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O CONCEITO DE DISCIPLINA NA OBRA EDUCACIONAL DE JOHN LOCKE

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Academic year: 2021

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O CONCEITO DE DISCIPLINA NA OBRA EDUCACIONAL DE JOHN LOCKE Autor(es): AZEVEDO, Daniela Grillo de

Apresentador: Daniela Grillo de Azevedo Orientador: Avelino da Rosa Oliveira Revisor 1: Neiva Afonso Oliveira

Revisor 2: Heloísa Helena Duval de Azevedo Instituição: UFPel

O CONCEITO DE DISCIPLINA NA OBRA EDUCACIONAL DE JOHN LOCKE

AZEVEDO, Daniela Grillo de 1; OLIVEIRA, Avelino da Rosa2.

1 Acadêmica Curso de Licenciatura em Filosofia/UFPel [email protected] 2

Prof. Orientador Faculdade de Educação/UFPel [email protected] 1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho faz parte de um projeto de pesquisa intitulado “A obra educacional de John Locke: correlações no interior da filosofia lockiana e com outros projetos educacionais do início da modernidade”. Para este momento, a intenção é discutir e analisar o conceito disciplinar, que está principalmente evidente, em sua obra educacional Some Thoughts concerning Education. E com isso trazer à discussão questões que, mesmo sendo levantados no século XVII, ainda parecem pertinentes à problemática educacional.

2. MATERIAL E MÉTODOS

Para a pesquisa o material e métodos privilegiados são basicamente a leitura e interpretação de textos, ou seja, a metodologia utilizada foi o levantamento bibliográfico, leitura e a interpretação das obras do autor, comentadores e histórias da filosofia e da educação, tendo como principais referências as seguintes obras de John Locke: “Carta sobre a Tolerância” (1689), “Ensaio sobre o Entendimento Humano” (1690), os dois Tratados sobre o Governo Civil (1690) e Some Thoughts

concerning Education (1693). A partir do material levantado e apropriação dos

conceitos fundamentais necessários ao trabalho, procurou-se estabelecer relações entre o entendimento do autor em questão com suas demais obras, como também relações com seu contexto. Tudo isto tencionando oferecer elementos para o debate de como pensar a educação em dias atuais.

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3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

O inglês John Locke (1632 – 1704) tornou-se conhecido e respeitável filósofo da modernidade e hoje reconhecido por seu projeto filosófico consistente. Viveu em uma época politicamente agitada, que não pôde, em nenhum momento, deixar de influenciar em seu pensamento. Foi um filósofo atento e participativo enquanto cidadão e partidário político, teve como cenário para sua obra guerras, revoluções, motins, exílio. Assim o teor de sua filosofia foi dedicadamente voltado ao ser humano, seu entendimento e conhecimento, sua convivência e defesa de uma sociedade respeitosa da liberdade e dos direitos dos homens, assim como a classe a qual pertencia: a burguesia.

Sua obra abrange a política, a epistemologia e a educação, seus temas estão sempre relacionados com a liberdade, a tolerância, os direitos naturais e a disciplina. Conceitos engajados com o intuito de defender um ponto de vista que inaugura o liberalismo, que preocupa-se com o conhecimento, a sociedade e destaca a moral situando-a acima da ciência, colocando-a como objeto de sua filosofia.

Sua última obra, “Some Thoughts Concerning Education”, resultado de cartas destinadas a amigos que solicitavam-lhe aconselhamentos acerca da educação de seus filhos, foi dedicada à educação do jovem burguês e portanto preocupada com a estruturação da sociedade que emerge, da qual Locke faz parte e defende. Pode-se dizer que é uma organização sistemática entre o pensamento político, moral, epistemológico do autor com o intuito de servir à educação. Esta obra reúne elementos de sua filosofia e conhecimentos acumulados durante anos de pesquisa e vivência, experiência que sorveu enquanto escrevia, observava e também experiênciava.

Os principais preceitos da pedagogia lockiana são: a educação do corpo, educação moral e a educação intelectual. Para isso formalizou um conjunto de conselhos que tinham como objetivos desenvolver um cavalheiro apto ao mundo dos negócios, com suas constituições físicas fortes e saudáveis, bem informados e independentes. Tudo isso adquirido às custas de uma educação rígida, atenta e sobretudo, disciplinar.

Disciplina é o conceito chave para entender a metodologia educacional segundo este autor, pois, entende que a partir dela pode-se desenvolver todas as virtudes necessárias à boa educação:

“A mim parece claro que o princípio de toda virtude e excelência repousa no poder de negar a nós mesmos a satisfação de nossos próprios desejos, onde a razão não os autoriza. Esta força há que ser adquirida e melhorada pelo costume e tornada natural e familiar por uma prática precoce.” (LOCKE, 2000, p. 169, § 38).

Locke concebe a mente, ao nascer, como uma “folha em branco”, teoria apresentada em “Ensaios acerca do Entendimento Humano”, onde, em termos gerais, o autor rejeita a teoria das idéias inatas e oferece a sensação e a reflexão como sendo a condição de possibilidade de todo o conhecimento.

Assim, esta teoria influenciou na educação de forma direta, pois ao admitir que todos nascem sem nenhuma idéia acerca de nada, Locke chega à conclusão de que os homens são o que são, devido às experiências que tiveram, derivadas das sensações e reflexões que lhes foram proporcionadas desde que nasceram. Desta forma, as crianças devem ser educadas tendo em vista que seu sucesso ou sua

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ruína dependerão da educação que tiverem, onde então, a disciplina terá a incumbência da boa formação.

A disciplina que Locke tematiza é um conjunto de normas que possibilitará ao educando sua boa educação, porém tais normas consiste antes de tudo o estabelecimento de hábitos. Nada que se queira que as crianças saibam devem ser-lhes ensinadas apenas por regras e teorias, e sim através da rotina, fazendo parte de seus afazeres até que tornem-se habituais, fazerem parte de seus costumes. Nas palavras de Locke: “o que há de receber da educação, o que há de direcionar e influenciar sua vida, tem de ser algo posto dentro dele bem cedo: os hábitos tecidos como verdadeiros princípios de sua natureza [...]” (LOCKE, 2000, p. 172, § 42).

Os hábitos que constituem a disciplina, estão ligados a todos os conselhos sobre a educação, desde os cuidados que deve-se ter com o corpo (vestuário, alimentação, exercícios físicos, etc), com a moral (virtudes e vícios) e com o intelecto (exercício racional e educação formal). Eles são, desta forma, o método de aprendizado mais eficaz na constituição do homem que Locke entende como ideal: o homem bem educado, inteligente, nobre e empreendedor.

Este homem deve ter sua mente e corpo disciplinados, pois assim lhe será possível ter os referenciais que precisará para sua atuação prática. Locke possui a consciência de que é a educação, e portanto, a disciplina, que formará o homem capaz de assumir os novos tempos políticos e sociais que surgem.

A sociedade a qual está em pauta, é uma em que neste momento faz a transição de um mundo medieval para um mundo moderno. Muitos conceitos estão sendo revistos, muitas metas traçadas, muitas “verdades” caíram por terra. É outro mundo surgindo, que nós do século XXI podemos falar e avaliar, porém quem lá viveu e foram os agentes de todas as mudanças, muito pouco sabiam das proporções das influências que tais movimentos surtiriam, como o capitalismo, liberalismo, um mundo globalizado (economicamente), grandes diferenças sociais, entre outras características do mundo contemporâneo.

Mas Locke, se não previu o futuro, sabia muito bem de suas intenções e o que elas acarretariam: a educação do jovem que seria o agente nos novos tempos. Mas esta educação, bem se nota, é para a classe que passa a dominar. A educação sugerida é portanto aristocrática, elitista e individualista, pois deve ser concebida a partir de um tutor bem qualificado, longe das escolas, que para o autor representava um perigo às virtudes e à disciplina.

4. CONCLUSÕES

Apesar de concluirmos que Locke em seu projeto educacional, que alcançou grandes influências em seu tempo e provoca discussões com seus conceitos até hoje, foi substancialmente elitista e particularista, mesmo já havendo em sua época discussões a respeito da educação para todos. Pode-se dizer que se pensarmos a substituição do conceito de homem que o autor insinua (pertencentes à “classe mais elevada”) pelo conceito de homem (ser humano) hoje, onde fala-se de todos indistintamente, podemos ver na pedagogia lockiana mais mérito. Em outras palavras, Locke tematiza a educação destacando a importância de constituir um homem livre, independente, virtuoso e capaz de interagir e contribuir socialmente, mas parece-nos que lhe faltou apenas um caráter mais social. Ou seja, “parece necessário acrescentar um fundamento social em função do qual o dia-a-dia da escola e da formação do educando possam ser discutidos, em conjunto, com todos os interessados.” (GHIGGI & OLIVEIRA, 1995, p. 95).

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Mas, fora isso, há de se reconhecer que Locke lança ao pensamento educacional conceitos que hoje são muito caros e são pertencentes à prática pedagógica, tais como, pensar a criança como ser racional; que ama a liberdade; a contrariedade aos castigos e surras; a necessidade de manter aos olhos das crianças bons exemplos; assim como cultivar-lhes bons hábitos; que a educação deve contemplar também o corpo e não apenas o intelecto; que o principal a ser destacado no processo educacional não é a quantidade de saberes ou acúmulo de instruções, mas a formação de costumes éticos; que deve-se ter atenção às particularidades das personalidades das crianças, ou nas palavras de Locke “suas inclinações naturais”, para assim desenvolver com o maior proveito suas particularidades; e que a educação é indispensável à boa formação do homem, ou seja, “de todos os homens que encontramos, nove a cada dez são o que são, bons ou maus, úteis ou não, por sua educação. É isto que faz grande diferença na humanidade[...]” (LOCKE, 1999, p. 154, § 1)

Resta-nos, agora, a continuidade da discussão, levantando questões de como devemos conceber o projeto político da educação que melhor se articule aos nossos tempos e necessidades, assim como qual é o melhor conceito de escola e de disciplina que devemos seguir. A isto Locke oferece muitas “pistas”, porém agora a responsabilidade passa aos pensadores contemporâneos que são os únicos que podem saber das necessidades que temos hoje.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo: Editora UNESP, 1999.

EBY, Frederick. História da Educação Moderna: teoria, organização e práticas educacionais. Porto Alegre: Globo, 1976.

GHIGGi, Gomercindo & OLIVEIRA, Avelino. O conceito de disciplina em John Locke: o liberalismo e os pressupostos as educação burguesa. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995.

JOHN, Locke. Segundo tratado sobre o governo civil e outros escritos: ensaio sobre a origem, os limites e os fins verdadeiros do goveino civil. Petrópolis: Editora Universitária São Francisco; Editora Vozes, 2006.

____________. Ensaio sobre o entendimento humano. São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda., 1997. (coleção Os Pensadores)

____________. Alguns Pensamentos Acerca da Educação. Parte 1 – (§§ 1 – 30). Cadernos de Educação. Fae/UFPel, Pelotas (13): 147 – 171, ago./dez. 1999.

____________. Alguns Pensamentos Acerca da Educação. Parte 2 – (§§ 31 – 42). Cadernos de Educação. Fae/UFPel, Pelotas (14): 165 – 172, jan./jun. 2000. ____________. Alguns Pensamentos Acerca da Educação. Parte 3 – (§§ 43 – 63). Cadernos de Educação. Fae/UFPel, Pelotas (15): 137 – 145, jul./dez. 2000. ____________. Alguns Pensamentos Acerca da Educação. Parte 4 – (§§ 64 – 71). Cadernos de Educação. Fae/UFPel, Pelotas (16): 161 – 173, jan./jun. 2001. ____________. Alguns Pensamentos Acerca da Educação. Parte 5 – (§§ 72 – 87). Cadernos de Educação. Fae/UFPel, Pelotas (17): 175 – 187, jul./dez. 2001. ____________. Alguns Pensamentos Acerca da Educação. Parte 6 – (§§ 88 – 102). Cadernos de Educação. Fae/UFPel, Pelotas (18): 199 – 215, jan./jun. 2002. ____________. Alguns Pensamentos Acerca da Educação. Parte 7 – (§§ 103 – 110). Cadernos de Educação. Fae/UFPel, Pelotas (19): 173 – 180, jul./dez. 2002. ____________. Alguns Pensamentos Acerca da Educação. Parte 8 – (§§ 111 – 115). Cadernos de Educação. Fae/UFPel, Pelotas (20): 213 – 221, jan./jun. 2003.

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MONROE, Paul. História da Educação. São Paulo: Editora Nacional, 1977.

PALMER, Joy A. 50 grandes educadores: de Confúcio a Dewey. São Paulo: Contexto, 2005.

STRATHERN, Paul. Locke em 90 minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

TADIÉ, Alexis. Locke. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.

Referências

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