+-Saúde,
cultura
e
sexo
sem
preconceitos
Depois
de abordarmostemascomo asexualidadee aspolíticas
municipal
euniversitária,
voltamoscom umaedição
mais leve.Porém,
comassuntosque tambémfazempartedo cotidianodolei tor.Comisso,surge adificuldade deencontrar temas diferentesetambém trazê-losdeumaforma não tãocomum. Nesta
edição
do Zero,osrepórteres
buscaramabordartemaspolêmicos
sempudor
e sempreconceitos.Por
exemplo:
apornografia, algo
muito comum na vida das pessoas. Por mais que considerem normal o consumo de vídeoseróticos,
muitostêmvergonha
decontaroque assistem até paraosamigos.
Alémdisso,
tambémmostramos olado dasmulheresque trabalhamnessaindústria.Comentamoso aumentodos
registro
decasosdedoenças
sexualmentetransmissíveisnoBrasil e osmétodos deprevençãodis
poníveis
paraapopulação
nasredespúblicas
eprivadas
desaúde.Apresentamos
oscineclubes dauniversidade, quais
seuscritérios paraescolherosfilmesexibidose aperiodicidade
com aqual
sereúnemparaassisti-los.Outrotemade cultura foiamúsica eletrônica.
Tãoescutada
pelos
jovens
atualmente, que pouco conhecem suahistóriae os
gêneros
queseoriginaramdesse estilo musical. Poroutrolado,
tambémtrouxemosacultura do assédio.Conhecemos pessoas que
já
sofreramabuso,
osmotivosdenãoteremdenunciadoseusagressoreseoque é consideradocrime
pelas
autoridades.
Asdificuldadesdacomunicaçãoentresurdoseouvintesna nossa
sociedade é muito comum,maspouco debatida.
Situação
quecriadesconfortonacomunidadesurda
pela divergência
deopiniões.
Outra
comunidade,
presenteemFlorianópolis,
éadosimigranteshaitianos.Pessoas que deixamfamíliae
diploma
para trásembuscade
oportunidades
de empregoe umavidamelhor.Além dos assuntos que
já
citamos, também abordamos uma novadeterminação
da Anatei parao usode telefonespúblicos,
osfamosos
orelhões,
em14cidadesbrasileiras.Esperamos
terrealizadootrabalho damelhormaneirapossível
eque você
aproveite
estaedição!
Boa leitura!
r
UFSC
elege
Cancellier
com
47,
72
%
dos
votos
Na noite de
quarta-feira (11),
a Universida de Federal deSanta Catarina(UFSC)
elegeu
seu novoreitorevice-reitora. Foiquando 47,42%
dos eleitoresparticipantes
-professores,
servidoresealunos- votaramemLuizCarlos Cancellier
e
Alacoque
Lorenzini, dachapa
"A UFSCpode
mais". Poruma
diferença
de apenas1,36%,
Ed sonDe PierieBebeto,
dachapa "UFSC+",
foramderrotadosno
segundo
turnodaseleições.
Ofato deosresultadosterem
chegado
anú meros tãopróximos
nãofoiumanovidade, já
que no
primeiro
turno, queocorreu no dia21de
outubro,
achapa
deDe Pieriganhou
avaga nasegunda
etapadaseleições
por0,41%
devotosamais que os oponentes lrineu e
Mônica,
queficaramemterceiro
lugar.
CancelliereAlacoque
venceram oprimeiro
turnocom29,58%dosvotosválidos.
As
abstenções
dosegundo
turno totalizaram66,7%.
Nototal,
12.923 pessoasforam àsurnas,sendo queonúmerodevotantesda universidade é de 38.853.
Comparada
comcolégios
eleitorais decidades catarinenses,aUFSCtemo25°maioreleitorado do estado.
Nacoletiva de
imprensa
concedidalogo após
os resultadosoficiais confirmarem avitóriade
Cancellier,
o novoreitordaUFSCdissequeodiálogo
serásuaprincipal estratégia
paraunirocampus,dividido
pelas eleições.
Ele também ad mitiuacrisevividapela
universidadedevidoaoscortesfinanceiros na
educação,
quando
defen-deuabuscaporoutrasfontes derecursos.
Cancellier venceu entre os servidores com a maioria dos votos,67%. Entre os
professores
ealunos,
De Pieri manteve vantagem.Quando
questionado
sobre essesresultados,
Cancellier afirmouque,independente
denúmeros,
oresultado final
exige
que essa novagestão
trabalheunidacomtodaacomunidade acadêmica.
O futuro reitordeclarou aindaqueumadas
principais motivações
detersecandidatado foianecessidadede
pacificação
internaentreos três segmentosdauniversidade-professores,
servidoresealunos. Outra
intenção
eplano
degestão
donovoreitorédivulgar
deformamaisampla
a
qualidade
deensino,pesquisa
e extensão daUFSC.
Coberturaintegrada
A coberturadoZero
jornal
foi feitaemparceriacom aRádio Ponto UFSCe com o
telejornal
1]
UFSC,ambosprojetos
deextensãodocursodeJornalismo.
Com base nos boletins que foramimpressos
nas urnas, os estudantes recolhiamos números e enviavam,
imediatamente,
para umacentraldeapuração
montadanosestúdiosda rádio.Acobertura envolveu alunos dediver
sasfases docurso, cincoservidores técnicos-ad
ministrativosequatro
professores,
efoi feita deformaconvergente:
Rádio,
TVejornal
e,claro,
deforma
instantânea,
nasmídiassociaisdigitais
dos veículos. Cancellieré diretor do Centro deCiências Jurídicas
E-mail[email protected] Telefone -(48) 3721-4833 Facebook -jjornalzero Twitter -@zeroufsc Cartas -Departamento de Jornalismo- Centro de
Comunicaçãoe Expressão,UFSC, Trindade,Florianópolis (SC)- CEP:
88040-900
ERRATA:naediçãode Outubro de2015,n°6,
escrevemos"cheque" na
capa,quandoo corretoé
"xeque".
O crédito certo da foto da
página3 é de Valdori Santos
+
It) "i
'f1 ip
Liuaue
Osaparelhos,queantesda popularizaçãodos celulareseramomodo maiscomumde fazerligações,contabilizam diversos problemasde funcionamentoemenos usuáriosacada dia
o
orelhão
está
com
os
seus
dias contados?
Em
extinção,
os
telefones
públicos
de
14
estados
disponibilizam
chamadas interurbanas
gratuitas
ocê
já
precisou
de um telefone
público
para fazeruma
ligação?
Conhece alguém
que aindaoutiliza?Alguma
vezjá
sedeparou
com umorelhãopela
rua? Seamaio riadas respostasfoinão,pode
tera ver com um cenário onde há cada vezmaislinhas de telefones móveis.Some-seaissoa
queda
do número deorelhõesno Brasildurante aúltima
década. De acordocom os dados da
Agência
Nacional de Telecomunicações
(Anatei),
em2004 haviamaisdeummilhãoetrezentos miltelefones
públicos
nopaís.
Depois
de dezanos, esse número caiu para menos deoitocentose oitentamil. Ou
seja,
as ruas brasileirasperderam
um terçodosseusorelhões.
A
quantidade
de telefonespúbli
cos diminuiu tanto que a
agência
reguladora obrigou
a Oi a tornargratuitas
asligações
interurbanas feitas para telefonesfixos,
a partir de
orelhões,
em catorze estadosbrasileiros,
inclusive em Santa Ca tarina. Amedida foi tomada porquea concessionárianão
disponibilizou
o número mínimoexigido
deequi
pamentos
emcondições
de uso. Noprimeiro
semestrede2015,já
havia sido determinado que as chamadas locais-DDDde
origem
igual
aoDDDde destino
-fossem de graça.
Agora,
foia vezdaschamadas interurbanas- DDDde
origem
diferente doDDDde destino.Adeterminação
vaivaler até queaexigência
seja
cumprida.
A Anatei realiza as
medições
acada seis meses, e a
disponibilidade
da
planta
de telefones deusopúblico
deve estar acimade90%. Em Santa
de Souza, de
34
anos,precisava
deumorelhãopara
ligar
paraacentralde atendimento da
agência
bancária daqual
é cliente.Explicou
que ---optoupelo
serviço
por-que não tem telefo ne fixo em casa e "o 0800 que o banco ofereceCatarina,onúmeroémaiore
chega
a92%.Noentanto,noslocaisemque o acesso coletivo éexclusivo a partirde
orelhões,
ademanda nãoécumprida.
Nesse caso,adisponibilidade
deve serde,
nomínimo,
95%; noestado
catarinense,
chega
a 87%. Aspróximas
checa gens serão feitasem29defevereiro de
2016,
com validadea
partir
deabril;
e em 30 deagosto do mesmo
ano,com validade a
partir
deoutubro.Nos estados emque a Oi não
cumprir
o patamar mínimo
exigido,
acompanhia
terá de
disponibilizar
ligações
sem custos paratelefones móveis.
A
equipe
dereportagem
doZero foi às ruas de Florianópolis
paraver se apopulação
sabequeosorelhões da cidadees
tão realizando
ligações gratuitas.
A maioria dos que estavam usando otelefone
público
tinhaconhecimento da
determinação imposta
pela
AnateI.AnaCarolinadaSilva,
de 28 anos, não.Primeiro,elatentoufazerachamadaacobrar. "Nãoencontrei cartão telefônico para
comprar."
Não
conseguiu.
Aoconversarcom osrepórteres
doZeroedescobrir sobreagratuidade
doserviço,
refezaligação
- dessa
vez,sem ser acobrar- e
conseguiu
falar com oprimo
que mora no interior.Já Augusto
CostaAs
ruas
do
país
já
perderam
um
terço
de
seustelefones
públicos
não atende ligação
feitapelo
celular". Embora estivesseligando
paraumnúmero
gratuito,
eletambém nãosabia damedida
imposta
àOi.A falta de orelhões nas ruasdas cidades brasileiras
não é o único
problema.
Entre os telefones
pú
blicos que aindaexis tem, há uma par
cela considerável quenãofuncio
na.Durantea
saída
total. E eles sequer mostravam o
"coloque
o cartão", frase que apa recequando
ocliente tiraotelefonedo
gancho.
Alémdisso,
quase todosos
equipamentos
estavampichados
ou traziam cartazese
propagandas
de
serviços
particulares,
comodegarotasde programa.Osusuáriostam
bém reclamaram que
alguns
apare lhosnãofazemaleituracorretadoscartõestelefônicos.
Um
passado
de valorApesar
dehoje
nãoseremvalorizados,
nas últimas duas décadas osorelhõeserambem
populares,
eissocontribuiu para que as concessio
nárias começassem a
personalizar
osaparelhos,
de acordo com temasque envolvessempontosturísticosdo Brasil.Em
Itu,
acidade do exagero,háumorelhãoquemede cincome
trosde altura. Omonumento,
claro,
apenas simulao
equipamento.
Em SantaCatarina,
também existemorelhões com formatos
peculiares.
Em
Brusque,
porexemplo,
oaparelho
tem aformade um marreco. Em
Fraiburgo,
éumamaçã.
E emTu-Antes
item de
coleção, hoje
é
raroencontrar
à venda cartão
de orelhão
no cen-tro dacapital
catarinense, os repórteres
do Zeroresol-veramtestaros
aparelhos.
Dos onzeorelhões
disponíveis
nocalçadão
daRua
Felipe Schmidt,
dois estavamestragados,
oque dá quase 20%dobarão,
nãopre cisanem dizer com o que ele se parece. Não só osorelhões,
mas também os cartões telefônicos forampersonalizados,
principal
mente no final da década de 90 e
começodosanos2000. Havia cartão
de tudo: detimes defutebol aobras
de arte. Os colecionadores se espa
lhavam por todosos cantosdoBra
sil e era comum encontrar pessoas
vendendo cartões nas praças mais
movimentadas de
qualquer
cidade degrande
porte.Haviaaté quem ganhasse a vida
comercializando,
exclusivamente,
cartãotelefônico.Antonio Correia, de
49
anos, énatural de
Lages
e comerciante nocentro de
Florianópolis.
Hoje,
ele trabalhacommoedasantigas
nacio naiseinternacionais,noentanto, háoito anos,o
negócio
deleeravendercartõestelefônicos. "Eu comeceico
lecionando,
mas,aí,
abri a minhacoleção
epassei
a comercializá-los.Agora,
eunãocolecionomais." Mesmo
assim,
ovendedor,
que sempretrabalhou com a
autorização
daprefeitura,
conta que ainda não sedesfez de todos os seuscartões. "Eu ainda tenhoum
pouquinho.
Deveteruns80 mil encaixotados láemcasa."
Segundo
ele,
asvendascomeçaramacairem
2009,
enãofaziamaissentidocontinuar."Se
chegar
dez pessoasaqui,
nove vão querervender,
nãocomprar."
Elenãoera oúnicovende dor de cartãodocalçadão
daFelipe
Schmitd. "Nós éramos oito, e todos pararam. Só eu quecontinuei, mas,agora, vendendo moeda." Mesmo
não atuando mais na
área,
Correiaestá
disposto
alivrar-se doqueaindaresta."Se
alguém
quiser,
é sópagar dois milreaisque levaatéascaixasjunto",
brinca. JulianoFrança [email protected] Valdo Santos emaildorepõ[email protected]ZERO
Novembro de 2015• I
Migrações
+
A
vida
dos
haitianos
que
escolheram
o
Brasil
Grupo
de
imigrantes
com
maior presença
no
mercado de trabalho luta por inclusão social
o Acreéaportadeentrada parao
Brasil. Pelomenos essaéaalternativa
daimensa maioriade haitianos que
não têm tempo nem dinheiro para
obterovistocom o consulado brasi
leiro- trâmite
que
pode
levar 30dias,
comtaxasde200dólares.Percorrem
o
longo trajeto
entreHaiti,República
Dominicana,
Equador
e Peru, paraentrarnoBrasil fazendoa
solicitação
de
refúgio.
BuscamaPolicia Federalpara emitiro Protocolo de
Registro,
umdocumentoque asseguraodireitode circularportodo territórionacio
nalsem correr oriscode
deportação,
e que
permite
obterCPF,
Carteirade TrabalhoePrevidência Social.O
abrigo
em Rio Branco(Acre),
cadavezmaisamontoado deestran
geiros,
é visitado porempresários
interessados em contratar: buscamhomens,
nagrande
maioria, paraserviços
braçais
noSule Sudeste.Deacordocom oMinistériodo Trabalho
e
Emprego,
em 2013 oshaitianos setornaramogrupode
imigrantes
commaior presençanomercado brasileiro
de trabalho formal. Além deSão Pau
lo,
ParanáeRioGrande doSul,
Santa Catarina é umdosprincipais
estados nacontratação
dehaitianos,
foram1.704em2014.
Entre 2010e 2014passaram
pelo
Acremaisde40 milpessoas,umflu xocrescenteformado
príncipalmente
por haitianos e
senegaleses.
Só em2015,forammais desetemil haitia
nos.Sem
condições
de auxiliartantosimigrantes,
o Estado do Acre contacom medidas de
apoio
do governoFederal como oconvênio paratrans
ferência de recursos e transportedos
estrangeiros
para outrasregiões
commais oferta de emprego. Em
junho,
o Ministério da
Justiça
repassouR$
2 milhões que foram utilizadospara fretar43 ônibus.
Florianópolis
foi odestino de 19
ônibus,
entre maio eSanta
Catarina
é
umdos
estados
que mais
contrata
haitianos,
foram
1.704
em2014
agostodesteano,com452
haitianos,
35
senegaleses
e umdomínicano.Desde 2012,o Brasil concede aos
haitianos um visto de
permanência,
conhecido como visto humanitário.Mesmosolicitando
refúgio,
aResolução
Normativa97/12
prevê
queseja
concedido o visto permanente com
validade decincoanos.Até
julho
deste ano, cerca de 26 mil documentos
foram emitidos.O intuito,
segundo
ogoverno,éevitarabusca derotasmi
gratórias operadas
pororganizações
criminosas,
umnegócio
paralelo
que emquatroanos emeiofaturouR$
60milhões. Outramedida paraincenti
var avinda
legal
foiaumentarataxadevistosconcedidos
pela
Embaixada Brasileira em PortoPríncipe.
Agora
são emitidos mensalmente dois mil.Em2010,acotaerade100 vistos por
mês.
Apesar
dessesesforços,
amaioriados haitianos quevivemno
país
nãotêm o visto, o que não caracteríza
que
estejam
vivendo de formailegal,
pois
possuemoProtocolo deRegistro
-aquele
recebido ao cruzar a fronteira.
É
umdocumentocomvalidade deum ano equeconfereos mesmosdireitos de
qualquer
outroestrangei
ro em
situação
regular.
Para seremefetivamente
registrados
nopaís,
oshaitianos
precisam
ter seus nomespublicados
noDiárioOficial daUnião,umprocessoque
pode
levaranos.En quantoissonão ocorre, aalternativaésolicitara
prorrogação
do Protocolo.Nosdois últimos anos,a
Superinten
dência
Regional
do Estado de Santa Catarina contabilizou1.649
pedidos
dessanatureza.Odoutorando em
Demografia
naUnicamp
epesquisador
noObservatório das
Migrações
de Santa Catarina,Luís
Felipe
Aires,afirmaqueoterre moto de 2010 não é oúnico motivo que desencadeou a vinda para oBrasil.
Aponta
também osseguintes
fatores:acriseeconômicanos
países
norte-americanos e europeus, que
costumavam ser destino dos hai
tianos; a forte presença econômica e militar do
Brasil,
que desde 2004partícipa
da Missão deEstabilização
da ONU no Haiti(Minustah)
e ummaioracesso das famílias brasileiras
aoconsumo, àscustasda
elevação
do endividamento destas mesmasfamí-Nicole
Official
está no Brasil há um ano. Sonha emfazer umaespecializa
ção,
exercer aprofissão
deenfermeirae sermãe.
Nicole Official não sentiu otremor quede
vastouoseu
país
emjaneiro
de2012,quando
oterremotode7 graus da escala Richter
atingiu
cercade3 milhões de pessoas, o
equívalente
a um terçodapopulação
do Haiti. Naépoca
elaestava no
República
Domínícana, cursandoo último ano dafaculdade de licenciaturaem
Enfermagem. Quando
concluiu os estudos em.dezembro de2012,
ganhou
odiploma
masperdeu as
garantias
dovistoestudantil,
decidindolias.
Segundo
Aires, em 2010as empresascomeçaramabuscar haitianos
para
suprir
vagas de trabalho quenãoeram
ocupadas pelos brasileiros,
prin
cipalmente
nossetoresdegrande
rotatividade de
funcionários,
tantopela
demissão quanto
pelo
afastamento porquestões
desaúde.Não é raro um haitiano exercer a mesma
função,
durante a mesmaquantidade
dehoras,
queumbrasilei ro erecebermenos.Arecentepesquisa
realizada em 16 cidades brasileiras
por observatórios de
migrações
egrupos de estudos
ligados
àUnicamp (São
Paulo),
UFAM(Amazônia),
Udesc(Santa Catarina)
eUNIR(Rondônia)
apontamqueamaioriados haitianos recebeentre1 e3 salários mínimose
ainda transfereparafamiliares cerca
de
R$
200pormês,
oque correspondea54dias de trabalhonoHaitipara
quem
ganha
osalário mínimo.A Conferência das
Nações
Unidas sobreComércioeDesenvolvimento
(UNCTAD)
concluique,em
2014,
odinheiroenviadoporhaitianosque não vivemno
país equivale
24% doPIB. Asanálisesmostram que nos últimos dez'anos, as remessas
correspondem
entre22a25% doPIB. No
Brasil,
correspondem
a 0,1%.
Luís
Felipe
Aires aponta duas fasesdofluxo
migratório
haitianoparaSanta Catarina. A
primeira
teve iní cioem2010,
quando
maisdequatromil haitianos foram recrutadospara
trabalhar em
Navegantes,
BalneárioCamboriú e
Itajaí
especialmente
no�
plíou
essaconcessão,sendoquehoje
aembaíxa�
daemPortoPríncipe
emitedois mil documentos�
pormês.Aautorização
quedeixaria de valerem]
outubro de 2015, teveoprazoprorrogado pelo
Cl
Conselho Nacional de
Imigração
(CNIg)
até ofinal doanoquevem.
Nicole
conseguiu
o visto naembaixada doBrasilem
Quito.
Desde quechegou,
osconhecimentosde
Enfermagem
foram brevemente pos tosemprática
duranteosmeses em que atuouemduas clínicasde
idosos,
uma emSãoJosé
eoutrano
Córrego
Grande. Atualmentetrabalha em umapadaria.
Desegunda
asexta-feiracumpre seishoraspordia.O
expediente
évespertino
evaiatéas 21h50e
quando
elasai 10 minutos antespra dartempodepegaroônibus.Osába doé defolga.
Osdomingos,
um édetrabalho,
outrode descanso. Ganhaumsalário mínimoe
paga
aluguel
deR$550.
O empregotemporário
em umrestaurante
pelas
manhãstemcomple
mentado a
renda,
daqual
costumapoupar deR$100
aR$200
pormês. Sãopelo
menos60horassemanaisde
trabalho,
nasdemaisdorme,
lê- ora a
Bíblia,
ora oslivros desaúde-,vaià
escoladominicale aoculto.
Foiatravésda
religião
queconheceuo haitianoMoliner
Sampaeur,
ambosfrequentavam
aassim, tentar a carreíra na devastada Porto
Príncipe.
Aatividademaispróxima
a suaformação
queconseguiu
exercerfoi auxiliandoairmãenfermeiranoscuidadoscom
pacientes.
Afalta deempregonoHaitie odesejo
decontinuarosestudos deterrninaramavindaparaoBrasil.Em
outubro fezumanoque ela deixouaIlha deSão
Domingos,
asegunda
maiordoCaribe,
paravivernadeSanta Catarina.
Coma
catástrofe,
umadasações
dogoverno brasilerofoi concedervistopermanamentepor razões humanitárias aoshaitianos,
com prazodecincoanos.A
Resolução
Normativa na97,de12 de
janeiro
de2012previa
aemissão de 1,2 milvistos anuais. Noanopassado
ogovernoam-serviço
portuário, limpeza pública
econstrução
civil.Asegunda
fase,
cominício em
2013,
caracteriza-sepela
contratação
de empresasfrígcríficas
que passaram operar em três turnosde trabalho. "Vale lembrarqueum a
cadaquatrotrabalhadores de
frigorí
ficosse afastamparatratardoenças.
E os haitianos são recrutados paraos
piores trabalhos,
com mais esforço
físicoedesgaste.
São alocadosprincipalmente
emdois setores, ondelevantamcargasdecarnecomprome
tendoacolunaeondepassamoturno
todocom os
braços
em umaposição
que lesionaoombro"concluiu Aires
a
partir
do trabalho de campo emChapecó,
ondeseconcentraempresasIrígoríficas
comoAuroraeJBS,
emja
neirode 2015.
O
Grupo
deApoio
aosMigrantes
Refugiados
emFlorianópolis
aponta emrelatório queasprincipais
dificuldades dos haitianossãoademoraem
obterovistopermanente,a
validação
de documentose
discíplínas
dasinstituições
deensinodoHaitie afalta devagas paraatuardentro desuasáreas
de
formação.
A reportagem conversou com
três haitianos que vieram viverem
Florianópolis.
Júlia Rohden
Tallta Burbulhan
mesma
igreja
batístanaRepública
Dominicana. Casaramemagostodoanopassado,
poucoantesdeNicolevirparaoBrasil.
Hoje
orelacionamentonãoémaisà distância: há três meses osdois
moram
juntos
em uma casaalugada
naAgro
nômica.
Apesar
deestartrabalhando,
odesejo
de
Sampaeur
é terminaragraduação
deEnge
nharia Elétrica.Mascomonãotemmaisvínculo
com sua
antiga
universidade,
aalternativaseráprestarvestibularno anoquevem.
A
situação
de Nicoleédiferente.Paratraba lharcomoenfermeira,
teráque validarodiplo
ma,processo que deveserrealizado porinstitui
ções
deensinopúblicas.
Umavezaoano,aUFSCabreeditalpara
validação,
umtrâmite quepode
levar atéseismesesparao serdeferidoouindfe
rido,
caso aformação
do candidatonãose encaixe nas Diretrizes Curriculares
previstas
pelo
Ministério daEducação.
Outraalternativaseria retomarosestudospelo
"retorno degraduado",
umaopção prevista
pela resolução
de 17 doConselho Universitário
(CUn),
parapreenchimento
devagasremanescentes.Oedital élançado
todosemestre.Neste
último,
o cursodeenfermagem
deu chance de
ingresso
paraquatropessoas. Nicolenãodesanima,
apostaqueno anoque vem osdias de trabalhoserãocomoenfermeira.Cherry
Clareans
vivenopaís
há doisanos.Esforça-se
para queoshaitianostenhamseuvalor reconhecidoepossamter
melhores
condições
de vidanoBrasil"NasciemPorto
Príncipe,
tenho duasirmãsedois irmãos. Meu
pai
équímico.
Minhamãeéumamoça
humilde,
comerciante. Aprimeira
irmãéformadaemAdministração,
asegunda
éenfermeiraeosirmãosmenoresestãoestudan
do"- faz dois
anosqueohaitiano
Cherry
Clare ansestálonge
da família. EleentrounoBrasilpela
fronteiracomoAcre,viveu45diasnoRioGrande do
Sul,
mudou-se paraFlorianópolis,
trabalhoucomorevendedor daHerbalife,
decidiu estudar. ConcluiuoEnsinoMédionoCentro
de
Educação
deJovenseAdultos(Ceja),
fezcur sopré-vestibular,
prestouoEN EMehoje
éacadêmico de direito doCESUSC.
Cherry
é magro,teolhanosolhos
quando
sorriefalacom mesmapropriedade
queumrei.Integrante
daassociação
de haitianosKay
Pa Nou, que em creole
significa
"nossolar",
ele militapormedidas
públicas
que garantamacidadania dos haitianos em Santa Catarina.
É
cristão,acreditanoEvangelho
deDeus, temféemJesus Cristo, que é o seumestre e o seu
Salvador.
Quando
questionado
sepretendia
voltarparaoHaiti,ele
garantiu
quesimefoimaisadiante, profetizando
oretornodogrande impé
rio negroe a
reunificação
daÁfrica:
"asgrandes
águas
voltarãoparao seuriomãe",assegurou.Conversarcom
Cherry
sobresuahistóriaé tirar ospés
dapoçad'água,
paramergulhar
decorpointeironasfossas oceânicas.Permanecersecoé umaalternativainexistente.
�
Alfred Checo
Toussaint,
che!
gou aFlorianópolis
emjulho
deste ano.�
Trabalha em dois empregos e tem a espe�
rançade trazer os três filhos para morar noBrasil
Entre24 demaioe4 de
junho
desembarca ram emFlorianópolis
178imigrantes,
alojados
deimproviso
em umginásio
emCapoeiras.
Chegaramemônibus fretados
pelo
governofederalque
partiram
de Rio Branco(Acre)
rumo asregiões
Sule Sudeste. ASecretariade AssistênciaSocial de
Florianópolis
dissequesoube dosprimeiros
ônibus através daimprensa
eteveque trataraquestão
de formaemergencial.
Em 26demaio houve uma reunião em Brasília que definiuquantosônibus aindaviriamparao mu
nicípio
e umalistacom onúmero deimigrantes
e suasinformações
pessoais
básicas.Dototal de488
imigrantes
que foram recebidos de formaínstítucíonalízada,
a imensa maioria foi paraoutrascidadescatarinenses.
Apenas
26 ficaramna
Capital,
sendo quenove moram nolocal detrabalho,
doisalugaram
residência e 15 vivemem
abrigos
públicos
daprefeitura.
Alfred é umdeles.
Toussaint está há quase quatro meses em
Florianópolis
eaindanãofoiàpraia. Às
7h30saido
abrigo
daprefeitura
noCentro, onde dividequartocomoutrosdois
haitianos,
epegaoôni bus paraSãoJosé.
Chega
àoficina onde trabalhacom
limpeza
demotordecarro esentecheiro do cafépretorecémpreparado.
"Setomocafésemleite,
nãodurmodenoite",brinca contorcendoasbochechas magrasem uma
gargalhada.
Vol-"Deixaro Haiti não éuma escolha
fácil,
éporcausadoscontextoshistóricoseda
opressão
queas
migrações
estão ocorrendo.Nopassado
nós
chegamos
aser a colôniamaisprodutiva
queahistóriatevenotícias.Sehoje
estamospobres é porque hámuitasfilosofiase
hegemonias
quenão aceitamotriunfo determossidoo
pri
meiro
país
aaboliraescravidãoe afundarumarepública
negraliderada porum ex-escravo. Oque fizemos foi provaraomundoqueeleesta
vaerrado. Poderíamos ser um modelopara as
etnias negras,mas somos
castigados.
Nãonosépermitido
crescer,e épor isso queos haitianosestão saindo. Muitosvendem tudo o que têm
paratentarumavidanova e
ajudar
adistância aos queficam,
enviando parte do salário queadquirem
paraos familiares. Cercade 50% dapopulação
domeupaís
émantidapela diáspora
haitiana.
Metade da
população
haitiana
se
mantém
com odinheiro enviado por
familiares que foram
trabalhar
em
outro
país
Há
décadas,
oBrasil recebeimigrantes,
dasmais diversas etnias, que colaboraram para
formaressa
nação
unificada. Lendo o livro deGiiberto
Freyre
'Casa GrandeeSenzala',
percebio
papel
quemuitoshaitianostiveram paraaafricanização
brasileira:trouxeramseusvalorestaparao
abrigo depois
dealmoçar
umpratodefrango,
arroz efeijão.
Às
14h30,
saidenovoparapegaroônibusrumo ao
segundo
emprego.Limpaumrestauranteem
Sambaqui
atéas23h30.Nasceu no Haiti mas morou na
República
Dominicana dos 15 aos
33.
anos, trabalhando comovendedor defrutas e estudando parasermestrede obras. Osdois
países
dividem ailhaSão
Domingos,
noCaribe,
ehámuitasdécadasoshaitianoscruzam afronteiraembusca de
tra-Florianópolis
recebeu
19
ônibus
com
imigrantes
que
chegaram
ao
país pela
ronteira do
Acre
balho.Delávoouaté
Colômbia,
edaColômbiaatéo
Equador.
Osonho dechegar
ao Brasil seaproximava lentamente,
em umamistura de caloremosquitos
dentro do ônibus quedemorouseisdias até
chegar
aoAcre. Passoumetade deummêsem umabrigo
emRio Branco.Quan
do
questionado
setinhamuitaspessoasnoginá
sio,ele
dispara
"Uuuui,
nopudo
contar! Maisde três mil"sempremisturandoo creole haitiano com oespanhol
queaprendeu
naRepública
Do minicanae umpoucodeportuguês.
Quase
toda renda mensal deR$
1800,jun
tandoosalário dos doisempregos,é enviadaao
Haiti para cobrira
educação
ecomida deseustrêsfilhos
-Fredson,
WifredoeDavidson.Deres-eculturas contríbuíndo paraa
construção
dessa
grande
sociedade.O acordodiplomático
queexiste entre os governos haitiano e
brasileiro,
desde
2004,
estimulaaescolha destepaís
comodestino. Nósviemos pararecomeçaruma nova
vida,
paraestudar,
paraservir, paraajudar
noprogresso. Comosomosmaisde60mil
aqui
noBrasil,
nãosedeveriapensarem'indivíduo haitiano',massimem'sociedade haitiana'queestá
aqui
paracontribuir.Porisso, queo meu
esforço
ede outras associações
deSanta Catarinaéacriação
deumconselho estadual dos
imigrantes,
para que elespossam tervoz, e a
formulação
depolíticas
deacolhimento que
façam
aintegração
das haitianasedos haitianosnasociedadecatarinense.
Porque
inclusão social não se faz fornecendocarteira de trabalhoeofertando empregos que osbrasileirosnão querem realizar.
Paramim,omaior
equívoco
quesecometeé olharos
imigrantes
haitianos-africanospela
suavulnerabilidade econômica compiedade,
emvezdepercebê-los
comopessoas que têmvalores,
que têmcapacitação
pra andar com seuspróprios pés.
Nóstemosmuitoaoferecer.É preciso
entenderarealidadesocial,
arealidade históricae arealidade dosistema
capitalista
queestamosvivendo. Háestapassagem queme
inspira
muito:'enquanto
oleãonãosabefalar,
ahistória sempre será contada
pelos
caçado-res.'"
.
to, Alfred gastacom passagensdeônibus para
irdotrabalhoao
abrigo municipal
e,devez emquando,
tomaumsuco.Comamorteda esposadominicana,
os meninos foram morar com aavónointeriordoHaiti. Toussaintrepetevárias
vezesque estámuito
preocupado
comos filhos.Sabe queestãocomendo malenão vão àesco
la todososdias.Conversasemanalmentecom a
família,
masporpoucotempo.Eleexplica
queocartãotelefônicoque compra por
R$lO
dura trêsouquatrominutosde
ligação.
DeixouoHaiti porserdifícil
conseguir
trabalhosemsaber falar
inglês
efrancês,
sendoestaa
língua
ensinadanas escolasmasque poucosdominam.
Alfred,
assimcomo amaioriadapopulação
haitiana,
falao creole que também éidiomaoficial. Foiembora da
República
Domi nicanapela
violênciacontrahaitianos que,segundo
ele,
estãosendo"picados"
commachado.Alfredcontaque quase nãoconversava com os
dominicanos,
porque estavammatando haitianos semmotivo. Oconflito violentoentreosdois
países
éhistórico.Alfredsemprelevanacarteiraseudocumento
provisório
de identidade deestrangeiro
feitonopaís
queconhece desdepequenopela
televisão.Quer
compraruma casa evivernoBrasil com osfilhos,
visitandooHaiti porum oudoismeses,duranteasférias. Acorda todososdias
pensando
emtrazerostrêsfilhos parapertoeafirmaconvicto,enumerandoalista do que será necessário:
conseguir
ovistodepermanência, alugar
uma casa ejuntar
dinheiro paraaspassagens.Formas
dos surdos
•
se cornurucarem
Ananda contaque fezo
implantesonhandoem
conseguirsecomunicar facilmente,mas a
adaptaçãofoi muitodifícil
causam
divergência
Com
uma
língua
oficial
e um
estilo
de vida
característico,
comunidade
ainda
pouco
discute
quais
são
as
melhores
formas
de
facilitar
o
diálogo
com a
sociedade
/
ECada
vezmaiscomum vermospes soas nas ruasconversando através
degestos,por meioda
Linguagem
Brasileira de Sinais, mais conhe cidacomoLibras.Essalinguagem
égestual
eutilizadapela
maioriados surdos nopais,
masnão são apenaselesquepodem
se comunicar dessa forma. Além das suasfarm1ias e
amigos,
também existem outrosinteressados em
aprender
alíngua
para secomunicarcomeles. Atualmente diversaspes soas se sentem pertencentes à comunidade
surda,
quepossui
umaculturaprópria
com seuscostumes,sualíngua
eseumodo de vida.Segundo
aOrganização
Mundial da Saúde(OMS),
em 2011, 28milhões de brasileirospossuíam
algum
tipo
deproblema
auditivo,
quase 15% do total de 190 milhões de bra sileiros. Destes, conforme umapesquisa
doInstitutoBrasileiro de
Geografia
eEstatística(IBGE)
realizadaem 2010, quase dois milhões tinham deficiência auditivasevera
(1,7
milhõestêm
grande
dificuldadepara ouvire344,2
milsãosurdos).
Dentreossurdos,
existem
aqueles
quesecomunicam através dalíngua
desinaiseaqueles
que sãooralizados,
ouseja,
secomunicamatravésda fala oraleda leitura
labial/facial.
Existemaindaosquesão
bimodais,
ouseja,
secomunicamdas duasformas,
dominandooPortuguês
e aLibras.Muitos se confundem e acreditam que Libras é apenas um
conjunto
de gestos emímicas,
mas naverdadeéumalíngua
comgramática
eestruturaprópria
ediferente doportuguês.
Nãoécomo oBraille,
porexemplo,
noqual
se escreve umapalavra
pormeiode umconjunto
depontos-querepresentamas
letras
-e suaestrutura
acompanha
ada línguaportuguesa.ALibraséa
segunda língua
oficial do Brasil desdeo decreto
5626/2005,
que
regulamenta
a Lei número10.436,
de 24 de abril de 2002. Estafoiumaconquista
importante pois
reconheceuoidiomacomolíngua
maternadapopulação
surda dopaís.
Aluta das comunidades surdas mundiais
paraquetivessemdireitoscomo esseémuito
antiga.
OsséculosXVIIIeXIXmarcaram ode bate sobreaeducação
dos surdos.Nesteperío
do oralistasemanualistas- ouvintes
emsua
maioria- firmaramsuas
posições
pedagógi
cas e suas
políticas.
Oralistassão pessoas quedefendema
oralização
dossurdosemanualistassãofavoráveisàs
linguagens
desinais.Algumas figuras
marcaram oposiciona
mentodos
oralistas,
como o médicoe educador
suíço, Johann
Konrad Ammann, que oralizavaseusalunos surdoseafirmava que alíngua
gestual
atrofiavaamenteemrelação
aodesenvolvimento da falaedopensamento. Além
dele,
SamuelHeinicke,
oprimeiro
educador a desenvolver uma
instrução
sistemáticaparaos surdosna
Alemanha,
também consideravaquea
prioridade
noensino àscrianças
surdasera alinguagem
faladaequea
língua
desinaispoderia prejudicar
estaaquisição.
Muitosforamosestudiosos
oralistas,
mas o nomemaisfamosoéode AlexanderGraham
Bell,
filho de mãesurdaepai
ouvinteinstrutordedeficientes auditivos. Ele defendia
a
oralização
pois
acreditavaquesóassimossurdos
poderiam
ter umaintegração
social com omundo.Paraele,
ousodalinguagem
desinaisdeveriaser
proibido
pois
criariaumacomunidadecomtendênciaaocasamentoen
tresurdoseisso tomaria
possível
quefosse for madaumavariação
surda daraçahumana.Ométodo oralizado
(auditivo-verbal)
tra taasurdezcomo umadeficiênciaquedeveserminimizada
pela estimulação
auditiva.Essaestimulação
faz com que o surdoaprenda
a
língua
oraleproporciona
suaintegração
nacomunidadeouvinte,semficarrestritoàsua
própria
comunidade. "Achoessemétodolegal
para quem queraprender
afalar. EuEstima-se
que
mais
de
9;%
dos surdos
têm
pais
que não
conhecem
a
língua
Brasileira
de
Sinais
sempre
quis
efacilitabastante,
pois
meajuda.
Quando
eupreciso
resolver urgentementealgo,
consigo
falar 'oralizando'.Euaprendi
afalarporqueminhamãemeensinou.Ela
meestimulouair
repetindo
atéeuaprender,
mas eunãofaloperfeitamente,
sóconsigo
seforcomcalmae
devagar",
contaHarrisonAdams,estudante de LibrasnaUFSCque
já
nas ceusurdoefoi oralizadoquando
cursava a2" série. Tantoosquesabemler,
escrever efalarfluentemente,
quanto os alfabetizados nãofluentesna
fala,
sãoconsiderados oralizados.MariaMadalena
Pinheiro,
professora
adjunta
defonoaudíología
daUFSCetambémcomponenteda
equipe
deImplante
Coclear doHU-UFSC,afirmaqueaLibraspode
auxiliarapermeara
linguagem
oral. "Oqueaconteceéqueamaiorpartedos
pais
quenosprocuram não querem queseusfilhos falem comLibras".
Segundo
Sacks(1998),
estima-sequemaisde 95% dos surdossãofilhos de
pais
ouvintes que em suamaioria não tiveram
nenhum contato com a
Língua
de Sinais,previamente.
Com isso,algumas
crianças
acabam
apresentando
isolamentopsicológico
enãorendendotantona
aprendizagem
linguística
e nacomunicação
comoutraspessoas.
Alguns
dos recursos paracapacitar
odeficiente auditivoadesenvolveroumanter
a
linguagem
oraleescritaenvolvemsessõescom
fonoaudiólogos,
leituralabial,
uso deaparelhos auditivos, implantes cocleares,
leg-endas,
equipamentos
parafacilitara comunicação
eparticipação
ativada família.ParaAlexandreBet,surdo desdeo
primeiro
anodeidadeeoralizado ainda
criança,
oaprendiza
dofoi bastante
difícil,
"pois
praticava
somentea
oralização
daspalavras
deumasentençadoinicio atéo
fim,
nãosabiaoqueaspalavras
significavam
nem ocontextodassentenças".
Oprocesso de
oralização
de surdos dura de8a12 anos,dependendo
de fatorescomo aépoca
daperda auditiva,
ograudaperda,
aparticipação
dafamílianesseprocesso,entre outros.Aprofessora
MariaMadalena Pinheiro afirma queafalta detreinamentoatrapalha
odesenvolvimento da
linguagem
oraleque ospais
eafamília devem semprereforçar
oaprendizado
em casa. Harrisson conta que"mesmonaminha
família,
àsvezes,meesquecemevãofalando
rápido
dificultandoo meuentendimento".Devido a essas dificuldades do processo
de
oralização,
os manualistas acabaramganhando força
e agora são maioria. Umdos nomesmaisfortesnesse cenário éodo
A
condição
desafia
a
compreensão
ética
na
medicina,
pois
não
há
como
afirmar
se
é
uma
patologia
Dr. HarlanLane,
psicólogo
eespecialista
naculturasurda.Paraelee amaiorparte da comunidade
surda,
surdeznãoédeficiência.I
Esta
comu1dade
sedefinecomoestrangeiros
emumacultura oral,
naqual
eles afirmamser erroneamente considerados deficientes
porqueseexpressamemoutro
idioma,
alinguagemdossinais. Aideia éadeque
qualquer
estrangeiro
senteochoque
culturalao se vercercado por pessoas de culturae
língua
diferentese,senãocontarcom abenevolência do
grupo,sesentiráisoladoenão
conseguirá
secomunicar
-assimcomo ossurdosemmeio
aosouvintes.
Aestudante de Libras da
UFSC,AnandaLoiolaSomões
Elias,
nasceu surda e fez oimplante
coclear em 2008."Eu mesinto à vontadena
comunidade e na cultura
surda.Sinto queémais
leve,
fácile
rápido
se comunicarem Libras. Eu
agradeço
àcomunidade surda porque
aprendi
muito.Antes,eunãotinhamuita
informação,
eu era 'boba' e todos tinhampenademimporqueeunão
tinha
opinião
própria.
Depois
de conhecerLibras,
ganhei
muitascoisas",conta. A comunidade surda se
identifica tanto com essas
ideias que
já
houve casosde casaissurdos que procu
raram métodos de
seleção
embrionária para que seus
filhos nascessem surdos e se identificassem cultural
mente com seus
pais,
comoconstano
artigo
Autonomiareprodutiva:
um estudo de casosobreasurdez,
produz
ido
pela antropóloga
DeboraDiniz. Fora isso, muitas
comu-nidades surdas de diversos
países
vêm apresentando resistência em
relação
aos trata mentospara surdeze aosimplantes
cocleares.Essa tensãoentre argumentos de anormali dade físicaenormalidade culturaltrazmuita
discussãoefaz da surdezumcaso-limite que
desafia a
compreensão
ética namedicina,
pois
nãoháparâmetro
paraafirmarseéounãouma
patologia.
Vendoporesse
lado,
acomunidade surdanãose apresenta,dopontodevista
político,
como ummovimentodedeficientes,
seaproxima maisdemovimentoscomoofeministae osanti-racistas. A
ex-presidente
daAssociação
Estadunidense deSurdos,
Roslyn
Rosen,afir-Harrison Adamsé aluno da UFSCefoi oralizado no Ensino Fundamental
ma:"Sou felizcomo sou enão
gostaria
deser'curada'. Emnossa
sociedade,
todos concordamquebrancos têmumavida melhor que
negros, mas
alguém
imaginariauma
pessoanegrafazendouma
operação
parasetornarbranca?" Entender a surdez como apenas uma
variação
delíngua
ecultura,
é difícilpara quem está acostumado a vê-la como umadeficiênciae abalaos
padrões
de normalidade.Ficafácil entenderporqueateoria
deLane é tão controversamesmo entreos
surdos.
1
I
Leise Silva [email protected] Bruna Ritscher [email protected]Saiba
como
funcionam
os
implantes
cocleares
O
implante
coclear é visto como umasalvação
paraalguns
ecomo umatentativade extermínio da cultura surda poroutros,
justamente
portrazeruma"cura"paraalgo
que não seriauma
doença.
Eleéumaparelho
eletrônicoutilizado pararestaurara
audição
nospacientes
portadores
de surdezprofunda
que nãosebeneficiam dos
aparelhos
convencionais. O
implante
tem dois componentes.Ointerno,queéumapartedentro da códea
ligada
a umdecodificador que fica atrás daorelha,
porbaixodapele.
Oexternaécompostaporum
processador
defala,
uma antena transmissora e um microfone.
Depois
doprocessode
programação
eadaptação,
oimplante
éresponsável
por estimularo nervoauditivo atravésde pequenos eletrodose ossi nais sãolevados
pelo
nervoatéocérebro.O
Hospital
Universitário daUFSC écreden ciadoaoMinistérioda Saúdepela
portaria
deImplante
Cocleat Desde2011,
realiza duascirurgias
por mês. Ocandidatoaoimplante
devetersurdezsevera ou
profunda
bilateraleprovarque
após
o usodeprótese
auditivanãoobteve benefício.A
avaliação
ocorre emtrês etapas:médica, fonoaudiológica
epsicológi
ca.Alguns
dos insucessos são:alterações
anatômicasno
ouvido,
infecção
e necrosedapele,
tonturaouparalisia
facial.Anandacontaque
quando
fezoimplante
sonhava em secomunicar
facilmente,
mas oprocesso deadaptação
édifícileelanãoseacostumou. "Eume assustavacom os sons.
Não
conseguia
meconcentraremapenasum.Além
disso,
meucorpomudoumuito. Eudan çavae amavanadar bemfundo,
agora não possonembalançar
acabeça.
Euperdi
mui tascoisasquegostavade fazereagorasintodor!
Quando
decidiparardeusar oimplante,
a maiorparte da minha famíliaperdeu
apaciência.
Nãoabriam espaço paramimnas conversas eagiam
como se eunão estivesseali". Ananda reclama quenãoconsegue dor mir do lado onde fica o
implante.
"Tenhomuitavontade de tirar! Meus
pais
querem muitotambém,
porque eles não aguentam mais que eu reclame da dor.Quero
viverlivre!",
confessaAnanda. Aantenae oimã fixamaunidade externaecaptam ossinaiselétricos ' .. ofeixe de eletrodos é colocado dentro dacóclea,em forma de caracol eéligada
ao receptor. oreceptorconverte ossinaisemimpulsos
elétricos que são enviados para acócleaEletrodos
estimulamo nervo
auditivo que leva .... as
informações
paraocérebro.