Resgate – História e Arte
A MEMÓRIA DA CIDADE E O RESTAURO *
Vou fazer como costumamos quando pegamos um livro novo ou uma revista nova, e damos uma olhada rápida em busca de ilustrações. Olhamos sem muita atenção fotos, desenhos, dando uma espiadela na legenda de uma outra dessas ilustrações. Depois lemos os textos e, aí sim, voltamos às fotos e desenhos, prestando maior atenção aos mesmos, se necessário
Foto 2007 (Carlos – IPHAN)
Foto 2007 (Carlos – IPHAN)
Resgate – História e Arte
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Foto 2008 (Carlos – IPHAN)
Resgate – História e Arte
[Depois de projetar essas imagens, de fotos antigas (de 1942) com as dos trabalhos de restauro executados em 2007 e 2008, retomei a palavra, conforme texto reproduzido abaixo.]
Eu acho que o que me credencia a estar aqui é o fato de estar nos últimos três, quatro anos, propondo e coordenando alguns trabalhos de restauração de pinturas do período colonial numa antiga capela de Terceiros Camelitanos da cidade de S. Paulo.
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Esses trabalhos, por sua vez, são conseqüência de um anterior, que reuniu um conjunto de pesquisas feitas para subsidiar o processo de tombamento que resultou na aplicação do Decreto-lei 25 em 1996, colocando sob a proteção do IPHAN especialmente uma parte ainda não tombada da obra pictórica de Padre Jesuíno do Monte Carmelo, entre as quais estão as pinturas que executou para a antiga igreja das Irmãs Carmelitas de S. Paulo (que não existe mais), constituídas por vinte e dois caixotões contando a vida de Santa Teresa e que adornavam a capela-mor daquela igreja, e hoje estão recolhidos e expostos nas paredes do corredor lateral da igreja da Ordem Terceira do Carmo, e mais as pinturas que ele executou nesta última nos forros da capela-mór e da nave, entre 1796 e 1798.
Neste processo de tombamento, foram incluídos outros bens que constituem o patrimônio artístico, arquitetônico e documental da igreja que, uma vez protegidos pelo órgão federal de preservação, abriu as portas para que iniciássemos um trabalho de valorização desse mesmo patrimônio.
O primeiro desses trabalhos ocorreu em 2006/2007 com a restauração de uma pintura existente no forro da sacristia, pintada pelo que a literatura histórica aponta como o Mestre ou um dos mestres de Jesuíno – o pintor José Patrício da Silva Manso. [Trouxe pra vocês alguns libretos que confeccionamos em 2007 para divulgar os trabalhos tanto de restauração como das pesquisas que a ação envolveu.]
Em seguida, demos início aos trabalhos de restauração das pinturas de Padre Jesuíno do Monte Carmelo que compreenderam até aqui o seguinte:
1ª Fase – investigações por meio de prospecções mecânicas na área central do forro da nave, que confirmaram hipótese levantada em 1942 por Mário de Andrade de que existiria um painel de Jesuíno encoberto depois por uma ou outras pinturas – o que a tornaram invisível até hoje.
A confirmação da existência desse painel central, permitiu-nos propor a continuação dos trabalhos numa
2ª Fase – que foi realizada no ano passado, em 2008, qual seja o resgate de parte desse painel central, através do que chamamos de projeto piloto que consistiu em trabalhos de remoção das pinturas que se lhe sobrepuseram numa área de aproximadamente 12 m², complementada por uma reintegração cromática pontual, procurando preservar o máximo de fidelidade possível à pintura original de 1796.
Ainda nesta 2ª Fase, realizamos investigações no forro da capela-mor, de maneira a nos certificarmos da existência da pintura original de Jesuíno sob as “restaurações” (entre aspas porque tratavam-se de repintar sobre as pinturas anteriores já repintadas sobre a original) que se lhe fizeram posteriormente, cada vez mais ocultando a pintura primitiva.
Descobrimos aqui também o que a pesquisa histórica já de certa maneira previa, qual seja, a da existência de uma pintura por debaixo da de Jesuíno, executada cerca de 13 anos antes por José Patrício da Silva Manso (em 1784) quando também foi contratado pela Ordem Terceira para pintar a tela Nossa Senhora com o Menino e a Santa Teresa e coloca-la no teto da sacristia.
Bem, entraremos em breve na
3ª Fase – que, grosso modo, compreenderá os serviços de restauro por sobre toda a pintura executada por Jesuíno no restante do forro da nave e do coro, bem como da capela-mor.
Bem, é neste ponto de minha explanação que eu penso estar entrando propriamente na questão colocada para o debate.
O resgate desta pintura e de outras mais ainda escondidas sob camadas de sobre-pinturas só será possível através do restauro.
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E atente-se para o fato de que este painel central agora resgatado (ou restaurado) havia se perdido completamente: ninguém, nenhum membro da irmandade guardava na memória nada que pudesse auxiliar nas investigações que fizemos para a sua recuperação; os documentos de seu rico Arquivo, por falha, ignorância, irresponsabilidade, sabe-se lá porquê, nenhuma informação contem que nos permita conhecer o que de fato aconteceu, quando aconteceu, e porque se resolveu recobrir com pinturas de qualidade muito inferior este esplêndido painel de Jesuíno. Há, pois um ingrediente aí de mistério na história que não deixa de dar um certo sabor e estimular a nossa imaginação.
Mas o certo é que não havia memória alguma dessa pintura. Nenhuma pessoa, nenhum documento, muito menos uma foto foi encontrada. Nem ao menos encontramos uma referência feita por algum dos viajantes estrangeiros que nos visitaram no século XIX; ou por algum escritor, algum artista ou intelectual que tenha escrito alguma coisa sobre este painel. Estendendo isso que estou falando para um âmbito maior: a cidade, ela não sabia mais da sua existência. Não tinha memória alguma sobre ela.
Trata-se, como já dá para perceber, de uma belíssima pintura. Um crítico de arte bastante conhecido já me manifestou que o seu resgate constitui
“um trabalho impressionante. A pintura pré-existente é de qualidade muito alta, e sua redescoberta significa uma contribuição de primeira grandeza para as artes brasileiras.”
É lógico que o trabalho do restaurador não teria acontecido não fosse a inteligência, a perspicácia, a capacidade analítica e o conhecimento que Mário de Andrade possuía a respeito da Arte Brasileira e a sorte que nós tivemos de tê-lo aqui entre nós paulistanos, trabalhando no IPHAN que ele próprio concebeu e propôs. Como vocês sabem, Mario de Andrade é o autor do projeto que viria a dar nascimento, embora modificado e um pouco menos amplo em suas atribuições, ao órgão federal de preservação. Assim, como devem saber também, que foi ele quem concebeu, criou e dirigiu o Departamento de Cultura do Município de S. Paulo, hoje Secretaria de Cultura – que, numa certa medida, é o grande depositário da memória da cidade. Em 1942, com o auxílio do arquiteto Luis Saia, Mario de Andrade formulou a hipótese da existência de um painel de Padre Jesuíno do Monte Carmelo, após colher informações junto ao tesoureiro da Ordem Terceira das obras que haviam sido realizadas na igreja, especialmente as que foram executadas sob a direção do arquiteto Ricardo Severo.
O que fizemos foi apenas continuar as investigações, e aguardar as condições para que o trabalho pudesse enfim se realizar. Na época de Mário de Andrade não havia no país restaurador algum capacitado para este trabalho. O IPHAN contaria depois com um único restaurador, o professor Edson Mota, que exerceria o ofício sozinho por longos anos e que, no ano de 1959, faria uma primeira investigação neste forro, atestando a existência de uma pintura antiga por debaixo da existente.
O trabalho efetivamente só pode ser iniciado há dois anos atrás, em 2007, quando fizemos as primeiras prospecções e colhemos informações de sua real existência - o que nos permitiu propor e executar o Projeto Piloto que restaurou cerca de 12 m² do painel central e nos encorajou agora a propor a restauração das pinturas todas do forro da igreja que estimamos realizar num prazo de aproximadamente dois anos.
É, em resumo, o que vimos realizando na igreja da Ordem Terceira do Carmo com o apoio do restaurador Julio Moraes e sua equipe.
Algumas outras coisas eu poderia acrescentar:
1ª - que a proposição deste trabalho de restauração é resultado direto das atribuições técnicas do órgão. O IPHAN tem como finalidade não apenas tombar os bens culturais, mas produzir conhecimento sobre os mesmos, através de seu corpo técnico. Esse conhecimento,
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por sua vez, resulta em novos projetos de trabalho, como este, que teve por objetivo re-descobrir um painel colonial que havia, digamos assim, desaparecido da memória da sociedade. E agora se trata de resgatá-lo por inteiro, através dos serviços de restauração, tendo como já disse o propósito de reconstituir a pintura o mais fielmente possível.
A 2ª coisa que quero dizer é sobre a VALORIZAÇÃO que tanto os trabalhos realizados pelo IPHAN merecem ser enaltecidos, como e sobre tudo a obra pictórica de Padre Jesuíno do Monte Carmelo deve e vai merecer. É claro que o IPHAN redescobrindo essas pinturas e restaurando-as convenientemente, estará já disponibilizando para os especialistas e estudiosos da Arte Brasileira um material extraordinário e autêntico, pois serão removidos todas as sobre-pinturas que se lhes fizeram no passado à título de “restauração”. Será o momento de revisão de tudo quanto antes se fez de análise de sua obra. E isso ocorrerá cerca de 65 anos após a publicação dos estudos de Mario de Andrade sobre a Vida e a Obra de Padre Jesuíno do Monte Carmelo.
A 3ª coisa é o que isso implica para a Cidade de São Paulo.
Será um ganho extraordinário, não há dúvida. Chamará a atenção não só de especialistas, mas também do público em geral.
Mas aí é começam alguns problemas. A própria localização da igreja, num local de grande movimento, mas não isento de problemas (muito pelo contrário), já é indicativo de uma certa preocupação por parte da Ordem Terceira do Carmo. Sobre tudo por ela não possuir um quadro de funcionários e não contar com um sistema de segurança que lhe dê tranqüilidade.
Por outro lado, quando dermos continuidade aos trabalhos já na dimensão de sua Valorização, seremos obrigados a considerar a questão da Segurança. Além das pinturas, o seu acervo é riquíssimo do ponto de vista artístico em imagens e alfaias do período colonial.
Este de certo é o ponto de contradição. Que não é exclusivo desta igreja, mas de todo o patrimônio cultural da cidade. E daí a questão: como incrementar junto à população o conhecimento acerca de nosso patrimônio cultural, provocando-a a visitar os monumentos e apreciar seus ricos acervos, sem colocar em risco a segurança dos mesmos.
Aqui certamente abre-se um espaço onde eu vejo a contribuição de instituições como a Associação Viva o Centro.