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Zero, 2015, ano 34, n.5, set.

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+-Saúde,

cultura

e

sexo

sem

preconceitos

Depois

de abordarmostemascomo asexualidadee as

políticas

municipal

e

universitária,

voltamoscom uma

edição

mais leve.

Porém,

comassuntosque tambémfazempartedo cotidianodolei­ tor.Comisso,surge adificuldade deencontrar temas diferentese

também trazê-losdeumaforma não tãocomum. Nesta

edição

do Zero,os

repórteres

buscaramabordartemas

polêmicos

sem

pudor

e sempreconceitos.

Por

exemplo:

a

pornografia, algo

muito comum na vida das pessoas. Por mais que considerem normal o consumo de vídeos

eróticos,

muitostêm

vergonha

decontaroque assistem até paraos

amigos.

Além

disso,

tambémmostramos olado dasmulheresque trabalhamnessaindústria.

Comentamoso aumentodos

registro

decasosde

doenças

sex­

ualmentetransmissíveisnoBrasil e osmétodos deprevençãodis­

poníveis

paraa

população

nasredes

públicas

e

privadas

desaúde.

Apresentamos

oscineclubes da

universidade, quais

seuscritérios paraescolherosfilmesexibidose a

periodicidade

com a

qual

sereú­

nemparaassisti-los.Outrotemade cultura foiamúsica eletrônica.

Tãoescutada

pelos

jovens

atualmente, que pouco conhecem sua

históriae os

gêneros

queseoriginaramdesse estilo musical. Poroutro

lado,

tambémtrouxemosacultura do assédio.Con­

hecemos pessoas que

sofreram

abuso,

osmotivosdenãoterem

denunciadoseusagressoreseoque é consideradocrime

pelas

au­

toridades.

Asdificuldadesdacomunicaçãoentresurdoseouvintesna nossa

sociedade é muito comum,maspouco debatida.

Situação

quecria

desconfortonacomunidadesurda

pela divergência

de

opiniões.

Outra

comunidade,

presenteem

Florianópolis,

éadosimigrantes

haitianos.Pessoas que deixamfamíliae

diploma

para trásembusca

de

oportunidades

de empregoe umavidamelhor.

Além dos assuntos que

citamos, também abordamos uma nova

determinação

da Anatei parao usode telefones

públicos,

os

famosos

orelhões,

em14cidadesbrasileiras.

Esperamos

terrealizadootrabalho damelhormaneira

possível

eque você

aproveite

esta

edição!

Boa leitura!

r

UFSC

elege

Cancellier

com

47,

72

%

dos

votos

Na noite de

quarta-feira (11),

a Universida­ de Federal deSanta Catarina

(UFSC)

elegeu

seu novoreitorevice-reitora. Foi

quando 47,42%

dos eleitores

participantes

-professores,

servidores

ealunos- votaramemLuizCarlos Cancellier

e

Alacoque

Lorenzini, da

chapa

"A UFSC

pode

mais". Poruma

diferença

de apenas

1,36%,

Ed­ sonDe Pierie

Bebeto,

da

chapa "UFSC+",

foram

derrotadosno

segundo

turnodas

eleições.

Ofato deosresultadosterem

chegado

anú­ meros tão

próximos

nãofoiuma

novidade, já

que no

primeiro

turno, queocorreu no dia21

de

outubro,

a

chapa

deDe Pieri

ganhou

avaga na

segunda

etapadas

eleições

por

0,41%

devotos

amais que os oponentes lrineu e

Mônica,

que

ficaramemterceiro

lugar.

Cancelliere

Alacoque

venceram o

primeiro

turnocom29,58%dosvo­

tosválidos.

As

abstenções

do

segundo

turno totalizaram

66,7%.

No

total,

12.923 pessoasforam àsurnas,

sendo queonúmerodevotantesda universidade é de 38.853.

Comparada

com

colégios

eleitorais decidades catarinenses,aUFSCtemo25°maior

eleitorado do estado.

Nacoletiva de

imprensa

concedida

logo após

os resultadosoficiais confirmarem avitóriade

Cancellier,

o novoreitordaUFSCdissequeodi­

álogo

serásua

principal estratégia

parauniro

campus,dividido

pelas eleições.

Ele também ad­ mitiuacrisevivida

pela

universidadedevidoaos

cortesfinanceiros na

educação,

quando

defen-deuabuscaporoutrasfontes derecursos.

Cancellier venceu entre os servidores com a maioria dos votos,67%. Entre os

professores

e

alunos,

De Pieri manteve vantagem.

Quando

questionado

sobre esses

resultados,

Cancellier afirmouque,

independente

de

números,

oresul­

tado final

exige

que essa nova

gestão

trabalhe

unidacomtodaacomunidade acadêmica.

O futuro reitordeclarou aindaqueumadas

principais motivações

detersecandidatado foia

necessidadede

pacificação

internaentreos três segmentosdauniversidade

-professores,

servi­

doresealunos. Outra

intenção

e

plano

de

gestão

donovoreitoré

divulgar

deformamais

ampla

a

qualidade

deensino,

pesquisa

e extensão da

UFSC.

Coberturaintegrada

A coberturadoZero

jornal

foi feitaemparce­

riacom aRádio Ponto UFSCe com o

telejornal

1]

UFSC,ambos

projetos

deextensãodocursode

Jornalismo.

Com base nos boletins que foram

impressos

nas urnas, os estudantes recolhiam

os números e enviavam,

imediatamente,

para umacentralde

apuração

montadanosestúdios

da rádio.Acobertura envolveu alunos dediver­

sasfases docurso, cincoservidores técnicos-ad­

ministrativosequatro

professores,

efoi feita de

formaconvergente:

Rádio,

TVe

jornal

e,

claro,

deforma

instantânea,

nasmídiassociais

digitais

dos veículos. Cancellieré diretor do Centro deCiências Jurídicas

E-mail[email protected] Telefone -(48) 3721-4833 Facebook -jjornalzero Twitter -@zeroufsc Cartas -Departamento de Jornalismo- Centro de

Comunicaçãoe Expressão,UFSC, Trindade,Florianópolis (SC)- CEP:

88040-900

ERRATA:naediçãode Outubro de2015,n°6,

escrevemos"cheque" na

capa,quandoo corretoé

"xeque".

O crédito certo da foto da

página3 é de Valdori Santos

(3)

+

It) "i

'f1 ip

Liuaue

Osaparelhos,queantesda popularizaçãodos celulareseramomodo maiscomumde fazerligações,contabilizam diversos problemasde funcionamentoemenos usuáriosacada dia

o

orelhão

está

com

os

seus

dias contados?

Em

extinção,

os

telefones

públicos

de

14

estados

disponibilizam

chamadas interurbanas

gratuitas

ocê

precisou

de um te­

lefone

público

para fazer

uma

ligação?

Conhece al­

guém

que aindaoutiliza?

Alguma

vez

se

deparou

com umorelhão

pela

rua? Seamaio­ riadas respostasfoinão,

pode

tera ver com um cenário onde há cada vezmaislinhas de telefones móveis.

Some-seaissoa

queda

do número de

orelhõesno Brasildurante aúltima

década. De acordocom os dados da

Agência

Nacional de Telecomunica­

ções

(Anatei),

em2004 haviamaisde

ummilhãoetrezentos miltelefones

públicos

no

país.

Depois

de dezanos, esse número caiu para menos de

oitocentose oitentamil. Ou

seja,

as ruas brasileiras

perderam

um terço

dosseusorelhões.

A

quantidade

de telefones

públi­

cos diminuiu tanto que a

agência

reguladora obrigou

a Oi a tornar

gratuitas

as

ligações

interurbanas feitas para telefones

fixos,

a par­

tir de

orelhões,

em catorze estados

brasileiros,

inclusive em Santa Ca­ tarina. Amedida foi tomada porque

a concessionárianão

disponibilizou

o número mínimo

exigido

de

equi­

pamentos

em

condições

de uso. No

primeiro

semestrede2015,

havia sido determinado que as chamadas locais

-DDDde

origem

igual

aoDDD

de destino

-fossem de graça.

Agora,

foia vezdaschamadas interurbanas

- DDDde

origem

diferente doDDDde destino.A

determinação

vaivaler até quea

exigência

seja

cumprida.

A Anatei realiza as

medições

a

cada seis meses, e a

disponibilidade

da

planta

de telefones deuso

público

deve estar acimade90%. Em Santa

de Souza, de

34

anos,

precisava

de

umorelhãopara

ligar

paraacentral

de atendimento da

agência

bancária da

qual

é cliente.

Explicou

que ---optou

pelo

serviço

por-que não tem telefo­ ne fixo em casa e "o 0800 que o banco oferece

Catarina,onúmeroémaiore

chega

a92%.Noentanto,noslocaisemque o acesso coletivo éexclusivo a par­

tirde

orelhões,

ademanda nãoé

cumprida.

Nesse caso,adis­

ponibilidade

deve ser

de,

no

mínimo,

95%; no

estado

catarinense,

chega

a 87%. As

próximas

checa­ gens serão feitas

em29defevereiro de

2016,

com va­

lidadea

partir

de

abril;

e em 30 de

agosto do mesmo

ano,com validade a

partir

deoutubro.

Nos estados emque a Oi não

cumprir

o patamar mínimo

exigido,

a

companhia

terá de

disponibilizar

ligações

sem custos para

telefones móveis.

A

equipe

de

reportagem

doZero foi às ruas de Floria­

nópolis

paraver se a

população

sabequeosorelhões da cidadees­

tão realizando

ligações gratuitas.

A maioria dos que estavam usando o

telefone

público

tinhaconhecimen­

to da

determinação imposta

pela

AnateI.AnaCarolinada

Silva,

de 28 anos, não.Primeiro,elatentoufazer

achamadaacobrar. "Nãoencontrei cartão telefônico para

comprar."

Não

conseguiu.

Aoconversarcom os

repórteres

doZeroedescobrir sobrea

gratuidade

do

serviço,

refeza

ligação

- dessa

vez,sem ser acobrar- e

conseguiu

falar com o

primo

que mora no interior.

Já Augusto

Costa

As

ruas

do

país

perderam

um

terço

de

seus

telefones

públicos

não atende li­

gação

feita

pelo

celular". Embora estivesse

ligando

paraumnúmero

gratuito,

ele

também nãosabia damedida

imposta

àOi.

A falta de orelhões nas ruasdas cidades brasileiras

não é o único

problema.

Entre os telefones

pú­

blicos que aindaexis­ tem, há uma par­

cela considerável quenãofuncio­

na.Durantea

saída

total. E eles sequer mostravam o

"coloque

o cartão", frase que apa­ rece

quando

ocliente tiraotelefone

do

gancho.

Além

disso,

quase todos

os

equipamentos

estavam

pichados

ou traziam cartazese

propagandas

de

serviços

particulares,

comodega­

rotasde programa.Osusuáriostam­

bém reclamaram que

alguns

apare­ lhosnãofazemaleituracorretados

cartõestelefônicos.

Um

passado

de valor

Apesar

de

hoje

nãoseremvalori­

zados,

nas últimas duas décadas os

orelhõeserambem

populares,

eisso

contribuiu para que as concessio­

nárias começassem a

personalizar

os

aparelhos,

de acordo com temas

que envolvessempontosturísticosdo Brasil.Em

Itu,

acidade do exagero,

háumorelhãoquemede cincome­

trosde altura. Omonumento,

claro,

apenas simulao

equipamento.

Em Santa

Catarina,

também existem

orelhões com formatos

peculiares.

Em

Brusque,

por

exemplo,

o

aparelho

tem aforma

de um marreco. Em

Fraiburgo,

éumamaçã.

E em

Tu-Antes

item de

coleção, hoje

é

raro

encontrar

à venda cartão

de orelhão

no cen-tro da

capital

catarinense, os re­

pórteres

do Zero

resol-veramtestaros

aparelhos.

Dos onze

orelhões

disponíveis

no

calçadão

da

Rua

Felipe Schmidt,

dois estavam

estragados,

oque dá quase 20%do

barão,

nãopre­ cisanem dizer com o que ele se parece. Não só os

orelhões,

mas também os cartões telefônicos foram

personalizados,

principal­

mente no final da década de 90 e

começodosanos2000. Havia cartão

de tudo: detimes defutebol aobras

de arte. Os colecionadores se espa­

lhavam por todosos cantosdoBra­

sil e era comum encontrar pessoas

vendendo cartões nas praças mais

movimentadas de

qualquer

cidade de

grande

porte.Haviaaté quem ga­

nhasse a vida

comercializando,

ex­

clusivamente,

cartãotelefônico.

Antonio Correia, de

49

anos, é

natural de

Lages

e comerciante no

centro de

Florianópolis.

Hoje,

ele trabalhacommoedas

antigas

nacio­ naiseinternacionais,noentanto, há

oito anos,o

negócio

deleeravender

cartõestelefônicos. "Eu comeceico­

lecionando,

mas,

aí,

abri a minha

coleção

e

passei

a comercializá-los.

Agora,

eunãocolecionomais." Mes­

mo

assim,

o

vendedor,

que sempre

trabalhou com a

autorização

da

prefeitura,

conta que ainda não se

desfez de todos os seuscartões. "Eu ainda tenhoum

pouquinho.

Deveter

uns80 mil encaixotados láemcasa."

Segundo

ele,

asvendascomeçarama

cairem

2009,

enãofaziamaissenti­

docontinuar."Se

chegar

dez pessoas

aqui,

nove vão querer

vender,

não

comprar."

Elenãoera oúnicovende­ dor de cartãodo

calçadão

da

Felipe

Schmitd. "Nós éramos oito, e todos pararam. Só eu quecontinuei, mas,

agora, vendendo moeda." Mesmo

não atuando mais na

área,

Correia

está

disposto

alivrar-se doqueainda

resta."Se

alguém

quiser,

é sópagar dois milreaisque levaatéascaixas

junto",

brinca. JulianoFrança [email protected] Valdo Santos emaildorepõ[email protected]

ZERO

Novembro de 2015

(4)

• I

Migrações

+

A

vida

dos

haitianos

que

escolheram

o

Brasil

Grupo

de

imigrantes

com

maior presença

no

mercado de trabalho luta por inclusão social

o Acreéaportadeentrada parao

Brasil. Pelomenos essaéaalternativa

daimensa maioriade haitianos que

não têm tempo nem dinheiro para

obterovistocom o consulado brasi­

leiro- trâmite

que

pode

levar 30

dias,

comtaxasde200dólares.Percorrem

o

longo trajeto

entreHaiti,

República

Dominicana,

Equador

e Peru, para

entrarnoBrasil fazendoa

solicitação

de

refúgio.

BuscamaPolicia Federal

para emitiro Protocolo de

Registro,

umdocumentoque asseguraodireito

de circularportodo territórionacio­

nalsem correr oriscode

deportação,

e que

permite

obter

CPF,

Carteirade TrabalhoePrevidência Social.

O

abrigo

em Rio Branco

(Acre),

cadavezmaisamontoado deestran­

geiros,

é visitado por

empresários

interessados em contratar: buscam

homens,

na

grande

maioria, para

serviços

braçais

noSule Sudeste.De

acordocom oMinistériodo Trabalho

e

Emprego,

em 2013 oshaitianos se

tornaramogrupode

imigrantes

com

maior presençanomercado brasileiro

de trabalho formal. Além deSão Pau­

lo,

ParanáeRioGrande do

Sul,

Santa Catarina é umdos

principais

estados na

contratação

de

haitianos,

foram

1.704em2014.

Entre 2010e 2014passaram

pelo

Acremaisde40 milpessoas,umflu­ xocrescenteformado

príncipalmente

por haitianos e

senegaleses.

Só em

2015,forammais desetemil haitia­

nos.Sem

condições

de auxiliartantos

imigrantes,

o Estado do Acre conta

com medidas de

apoio

do governo

Federal como oconvênio paratrans­

ferência de recursos e transportedos

estrangeiros

para outras

regiões

com

mais oferta de emprego. Em

junho,

o Ministério da

Justiça

repassou

R$

2 milhões que foram utilizadospara fretar43 ônibus.

Florianópolis

foi o

destino de 19

ônibus,

entre maio e

Santa

Catarina

é

um

dos

estados

que mais

contrata

haitianos,

foram

1.704

em

2014

agostodesteano,com452

haitianos,

35

senegaleses

e umdomínicano.

Desde 2012,o Brasil concede aos

haitianos um visto de

permanência,

conhecido como visto humanitário.

Mesmosolicitando

refúgio,

aResolu­

ção

Normativa

97/12

prevê

que

seja

concedido o visto permanente com

validade decincoanos.Até

julho

des­

te ano, cerca de 26 mil documentos

foram emitidos.O intuito,

segundo

o

governo,éevitarabusca derotasmi­

gratórias operadas

por

organizações

criminosas,

um

negócio

paralelo

que emquatroanos emeiofaturou

R$

60

milhões. Outramedida paraincenti­

var avinda

legal

foiaumentarataxa

devistosconcedidos

pela

Embaixada Brasileira em Porto

Príncipe.

Agora

são emitidos mensalmente dois mil.

Em2010,acotaerade100 vistos por

mês.

Apesar

desses

esforços,

amaioria

dos haitianos quevivemno

país

não

têm o visto, o que não caracteríza

que

estejam

vivendo de forma

ilegal,

pois

possuemoProtocolo de

Registro

-aquele

recebido ao cruzar a fron­

teira.

É

umdocumentocomvalidade deum ano equeconfereos mesmos

direitos de

qualquer

outro

estrangei­

ro em

situação

regular.

Para serem

efetivamente

registrados

no

país,

os

haitianos

precisam

ter seus nomes

publicados

noDiárioOficial daUnião,

umprocessoque

pode

levaranos.En­ quantoissonão ocorre, aalternativa

ésolicitara

prorrogação

do Protocolo.

Nosdois últimos anos,a

Superinten­

dência

Regional

do Estado de Santa Catarina contabilizou

1.649

pedidos

dessanatureza.

Odoutorando em

Demografia

na

Unicamp

e

pesquisador

noObservató­

rio das

Migrações

de Santa Catarina,

Luís

Felipe

Aires,afirmaqueoterre­ moto de 2010 não é oúnico motivo que desencadeou a vinda para o

Brasil.

Aponta

também os

seguintes

fatores:acriseeconômicanos

países

norte-americanos e europeus, que

costumavam ser destino dos hai­

tianos; a forte presença econômica e militar do

Brasil,

que desde 2004

partícipa

da Missão de

Estabilização

da ONU no Haiti

(Minustah)

e um

maioracesso das famílias brasileiras

aoconsumo, àscustasda

elevação

do endividamento destas mesmas

famí-Nicole

Official

está no Brasil há um ano. Sonha emfazer uma

especializa­

ção,

exercer a

profissão

deenfermeirae ser

mãe.

Nicole Official não sentiu otremor quede­

vastouoseu

país

em

janeiro

de2012,

quando

o

terremotode7 graus da escala Richter

atingiu

cercade3 milhões de pessoas, o

equívalente

a um terçoda

população

do Haiti. Na

época

ela

estava no

República

Domínícana, cursando

o último ano dafaculdade de licenciaturaem

Enfermagem. Quando

concluiu os estudos em

.dezembro de2012,

ganhou

o

diploma

masper­

deu as

garantias

dovisto

estudantil,

decidindo

lias.

Segundo

Aires, em 2010as em­

presascomeçaramabuscar haitianos

para

suprir

vagas de trabalho quenão

eram

ocupadas pelos brasileiros,

prin­

cipalmente

nossetoresde

grande

ro­

tatividade de

funcionários,

tanto

pela

demissão quanto

pelo

afastamento por

questões

desaúde.

Não é raro um haitiano exercer a mesma

função,

durante a mesma

quantidade

de

horas,

queumbrasilei­ ro erecebermenos.Arecente

pesquisa

realizada em 16 cidades brasileiras

por observatórios de

migrações

egru­

pos de estudos

ligados

à

Unicamp (São

Paulo),

UFAM

(Amazônia),

Udesc

(Santa Catarina)

eUNIR

(Rondônia)

apontamqueamaioriados haitianos recebeentre1 e3 salários mínimose

ainda transfereparafamiliares cerca

de

R$

200por

mês,

oque correspon­

dea54dias de trabalhonoHaitipara

quem

ganha

osalário mínimo.A Con­

ferência das

Nações

Unidas sobreCo­

mércioeDesenvolvimento

(UNCTAD)

concluique,em

2014,

odinheiroen­

viadoporhaitianosque não vivemno

país equivale

24% doPIB. Asanálises

mostram que nos últimos dez'anos, as remessas

correspondem

entre22a

25% doPIB. No

Brasil,

correspondem

a 0,1%.

Luís

Felipe

Aires aponta duas fa­

sesdofluxo

migratório

haitianopara

Santa Catarina. A

primeira

teve iní­ cioem

2010,

quando

maisdequatro

mil haitianos foram recrutadospara

trabalhar em

Navegantes,

Balneário

Camboriú e

Itajaí

especialmente

no

plíou

essaconcessão,sendoque

hoje

aembaíxa­

daemPorto

Príncipe

emitedois mil documentos

pormês.A

autorização

quedeixaria de valerem

]

outubro de 2015, teveoprazo

prorrogado pelo

Cl

Conselho Nacional de

Imigração

(CNIg)

até o

final doanoquevem.

Nicole

conseguiu

o visto naembaixada do

Brasilem

Quito.

Desde que

chegou,

osconheci­

mentosde

Enfermagem

foram brevemente pos­ tosem

prática

duranteosmeses em que atuou

emduas clínicasde

idosos,

uma emSão

José

e

outrano

Córrego

Grande. Atualmentetrabalha em uma

padaria.

De

segunda

asexta-feiracum­

pre seishoraspordia.O

expediente

é

vespertino

evaiatéas 21h50e

quando

elasai 10 minutos antespra dartempodepegaroônibus.Osába­ doé de

folga.

Os

domingos,

um éde

trabalho,

outrode descanso. Ganhaumsalário mínimoe

paga

aluguel

de

R$550.

O emprego

temporário

em umrestaurante

pelas

manhãstem

comple­

mentado a

renda,

da

qual

costumapoupar de

R$100

a

R$200

pormês. São

pelo

menos60

horassemanaisde

trabalho,

nasdemais

dorme,

lê- ora a

Bíblia,

ora oslivros desaúde

-,vaià

escoladominicale aoculto.

Foiatravésda

religião

queconheceuo hai­

tianoMoliner

Sampaeur,

ambos

frequentavam

a

assim, tentar a carreíra na devastada Porto

Príncipe.

Aatividademais

próxima

a suaforma­

ção

que

conseguiu

exercerfoi auxiliandoairmã

enfermeiranoscuidadoscom

pacientes.

Afalta deempregonoHaitie o

desejo

decontinuaros

estudos deterrninaramavindaparaoBrasil.Em

outubro fezumanoque ela deixouaIlha deSão

Domingos,

a

segunda

maiordo

Caribe,

paravi­

vernadeSanta Catarina.

Coma

catástrofe,

umadas

ações

dogoverno brasilerofoi concedervistopermanamentepor razões humanitárias aos

haitianos,

com prazo

decincoanos.A

Resolução

Normativa na97,de

12 de

janeiro

de2012

previa

aemissão de 1,2 milvistos anuais. Noano

passado

ogoverno

am-serviço

portuário, limpeza pública

e

construção

civil.A

segunda

fase,

com

início em

2013,

caracteriza-se

pela

contratação

de empresas

frígcríficas

que passaram operar em três turnos

de trabalho. "Vale lembrarqueum a

cadaquatrotrabalhadores de

frigorí­

ficosse afastamparatratar

doenças.

E os haitianos são recrutados para

os

piores trabalhos,

com mais es­

forço

físicoe

desgaste.

São alocados

principalmente

emdois setores, onde

levantamcargasdecarnecomprome­

tendoacolunaeondepassamoturno

todocom os

braços

em uma

posição

que lesionaoombro"concluiu Aires

a

partir

do trabalho de campo em

Chapecó,

ondeseconcentraempresas

Irígoríficas

comoAurora

eJBS,

em

ja­

neirode 2015.

O

Grupo

de

Apoio

aos

Migrantes

Refugiados

em

Florianópolis

aponta emrelatório queas

principais

dificul­

dades dos haitianossãoademoraem

obterovistopermanente,a

validação

de documentose

discíplínas

dasinsti­

tuições

deensinodoHaitie afalta de

vagas paraatuardentro desuasáreas

de

formação.

A reportagem conversou com

três haitianos que vieram viverem

Florianópolis.

Júlia Rohden

[email protected]

Tallta Burbulhan

[email protected]

mesma

igreja

batístana

República

Dominicana. Casaramemagostodoano

passado,

poucoantes

deNicolevirparaoBrasil.

Hoje

orelacionamen­

tonãoémaisà distância: há três meses osdois

moram

juntos

em uma casa

alugada

na

Agro­

nômica.

Apesar

deestar

trabalhando,

o

desejo

de

Sampaeur

é terminara

graduação

de

Enge­

nharia Elétrica.Mascomonãotemmaisvínculo

com sua

antiga

universidade,

aalternativaserá

prestarvestibularno anoquevem.

A

situação

de Nicoleédiferente.Paratraba­ lharcomo

enfermeira,

teráque validaro

diplo­

ma,processo que deveserrealizado porinstitui­

ções

deensino

públicas.

Umavezaoano,aUFSC

abreeditalpara

validação,

umtrâmite que

pode

levar atéseismesesparao serdeferidoouindfe­

rido,

caso a

formação

do candidatonãose en­

caixe nas Diretrizes Curriculares

previstas

pelo

Ministério da

Educação.

Outraalternativaseria retomarosestudos

pelo

"retorno de

graduado",

uma

opção prevista

pela resolução

de 17 doCon­

selho Universitário

(CUn),

para

preenchimento

devagasremanescentes.Oedital é

lançado

todo

semestre.Neste

último,

o cursode

enfermagem

deu chance de

ingresso

paraquatropessoas. Nicolenão

desanima,

apostaqueno anoque vem osdias de trabalhoserãocomoenfermeira.

(5)

Cherry

Clareans

viveno

país

há doisanos.

Esforça-se

para queoshaitianos

tenhamseuvalor reconhecidoepossamter

melhores

condições

de vidanoBrasil

"NasciemPorto

Príncipe,

tenho duasirmãs

edois irmãos. Meu

pai

é

químico.

Minhamãe

éumamoça

humilde,

comerciante. A

primeira

irmãéformadaem

Administração,

a

segunda

é

enfermeiraeosirmãosmenoresestãoestudan­

do"- faz dois

anosqueohaitiano

Cherry

Clare­ ansestá

longe

da família. EleentrounoBrasil

pela

fronteiracomoAcre,viveu45diasnoRio

Grande do

Sul,

mudou-se para

Florianópolis,

trabalhoucomorevendedor da

Herbalife,

deci­

diu estudar. ConcluiuoEnsinoMédionoCentro

de

Educação

deJovenseAdultos

(Ceja),

fezcur­ so

pré-vestibular,

prestouoEN EMe

hoje

éaca­

dêmico de direito doCESUSC.

Cherry

é magro,te

olhanosolhos

quando

sorriefalacom mesma

propriedade

queumrei.

Integrante

da

associação

de haitianos

Kay

Pa Nou, que em creole

significa

"nosso

lar",

ele militapormedidas

públicas

que garantam

acidadania dos haitianos em Santa Catarina.

É

cristão,acreditano

Evangelho

deDeus, tem

féemJesus Cristo, que é o seumestre e o seu

Salvador.

Quando

questionado

se

pretendia

vol­

tarparaoHaiti,ele

garantiu

quesimefoimais

adiante, profetizando

oretornodo

grande impé­

rio negroe a

reunificação

da

África:

"as

grandes

águas

voltarãoparao seuriomãe",assegurou.

Conversarcom

Cherry

sobresuahistóriaé tirar os

pés

dapoçad'

água,

para

mergulhar

decorpo

inteironasfossas oceânicas.Permanecersecoé umaalternativainexistente.

Alfred Checo

Toussaint,

che­

!

gou a

Florianópolis

em

julho

deste ano.

Trabalha em dois empregos e tem a espe­

rançade trazer os três filhos para morar noBrasil

Entre24 demaioe4 de

junho

desembarca­ ram em

Florianópolis

178

imigrantes,

alojados

de

improviso

em um

ginásio

em

Capoeiras.

Che­

garamemônibus fretados

pelo

governofederal

que

partiram

de Rio Branco

(Acre)

rumo as

regiões

Sule Sudeste. ASecretariade Assistên­

ciaSocial de

Florianópolis

dissequesoube dos

primeiros

ônibus através da

imprensa

eteveque tratara

questão

de forma

emergencial.

Em 26

demaio houve uma reunião em Brasília que definiuquantosônibus aindaviriamparao mu­

nicípio

e umalistacom onúmero de

imigrantes

e suas

informações

pessoais

básicas.Dototal de

488

imigrantes

que foram recebidos de forma

ínstítucíonalízada,

a imensa maioria foi para

outrascidadescatarinenses.

Apenas

26 ficaram

na

Capital,

sendo quenove moram nolocal de

trabalho,

dois

alugaram

residência e 15 vivem

em

abrigos

públicos

da

prefeitura.

Alfred é um

deles.

Toussaint está há quase quatro meses em

Florianópolis

eaindanãofoià

praia. Às

7h30sai

do

abrigo

da

prefeitura

noCentro, onde divide

quartocomoutrosdois

haitianos,

epegaoôni­ bus paraSão

José.

Chega

àoficina onde trabalha

com

limpeza

demotordecarro esentecheiro do cafépretorecém

preparado.

"Setomocafésem

leite,

nãodurmodenoite",brinca contorcendo

asbochechas magrasem uma

gargalhada.

Vol-"Deixaro Haiti não éuma escolha

fácil,

é

porcausadoscontextoshistóricoseda

opressão

queas

migrações

estão ocorrendo.No

passado

nós

chegamos

aser a colôniamais

produtiva

queahistóriatevenotícias.Se

hoje

estamospo­

bres é porque hámuitasfilosofiase

hegemonias

quenão aceitamotriunfo determossidoo

pri­

meiro

país

aaboliraescravidãoe afundaruma

república

negraliderada porum ex-escravo. O

que fizemos foi provaraomundoqueeleesta­

vaerrado. Poderíamos ser um modelopara as

etnias negras,mas somos

castigados.

Nãonosé

permitido

crescer,e épor isso queos haitianos

estão saindo. Muitosvendem tudo o que têm

paratentarumavidanova e

ajudar

adistância aos que

ficam,

enviando parte do salário que

adquirem

paraos familiares. Cercade 50% da

população

domeu

país

émantida

pela diáspora

haitiana.

Metade da

população

haitiana

se

mantém

com o

dinheiro enviado por

familiares que foram

trabalhar

em

outro

país

décadas,

oBrasil recebe

imigrantes,

das

mais diversas etnias, que colaboraram para

formaressa

nação

unificada. Lendo o livro de

Giiberto

Freyre

'Casa Grandee

Senzala',

perce­

bio

papel

quemuitoshaitianostiveram paraa

africanização

brasileira:trouxeramseusvalores

taparao

abrigo depois

de

almoçar

umpratode

frango,

arroz e

feijão.

Às

14h30,

saidenovopara

pegaroônibusrumo ao

segundo

emprego.Lim­

paumrestauranteem

Sambaqui

atéas23h30.

Nasceu no Haiti mas morou na

República

Dominicana dos 15 aos

33.

anos, trabalhando comovendedor defrutas e estudando paraser

mestrede obras. Osdois

países

dividem ailha

São

Domingos,

no

Caribe,

ehámuitasdécadas

oshaitianoscruzam afronteiraembusca de

tra-Florianópolis

recebeu

19

ônibus

com

imigrantes

que

chegaram

ao

país pela

ronteira do

Acre

balho.Delávoouaté

Colômbia,

edaColômbia

atéo

Equador.

Osonho de

chegar

ao Brasil se

aproximava lentamente,

em umamistura de calore

mosquitos

dentro do ônibus quedemo­

rouseisdias até

chegar

aoAcre. Passoumetade deummêsem um

abrigo

emRio Branco.

Quan­

do

questionado

setinhamuitaspessoasno

giná­

sio,ele

dispara

"Uuuui,

no

pudo

contar! Maisde três mil"sempremisturandoo creole haitiano com o

espanhol

que

aprendeu

na

República

Do­ minicanae umpoucode

português.

Quase

toda renda mensal de

R$

1800,

jun­

tandoosalário dos doisempregos,é enviadaao

Haiti para cobrira

educação

ecomida deseus

trêsfilhos

-Fredson,

WifredoeDavidson.De

res-eculturas contríbuíndo paraa

construção

des­

sa

grande

sociedade.O acordo

diplomático

que

existe entre os governos haitiano e

brasileiro,

desde

2004,

estimulaaescolha deste

país

como

destino. Nósviemos pararecomeçaruma nova

vida,

para

estudar,

paraservir, para

ajudar

no

progresso. Comosomosmaisde60mil

aqui

no

Brasil,

nãosedeveriapensarem'indivíduo hai­

tiano',massimem'sociedade haitiana'queestá

aqui

paracontribuir.

Porisso, queo meu

esforço

ede outras as­

sociações

deSanta Catarinaéa

criação

deum

conselho estadual dos

imigrantes,

para que eles

possam tervoz, e a

formulação

de

políticas

de

acolhimento que

façam

a

integração

das hai­

tianasedos haitianosnasociedadecatarinense.

Porque

inclusão social não se faz fornecendo

carteira de trabalhoeofertando empregos que osbrasileirosnão querem realizar.

Paramim,omaior

equívoco

quesecomete

é olharos

imigrantes

haitianos-africanos

pela

suavulnerabilidade econômica com

piedade,

emvezde

percebê-los

comopessoas que têm

valores,

que têm

capacitação

pra andar com seus

próprios pés.

Nóstemosmuitoaoferecer.

É preciso

entenderarealidade

social,

arealida­

de históricae arealidade dosistema

capitalista

queestamosvivendo. Háestapassagem queme

inspira

muito:

'enquanto

oleãonãosabe

falar,

ahistória sempre será contada

pelos

caçado-res.'"

.

to, Alfred gastacom passagensdeônibus para

irdotrabalhoao

abrigo municipal

e,devez em

quando,

tomaumsuco.Comamorteda esposa

dominicana,

os meninos foram morar com a

avónointeriordoHaiti. Toussaintrepetevárias

vezesque estámuito

preocupado

comos filhos.

Sabe queestãocomendo malenão vão àesco­

la todososdias.Conversasemanalmentecom a

família,

masporpoucotempo.Ele

explica

queo

cartãotelefônicoque compra por

R$lO

dura três

ouquatrominutosde

ligação.

DeixouoHaiti porserdifícil

conseguir

traba­

lhosemsaber falar

inglês

e

francês,

sendoesta

a

língua

ensinadanas escolasmasque poucos

dominam.

Alfred,

assimcomo amaioriadapo­

pulação

haitiana,

falao creole que também é

idiomaoficial. Foiembora da

República

Domi­ nicana

pela

violênciacontrahaitianos que,se­

gundo

ele,

estãosendo

"picados"

commachado.

Alfredcontaque quase nãoconversava com os

dominicanos,

porque estavammatando haitia­

nos semmotivo. Oconflito violentoentreosdois

países

éhistórico.

Alfredsemprelevanacarteiraseudocumento

provisório

de identidade de

estrangeiro

feitono

país

queconhece desdepequeno

pela

televisão.

Quer

compraruma casa evivernoBrasil com os

filhos,

visitandooHaiti porum oudoismeses,

duranteasférias. Acorda todososdias

pensando

emtrazerostrêsfilhos parapertoeafirmacon­

victo,enumerandoalista do que será necessário:

conseguir

ovistode

permanência, alugar

uma casa e

juntar

dinheiro paraaspassagens.

(6)

Formas

dos surdos

se cornurucarem

Ananda contaque fezo

implantesonhandoem

conseguirsecomunicar facilmente,mas a

adaptaçãofoi muitodifícil

causam

divergência

Com

uma

língua

oficial

e um

estilo

de vida

característico,

comunidade

ainda

pouco

discute

quais

são

as

melhores

formas

de

facilitar

o

diálogo

com a

sociedade

/

ECada

vezmaiscomum vermospes­ soas nas ruasconversando através

degestos,por meioda

Linguagem

Brasileira de Sinais, mais conhe­ cidacomoLibras.Essa

linguagem

é

gestual

eutilizada

pela

maioriados surdos no

pais,

masnão são apenaselesque

podem

se comunicar dessa forma. Além das suas

farm1ias e

amigos,

também existem outros

interessados em

aprender

a

língua

para se

comunicarcomeles. Atualmente diversaspes­ soas se sentem pertencentes à comunidade

surda,

que

possui

umacultura

própria

com seuscostumes,sua

língua

eseumodo de vida.

Segundo

a

Organização

Mundial da Saúde

(OMS),

em 2011, 28milhões de brasileiros

possuíam

algum

tipo

de

problema

auditivo,

quase 15% do total de 190 milhões de bra­ sileiros. Destes, conforme uma

pesquisa

do

InstitutoBrasileiro de

Geografia

eEstatística

(IBGE)

realizadaem 2010, quase dois mil­

hões tinham deficiência auditivasevera

(1,7

milhõestêm

grande

dificuldadepara ouvire

344,2

milsão

surdos).

Dentreos

surdos,

ex­

istem

aqueles

quesecomunicam através da

língua

desinaise

aqueles

que são

oralizados,

ou

seja,

secomunicamatravésda fala orale

da leitura

labial/facial.

Existemaindaosque

são

bimodais,

ou

seja,

secomunicamdas duas

formas,

dominandoo

Português

e aLibras.

Muitos se confundem e acreditam que Libras é apenas um

conjunto

de gestos e

mímicas,

mas naverdadeéuma

língua

com

gramática

eestrutura

própria

ediferente do

português.

Nãoécomo o

Braille,

por

exemplo,

no

qual

se escreve uma

palavra

pormeiode um

conjunto

depontos

-querepresentamas

letras

-e suaestrutura

acompanha

ada lín­

guaportuguesa.ALibraséa

segunda língua

oficial do Brasil desdeo decreto

5626/2005,

que

regulamenta

a Lei número

10.436,

de 24 de abril de 2002. Estafoiuma

conquista

importante pois

reconheceuoidiomacomo

língua

maternada

população

surda do

país.

Aluta das comunidades surdas mundiais

paraquetivessemdireitoscomo esseémuito

antiga.

OsséculosXVIIIeXIXmarcaram ode­ bate sobrea

educação

dos surdos.Neste

perío­

do oralistasemanualistas- ouvintes

emsua

maioria- firmaramsuas

posições

pedagógi­

cas e suas

políticas.

Oralistassão pessoas que

defendema

oralização

dossurdosemanualis­

tassãofavoráveisàs

linguagens

desinais.

Algumas figuras

marcaram o

posiciona­

mentodos

oralistas,

como o médicoe edu­

cador

suíço, Johann

Konrad Ammann, que oralizavaseusalunos surdoseafirmava que a

língua

gestual

atrofiavaamenteem

relação

aodesenvolvimento da falaedopensamen­

to. Além

dele,

Samuel

Heinicke,

o

primeiro

educador a desenvolver uma

instrução

sis­

temáticaparaos surdosna

Alemanha,

tam­

bém consideravaquea

prioridade

noensino às

crianças

surdasera a

linguagem

faladae

quea

língua

desinais

poderia prejudicar

esta

aquisição.

Muitosforamosestudiosos

oralistas,

mas o nomemaisfamosoéode AlexanderGra­

ham

Bell,

filho de mãesurdae

pai

ouvinte

instrutordedeficientes auditivos. Ele defendia

a

oralização

pois

acreditavaquesóassimos

surdos

poderiam

ter uma

integração

social com omundo.Para

ele,

ousoda

linguagem

desinaisdeveriaser

proibido

pois

criariauma

comunidadecomtendênciaaocasamentoen­

tresurdoseisso tomaria

possível

quefosse for­ madauma

variação

surda daraçahumana.

Ométodo oralizado

(auditivo-verbal)

tra­ taasurdezcomo umadeficiênciaquedeveser

minimizada

pela estimulação

auditiva.Essa

(7)

estimulação

faz com que o surdo

aprenda

a

língua

orale

proporciona

sua

integração

nacomunidadeouvinte,semficarrestritoà

sua

própria

comunidade. "Achoessemétodo

legal

para quem quer

aprender

afalar. Eu

Estima-se

que

mais

de

9;%

dos surdos

têm

pais

que não

conhecem

a

língua

Brasileira

de

Sinais

sempre

quis

efacilita

bastante,

pois

me

ajuda.

Quando

eu

preciso

resolver urgentemente

algo,

consigo

falar 'oralizando'.Eu

aprendi

afalarporqueminhamãemeensinou.Ela

meestimulouair

repetindo

atéeu

aprender,

mas eunãofalo

perfeitamente,

consigo

se

forcomcalmae

devagar",

contaHarrisonAd­

ams,estudante de LibrasnaUFSCque

nas­ ceusurdoefoi oralizado

quando

cursava a2" série. Tantoosquesabem

ler,

escrever efalar

fluentemente,

quanto os alfabetizados não

fluentesna

fala,

sãoconsiderados oralizados.

MariaMadalena

Pinheiro,

professora

ad­

junta

de

fonoaudíología

daUFSCetambém

componenteda

equipe

de

Implante

Coclear doHU-UFSC,afirmaqueaLibras

pode

aux­

iliarapermeara

linguagem

oral. "Oqueac­

onteceéqueamaiorpartedos

pais

quenos

procuram não querem queseusfilhos falem comLibras".

Segundo

Sacks

(1998),

estima-se

quemaisde 95% dos surdossãofilhos de

pais

ouvintes que em suamaioria não tiveram

nenhum contato com a

Língua

de Sinais,

previamente.

Com isso,

algumas

crianças

acabam

apresentando

isolamento

psicológico

enãorendendotantona

aprendizagem

lin­

guística

e na

comunicação

comoutraspes­

soas.

Alguns

dos recursos para

capacitar

o

deficiente auditivoadesenvolveroumanter

a

linguagem

oraleescritaenvolvemsessões

com

fonoaudiólogos,

leitura

labial,

uso de

aparelhos auditivos, implantes cocleares,

leg-endas,

equipamentos

parafacilitara comu­

nicação

e

participação

ativada família.Para

AlexandreBet,surdo desdeo

primeiro

anode

idadeeoralizado ainda

criança,

o

aprendiza­

dofoi bastante

difícil,

"pois

praticava

somente

a

oralização

das

palavras

deumasentençado

inicio atéo

fim,

nãosabiaoqueas

palavras

significavam

nem ocontextodas

sentenças".

Oprocesso de

oralização

de surdos dura de8a12 anos,

dependendo

de fatorescomo a

época

da

perda auditiva,

ograuda

perda,

a

participação

dafamílianesseprocesso,entre outros.A

professora

MariaMadalena Pinheiro afirma queafalta detreinamento

atrapalha

odesenvolvimento da

linguagem

oraleque os

pais

eafamília devem sempre

reforçar

o

aprendizado

em casa. Harrisson conta que

"mesmonaminha

família,

àsvezes,mees­

quecemevãofalando

rápido

dificultandoo meuentendimento".

Devido a essas dificuldades do processo

de

oralização,

os manualistas acabaram

ganhando força

e agora são maioria. Um

dos nomesmaisfortesnesse cenário éodo

A

condição

desafia

a

compreensão

ética

na

medicina,

pois

não

como

afirmar

se

é

uma

patologia

Dr. HarlanLane,

psicólogo

e

especialista

na

culturasurda.Paraelee amaiorparte da comunidade

surda,

surdeznãoédeficiência.

I

Esta

comu1dade

sedefinecomo

estrangeiros

emuma

cultura oral,

na

qual

eles afirmam

ser erroneamente considerados deficientes

porqueseexpressamemoutro

idioma,

alin­

guagemdossinais. Aideia éadeque

qualquer

estrangeiro

senteo

choque

culturalao se ver

cercado por pessoas de culturae

língua

difer­

entese,senãocontarcom abenevolência do

grupo,sesentiráisoladoenão

conseguirá

se

comunicar

-assimcomo ossurdosemmeio

aosouvintes.

Aestudante de Libras da

UFSC,AnandaLoiolaSomões

Elias,

nasceu surda e fez o

implante

coclear em 2008.

"Eu mesinto à vontadena

comunidade e na cultura

surda.Sinto queémais

leve,

fácile

rápido

se comunicar

em Libras. Eu

agradeço

à

comunidade surda porque

aprendi

muito.Antes,eunão

tinhamuita

informação,

eu era 'boba' e todos tinham

penademimporqueeunão

tinha

opinião

própria.

Depois

de conhecer

Libras,

ganhei

muitascoisas",conta. A comunidade surda se

identifica tanto com essas

ideias que

houve casos

de casaissurdos que procu­

raram métodos de

seleção

embrionária para que seus

filhos nascessem surdos e se identificassem cultural­

mente com seus

pais,

como

constano

artigo

Autonomia

reprodutiva:

um estudo de casosobrea

surdez,

produz­

ido

pela antropóloga

Debora

Diniz. Fora isso, muitas

comu-nidades surdas de diversos

países

vêm apre­

sentando resistência em

relação

aos trata­ mentospara surdeze aos

implantes

cocleares.

Essa tensãoentre argumentos de anormali­ dade físicaenormalidade culturaltrazmuita

discussãoefaz da surdezumcaso-limite que

desafia a

compreensão

ética na

medicina,

pois

nãohá

parâmetro

paraafirmarseéou

nãouma

patologia.

Vendoporesse

lado,

acomunidade surda

nãose apresenta,dopontodevista

político,

como ummovimentode

deficientes,

seaprox­

ima maisdemovimentoscomoofeministae osanti-racistas. A

ex-presidente

da

Associação

Estadunidense de

Surdos,

Roslyn

Rosen,

afir-Harrison Adamsé aluno da UFSCefoi oralizado no Ensino Fundamental

ma:"Sou felizcomo sou enão

gostaria

deser

'curada'. Emnossa

sociedade,

todos concor

damquebrancos têmumavida melhor que

negros, mas

alguém

imaginariauma

pessoa

negrafazendouma

operação

parasetornar

branca?" Entender a surdez como apenas uma

variação

de

língua

e

cultura,

é difícil

para quem está acostumado a vê-la como umadeficiênciae abalaos

padrões

de nor­

malidade.Ficafácil entenderporqueateoria

deLane é tão controversamesmo entreos

surdos.

1

I

Leise Silva [email protected] Bruna Ritscher [email protected]

Saiba

como

funcionam

os

implantes

cocleares

O

implante

coclear é visto como uma

salvação

para

alguns

ecomo umatentativa

de extermínio da cultura surda poroutros,

justamente

portrazeruma"cura"para

algo

que não seriauma

doença.

Eleéum

aparelho

eletrônicoutilizado pararestaurara

audição

nos

pacientes

portadores

de surdez

profunda

que nãosebeneficiam dos

aparelhos

conven­

cionais. O

implante

tem dois componentes.

Ointerno,queéumapartedentro da códea

ligada

a umdecodificador que fica atrás da

orelha,

porbaixoda

pele.

Oexternaécom­

postaporum

processador

de

fala,

uma an­

tena transmissora e um microfone.

Depois

doprocessode

programação

e

adaptação,

o

implante

é

responsável

por estimularo nervo

auditivo atravésde pequenos eletrodose ossi­ nais sãolevados

pelo

nervoatéocérebro.

O

Hospital

Universitário daUFSC écreden­ ciadoaoMinistérioda Saúde

pela

portaria

de

Implante

Cocleat Desde

2011,

realiza duas

cirurgias

por mês. Ocandidatoao

implante

devetersurdezsevera ou

profunda

bilaterale

provarque

após

o usode

prótese

auditivanão

obteve benefício.A

avaliação

ocorre emtrês etapas:

médica, fonoaudiológica

e

psicológi­

ca.

Alguns

dos insucessos são:

alterações

anatômicasno

ouvido,

infecção

e necroseda

pele,

tonturaou

paralisia

facial.

Anandacontaque

quando

fezo

implante

sonhava em secomunicar

facilmente,

mas oprocesso de

adaptação

édifícileelanãose

acostumou. "Eume assustavacom os sons.

Não

conseguia

meconcentraremapenasum.

Além

disso,

meucorpomudoumuito. Eudan­ çavae amavanadar bem

fundo,

agora não possonem

balançar

a

cabeça.

Eu

perdi

mui­ tascoisasquegostavade fazereagorasinto

dor!

Quando

decidiparardeusar o

implante,

a maiorparte da minha família

perdeu

a

paciência.

Nãoabriam espaço paramimnas conversas e

agiam

como se eunão estivesse

ali". Ananda reclama quenãoconsegue dor­ mir do lado onde fica o

implante.

"Tenho

muitavontade de tirar! Meus

pais

querem muito

também,

porque eles não aguentam mais que eu reclame da dor.

Quero

viver

livre!",

confessaAnanda. Aantenae oimã fixamaunidade externaecaptam ossinaiselétricos ' .. ofeixe de eletrodos é colocado dentro dacóclea,em forma de caracol eé

ligada

ao receptor. oreceptorconverte ossinaisem

impulsos

elétricos que são enviados para acóclea

Eletrodos

estimulamo nervo

auditivo que leva .... as

informações

paraocérebro.

Parte Interna

Parte

Externa

Aantena transmissora enviaos sinais parao componente interno o

processador

derala seleciona ecodifica os elementosde fala ... ... o microfonecapta os sons

ZERO

Novembro de 2015

Referências

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