NARRATIVAS TESTEMUNHO: RELATANDO A HISTÓRIA “OUTRA”
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Sandra Jaborandy Guinancio Mestranda - UFF Há várias definições que tentam nortear a classificação genérica do testemunho, mas quanto à tipologia este discurso é dividido em testemunho direto e/ou não-mediado (autobiografia, crônicas, memórias, diários, testemunho legal), e o testemunho mediado que por sua vez se subdivide em testemunho etnográfico e jornalístico. Este trabalho visa a priorizar o testemunho mediado e suas nuanças intradiscursivas.
A narrativa testemunho foi consagrada pela Casa de las Américas em Cuba, nos anos 70. Mas já eclode na América Latina nos anos 60, dentre outras razões, em decorrência das mudanças provocadas pela Revolução Cubana. Dentro deste panorama histórico conturbado, em meio às conseqüências político-econômicas da Guerra Fria, surge como resposta para transformação consciente contra as injustiças sociais ocorridas, principalmente no período das ditaduras dos anos 60-70. O gênero floresce como forma de denúncia social para reconstruir a História “outra” através daqueles que nunca tiveram voz na produção hegemônica.
El testimonio ciñe los contenidos de la protesta y la afirmación, del juramento y la prueba. Sus funciones corren la gama que va desde la certificación a la acusación y la recusación. Sus personajes son aquellos que han sufrido el dolor, el terror, la brutalidad de la tecnología del cuerpo; seres humanos que han sido víctimas de la barbarie, la injusticia, la violación del derecho a la vida, a la libertad y la integridad física [...] El testimonio es una forma de lucha. Las imágenes del dolor y del terror se trasmutan, así, en testigos de sobrevivencia, y su escritura en acicate de la memoria. (JARA, 1986, p. 01)
Estruturalmente, o testemunho mediado divide-se em duas partes: o texto
per se e o “para-texto”. Este se caracteriza pelos prólogos, epílogos, notas, etc. nos
quais o mediador tenta induzir o leitor, levando-o a acreditar na verdade dos fatos ocorridos buscando comprová-los através de gravações, documentos datados, registro histórico, etc. Sendo assim, atesta a fidedignidade dos acontecimentos a partir destas provas contundentes.
Segundo Rene Jara, no Prólogo do texto Testimonio y literatura1, enquanto
forma discursiva, “o testemunho está mais próximo da historiografia que da literatura”, pois se registram acontecimentos reais, que são comprovados por
documentos fidedignos; configurando-se o seu caráter documental, em contrapartida se estabelece uma fronteira porosa no discurso, fazendo-o perpassar ao plano estético. Por conseguinte, esta proposição segue a linhagem teórica de Fernández Retamar y Jorge Narváez, além de outros, que defendem o discurso “genuinamente latino-americano” no qual há uma tendência funcional desse sistema literário “históricamente condicionado”, porque na estética paradoxal do gênero testemunho “la expresión literaria sirve de vehículo a un contenido y a un fin no literários” (Reyes apud Sklodowska, 1992, p. 60).
Fundamentalmente o testemunho etnográfico é a simbiose entre os dois discursos: o oral e o escrito, tendo-se como resultado uma forma híbrida; vindo à tona o questionamento sobre a posição do narrador, suscitando não a sua dissolução, mas sim a retomada da sua função gerenciadora explícita no discurso compartilhado por mediador (co-autor) e informante (autor).
Todavia, a narrativa testemunho fornece mais dúvidas que certezas no que concerne à delimitação estética; a sua forma discursiva flutua entre ficção e história. Não obstante, vislumbra-se no discurso o florescimento do gênero
histórico2 híbrido cujas linhas ideológicas traçadas no enunciado cravam a
memória, num processo constante da literatura como instrumento de construção da “história alternativa” para se repensar a História.
A proposta de perscrutar a literatura através da história é interessante na medida em que as narrativas testemunho oferecem inúmeras facetas discursivas imbricadas no seu corpus, dentre as quais tem como projeto a perspectiva documental paralela à narrativa realista de cunho oral. Sendo assim, observa-se fundamentalmente o contexto histórico nos seus “limites imprecisos” com a literatura, a partir de um gênero polêmico e fronteiriço.
Logo, com a eclosão do gênero testemunho, têm-se as inúmeras configurações discursivas que este tipo de narrativa oferece para análise e discussão: tanto se pode passear pragmaticamente pelas ciências sociais – antropologia, etnografia, sociologia, História – quanto caminhar pelos veios da literatura, mas refletindo a exemplaridade e a alteridade cultural, através do espaço discursivo constituído por dois sujeitos fusionados no enunciado.
A caballo entre la biografía y la autobiografía, disputado por la antropología y la literatura, y asumiendo modalidades propias de la narrativa y del discurso histórico, el testimonio abre, más allá y con independencia de la problemática genérica, su propio espacio
(ACHUGAR, 1992, p. 50)
Em se tratando do testemunho mediado, o informante logra contar sua história oral – que o leitor julgará verdadeira – paralela à história oficial; uma pseudo-autobiografia ou, segundo Hugo Achugar uma “autobiografia despersonalizada”, teoria defendida no seu ensaio3 no qual entretece uma nova categorização autobiográfica polifônica: um “eu” que se dissolve em um “nós”, que
se concretiza no discurso escrito mediado por um sujeito letrado, cujo objetivo, dentre outros, é rever os parâmetros que ordenam a historiografia oficial, a partir da configuração dos estudos etnográficos, antropológicos e outros vinculados às ciências sociais. Entretanto, o co-autor e/ou mediador mantém o controle discursivo na medida em que domina a produção, a organização, a montagem textual, ainda que tente se manter numa posição relativamente neutra acaba interferindo no discurso. Porquanto, emerge a forma de “historiografia alternativa”: a “história do Outro” num espaço discursivo tecido pelas vozes dos silenciados, aqueles excluídos da produção histórica hegemônica que tentam galgar o centro; o poder letrado.
Nos dois testemunhos etnográficos: Biografia de un Cimarrón, mediado por Miguel Barnet e Me llamo Rigoberta Menchú, mediado por Elizabeth Burgos, estes são os mediadores letrados solidários com o “Outro”. Esteban Montejo e Rigoberta Menchú são os testemunhantes iletrados que contam as suas histórias orais representando a sociedade da qual fazem parte.
Com o advento do gênero testemunho, o caráter excludente se confronta com o discurso descentrado ascendente, vindo à tona a questão da alteridade, que surge no contato entre duas culturas distintas: a do iletrado e do letrado que, ao disputarem o mesmo espaço discursivo, produzem um discurso biforme; híbrido, o que fundamentalmente também dificulta a sua delimitação.
É mister o desdobramento das noções de exemplaridade e alteridade no contexto histórico atual, à medida que o leitor identifica elementos sociais descentrados da política pautada no modelo europeu-ocidental que tende ao homogêneo. Por conseguinte, são seres humanos que assumem o discurso, verbalizando uma história real expressa na dramaticidade da ação, conseqüentemente, rememora-se o tempo passado na ação transformadora do presente, acontecimentos reais que abrangem o século XX, como forma de denúncia.
A partir das novas perspectivas da crítica inovadora latino-americana, o testemunho mediado vem sendo estudado, na tentativa de delimitar ou “institucionalizar” o seu corpus. Tarefa nada fácil, haja vista os limites fronteiriços imprecisos vislumbrados pelo discurso contrastante; paradoxal que está na fronteira tênue: transitando entre a fabulação e a relação, o real e o ficcional, centro e periferia.
A la vista de la naturaleza híbrida del testimonio queda claro que la enumeración de sus parentescos con uno u otro discurso permite extraer algunas conclusiones, pero nunca es totalmente satisfactoria. El testimonio se parece a muchas formas narrativas – literarias y no-literarias –, mientras que ninguna de estas formas se parece al testimonio. (SKLODOWSKA, 1992, p. 76-77)
testemunho jornalístico, que também guarda valor historiográfico e de denúncia, ainda que a partir de técnicas discursivas intrínsecas à reportagem. Para Hugo Achugar há “o parentesco do testemunho com o novo jornalismo”, cuja estrutura narrativa difere do testemunho etnográfico ou sócio-histórico de Barnet e Burgos. Principalmente, em relação à posição do mediador/autor no testemunho jornalístico, que, muitas vezes, assume o papel de narrador declarado, colocando em “cheque-mate” a relação entre realidade e ficção, mas tendo como base sine
qua non o discurso pautado na verdade parcial. Entretanto, no que concerne à
ideologia, ambos são respaldados pelo caráter reivindicador político e documental, tecendo-se o outro lado sombrio e comum da América Latina, no período das ditaduras militares, mostrando o enorme distanciamento entre a história oficial e a outra historiografia descentrada do poder.
O florescimento desse gênero histórico híbrido permite através dos seus limites fronteiriços imprecisos conjugar dois modelos discursivos: o histórico e o literário, os quais trabalham, a priori, fenômenos diferentes; respectivamente, o fato real e o verossímil. Mas não são contraditórios quanto à finalidade, porque ambos vão a busca da verdade. E, neste sentido dialogam na literatura testemunho.
Portanto, há um processo constante na conjuntura cultural das letras latino-americana, caracterizado pela função predominantemente não-alienante da literatura. O testemunho é a realização concreta desta tendência histórico-social, que não é tão somente a literatura clássica preconizando a “arte pela arte”, mas sim a arte literária instrumental para cumprir sua função social.
Referências Bibliográficas
ACHUGAR, Hugo. “Historias paralelas/historias ejemplares: la Historia y la voz del otro”. In: Revista de crítica literaria latinoamericana, ano XVIII, n° 36. Lima: Latinoamericana Editores, 1992.
BARNET, Miguel. Biografía de un cimarrón. La Habana: Ediciones Huracán, 1968. BEVERLEY, John; ACHUGAR, Hugo (orgs.). La voz del Otro: testimonio,
subalternidad y verdad narrativa. Lima/Pittsburg: Latinoamericana Editores,
1992.
BURGOS DEBRAY, Elizabeth. Me llamo Rigoberta Menchú. La Habana: Casa de las Américas, 1983.
CASTRO-GÓMEZ, Santiago; MENDIETA, Eduardo (coords.). Teorías sin disciplina. Latinoamericanismo, poscolonialidad y globalización en debate. São Francisco:
University of San Francisco, 1998.
JARA, Rene; VIDAL, Hernán (orgs.). Testimonio y Literatura. Mineapolis: University of Minnesota, 1986.
SKLODOWSKA, Elzbieta. Testimonio hispanoamericano: historia, teoría, poética. New York: Peter Lang, 1992.
latinoamericana, Ano XVIII, n° 36. Lima: Latinoamericana Editores, 1992.
_______________ 1
Cf. JARA, Rene; VIDAL, Hernán (orgs.). Testimonio y literatura. Minneapolis: University of Minnesota, 1986. 2
O testemunho mediado é preconizado por alguns teóricos como “una de las actualizaciones (género histórico) de la novela concebida como ‘género teórico’” (SKLODOVSKA, 1992, p. 97).
3
Cf. ACHUGAR, Hugo. Historias paralelas/historias ejemplares: la Historia y la voz del Otro. In: Revista de crítica literaria latinoamericana, ano XVIII, n° 36. Lima: Latinoamericana Editores, 1992.