que você tenha compreendido tudo o que escrevo nesta carta. Preciso também dizer que estou muito feliz por estar falando com você e sobre você. Acho que a carta ficou boa, e espero que você me responda o quanto antes. Aguardo ansiosamente! Ah, ia esquecendo, criei uma oração para todas as vezes que quiser conversar contigo. Espero que você tenha gostado.
“Santa, santa menina Cheia de graça mulher
Peço-te permissão, óh virgem santíssima Para rogar em teu nome o amor e a fé. Intercedei, oh menina, em teu corpo mulher A mim homem que sou fraco e pecador
24 Rogai, Maria, que em vida se faz espírito, tanto na terra como no céu.
Óh, linda menina, permita-me falar o teu nome
Óh, formosa mulher, rogai por nós pecadores e por nossa fé. Cecília santa, Natália bendita.
O sopro de tua morte é o mesmo sopro de tua vida. Amém!”
Atenciosamente e com muito afeto Hyago Pinheiro
25
2 DOCUMENTO UM – CERTIDÃO DE NASCIMENTO
“Eu estava andando em uma rua muito grande, tipo a rua 25 de março em São Paulo. Impossível caminhar sem esbarrar em alguém. Muitas pessoas que só iam, assim como eu. Não tinham pessoas voltando. Ela olha para trás e sorrir. Eu tento me aproximar. Mas ela se distanciava. Eu peço para que ela me espere. Mas ela sorria, olhava e continuava andando. Acordei. Eu tinha 16 anos, e era o meu primeiro ano morando em outro estado e longe da nossa família.” (Permissão 2)
Olá, Dissertação! Queria poder te chamar de querida. Mas, sinto vergonha! Hoje recomeço a te escrever. Antes de qualquer coisa, quero te pedir desculpas, pois faz um tempo que não venho aqui. Desculpa, tá bom?! Mas, não me sentia pronto para vir conversar contigo. Acredito que ainda não esteja. Vou te contar um segredo: Tenho de cumprir protocolos.
O tempo passa e a pressão só aumenta. Preciso que você cresça. Ah, futuramente, eu irei te apresentar para três importantes pessoas. Talvez quatro. Seja gentil com elas. Acredito que elas também irão gostar de você! Preciso que você também me ajude, que possamos crescer juntos. Da próxima vez que eu vier aqui, quero começar te chamando de querida! É um processo. Vai ser sobre o processo da tua criação também. Calma, aos poucos você irá entender! Por enquanto, fiquemos assim, eu ainda resistindo em estar aqui.
Sabe, para que você cresça, preciso te preencher com uma história que não é minha, mas que aos poucos se tornou. Esse atraso em vir aqui e conversar com você foi devido a não permissão da dona da história. Que, até então, eu achava que não tinha. Na verdade, pode ser que ainda não tenha!
Você não deve estar entendendo nada, não é mesmo?! Vou tentar te explicar! Em 2017, eu conversei com três pessoas sobre você! O Marcílio Vieira, a Karenine
26 Porpino e a Larissa Marques. Eles deixaram com que nós vivêssemos e nos tornássemos um só. Sugeriram algumas modificações em você. Não te acharam tão perfeita assim, mas, só depois de um tempo resolvi mudar você completamente.
Tu ainda eras pequenininha e eu não sabia muito bem como cuidar de você. Eu ainda estou aprendendo. E acho que aos poucos estou conseguindo. Te vejo grandiosa! Pois, estou te construindo a partir da história de minha prima/irmã: A Natália. Você ainda não a conhece. Mas sinto que vocês vão se dar muito bem.
Talvez eu não saiba se terei permissão, não de uma maneira direta. Mas arrisco esse consentimento, pois algo me mobiliza a seguir. Este ano fizeram 20 anos da sua morte. Sabe o que eu sinto? De verdade? É que falar sobre a Natália sempre me moveu. Todas as vezes que entro no palco, ofereço aquele meu momento artístico para ela. Eu sou artista hoje por uma continuidade da artista que Natália foi um dia, dissertação!
Talvez essa tenha sido a primeira permissão que ela tenha me dado: dar continuidade a sua história. Eu não sei muito bem onde essa escrita vai parar. E eu tenho um pouco de medo. Talvez muito! Mas algo importa bem mais do que o medo. Eu não sei o porquê, mas sinto que devo fazer o que estou fazendo. Talvez seja isso que me faz continuar escrevendo sobre ela, sobre mim e sobre você também.
Eu estou te construindo, também pensando nesse processo de criação da escrita. Talvez não agrade a leitura aos caros leitores e avaliadores. Sim, você será avaliada! Mas não se preocupe. Vou cuidar de você para que não seja constrangida por alguma falha minha. E se isso vir a acontecer, estaremos juntos com a Larissa e sei que ela vai cuidar de nós dois.
Eu estou mais aliviado por ter começado assim. Conversando com você. Talvez fosse essa sensação que eu sinto agora ao conversar contigo na época em que não existia essa tecnologia que nos consome. Acho que Natália, quando escrevia em seus diários, tinha uma sensação de alívio, de desabafo sobre o que ela sentia. A diferença é que eu quero te permitir para o mundo. Fazer com que as pessoas leiam você de uma maneira diferente, assim como você é!
Eu vou te contar mais um segredo: desde quando comecei a pensar em você e a ler os diários de Natália, já queria que a escrita fosse assim. Poética e sensível, que segue os protocolos e as regras básicas, mas, que é humana e artística.
27 Este primeiro capítulo chamo de DOCUMENTO UM – CERTIDÃO DE NASCIMENTO e aqui falo sobre o meu nascimento enquanto artista, do nascimento de Natália enquanto pessoa e artista, do nascimento da pesquisa, do seu nascimento enquanto escrita e do processo criativo. Porque o nascer está inerente à vida de todos os seres vivos, assim como a morte – a única certeza que temos é a de que jamais iremos aceitá-la!
Natal, 12/02/2019.
2.1 O DOCUMENTAR COMO PROPULSÃO DA CENA ARTÍSTICA: REFLEXÕES SOBRE O MEU NASCIMENTO ENQUANTO ARTISTA
Hoje eu quero te contar como me tornei artista! Lembro-me de que tinha uns 7 anos, e sempre participei das apresentações da escola. Em todo folguedo de São João, minha mãe e minha madrinha deixavam eu sair em uma dança. Todo ano dançava algo diferente. Recordo que, aos 9 anos, quando eu já me entendia por gente, comecei a participar em mais de uma apresentação. Eu sempre me envolvia em todos os momentos artísticos da escola.
Foi no Colégio Diocesano que eu dei meus primeiros passos artísticos. Aos poucos eu fui descobrindo o teatro. Mas, o que eu gostava mesmo, dissertação, era de dançar. Principalmente a dança portuguesa. É uma manifestação cultural do estado do Maranhão que tem origem nas danças típicas de Portugal.
Na época, só quem podia participar dessa dança eram os alunos que faziam o ensino médio. Fui um privilegiado nesse sentido. Dancei por sete anos consecutivos. Todo ano era uma confusão quando chegava próximo ao período junino. Meu pai dizia que dançar era coisa de mulher. Minha mãe não falava quase nada. Já minha madrinha, era quem enfrentava toda a família para que eu pudesse realizar o meu desejo. Mais a frente, você vai entender melhor o que estou querendo dizer. Vamos por partes!
Aos poucos fui me entendendo enquanto artista. Ah, dissertação, eu tive uma professora que uma vez me fez uma pergunta do tipo: “o que você vai ser quando crescer? Você já pensou em fazer teatro, dança, artes?” Engraçado, eu nunca me esqueci disso. Ela foi a primeira pessoa a ver o meu potencial para as artes. Quando
28 passei no vestibular, sempre me recordava dessa professora e do referido momento. E olha onde eu estou. Pois bem, sou artista e professor de arte.
Em toda a minha formação na universidade e na vida artística, comecei a perceber que os processos criativos em artes cênicas possuem características peculiares, distintas e singulares. Falo do lugar de um intérprete que desde 2011 passou por alguns processos no teatro, na dança, na performance e no cinema, e percebo o quanto os processos são individuais e coletivos ao mesmo tempo.
Sabe, acredito ser extremamente importante começar conceituando o que é processo criativo, porém, quando me debruço nas leituras que fiz tentando procurar um referencial que seja direto, chego a metodologias diversas de processos criativos variados em dança, teatro e até nas artes visuais. É uma busca de métodos que são encontrados em cada processo individual.
Visitando as reflexões de Cecília Salles (2006), podemos encontrar algumas sinalizações sobre o entendimento da criação.
De maneira especular, precisamos construir uma rede para falarmos de uma rede em construção. É interessante, portanto, destacar que essas reflexões que estamos desenvolvendo tem esse conceito de rede como norteador, em mão dupla. Queremos ressaltar que, por um lado, todos os pesquisadores que se interessam pela compreensão dos processos de criação estão falando de uma rede que se constrói e esses pensadores da criação, por sua vez, necessitam de uma abordagem que esteja também nesse paradigma relacional. (SALLES, p.23).
A autora traz um conceito de processo criativo a partir de redes, em que a não linearidade, a dinamicidade, o inacabamento e as interações existem e fazem parte da descoberta de cada artista e de cada processo. Todos os elementos supracitados reafirmam o entendimento de rede como tessitura das relações existentes e provenientes dos processos. É nessa direção que o nosso pensar transita. O processo criativo que aqui mencionamos e refletimos vem sendo configurado no entendimento de um criar que se abre à investigação, ao acolher e ao descartar de partituras cênicas geradas pelo entrelaçar de ideias, afetos, memórias e pulsões que constroem e reconstroem conexões que atam esse entrelaçamento.
Segundo José Gustavo Sampaio Gracia (2011),
A pesquisa em arte, no campo do processo criativo, se caracteriza pela inexistência de um objeto pronto a ser examinado. A construção do objeto de
29
investigação precisa ser, portanto, elemento integrante da metodologia de pesquisa. (p.47)
Entendo que a metodologia de pesquisa difere da metodologia de construção do processo criativo, porém assumo um lugar de construção em que esses trajetos metodológicos se interseccionam, “ciente de que a arte é um campo próprio, distinto da ciência e da filosofia, com um conteúdo próprio” (GARCIA, p. 47).
A busca por um conceito direto e objetivo sobre processo criativo, e o fato de não encontrar algo que seja definido e pronto, me causam um pouco de angústia. Ao mesmo tempo, sinto que é a partir das nossas proposições dentro desta escrita que vou chegar a um conceito sobre o meu processo criativo. Lógico, entendendo os demais processos e procurando as relações possíveis com todos os processos criativos dos meus espetáculos desde a gradução.
Por exemplo, nas minhas investigações, procuro partir de um indivíduo, o ator, e suas questões, para me aproximar do coletivo, ou seja, do público. Enquanto dramaturgia textual ou corporal, preocupo-me de que forma posso gerar reflexão diante do discurso posto em cena, entendendo a necessidade que se faz em se discutir sobre questões tão próximas aos seres humanos.
Isso também é presente nas linguagens em que o corpo e a imagem comunicam o discurso, como nas minhas experimentações na dança e na performance. Eu me preocupo em entender o movimento e a imagem como uma representação do contexto da realidade das pessoas.
Nos processos artísticos que fiz parte, sempre procurei trabalhar com questões próximas à realidade humana. Eu entendo que o público vê a obra apresentada como uma ficção, afinal o teatro por si só já é uma ficção, mas, ao mesmo tempo, o discurso, a dramaturgia construída, que geralmente são fatos ou acontecimentos reais, trazem verdade para a cena.
Uma amiga me disse outro dia que consegue ver algumas características que definem os meus processos criativos, seja como diretor, encenador ou ator. E que isso não é um problema! Se torna meu, com a “minha cara”. Realmente! Por exemplo, uma das minhas características é sempre propor reflexões críticas sobre questões sociais, políticas e culturais. É, dissertação, talvez seja essa a minha grande questão dentro dos meus processos criativos: gerar reflexões (críticas), independente da linguagem a ser trabalhada.
30 Quando entrei no mundo das artes e no curso de Licenciatura em Teatro na UFRN, deparei-me com uma estética teatral que serviu de base para todas as minhas pesquisas dentro da academia. No teatro Épico1, a narração, contação de história, é utilizada como método de execução do discurso cênico. “Dentro dessa linguagem busca-se pensar em um teatro, que também carrega um cunho didático, para fins reflexivos, ou seja, é quebrada a ilusão de realidade do teatro tradicional e provocado um efeito de distanciamento no público para que se chegue a uma reflexão” (SOUSA, 2015, p. 21).
O Teatro Épico pressupõe uma atitude que convoca o pensamento do público para refletir junto à obra. Isso se dá por meio da técnica conhecida como “Efeito de Estranhamento” (distanciamento) ou “Efeito V”. Segundo Haderchpek, “a função do efeito de estranhamento é nos ‘despertar’ do processo de alienação que se abate sobre o homem, permitindo-nos olhar de forma crítica os fatos que têm passado despercebidos diante de nossos olhos” (2005, p. 28).
As duas últimas produções artísticas que assinei a direção, além de muitos elementos de construção cênica do Teatro Épico, tinham como base dramatúrgica acontecimentos históricos e pessoais, que se entrelaçavam com a ficção proposta pela cena artística. A primeira se deu no espetáculo “Pérola” da Cia Pérola de Teatro, companhia da qual faço parte. Enquanto discussão cênica e dramatúrgica apresentamos as torturas impostas às mulheres resistentes no período da ditadura militar no Brasil.
A dramaturgia do espetáculo foi construída a partir de alguns depoimentos retirados da Comissão Nacional da Verdade, juntamente com os registros históricos desse período sombrio da história do nosso país. Os depoimentos, documentos não oficiais, tornam-se a base dramatúrgica do espetáculo, assim como os relatos orais, imagens e fotografias que retratavam a época.
Nesse processo criativo, o real é a cena, e a partir dela podemos remeter a uma realidade como forma de denúncia e protesto, pois o espetáculo caracteriza-se pela construção política e social. Um dos gêneros teatrais que propõe a discussão
1 O termo épico, refere-se ao “narrativo” em uma acepção técnica, porém não se pode negar e confundir
o termo com a sua acepção popular – “epopeia”, poema heroico extenso, por exemplo Ilíada ou Os
Lusíadas. (ROSENFELD, 2012, p. 27) A narração posta em cena se contrapõe à linearidade dramática
31 política, social, crítica e reflexiva é o Teatro Épico, e foi através do estudo sobre tal linguagem a construção do espetáculo.
O meu primeiro contato com as proposições cênicas de cunho ideológico e político foi quando conheci Bertolt Brecht por meio das leituras que fiz, claro! Queria tomar um café com ele? Lógico que sim. Enfim, nas minhas leituras eu descobri que antes, Erwin Piscator já investigava na cena teatral questões políticas e sociais. Todavia, “foi, sobretudo Brecht quem estabeleceu a teoria deste teatro, salientando as razões antropológicas de sua concepção teatral” (ROSENFELD, 2012, p. 31).
Essa vertente chamada “teatro épico” vem sendo usada, fortemente, após a primeira guerra mundial. A situação do teatro de Brecht se ateve a ideologias anti-ilusionistas e marxistas, que iam na contramão do ilusionismo e da passividade do receptor da obra no movimento naturalista.
O teatro épico amplia-se em uma perspectiva cênica para além do diálogo, ele quebra com a quarta parede2 e propõe um palco que comece a narrar e a provocar reflexões naqueles que assistem. Outra razão deve ser salientada: “o teatro deve ser épico, também para corresponder ao intuito didático de Brecht, para esclarecer o público sobre a sociedade e a necessidade de transformá-la” (ROSENFELD, 2012, p. 31).
Eu fico refletindo o porquê de eu ser tão apaixonado, isso mesmo, caro leitor, apaixonado por esse fazer teatral. Por ser crítico? Por gerar uma reflexão? Pelo público sair dos espetáculos reflentindo sobre sua existência e a do outro? Todas as vezes em que assisto a um espetáculo com elementos Épicos, não consigo voltar para casa com o mesmo pensamento. Algo se transforma. Eu aprendo sobre mim, sobre o outro, eu consigo ver nessa estética uma força de luta, de continuidade, vejo esperança na transformação do público que se permite pensar sobre questões humanas.
O teatro Dramático se configura como uma estética cheia de técnicas que apresentam uma ilusão da realidade. Já o Teatro Épico surge para romper com a ilusão e faz o espectador ver-se diante de uma representação teatral, em que ele começa a se posicionar perante situações individuais e/ou sociais apresentadas na cena. Essa vertente “distingue-se pela sua estrutura mais aberta, repleta de episódios
2Uma parede imaginária situada na frente do palco do teatro, através da qual a plateia assiste passiva à ação do mundo encenado.
32 que não se integram na linha de uma ação una, continua, de tempo reduzido e lugar fixo” (ROSENFELD, 2012, p. 29).
As unidades de ação, tempo e lugar são rompidas no teatro épico. O espectador não é mais envolvido pela ação dramática, ele passa a observá-la; o tempo e o lugar não levam o espectador para dentro de algo, mas o colocam em face de algo e determinam a construção cênica de uma maneira não linear, transformando o ser social em um agente do ato de pensar, raciocinar e refletir.
Vale salientar que o “homem” do teatro épico é um ser em processo capaz de transformar-se e transformar o mundo, ou seja, ele é mutável e a personagem não “é”, ela “está” envolvida na representação a ponto de saltar e quebrar a unidade de ação, tempo e lugar.
Em boa parte do espetáculo, o discurso do real, por mais ficcional que seja devido à ideia de ficcionalidade do teatro, propõe que a cena teatral apresente uma verdade que questiona e incomoda. Assim, o espetáculo é potencializado, proporcionando ao público um posicionamento reflexivo diante dos fatos narrados.
O espetáculo Pérola foi pensado dentro de uma proposta de teatro épico, porém a contemporaneidade no teatro resulta numa hibridização entre as vertentes teatrais. Não é um espetáculo predominantemente realista, épico ou pós-moderno, pois possibilita a inserção de elementos característicos de outras vertentes.
Por isso, vale salientar que o Pérola é um espetáculo com elementos do Teatro Realista, do Teatro Documentário, do Teatro Épico e também elementos do Teatro Pós-moderno, com os provenientes da performance, arte existente em algumas cenas. Qualquer que seja a estética trabalhada no espetáculo, o que discuto é o quanto o depoimento e os relatos são potentes para a construção desse discurso cênico e o da construção da história real na cena teatral.
Sabe, dissertação, esse espetáculo foi o meu grande primeiro momento como diretor e encenador. Eu pude me transformar. O processo de construção do espetáculo, da formação aos conflitos do grupo, abriram a minha visão diante do fazer artístico. Lembro que os meus professores elogiavam a minha atitude, que ainda como graduando comecei a ter, uma visão de empreendedor, saindo com um espetáculo e um grupo dos muros da universidade, me lançando num mercado difícil e concorrido. Ainda me encontro no processo de formação humana e artística e desejo sempre buscar a dimensão formativa em cada trilhar.
33 Mesmo estudando teatro, a dança nunca saiu da expressividade do meu corpo. Quando iniciei a graduação, logo conheci um grupo de dança no qual passaria seis anos me formando enquanto um artista híbrido e investigando o meu corpo através do movimento, da dança e também do teatro. Foi nesse grupo que tive a oportunidade de mais uma vez crescer, só que agora na área da dança.
O espetáculo que assinei a direção foi o “Basta ter a coragem”, da Gaya Dança Contemporânea. Tratava de um projeto de extensão do Departamento de Artes da UFRN, no qual investiguei o corpo por meio do movimento, da dança e também do teatro.
Na Gaya eu conheci Pina Baush. Não, não dançamos juntos e nem tomamos um chá. Mas li algumas coisas sobre ela. De tudo que eu descobri na dança, os conceitos de dança-teatro, propostos por Pina, foi o que mais desenvolvi enquanto bailarino e coreógrafo. Pina deu uma grande contribuição para a história da dança, pensando na contemporaneidade e na não separação com o fazer teatral.
Diferente do Pérola, em que a base dramatúrgica é o depoimento oficial – o registro da época – aqui, tivemos como propulsão a memória dos intérpretes bailarinos. O grupo, desde 2011, vem investigando as proposições híbridas, visto que o grupo é composto por alunos dos cursos de graduação em teatro e dança.
Partindo dessa relação entre as linguagens, o “Basta ter a coragem” foi estruturado a partir dos métodos da dança-teatro. Esta tem como seu precursor o coreógrafo alemão Rudolf Laban, mas ganha destaque a partir das proposições e apropriação da coreógrafa Pina Baush – atualmente a mais importante impulsionadora dessa modalidade no universo das artes cênicas (SÁNCHEZ, 2010, p. 45).
Os intérpretes do grupo começam as suas investigações a partir do tema “Amor”, estimulados a retomarem momentos de suas relações amorosas, os transformando em cena. Segundo Lícia Sánchez, a teoria de Laban “revela muito mais que a simples execução de movimentos. Revela a tentativa de expressar as emoções e sensações internas do ator-dançarino através do corpo” (SÁNCHEZ, 2010, p. 05).
No processo de criação em dança e teatro, o que importava para a construção cênica advinha do próprio intérprete, pois ele era estimulado, também, a não só rememorar algo de seu passado, mas a refletir sobre como entende as relações atualmente. Enquanto diretor, assim como nos processos de Pina Bausch, não nos interessou como se moviam as pessoas, mas como sentíamos a pulsão do amor.
34 Bausch “buscava o que as movia, comovia, o plano das emoções mais que o das formas” (SÁNCHEZ, 2010, p. 46).
Quando iniciei o referido processo, lancei perguntas aos intérpretes com o objetivo de que eles me respondessem utilizando o corpo, a voz e o que eles acreditavam que poderiam potencializar sua resposta. Esse é um dos métodos de construção de Bausch, a que chama de estímulos-tema e que de acordo com Lícia Sánchez:
São os estímulos-tema ou o texto, se assim podemos dizer, a partir do qual elaboramos ideias, expressando-as em ações físicas externas. Podemos dizer que as perguntas também são formuladas no momento do processo de refletir mentalmente sobre esse tema. [...] a finalidade das perguntas que fazemos mentalmente a partir do estímulo-pergunta no processo bauschiano é chegar a ações externas que não são representações de personagens, mas sim a expressão das nossas histórias de vida. (SÁNCHEZ, 2010, p. 54)
“O que a gente (não) faz por amor?” foi o primeiro estímulo-texto lançado aos intérpretes. A partir de então, eles trouxeram as respostas das mais variadas maneiras. Desde a utilização somente do corpo, como também, de objetos, textos, cartas, músicas, ou seja, toda a resposta estava relacionada com sua vida que naquele momento era relocada na cena artística.
Nesse processo, a junção das respostas dos intérpretes nos levou a pensar e executar outro método de construção cênica de Bausch: a colagem, que segundo Juliana Silveira, “é a justaposição de pequenas cenas advindas das respostas dos bailarinos à diretora” (2015, p. 64).
Propus a partir de conversas com o grupo questões que iam das possibilidades mais universais às questões mais íntimas dos intérpretes. O espetáculo tinha como objetivo discutir sobre as possibilidades de amar e como esse ato modifica-se no decorrer das relações, revelando outras naturezas dos seres humanos como a raiva, o medo, a dor, ocasionando, assim, até a morte.
Questões como o feminicídio também foram alvo central do espetáculo. Queria propor uma atmosfera de reflexão sobre a nossa condição de lidar com o amor, assim como o que as pessoas são capazes de fazer alegando se dar “em prol” do referido sentimento. Para isso, tivemos que recorrer também às notícias dos meios de comunicação sobre tal questão e como a sociedade encara a mesma, e quais as políticas públicas de proteção às mulheres.
35 Todo o material levantado fora transformado em respostas e, a partir do método da colagem, as cenas foram se estruturando, gerando críticas e propondo reflexões sobre a história da nossa sociedade, mas que partiu do indivíduo. Ou seja, a dramaturgia do espetáculo parte do micro (pessoa, indivíduo) para o macro (coletivo).
Ainda sobre o método das colagens:
Quando se cola uma cena em outra, resignificam-se ambas, e a consequência disso é a proliferação de sentidos criados pela peça. Se justaponho cenas que normalmente não aconteceriam juntas, elas ganham novos significados e possibilidades. (SILVEIRA, 2015, p. 64)
Nos meus processos de criação, tento extrair o máximo dos intérpretes e busco na sua vida as pulsações para a construção cênica. Eles acabam percebendo o quanto suas histórias de vida são semelhantes e isso facilita no momento da colagem e construção das cenas do espetáculo.
Nesse sentido, não procuro pensar em uma única linguagem artística. O que me interessa enquanto encenador é a hibridização das linguagens para uma construção cênica na contemporaneidade. Os dois espetáculos exemplificados acima demonstram a minha necessidade de um processo que tem início no indivíduo, gerando reflexões sobre um coletivo. Para isso, se faz importante nessas propostas o trabalho com as histórias reais, propondo assim um outro olhar para a obra cênica.
Ambos os processos descritos acima são pertinentes para introduzir a discussão sobre processo criativo. Bem como para entender a minha metodologia prática de construção de cena, principalmente por utilizar o acontecimento real para chegar a uma discussão sobre processos inacabados.
Ao ler Cecília Salles (2006), identifico-me com suas reflexões e me alivio ao entender que os meus espetáculos não estão somente inacabados, mas em constante transformação. “Estamos falando do inacabamento intrínseco a todos os processos, em outras palavras, o inacabamento que olha para todos os objetos de nosso interesse como uma possível versão daquilo que pode vir a ser ainda modificado”(SALLES, Cecília. 2006, p.20). O “Pérola” já passou por algumas montagens, especialmente, a partir das discussões políticas e sociais que se atualizam constantemente.
. Neste ano de 2019, nos aproximamos da virada de uma década em que uma parte da sociedade brasileira proclama uma ditadura, um golpe é instituído, discursos