Pedro e Paulo: representantes dos conflitos sociopolíticos na transição do Império à República no romance Esaú e Jacó
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(2) MARIA ISADORA DA SILVA MELO. PEDRO E PAULO Representantes dos conflitos sociopolíticos na transição do Império à República no romance Esaú e Jacó. Artigo apresentado como requisito parcial para obtenção do título de licenciada em História pela Universidade Federal de Alagoas – Campus do Sertão. Orientadora: Profa. Ma. Sheyla Farias Silva. Delmiro Gouveia 2019.
(3) Catalogação na fonte Universidade Federal de Alagoas Biblioteca do Campus Sertão Sede Delmiro Gouveia Bibliotecária responsável: Renata Oliveira de Souza CRB-4/2209 M528p. Melo, Maria Isadora da Silva Pedro e Paulo: representantes dos conflitos sociopolíticos na transição do Império à República no romance Esaú e Jacó / Maria Isadora da Silva Melo. - 2019. 30 f. Orientação: Profa. Ma. Sheyla Farias Silva. Artigo monográfico (Licenciatura em História) – Universidade Federal de Alagoas. Curso de História. Delmiro Gouveia, 2019. 1. História – Brasil – Império, 1822-1889. 2. Literatura brasileira. 3. Realismo. 4. Esaú e Jacó - Romance. 5. Pedro e Paulo - Personagens. I. Silva, Sheyla Farias. II. Universidade Federal de Alagoas. III. Título. CDU: 981:82-31.
(4) FOLHA DE APROVAÇÃO.
(5) PEDRO E PAULO: representantes dos conflitos sociopolíticos na transição do Império à República no romance Esaú e Jacó. Maria Isadora da Silva Melo1 Profa. Ma. Sheyla Farias Silva2. Resumo Este artigo apresenta a importância da literatura consagrada de Machado de Assis para o estudo da História do Brasil imperial graças ao conhecimento consolidado há décadas sobre o seu trabalho genial, que segundo um de seus importantes críticos, John Gledson, a sua experiência de narrador não se encerra em si mesma, mas, nos seus resultados de objetivos realistas. A escolha do romance foi proposital, Machado nele apresenta de forma clara os personagens Pedro e Paulo como atores políticos, apaixonados e altamente instáveis em seu relacionamento de irmãos num cenário da realidade carioca dos anos 1870 cujos conflitos sociais e políticos até os anos 1890 sofrem um processo de compreensão e sistematização que vai além da produção técnica e estética da obra. O realismo é o resultado das representações presentes no romance, apresentadas neste artigo segundo a perspectiva teórica da Representação, por Roger Chartier.. Palavras-chave: Representação. Realismo. Narrativa. Ficção. História. Abstract This article presents the importance of the established literature of Machado de Assis for the study of the history of imperial Brazil thanks to the knowledge consolidated for decades about his brilliant work, which according to one of his important critics, John Gledson, his experience as a narrator does not end in itself, but in its results of realistic objectives. The choice of the novel was purposeful, Machado clearly presents the characters Pedro and Paulo as political actors, passionate and highly unstable in their relationship as brothers in a scenario of Rio de Janeiro's reality of the 1870s whose social and political conflicts until the 1890s suffer a process of understanding and systematization that goes beyond the technical and aesthetic production of the work. Realism is the result of the representations present in the novel, presented in this article according to the theoretical perspective of Representation, by Roger Chartier.. Keywords: Representation. Realism. Narrative. Fiction. History.. Esaú e Jacó brasileiros, políticos e apaixonados Mesmo tendo sido concebidos em amor, por razões múltiplas, brigaram dentro e pós o ventre de Natividade. Ainda em tempos de Império e brisa cor da realeza, de morro a morro, entre paços de palácios, apreciando avenidas quase que importadas, caminhando na rua do Ouvidor e também em largos do Rio de Janeiro frente às praias da Baía de Guanabara, subindo e descendo a barca de Petrópolis, em meio ao balançado de paquetes e cupês, caminhando entre ____________________________________ Graduanda em História Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL – Campus do Sertão). [email protected] 2 Professora mestra do curso de História Licenciatura Plena na Universidade Federal de Alagoas (UFAL – Campus do Sertão). [email protected] 1.
(6) pessoas de toda sorte de raça e graça em meio ao silêncio da liberdade e os gritos das alforrias. Sempre, entre a música e a valsa, entre o voltarete e o galanteio à filha de um presidente de província, entre o piano e a conversa, entre a medicina na Corte e o direito na progressiva província de São Paulo, entre Flora, Esaú e Jacó se apresentavam ao mundo, ao Rio de Janeiro, com uma história totalmente deles. Amas de leite acalentavam os pequeninos que viriam a viver tempos difíceis, mas, em que tempos os homens e mulheres viveram momentos de paraíso? Seriam futuros de conflitos e instabilidade, não menos de um romance agonizante. No ventre, não sabiam seus nomes muito menos quais seriam suas dores. Não conheceram os tempos de outrora. Não beijaram a mão do rei quando em vosso país desembarcou. Também não sabiam que no futuro os seus anseios políticos cresceriam em nome de uma nação que pouco a pouco, em sua identidade e lutas por uma unidade, fora moldada a partir dos livros, da música e da cultura que trouxe aquele rei. O rei que ao voltar ao Velho Mundo, do outro lado do trópico, deixando seu filho aqui para governar, conflitos sociopolíticos e econômicos trouxe. E, da descendência destes veio a sucessão do Império, maduro e de barbas grandes. Dores de parto trouxeram os gêmeos em 4 de abril de 1870. E, diferentes de Esaú e Jacó hebreus, estes eram brasileiros, e como aqueles que tinham sob seu jugo o sinal da grandeza de suas conquistas, Esaú e Jacó, cariocas, grandes homens também seriam. Fadados ao mundo real que sobrevieram, o desejo de Natividade e a paixão delirante de Flora sob eles, os tornavam alinhados ao futuro predito e profetizado por uma poderosa cabocla. Porque acerca do futuro, a política pode até discutir, mas, são às paixões almejadas que o tempo os concede as tão esperadas “cousas futuras”. Dizer com convicção, quase fé, que seriam grandes homens não foi tudo. Nem foi o “Teste David cum Sibylla” que Plácido tirou do seu oráculo e escreveu num papelzinho entregando a Santos a certeza de dois destinos. Ambos um. Também não foi a devoção da tia Perpétua quando os nomes dos apóstolos Pedro e Paulo ela apreciou. Foi a Monarquia e a República. Foi o conservadorismo de Pedro - independente do governo que caiu - e, a inquietação revolucionária de Paulo. Pois, Flora em vida os distanciou, e, em sua ausência eterna os uniu por um tempo. Assim, foi no seu túmulo que ambos fizeram uma promessa de união e, na memória de Flora, lá mesmo a enterraram. E nem seria o amor de mãe de Natividade que poderia os unir. Em meio as lágrimas, próximas à morte, aquela lhes pergunta se seriam amigos para todo o sempre. Se eles juraram? A vida política na Câmara dos deputados se encarregou de nutrir o afeto, mas também o desamor. 5.
(7) Apresentação A leitura de Esaú e Jacó (1904) – assim como qualquer outra literatura, desde que esteja atento ao seu formato e aos seus objetivos temporais frente a sua escrita até a sua apreciação e experiência de consumo3 - pode ser feita de duas maneiras por mim elencadas logo após ter compreendido as contribuições da fonte literária para o trabalho historiográfico: podes apreciála como uma leitura de prazer e curiosidades sobre a história de um triângulo amoroso no “Velho Rio” – como chama Sidney Chalhoub (1957) -, ou, podes aventurar-se por um universo sistematizado, cujos enunciados delineiam performances e ideias para perguntas e roteiros que irão surgir no decorrer da leitura e, exigir uma certa disposição para problematizar os eventos. Ao ler John Gledson (1945), me deparei com uma situação bastante entusiasta do autor em angariar a Machado de Assis (1839-1908) a contribuição de quase professor de história do Brasil cujo recorte temporário e eventos históricos se dão a partir das datas das publicações de suas obras (novelas, romances, contos, crônicas) publicados em folhetins, jornais, editoras da época, e, a sua visualização crítica post mortem. Gledson assim escreveu, “De fato, posso dizer que aprendi história do Brasil com Machado de Assis” (GLEDSON, 2003 p.293). Esta afirmação me levou a começar a escrever as primeiras linhas deste trabalho. Passei alguns minutos refletindo sobre o título da obra de Gledson, Machado de Assis: ficção e história (1986), e, auspicioso foi conhecer o quanto que os meus primeiros pensamentos sobre as obras de Machado já eram pautas de pesquisas científicas de várias áreas. Trabalhos sérios que contribuíram com as novas posturas científicas das pesquisas sócio humanísticas das últimas décadas do século passado, incluindo a historiografia que (re)surgia em meio ao fenômeno da interdisciplinaridade com interesses novos para a ciência histórica. Um novo olhar sobre a cultura, disponível a debater sobre a natureza da narrativa, e os meios de falar sobre novos sujeitos históricos, novos objetos, além dos métodos e os campos de estudo que foram convidados, mais uma vez na história da História, a se auto avaliarem quanto ao objetivo da sua ciência e a sua relevância de interpretação e percepção do cultural sob o império do social, do político e do econômico na historiografia, em especial, a francesa. Portanto, este trabalho teve por objetivo trazer à luz o desafio de trabalhar conceitos, ideias, curiosidades que se transformaram em problemáticas, todos bem delimitados, e que, ao longo da pesquisa foram sendo moldados e até ganharam novas roupagens. Desde a escolha do ____________________________________ 3. O estudo da escrita e todo o processo que ocorre a ela, tal como o seu objeto de narrativa, objetivo de publicação e discussão, além da sua classificação a partir das instituições que lhe são creditadas, tendo em vista o seu papel social, que para o historiador, por exemplo, é tão importante quanto a sua necessidade de conferir erudição, é avançar na sua capacidade de transportar ao seu trabalho – a escrita histórica - o conhecimento do tempo, através do tempo, praticando a leitura dos tempos. Indico o ensaio A história ou a leitura do tempo (s/d), de Roger Chartier.. 6.
(8) arsenal teórico, do método, das questões, da leitura e interpretação exaustivas do romance, dos capítulos escolhidos para apresentar uma análise sobre alguns dos aspectos-chave da monarquia brasileira, alguns personagens e suas performances, da ficção à realidade e vice-versa. E, dentre as várias questões que sobrevieram às primeiras leituras do romance consonante às leituras de trabalhos historiográficos sobre o período escolhido – Segundo Reinado - decidi compreender qual ou quais as relações havia(m) entre o romance, publicado em 1904, cujo enredo revela eventos que ocorreram entre as décadas de 1870 a 1890, e, cuja escrita e percepção literárias de Machado lhe imputaram uma nova classificação ao seu estilo. De romântico à realista. Não analiso neste trabalho as fases da literatura brasileira, mas, apresento essa fase, que, segundo os críticos, revela a mudança e maturidade do escritor frente à sua realidade - a prática literária, realista, segundo a ótica e leitura dos acontecimentos por Joaquim Maria Machado de Assis. Questões estas, importantes para os caminhos da análise deste trabalho, que configuram a perspectiva do método escolhido - a análise documental investigando e coletando dados dos documentos escolhidos – o romance como a fonte primária, e, a bibliografia como fonte secundária – com a seguinte proposta: como um jogo de quebracabeças submeter as informações dos documentos junto às nuances teóricas, que como apresenta Jackson Ronie Sá Silva et.al no artigo Pesquisa documental: pistas teóricas e metodológicas (2009): “os documentos não existem isoladamente, mas precisam ser situados em uma estrutura teórica para que o seu conteúdo seja entendido.” (p.10) Ademais, sobre o Rio de Janeiro no século XIX, não cabe aqui uma história da cidade, apresento mesmo uma história do Brasil oitocentista presente no Rio de Janeiro da narrativa de Esaú e Jacó. Por assim dizer, o Rio de Janeiro de Machado de Assis que não se sabe se emprestou aos personagens criados ou se estes lhe emprestaram um Rio de Janeiro dinâmico, dramático, romântico e até real. Ante a ficção, trataremos da realidade política e social brasileira no período estudado cujo recorte objetiva tratar de mais uma questão de minha análise sobre poder e conhecimento na formação política e social do Brasil Império. A ênfase na intelectualidade de uma elite4 em meio a diversidade de interesses e conflitos concorrentes de uma maioria analfabeta e escrava, _______________________________ 4. Reporto-me ao debate minucioso proposto pelo trabalho do cientista político e historiador brasileiro, José Murilo de Carvalho, em A Construção da Ordem: a elite política imperial (1980), que apresenta a dinâmica social imperial, não como simples resultado, mas como o motor gerador, ou melhor, mantenedor das bases do sistema que compunha o Estado imperial – ordem social, administração parlamentar, critérios para o serviço na participação política, formação do aparelho ideológico -, dentre outras questões que caracterizavam a Elite e a sua natureza burocrática em detrimento dos pilares que a sustentava – economia externa e interna dependente da produção escravocrata, o fenômeno da patronagem e clientela, os altos e baixos com a Abolição, o idealismo liberal político e também econômico, e etc.. 7.
(9) que à sua maneira, interpretava e almejava uma revolução5. Porque assim era esperada e creditada a redentora dos maiores conflitos daquele momento, cujos sonhos, “democracia”, “cidadania”, se espelhavam tão nítidos nas bases dum governo declarado liberal que proporia mais à frente num modelo de governo republicano, e, que representasse política e ideologicamente os interesses de cada camada da sociedade. Um desafio para essa história. Porque vários são os cenários e personagens, portanto, vários são os ângulos e os olhares sobre os eventos. Por exemplo, alguns negros livres e escravos interpretavam os ideais iluministas como suas cartas de alforria, oportunidade para reivindicar direitos, e liberdade para serem cidadãos. Mas, também houve quem dissesse que quando a República fora proclamada, a população brasileira, em especial a carioca, passou pelo momento despercebida. Melhor, como diria Aristides Lobo (1838-1896), um jurista, abolicionista e republicano da época, aquela “viu” o evento de forma bestializada. Dentre várias outras questões concernentes a estrutura social, e que neste trabalho surgem como uma oportunidade para indagar, por exemplo, como Machado de Assis se destacou numa sociedade burocrática e ambivalente na sua forma de governo6, e, que na segunda metade do século vivenciou os ensejos do preconceito racial graças às teorias raciais7 que bombardeavam o Brasil no início dos anos 1870, e não lhe impediu de ascender socialmente lhe creditando, inclusive, acesso aos altos postos e cargos públicos8. Ademais, as tramas que aparecem em Esaú e Jacó acerca da estrutura social e suas relações são muitíssimas enriquecedoras para uma reflexão do período, compondo neste trabalho mais uma questão da análise. A importância não está apenas nos personagens, nos cenários, mas no sentido das intervenções de Machado de Assis em cada um deles, ou seja, a criação de suas representações. _______________________________ 5. Para uma melhor compreensão desta questão neste trabalho indico a leitura de Ideia de Revolução no Brasil(17891801), de Carlos Guilherme Mota (1996), que propõe um estudo sobre os momentos de formação do entendimento de revolução que sujeitos políticos e politizados aqui no trópico passaram a absorver em suas lutas pelos seus ideais frente à Metrópole. O que significa dizer que o debate visionário da igualdade e a perspectiva democrática de participação cidadã aqui no Brasil, cuja expectativa para alguns grupos se esperou culminar numa república, teve sua gênese nos entraves que denunciavam monopólios externos e internos propostos pelos inúmeros grupos aqui presentes quando o alvo ainda era emancipar o Brasil de Portugal. Assim, inconfidentes do lema “Revolução da França” e proprietários rurais eram os principais rivais, ambos, decididos a derrubar o inimigo em comum. 6 Segundo Sérgio Adorno, em Os aprendizes do poder: o bacharelismo liberal na política brasileira (2019), a construção do Estado Nacional beirou as ambivalências da dominação tradicional com o patriarcalismo e o autoritarismo presentes nas relações consoantes o direito à propriedade; e, a admissão do ideário liberal – na versão lockiana – cujos matizes da liberdade e igualdade constantemente se mostravam impossíveis com o liberalismo paralelo ao modelo de governo representativo. Tudo isto coexistindo junto com a figura do Poder Moderador. 7 Para além de Spencer, são várias as outras ideias e teorias, dentre elas, o positivismo, o evolucionismo e o darwinismo. Indico a leitura de O Espetáculo das Raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil do século XIX (1993), de Lilia Moritz Schwarcz 8 Segundo Sidney Chalhoub, Machado trabalhou na partição da segunda seção da diretoria da Agricultura do Ministério da Agricultura entre os anos de 1870-1880 discutindo, principalmente, sobre políticas de terra e escravidão. Ver Prólogo In: Machado de Assis: Historiador (2003). 8.
(10) Sobre a crítica literária de Machado de Assis, as características da sua interpretação da realidade apresentada partem da sua experiência enquanto homem da sua época. No período estudado três eram as perspectivas de interpretação propostas pelos movimentos literários que chegavam “de fora” – o realismo, o naturalismo e o simbolismo -, cada um com as suas diretrizes e lentes próprias para enxergar a vida na sua complexa existência, e mais que isto, fomentar no Brasil uma parcela contínua da sua formação pelas ideias, estas, que ao chegar no país passavam pela experiência da adaptação à realidade brasileira. No mais, não é por apenas atualizar intelectuais com o que tinha de mais novo circulando lá fora, haja vista o processo de modernização das pessoas e das instituições. Este o espírito da época que confere a Machado uma maneira própria e elementar para conhecer e delinear os entraves do período. Destarte, Machado de Assis embora fosse negro teve o privilégio de ter sido instruído nas letras e na cultura clássica, e, mesmo sendo um autodidata precisa ser encaixado numa história para que seus caminhos e suas escolhas produzam sentido à sua biografia. Esse Espírito da Época não aparece, neste trabalho, como uma tentativa de apresentar um mero e empático retrato da época, mas, de expor o conhecimento deste princípio estético como objeto de minha própria reflexão para uma questão tão transparente em contradições na história brasileira. Acerca do conhecimento já consolidado, apresento o Realismo de Machado como um pilar de seu trabalho, tal como perguntava e já respondia Nicolau Sevcenko (1952-2014) ao escrever uma nota de prefácio à obra, já mencionada, de Gledson:. “Como expor a artificialidade da aplicação do modelo ficcional dominante às condições singulares e historicamente diversas do meio brasileiro? [...] A alternativa encontrada por Machado é desvendada pelo crítico através do conceito de 'Realismo enganoso’, um procedimento pelo qual o artista, por um lado, representa a realidade através das convenções doutrinárias da estética realista dominante. Enquanto, pelo outro, solapa, suspende e compromete todas elas ao mesmo tempo.” (GLEDSON, 2003. p.15). Este “Realismo Enganoso” que Gledson elaborou segue numa linha tênue de minha própria observação da história literária proposta pelas diretrizes do Realismo9, me deixam a imaginar por que Machado é introduzido pelos críticos como praticante deste movimento, ainda _______________________________________________ 9. Segundo Afrânio Coutinho e Eduardo de Faria Coutinho, em A Literatura no Brasil (2004), os três movimentos literários anteriormente apresentados conviveram no mesmo tempo e com tamanhas divergências que seus caracteres as denunciavam, não pela delimitação da natureza intrínseca de cada um, mas, pela necessidade de encontrar na ausência de perspectiva de um movimento, a sua existência. Por exemplo, segundo os autores, “Machado foi além dos excessos do romantismo e da pureza do naturalismo”. Significa que ele sabia bem qual a sua postura. Caracteres: “O realismo procura apresentar a verdade; procura essa verdade por meio do retrato fiel dos seus personagens; encara a vida objetivamente; fornece uma interpretação da vida, cuja narração prevalece à descrição; retrata a vida do momento; não comete anacronismos na sua linguagem.”. 9.
(11) que como aponta Chalhoub, “o conceito de arte literária que Machado veio praticar, [jamais se dispôs] a expor detalhadamente a sua forma de conceber a literatura” (CHALHOUB, 2003. p.91). E, ainda citando Afrânio Coutinho, quando este realça que Machado de Assis fez uma advertência numa de suas críticas a algumas das obras de Eça de Queirós quando apontava à prática literária deste em detrimento da escola ou doutrina que seguia - a ver naturalismo – numa referência de sua postura, e, dizia “[...] voltemos os olhos para a realidade, mas excluamos o Realismo, assim não sacrificaremos a verdade. ” (CHALHOUB, 2003. p.92) Por assim dizer, este trabalho tem como fundamento um diálogo estreito entre dois mundos historicizados que compõem a prática social de Machado – o de alguém que fora testemunha ocular dos eventos (alguém que vivenciou o período de 1870-1890) e o do Machado, por assim dizer historiador, aquele que produziu uma crítica a partir da sua arte – sua fonte – e da sua experiência com a prática literária realista que neste trabalho é de suma importância para entender porque é capciosa. Introduzir a definição de Prática Social a partir do estudo de Roger Chartier é fundamental para a compreensão do pilar deste trabalho. Porque através da experiência de Machado de Assis podemos alcançar a compreensão de como determinadas representações – estejam presentes na biografia de Machado ou nas suas próprias criações – apresentam os interesses do grupo que compartilha tais experiências e da posição de cada participante a partir da perspectiva de utilização e dos interesses propostos pela sua prática, neste caso, a prática literária no último quartel do século XIX. Destarte, para explicar o que foi o Realismo no Brasil apresento como a percepção dos discursos e a história do realismo de Machado de Assis são pertinentes para entender como e. enganoso. Realismo. por que Gledson lhe atribui o adjetivo enganoso à sua prática literária. Segundo Chartier:. As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses do grupo que a forjam. Daí, para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem os utiliza. As percepções do social não são de forma alguma discursos neutros: produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legitimar um projecto formador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas. (CHARTIER, 2002. p.17). Prática Social / prática literária. 10.
(12) Assim, há também a importância de não tratar a trajetória do bruxo do Cosme Velho por mero desejo de destaque no seu talento, embora “Talento” e “Virtude”10 sejam apresentados como questões que abarcam tanto o mundo das representações como da prática social na realidade social do século XIX, e que podem apontar indícios do porquê que Machado de Assis era chamado por seus amigos brancos de “Negro de Alma Branca”, por exemplo. Segundo Sevcenko, Gledson em sua outra importante obra, Impostura e Realismo (1991), cita Hélcio Martins quando este apresenta uma relevante interpretação para esta postura de Machado afirmando que este estava “a serviço da expressão de um espírito igualmente rebuscado e imoderado na ânsia de captar a significação multifacial das coisas” (GLEDSON, 2003. p.16) No limiar, enxergo nesta contribuição, a importância dos caracteres machadianos na oportunidade ímpar de apresentar meu olhar sobre o Brasil numa fase em que Machado, segundo seus críticos, estava maduro e se fazia transparecer em meio a sua realidade. Assim como nos demais de seus escritos e legado, vejo a partir da narrativa de Esaú e Jacó o quanto que Machado de Assis escreveu e atuou em seu meio: criou personagens, deu a estes um cotidiano com práticas, realizações, dilemas e sentimentos próprios da sua época, e por isto, ele também criticou, segundo a sua realidade - talvez utópica, talvez pessimista, um tanto monarquista, um tanto romântica ou capciosa - o que vivenciou. Ele transportou para a escrita seu conhecimento mais pessoal e mais tocante de toda a sua vida, e, mesmo sendo realista, não solapou a verdade, transformando-as em meias verdades. E, “ao fazer isso, o bruxo realizou o objetivo, todo seu, de dizer as verdades que bem quis sobre a sociedade brasileira do século XIX.” (CHALHOUB, 2003. p.93) “Este mundo é dos namorados” Romance não é apenas um gênero para boas leituras. Machado, no Realismo que produzia, conferia-lhe que “um bom autor, que inventasse a sua história, ou prezasse a lógica aparente dos acontecimentos [se deixaria fluir na sua imaginação]; mas eu, amigo, eu sei como as coisas se passaram, e refiro-as tais quais.” (Esaú e Jacó, capítulo V). Começo com esta afirmação de que este mundo é dos namorados recordando o capítulo XCV, intitulado Terceiro, ________________________________ 10. No trabalho de Hebe Maria Mattos, intitulado Escravidão e cidadania no Brasil Monárquico (1999), virtudes e talentos são prerrogativas elementares no processo de legitimação da atuação de ingênuos (homens de cor que não nasceram escravos) na cidadania política que acentuava debates e discursos provenientes da construção da Identidade racial no Brasil.. 11.
(13) onde Machado se pôs a narrar o universo amoroso da personagem Flora que por muito amar também foi amada, e, disputada. Não me refiro apenas aos gêmeos. Aquele capítulo não deixa esquecer os momentos de tensão na leitura quando a moça fora cortejada por Gouveia – um oficial de secretaria que desejava seguir o padrão de vida amorosa que lhe permitia o ofício, pois “geralmente os empregados de secretaria casam cedo” (cap.XCV) -, e, em alguns capítulos depois, também por Nóbrega – “o capitalista do bairro que vivendo num palacete, possuía uma vasta câmara com dois leitos, um de solteiro, outro de casados. O segundo leito esperava a esposa” (cap.CIII) que, segundo Nóbrega, havia de ser ela. Interessante é perceber como o autor forja as relações amorosas entre esses personagens, informando o perfil dos seus interesses pessoais e coletivos, públicos e privados, e, ainda introduz fios e rastros de algumas características principais dos enredos da sociedade vigente que contemplam a vida destes personagens. E, se é para falar de amores?! Este gênero nesta obra não é o mesmo que nos demais da fase romântica de Machado, entretendo os leitores com apenas intrigas, ciúmes, traições, dentre outras coisas que há entre o drama e a realidade dos românticos. Destarte, recordamos também as cenas de amores - não menos de conversações políticas - entre os respectivos casais, Santos e Natividade (pai e mãe dos gêmeos), e, Batista e Cláudia (pai e mãe da mocinha da história), ambos com promissores status sociais. Sobre Santos, aquele banqueiro, que nasceu em Maricá, era pobre e veio ao Rio de Janeiro fazer fortuna com a febre das ações (1855), como denomina Machado, não se sabe ao certo como, a única coisa que o autor deixa escapar é que aquele “revelou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa” (cap IV). E, pelas descrições de Machado sobre Santos ser um capitalista, por algumas leituras da bibliografia historiográfica, e o conhecimento de que Machado conhecia bem o que acontecia na Secretaria da Agricultura11, pelo o que nos anos finais da década de 1870 fora nomeado secretário desde ministério (nomeação pelo ministro liberal Sinimbu), nos dá a entender que estamos a falar sobre alguns resultados da implementação da tão discutida Lei de Terras (Lei nº601, de 18 de setembro de 1850)12 cujo ________________________________ 11 “. Este Ministério conferia seções opinativas sobre a invasão de terras devolutas, demarcação, e medição de terras, posses, sesmarias, terras de aldeamento, corte de madeiras e outras questões fundiárias” (CHALHOUB, 2003, p.11). 12 Em Teatro das Sombras, José Murilo de Carvalho apresenta como a dinâmica imperial em torno dos conflitos referentes ao processo gradual da Abolição afetou os principais agentes da economia exportadora: os proprietários rurais, que, além de perceberem que sua riqueza material estava em cheque devido as medidas implementadas e debatidas pelos governos oscilantes (ora os conservadores subiam, ora os liberais tomavam o partido) nas pautas sobre a regulamentação das propriedades. A solução aparente se encontrava em algumas situações conceder títulos de barão a estes sujeitos produtores, uma forma de apresentar a Coroa – na figura máxima do imperador interessada e disposta a intervir positivamente nos interesses comprometidos dos proprietários rurais.. 12.
(14) incentivo principal, a princípio, era muito mais que promover uma abertura à iniciativa privada e à colonização estrangeira sobre as terras devolutas do Império. Esse é um assunto introdutório acerca da Política Imperial, cuja Elite política intervinha nas relações entre os proprietários rurais e a Coroa. São diversos os interesses em jogo em meio as crises com a necessidade do fim do tráfico negreiro e uma solução para a substituição da respectiva força de trabalho, a recepção amistosa e benéfica aos imigrantes e as iniciativas do trabalho livre e assalariado, ainda em expectativa. Em conformidade a estas questões, tem-se também o registro de que Santos recebe o título de barão. E, o que importa se isto é obra de compensação em meio aos entraves postos à elite proprietária de terras? Fora um presente profícuo do imperador, que serviu-lhe como uma joia preciosa de presente de aniversário para a sua maravilhosa esposa. E a alegria não era só desta, embora o grandioso presente – status de baronesa – viesse acompanhado, melhor complementado, por um lindo broche de brilhantes, que, somente ela usaria. E os rapazes [Pedro e Paulo] saíram a espalhar a notícia pela casa. Os criados ficaram felizes com a mudança dos amos. Os próprios escravos pareciam receber uma parcela da liberdade e condecoravam-se com ela: ‘Nhã baronesa’!,exclamavam saltando. E João puxava Maria, batendo castanholas com os dedos: ‘Gente, quem é essa crioula? Sou escrava de Nhã baronesa’. (Cap. XX. p. 62). Só para constar, apresentar Santos neste trabalho, assim como os demais personagens acima citados, é encontrar possibilidades para falarmos de questões referentes a formação dessa sociedade imperial brasileira, em especial neste trabalho a carioca - aquela Elite que fora falada ainda na apresentação deste trabalho -, das suas agendas políticas e de seus principais percalços formalizados no Parlamento sobre as bases do processo civilizador de um país que enfrentava oscilações de interesses, ora de perspectivas monárquicas, ora revolucionárias, quando muito heterogêneas nas formas de partido e homogeneizadoras na ideologia quanto ao perfil burocrático que compartilhavam numa luta necessária para solucionar problemas - ora de caráter externo, ora de caráter interno -, e, instituir um Estado Nacional forte. Ainda sobre aqueles personagens. O fato de Natividade agora tornar-se uma baronesa, isto não lhe implicaria apenas se mostrar à importante sociedade nos mais grandiosos bailes imperiais – recordo-me da leitura de Um Apólogo (1885). Neste conto, minha atenção fora roubada pela prática dos bailes imperiais sim, quando enxerguei que Machado desejava ir além de uma narrativa que entretece o leitor apaixonado pelos eventos pomposos e civilizadores da Corte. Um conto simples, mas, que foi capaz de apresentar indícios de fatos recorrentes de uma realidade notoriamente cultural – ir aos bailes para dançar, socializar, se apaixonar, e, também 13.
(15) debater política -, mas, também elementar quando o assunto é provocativo sobre as hierarquias do poder na sociedade. Estas questões são representadas na estória de uma linha e uma agulha que disputam a melhor posição do seu trabalho em nome da oportunidade de alcançar prestígio social, nem que seja “pegando carona” no vestido feito para a sua senhora. (MELO, 2018) E, parto desta questão para testemunhar também como em Esaú e Jacó, Machado apresenta mulheres, esposas, que não abrem mão de acompanhar seus respectivos maridos nas suas vidas públicas mesmo não lhes tendo sido alcançadas o direito à cidadania. E, na mesma proporção em que cuidam da criação dos filhos, coordenam os afazeres domésticos e cumprem o seu papel social (processo histórico), que, por isto em sua maioria são estigmatizadas em nossa contemporaneidade como uma mera propriedade de seu marido/senhor, não se nega a premissa de que estas mulheres foram motivos de paternalismo, mas, não menos de fonte de felicidade e juramento por parte dos seus senhores, não menos capazes de intervirem nos assuntos políticos influenciando os seus maridos em assuntos enrijecidos com o título de patriarcado. Ou seja, o fato de que à mulher tenha sido negada a participação na carreira pública, política e por isto cidadã, não lhe era nula a sua intervenção dentro de sua casa. Ademais, quem mais sonhara destinos grandiosos para Pedro e Paulo senão Natividade? E, quando estes cresceram, e, tornaram-se barbados, quem mais tentara conduzir uma relação amistosa e harmoniosa entre ambos em todas as questões, em especial, na vida política e amorosa? E, quando Natividade pediu para que Aires – Conselheiro do imperador, homem virtuoso por natureza, diplomata por carreira13 – lhes instruísse e “corrigisse por boas maneiras, fazendo-os unidos” (cap. XXXVIII). Porque ela também entendia que sem uma mediação inteligente, entendedora e participante da realidade dos conflitos, seus filhos não chegariam a maioridade proposta, não amadureceriam e conquistariam o destino predito – “tornar-se-ão grandes homens!” Um fato que, como veremos adiante, era uma constante nesta sociedade cujos títulos e o acesso à vida pública (senão sempre associada de natureza política) e de ascensão de status quo exigia distinções, o que se assemelha bastante com o que Emília Viotti da Costa (1928-2017) em seu trabalho clássico sobre momentos decisivos na transição do império à república, apresenta como o “Fenômeno da Patronagem e Clientela” (COSTA, 2010). _______________________________ 13. Os sujeitos políticos e importantes peças no quebra-cabeças do mecanismo do governo imperial - os conselheiros. Estes não eram apenas importantes homens cujo relacionamento com a Coroa seguia o fluxo do que era previsto – serem a “cabeça do governo”, segundo apresenta José Murilo de Carvalho. Os Conselheiros imperiais para receberem tal título e exercerem o papel de intervir nas causas políticas em instância unânime, eram solicitados a viverem uma vida cuja carreira apontava para a representação política imperial. E, mesmo sendo aqueles cuja nomeação era reconhecida pelo conhecimento máximo sobre as questões, e sendo capazes, inclusive, de criticar o imperador e tornar-se de confiança para este, sua natureza autônoma em suas opiniões permitia-lhe não se limitar às perspectivas dos partidos vigentes e seus respectivos interesses.. 14.
(16) A exemplo deste poder de intervenção feminina nos trâmites políticos cujo fio condutor era a vida de casados, a mãe de Flora – dona Cláudia – fora peça chave também para esta complexa e intrigante realidade que não pode ficar sem ser mencionada neste trabalho. Machado a apresenta como aquela entendida dos trâmites políticos e dos dilemas que interferiam nos interesses da elite política imperial e também na felicidade do esposo. No capítulo XLVII, intitulado São Mateus, IV, 1-10, Batista aparece em cena abatido quando em mais um momento da história dos partidos políticos imperais, o gabinete conservador é dissolvido em Assembleia e o poder aos liberais é concedido. Cláudia não perde de vista acometer ao marido conversação política, confrontando-o com o que havia de acontecer caso ele não agisse em favor de seus interesses em meio aos conflitos de seu grupo político, um perfeito caso de relação política que Machado encontrou oportunidade para representar os aspectos capciosos da política de “sobe e desce” dos burocratas, seus respectivos ministérios, e, do que Ilmar Rohloff Mattos apresenta como a força social determinante deste processo consagrado pela historiografia de o Tempo Saquarema14. Neste capítulo, d. Cláudia interroga o marido sobre o que ele espera dos conservadores justamente quando mais tinha esperança de que conseguiria uma boa presidência de província para administrar como resultado de seu bom trabalho. Batista lhe responde com veemência: “espero que subam”. Mas, quando Cláudia lhe pergunta por quanto tempo esperaria isto acontecer e se acontecesse, ele tem resposta certa: “- Posso fundar um jornal”. Batista personifica aquele político que sabia que para fazer seu papel bastava-lhe saber agir como um parlamentar. E, a imprensa também tinha suas virtudes de burocracia, pois não se limitava a ser apenas uma instituição de via de comunicação e letramento, o jornalista não era menos político que aquele que adentrava o Clube da Elite pelas portas da Magistratura. Na verdade, agir como Parlamentar está na sua formação e no seu treinamento. (CARVALHO, 2011, p.55) Ainda sobre o abatimento de Batista. Na medida que a conversação se desenrola, Cláudia pressupõe ao marido que este enfrente a realidade como tem que ser. A solução era obedecer a hierarquia da organização política que surgia como modelo de conservação dos conflitos cuja _______________________________ Período que demarca a característica de “Política entre Pares” como denomina Lilia Schwarcz em As barbas do imperador (1998), cuja resiliência com que liberais em suas próprias convicções tornaram-se solidários aos interesses dos conservadores porventura das circunstâncias econômicas em detrimento do liberalismo empregado em constituição, a partir de então chamados de regressistas e liberais moderados. Que, com o renascimento dos liberais e suas pautas em 1860 e a culminância dos republicanos em 1870, novas roupagens foram sendo apresentadas até 1889. Sérgio Adorno apresenta que o fenômeno Luzias e Saquaremas foi elemento chave no dilema da Câmara frente aos interesses do ministério predominante, devido a burocracia patrimonial do Estado Nacional brasileiro por definição dos interesses dos conservadores. 14. 15.
(17) natureza vinha do formato do Estado Nacional15. A atitude de d. Cláudia era, como apresenta Machado, muito tentadora – sim, por isso a referência ao texto bíblico presente no Evangelho de Jesus Cristo, segundo Matheus, quando este narra o momento em que Jesus é conduzido ao deserto para ser tentado por Satanás. - Batista, você nunca foi conservador! O marido empalideceu e recuou, como se ouvira a própria ingratidão de um partido. Nunca fora conservador? Mas que era ele então, que podia ser neste mundo? Que é que lhe dava a estima dos seus chefes? Não lhe faltava mais nada... D. Cláudia não atendeu a explicações, repetiu-lhe as palavras, e acrescentou: - Você estava com eles, como a gente está num baile, onde não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha. Batista sorriu leve e rápido; amava as imagens graciosas e aquela pareceu-lhe graciosíssima, tanto que concordou logo; mas a sua estrela inspirou-lhe uma refutação pronta. – Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com pernas. – Dance com que for, a verdade é que todas as suas ideias iam para os liberais; lembre-se que os dissidentes na província acusavam a você de apoiar os liberais... – Era falso; o governo é que me recomendava moderação. Posso mostrar cartas. – Qual moderação! Você é liberal. – Eu liberal? – Um liberalão, nunca foi outra coisa. (Cap. XLVII p.109-110). A característica da conversação denota o quanto os aspectos da hierarquia Saquarema – Construção do Estado Imperial + instituição da classe senhorial = os “produtores” ou os “controladores” do tempo, os dirigentes (MATTOS, 2011) - operavam de dentro para fora do Clube da Elite como vice-versa. O entendimento de d. Cláudia perante as questões e a crítica de Batista na comparação da dança são exemplos disso. Embora as agendas políticas pelos partidos (liberais e conservadores, por enquanto) fossem diferentes nos meandros da descentralização na estrutura do poder: Monarquia Constitucional - Regime Representativo; Economia mercantil e os traços do patriarcado; participação política entre os meandros da liberdade; - o método de representação política tendia a ser o mesmo com medidas moderadas ou regressistas em nome da consolidação do império. A sós consigo, Batista pensou muita vez na situação pessoal e política. Apalpava-se moralmente. Cláudia podia ter razão. Que é que havia nele propriamente conservador, a não ser esse instinto de toda criatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador em política, porque o pai o era, o tio, os amigos da casa, o vigário da paróquia, e ele começou na escola a execrar os liberais, E depois não era propriamente conservador, mas, saquarema, como os liberais eram luzias. (Cap. XLVII p.111). Para tanto, a participação política de d. Cláudia que se restringia à natureza privada (sua _______________________________ Consolidar o império através da sua forma política e administrativa – estamento burocrático tradicional - não era apenas conservar os partidos a partir da “reconciliação” entre os mesmos; dos medos e receios ora compartilhados, ora execrados pelos representantes de ambas as partes; E, neutralizar cada ideia como se fosse aspecto dos projetos institucionais para reger apenas os poderes controlados pelo parlamento era característica de desafios que quando apresentadas sobre os critérios do liberalismo, questões como liberdade e igualdade eram postos de forma, no mínimo, enganosa uma vez que cidadania era limitada ao universo intelectual. 15. 16.
(18) contribuição nos meandros do casamento) e as afinidades de partido de Batista estando à luz do provérbio político do período – “pelo Visconde de Vasconcelos ou outro senador em discurso”– “Nada mais parecido com um conservador que um liberal, e vice-versa”, apresentam brevemente como as pautas políticas denunciavam o papel da sociedade, tanto a ativa (elite) como a camada popular, que, por exemplo, segundo os critérios de participação eleitoral em detrimento da classificação das posses e da idade eram sempre submetidas ao crivo da intelectualidade e sua posição burocrática. Ao lado dos que pretendiam dirigir, e até mesmo por vezes dos demais que suportavam o peso de uma dominação, não se envergonhavam de recorrer à força que insistiam em monopolizar como recurso para restaurar uma ordem que entendiam como justa, mas, que insistia em lhes escapar. (MATTOS, 2011. p.13). Aspectos como estes são representativos não apenas do processo construído historicamente das relações e de seus conflitos entre as interfaces do universo político e burocrático no Brasil Império, mas, do amor que era também fonte dessa hierarquia social/senhorial/paternalista. Destarte, cada um dos personagens e suas atuações até agora mencionados é pressuposto de intervenção de uma análise sobre a participação política e os percalços com a efetivação do ideal de cidadão entre os limites do liberalismo e as performances democráticas (igualitárias) de condição de ir e vir na sociedade imperial. Finalizo, assim, este tópico com a seguinte afirmação talvez de Aires, por ora de Machado. Este mundo é dos namorados. Tudo se pode dispensar nele; dia virá em que se dispensem até os governos, a anarquia se organizará de si mesma, como nos primeiros dias do paraíso. [...] Os namorados é que serão perpétuos. (p.209). A Epígrafe da hierarquia política/social/senhorial do Brasil Império CAPÍTULO XIII / A EPÍGRAFE Ora, aí está justamente a epígrafe do livro, se eu lhe quisesse pôr alguma, e não me ocorresse outra. Não é somente um meio de completar as pessoas da narração com as ideias que deixarem, mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou totalmente escuro. Por outro lado, há proveito em irem as pessoas da minha história colaborando nela, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade espécie de troca de serviços, entre o enxadrista e os seus trebelhos. Se aceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o cavalo, sem que o cavalo possa fazer de torre, nem a torre de peão. Há ainda a diferença da cor, branca e preta, mas esta não tira o poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a partida, e assim vai o mundo. Talvez conviesse pôr aqui, de quando em quando, como nas publicações do jogo, um diagrama das posições belas ou difíceis. Não havendo tabuleiro, é um grande auxílio este processo para acompanhar os lances, mas também pode ser que tenhas visão bastante para reproduzir na memória as situações diversas. Creio que sim. Fora com diagramas! Tudo irá como se realmente visses jogar a partida entre pessoa e pessoa, ou mais claramente, entre Deus e o Diabo.. 17.
(19) Nesta epígrafe16 (intitulação do capítulo XIII), Machado com a sua linguagem complexa, truncada, traz consigo uma certa abstração que confere ao leitor, no mínimo, um conhecimento simples de xadrez. Este capítulo não tem a mera intenção de trazer uma pausa entre os cenários do capítulo anterior e posterior a ele, mas, o de “completar as pessoas da narrativa com suas próprias ideias, e, iluminar alguns caminhos difíceis de se entender, escuros na história”. Então, quanto ao capítulo anterior (Esse Aires – capítulo XII), em uma noite na casa de Santos e Natividade, a figura ilustre de José da Costa Marcondes Aires – o Conselheiro – é exaltada. Aires - personagem que por ora é autor principal da história (haja vista a Advertência do sétimo volume intitulado “Último” de seu Memorial que abre este romance), por ora é mais um personagem que Machado lhe empresta à trama - estava a apreciar a presença de Natividade (esta que um dia ele também amou) e de mais alguém “maduro” no recinto – talvez o Pe. Guedes - quando lhe é surpreendido ao ser convidado a dar-lhes, incluindo o restante das pessoas que se encontravam na casa, considerações acerca da Cabocla do Castelo, aquela que predisse à Natividade a glória futura dos seus filhos. Depois de Machado refinar a apresentação e a conduta esperada do Conselheiro, este apenas comenta em seu diário que sobre a Cabocla desconfia que Natividade ou Perpétua planejam consultá-la, e, segue a escrever sobre as pessoas presentes – poucas interessantes, as demais insípidas, concluindo com uma citação de a Divina Comédia (Dante) que se tornou adágio de sua época: “Dico, che quando l’anima mal nata...”17 No capítulo posterior (A lição do discípulo – capítulo XIV), esse mesmo Aires é convidado por Santos a ouvir as palavras de sabedoria de Plácido - o espírita conhecedor dos conhecimentos científicos. Santos foi até este para saber mais sobre possibilidades que explicassem como crianças ainda dentro do ventre pudessem vir a brigar, quais seriam os motivos espirituais para isto. Aires, mais uma vez, é solicitado a explicar também este caso. Como foi mencionado em nota, Aires representa a força política que auxilia no processo de consolidação do Estado Nacional servindo com a virtude que lhe capacita sempre a chegar no momento oportuno, em “momento propósito”, sempre sendo solicitado a dar conselhos, e só para recordar, os Conselheiros de Estado eram a cabeça do governo, senão os “filósofos da política imperial” (CARVALHO, 2011). Portanto, a referência de Aires neste trabalho é sempre convidativa a explorar os mecanismos de seu papel social institucionalizado. Ademais, acerca da leitura de A Epígrafe, é enfático que Machado deseja tratar de algo ________________________________ 16. Segundo o dicionário Aurélio Júnior (2005), Epígrafe: subst. Fem. 1. Inscrição 2.Título ou frase que serve de tema a um assunto. 17 Digo que quando a alma (é) mal nascida.... 18.
(20) relacionado a uma hierarquia passível de ser explicada não apenas pelos sujeitos, a relação de suas posições, mas, também pelos seus movimentos. Uma vez que compara o jogo de xadrez, com suas respectivas peças e suas regras, com o jogo de narrativa da história quando confere aos personagens o poder de auxiliá-lo no enredo. Segundo Machado, esses personagens são para ele uma espécie de ensaístas de suas próprias ideias sobre a realidade, ainda que esta seja mais fictícia que real, e assim, uma espécie de troca de serviços lhe seria solidária, onde ele lhes daria um cenário real, e estes lhes explicariam o seu real, ainda que este seja confuso por natureza. Sobre a comparação proposta por Machado de Assis, e, meu simples conhecimento sobre os mecanismos do jogo de xadrez de que partem de estratégias de conflitos e de guerra, e prefiguram a estrutura hierárquica de dadas sociedades históricas, sugiro algumas pontuações no texto evocando o trecho. No xadrez, a promoção é uma regra do jogo reservada ao peão quando este alcança uma dada fileira no tabuleiro e o jogador pode escolher para si uma peça de sua mesma cor (dama, torre, bispo ou cavalo). Segundo as referências que Machado nos deu acerca do cavalo não poder fazer de torre e, nem a torre de peão compreendo que ele está aí fazendo alusão explícita desta regra do jogo, logo que, ele não se refere ao peão não poder fazer de dama, cavalo, bispo ou torre. Ainda sobre a comparação, agora Machado faz referência às cores das peças presentes no jogo (brancas e pretas), que segundo ele, essa diferença de cor não produz restrições quanto às marchas de cada uma delas. Enfatiza também uma realidade intrínseca do jogo quando diz: “mas [essa diferença de cor] não tira o poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a partida, e assim vai o mundo”. O fato é que mesmo o xadrez sendo um jogo histórico, e, em algum tempo atrás as partidas pudessem ser iniciadas pelas peças pretas, chegando até poder haver sorteio para esta decisão, a questão é que já no século XIX o consenso é que as brancas iniciassem (por questões que não me arriscarei aqui a explicar e que não é o foco neste trabalho), e, embora Machado não se detenha a este detalhe, seu foco está na afirmação de que em algumas partidas as brancas ganhem, e em outras, as pretas ganhem. “E assim vai o mundo”. Para a finalização destas pontuações, evoco as últimas linhas desta Epígrafe quando Machado se refere ao ponto crucial – a ausência de um tabuleiro palpável para a sua comparação. Segundo ele, o leitor precisaria ter a capacidade de imaginar as partidas, sem a presença de diagramas com detalhes das posições de cada peça, com a simples memória de cada movimento, que, presumo eu, esteja se referindo ao desenrolar do romance. Sem mais delongas, 19.
(21) compreendo que esta epígrafe em sua mensagem total se refere a uma representação da hierarquia social do Brasil império e tem como ponto chave as suas relações políticas e sociais entre brancos e pretos, entre livres e libertos. Partindo deste pressuposto, me utilizo da crítica do conselheiro Aires quando em julgamento das pessoas presentes na noite na casa de Santos e Natividade, presume que simpatia e insipidez muitas das vezes estão atreladas a essência do indivíduo, ora por necessidade, ora porque assim a alma nasce. “Dico, che quando l’anima mal nata...” Uma bela citação em referência ao ano de 1871, quando natividade vai à Cabocla do Castelo com mechas dos cabelos dos gêmeos, já bebês, para saber de seus futuros. Questão que, segundo Maria Clementina Pereira Cunha em seu trabalho ‘Cousas Futuras’: a previsão da cabocla do morro do castelo sobre o destino de gêmeos que começaram a brigar no ventre (2009)18, Machado denuncia o “quão agitado era o produto do ventre materno no período.” Logo, trago esta epígrafe como princípio de análise para entender como - e se era possível - numa sociedade hierárquica e senhorial, sujeitos não participantes da elite política e imperial – aqui representados pelos peões - pudessem se tornar cidadãos e quem sabe até políticos. Assunto complexo haja vista os dilemas com o liberalismo institucional implantando em constituição cujos princípios de igualdade e liberdade eram questões da sua natureza, mas, que estavam impressas nas leituras dos interesses e conflitos da Elite dirigente da sociedade. Era com base nos atributos de liberdade e propriedade que, de maneira implícita, eram definidos os princípios estranhos à sociedade civil: os escravos. [...] Expropriados da ‘mais preciosa’ das propriedades [...] excluídos do primeiro dos ‘direitos’, os escravos não eram considerados pessoas, não tinham reconhecida a capacidade de praticar atos de vontade. Eram entendidos como coisas; não eram pois cidadãos. (MATTOS, 2011. p. 129) A liberdade é o próprio homem (Saquarema Marquês de São Vicente). Cidadãos brasileiros: livres, virtuosos e talentosos. A Carta Magna Constitucional de 1824, elaborada por um Conselho de Estado cuja Assembleia Constituinte fora convocada em 1822, instalada e dissolvida em 1823, outorgada pelo Imperador D. Pedro I, oficializava este com título de defensor do país em nome da desejada ________________________________ 18. Apresentação da obra O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil (2009) de Wlamyra R. de Albuquerque. Neste trabalho, Wlamyra discute sobre o processo da racialização das relações sociais aqui no Brasil, em especial na Bahia, fator determinante para o estudo das diferentes formas de apropriação do conceito de raça desde o cientificismo às práticas de representação na construção de uma identidade sob o império da cor da pele.. 20.
(22) independência proclamada; declarava a nova organização político-institucional de Estado; articulava questões para as consequências com o fim da dependência da Metrópole Portuguesa; e, apresentava o que seria a cidadania do mais novo país. Assim, não se tratava mais de uma Colônia, muito menos de um Estado representado na União com o Reino de Portugal e Algarves, o desafio à frente era a construção de uma cultura nacional e patriótica e o enfrentamento dos percalços de caráter econômico, político e social que se mostraram presentes e relutantes com as mudanças. Sobre a independência, já era mister que no decorrer das múltiplas relações entre a Metrópole e a “América Portuguesa”, conflitos de ordem econômica e sobre a estratificação do progresso e desenvolvimento no trópico feriram o reconhecimento de muitos colonos, por exemplo, – principalmente aqueles que desenvolveram uma certa identidade com a realidade no território ao ponto de apoiarem o Brasil independente –, ao perceberem suas atividades e noções de governabilidade em constante limitação por parte dos interesses de Portugal, e, que ao longo dos três séculos de colonização junto à união de tratados e conflitos entre os demais governos europeus dispostos a conferir legitimidade nas intervenções de conquista das riquezas do território, um espírito igualmente disposto a estabelecer premissas de defesa aqui no trópico crescera e se desenvolvera. Era o “espírito de rebelião”19 que Oliveira Lima (1867-1928) apresentava em seu tratado diplomático intitulado Formação Histórica da Nacionalidade Brasileira (1914). Fato é que sempre houvera dissidentes quanto às perspectivas dessa necessidade de nacionalismo em nome da unificação do território. Para o caso, muitos foram os que lutaram por um governo representativo em meio a uma monarquia. Ademais, a questão acerca da participação no processo de independência alcançou também as classes tidas, pela historiografia, como dominadas. Não são poucos os registros de escravos fugidos que se alistavam às Guardas Nacionais, às instituições militares em nome da liberdade do país, crentes da gradual conquista de suas próprias, e, quando muito articuladas pelo imperador já no gradual processo de abolição pós 1871. E, não ficavam de fora os negros livres que denunciavam as injustiças quando não lhes eram concedidos o direito de cidadania uma vez que detinham o ideal título da liberdade, que, segundo MATTOS (2004), a problemática está para além do que ________________________________ 19. Manuel de Oliveira Lima, importante historiador brasileiro da época, autor de Dom João VI no Brasil, também escreveu sobre temáticas polêmicas para o período – negros, imigração, qualidades do povo, influência da mulher, política, dentre outras –, apresenta em conferências na Sorbonne, em 1911, o que mais tarde viera a ser um excelente trabalho publicado por Sr. Barbosa Melo em 1914, onde, disposto a tratar sobre a nacionalidade brasileira, defendendo o princípio de formação histórica, narra os principais eventos que determinaram o sentimento nacional frente às disputas pelo território, a autonomia de governo e o acesso à liberdade política.. 21.
(23) determinavam os princípios das ideias, fosse por meio da carta de alforria20, ou porque nasciam ingênuos. Diante da implantação do modelo liberal na nova perspectiva de governo junto à essência, os princípios da escravatura e afins, parte importante nos principais conflitos de ordem representativa deste novo sistema governamental, cujo processo Roberto Schwarz (1938) apresenta como “Idéias fora de lugar”21, será uma constante que marcará a natureza intrínseca das relações filosóficas e teóricas em meio as práticas contraditórias da realidade brasileira. Sabe-se que o modelo institucional implementado22 tinha como objetivo levar o país a trilhar o caminho da civilização que passou a fazer parte da história das nações reformadas – Modernas - como a milenar Inglaterra e sua antiga colônia – Estados Unidos da América -, e também a França, que se modificavam em nome do elogio à ciência e à razão, venerando o progresso econômico, e, idealizando a humanidade, mesmo que a premissa seja compreendida cada uma segundo as referências de seus próprios interesses dentre as épocas. Se o princípio era contraditório em sua aplicação aqui no império brasileiro, longe não está da explicação de Alfredo Bosi (1936) quando apresenta o fenômeno do “escravismo-liberalismo”23 atribuindo ao ________________________________ 20. No artigo intitulado A carta de Alforria na conquista da liberdade (2010), a historiadora brasileira Eliane Rea Goldschmidt apresenta como este símbolo histórico – a carta de alforria - traz consigo as memórias deixadas em forma de Notas o processo de manumissão de escravos com um recorte específico do período colonial, na capitania de São Paulo - (1742-1804) –, que retrata os desfechos das principais características da forma política frente ao sistema da escravidão e ao paternalismo, quando, respectivamente, o escravo (propriedade privada do seu senhor) conseguia comprar a sua carta ou a recebia por amor ou afeto do seu senhor. O fato era que uma vez recebendo o título de liberto não significava alcançar a plena liberdade, pois na maioria das vezes continuava na casa do Senhor, ora por necessidade, ora para cumprir as prerrogativas do testamento de manumissão. No desfecho imperial, as questões são mais específicas quando a luta é pelo direito à cidadania, uma vez que o regimento constitucional outorga o título de cidadão civil aos libertos e ingênuos, sendo a maior luta pelo direito de atuação pública e política em meio a percalços sociais: o preconceito racial, intelectualidade burocrática. 21 Roberto Schwarz neste trabalho discute como as abstrações burguesas aqui no Brasil estavam para além do que se prezava à economia política alicerçada sobre a ideia do trabalho livre. Era o “impolítico e abominável da escravidão” no Brasil que fomentava práticas advindas do solo da realidade brasileira: a prática latifundiária, a prática escravagista e a prática do “Homem livre”. À sociedade escravista entre as ideias do liberalismo europeu, Schwarz não poderia conferir melhor definição a todo este processo do que a “comédia ideológica nacional”. 22 Ludwig von Mises (1881-1973), importante economista da Escola Austríaca de pensamento econômico que em sua leitura do liberalismo clássico apresentado em Liberalismo segundo a tradição clássica (1927), e, do estudo da economia no campo da praxeologia, defende que mesmo os princípios teóricos do liberalismo sendo apresentados de forma pertinentes ao que fora difundido pelos idealizadores racionalistas no século XVIII e no princípio do século XIX, com a definição de liberdade individual, propriedade privada, livre comércio e paz, defende também que “se alguém desejar saber o que é o liberalismo e que objetivos tem, não poderá, simplesmente, voltar-se para a História com o objetivo de informar-se e inquirir sobre o que defendiam os políticos liberais e as metas que lograram alcançar, porque, em nenhum lugar, o liberalismo conseguiu executar seu programa tal como pretendia” (MISES, 2010. p.35) 23 No trabalho intitulado a Escravidão entre dois liberalismos (1988), Bosi traz a reflexão sobre o regime do cativeiro em meio aos significados do liberalismo aqui construídos e o contexto político compondo o que ele chama de um falso impasse que emerge da classe dominante cuja pauta dos discursos em 1808, por exemplo, desenhava um conservadorismo das liberdades se restringindo à produção, à venda e à compra, conquanto que, em 1822, esse conservadorismo das liberdades se reservava ao direito político do cidadão qualificado. E a interpretação clássica da questão é a de um liberalismo que atendesse aos interesses e às necessidades dos grupos detentores do poder. Ou seja, um liberalismo à moda brasileira, como apresenta o pensamento do período, segundo Leão Veloso, que “Se os partidos têm idéias, têm também interesses, e desde que for se deixando levar de amor platônico pela ideia, sofrerão os interesses e os partidos se dissolverão. ”. 22.
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