Evolução e variação linguísticas_LPI

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Evolução e variação linguísticas

A variação dialectal resulta de evoluções paralelas de um mesmo sistema linguístico (de uma mesma língua). Estas evoluções paralelas (os dialectos) podem tornar-se línguas autónomas – como já vimos, dependendo de questões políticas – ou não. Questões geográficas levam ao isolamento, daí a evolução ser divergente (ou não ser coincidente). O avanço das telecomunicações neutraliza, aos poucos, a diferença. O que faz uma língua evoluir?

Questões linguísticas – processos regulares de mudança linguística (assentes em regras das diferentes componentes da gramática)

Questões não-linguísticas – actuam sobretudo ao nível do léxico (mas não só: veja-se a influência actual do Português do Brasil no Português Europeu, ao nível da sintaxe, da morfologia...). O avanço do mundo científico ou cultural cria necessidade de novas palavras para novos conceitos: duas hipóteses a) dentro da própria língua encontrar forma de designar o novo conceito; b) importar de outra língua.

Conceitos relevantes

Língua-mãe – língua da qual evolui a língua de que se fala.

Língua de Estrato – língua que sobrevive ao contacto quer com uma língua de substrato quer com uma língua de superstrato. Deste contacto resulta a progressiva assimilação das línguas de substrato e de superstrato, as quais deixam algumas marcas na língua de estrato.

Língua de Substrato – língua falada numa determinada zona, que desaparece devido ao predomínio de outra (falada por um povo invasor), deixando, no entanto, marcas nesta língua nova. A influência da língua de substrato sobre a língua de estrato revela-se geralmente em evoluções de natureza fonética e em empréstimos lexicais.

(para as línguas romanas da Península Ibérica, o Basco, o Celta, o Ibero são línguas de substrato)

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Língua de Superstrato – língua de um povo invasor que, numa determinada área geográfica, é assimilada pela língua ou línguas preexistentes, deixando nela(s) alguns traços.

(para o Português, o Visigótico, o Árabe, o Francês são línguas de superstrato)

Língua de Adstrato – existe entre duas línguas a relação de adstrato quando, coexistindo no mesmo espaço geográfico ou em espaços contíguos, se influenciam mutuamente mas de forma superficial, pelo que nenhuma é assimilada pela outra. (o Galego e o Castelhano são línguas de adstrato uma da outra)

(estes termos são utilizados relacionalmente e em função da língua de estrato, aquela de que se fala)

PROCESSOS DE MUDANÇA LINGUÍSTICA

– Processos regulares de mudança Fonético-Fonológica

Assimilação – um som altera-se por influência de um som que lhe é vizinho, ganhando propriedades desse som.

ex. FILIU (lat) > fi<lhi>u : o «l» torna-se palatal, por ser seguido de uma semivogal palatal.

Dentro da assimiliação existem diversos processos, dependendo da característica do som que é assimilada: palatalização, nasalização (ou nasalação), ...

Dissimilação – um som altera-se por influência de um som que lhe é vizinho, perdendo propriedades que tem em comum com esse som.

ex. leite > l<ai>te, na região de Lisboa. o <e> deixa de ser palatal, por ser seguido de uma semivogal palatal.

LOGOSTA > lagosta

número > núm<a>ro (marginal)

Inserção – é inserido um segmento fonético numa determinada posição da cadeia sonora.

ex. amor > <amori> (alguns dialectos do Centro-Interior) mandar > amandar

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Queda – um determinado segmento desaparece da cadeia sonora (também designado de assimilação total).

ex. leite > <lete>

Metátese –> alguns segmentos trocam de posição dentro da cadeia sonora ex. máquina > mánica (marginal)

sabiam (português medieval, primeiro <a> é tónico) –> saibam PRIMARIU (lat) – primairo ( > primeiro)

Analogias (processos de mudança não-regulares – que não assentam em regras) Stella –> estrela – o <r> surge por analogia com a palavra «astro», que pertence ao

mesmo campo semântico.

dê –> deia – analogia com a forma «leia» (marginal) Compare-se com a forma do português-padrão actual:

DENT > dem (evolução fonética regular) –> dêem (analogia com «lêem» e «vêem»)

Processos de mudança (inovação) lexical – Formação de Palavras

Empréstimo – Palavra estrangeira que é adaptada pela língua (não necessariamente na ortografia!). Entra posteriormente na formação de novas palavras através dos processos regulares de formação de palavras.

ex. stress stressar stressante

Estrangeirismo – palavra estrangeira que se mantém impermeável aos processos morfológicos da língua.

ex. know how *knowhowismo *knowhowizante

Sigla – palavra nova que se forma com a(s) primeira(s) letra(s) de um conjunto de palavras. A sua estrutura silábica não obedece às regras fonológicas da língua. Mais produtivo em Nomes Próprios.

ex. ISCSP

Acrónimo – Forma-se do mesmo modo que as siglas, no entanto a sua estrutura silábica obedece às regras da língua.

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ex. sida (Síndrome de Imuno-Deficiência Adquirida)

Composição por justaposição – através de duas palavras já existentes cria-se uma nova, sem se alterar a estrutura das palavras intervenientes. O significado do composto não está relacionado com os significados das partes.

ex. amor-perfeito

Composição por aglutinação – através de duas palavras já existentes cria-se uma nova, alterando-se (truncando) a estrutura das palavras intervenientes. vinagre (VINO ACRE)

setor (senhor doutor) você (vossa mercê)

Derivação por prefixação – através de um prefixo cria-se uma nova palavra na língua. Geralmente a categoria morfossintáctica da nova palavra é igual à da palavra de origem.

ex. feliz > infeliz ler > reler

Derivação por sufixação – através de um sufixo cria-se uma palavra nova na língua. ex. feliz > felizmente

real > realizar

Derivação por parassíntese (ou circunfixação) – Através de um circunfixo cria-se uma palavra nova na língua. Um circunfixo é um morfema descontínuo que se coloca à volta da palavra.

ex. joelho > ajoelhar nojo > enojar

Não confundir com casos em que a palavra foi formada por processos sucessivos de prefixação e sufixação, como em infelizmente.

feliz > infeliz (prefixação) > infelizmente (sufixação.

Note-se que nos casos de circunfixação não é possível encontrar as fases intermédias: *ajoelho, *enojo (estas palavras só existem como formas dos verbos «ajoelhar» e «enojar», não são fases intermédias, como no caso de infeliz, para infelizmente), *joelhar, *nojar.

A circunfixação não é um processo de prefixação e sufixação simultâneas.

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Derivação regressiva – uma palavra muda de categoria morfossintáctica perdendo as terminações morfológicas típicas da classe a que pertence a palavra original.

ex. chorar > choro embarcar > embarque

Derivação imprópria = conversão = transcategorização – uma palavra muda de categoria morfossintática sem alteração morfológica.

ex. olhar(vb) > olhar (n)

pânico (adj) > pânico (n) enquanto adjectivo tinha o significado de «total»; por coocorrer frequentemente com o nome «medo», quando transcategoriza para nome, incorpora o significado deste nome, passando a significar «medo total».

Truncação – abreviação de palavras, formando uma nova (independentemente do registo menos cuidado a que estão associadas)

ex. comunista > comuna fascista > facho

professor > prof

Analogias (criam-se novas palavras ou acepções de palavras por semelhança com palavras do mesmo campo semântico ou com estrutura fonética parecida)

trocar > destrocar (desfazer uma troca)

por analogia com palavras como desfazer, desmembrar, em que há o significado de fazer um todo em partes, «destrocar» significa (marginalmente) trocar uma quantidade de dinheiro por notas mais pequenas ou moedas (tendo-se especializado a sua aplicação ao dinheiro)

Etimologia Popular (uma das formas de analogia)

Este processo gera maioritariamente palavras marginais em português; em francês, no entanto, é um processo produtivo cujos resultados acabam por ser reconhecidos na língua-padrão.

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Por desconhecimento da palavra de base, o falante cria uma nova, com semelhanças fonéticas com a palavra de origem mas sem relação semântica. No fundo, o falante atribui-lhe um étimo que para si faz mais sentido.

ex. cooperativa –> comprativa (nós vamos às cooperativas fazer compras) canapé (cadeira longa, semelhante a um divã) –> camapé (nós deitamo-nos lá) homossexual –> homem sexual ou homem sensual

Processos de Mudança Semântica

Extensão semântica – algumas palavras ganham novos significados (alargam o seu significado), por processos de metáfora ou de metonímia.

STARE significava em latim estar de pé e passa a significar propriedades transitórias (estar de pé é, geralmente!, uma propriedade transitória).

Especialização semântica – algumas palavras perdem significados, concentrando-se num significado só.

«pânico» como adjectivo tinha o significado de «total», podendo ser aplicado a qualquer nome, quando transcategoriza para nome restringe o seu significado para um medo enorme (por influência do nome com que frequentemente ocorria).

Processos de Mudança Sintáctica

Línguas de Sujeito nulo podem tornar-se línguas de sujeito obrigatório e vice-versa. Os pronomes clíticos podem alterar as posições de colocação.

A ordem dos constituintes principais de frase – S(ujeito), V(erbo) e O(bjecto) – pode mudar (o Latim Clássico era uma língua SOV e o português tornou-se numa língua SVO).

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Referências

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