ELZA SILVIA COELHO POLLIS
ESTUDO RETROSPECTIVO DAS PRINCIPAIS AFECÇÕES EM AVES
RADIOGRAFICAMENTE DIAGNOSTICADAS NO SETOR DE IMAGEM
DA FACULDADE DE VETERINÁRIA-UFF,
NO PERÍODO DE 2004 A 2013
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Medicina Veterinária- Clínica e Reprodução Animal da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para a obtenção do Grau de Mestre.
Orientador: Prof. Dr. SÁVIO FREIRE BRUNO
Co-orientador: Prof. Dr. MARIO ANTONIO PINTO ROMÃO
Niterói 2016
Dedico este trabalho aos meus pais
5 AGRADECIMENTOS
À Deus, por ter me permitido chegar até aqui;
Aos meus pais Elza Coelho Pollis (in memorian) e Sylvio da Rocha Pollis (in memorian) por tudo que fizeram por mim;
Aos meus filhos Silvia, Maurício e Marina, pelo tempo “roubado“ de nossa convivência para conclusão de mais essa etapa;
Ao meu companheiro de todas as horas Juan Benito Campos Diz Atan, por tornar as coisas sempre mais leves. Sem você nada teria a mesma graça;
Ao meu prezado orientador Professor Doutor Sávio Freire Bruno pela confiança em mim depositada, por estar sempre disponível a sanar minhas dúvidas e pela parceria serena durante esse trabalho;
Ao meu coorientador Professor Doutor Mário Antonio Pinto Romão pela amizade e por não ter medido esforços para me ajudar durante esses dois anos, mantendo sempre seu bom humor;
Ao Professor Doutor Rodolpho de Almeida Torres Filho pela amizade, paciência e disponibilidade para me ajudar com a análise estatística dos dados necessária à conclusão do trabalho;
À todos os Professores do Mestrado que contribuíram com preciosos ensinamentos auxiliando na minha formação como profissional e como pessoa;
Às Professoras Doutoras Marcia Carolina Salomão Santos e Aline Emerim Pinna por todo apoio durante essa jornada;
Aos meus amigos, Tatiana Assunção, Thatiana Leite e Victor Nowosh, pela amizade que trago desde a graduação e que quero levar pela vida;
6 À minha querida amiga Michele Angelo Luiz, pelo carinho, amizade e por todo companheirismo durante esses dois anos;
Aos demais colegas da pós por todo companheirismo. Vocês foram essenciais durante essa jornada;
À querida Andrea Soffiatti Grael por todo ensinamento e paciência durante minha passagem pelo Setor de Selvagens;
Aos colegas veterinários do HUVET-UFF pela amizade e confiança;
Aos funcionários do HUVET-UFF responsáveis pela organização e pelo bom andamento da rotina do hospital, ajudando ainda que indiretamente na conclusão desse estudo;
“A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter e quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.”
Arthur Schopenhauer
8 RESUMO
O Brasil abriga uma das mais diversas avifaunas do mundo, a qual equivale a mais de 57% das espécies em toda América do Sul sendo mais de 10% endêmicas do país. Apenas na Mata Atlântica, existem 682 espécies registradas e somente no estado do Rio de Janeiro há o registro de 458 espécies. As aves são populares como animais de companhia e isso torna necessário um bom conhecimento da clínica aviária para realização de uma avaliação sistemática, consistente e completa de seu estado de saúde. Por condições anatômicas específicas dessa classe, a radiologia constitui a principal ferramenta diagnóstica por imagem sendo possível detectar através de exame radiográfico simples ou contrastado várias alterações sistêmicas. Dessa forma avaliou-se as alterações anatomo-radiográficas observadas nos exames realizados no período de 2004 a 2013 no Setor de Diagnóstico por Imagem da Faculdade de Veterinária, traçando um perfil radiográfico das anormalidades encontradas nas doenças mais comumente observadas nas diferentes espécies de aves atendidas. O acervo do Setor no período considerado conta com 175 imagens, sendo 117 com dados completos, a partir das quais foram determinadas as alterações comumente observadas para cada espécie radiografada. O sistema musculoesquelético foi o mais acometido, com 46,07% das alterações encontradas. A ordem mais radiografada foi a Psittaciforme com 59,55% dos exames e dentro dessa ordem as espécies com maior número de alterações foram o Papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) que apresentou 26,97% das afecções encontradas e a Calopsita (Nymphicus hollandicus) com 22,47% do total de alterações radiográficas.
ABSTRACT
In Brazil is found one of the most diverse avian fauna in the world corresponding over 57% of species at all South America and more than 10% are endemic to the country. At Brazilian Atlantic Forest, there are register of 682 species and at Rio de Janeiro State, 458 species were registered. Birds are popular as pets and good knowledge of avian clinic is necessary to carry out a systematic, consistent and complete evaluation of its health. In general, birds arrive at clinic presenting nonspecific clinical signs, commonly related to musculoskeletal, respiratory and gastrointestinal systems. Radiology is the main diagnostic tool to detect systemic changes by simple or contrasted radiographic examination because specific anatomical conditions of this class. Anatomical and radiographic changes observed in exams performed in the 2004-2013 period in Diagnostic Imaging Section of the Veterinary Faculty of Universidade Federal Fluminense, were evaluated setting up radiographic abnormalities found in different species of birds. Using the 2004-2013 archieve, which has 175 images, being 117 with complete data, from which were determined commonly observed changes at each examined species. The musculoskeletal system was the most affected one, with 46.07 % of total changes found. Psittaciforme order had been the most imaged order with 59.55 % of radiographic exams. Within this order the species with largest number of imaging changes were Blue-Fronted Parrot (Amazona
aestiva) which presented 26.97 % of all diseases and Cockatiel (Nymphicus hollandicus) with 22.47 % of total radiographic changes.
LISTA DE TABELA E ILUSTRAÇÕES
TABELA 1 Relação das alterações anatomo-radiográficas por ordens, famílias e espécies taxonômicas radiografadas entre 2004 e 2013, p.33
QUADRO 1 Alterações radiográficas encontradas por sistema, p. 36
QUADRO 2 Relação entre as alterações radiográficas e a ordem taxonômica das aves radiografadas, p. 36
QUADRO 3 Relação entre as alterações radiográficas e as famílias radiografadas, p. 37
QUADRO 4 Alterações radiográficas mais comumente diagnosticadas, p. 38 FIGURA 1 Relação entre as afecções radiográficas mais frequentes e o
LISTA DE ABREVIAÇÕES, SIGLAS E SÍMBOLOS
Artic. Articulação
CEUA Comitê de Ética no Uso de Animais
CBRO Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos
HUVET-UFF Hospital Universitário de Medicina Veterinária Professor Firmino Mársico Filho da Universidade Federal Fluminense PROPPI Pró Reitoria de Pesquisa, Pós Graduação e Inovação UFF Universidade Federal Fluminense
% Porcentagem
RX Raios X
Kv Kilovoltagem
SUMÁRIO 1 - INTRODUÇÃO, p. 14
2 - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA, p. 15 2.1 - Aves, p. 15
2.1.1 - Aves como animais de estimação, p.15 2.1.2 - Anatomia das aves, p. 16
2.2 - Exame radiográfico, p. 17 2.2.1 - Técnica radiográfica, p. 17
2.3 – Principais afecções diagnosticadas radiograficamente, p.19 2.3.1 - Afecções do sistema musculoesquelético, p. 19
2.3.1.1 - Fraturas, p.19 2.3.1.2 - Luxações, p. 20
2.3.1.3 - Osteoporose nutricional, p. 21 2.3.1.4 - Mal formações ósseas, p. 22 2.3.1.5 - Hiperostose poliostótica, p. 22 2.3.1.6 - Não união de fratura, p. 23 2.3.1.7 - Artrite, p. 23
2.3.1.8 - Artrose, p. 24
2.3.1.9 - Edema articular, p. 24
2.3.2 - Afecções do sistema respiratório, p. 24 2.3.2.1 - Aerossaculite, p. 25
2.3.2.2 - Pneumonia, p. 25
2.3.2.3 - Ruptura de sacos aéreos, p. 25 2.3.2.4 - Sinusite, p. 26
2.3.3 - Afecções do sistema gastrointestinal, p. 26 2.3.3.1 - Hepatomegalia, p. 26
2.3.3.2 - Hérnia abdominal, p. 27 2.3.3.3 - Divertículo em inglúvio, p. 27 2.3.3.4 - Hipomotilidade, p. 27
2.3.3.5 - Síndrome da dilatação do pró ventrículo, p. 28 2.3.4 - Afecções do sistema circulatório, p.28
2.3.4.1 - Cardiomegalia, p. 28
2.3.5.1 - Retenção de ovos e distocia, p. 29 2.3.6 - Afecções do sistema tegumentar, p.29 2.3.6.1 - Tumorações, p. 29 3 - OBJETIVOS, p. 30 3.1 - Objetivo geral, p.30 3.2 - Objetivos específicos, p. 30 4 - MATERIAL E MÉTODO, p. 31 4.1- Comitê de Ética, p.31
4.2 - Desenho e caracterização da área de estudo, p. 31 4.3 - Método avaliativo das alterações radiográficas, p. 32 4.4 - Análise estatística, p. 32 5 - RESULTADOS p. 33 6 - DISCUSSÃO, p. 39 7 - CONCLUSÕES, p. 42 8 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS, p. 43 9 - ANEXOS, p. 52
9.1 – Prancha de imagens radiográfias, p. 52 9.1.1 – Sistema musculoesquelético, p. 52 9.1.2 – Sistema respiratório, p. 53 9.1.3 – Sistema gastrointestinal, p. 54 9.1.4 – Sistema circulatório, p. 55 9.1.5 – Sistema reprodutor, p.56 9.1.6 – Sistema tegumentar, p. 57
9.2 Certificado de aprovação do CEUA-UFF, p. 58
9.3 - Pedido padrão do HUVET-UFF de radiografia com autorização do uso da imagem, p. 59
1 - INTRODUÇÃO
Ao longo da evolução da humanidade várias espécies de aves foram domesticadas com propósitos diferentes, como por exemplo: os pombos para comunicação, o avestruz para vestimenta, o falcão para o esporte, o pavão como ave ornamental, o ganso egípcio para fins religiosos e as aves de gaiola para companhia (KING, 1986).
Os animais selvagens, principalmente as aves, estão cada vez mais populares como animais de companhia, devido a sua beleza em cantos e cores. Assim, a clínica médica e cirúrgica desses animais vem adquirindo crescente importância (SANTOS, et al., 2008).
Muitas vezes as aves são vistas com sinais inespecíficos de enfermidadesque podem estar acompanhados de sinais específicos. Desse modo, os sinais de doenças respiratórias, gastrointestinais e musculoesqueléticas constituem uma queixa comum na clínica de aves de estimação tornando necessária uma avaliação sistemática, consistente e completa para oferta de serviços veterinários de qualidade. Em vista disso, a radiologia constitui uma ferramenta diagnóstica útil e frequentemente utilizada na medicina aviária, sendo necessárias radiografias de alta qualidade e com alto grau de detalhamento para interpretação precisa do exame radiográfico (RUPLEY, 1999).
A pesquisa proposta pretende avaliar as alterações anatomo-radiográficas, observadas nos exames radiográficos realizados no período 2004 a 2013 no Setor de Diagnóstico por Imagem da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal Fluminense traçando um perfil radiográfico das alterações encontradas, assim como das doenças mais comumente observadas nas diferentes espécies de aves atendidas.
2 - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 - Aves
As aves são vertebrados cujos corpos são cobertos de penas, membros anteriores transformados em asas e os membros posteriores usados para locomoção bipedal (SICK, 1997).
O número de espécies de aves presentes em território brasileiro está longe de refletir a real diversidade desse grupo (OLIVEIRA; OLMOS, 2007). O Brasil abriga aproximadamente 1919 espécies de aves (PIACENTINI et al., 2015), sendo essa uma das mais diversas avifaunas do mundo e equivalente a mais de 57% das espécies de aves registradas em toda América do Sul. Dessas espécies, mais de 10% são endêmicas ao Brasil, fazendo deste país um dos mais importantes para investimentos em conservação e preservação da fauna (MARINI; GARCIA, 2005).
Na Mata Atlântica, existem 682 espécies de aves registradas dispostas principalmente ao longo da Serra do Mar (CORDEIRO, 2003) e somente na Serra dos Órgãos, no estado do Rio de Janeiro, há 458 espécies registradas (MALLET-RODRIGUES; PARRINI; PACHECO, 2007).
2.1.1 - Aves como animais de estimação
As aves sempre despertaram grande interesse nos seres humanos devido à beleza de suas cores e cantos, sendo criadas como animais de estimação pelas populações indígenas mesmo antes da colonização (RIBEIRO; SILVA, 2007).
Estudos indicam que, em sua maioria, as aves de estimação pertencem às ordens Psittaciformes e Passeriformes (ARNAULT, 2006; SANTOS et al., 2008; SINHORINI, 2008).
Aves que são mantidas dentro de domicílios com o passar dos anos tendem a se tornar susceptíveis a doenças infecciosas por causa do decréscimo da qualidade do ar inalado, o acúmulo de patógenos em um ambiente restrito e a perda da exposição aos raios ultravioletas solares. Esses fatores agem coletivamente diminuindo a resistência natural das aves às enfermidades (SANTOS et al., 2008).
Os sistemas mais acometidos são o musculoesquelético, o respiratório (SANTOS et al., 2008) e o gastrointestinal (RUPLEY, 1999). O sistema reprodutor também é acometido, mas com menor frequência (SANTOS et al., 2008).
No Brasil, muitos animais são negociados em feiras livres, próximos aos locais de apreensão ou transportados para outros municípios e países. Estudos realizados sobre o tráfico de animais silvestres em todo país revelaram que as aves representam o grupo mais comercializado de todos os animais capturados (RIBEIRO; SILVA, 2007). Esse comércio ilegal alimenta o tráfico de animais silvestres e infringe a Lei de Proteção à Fauna (BRASIL, 1967) e a Lei de Crimes Ambientais (BRASIL, 1998).
Sendo assim, pessoas que queiram adquirir animais da fauna brasileira como pets devem agir com responsabilidade e procurar criadores comerciais, que vendem animais nascidos em criatórios legalizados, conforme estabelece a Instrução Normativa 169/2008 do IBAMA (RIBEIRO; SILVA, 2007).
2.1.2 - Anatomia das aves
O sucesso na evolução das aves está relacionado à sua capacidade de voo, o que permitiu que esses animais ocupassem mais nichos que qualquer outra classe de vertebrados. Para tanto foram necessárias alterações morfológicas com poucas variações entre as espécies. O voo exige tanto do metabolismo que existem modificações anatômicas e/ou metabólicas em praticamente todos os sistemas corporais. Essas adaptações aumentam a produção de energia e a estabilidade, assim como diminuem o peso corporal e a resistência ao vento (DYCE; SACK; WENSING, 2004).
As aves têm o corpo coberto de penas. O esqueleto é leve, compacto e forte. Ossos longos são pneumáticos pois os sacos aéreos se estendem pelas cavidades medulares e os ossos do crânio se ligam às vias aéreas da cabeça, sendo também pneumáticos. O grau de pneumatização está ligado diretamente à eficiência do vôo das aves, sendo mais avençado naquelas com maior capacidade de voo (DYCE; SACK; WENSING, 2004).
O aparelho respiratório difere consideravelmente dos mamíferos, sendo composto pela cavidade nasal, laringe, traquéia, siringe (formada pela parte terminal da traquéia e início dos brônquios principais e de onde sai o som das aves quando vocalizam), pulmões (pequenos, não lobados e não expansíveis) e sacos aéreos
(dilatações cegas e de paredes delgadas contíguas ao sistema brônquico que se estendem além do pulmão). De modo geral as aves apresentam em torno de oito sacos aéreos: o cervical e clavicular (ímpares) além dos torácicos craniais, torácicos caudais e abdominais, todos pares (DYCE; SACK; WENSING, 2004).
O sistema circulatório é composto pelo coração, artérias, veias e vasos linfáticos. O coração, assim como o dos mamíferos, é composto por quatro câmaras. Entretanto é proporcionalmente maior, e a frequência cardíaca pode chegar em aves pequenas a até mil vezes por minuto (DYCE; SACK; WENSING, 2004).
O aparelho digestório é composto pela orofaringe, esôfago, papo (ou inglúvio, presente na maioria das aves), proventrículo, moela, estômago, duodeno, jejuno, íleo, cecos pares e cólon que termina na cloaca (comum aos sistemas digestório e urogenital). O fígado e o pâncreas lançam suas secreções no intestino. O bico apresenta modificações entre as espécies estando adaptado à dieta (DYCE; SACK; WENSING, 2004).
O aparelho urogenital é composto pelos rins, ureter, testículo e falo (nos machos) ou ovários e ovidutos (nas fêmeas) e cloaca (DYCE; SACK; WENSING, 2004).
2.2- Exame radiográfico
As modalidades dos exames de imagem disponíveis para aves são: radiografia, ultrassonografia, fluoroscopia e tomografia computadorizada. Dentre esses o exame radiográfico apresenta maior aplicabilidade, sendo possível detectar através do exame simples ou contrastado por meio de contraste positivo (sulfato de bário ou iodo), ou negativo (ar), selecionados de acordo com a necessidade, várias alterações sistêmicas nas aves, como por exemplo: fraturas, malformações de membros inferiores e asas, corpos estranhos sinusais e coanais, granulomas, toxicoses por chumbo e zinco, hiperparatireoidismo secundário nutricional, organomegalias, derrames abdominais, desmineralização esquelética, retenção de ovos, otite média, distensão pró-ventricular, entre outros (RUPLEY, 1999).
Os exames radiográficos são uma importante ferramenta para auxiliar o Médico Veterinário na pesquisa de doenças que afetam os animais. A relação custo-benefício faz desta modalidade a primeira escolha para avaliação de muitas afecções que
afetam as diferentes espécies, tendo uma ampla indicação para o estudo dos vários sistemas, principalmente o osteoarticular e respiratório (TEM TEM, 2009).
2.2.1 – Técnica radiográfica
A ave deve ser contida de forma segura e posicionada o mais simetricamente possível. A contenção manual costuma ser eficiente em pacientes tranquilos, normalmente realizada com as mãos e em alguns casos com auxílio de fitas adesivas. No entanto a contenção química pode se fazer necessária para as aves maiores e não cooperativas. Nesses casos é de extrema importância a monitoração dos parâmetros vitais durante o procedimento de sedação ou mesmo anestesiológico (WILLIAMS, 2002). Entretanto, o exame radiográfico é contraindicado para animais em estado crítico, visto que a contenção para o posicionamento radiográfico eleva o nível de estresse das aves, potencializando seu risco de morte (SILVERMAN, 1987). De modo geral os exames radiográficos das aves são de corpo inteiro, permitindo a avaliação da cavidade celomática e das estruturas ósseas num mesmo filme radiográfico (SILVERMAN, 1987; RUPLEY, 1999). Para um diagnóstico mais preciso é importante realizar sempre duas incidências radiográficas perpendiculares entre si (lateral direita ou esquerda e ventro-dorsal). Animais mal posicionados prejudicam o diagnóstico, pois uma imagem tremida pode camuflar a alteração radiográfica presente (WILLIAMS, 2002).
As incidências frequentemente utilizadas na avaliação radiográfica da cavidade celomática das aves são a lateral e a ventrodorsal. É importante cautela no posicionamento das asas e dos membros inferiores para que não sobreponham a região de interesse radiográfico. Na projeção lateral as articulações úmero-escapulares e os acetábulos devem estar sobrepostos e na ventrodorsal devem estar abduzidos. Para que a imagem esteja simétrica o esterno e a coluna vertebral devem estar sobrepostos. No caso de radiografias de membros superiores ou inferiores são realizadas as incidências médiolateral e a craniocaudal (PINTO, 2007).
Normalmente a técnica radiográfica utilizada associa uma miliamperagem alta e uma kilovoltagem baixa buscando-se obter um contraste alto na imagem produzida (RUPLEY, 1999).
O exame radiográfico de aves deve ser de alta qualidade diagnóstica (RUPLEY, 1999). Segundo Williams (2002) radiografias de magnificação são necessárias devido
ao pequeno tamanho das aves de gaiola para otimizar a interpretação radiográfica de pequenas estruturas esqueléticas. Essas radiografias são obtidas afastando-se a ave do chassi com um bloco de espuma, por exemplo. No entanto com essa técnica há perda de detalhamento ósseo, então, pode-se, também, utilizar lentes de aumento em radiografias realizadas com os animais posicionados diretamente sobre o chassi. Dessa forma, inclusive, se diminui o número de exposições radiográficas e se consegue manter o detalhamento radiográfico. Nos exames radiográficos do sistema musculoesquelético deve existir simetria entre as estruturas e o conhecimento da anatomia normal desses animais é bastante importante.
2.3 – Principais afecções diagnosticadas radiograficamente
2.3.1 Afecções do sistema musculoesquelético
As enfermidades mais comumente encontradas são as afecções de origem traumática. Pode-se sugerir que uma das causas para o número elevado de traumas tenha origem no manejo inadequado utilizado pelos proprietários de tais animais, levando a acidentes que poderiam muitas vezes ser prevenidos (SANTOS et al., 2008). Também são citadas como causas, colisões com veículos em movimento, membros presos na gaiola, mordeduras por outros animais e relutância à contenção (RUPLEY, 1999).
Anormalidades no sistema musculoesquelético são as mais encontradas em aves (BORTOLINI et al., 2013). Os sinais de acometimento dos membros incluem claudicação, inchaços articulares e deformidades nas pernas. Nas asas, os sinais são fraturas, inchaços articulares e queda alar (RUPLEY, 1999).
2.3.1.1 - Fraturas
As fraturas são as afecções mais comumente observadas no atendimento de rotina da Clínica de Aves que apresentam origem traumática. As asas são os membros mais afetados, seguidas pelos membros inferiores (SANTOS et al., 2008). Nos membros torácicos as fraturas mais frequentes são do úmero, rádio e ulna (BLASS, 1987). No entanto Arnault (2006) relata que os membros inferiores são os mais acometidos.
Um estudo realizado na Inglaterra por McCartney (1994) mostrou que as fraturas foram a maior ocorrência ortopédica, representando 70,3% dos atendimentos clínicos.
O predomínio de fraturas sobre as demais afecções ortopédicas é justificado pelo fato de as corticais ósseas dos ossos longos serem finas e frágeis, tendendo a se fragmentar quando submetidas à forças impostas sobre as mesmas (BLASS, 1987).
O estudo radiográfico do crânio representa um grande desafio para identificação de fraturas, pois os ossos apresentam corticais finas além de serem pneumatizados (WILLIAMS, 2002). Para melhorar sua avaliação radiográfica devem ser realizadas projeções oblíquas em adição às projeções laterais e dorsoventrais (PAUL-MURPHY et al., 1990).
As indicações mais frequentes para a realização do exame radiográfico quando a suspeita é de fratura são: confirmar o diagnóstico, avaliar o melhor método de fixação, determinar a idade da fratura e rastrear a presença de outras fraturas imperceptíveis ao exame clínico (KEALLY; MACALLISTER, 2012). A classificação das fraturas em aves é semelhante à dos mamíferos (WILLIAMS, 2002), devendo ser avaliadas e classificadas quanto à localização, reação do periósteo e envolvimento de tecidos moles (MCMILLAN, 1994).
2.3.1.2 - Luxações
Nas aves as luxações ocorrem em menor número que as fraturas devido à característica pneumática dos ossos e também ao fato de os ligamentos serem bem desenvolvidos. Forças aplicadas na articulação do joelho tendem a resultar em fraturas ao invés de luxações (BLASS, 1987).
As luxações na articulação do ombro são raras (BLASS, 1987). Normalmente ocorrem nas articulações interfalângicas, femoro-tibio-társicas ou coxo-femorais (MCMILLAN, 1994). A articulação do cotovelo também é propensa a tal alteração, pois apresenta uma capsula articular frágil e pouca musculatura adjacente, tendo sido encontrada com certa facilidade em rapinantes (MARTIN; RITCHIE, 1994). Frequentemente essa alteração é secundária à algum episódio traumático (MCMILLAN,1994). Contudo, podem estar associadas, também, à doença articular degenerativa em função de frouxidão articular (WILLIAMS, 2002).
2.3.1.3 - Osteoporose nutricional
Os ossos são as únicas estruturas no organismo que além de serem estáveis devem prover cálcio e fósforo para manter o metabolismo balanceado quando necessário (TULLY JR, 2002).
Doenças osteometabólicas normalmente ocorrem por desequilíbrio de cálcio, fósforo e vitamina D (RUPLEY, 1999).
A maioria dos psitacídeos tem preferência pela ingestão e sementes, o que faz com que proprietários passem a fornecer somente esse tipo de alimento estimulando o desenvolvimento de preferências individuais (CARCIOFI, 1996). Com o tempo, essa alimentação restrita pode acarretar um quadro de desnutrição e de alterações no padrão ósseo (CAMARGO FILHO, 2014). Dietas a base de sementes, são pobres em cálcio, mas ricas em fósforo e gorduras (RUPLEY, 1999).
A deficiência de cálcio é a anormalidade nutricional mais comum (FORBES, 1998). Sempre que a utilização de cálcio pelo organismo for maior que a absorção desse mineral por um período prolongado, haverá o desenvolvimento de hiperparatireoidismo nutricional secundário (WALLACH; FLIEG, 1969). Isso ocorre pelo aumento da secreção de paratormônio pelas glândulas paratireoides em resposta à hipocalcemia sistêmica. Pela ação do hormônio, ocorre reabsorção de cálcio dos ossos, interferindo na reabsorção tubular do fósforo que é excretado pelos rins. Com isso haverá aumento dos níveis de cálcio sistêmico (JOHNSON; WATSON, 2008).
A osteoporose é um distúrbio metabólico em que a produção de tecido ósseo pelo organismo é normal, no entanto a absorção do cálcio depositado na matriz óssea se encontra excessiva. Clinicamente os animais podem apresentar claudicação, tumefação articular, relutância em andar, dor esquelética e deformidade de membros (JOHNSON; WATSON, 2008).
O diagnóstico de osteoporose nutricional é realizado combinando-se as informações de histórico e anamnese associada ao exame físico e exames complementares laboratoriais (RUPLEY, 1999). O exame radiográfico pode diagnosticar alterações osteometabólicas antes do aparecimento de sintomas severos (RANDELL, 1981).
2.3.1.4 - Mal formações ósseas
Relatos de malformações musculoesqueléticas são escassos na literatura científica em geral, o que pode ser atribuído à morte prematura desses animais, contribuindo para que esses casos permaneçam desconhecidos (SRBEK-ARAUJO; ALBERGARIA, 2014).
As deformidades musculoesqueléticas são consideradas as afecções congênitas mais comuns em alguns grupos de aves, entre elas os Psittacídeos. Sua origem pode estar relacionada á genética, deficiências nutricionais maternas, problemas no período de incubação e doenças infecciosas pré-natais (FLAMMER; CLUBB, 1994). Também podem estar relacionada à traumas, anomalias congênitas e mau posicionamento embrionário e, de modo geral, acometem mais os membros inferiores (FLAMMER; CLUBB, 1994; RUPLEY, 1999).
2.3.1.5 - Hiperostose poliostótica
A hiperostose poliostótica é o aumento generalizado na opacidade óssea do canal medular de ossos longos (RUPLEY, 1999), sendo uma peculiaridade do sistema esquelético das fêmeas na época da postura (DYCE et al., 2004), que acumulam cálcio nos canais medulares dos ossos longos cerca de 10 dias antes da postura visando a formação da casca do ovo (OROSZ, 1997).
Esse acúmulo de osso medular é estimulado por ação simultânea de estrógenos e andrógenos normalmente coincidindo com a maturação dos folículos ovarianos, sendo, nesse caso, considerado normal (MAZZUCO, 2005). Entretanto pode estar relacionado a casos de hiperestrogenismo (SMITH; SMITH, 1997), cistos ou neoplasias ovarianas, tumores de oviduto ou, também, a casos de sertoliomas em machos (RUPLEY, 1999).
É considerado um achado acidental quando relacionado à ovopostura e, caso não exista histórico de postura recente, deve-se indicar a realização de um exame ultrassonográfico abdominal para avaliação das gônadas (RUPLEY, 1999).
2.3.1.6 - Não união de fratura
A não união de uma fratura pode ser definida como uma fratura que não está consolidada e que não apresenta sinais de progressão do processo de consolidação. Algumas fraturas não unidas podem progredir para pseudoartroses a longo prazo (HENRY, 2015).
Em fraturas de úmero de aves é contraindicado o uso de imobilização externa, pois a mesma promove atrofia muscular e anquilosa articular que levam à não união da fratura em consequência ao desuso do membro afetado (BENNETT; KUZUMA, 1992).
Devido à variação de tamanho, peso e conformação da ave, à anatomia óssea peculiar e às diferentes necessidades funcionais entre as espécies de aves ainda não se conseguiu determinar um método de osteossíntese ideal para seus ossos longos (CASTRO et al., 2004).
2.3.1.7 - Artrite
Artrite em aves normalmente é resultante de traumas e são de ocorrência ocasional. No entanto, também pode ser consequência de pododermatite séptica não tratada que se propaga pelos ossos e articulações próximas. Aves com casos crônicos de pododermatite devem ser avaliadas radiograficamente buscando saber o grau de comprometimento ósseo e articular da região afetada (SMITH; SMITH, 1997).
Osteomielites bacterianas também podem ser responsáveis pela ocorrência de artrites, pois o processo de infecção bacteriana pode se estender pela cortical óssea chegando às estruturas articulares. A artrite séptica é mais comumente observada nas articulações intertársicas, principalmente quando são secundárias à pododermatites (MCMILLAN, 1994).
Na fase aguda da doença, pode ser que não se perceba alterações ósseas na região afetada ao exame radiográfico, observando-se apenas efusão articular (MCMILLAN, 1994). Com a evolução da infecção pode-se observar redução do espaço articular (RUPLEY, 1999) em consequência à lesão da cartilagem articular, osteólise e reação periosteal na região epifisária (MCMILLAN, 1994), aumento da ossificação subcondral e aumento dos tecidos moles adjacentes. A extensão da osteólise nas superfícies articulares pode indicar artrite séptica (RUPLEY, 1999).
2.3.1.8 - Artrose
A artrose ou doença articular degenerativa é uma doença de evolução progressiva e lenta que ocorre nas articulações sinoviais e na qual se observa derrame sinovial e degeneração da cartilagem como principais componentes. Sua ocorrência é mais comum nas articulações dos membros que suportam o peso, podendo ocorrer, no entanto, em qualquer articulação sinovial (ALLAN, 2015).
2.3.1.9 - Edema articular
Os inchaços articulares em aves podem ocorrer de maneira isolada ou com anormalidades musculoesqueléticas concomitantes, como por exemplo: infecções bacterianas ou fúngicas, gota, deficiências nutricionais, trauma ou neoplasias. Em psitaciformes as causas mais comuns são trauma, infecções bacterianas e gota. Em aves de rapina é mais comum o inchaço articular estar associado á traumas e infecções bacterianas (RUPLEY, 1999).
O exame radiográfico nesses casos é importante para determinar a extensão da afecção, bem como o prognóstico. Em casos de trauma, se poderá observar reação de tecidos moles com ou sem fraturas associadas (RUPLEY, 1999).
2.3.2 – Afecções do Sistema respiratório
Segundo Marietto-Gonçalves, Lima e Andreatti Filho (2008) o ducto que interliga os seios nasais e a cavidade oral e o aparelho mucociliar encontrado por toda extensão do trato pré-dispõem a ocorrência de enfermidades respiratórias.
No estudo realizado por Santos et al. (2008), a aerossaculite foi a alteração mais comum, seguida pela dificuldade respiratória, sinusite e espirros em ordem decrescente. Houve também grande número de animais com hipovitaminose A que leva a infecções respiratórias secundárias por vírus, bactérias e fungos.
Nos casos de aspergilose, por exemplo, o radiodiagnóstico em aves silvestres, tem auxiliado o clínico não só a iniciar o tratamento muito antes dos resultados relacionados ao isolamento e identificação laboratorial do fungo, como a prescrever métodos profiláticos de controle da doença (BRUNO, 1996).
2.3.2.1 - Aerossaculite
A aerossaculite é uma alteração muitas vezes observada em conjunto com outras alterações sistêmicas como hepatomegalia, por exemplo. Pode ser secundária às doenças como a clamidiose, paramixovirose, aspergilose e toxicose por chumbo (RUPLEY, 1999).
Em radiografias laterais um espessamento dos sacos aéreos abdominais e torácicos e uma radiopacidade aumentada e difusa na mesma região na incidência ventrodorsal indicam aerossaculite (RUPLEY, 1999).
2.3.2.2 - Pneumonia
De modo geral as aves podem apresentar quadros respiratórios associados a outras patologias, ou mesmo causados por patógenos distintos, sendo os mais comuns a Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa, Pasteurella multocida (TULLY JR, 1995). No entanto, em aves criadas como animais de estimação a pneumonia causada por Escherichia coli é rara, sendo mais comum em aves jovens por inalação de poeira com cepas patogênicas. Normalmente as aves doentes apresentam dispneia intensa, cianose, mas sem ruídos respiratórios à ausculta. (TULLY JR; HARRISON, 1994).
O ácaro Cytodites nudus pode causar pneumonia granulomatosa acometendo sacos aéreos, ossos pneumáticos, brônquios e pulmões. Pode acometer várias espécies de aves como perus, pombos, faisões, galinhas e canários (SMANIOTTO et al., 2014).
2.3.2.3 - Ruptura de sacos aéreos
A ruptura de sacos aéreos é uma afecção bastante comum em aves de gaiola e deve ser corrigida o mais rápido possível. Como principais causas pode-se citar predisposição genética, infecções respiratórias, esforços físicos que provoquem a ruptura e traumas (PIÑEIRO; LOPES; GUEVARA, 2007).
2.3.2.4 - Sinusite
Os quadros de sinusite ocorrem por acometimento das vias aéreas superiores. Nesses casos as bactérias patogênicas mais comumente encontradas são Bacillus sp, Corynebacterium sp, Lactobacillus sp (TRULLY JR, 1995).
2.3.3 – Afecções do Sistema gastrointestinal
Os sinais gastrointestinais são uma queixa recorrente apresentada na clínica de aves de estimação, sendo as causas infecciosas e tóxicas as mais comuns, mas problemas metabólicos, físicos e de outras origens também causam alterações nesse sistema (RUPLEY, 1999).
2.3.3.1 - Hepatomegalia
O aumento das dimensões hepáticas pode ser secundário a doenças como salmonelose (DIAZ, 2014), hemocromatose (MASSAROTTO; MARIETTO – GONÇALVES, 2010) e distúrbios metabólicos como a lipidose hepática. Aves com doenças hepáticas podem apresentar sintomas como: anorexia, perda de peso anemia, dispneia (causada pela redução da capacidade respiratória devido à compressão pulmonar e dos sacos aéreos pelo parênquima hepático), encefalopatia hepática, distúrbios hemorrágicos e diarreia (DONELEY, 2004).
Sabe-se, também, que quando o aumento hepático for concomitante ao aumento das dimensões cardíacas pode indicar cardiopatia com congestão hepática secundária (LUMEIJ, 1994b).
O fígado é frequentemente afetado pelas alterações sistêmicas, sendo a hepatomegalia um achado radiográfico comum. O aumento simétrico das dimensões hepáticas normalmente está associado às doenças infecciosas ou metabólicas. Neoplasias e doenças granulomatosas geralmente causam um aumento hepático assimétrico (MCMILLAN, 1994).
2.3.3.2 - Hérnia abdominal
Hérnias abdominais podem ser congênitas ou adquiridas. São decorrentes da fragilidade da parede muscular. Ocorrem com certa frequência nas fêmeas de periquitos e calopsitas e podem estar relacionadas a um desequilíbrio hormonal causando fraqueza da musculatura abdominal. Na maioria dos casos apresenta pouco significado clínico e a herniorrafia pode ser mais arriscada do que benéfica, sendo recomendada em casos de urolitíases cloacais e de retenção de ovos (BENNETT; HARRISON, 1994).
Ao exame radiográfico se observa perda da integridade do contorno abdominal com possível retenção de ovos. Um estudo contrastado pode ser necessário buscando determinar se há alças intestinais no conteúdo herniário (JAHROMI; NAZHVANI; HADDADI, 2009).
2.3.3.3 - Divertículo em inglúvio
Nem todas as aves possuem inglúvio (que é uma dilatação anatômica do esôfago de algumas aves), mas psitacídeos de modo geral possuem. Nessas aves o inglúvio de estende transversalmente pelo pescoço (LUMEIJ, 1994a).
A ocorrência de divertículo esofágico é rara em humanos e em pequenos animais e consiste em uma dilatação localizada, de tamanho variável, em forma de fundo de saco e que se comunica com a luz do órgão (MONTAÑO, et al, 2003; BORIN-CRIVELENTI et al., 2015;).
De modo geral podem ser congênitos ou adquiridos. Os sinais clínicos geralmente são disfagia, regurgitação, perda de peso (ALVES et al., 2009; BORIN-CRIVELLENTI et al., 2015; MONTELLO-NETO et al., 2015). Não foram encontrados estudos indicando a ocorrência dessa alteração em aves.
2.3.3.4 - Hipomotilidade
Distúrbios ingluviais são comuns nas aves de estimação. Os sinais clínicos normalmente são: demora no esvaziamento ingluvial, estase ingluvial, vômito, regurgitação, disfagia e anorexia. Deve-se realizar o diagnóstico diferencial para demais causas de alterações no inglúvio como: presença de doenças infecciosas,
problemas nutricionais, intoxicação por chumbo, zinco e organofosforados, trauma por queimadura, neoplasias, desidratação e paralisia intestinal (RUPLEY, 1999).
A atonia intestinal está relacionada à impactação gástrica aguda, na qual se observa não ingestão de água ou alimento pela ave, acompanhada de redução drástica do volume de fezes e observação da urina com aspecto pastoso (SHANAWANY; DINGLE, 1999).
2.3.3.5 - Síndrome da dilatação do pró-ventrículo
A Síndrome da Dilatação do Proventrículo foi inicialmente identificada na década de 1970, como uma síndrome de etiologia desconhecida que afetava psitacídeos em cativeiro (CLARK, 1984).
A ordem Psitaciforme é a mais acometida, com relatos descritos em mais de oitenta espécies, mas também já foi identificada nas ordens dos Anseriformes, Passeriformes e Falconiformes (HOPES; TIZARD; SHIVAPRASAD, 2013).
É uma doença infecciosa de caráter progressivo, contagiosa e frequentemente leva o animal a óbito. Afeta normalmente os sistemas neurológico e digestivo e sua principal característica se dá por disfunção da motilidade intestinal, com aumento do tempo de passagem do alimento no trato gastrointestinal (HOPES et al., 2010).
2.3.4 - Afecções do sistema circulatório
O tamanho e o formato do coração variam nas diversas espécies de aves e com a fase respiratória e do ciclo cardíaco. Cardiopatias primárias são raras. No entanto, alterações cardíacas congênitas são ocasionalmente detectadas durante necropsias, sendo o aumento normalmente assimétrico (MCMILLAN, 1994).
2.3.4.1 - Cardiomegalia
Animais jovens com alterações congênitas do coração podem apresentar alterações à ausculta cardíaca, intolerância ao exercício e cardiomegalia. Em animais adultos (geralmente nos mais velhos) essa alteração pode ser secundária à doenças como clamidiose, tuberculose, neoplasias degeneração valvular mixomatosa e endocardite (MCMILLAN, 1994).
2.3.5 - Afecções do sistema reprodutor
2.3.5.1 - Retenção de ovos e distocia
Retenção de ovos é a alteração obstétrica mais comum em aves. É definida como a não passagem do ovo pelo oviduto de conformação anatômica normal. Suas causas são variadas, estando relacionadas à hipocalemia, produção excessiva de ovos, tumores ou infecções em oviduto, hipo ou hipertermia, causas genéticas (ROMAGNANO, 1996), doenças sistêmicas, má formação de ovos, estresse e obesidade. Geralmente a retenção evolui para distocia (ROSEN, 2012).
A distocia é definida como uma obstrução mecânica ao ovo na porção caudal do trato reprodutor. Pode resultar em prolapso de cloaca ou mesmo na impactação cloacal (ROMAGNANO, 1996, ROSEN, 2012).
Os sinais clínicos da retenção de ovos e da distocia são variáveis de acordo com o tamanho da ave. Periquitos, calopsitas, tentilhões e agapornis costumam ser os mais acometidos (ROMAGNANO, 1996), mas pode ocorrer em qualquer espécie de ave (ROSEN, 2012). De modo geral as aves acometidas se apresentam letárgicas, taquipneicas e deprimidas (ROMAGNANO, 1996).
2.3.6 - Afecções Sistema Tegumentar
2.3.6.1 - Tumorações
Neoplasias são doenças comumente vistas em aves, especialmente em psitacídeos e geralmente acometem os sistemas tegumentar e urogenital. Costumam ser reportadas de forma mais frequente em aves de cativeiro quando comparadas com aves de vida livre (FILIPPICH, 2004).
Quando a origem tumoral é no osso ou nos tecidos moles adjacentes é indicada a realização de um exame radiográfico para determinar a localização exata e se há comprometimento ósseo (TURREL; MCMILLAN; PAUL-MURPHY, 1987).
O diagnóstico dessa alteração normalmente é feito tardiamente por apresentarem sinais pouco específicos e pela progressão lenta, principalmente nos casos de tumorações viscerais (FILIPPICH, 2004).
3 – OBJETIVOS
3.1 - Objetivo geral
Avaliar as radiografias do acervo radiográfico, delineando um perfil das alterações mais comumente observadas nas diferentes espécies de aves analisadas.
3.2 - Objetivos específicos
I. Delinear um perfil radiográfico das alterações encontradas nos sistemas musculoesquelético, respiratório, circulatório, gastrointestinal, reprodutor e tegumentar;
II. Estabelecer as enfermidades mais comuns em aves diagnosticadas radiograficamente;
III. Estabelecer as ordens e famílias taxonômicas mais comumente atendidas no Setor de Imagem do HUVET-UFF entre 2004 e 2013.
4 - MATERIAL E MÉTODO
4.1 – Comitê de Ética
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética no Uso de Animais da Universidade Federal Fluminense (CEUA/PROPPI/UFF) sob o protocolo número 616/15 (Anexo 1).
4.2 - Desenho e Caracterização da Área do Estudo
Procedeu-se a um levantamento nos Livros de Registros de Exames realizados no Setor de Radiologia da antiga Policlínica Veterinária e do HUVET-UFF, com o intuito de se determinar a quantidade de exames radiográficos realizados no período do estudo.
As radiografias referentes ao período estudado que foram encontradas passaram por uma avaliação prévia com o objetivo de selecionar quais exames seriam incluídos no estudo. Dessa forma, os exames cuja técnica radiográfica não estava satisfatória ou cujos dados estavam incompletos, ou seja, sem a identificação da espécie do paciente, foram descartados. Os exames radiográficos referentes ao acompanhamento da evolução do quadro clínico apresentado, num total de 13 exames, não foram contabilizados na determinação das afecções diagnosticadas, somente no montante total de radiografias realizadas.
Todos os exames radiográficos utilizados foram realizados de modo convencional com técnica simples na maioria e em alguns casos técnica especial contrastada, empregando o sulfato de bário como meio de contraste radiográfico, e, nas incidências radiográficas necessárias (normalmente uma lateral e uma ventro-dorsal) e sem uso de contenção química.
Os aparelhos de raios - x utilizados para a realização das radiografias de 2004 a 2009 foram o Limex ou o Intecal, ambos de 90 Kv e 100 mA´s e, a partir de 2009 o CDK MAG VET 125Kv e 300 mA´s. Os filmes radiográficos utilizados variaram entre os tamanhos 13 X 18, 18 X 24 e 24 X 30 (de acordo com o tamanho da ave, a área a ser radiografada e disponibilidade no setor) e as marcas das películas utilizadas foram Kodak ou Fuji.
A revelação dos filmes radiográficos era realizada dentro de uma câmara escura de forma manual com revelador e fixador específicos até 2011 e, após esta
data, em reveladora automática CR-INTECAL. Durante a realização dos exames considerou-se sempre o estado de saúde da ave e o binômio risco-benefício. Em pacientes muito debilitados, por vezes, optou-se pela realização do exame em apenas uma incidência desde que isso não representasse perda na qualidade da avaliação nem prejudicasse o radiodiagnóstico minimizando, assim, o estresse do animal durante sua contenção e manipulação.
Para viabilizar a utilização dos exames realizados entre 2004 e 2013 foi solicitada ao responsável pelo animal a permissão do uso da imagem através de um termo de autorização por escrito constante do pedido de exame radiográfico padrão do Setor (Anexo 2).
4.3 - Método avaliativo das alterações radiográficas
Após a seleção dos exames, as radiografias foram avaliadas pela mesma pessoa com o auxílio de um negatoscópio a fim de descrever as principais alterações encontradas, correlacionando-as às principais doenças descritas na literatura e às espécies mais frequentemente afetadas. Todos os dados foram computados em um banco de dados.
4.4 - Análise estatística
Inicialmente foi realizada uma análise de consistência dos dados visando montar uma base de dados. Em seguida realizou-se a análise descritiva e o estudo de dispersão de frequência das diferentes alterações para cada ordem encontradas nessa base de dados.
5 - RESULTADOS
Foram contabilizados a realização de 175 exames radiográficos no período de 2004 a 2013. Destes 117 estavam com os dados completos, 13 eram de acompanhamento, 9 estavam sem condições de laudo e 36 estavam com os dados incompletos.
Dos 117 exames com dados completos 79 apresentavam pelo menos uma alteração radiográfica e 36 apresentavam-se radiograficamente normais. Vale ressaltar que o número total de alterações anátomo-radiográficas é maior que o número total de exames realizados, pois algumas aves apresentaram mais de uma afecção na mesma radiografia (Tabela 1).
Alterações
Radiográficas Ordem Família Nome Comum Número
Fratura escápula D Strigiforme Strigidae Coruja Orelhuda 1
Fratura úmero
Columbiforme Columbidae Pombo
Doméstico 1
Acciptriforme Acciptridae Gavião-Carijó 2
Psittaciforme
Cacatuidae Calopsita 1
Cacatua 1
Psittacidae
Papagaio-Vaerdadeiro 1 Fratura radio Psittaciforme Psittacidae
Periquitão-Maracanã 1
Fratura ulna
Columbiforme Columbidae Pombo
Doméstico 1
Psittaciforme Psittacidae
Papagaio-Verdadeiro 1
Fratura ísquio Anseriforme Anatidae Ganso-Bravo 1 Fratura fêmur Columbiforme Columbidae Pombo
Doméstico 1
Fratura tibiotarso
Columbiforme Columbidae Pombo
Doméstico 1 Passeriforme Estrididae Bico-de-Lacre 1 Thraupidae Sanhaço-Cinzento 1 Psittaciforme Cacatuidae Calopsita 4 Psittacidae Papagaio-Verdadeiro 2 Agapornis 1
Anseriforme Anatidae Pato Doméstico 1 Fratura falange
média II dedo MIE Pelicaniforme Ardeidae Savacu 1 Tabela 1: Relação das alterações anatomo-radiográficas por ordens, famílias e espécies taxonômicas radiografadas entre 2004 e 2013
Alterações
Radiográficas Ordem Família Nome Comum Número
Pseudoartrose
radio e ulna Columbiforme Columbidae
Pombo-Doméstico 1
Artrose artic.
Úmero-radio-ulnar Falconiforme Falconidae
Falcão-de-Coleira 1
Artrose coluna Galliforme Phasianidae Galo Doméstico 1
Artrose ACF Anseriforme Anatidae Ganso-Bravo 1
Artrite artic.
Úmero-radio-ulnar Columbiforme Columbidae
Pombo
Doméstico 1
Artrite artic. Radio-
ulnar-carpometacarpica
Columbiforme Columbidae Pombo
Doméstico 1
Artrite artic. Tibiotársica-tarsometatársica
Psittaciforme Cacatuidae Calopsita 1
Artrite artic.
Tarsometatarsica-falangeana
Galliforme Phasianidae Galo Doméstico 1
Edema artic. Tibiotarso-metatarsica
Galliforme Phasianidae Galo Doméstico 1
Luxação artic. Interfalangica
proximal
Galliforme Numididae Galinha
D´angola 1
Luxação cíngulo
escapular Columbiforme Columbidae
Pombo
Doméstico 1
Hiperostose
pliostótica Passeriforme Cacatuidae Calopsita 1
Mal formação óssea
Passeriforme Cacatuidae Calopsita 1 Anseriforme Anatidae Pato Doméstico 1 Psittaciforme Psittacidae
Papagaio-Verdadeiro 1
Osteoporose nutricional
Strigiforme Strigidae
Corujinha-do-Mato 1
Psittaciforme Psittacidae
Papagaio-Verdadeiro 1 Pneumonia Psittaciforme Psittacidae Agapornis 1 Cacatuidae Calopsita 3 Aerossaculite Psittcidae Papagaio-Verdadeiro 3 Cacatuidae Calopsita 4 Psittaculidae Loris-Ornatus 1 Ruptura de sacos aéreos Psittacidae Papagaio-Verdadeiro 1 Cacatuidae Calopsita 2
Sinusite Psittacidae
Alterações
Radiográficas Ordem Família Espécie Número
Hepatomegalia
Columbiforme Columbidae Pombo
Doméstico 1
Acciptriforme Acciptridae Gavião-Carijó 1
Piciforme Ramphastidae Tucanuçu 1
Psittaciforme Psittacidae
Papagaio-Verdadeiro 2
Passeriforme Fringilidae Canário-Belga 1 Galliforme Phasianidae Galo Doméstico 1 Hipomoitilidade Psittaciforme Cacatuidae Calopsita 1
Cacatua 1
Dilatação pró
ventrículo Psittaciforme Psittacidae
Papagaio-Verdadeiro 1
Divertículo em
inglúvio Psittaciforme Psittacidae Loris-Castanho 1 Hérnia
reg.abdominal
Psittaciforme Psittacidae
Papagaio-Verdadeiro 1
Passeriforme Thraupidae Curió 1
Tumoração reg. abdominal Psittaciforme Psittacidae Papagaio-Verdadeiro 3 Periquito-Australiano 1 Cacatuidae Calopsita 2
Galliforme Phasanidae Galo Doméstico 2 Passeriforme Fringilidae Canário-Belga 2 Tumoração reg.
cervical
Galliforme Phasanidae Galo Doméstico 1 Psittaciforme Psittacidae
Papagaio-Verdadeiro 1
Tumoração MID Psittaciforme Psittacidae
Papagaio-Verdadeiro 1
Cardiomegalia Psittaciforme Psittacidae
Papagaio-Verdadeiro 1
Periquito-Australiano 1
Retenção de ovos
Anseriforme Anatidae Pato Doméstico 1 Psittaciforme Psittacidae
Papagaio-Verdadeiro 1
Distocia Passeriforme Fringilidae Canário-Belga 1
As alterações determinadas por meio da radiografia se distribuíram pelos sistemas orgânicos em ordem decrescente, da seguinte forma: sistema musculoesquelético, sistema respiratório, sistema digestório, sistema tegumentar, sistema reprodutor e sistema circulatório (Quadro 1).
A ordem com maior número de indivíduos com alterações radiográficas foi a Psittaciforme com mais da metade do número total de alterações encontradas, seguida pela Columbiforme e pela Galliforme (Quadro 2).
As famílias taxonômicas Psittacidae e Cacatuidae foram as duas com maior número de alterações radiográficas, representando juntas mais da metade das alterações encontradas (Quadro 3).
Sistema Número de alterações encontradas Percentual Musculoesquelético 41 46,07% Respiratório 18 20,22% Digestório 13 14,61% Tegumentar 12 13,48% Reprodutor 3 3,37% Circulatório 2 2,25%
Ordem Número de Alterações
Radiográficas Percentual Psittaciforme 53 59,55% Columbiforme 9 10,11% Galliforme 7 7,87% Passeriforme 7 7,87% Anseriforme 5 5,62% Acciptriforme 4 4,49% Stringiforme 2 2,25% Falconiforme 1 1,12% Pelicaniforme 1 1,12%
Quadro 1: Alterações radiográficas encontradas por sistema
Quadro 2: Relação entre alterações radiográficas e a ordem taxonômica das aves radiografadas
Dentre as afecções mais comuns estão as fraturas, as tumorações, a aerossaculite e a pneumonia, que acometeram principalmente os indivíduos das famílias Psittacidae e Cacatuidae (Figura 1).
Dentro dessas famílias as espécies que apresentaram maior número de exames com alterações anatomo-radiográficas foram o Papagaio-Verdadeiro (Amazona aestiva) com 26,97% dos casos e a Calopsita (Nymphicus hollandicus) com 22,47% dos exames realizados. Essas duas famílias juntas somam 49,44% de todos os exames radiográficos selecionados para o estudo.
0 1 2 3 4 5 6 7
Fraturas Tumorações Aerossaculite Pneumonia
Psittacidae Cacatuidae Família Taxonômica Número de Alterações
Radiográficas Percentual Psittacidae 30 33,71% Cacatuidae 22 24,72% Columbidae 9 10, 11% Phasianidae 6 6,74% Anatidae 5 5,62% Acciptridae 4 4,49% Fringilidae 4 4,49% Strigidae 2 2,25% Thraupidae 2 2,25% Ardeidae 1 1,12% Estrildidae 1 1,12% Falconidae 1 1,12% Psittaculidae 1 1,12% Numididae 1 1,12%
Quadro 3: Relação entre as alterações radiográficas e as famílias radiografadas
Figura 1: Relação entre as afecções radiográficas mais frequentes e o número de indivíduos das famílias mais acometidas
As três alterações radiográficas mais comumente encontradas em ordem decrescente foram fratura, tumoração e aerossaculite (Quadro 4).
Alteração Radiográfica Número de Alterações
Radiográficas Percentual Fratura 24 26,97% Tumoração 12 13,48% Aerossaculite 8 8,99% Hepatomegalia 7 7,87% Pneumonia 6 6,74% Artrite 4 4,49% Artrose 3 3,37%
Mal formação óssea 3 3,37%
Ruptura de sacos aéreos 3 3,37%
Cardiomegalia 2 2,25% Hérnia 2 2,25% Hipomotilidade gastrintestinal 2 2,25% Luxação 2 2,25% Osteoporose 2 2,25% Retenção de ovos 2 2,25% Dilatação do pró ventrículo 1 1,12% Distocia 1 1,12% Divertículo em inglúvio 1 1,12% Edema articular 1 1,12% Hiperostose poliostótica 1 1,12%
Não união de fratura 1 1,12%
Sinusite 1 1,12%
6 DISCUSSÃO
A ordem com maior número de indivíduos com alterações radiográficas foi a Psittaciforme com 53 (59,55%) ocorrências. O mesmo ocorreu com outros estudos nacionais realizados somente com aves ou com animais selvagens em geral onde Castro et al. (2013) encontraram uma casuística de atendimento de Psittaciformes de 89,65% e Santos et al. (2008) encontraram uma casuística de 43,48% de aves dessa mesma família.
Os Columbiformes apresentaram a segunda maior quantidade de alterações radiográficas com nove (10,11%) exames alterados no total. Essa família é composta por animais de vida livre, mas urbana e sujeita aos mais diversos tipos de acidentes ou mesmo maus tratos. Esse índice se contrapõe aos resultados obtidos por Santos et al (2008) que encontraram a ordem Passeriformes como a segunda mais prevalente. Essa diferença pode ser explicada pelo fato da presença dessas aves ser variável de cidade para cidade.
O galo doméstico também pode ser apresentado como animal de estimação dependendo do local onde é realizado o estudo (Lennox, 2006). Essa ave, pertencente à ordem Galiforme foi a terceira mais radiografada, representando 7,87% dos exames realizados. Esse valor é próximo do encontrado por Santos et al. (2008) no qual essa ordem representou 7,51% dos atendimentos.
Santos et al. (2008) relatam em seu estudo que a ordem Passeriforme foi a segunda em número de atendimentos, com 26,88% dos casos. No entanto, nessa pesquisa ela está em quarto lugar representada por sete exames, os quais correspondem a 7,87% do total.
As fraturas foram a maior ocorrência musculoesqulética no presente estudo, com uma frequência de 26,97% de todos os exames, corroborando os achados de Santos et al (2008) que encontraram um total de 30,91% dessas alterações. No entanto dentre essas afecções observou-se uma maior ocorrência de fraturas em tibiotarso contrariamente ao estudo supracitado, no qual as fraturas de radio e ulna foram as mais frequentes. O alto número de afecções do sistema musculoesquelético inclusive como relatado por Santos et al (2008) pode ser explicado por erros de manejo e acidentes domésticos de modo geral, visto que as aves mais acometidas por essas afecções pertencem às famílias Psittacidae e Cacatuide, comumente mantidas domiciliarmente como pets nas cidades.
Doenças osteometabólicas estiveram presentes em dois exames radiográficos selecionados para esse estudo em aves das espécies Amazona aestiva e Megascops choliba. Na pesquisa realizada por Arnault (2006) foram encontrados 48 casos dessa afecção, sendo 13 de aves da espécie Amazona aestiva e duas da família Strigidae. A ocorrência dessas alterações mais comumente observada nessas aves pode estar relacionada ao fato de ambas serem vitimas do tráfico de aves silvestres e quando adquiridas, os proprietários não buscam orientação profissional. Dessa forma, frequentemente incorrem em erros no manejo alimentar favorecendo o surgimento dessas enfermidades.
Artrite foi uma alteração encontrada em quatro aves radiografadas nessa pesquisa. No entanto no estudo realizado por Bortolini et al. (2013) apenas um caso foi relatado. Esta divergência entre o número de casos em cada estudo pode estar relacionada à diferença das espécies de aves que habitam cada região e também ao fato das aves na região metropolitana do Rio de Janeiro serem, de modo geral, domesticadas (como no caso das espécies Nymphicus hollandicus e Gallus gallus) ou manterem um contato muito próximo com seres humanos (o que ocorre com a espécie Columba livia) fato este que acaba facilitando a chegada desses casos ao consultório veterinário.
As doenças respiratórias representaram 20,22% do total de exames realizados e todos os animais radiografados com essas alterações eram da ordem Psittaciforme, contrariando os achados do estudo realizado por Marietto-Gonçalves et al (2008) onde citam encontrar maior incidência em animais da família Galliforme. Esta diferença talvez possa estar relacionada ao local do estudo, considerando que os achados do presente relato referem-se fisiogeograficamente a um grande centro urbano, sendo pouco comum a presença de representantes dessa ordem.
A aerossaculite foi a doença do sistema respiratório com maior ocorrência, representando 8,99% dos casos em nossos achados, o que é também comunicado por Santos et al. (2008) que encontraram 37,5% das alterações respiratórias relacionadas à ocorrência de aerossaculite. A discrepância entre os percentuais dos dois estudos pode estar relacionada à diferença no número de animais atendidos incluídos em cada pesquisa, bem como à localização geográfica.
A ruptura dos sacos aéreos foi uma alteração presente em oito aves no total, sendo a Nymphicus hollandicus a espécie com maior número de indivíduos acometidos. No entanto, Piñeiro et al. (2007) encontraram aves da espécie Columba
livia como as mais acometidas por essa afecção. Essa diferença, também nesse caso, pode estar relacionada ao local de realização do estudo e o fato de se tratarem de aves comuns em ambientes urbanos reforça a possibilidade dessa alteração ser secundária a um trauma, por erro de manejo ou mesmo por maus tratos.
A sinusite esteve presente em apenas uma ave, representando 1,92% das alterações encontradas, contrariando os achados de Santos et al. (2008) que relatam essa alteração como terceira maior ocorrência, representando 10,0% das aves estudadas. Essa divergência pode estar relacionada às diferenças climáticas entre as regiões nas quais os estudos foram realizados.
Das alterações encontradas no sistema digestório, a hepatomegalia foi a mais frequente com sete exames (7,87%). Do total de aves acometidas, mais uma vez a ordem Psittaciforme foi a mais comum, acompanhada pelas ordens Passeriforme, Columbiforme, Galliforme, Acciptriforme e Ramphastidae. De acordo com Massaroto e Marietto-Gonçalves (2010) essa alteração foi encontrada em animais da família Ramphastidae associada à ocorrência de hemocromatose, não tendo sido encontrado estudos sobre a casuística dessa ocorrência nas demais famílias. No entanto, é possível que nas ordens mantidas domiciliarmente essa alteração esteja relacionada à erro de manejo alimentar.
A retenção de ovos/distocia foi diagnosticada em animais das ordens Anseriforme, Psittaciforme e Passeriforme, representando um total de 3,37% dos casos estudados. Castro et al. (2013) encontraram uma ocorrência de 3,45% de distocia também em aves da ordem Psittaciforme. O diagnóstico de distocia nessas aves pode estar relacionado a erros de manejo alimentar e/ou estresse por alterações ambientais e possivelmente seu registro esteja relacionado ao fato de serem animais domiciliados, o que favorece maior acesso aos cuidados veterinários.
A ordem mais acometida pelas tumorações foi a Psittaciforme com oito exames (15,38%) no total. Esse dado corrobora com o estudo realizado por Castro et al. (2013) que encontraram 46,55% de neoformações cutâneas em Psittaciforme. A grande presença dessas aves pode ter relação com o fato de serem as mais tidas como aves de companhia (SICK, 1997), portanto recebendo maiores cuidados veterinários o que torna a detecção mais fácil.
7 - CONCLUSÕES
Diante do estudo observou-se que todos os sistemas orgânicos passíveis de avaliação radiográfica estiveram presentes. Dentre esses o sistema mais acometido foi o musculoesquelético, sendo a fratura a alteração mais frequente.
Somado a isso percebeu-se, também, que a ordem taxonômica mais acometida por alterações radiográficas foi a Psittaciforme, representada principalmente pelas famílias Psittacidae e a Cacatuidae.
Dessa forma, o exame radiográfico provou ser um exame de apoio diagnóstico com excelente custo benefício para aves e de suma importância para a conduta clínica do Médico Veterinário de selvagens.
8 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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