http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/4403/5/Carlos%20Henrique%20Teixeira%20de%20Ara%C3%BAjo
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(2) CARLOS HENRIQUE TEIXEIRA DE ARAÚJO. TEXTOS MOTIVADORES DO ENEM, DA FUVEST E DO MACKENZIE: uma análise retórica das propostas de redação. Dissertação apresentada ao programa de PósGraduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Letras.. Orientador: Prof. Dr. Ronaldo de Oliveira Batista. São Paulo 2020. 2.
(3) 3.
(4) Folha de Identificação da Agência de Financiamento. Autor: Carlos Henrique Teixeira de Araújo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras Título do Trabalho: Textos motivadores do Enem, da Fuvest e do Mackenzie: uma análise retórica O presente trabalho foi realizado com o apoio de 1: CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo Instituto Presbiteriano Mackenzie/Isenção integral de Mensalidades e Taxas MACKPESQUISA - Fundo Mackenzie de Pesquisa Empresa/Indústria: Outro: 1. Observação: caso tenha usufruído mais de um apoio ou benefício, selecione-os.. 4.
(5) 5.
(6) Aos meus pais, dedico este trabalho. E a todos que se atrevem a sonhar.. 6.
(7) AGRADECIMENTOS. Agradeço aos meus pais – Maria Teixeira da Silva e Nelson Souza de Araújo – por todo o apoio no âmbito acadêmico e familiar. Ao Prof. Dr. Ronaldo de Oliveira Batista, orientador e melhor professor que já tive, que me acolheu, ajudando-me paciente e honestamente a realizar este trabalho. Ao Fundo Mackenzie de Pesquisa – MackPesquisa – pelo apoio financeiro concedido a mim. E também agradeço ao fundo de Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pela bolsa concedida a mim. Aos melhores professores que pude ter no Mackenzie: Profa. Dra. Marlise Vaz Bridi, Profa. Dra. Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos, Profa. Dra. Maria Helena de Moura Neves, Prof. Dr. José Gaston Hilgert, Profa. Dra. Regina Helena Pires Brito, Profa. Dra. Maria Lucia Marcondes Carvalho Vasconcelos e a Profa. Dra. Diana Luz Pessoa de Barros. Aos professores convidados para compor a banca examinadora, Profa. Dra. Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos e Profa. Dra. Vanda Maria Elias. Aos professores que me incentivaram, desde a graduação, a prosseguir nos estudos e na pesquisa: Profa. Ms. Cynthia Pichini, Profa. Dra. Maria Vera Cardoso Torrecillas, Profa. Dra. Érika Matos, Profa. Dra. Beatriz, Prof. Dr. Jairo Postal e Prof. Daniel Paulo. E a todos os meus professores da graduação da Universidade São Judas Tadeu. À minha família, que me auxiliou nos momentos de ansiedade: João Paulo, Fabrício, Ana Paula, Milena Martins. Ao meu amigo que também esteve ao meu lado, ajudando-me e incentivando-me nos momentos mais difíceis, Thiago Pinheiro. À Mônica Peralli Broti, que constantemente me fez crescer intelectual e pessoalmente, mostrando-me que as narrativas são essenciais para a sensibilidade no contexto atual.. 7.
(8) Aos meus amigos e colegas do Mackenzie, com quem pude crescer não só no meio da pesquisa, mas também na vida. Obrigado pelo apoio. E a todos que, mesmo de maneira indireta, me ampararam nesta caminhada.. 8.
(9) RESUMO A partir do exame de coletâneas de textos motivadores para a elaboração da redação nos exames do Enem (2009 e 2018), da Fuvest (2009 e 2018), da Universidade Presbiteriana Mackenzie (2009 e 2018), esta dissertação de mestrado, por meio de uma análise retórica, tem como objetivo descrever e analisar os procedimentos argumentativos presentes nos textos motivadores escolhidos pelas instituições indicadas para apresentar e/ou direcionar a temática a ser considerada na prova de redação para acesso a cursos universitários. Em termos mais específicos, o método da pesquisa e seus procedimentos contemplaram o exame analítico dos tipos de argumentos e de recursos retóricos empregados e presentes nos textos motivadores tendo em vista apresentar uma base a partir da qual os candidatos dos exames pudessem elaborar suas produções escritas. A análise retórica empreendida encontrou apoio em fundamentos da linguística textual e da análise do discurso de linha francesa, uma vez que considera que a persuasão é fenômeno textual e discursivo presente nos discursos retóricos, nos quais entram em interação auditório(s) e orador(es). Observou-se pela análise que há uma estabilidade no gênero discursivo “coletânea de textos motivadores para proposta de redação”, com a presença de estilo, funcionamento e organização estrutural semelhantes, a despeito da distância temporal englobada pelo material selecionado para análise. Uma síntese interpretativa do trabalho, além de mapear as estratégias argumentativas mais empregadas para efeito de persuasão e orientação da direção argumentativa a ser adotada pelos candidatos dos exames, aponta também para uma reflexão a respeito de um trabalho com o texto na educação básica que contemple também o componente retórico da língua.. PALAVRAS-CHAVE: Retórica. Argumentação. Redação. Vestibular. Enem. Textos Motivadores.. 9.
(10) ABSTRACT. From the analysis of a collections of entrance exam texts to guide the text production in the entrance examination of Enem (2009 and 2018), of Fuvest (2009 and 2018) and of Mackenzie Presbyterian University (2009 and 2018), this master’s thesis, through a rhetoric analysis, aims at describing and analyzing the existent and available argumentative procedures in the motivating texts chosen by the described institutions to set forth or to direct the subject of discussion to be considered in the text production exam as a way to access the higher education. In a more specific term, the research method and its procedures contemplate analytical examination of the types of arguments and rhetorical resources applied and prevalent in the motivating texts in terms of to present a base from which candidates could elaborate their own writing in the text production test. The undertaken rhetorical analysis found support on the fundamentals of Text Linguistic and Discourse Analysis, to the extent that it considers persuasion as a text and a discursive component current in rhetorical discourses, in which gets in interaction auditorium and speaker. It was noticed through the analysis that there is a stability in the genre – motivating texts in the entrance exam – with the presence of style, operation and structural organization, despite the temporal distance encompassed by the material selected for analysis. An interpretative synthesis, besides mapping the most applied argumentative strategies in order to obtain effectiveness in persuasion and to set the argumentative direction to be taken by the candidates in the exam, points to a reflection concerning working with text in secondary education which also includes the languages’ rhetorical component.. Keywords: Rhetoric. Argumentation. Text Production. Entrance Exam. Enem. Motivating Text. 10.
(11) LISTA DE FIGURAS. Figura 1 – Proposta de Redação, Enem, 2009 ................................................................................................... 48 Figura 2 – Proposta de Redação, Fuvest, 2009.................................................................................................. 49 Figura 3 - Proposta de Redação, Mackenzie, 2009 .......................................................................................... 50 Figura 4 - Proposta de Redação, Enem, 2018 .................................................................................................... 51 Figura 5 – Proposta de Redação, Fuvest, 2018 ................................... Erro! Indicador não definido. Figura 6 - Proposta de Redação, Mackenzie, 2018 ............................. Erro! Indicador não definido. Figura 7- Enem: Proposta de redação, 2009 .......................................... Erro! Indicador não definido. Figura 8- Enem: Millôr Fernandes, 2009............................................................................................................. 83 Figura 9 – Enem: Ponto de vista, 2009 ................................................................................................................. 85 Figura 10 – Enem: A armadilha da corrupção, 2009 ...................................................................................... 90 Figura 11– Enem: instruções para a redação, 2018 ......................................................................................... 92 Figura 12 - Enem: O gosto na era do algoritmo, 2018 ................................................................................... 93 Figura 13 - Enem: A silenciosa ditadura do algoritmo, 2018 ...................................................................... 95 Figura 14 - Enem: Utilização da internet, 2018 ................................................................................................ 96 Figura 15 - Enem: Como a internet influencia secretamente nossas escolhas, 2018 .......................... 97 Figura 16 - Enem: Proposta de redação, 2018 ................................................................................................... 98 Figura 17 – Fuvest: Holanda e Bélgica, 2009 ................................................................................................. 101 Figura 18 – Fuvest: Fronteira, 2009.................................................................................................................... 104 Figura 19 – Fuvest: 2009 ........................................................................................................................................ 107 Figura 20 – Fuvest: Instruções, 2009 ................................................................................................................. 110 Figura 21 - Fuvest, 2018 ......................................................................................................................................... 112 Figura 22 – Fuvest: Isto é, 2018 ........................................................................................................................... 115 Figura 23 – Fuvest: Folha de São Paulo, 2018 ............................................................................................... 119 Figura 24 – Fuvest: Santander, 2018 .................................................................................................................. 121 Figura 25 – Fuvest: Solange Farkas, 2018 ....................................................................................................... 124 Figura 26 – Fuvest: Instruções, 2018 ................................................................................................................. 126 Figura 27 - Mackenzie, 2009 ................................................................................................................................. 127 Figura 28 – Mackenzie: Nado Reis e Samuel Rosa, 2009 ......................................................................... 129 Figura 29 – Mackenzie: João Pereira Coutinho, 2009 ................................................................................. 132 Figura 30 – Mackenzie: Rebelado, 2008 .......................................................................................................... 134 Figura 31 – Mackenzie: BBC Brasil, 2009 ...................................................................................................... 136 Figura 32 – Mackenzie: 2018 ................................................................................................................................ 139 Figura 33 – Mackenzie: Sociologia em movimento, 2018......................................................................... 140 Figura 34 – Mackenzie: Mia Couto, 2018 ........................................................................................................ 142 Figura 35 – Mackenzie: André Monnerat, 2018 ............................................................................................ 144. 11.
(12) LISTA DE QUADROS Tabela 1 - Fonte: Inep – Ministério da Educação (p. 8) ................................................................................. 55 Tabela 2 - Fonte: Inep – Ministério da Educação (p. 17) .............................................................................. 56 Tabela 3 - Fonte: Inep – Ministério da Educação (p. 19) .............................................................................. 58 Tabela 4 - Fonte: Inep – Ministério da Educação (p. 22) .............................................................................. 59. 12.
(13) SUMÁRIO. Agradecimentos............................................................................................... 07. Resumo e palavras-chave................................................................................ 09. Abstract e keywords........................................................................................ 10. Lista de figuras................................................................................................ 11. Lista de quadros.............................................................................................. 12. Introdução....................................................................................................... 14. Capítulo 1: A Retórica como campo de análise............................................. 26. 1.1 Retórica, argumentação e discurso.................................................. 26. 1.2 A presença da Retórica na contemporaneidade............................... 33. Capítulo 2: Método: material e procedimentos analíticos............................... 47. 2.1 Material de análise........................................................................... 47. 2.2 Critérios de seleção do material de análise...................................... 72. 2.3 Parâmetros de análise do material.................................................... 73. Capítulo 3: Uma análise retórica dos textos motivadores de redação............. 77. 3.1 Enem, propostas de redação, textos motivadores............................. 77. 3.2 Fuvest, propostas de redação, textos motivadores........................... 101. 3.3 Mackenzie, propostas de redação, textos motivadores.................... 127. Conclusão........................................................................................................ 148. Referências Bibliográficas.............................................................................. 153. 13.
(14) INTRODUÇÃO Sabe-se que a comunicação é fundamental para o fazer social numa dada sociedade e numa dada cultura – isto é, numa época, num contexto histórico, social e ideológico. Logo, o sistema linguístico e seu uso tornam-se ferramenta essencial para a obtenção de direitos e deveres em qualquer esfera interacional. Dessa forma, o desenvolvimento de uma capacidade linguística não deve ser apenas normativo, ou seja, a aquisição de um arcabouço de regras descontextualizadas para o falante, mas sim contextualizada – pleno domínio dos saberes linguísticos a fim de persuadir o interlocutor de suas opiniões e ideias. Sendo a língua fator que determina o homem, a linguagem é imanente e intrínseca a ele, visto que não serve apenas para a comunicação, mas também como fator de sobrevivência (BENVENISTE, 1989[1974]). Como diz Benveniste: “eu diria que, bem antes de servir para comunicar, a língua serve para viver” (1989[1974], p. 222). Situar-se numa sociedade requer amplo domínio de língua – seja formal, seja informal –, quer dizer, um rol pragmático extenso, já que o contexto situacional demanda usos que podem vir a fugir do cânone até então estudado em sala de aula. Por conseguinte, a língua não é um mecanismo estanque de uma realidade vivencial: ela é produto de interações contextualizadas e situações reais. A comunicação reivindica um apurado grau de detalhamento, pois exige que os falantes estejam atentos à alta gama de possibilidades de significação, já que o sentido da linguagem é construído em sua execução num cenário comunicativo determinado: no momento da enunciação; cenário esse que pede adaptabilidade do enunciador para com seu interlocutor. Dessa forma, a adequação linguística faz-se importante dentro de um espectro genérico, etário e social, entre outros fatores, para que a comunicação seja de fato prática significativa e efetiva em processos dinâmicos de interação verbal. As dinâmicas dos processos comunicativos, por meio da contínua expansão tecnológica, principalmente a partir do século XX com as chamadas novas tecnologias de informação e comunicação, modificaram-se e obrigaram, por assim dizer, grande parte das pessoas a situar-se nas mídias sociais, em meio a diferentes formas de diálogo e. 14.
(15) leituras do mundo. O rápido desenvolvimento da tecnologia levou, em alguns aspectos, a um impacto na língua, já que saber situar-se nas esferas sociais e nas mídias on-line pede que o falante saiba utilizar o saber retórico 1 e o saber linguístico para se posicionar nesse ambiente, seja para opinar, seja para criticar, seja para adquirir novas informações. O crivo crítico – presente em adequadas escrita e compreensão de textos2 – nunca esteve tão em voga e se fez tão urgente, uma vez que a ciência da informática possibilita, a quem tem à disposição meios tecnológicos, o fácil acesso à informação e ao conhecimento. Em um recorte mais específico, a questão de um posicionamento linguístico em relação a leituras do mundo é algo com que alunos recém-saídos do Ensino Médio 3 precisam se deparar ao prestar o exame do vestibular ou ao realizar provas de aferição de graus de conhecimento (como o Enem), mais especificamente em uma prova de redação de texto dissertativo-argumentativo4 para a admissão no âmbito universitário. Pesquisas de natureza acadêmica ou trabalhos com perspectiva de orientação didática a respeito da redação 5 em processos vestibulares ou em exames que medem capacidades linguísticas de estudantes não são difíceis de encontrar (cf., por exemplo, COELHO, 2015; COLELLO, 2017; COSTA VAL, 2004; ELIAS [org.], 2011; KÖCHE,. 1. O saber retórico, aqui, será tido como a habilidade de usar a língua argumentativamente, mobilizando, assim, recursos linguísticos para atingir a persuasão. Adotar-se-á, também, retórica e argumentação como sendo sinônimos, ou seja, “toda utilização estratégica de um sistema significante pode ser legitimamente considerada como uma retórica” (PLANTIN, 2008, p. 9). 2 Nesta dissertação, não se fará uma distinção restrita entre texto e discurso, e ambos os termos serão utilizados para referência a unidades linguísticas que são elaboradas em torno de estratégias de argumentação tendo em vista a persuasão. Nos estudos sobre retórica e argumentação, há o uso, respectivamente, dos termos discurso, como em Ferreira (2010), e texto, como em Koch; Elias (2016). Discurso em uma análise retórica refere-se a “toda produção verbal, escrita ou oral, constituída por uma frase ou por uma sequência de frases, que tenha começo e fim e apresente certa unidade de sentido” (REBOUL, 2000, p. xiv). Como se pode ver nesta última definição, a noção de discurso em análise retórica compreende também a noção de texto para muitas teorias linguísticas. 3 Focar-se-á nos alunos recém-saídos do Ensino Médio, ou seja, alunos com idade entre 16 e 18 anos. Há situações em que os alunos, mesmo formados no ensino básico, prestam o exame de vestibular, por exemplo, em outro momento de suas vidas, sendo assim fora da faixa etária aqui delimitada. 4 Pensa-se nos textos dissertativos exigidos pelas instituições provedoras de vestibular ou de provas de aferição de graus de conhecimento, isto é, o tipo textual dissertativo-argumentativo. Como o objetivo desta dissertação não é a observação da produção textual dos candidatos, não será problematizada a caracterização de um tipo textual como dissertativo ou dissertativo-argumentativo em termos extensivos. 5 Como será definido a seguir, nosso objetivo não é analisar a produção textual ou a elaboração de redações. Desse modo, não se fará diferença entre as denominações “produção de texto” e “redação”, ainda que se tenha consciência de todo um debate em torno do que as denominações acarretam em termos de compreensão do ato de escrita.. 15.
(16) BOFF, MARINELLO, 2014; MARTINS, 1986; SAUTCHUK, 2003; SELBOCH, 2014; SOARES, 2009). No entanto, nosso recorte nesta dissertação é ainda mais específico, pois não trata das redações dos candidatos de exames de vestibular ou outras formas de avaliação de capacidades de leitura e escrita, mas sim das propostas de redação, em especial das coletâneas de textos motivadores para a produção escrita de candidatos de exames de vestibular ou de aferição de conhecimentos adquiridos6. São perguntas problematizadoras a orientar esta dissertação: as instituições provedoras das provas de redação consideram que tipo de leitor ideal, materializado na figura dos candidatos dos exames, tendo em vista a compreensão da temática de redação?; que tipo de estratégia argumentativa é necessário considerar para atender a propostas de redação?; a imagem erigida das instituições, ou seja, seu éthos institucional, instaura algum tipo de coerção que se ratifica e se reflete nas propostas de redação? A partir dessas problematizações, esta dissertação tem como objetivo geral analisar como o componente retórico 7 da língua (em seus aspectos linguísticos e discursivos) é empregado na coletânea de textos motivadores das propostas de redação de exames de vestibular (Fuvest e Mackenzie) ou de aferição de graus de conhecimento (Enem), organizada para auxiliar os candidatos do exame a assumir um norte argumentativo. Como consequência desse objetivo geral, estabelecem-se os seguintes objetivos específicos: a) observar se os textos motivadores têm uma unicidade ou se têm uma ubiquidade na visada argumentativa; b) descrever quais tipos de conhecimento (sociocultural, cognitivo, linguístico) dos candidatos as instituições aqui analisadas (Enem, Fuvest e Mackenzie) consideram em suas propostas de redação ao propor, pela leitura das coletâneas, temas para argumentação; c) analisar os textos motivadores em 6. A caracterização dupla se deve ao fato de os exames da Fuvest e da Universidade Presbiteriana Mackenzie serem exames vestibulares. Já a prova do Enem é um exame de aferição de graus de conhecimento que contribui com pontuação para admissão em cursos superiores. 7 A expressão “componente retórico” foi amplamente divulgada pelo pensamento de Oswald Ducrot (1987), ao considerar esse aspecto como paralelo a um componente linguístico. No entanto, a expressão é utilizada neste trabalho sem uma vinculação restrita ao que estipula teoricamente Ducrot. Desse modo, “componente retórico”, neste trabalho, refere-se a estratégias argumentativas presentes nos discursos.. 16.
(17) uma perspectiva retórica, tendo em vista verificar quais são suas estratégias argumentativas 8 ; d) em perspectiva comparativa, verificar se houve modificações em termos argumentativos na seleção de textos motivadores para a escrita da redação nos exames selecionados. Considera-se que o uso de estratégias argumentativas nos textos motivadores das coletâneas dos exames pode, porventura, privilegiar uma dada esfera ideológica, silenciando, pois, outras. Porém, mesmo silenciada, essa outra esfera ideológica pode ser inferida na leitura e na interpretação, já que os discursos estão ora em irmandade, ora em arena de conflitos, mantendo todo discurso relação de atravessamento e captação de um pelo outro (FIORIN, 2016). Sendo assim, o beneficiamento de uma posição argumentativa nos textos motivadores pode vir, por hipótese, a somar pontos positivos para uma dada ideologia, ratificando-se mais uma vez essa ideia para que o candidato dos exames venha, em tese, a confirmá-la em sua redação. Contudo, o ataque – ou contra-argumentação – a uma ideia controversa pode vir também para somar forças contra essa perspectiva, fazendo, assim, com que o candidato, em hipótese de polemicidade do assunto, mesmo que não concorde com os textos motivadores, aceite o que está posto pelas instituições. Para mais, em situações de desconhecimento do tema pedido, o candidato dos exames, por não ter argumentos contra ou ideias opostas, poderá, por hipótese, corroborar argumentos expostos na coletânea. O enunciador, ao se servir da linguagem, constrói o sentido que tem por objetivo com o interlocutor, ou seja, o sentido em si não se acha no enunciado, mas sim no momento de uso e na sua interação. Sendo assim, os textos motivadores podem levar os leitores – candidatos de exames – a uma continuidade argumentativa, construindo, ou pressionando, uma direção unívoca. Pode-se, a princípio, questionar direções argumentativas dos textos escolhidos para compor a coletânea apresentada ao candidato. Os discursos privilegiados nas provas 8. Ainda que haja a discussão sobre a distinção entre retórica e argumentação, esta dissertação considera em seu recorte analítico que o processo retórico estabelece elaboração de estratégias argumentativas presentes nos discursos em recursos linguístico-discursivos, materializados na trama textual. Tal consideração tem seu fundamento teórico principalmente em Perelman e Olbrechts-Tyteca (2014).. 17.
(18) de redação podem ter uma ideologia – que “se instaura na sociedade principalmente pela língua, da qual o sujeito se apropria para comunicar-se, fazer-se entender” (GUIMARÃES, 2009, p. 103) – dominante ratificando um ponto de vista, por exemplo, da classe social mais alta (que em tese é a que tem mais acesso aos exames vestibulares, por exemplo). Ou seja: “a ideologia é constituída pela realidade e constituinte da realidade. Não é um conjunto de ideias que surge do nada ou da mente privilegiada de alguns pensadores. Por isso, diz-se que ela é determinada, em última instância, pelo nível econômico” (FIORIN, 1990, p. 30). Para mais, persuade-se por meio de componentes linguísticos, lógicos e temáticos. Os argumentos articulados na construção da rede de argumentação, quer dizer, o valor argumentativo de cada texto motivador por meio dos âmbitos da argumentação leva em consideração: 1. quem é o orador9 do texto (ou o enunciador, em outros termos) e para qual auditório (ou enunciatário, em outros termos) enuncia; 2. adaptação do orador – instituições e autores do texto motivador – ao auditório – candidatos; 3. do que se persuade 10 ; 4. acordos estabelecidos; 5. fatos, verdades, valores e hierarquias nos argumentos postos; 6. quais lugares retóricos 11 os textos privilegiam; 7. figuras de linguagem utilizadas para amplificar a argumentação; 8. argumentos quase-lógicos, baseados na estrutura do real, dentre outras técnicas argumentativas; 9. operadores gramaticais. A exigência de um texto dissertativo-argumentativo é quase unânime para admissão universitária no Brasil. Logo, os elementos linguísticos da trama textual devem 9. Sendo coerente com a análise retórica pretendida, a metalinguagem adotada nesta dissertação empregará, principalmente no capítulo 3 (exceto em trechos citados e em passagens que tratam do ensino de língua especificamente), os termos orador e auditório (sejam eles representados por indivíduos inseridos num contexto retórico; sejam eles representados por instituições). Esses termos, em outras perspectivas teóricas, são equivalentes (com as devidas ressalvas em relação a especificidades teóricas que determinam na verdade uma não equivalência total) a autor, leitor, enunciador, enunciatário, destinador, destinatário. 10 Também objeto de complexas discussões nos estudos da retórica e da argumentação, não será considerada a distinção entre convencer e persuadir. 11 Técnicas de argumentação que se constituem como premissas que buscam reforçar adesão a certos valores. O termo lugar é empregado desde a Antiguidade Clássica Ocidental para indicar locais virtuais nos quais os oradores pudessem acessar argumentos e colocá-los a sua disposição. Os lugares da argumentação definidos pela retórica clássica são: lugar de quantidade, lugar de qualidade, lugar de ordem, lugar de essência, lugar de pessoa, lugar do existente. Ainda, entende-se por lugar retórico: “armazéns de argumentos, utilizados para estabelecer acordos com o auditório. O objetivo é indicar premissas de ordem ampla e geral, usadas para assegurar a adesão a determinados valores e, assim, re-hierarquizar as crenças do auditório” (FERREIRA, 2010, p. 69).. 18.
(19) ser discutidos para entender quais mecanismos de coesão e coerência 12 devem ser ativados no processo de leitura dos textos motivadores. Isto é, como mecanismos de coesão referencial e sequencial ajudam no ato retórico, e como a noção de coerência pode interferir na interpretação do texto motivador. Além disso, pensando no contexto, como fatores pragmáticos e de conhecimento de mundo podem interferir na compreensão desses textos. Admitindo-se a noção de argumentatividade inerente e indissociável à língua, os elementos linguísticos são empregados em funções argumentativas, isto é, proporcionam uma visada argumentativa maior, a fim de persuadir o leitor do que se pretende. Logo, é importante e imprescindível a análise do emprego efetivo de objetos linguísticos no discurso, não em frases isoladas fora de um contexto de situação, mas sim em sentidos empíricos de uso dela. Somando-se a isso, o discurso presente nas manifestações textuais não é isolado do momento histórico-ideológico no qual é produzido. Por consequência, a Análise do Discurso dispõe de componentes de análise fincados no contexto histórico de uso da língua. Sendo assim, os conceitos de discurso, ideologia, formações ideológicas e discursivas, polifonia, interdiscurso e intertextualidade, bem como domínios do campo de estudo da enunciação são relevantes, a considerar recortes temáticos, numa análise de texto em uma dada sociedade. Como proposto por Azeredo (2010), seis saberes são essenciais para o complexo uso da língua: (i) cognitivo; (ii) antropológico; (iii) histórico; (iv) léxico-gramatical; (v) sociolinguístico; (vi) textual. Ressaltam-se dois: saber léxico-gramatical e saber textual. Sabe-se que unir os saberes é primordial para o pleno domínio da linguagem. No entanto, tendo em vista a proposta da dissertação, os dois saberes destacados, somados com um saber retórico – o qual exige domínio da linguagem e de conhecimento de mundo para persuadir destinatários dos discursos –, são os saberes linguístico-pragmáticos que devem ser usados para o efeito de sentido persuasivo no texto dissertativo-argumentativo.. 12. Entende-se que coesão e coerência estão necessariamente interligadas, ou seja, não há uma distinção clara e absolutamente delimitada entre esses fatores de textualidade.. 19.
(20) Tendo em vista o caráter dialógico da linguagem, o candidato, quando tem acesso a um texto da coletânea, deve ser instigado a pensar com o objetivo de articular ideias de sua própria bagagem intelectual que construiu até o momento, isto é, acessar seu conhecimento de mundo para fundamentar um repertório próprio com base nas ideias dos textos presentes nas provas. Consequentemente, espera-se do candidato, em tese, contato com diversas mídias: jornais, livros, revistas e filmes, a fim de que possa construir um abrangente, amplo e sólido repertório cultural (COELHO, 2015). Os objetivos propostos nesta dissertação são orientados por uma análise retórica 13 , considerada, a partir de Reboul (2000), como a observação descritiva e analítica de recursos linguísticos e discursivos que permitem alcançar a persuasão. Nesse sentido, uma análise retórica leva em conta uma função hermenêutica (no nosso caso, a interpretação analítica das propostas de redação em seus textos motivadores) e a observação da eficácia retórica (em nosso caso, a observação da adequação das estratégias argumentativas presentes nos textos motivadores para o posicionamento da argumentação dos candidatos dos exames), tendo em vista um contexto retórico (em nosso caso, o conjunto de fatores sociais, culturais e históricos que estão subjacentes à escolha do tema e presentes nos textos motivadores) que possibilita o sucesso ou o fracasso de estratégias argumentativas elaboradas em torno do ideal de persuasão. Assim, uma análise retórica se preocupa em analisar mecanismos linguísticos e discursivos que possibilitam a persuasão diante de uma polêmica (FERREIRA, 2010). As provas de redação dos exames aqui selecionadas estão nessa perspectiva, pois há o interesse em mobilizar a elaboração de um texto escrito a partir de um tema que se considera polêmico por poder apresentar diferentes posicionamentos diante de uma questão retórica (a problematização sobre um tema) que se coloca em termos de adesão ou não a pontos de vista expressos nos textos que compõem as coletâneas de textos motivadores.. 13. O termo retórica é polissêmico e pode denotar diferentes significados. Neste texto, retórica se refere ao campo dos estudos dos discursivos persuasivos.. 20.
(21) Essa análise retórica leva em conta (em meio ao estudo das técnicas discursivas e linguísticas que mobilizam estratégias argumentativas) três elementos essenciais: (i) o orador, que estabelece a credibilidade de um discurso; (ii) o auditório, já que a argumentação é sempre dirigida a indivíduos ou grupos que conformam um ato retórico; (iii) o discurso, o lógos que estabelece a ação retórica. O discurso retórico, então, nasce desse contexto [retórico, conjunto de fatores externos sociais e históricos que atuma na atividade discursiva] para tentar solver um problema retórico que é, basicamente, composto por três elementos que se associam: uma questão, que clama por uma discussão para ser solucionada, algo que é de um modo e o orador deseja que seja de outro; um auditório e, por fim, um conjunto de limitações e restrições – pessoas em posições antagônicas, eventos, leis, interesses, emoções, hábitos que atuam tanto sobre a audiência quanto sobre o orador e dão especificidade à situação. (FERREIRA, 2010, p. 31). Define-se, portanto, os estudos da Retórica como referencial teórico da análise pretendida (e estabelecida nos objetivos já apontados), a partir de autores como Aristóteles (2012[séc. IV a.C.]), Citelli (1995), Dubois, org. (1974), Ferreira (2010), Fiorin (2014, 2015), Mosca, org. (2004), Perelman (2004), Perelman e Olbrechts-Tyteca (2014), Plantin (2008), Reboul (2000), Walton (2012). A escolha pela análise retórica justifica-se pela revitalização que a área passou a ter na segunda metade do século XX, após um bom tempo de ostracismo. Como afirma Alexandre Jr. (2012, p.. IX):. “Nunca antes se estudou a retórica com tanto interesse e em. áreas tão distintas do saber, como nunca antes se estudou o fenômeno retórico em contextos tão distantes do mundo que aparentemente o viu nascer”. Como a Retórica é “saber interdisciplinar” (ALEXANDRE Jr., 2012, p.. X),. ao. colocar em foco a análise de processos linguístico-discursivos em busca de persuasão, o referencial teórico de base desta dissertação encontra apoio, para aprofundamento de sua proposta analítica, em considerações teóricas e procedimentos analíticos da Linguística Textual (ANTUNES, 2005; GUIMARÃES, 1990, 2009; KOCH, 2011, 2017; KOCH e ELIAS, 2010, 2016; KOCH e TRAVAGLIA, 1995) e da Análise do Discurso – em. 21.
(22) especial aquela vertente que dialoga com estudos da argumentação e da ideologia (AMOSSY, 2016 [org.], 2017, 2018; FIORIN, 1990). A proposta de análise desta dissertação ratifica a ideia do homo retoricus14 – o homem que advoga e que pleiteia. Na edição de 2001 do livro escrito por Hugo Grotius (1583-1645) – jurista da República dos Países Baixos, tido como fundador do Direito Internacional –, a introdução de Harm-Jan van Dam informa que Grócio distorcia, mesmo usando abundância de citações e exemplos, ou desconsiderava o contexto situacional quando fazia uso de concepções e ideias de outros autores. Corroborava, dessa forma, uma visão distorcida e negativa do uso de saberes para o logro na argumentação. Esse é apenas um dos fatos que historicamente contribuíram para uma visão distorcida da Retórica com a acepção da arte de bem falar, que teve sua deslegitimação no fim do século XIX (PLANTIN, 2008). Contudo, como expõe Plantin (2008), a Retórica deslegitimada era a usada, por exemplo, pelos jesuítas, uma vez que o direcionamento não estava no processo do ato de argumentar, mas nas análises de texto com o intuito de explicá-los e entendê-los. Sendo assim, essa visão da Retórica centrouse na literatura, já que se faziam interpretações do cânone literário, analisando o que era bom e o que era considerado ruim. Todavia, hodiernamente, impõe-se a necessidade de um homo retoricus voltado para uma visão mais positiva, posto que a Retórica não é apenas um arsenal de figuras de linguagem para uma utilização aleatória e irrefletida, isto é, com o foco meramente na elocutio. Além disso, a função primeira da Retórica, segundo Amossy (2018, p. 7), “[é] imprimir ao verbo a capacidade de provocar a convicção”. Para mais, o saber retórico implica: “o funcionamento da comunicação humana como fenômeno linguageiro, cognitivo e sociopolítico. Trata-se não de julgar ou de denunciar a realidade das trocas verbais que constroem as relações intersubjetivas e a realidade social” (AMOSSY, 2018, p. 9). Termo utilizado na introdução da obra – que fala da visão de Grotius da Igreja e do Estado – de Hugo Grotius De Imperio summarum potestatum circa sacra, na edição de 2011, organizada por Harm-Jan van Dam. 14. 22.
(23) Situar-se na língua é assumir-se como ser pensante e cônscio de suas convicções – ao mesmo tempo dispor-se a mudá-las quando necessário – na vida cotidiana e nas interações sociais por meio de uma gama de possibilidades discursivas. Portanto, homologa-se ao cidadão o direito à democracia por meio do fazer retórico. Abreu (2009, p. 140) diz que a retórica e a argumentação podem dar “condições de colocar suas ideias em prática no seu dia a dia, nas várias situações em que tiver necessidade de motivar pessoas, vender uma ideia ou um produto, de fechar um negócio, ou simplesmente que se tenha uma visão holística dos processos de argumentação”. A necessidade do saber posicionar-se em texto é indissociável à cidadania. Devese, assim, por meio da prática escolar, expor o aluno a gêneros da esfera social durante a educação básica, uma vez que só por meio de leitura e produção de texto é que os elementos gramaticais e lexicais farão sentido, pois serão estudados em contextos efetivamente interacionais. Dando-se foco ao enunciado contextualizado, e não à frase descontextualizada, cumpre-se, assim, o estudo da gramática por meio do texto e do discurso num contexto de uso. Além disso, a interpretação de discursos no âmbito escolar ajuda os alunos a discernirem e a entender ideologias e vieses socioculturais contidos nos textos, ampliando a visão crítica e a bagagem de conhecimento dos estudantes. Os textos da coletânea, constituindo um discurso didático, podem reforçar ou negar uma visão de mundo dada e fidelizada pela sociedade. Por isso, o candidato, ao ler os textos, pode vir a ser coagido a ater-se às mesmas considerações e pontos de vista expressos neles, minando, então, a abertura ao debate e ao fazer retórico-social. Citelli (1995) expõe que o livro didático – discurso pedagógico legitimado – contém dois aspectos fundamentais: “a estereotipia e a idealização”. Ou melhor, visto que a escola cumpre um papel de formação social, sendo mantida por diretrizes e órgãos governamentais, os discursos replicados podem ser oblíquos, quer dizer, privilegiam apenas um padrão idealizado, ratificando o papel moral, ético e cultural de um dado momento histórico-social. A escola e os professores são, assim, perpetuadores de um discurso legitimado no meio social, ou seja, tornando-o um discurso institucionalizado. Assim, quem não estiver dentro de um determinado espectro fica marginalizado discursivamente, quer dizer, tendo de obedecer sem questionar (CITELLI, 1995). 23.
(24) Usando, novamente, as palavras de Citelli (1995, p. 36): “cabe-nos tentar jogar uma pedra na lâmina de água” para desnudar e revelar os expedientes aplicados aos textos. A linguagem em seu uso precisa também ser analisados, segundo Batista (2017, p. 29), pois “uma abordagem interacional para a compreensão da linguagem humana e do funcionamento das línguas está localizada em diferentes campos e disciplinas das ciências, da filosofia e da sociologia da linguagem, além dos estudos da comunicação e da cultura”. Logo, a perspectiva interacionista – tirando o foco apenas da estrutura linguística – é assaz elementar para o manejo social e cidadão dos alunos a fim de, assim, articularem saberes e conhecimentos de mundo. Escolhe-se tal tema de pesquisa – a análise retórica dos textos motivadores para a proposta de redação em exames vestibulares ou de aferição de graus de conhecimento – por causa das discussões em torno do direcionamento ideológico que instituições acadêmicas ou órgãos governamentais da esfera de política educacional podem vir a ter, em razão de que o fazer retórico está imbricado à linguagem, isto é, posicionar-se linguisticamente é posicionar-se argumentativamente. Logo, a argumentatividade, segundo Fiorin (2015), é pertencente à linguagem, uma vez que todos os enunciados estão permeados de argumentatividade e atravessados por ela, ou seja, não há, assim, enunciados neutros. Por isso, ao utilizar a língua, escolhas são feitas, consciente ou inconscientemente. Justifica-se também a escolha do tema de pesquisa pela apresentação de uma perspectiva diferenciada no tratamento acadêmico de problemas em torno da produção e leitura de textos em exames vestibulares ou de aferição de graus de conhecimento. A proposta aqui desenvolvida é colocar como foco da análise um elemento ainda não extensivamente discutido quando se trata de redação em exames de acesso a universidades: as coletâneas de textos para apoio à produção textual. Esta dissertação está organizada da seguinte maneira, além desta introdução: a) Capítulo 1, no qual são apresentados alguns aspectos teóricos do campo da Retórica que orientam a análise do material selecionado como corpus do trabalho; b) Capítulo 2, no qual se explicitam os procedimentos metodológicos da pesquisa; c) Capítulo 3, no qual são apresentadas as análises retóricas dos textos motivadores das coletâneas dos exames 24.
(25) selecionados como corpus; d) Conclusão, na qual se procura estabelecer uma síntese interpretativa que retoma as problematizações apresentadas nesta introdução e se apontam resultados obtidos na execução dos objetivos pretendidos para a pesquisa.. 25.
(26) CAPÍTULO 1 A RETÓRICA COMO CAMPO ANALÍTICO 1.1 Retórica, argumentação e discurso Partir-se-á do princípio de que o fazer retórico é intrínseco à linguagem (FIORIN, 2015). Portanto, o produto da enunciação, o enunciado, é argumentativo. O uso da linguagem, isto é, o ato de fala, implica um componente retórico. Ao ouvirmos ou lermos um texto, além do componente linguístico, o componente retórico é acionado a fim de compreendê-lo (o texto) dependendo do momento da enunciação. A abordagem de uma atividade argumentativa tem como berço a Grécia Clássica. Desde a civilização antiga ocidental, mais especificamente a grega, a tradição retórica é cultivada. A preocupação com a acuidade retórica, isto é, a oralidade – expressão verbal, deu-se com os gregos (CITELLI, 1995). A constituição da própria cultura grega da época demandava certa eloquência para alguns cidadãos envolvidos no debate público, visto que o berço da democracia exigiu do homem grego – em algumas situações, por exemplo, tribunais, foros e praças públicas – o fazer oratório. A Retórica como estudo e ensino da arte oratória e das estratégias de persuasão é analítica, ou seja, é a verificação de mecanismos usados para o fazer persuasivo (CITELLI, 1995). Ela não é a persuasão em si, mas leva aos elementos que podem tornar esta possível. Por isso, a Retórica é chamada de analítica por “descobrir o que é próprio para persuadir” (CITELLI, 1995, p. 11) a fim de tornar o discurso mais eficaz e convincente. Segundo Fiorin (2014), o início dos estudos discursivos foi dado por essa Retórica clássica. Contudo, hoje em dia, o ensino dessa disciplina, em alguns momentos, pauta-se apenas no uso das figuras de retórica – tropos e figuras não trópicas. Figuras essas que apenas ficam destinadas à literatura e à estilística na abordagem docente, excluindo-se, assim, a aplicabilidade persuasiva que esses recursos de construção ou de pensamento potencializam no fazer retórico do texto dissertativo-argumentativo.. 26.
(27) Para Fiorin (2015, p. 27), “se as figuras de retórica não devem ser consideradas enfeites do discurso, então precisam ser analisadas em sua dimensão argumentativa”. Sendo assim, o uso dos tropos não é destinado apenas ao embelezamento do discurso nem está exclusivamente no estudo da literatura; vê-se, por exemplo, largo uso na publicidade com a função conativa da linguagem. Em sua história, a Retórica, antes tida como disciplina fundamental a ser estudada – uma das três faces do trivium com a lógica (ou dialética) e a gramática –, passou a ser considerada como conjunto de elementos para embelezar o discurso, perdendo sua função principal: o funcionamento do fazer persuasivo do discurso. Entende-se Retórica como disciplina não voltada para ética, quer dizer, não há preocupação com o que é dito na dimensão da ideia em si, mas como a ideia, por meios linguísticos, está sendo transmitida com o objetivo de persuadir. Por isso, o processo do fazer persuasivo é que importa. Todavia, vê-se a preocupação com o auditório universal – concepção de que o dito terá alcance em relação à propagação da informação dita, isto é, muitas pessoas, considerando nosso recorte analítico, terão acesso a um texto – nos exames, principalmente o Enem, que exige do candidato coerência e concordância com a Declaração dos Direitos Humanos (estabelecida pela Organização das Nações Unidas em 1948) ao redigir o texto. Logo, por uma questão ética, o Enem não permite que o candidato ofenda a dignidade de ninguém. As etapas do ato retórico – invenção, disposição, elocução e ação – podem ser observadas. na. estrutura. do. texto. dissertativo-argumentativo. (introdução,. desenvolvimento e conclusão), exceto a ação. A ação – ato de proferir oralmente o texto, utilizando atributos da voz e da eloquência – não é considerada no processo de elaboração do texto dissertativo, uma vez que não será proferido. Além do mais, as características orais não podem aparecer no texto escrito, ou seja, não se considera a oralização desse texto. Já as outras três etapas – invenção, disposição e elocução – fazem parte do texto a ser redigido para os exames aqui selecionados para análise.. 27.
(28) A invenção é a procura da tese, que deve estar explícita, preferencialmente, no tópico-frasal do parágrafo introdutório, ancorando a direção temática que será desenvolvida. Isso quer dizer que o texto precisa ter uma direção para o que irá abordar. Além disso, o leitor/avaliador, no papel de auditório, precisa ter noção clara do projeto de texto do candidato (o orador do ato retórico na produção de sua redação), que precisa atender à estrutura adequada da tipologia textual. Assim, caso o candidato siga essa etapa, a chance de tangenciar o tema é menor. Depois, para progredir textualmente, o candidato precisa ordenar os argumentos, selecionando os melhores para convencer o leitor/avaliador de que sabe correlacionar ideias e conteúdos interdisciplinares ao escrever. Por fim, espera-se desse candidato um trabalho elaborado com a linguagem, fazendo uso de elementos de coesão e coerência e um bom uso da norma padrão escrita da língua portuguesa. Para alguns, faz-se necessária uma distinção entre persuadir e convencer – cotidianamente tais palavras são usadas como sinônimos, de maneira intercambiável. Em algumas perspectivas teóricas (CITELLI, 1995; ABREU, 2012), persuasão é o ato de levar o interlocutor a tomar certa ação, quando A leva B a executar um comportamento esperado por A; convencer é levar B a compartilhar ideias pretendidas por A, sem ação a ser executada por B. Dessa maneira, “convencer é fazer com que o outro compartilhe as nossas ideias; persuadir é conseguir que ele faça alguma ação” (ABREU, 2012, p. 112). Logo, o fazer persuasivo estaria mais para um ato perlocutório da linguagem, já que haveria um efeito causado no interlocutor por meio da enunciação, motivando, assim, não apenas um compartilhamento de ideias, mas também execução de algum ato. Neste trabalho, não se fará distinção entre os termos, isto é, usar-se-ão os dois como sinônimos. Em textos de vestibular, se fôssemos seguir a distinção, os vestibulandos jogam com ambos: persuadir e convencer. Contudo, o que está em xeque é a capacidade de articular um repertório próprio e legitimado – argumentos que fujam do senso comum. Fiorin (2015, p. 96) dá a definição de lugar-comum: “argumento pronto [...], argumento já preparado; conteúdos fixos manifestos com figuras recorrentes;. 28.
(29) estereótipos”. Esse termo, para Aristóteles (2012[c. IV séc. a.C.]), tem outra acepção, isto é, crenças que estão no coletivo social para serem usadas pelo orador. Contemporaneamente, adota-se a definição de Fiorin nos estudos de argumentação, já que o lugar-comum se tornou um argumento que beira o clichê por ser recorrentemente usado pela sociedade. Por conseguinte, além da competência linguística, espera-se que o candidato dos exames demonstre competência argumentativa, na medida em que terá de articular fatos, ideias e dados validados de forma cultural – ou seja, o conhecimento enciclopédico adquirido nas instituições de ensino – para discorrer sobre a temática definida na prova de redação. Ao demonstrar autoria, estaria com pleno domínio dos argumentos apresentados no texto. Dos candidatos aos exames aqui selecionados, cada vez mais, são exigidos textos com repertório autoral na dissertação-argumentativa. Pede-se que o repertório utilizado não seja clichê e de senso comum a fim de que o candidato consiga mostrar, por meio do texto, certo grau de autoria. Para isso, o conhecimento cultural – conhecimento de mundo – precisa ser bem diversificado. Embora alunos tenham contado com a tecnologia na atualidade, poucos na verdade conseguem usá-la com maestria, isto é, poucos conseguem administrar e correlacionar o excesso de informação disponível na internet. Por isso, professores, em muitas escolas e cursinhos preparatórios, ministram aulas de repertório nas disciplinas de redação com o intuito de fazer o discente organizar e correlacionar conhecimento. Aulas que são necessárias para que os alunos consigam estabelecer conexões não apenas com conteúdos transmitidos em sala de aula, mas também com elementos da cultura em que estão inseridos. A importância do estudo da Retórica está no fato de que ela pode revelar como se alcança a persuasão. A Retórica, como dissemos, não é a persuasão em si, mas pode revelar de que maneira essa opera em um texto, por exemplo. Dessa forma, ela contribui para estratégias e para os caminhos que os alunos podem tomar para articular as ideias, os pontos de vista, as informações e os fatos num texto, articulando-os com a vontade de imbuir suas proposições num interlocutor/leitor do texto em seu papel retórico de 29.
(30) auditório. Logo, “a retórica é analítica (descobrir o que é próprio para persuadir)”, segundo Citelli (1995, p. 11). Assim sendo, caso se pense a retórica – arte de persuadir – num âmbito social, será indissociável o signo linguístico dos meios ideológicos. [...] a ideologia está contida no objeto, no social, não podendo, portanto, ser reduzida à consciência. Ela existe independentemente da consciência dos agentes sociais. É uma forma fenomênica da realidade, que oculta as relações mais profundas e se expressa de um modo invertido. (FIORIN, 1990, p 29) A ideologia é constituída pela realidade e constituinte da realidade. Não é um conjunto de ideias que surge do nada ou da mente privilegiada de alguns pensadores. Por isso, diz-se que ela é determinada, em última instância, pelo nível econômico. (FIORIN, 1990, p 30). Segundo Bakhtin (2006, p. 29), “em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia”. Dessa forma, as escolhas de argumentos – dados, informações e estatísticas – estão imbricadas de teor ideológico, já que todo ato de escrita está inserido numa dada formação ideológica – “dever ser entendida como a visão de mundo de uma determinada classe social” (FIORIN, 1990, p. 32) – e numa dada formação discursiva – “conjunto de temas e de figuras que materializa uma dada visão de mundo” (FIORIN, 1990, p. 32). Até mesmo a escolha de uma palavra implica uma visão ideológica – “a palavra é o fenômeno ideológico por excelência” (BAKHTIN, 2006, p. 34). A linguagem, por ser o sustentáculo da cultura, reflete e refrata coerções a que os interactantes estão submetidos ao usá-la. Posto isso, o falante tem a ilusão de ser senhor de suas próprias palavras, uma vez que “não pensa e não fala o que quer, mas o que a realidade impõe que ele pense e fale” (FIORIN, 1990, p. 43), isto é, há uma trapaça discursiva, seja pela heterogeneidade mostrada, seja pela heterogeneidade constitutiva do discurso. Por isso, ao corrigir o texto dissertativo-argumentativo, o avaliador deparar-seá, em tese, com o reflexo e a refração da “realidade” do candidato que produziu o texto; portanto, não deve fazer juízo de valor cultural, isto é, julgar se os aspectos culturais são melhores ou piores, mas sim avaliar se a estratégia argumentativa é eficaz a fim de persuadir sobre a temática determinada previamente. Mesmo que candidatos estejam 30.
(31) submetidos a uma ideologia dominante, não devem deixar de fazer uso da cultura considerada marginalizada pela sociedade; sendo assim, deve-se partir de uma consideração dos meios culturais dos quais o candidato advém. A argumentação – do ponto de vista da Retórica – é definida: [...] de maneira bem específica pelas seguintes características: trata-se de uma retórica referencial, isto é, ela inclui uma teoria dos signos, formula o problema dos objetos, dos fatos, da evidência, mesmo que sua representação linguística adequada só possa ser apreendida no conflito e na negociação das representações. Ela é probatória, isto é, visa trazer, se não provar, pelo menos a melhor prova. (PLANTIN, 2008, p. 9). Sendo assim, a argumentação é a construção de um discurso persuasivo partindo de proposições a fim de convencer um auditório universal ou particular com fatos verossímeis e não duvidosos (PLANTIN, 2008). O jogo argumentativo é dado por um proponente, um oponente e um terceiro. O primeiro e o segundo são debatedores e o terceiro pode ser encapsulado por um juiz ou pelo público em geral – auditório universal ou particular. Esses são os actantes do jogo retórico. Segundo Blackburn (1997), a argumentação pode ser definida como a produção de considerações a fim de conduzir a uma conclusão. Além disso, Fiorin (2015, p. 17) também estabelece uma definição: “a argumentação é o encadeamento dos enunciados que conduz a certa conclusão, seu domínio preferencial é o estudo dos conectores que realizam esse encadeamento. Além disso, estuda a orientação argumentativa dos enunciados”. Sendo assim, pode ser um processo e um produto. Aquele o modo de pensar e de elaborar logicamente o argumento; este o resultado da enunciação com os componentes linguísticos inseridos em um contexto situacional. A argumentação conduz a algum conhecimento, isto é, se é levado a concluir algo. Consoante Abreu (2012, p. 111), “só se argumenta diante de situações controversas, isto é, em que haja opiniões divergentes”. Quer dizer, a proposta de redação dos exames – por exemplo, Enem, Fuvest, Mackenzie – apresenta, em tese, uma temática controversa com a finalidade de os candidatos proporem argumentos positivos ou negativos em relação ao tema. Contudo, no último parágrafo – conclusivo –, 31.
(32) especificamente do Enem, há a exigência de uma intervenção. Logo, espera-se que o candidato, ao final da argumentação, proponha uma solução, articulando os elementos – ação interventiva, agente, meio/modo, efeito e detalhamento. Por isso, uma problemática sempre será esperada a fim de que a argumentação realmente ocorra nas redações, não apenas a exposição de fatos ou de dados. Abreu (2012) detalha, especificamente, a natureza dos argumentos em dois grupos: argumentos quase lógicos – compatibilidade/incompatibilidade, ridículo, regra de justiça e definição – e argumentos baseados na estrutura do real – argumento pragmático, exemplo, modelo ou antimodelo e analogia. Além disso, seleciona as principais falácias, argumentos incorretos – conclusão inatingente, argumentum ad baculum, argumentum ad hominem, argumentum ad ignorantiam, argumentum ad misericordiam, argumentum ad populam, argumentum ad verecundiam, argumento da causa falsa e argumento da pergunta complexa. Tais argumentos e falácias são vistos na oralidade e na escrita. Contudo, não há nas instituições de ensino um foco na análise e na exploração do sentido de cada um, nem nas aulas de filosofia, nas quais apenas se discute brevemente a origem histórica da Retórica e os silogismos sumariamente. Torna-se evidente, portanto, a falta de instrução na hora de concatenar argumentos ao compor o texto argumentativo. Ducrot, ao propor a Teoria da Argumentação na Língua (1987), postula ser a argumentação aspecto fundamental da linguagem, inerente a esta. Dessa forma, a construção linguística seria importante para a argumentação, sendo os elementos da língua desencadeadores da construção argumentativa. A teoria de Ducrot considera os discursos e os enunciados linguísticos interpretados com base na experiência; dessa forma, a depreensão de frases isoladas ou de palavras soltas não é considerada. A argumentação estaria no uso efetivo da língua, em seu plano discursivo. À vista disso, os elementos conjuntivos prestam grande auxílio para a construção argumentativa na teoria de Ducrot. Ele define dois tipos básicos de relações discursivas: normativos e transgressivos. Aqueles são do núcleo dos conectores – conjunções conclusivas; estes de base adversativa. Os avaliadores do Enem, por exemplo, pontuam com notas máximas, como será exposto no capítulo 2, as redações que conseguem maior grau de articulação na 32.
(33) competência textual em relação a mecanismos de coesão; portanto, a obtenção da argumentação está atrelada também aos fatores de textualidade.. 1.2 A presença da Retórica na contemporaneidade O fazer retórico para o falante contemporâneo é, tomando-se cuidado com as especificidades sociais, históricas e culturais, quase o mesmo do da gênese da Retórica: arrogar-se de direitos e deveres sociais. O falante, hoje em dia, encontra-se numa situação social que exige cada vez mais posicionamento crítico diante de uma sociedade que se tem mostrado polarizada em grupos que assumem posições totalmente divergentes em muitos casos. As melhores redações do Enem 15 , por exemplo, são divulgadas em meios jornalísticos, servindo de modelo para futuros candidatos. Dessa forma, as redações deixam de ser meros meios avaliativos, passando, assim, a cumprir um papel social quando lida por outros além do avaliador. A urgência do homo retoricus no século XXI dá-se pela ampliação midiática cada vez mais abundante na modernidade. Além disso, a modernização de setores que até então eram físicos – que se encontravam em espaços geográficos da cidade – encontra-se migrando, para muitos, para o ambiente virtual. A título de exemplo desses serviços, a biometria obrigatória para eleições no Brasil, agendamentos digitais para confecção e renovação de documentos pessoais (carteiras de habilitação, emprego e trabalho, dentre outros serviços), renovação de bilhetes de transportes públicos e aplicativos de celular do Sistema Único de Saúde (SUS) para agendar consultas e outros serviços encontram-se, hoje, digitalizados. Por isso, a migração para a internet de esferas governamentais, além de ser um meio de agilizar a burocracia e o acesso ao que a população precisa, demanda um certo domínio de gêneros discursivos para que os usuários da língua tenham possibilidades de compreender uma informação sem ruídos e de maneira facilitada. Dentre a necessidade linguística, o ato de ler, segundo Capistrano Junior (2011, p. 227), está além de ser mera atividade escolar, já que “a leitura, como prática social que é, 15. A Fuvest e a Universidade Presbiteriana Mackenzie não divulgam as redações dos candidatos.. 33.
(34) propicia aos sujeitos formas de inserção e de participação não só no ambiente escolar, mas também na vida profissional e no mundo”. Vê-se, assim, que a leitura, por exemplo, cumpre, se bem desenvolvida desde o início do Ensino Fundamental, um fazer na prática social do cidadão, possibilitando a este acesso a sistemas de atividade pública: como direito ao voto, à emissão de documentos e ao agendamento de consultas médicas. Sendo assim, a contemporaneidade, por se encontrar parcialmente digitalizada, impõe aos âmbitos escolares maior trabalho com a diversidade de gêneros e com as formas de posicionamento social por meio da linguagem. O caráter linguístico é interacional e dinâmico em cada esfera social, sendo necessários, em cada momento, negociação e gerenciamento de informação pelo falante ao se comunicar com seu interlocutor. O argumentar, segundo Alencar e Faria (2011, p. 145): [...] faz parte do cotidiano do homem em todas as atividades, isto é, o ser humano participa diariamente de inúmeras relações orientadas para a discursividade, daí porque uma das funções básicas da escola é proporcionar aos alunos o desenvolvimento da argumentatividade em produções orais e escritas.. Fazendo parte da vida e da prática social, deve-se ter maior atenção ao ato de argumentar nos meios sociais, uma vez que o interlocutor, dentre várias funções que possa vir a assumir, pode desempenhar, na comunicação, o papel de juiz, de assembleia e de espectador (FERREIRA, 2010) – pensando não somente nos âmbitos jurídicos, por exemplo. O interlocutor, ao ler uma notícia, uma reportagem ou um editorial, se tiver noções de argumentação e um amplo conhecimento de mundo, pode vir a não compactuar com as ideias do autor do texto, ou seja, sendo juiz de sua própria leitura. Ao ser membro de uma assembleia, pode vir a aconselhar uma tomada de decisão importante, por exemplo. E, ao ser espectador, pode, ao votar, decidir qual é o candidato mais adequado naquela eleição. Dessa maneira, o interlocutor assenhora-se de componentes linguísticos que o ajudam a não ser influenciado e enganado pelo orador.. 34.
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