O DESENVOLVIMENTO DA INOVAÇÃO EM
REDES DE COOPERAÇÃO EMPRESARIAL
MARCOS ROGÉRIO RODRIGUES
Mestrando em Administração pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS Professor do Curso de Administração das Faculdades Integradas Machado de Assis-FIMA RESUMO
O presente artigo tem como finalidade responder a seguinte pergunta de pesquisa: como ocorre o desenvolvimento da inovação em redes de cooperação empresarial? Para atender a este objetivo foi realizado um estudo de caso junto a uma rede de cooperação do segmento de informática. O trabalho é baseado em conceitos relacionados ao processo de inovação, gestão do conhecimento e importância das redes de cooperação empresarial para os processos inovativos. Dentre as conclusões, destaca-se que o ambiente de interação criado pela infoREDE motivou a existência de espaços e momentos para a socialização de conhecimentos, permitindo que as empresas associadas a rede obtivessem tanto inovações incrementais quanto inovações radicais.
Palavras-chave: inovação, redes de cooperação empresarial, gestão do conhecimento,
desenvolvimento regional.
ABSTRACT
The present paper has as purpose to answer the following question of research: how occurs the development of the innovation in cooperation networks enterprise? To reach of this objective it was achieve a study of case joint of the network of cooperation of the segment of informatics. The work is based on concepts linked to the innovation process, knowledge management and importance of the networks cooperation enterprise for the innovative processes. Amongst of the findings, highlighted that the interaction environment created by infoREDE motivated the existence of spaces and moments for the socialization of knowledge, allowing that the associates enterprises to the network obtained both incremental innovations as radical innovations.
Key-words: innovation, cooperation networks enterprise, knowledge management, region development.
INTRODUÇÃO
O tema inovação vem despertando especial atenção tanto na academia quanto no meio empresarial, a inovação se apresenta como uma forte vantagem competitiva no âmbito organizacional. Rothwell (1995) enfatiza que o processo de inovação vem sofrendo alterações no contexto organizacional, segundo o autor os processos de inovação estão sendo realizados através de um modelo integrado e em rede, transformando-se de um processo individual para um processo coletivo, onde se desenvolvem ações de cooperação tanto horizontal quanto vertical.
Nessa perspectiva, as redes de cooperação servem como uma importante estratégia para o desenvolvimento da inovação nas empresas. O ambiente de uma rede de cooperação é capaz de proporcionar espaços para a interação e disseminação de conhecimentos entre
todas as empresas. Cumpre destacar, que as estratégias coletivas colaborativas atuam como mecanismo essencial para o desenvolvimento da inovação, facilitando a interação entre os diversos atores e contribuindo ativamente para a aprendizagem e disseminação do conhecimento nas empresas (NONAKA & TAKEUCHI, 1997).
Nesse sentido, alguns estudos ressaltam a importância das redes de cooperação para o desenvolvimento das pequenas e médias empresas (PMEs). De acordo com alguns autores Verschoore Filho & Balestrin (2006), Balestrin (2005), Balestro (2002), Lagemann (2004), Marchi (2006), Scherer (2007), Steglich (2007), Verschoore Filho (2006), a organização em rede proporciona inúmeros resultados positivos as PMEs, quais sejam: desenvolvimento da inovação, geração de conhecimentos, aprendizagem coletiva, combinação de competências, acesso a recursos, poder de compra, legitimidade, credibilidade financeira.
Este artigo tem o objetivo de analisar como o desenvolvimento da inovação pode ser fomentando por meio das redes de cooperação empresarial. Para isso, foi utilizado como método de pesquisa o estudo de caso. Além desta introdução, o presente artigo aborda o processo de inovação, o desenvolvimento da inovação nas empresas, a gestão do conhecimento para o desenvolvimento da inovação, na seqüência são tratados aspectos ligados às redes de cooperação empresarial. Em seguida, é apresentada a metodologia da presente pesquisa, e por fim são destacados os resultados obtidos, as considerações finais e as limitações do estudo.
1 O PROCESSO DE INOVAÇÃO
O processo de inovação visa garantir a competitividade das organizações. A inovação é definida como a implantação de uma nova idéia que constitua uma mudança num produto, num processo produtivo, ou num procedimento administrativo, visando melhorar os resultados da empresa, agregando valor para os interessados e tornando a organização mais competitiva (BARBIERI, 2003). De acordo com Dosi (1988), a inovação está vinculada com a descoberta, experimentação, desenvolvimento, imitação e adoção de novos produtos, processos e arranjos organizacionais.
As práticas inovativas são fatores importantes para o sucesso de uma empresa, e visam contribuir, sobretudo na maximização dos resultados econômicos. A inovação se dá por meio de duas formas: inovação radical (algo totalmente novo), e inovação incremental (algo significativamente melhorado), tanto a inovação radical quanto a inovação incremental pode ser desenvolvida por meio de: produtos, processos, métodos de marketing ou métodos organizacionais (OECD 2005).
A inovação radical é caracterizada pela introdução de conceitos completamente novos na organização, refere-se a uma mudança de paradigma, a um evento descontínuo revolucionário e original. Contudo, a inovação incremental tem como principal característica o desenvolvimento de pequenas e contínuas melhorias em algo já existente (ZHAO 2005). Cumpre salientar, que além das inovações incrementais e radicas, existem dois outros tipos de inovações: os novos sistemas tecnológicos que se caracterizam pelas mudanças abrangentes que afetam mais de um setor e dão origem a novas atividades econômicas, e os novos paradigmas técnicos – econômicos que são responsáveis por envolver mudanças técnicas e organizacionais, alterando produtos e processos, criando novas indústrias e estabelecendo trajetórias de inovações por várias décadas (FREEMAN & SOETE 1997). A evolução da inovação tem se apresentado sob diversas formas, conforme Rothwell (1995), o processo de inovação apresenta cinco gerações distintas. Segundo o autor, a primeira geração tinha P&D centralizado e o mercado apenas absorvia os resultados, o modelo dominante era empurrado pela tecnologia. A segunda geração foi marcada pelo P&D descentralizado, enfatizando a importância do mercado através de um processo linear. A terceira geração teve como característica um modelo interativo entre o P&D e o mercado, visualizava-se as necessidades do mercado para então desenvolver os produtos e serviços.
A quarta geração da inovação é marcada pelo modelo integrado, onde ocorrem às interações entre diversos atores, e são estabelecidas parcerias e join ventures para um trabalho integrado. Na quinta geração o foco permanece sobre o modelo integrado, porém em rede, onde todos os envolvidos são capazes de desenvolver ações de cooperação, esse modelo de geração exige, sobretudo, amplas interações e ações conjuntas entre as empresas envolvidas.
Portanto, como Rothwell (1995) enfatiza na quinta geração, as relações interorganizacionais promovem um ambiente propício à inovação, pois a troca de conhecimentos, bem como a formação de parcerias com universidades, formação de join ventures, e principalmente os acordos de licenciamentos visam contribuir positivamente para o financiamento e desenvolvimento da inovação. O modelo de inovação integrado e em rede é marcado pelas interações promovidas entre os diversos atores, nesse sentido, o próximo item apresenta como a inovação pode ser desenvolvida nas empresas.
2 O DESENVOLVIMENTO DA INOVAÇÃO NAS EMPRESAS
O desenvolvimento da inovação passa por um processo onde é necessário que se tenha um ambiente favorável, em que ocorram interações entre todos os envolvidos. Nesse sentido, a relação com os empregados, clientes, fornecedores e demais parceiros permite que haja um ambiente de ampla aprendizagem e de introdução de sucessivas mudanças através da complementariedade de conhecimentos (DYER & NOBEOKA, 2000).
A desenvolvimento da inovação se dá, sobretudo pela criação de novos conhecimentos. Dessa forma, é crucial observar que a empresa deve desenvolver ações no sentido de fomentar a criação de novos conhecimentos. Segundo Dyer & Nobeoka (2000) uma empresa que se encontra em rede poderá ser mais eficaz do que uma firma individual no processo de criação, transferência e recombinação de conhecimentos, esse fato se dá devido às inter-relações promovidas pelo ambiente em rede.
Cumpre destacar, portanto que a inovação é algo intensivo em informação e principalmente em novos conhecimentos, tanto interno como externo à organização. Nonaka & Takeuchi (1997) enfatizam a importância do compartilhamento de conhecimentos de uma organização a partir das interações com outras organizações. De acordo com Powell (1998) a cooperação entre empresas acelera a taxa de inovação tecnológica.
Algumas teorias mais recentes como o open innovation (CHESBROUGH, 2003) e o estudo proposto por Rothwell (1995) sobre a quinta geração sinalizam que a inovação está passando de um processo individual (P&D interno) para um processo coletivo, no qual as empresas têm se preocupado em formar parcerias com o objetivo de reduzir riscos e investimentos nos processos de P&D.
Para o desenvolvimento da inovação, atributos como confiança, transferência de conhecimentos e gestão do conhecimento são fatores chave, nessa ótica, o item a seguir aborda alguns aspectos ligados à gestão do conhecimento.
3 A GESTÃO DO CONHECIMENTO PARA O DESENVOLVIMENTO DA INOVAÇÃO
A relevância da transferência de conhecimentos é destacada por muitos autores como aspecto crucial para o desenvolvimento da inovação nas organizações (Rothwell, 1995; Dyer & Nobeoka, 2000; Nonaka & Takeuchi, 1997; Powell, 1998; Balestrin, 2007). Após 1995 a teoria do conhecimento foi despertada através da popularidade do modelo SECI (Socialização, Externalização, Combinação e Internalização) proposto por Nonaka & Takeuchi. Com o apoio fundamental das tecnologias de informação e comunicação (TICs) a teoria da gestão do conhecimento ganhou força e adquiriu mais atenção no mundo acadêmico e gerencial (SNOWDEN, 2002).
Segundo Balestrin (2007) a teoria do conhecimento apresenta duas abordagens: A) abordagem normativa e B) abordagem interpretativa. A abordagem normativa defende a idéia de que é possível gerenciar o conhecimento, o conhecimento se encontra fora do indivíduo, pode ser estocado, manipulado e transferido por meio de tecnologias de informação e comunicação. Contudo, a abordagem interpretativa destaca que o conhecimento é amplamente arraigado às práticas organizacionais. O foco deste conhecimento está nas práticas de trabalho, no qual é enfatizada a construção do conhecimento através da interação entre os indivíduos.
A criação de conhecimento pode ser entendida com um processo contínuo, no qual um indivíduo impõe a informação e um aprendizado, adquirindo um novo contexto, uma nova visão do mundo e um novo conhecimento, dessa forma, criar conhecimento significa recriar a empresa e todos os indivíduos dentro dela, em um processo de auto-renovação pessoal e organizacional (NONAKA et al 2006).
Nonaka et al (2006) propõem o modelo SECI para o processo de conversão de conhecimento. A socialização permite compartilhar conhecimento tácito entre os indivíduos, a externalização permite articular conhecimento tácito em conhecimento explícito, a
combinação permite combinar diferentes formas de conhecimento explícito, por último a internalização visa incorporar o conhecimento explícito em conhecimento tácito.
Outro aspecto relevante na criação de conhecimento são as condições específicas para se criar conhecimento. Nonaka & Konno (1998, p. 40) chamam essas condições específicas de “ba”. Segundo esses autores “o ba é um espaço compartilhado onde surgem as relações, esse espaço pode ser físico (escritório), virtual (Internet, ou meios eletrônicos) ou mental (troca de idéias, experiências)”. O objetivo do ba é promover a interação entre todos os indivíduos nos mais diferentes níveis hierárquicos da organização, para criar, compartilhar e principalmente utilizar o conhecimento, cabe destacar a importância desses espaços para o desenvolvimento da inovação.
Os quatro grupos de espaços de criação de conhecimento são classificados segundo Nonaka et al. (2006) como: originating ba é a interação cara-a-cara, onde indivíduos compartilham sentimentos, emoções, experiências e modelos mentais, é no originating ba que começa a criação de conhecimento e é representada pela socialização entre os indivíduos. O interacting ba é onde se dá o diálogo entre os indivíduos, nesse ponto, são analisados as habilidades e modelos mentais e convertidas em modelos comuns. É a externalização do conhecimento.
O cyber ba é onde ocorre a interação por meio do mundo virtual, é a combinação de novos conhecimentos explícitos baseados em conhecimentos já existentes. O cyber ba é promovido pelas tecnologias de informação. O exercising ba é o meio pelo qual ocorre a internalização do conhecimento explícito, nesse ponto o conhecimento explícito é convertido em conhecimento tácito, resultando em novas formas e modelos mentais.
Cabe salientar que conhecimento apresenta duas dimensões, a ontológica e epistemológica. A dimensão ontológica diz respeito que o conhecimento só pode ser criado pelos indivíduos. A dimensão epistemológica apresenta os dois tipos de conhecimentos, o tácito e o explícito. Baseado em Nonaka & Takeuchi (1997) o conhecimento explícito é um conhecimento caracterizado pela facilidade de comunicação, ele é transmissível em linguagem formal e sistêmica, podendo facilmente ser difundido pelas TICs. Dessa forma, ele é expresso através de manuais, repositórios, bibliotecas, banco de dados.
No entanto, o conhecimento tácito é um conhecimento pessoal, de difícil formulação e comunicação, ele é uma habilidade. Esse tipo de conhecimento inclui modelos mentais, crenças, pontos de vista, know-how. É importante destacar que o conhecimento tácito é o conhecimento mais valioso para a organização. CHOO (2003, p. 189) destaca que: “o conhecimento tácito é vital para a organização porque as empresas só podem aprender e inovar estimulando de algum modo o conhecimento tácito de seus membros”.
A criação do conhecimento é caracterizada pelas diversas interações entre todos os agentes, nesse sentido, uma rede de cooperação empresarial é destacada pela sua
capacidade de articular e fomentar a troca de conhecimentos entre os empresários e as empresas. A seguir as redes de cooperação são apresentadas como meio eficaz para o processo de criação de conhecimento e desenvolvimento da inovação.
4 AS REDES DE COOPERAÇÃO EMPRESARIAL
Redes de cooperação são classificadas como um terceiro tipo de organização, voltada para a obtenção de melhores fluxos de informações entre os parceiros. Esse tipo de estratégia é uma forma pelo qual as empresas acertam produtos e serviços em um caminho coordenado. Para Castells (1999), esse novo modelo de empresa está ligado à gestão do conhecimento e da informação, dessa forma, a tecnologia da informação atua como um facilitador para comunicações instantâneas entre as pessoas.
As relações interorganizacionais promovidas pelo ambiente em rede facilitam a ampla aprendizagem contribuindo para o desenvolvimento da inovação. Outras vantagens como ganhos de escala, redução de incerteza, acesso a de recursos e informações, know-how, acessos a tecnologias são destacadas por Brass et al (2004). Tais vantagens permitem que as empresas atinjam objetivos coletivos e se desenvolvam.
O ambiente em rede possui uma vantagem por fornecer a especialização e flexibilidade baseada na complementariedade de recursos. De acordo com Todeva (2006), o paradigma tecnológico da informação contribui para a formação da rede, a autora destaca que a rede depende de competências tais como a transferência de conhecimentos e o aprendizado. No entendimento de Perrow (1992), as redes de PMEs possuem: produção flexível, informações mais diretas, além disso, as redes de PMEs compartilham pesquisas de P&D, pesquisas de mercado, marketing, treinamentos técnicos, transportes etc.
Outro ponto relevante sobre as redes de empresas é focado por Human & Provan (1997) ao apresentar os resultados obtidos em estudo entre duas redes de PMEs, os autores enfatizam que as redes de PMEs promovem interdependências complexas e recíprocas, onde os associados fornecem inputs e recebem outputs para desenvolver soluções de problemas comuns. Human & Provan (1997) apontam ainda dois tipos de resultados obtidos pelas PMEs configuradas em rede, os resultados transacionais (aquisições de recursos ou ganhos de performance), e os resultados transformacionais (mudanças dos gestores na forma de pensar ou agir).
O contexto de uma rede de cooperação pode facilitar o desenvolvimento das PMEs, porque apresenta uma maior flexibilidade para a inovação. A pequena estrutura da PMEs proporciona uma melhor interação entre todas as pessoas da organização no qual contribuiu para a criação de novos conhecimentos. O novo paradigma de redes incorpora diferentes competências através da facilidade de relações entre as empresas, e privilegia a flexibilidade entre os parceiros, unindo forças para o fortalecimento das PME, e conseqüente desenvolvimento em nível local e regional.
As redes de cooperação empresarial aparecem sob diferentes formas, em diferentes contextos e a partir de expressões culturais diversas. Balestrin e Vargas (2004), apresentam as quatro tipologias de redes e suas dimensões.
I) Redes verticais: a dimensão da hierarquia. Possuem uma clara estrutura hierárquica,
geralmente, essas relações são semelhantes às estabelecidas entre matriz/filial, em que as filiais possuem pouca autonomia jurídica e administrativa.
II) Redes horizontais: a dimensão da cooperação. As redes de cooperação interfirmas
são constituídas por empresas que guardam cada uma sua independência, mas que optam por coordenar certas atividades específicas de maneira conjunta.
III) Redes formais: a dimensão contratual. São redes formalizadas por meio de termos
contratuais, como por exemplo, as alianças estratégicas, os consórcios de exportação, as
IV) Redes informais: a dimensão da conivência. As redes de conivência permitem os
encontros informais entre os atores econômicos (empresas, organizações profissionais, instituições, universidades, associações, etc.). Tais encontros permitem trocar experiências e informações, essas redes são baseadas principalmente na confiança entre os atores. Como exemplos podem ser citados os APLs, tecnópoles, pólos industriais.
O item a seguir demonstra como a pesquisa foi elaborada, enfatizando os procedimentos metodológicos para o desenvolvimento do estudo.
5 METODOLOGIA DA PESQUISA
O caso selecionado para ser estudado foi a rede infoREDE, a escolha desta rede se deu pelo fato de ser uma rede de cooperação empresarial que busca a inovação em seus produtos e serviços, bem como, pelo oportuno contato do pesquisador com o consultor, presidente e empresários da rede.
A infoREDE é a associação das empresas de informática do Noroeste e Alto Jacuí do Estado do Rio Grande do Sul. A rede foi criada em agosto de 2006 através do projeto Redes de Cooperação do governo do Estado do Rio Grande do Sul, atualmente é formada por 13 empresas do segmento de informática. O foco de mercado das empresas associadas a infoREDE é a venda de computadores e suprimentos para informática, além da prestação de serviços de assistência técnica e automação comercial.
A pesquisa teve como método de investigação o estudo de caso, o qual reúne informações aprofundadas sobre a atual situação. Para a coleta das informações foi utilizado questionário semi-estruturado de forma a orientar o trabalho, bem como, realizou algumas análises em documentos (atas de reuniões da infoREDE). Realizaram-se entrevistas em profundidade com alguns proprietários das empresas associadas a infoREDE. As entrevistas foram realizadas no mês de dezembro de 2007.
Foram elaboradas questões referentes ao desenvolvimento da inovação, socialização e criação de conhecimentos, freqüência das interações, existências de espaços para socializar conhecimentos, principais instrumentos e aspectos fomentadores para o desenvolvimento da inovação, nível de confiança entre os associados, além de questões sobre os ganhos obtidos através da socialização de conhecimentos e desenvolvimento da inovação.
6 RESULTADOS OBTIDOS
A pesquisa realizada junto à infoREDE permitiu observar como se dá o processo de desenvolvimento da inovação em uma rede de cooperação horizontal de PMEs. Percebe-se que a configuração horizontal da rede fomenta o desenvolvimento da inovação, ao criar espaços específicos para a criação e transferências de conhecimentos entre todos os associados.
Observou-se que a infoREDE promove ganhos relacionados à barganha de preços, treinamentos e participações em feiras. Entretanto, as evidencias demonstram relevantes ganhos de conhecimentos, oriundos das diversas interações entre todos os empresários. Dessa forma, o compartilhamento de informações trouxe ganhos principalmente aos processos de inovações relacionadas a melhorias de gestão, descoberta de novos fornecedores, ampliação do mercado e ampliação do mix de produtos. As interações ocorrem de maneira formal e informal entre os empresários.
“Ao entrar na rede eu particularmente obtive ganhos na compra, porque tive volume, possibilidade de treinamento dos meus funcionários, participação em feiras, troca de informações, amizade, eu pude aumentar meu mix de produtos... Antes eu não vendia Internet via rádio, não vendia voip, não
vendia sistemas de automação e hoje eu vendo... graças aos parceiros da rede”. (empresário 1).
Os conhecimentos socializados na rede contribuíram para o desenvolvimento da inovação na empresa, pode-se afirmar que as empresas associadas à rede estudada obtiveram inovações incrementais relacionado a gestão. “Eu particularmente tive olhando como outras
empresas têm o controle financeiro da carteira de clientes, e conversando com outros empresários da rede eu consegui aprimorar meu sistema de contas a receber e faturamento bancário e isso começou a dar bons resultados” (empresário 2).
Percebeu-se que os principais instrumentos que fomentam a inovação entre as empresas da rede é o mercado e a interação entre os empresários da rede. “O próprio mercado, a
concorrência nos impõe a inovar... a gente está ainda muito reativo” (empresário 3). A
interação se dá através das confraternizações, reuniões, ferramentas virtuais como a
Internet, o e-mail, o Messenger, o telefone etc, de acordo com Nonaka & Konno (1998)
esses espaços ou momentos onde ocorre o compartilhamento de informações e conhecimentos são chamados de “ba”.
A pesquisa confirma que a socialização de conhecimentos contribui para o desenvolvimento de processos inovativos.
“Tu acaba vendo que o colega está fazendo daquela forma e está dando certo para ele, e então posso implementar esse processo na minha empresa com sucesso. Quando tu é associado tu acaba passando a dica para o colega. Antes nós se víamos como concorrentes... Eu tenho essa visão e passo conhecimentos de forma aberta, não fico escondendo nada” (empresário 3).
Para as interações face-a-face os entrevistados afirmaram que são realizadas reuniões mensais na cidade onde se encontra cada empresa. Um aspecto negativo que não é aproveitado pelos associados são as visitas que poderiam ser feitas in loco a cada empresa que promove a reunião em sua cidade. Os associados acabam se encontrando em um ambiente fora da empresa para discutir aspectos da rede. Cabe ressaltar que tais visitas poderiam promover a articulação do conhecimento tácito ao passo que os associados poderiam visualizar as melhores práticas e experiências de cada empresa visitada.
“Um ponto positivo seria a criação de uma reunião em cada empresa a cada mês...E aproveitar essa reunião para trocar experiências... Hoje nós não estamos aproveitando esse deslocamento, essa reunião pode servir para uma melhor interação e servirá de motivação para todos os empresários (empresário 4).
As evidencias demonstram os vários ganhos obtidos pelas empresas associadas, por meio da complementaridade de conhecimentos entre os empresários. Complementariedade essa que se dá, sobretudo pela interação, pela confiança e principalmente pela amizade que a rede de cooperação promove entre os empresários associados.
“Em termos de gestão antes de entrar na rede e depois de ter estado na rede eu consegui dar um “salto” grande... tu acabas olhando a forma de trabalho de outro associado e isso serve de aprendizado. São 12 aprendizados que tu vai levar, ou positivo ou negativo. Eu pude aprender muito e também repassei muito conhecimentos porque fui visitar pessoalmente cada empresa da rede. Existe um alto nível de confiança, todo mundo é amigo ali dentro. A troca de informações dentro da rede é uma das coisas que melhor funciona” (empresário 1).
Existe na rede um alto nível de confiança resultado do amadurecimento e principalmente da amizade construída entre os parceiros, a confiança é um aspecto crucial para o desenvolvimento da inovação. As iniciativas conjuntas de inovação ocorrem principalmente quando da elaboração do planejamento estratégico da rede.
“No plano estratégico todos os associados são envolvidos para definição das metas, objetivos, pontos fortes e fracos para principalmente identificar as necessidades da rede... se propõe treinamentos, se denomina equipes
para coordenar projetos, visitas a feiras... É um ótimo momento para a troca de idéias” (empresário 3).
É importante destacar a formação de equipes de trabalho que focalizam seus esforços em quatro pilares: negociação, marketing, inovação tecnológica e expansão. Nesse sentido, chama-se a atenção para a equipe de inovação tecnológica a qual tem por finalidade trazer competitividade à rede e possibilitar ganhos aos seus associados. Dentre as principais atividades destacam-se:
A troca de informações em reuniões, eventos, congressos, encontros;
Sistematização de conhecimentos que ocorrem através da criação de informativos, banco de idéias, melhores práticas adotadas pelas empresas;
Treinamento para gestores, funcionários e equipes;
Melhorias necessárias em gestão, produtos e processos para as empresas da rede; Parcerias com outras redes em encontros e congressos.
Para contribuir com os processos de inovação da rede os entrevistados enfatizam a importância de um consultor de gestão para trabalhar com as empresas associadas, padronizando processos nas empresas, segundo os entrevistados outro aspecto levantado para melhorar o desempenho da rede é a criação de nichos de produtos para se diferenciar no mercado.
Portanto, cabe destacar o desenvolvimento de aspectos inovativos, sobretudo pelo surgimento de novos conhecimentos propiciados pela organização das PMEs em rede, dessa forma, podem-se observar novos métodos de gestão adotados pelas empresas, ampliação do mix de produtos, acessos a treinamentos, participações em eventos, feiras e congressos, novos aprendizados de assistência técnica, desenvolvimento de novos fornecedores e novos mercados. Nesse contexto, certamente a rede de cooperação além de promover vantagens competitivas aos associados também desenvolve as PMEs.
CONSIDERAÇÕESFINAIS
O estudo destaca que o ambiente de uma rede de cooperação é favorável para o desenvolvimento da inovação. As interações face-a-face fortalecem a amizade e a confiança entre os empresários e são fundamentais para a criação e socialização de conhecimentos. Tal interação e confiança dificilmente seriam encontradas caso as PMEs trabalhassem de forma isolada. A inovação pode ser definida como a entrada de novos produtos, serviços e processos no mercado, os quais não existiam anteriormente, ou que contenham algumas características diferentes, acompanhados de resultados econômicos positivos para a empresa.
Os espaços de criação de conhecimentos podem surgir entre indivíduos, equipes de trabalhos, através de reuniões formais e informais, bem como, pelos espaços virtuais. Segundo as evidencias, visualiza-se na infoREDE a criação de um “ba” (NONAKA & KONNO, 1998) que são espaços ou momentos onde ocorre o compartilhamento de informações e conhecimentos.
É importante destacar que os tipos de conhecimentos são complementares, porém as empresas precisam converter conhecimentos tácitos em conhecimentos explícitos. Nonaka e Takeuchi (1997), ressaltam que quando existe interação entre o conhecimento explícito e o conhecimento tácito, surge a inovação. Para isso é crucial que todos os empresários da rede aproveitem para visitar in loco cada empresa quando da reunião mensal, para visualizar na prática cada experiência e adotar em sua empresa as melhores práticas observadas nas empresas visitadas.
O estudo realizado na infoREDE demonstrou que a inovação pode ser desenvolvida em PMEs, e principalmente que uma rede de cooperação pode favorecer positivamente o
desenvolvimento da inovação por meio da interação e troca de experiência entre todos os associados. Nesse sentido, o estudo vem ao encontro dos resultados obtidos anteriormente por (VERSCHOORE FILHO & BALESTRIN, 2006; DYER & SINGH, 1998; HUMAN & PROVAN, 1997; GULATI ET AL, 2000; POWELL, 1998; KNIGHT, 2002; DYER & NOBEOKA, 2000; ROTHWELL, 1995), no qual a rede de cooperação proporciona resultados positivos as PMEs, dentre os quais se destacam a geração de inovação, novos conhecimentos, ampliação da aprendizagem, combinação de competências.
Conclui-se, portanto, que o desenvolvimento da inovação pode ser criado por meio das redes de cooperação, contribuindo para o desenvolvimento em nível local e regional. No caso da rede estudada as evidencias demonstram que as empresas associadas a infoREDE obtiveram tanto inovações incrementais (gestão) como inovações radicais (novos produtos, treinamentos, eventos).
No entanto, para finalizar é oportuno ressaltar as limitações da pesquisa, pois o estudo foi realizado em apenas uma rede de cooperação empresarial, e as evidências constatadas não podem ser generalizadas a todas as redes de cooperação. Portanto, esse estudo pode ser utilizado como referências para trabalhos futuros, como forma de identificar as similaridades e ou diferenças entre os resultados obtidos.
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