OS PROCESSOS DE TRABALHO E AS ATRIBUIÇÕES DO ASSISTENTE SOCIAL NA SAÚDE: Um estudo de caso na UPA Parque Vitória, São José de Ribamar-MA.
Clarice Castro Reis Dantas1
RESUMO: Este estudo aponta aspectos, desafios e
problemáticas que permeiam os processos de trabalho dos profissionais de Serviço Social na saúde, sua perspectiva histórica, diretrizes, contradições, lutas e conquistas. O estudo de caso visa compreender demandas, compromisso com usuários, com o Código de Ética e leis que norteadoras. Aborda-se a intervenção profissional inAborda-serida em equipe multidisciplinar, frente à questão social e suas expressões. Justifica-se a inserção do Serviço Social na promoção à saúde na perspectiva mais ampla, da garantia de direitos e dos princípios da universalidade, integralidade e equidade.
Palavras-chave: Saúde. Assistente Social. Questão Social.
Serviço Social.
ABSTRACT: This study looks at issues, challenges and problems permeate the processes of socialisches service jobs, in social, health, its perspective, guidelines, contradictions, struggles and achievements. The case study aims to teach demands, commitment to users, with the Code of Ethics and guiding laws. It addresses a professional intervention in multidisciplinary team, in front of the social question and its expressions. It is justified the insertion of Social Service in the promotion of health in the broader perspective, the guarantee of law and the principles of universality, completeness and equity.
Palavras-chave: Health. Social worker. Social issues. Social
service.
1 INTRODUÇÃO
O Serviço Social nasceu em meio às contradições, luta de classes, violação de direitos e desigualdade. A partir da aproximação com a classe trabalhadora e das discussões éticas e políticas acerca das bases profissionais foi capaz de se reconceituar. O tema saúde pública desperta inquietações a respeito de como são desenvolvidas as ações dos profissionais de Serviço Social nesse espaço sócio ocupacional, o que representam para as Instituições, suas atribuições e de que forma contribuem para a vida dos usuários que buscam os serviços das unidades de saúde, campo que sofre negligência e precarização no Brasil. As
atividades realizadas pelos(as) assistentes sociais são dependentes das condições sócio ocupacionais, históricas e multiprofissionais, exigem cooperação e articulações.
Busca-se discutir as particularidades dos processos de trabalho na política de saúde aproximando os profissionais do viés crítico, dialético, compromisso com as diretrizes e com as demandas dos usuários. Esse arcabouço está aliado aos resultados obtidos através de estudo de caso realizado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Parque Vitória, em São José de Ribamar – MA. Foram analisados documentos institucionais e realizadas entrevistas semi estruturadas com assistentes sociais que compartilharam seus discursos, ideologias e experiências profissionais.
2 O SERVIÇO SOCIAL COMO PROCESSO DE TRABALHO
As demandas de atuação do Serviço Social crescem em quantidade e complexidade, exigindo do assistente social comprometimento com suas atuais ideologias e com as regulamentações da profissão. Foi incluída no âmbito do trabalho a partir de uma relação direta com a Igreja Católica, em preceitos religiosos e assistenciais objetivando a manutenção do poder, o controle social e a defesa dos interesses das classes sociais dominantes. Com o agravamento da questão social o Estado necessitou viabilizar políticas públicas como respostas às lutas e reivindicações.
Devido aproximação com os movimentos sociais dos trabalhadores e o reconhecimento do profissional também como classe trabalhadora, a perspectiva da ajuda foi rompida, o que se deu através do Movimento de Reconceituação. Também houve a busca por uma formação acadêmica de qualidade, que se tornou objetivo das Instituições de ensino, para que os estudantes ao invés de reprodutores das relações sociais tornem-se profissionais reflexivos, críticos e questionadores, geradores de novos debates, capazes de atuar efetivamente frente às suas demandas e no, planejamento, execução e gestão das políticas públicas. O trabalho interventivo do assistente social ganhou consistência e relevância, meio de transformação social, regido por leis e por um Projeto Ético – Político que reforça diariamente dentro de uma sociedade contraditória o compromisso com as demandas da classe trabalhadora e com a garantia de direitos. O(a) assistente social reconhece-se na busca pela emancipação humana e por um projeto social justo.
O Serviço Social intervém nas relações gerando transformações. Está inserido na divisão sócio técnica do trabalho e busca honrar o comprometimento com a classe trabalhadora e suas demandas. Trataremos o Serviço Social aliado à categoria do trabalho, tomando como base em Marilda Iamamoto, onde o Serviço Social está sujeito às mesmas problemáticas que os demais trabalhadores. Entende-se que, para que o assistente social realize intervenções, deve estar articulado com outras áreas e deter conhecimento, para compreender o indivíduo como produto das relações sociais históricas, ao mesmo tempo em que é também agente transformador da sociedade. Os processos de trabalho do Assistente Social se materializam através da obtenção e da produção de conhecimento, resultando na elaboração e execução de planos, programas e projetos.
Tem objetividade que não é material, mas é social. Tem também efeitos na sociedade como um profissional que incide no campo do conhecimento, dos valores, dos comportamentos, da cultura, que, por sua vez, têm efeitos reais interferindo na vida dos sujeitos (IAMAMOTO, 2005, p.67)
O que diferencia o trabalho do assistente social do das outras profissões é a consciência da relação capital x trabalho, e mesmo nela inserida, atua de forma interventiva junto a classe trabalhadora. A atuação do assistente social encontra respaldo, principalmente, na Lei de Regulamentação da Profissão e no Código de Ética, que construíram bases para a utilização de instrumentos, ferramentas para a garantia de direitos e participação social. Porém, esse conjunto não deve ser considerado pronto ou acabado. A lei de regulamentação da profissão, Lei nº 8662 de 7 de Junho de 1993, define essas novas concepções a respeito das competências do Assistente Social e dos seus processos de trabalho, ajustando o olhar e modo de fazer do Serviço Social. Está inserido na divisão social e técnica do trabalho e, portanto assume, conforme Iamamoto e Carvalho (2005), três dimensões: teórico– metodológica, técnica – operativa e ético-política, que norteiam os processos de trabalho.
2.2 A instrumentalidade nos processos de trabalho do (a) assistente social
Os indivíduos exercem uma relação de transformação com a natureza e entre si, relação essa que é necessária à sociedade e também à ação profissional, as transformações ocorrem e se dotam de sentido através da instrumentalidade.Instrumentalidade se vincula à teologia, conforme Guerra (2007), condição humana de propor utilidades, finalidades, objetivos e intencionalidade às ações. Assim o trabalho humano difere do trabalho realizado com outros elementos da natureza. A instrumentalidade pode ser compreendida para o serviço social como o modo de responder às demandas que se apresentam, um conjunto de habilidades que são adquiridas na medida em que são construídas e reconstruídas
historicamente as relações sociais. É composta de instrumentos, elementos através dos quais as ações são executadas, objetos que auxiliam na busca pela emancipação dos sujeitos, como por exemplo, diário de campo, laudos, entrevistas, perícias, fichas, relatórios, visitas domiciliares, etc. Por mais que a realidade exija resultados desses meios utilizados pelo assistente social, a instrumentalidade não se restringe a eles. É importante ressaltar os instrumentos como ferramentas para a garantia de direitos e não como algo que torne o assistente social um agente fiscalizador.
A sua dimensão instrumental é necessária para garantir a eficácia e eficiência operatória da profissão. Porém, reduzir o fazer profissional à sua dimensão técnico-instrumental significa tornar o Serviço Social meio para o alcance de qualquer finalidade. Significa também limitar as demandas. (GUERRA, 2009, p. 10).
3 O TRABALHO DO (A) ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE SAÚDE: UM ESTUDO NA UPA PARQUE VITÓRIA
Apresenta-se uma pesquisa pautada no entendimento da relação do Serviço Social na saúde com suas atribuições, desafios, funções, principais atividades e com os demais atores da área. Utiliza-se uma amostra, que consiste em pesquisa de campo, por meio de estudo de caso realizado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Parque Vitória, em São José de Ribamar – MA. O Serviço Social na Instituição é composto por sete assistentes sociais. Em decorrência das escalas divergentes e do tempo demandado, participaram da pesquisa três dessas profissionais. Foram realizadas entrevistas semi estruturadas, com método de abordagem qualitativo, as participantes estão aqui representadas como: Entrevistada 1, Entrevistada 2 e Entrevistada 3.
3.1 O trabalho do assistente social na política de saúde
A atuação do Serviço Social na saúde teve início em 1945; em um modelo funcional, as equipes eram divididas de acordo com a especialidade técnica e não havia intersetorialidade. Um novo conceito, que abrangeu aspectos biológicos e psicossociais, foi elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1948, saúde passou a ser vista como estado de completo bem-estar físico, mental e social, como direito fundamental e não apenas ausência de doença. Outro momento histórico importante é o movimento de reforma sanitária, que embora não tenha dito forte atuação do Serviço Social, lutou pela
universalização do acesso à saúde, como dever do Estado. A Constituição Federal de 1988 instituiu o Sistema Único de Saúde (SUS), com a finalidade de alterar a situação de desigualdade na assistência à Saúde da população.
O SUS foi regulamentado pela Lei Orgânica da Saúde (LOS), lei n.º 8080/90. Garante a participação da iniciativa privada no Sistema Único de Saúde, desde que complementar. O controle social está presente, para que de forma democrática a população tenha participação efetiva nessa política, propondo sugestões e avaliando resultados. A lei nº 8.142/90 estabelece participação da sociedade na gestão do Sistema Único de Saúde através das Conferências e dos Conselhos de Saúde. O Assistente Social no Brasil começou a ser reconhecido como profissional da Saúde de nível superior, somente a partir de 1990 com um parecer elaborado pelo Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), Associação Nacional de Assistentes Sociais (ANAS) e pela antiga Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social (ABESS)2. Conforme o parecer:
O Serviço Social se insere na equipe de saúde como profissional que articula o recorte social, tanto no sentido das formas de promoção, como das causalidades das formas de adoecer, intervindo em todos os níveis dos programas de saúde. O Assistente Social como profissional de Saúde tem competência para atuar junto aos fenômenos sócio-culturais e econômicos que reduzem eficácia da prestação dos serviços no setor. O Assistente Social como profissional de saúde vem colaborar no desvelar das questões que emergem na categoria, isso é fruto de avanços obtidos na trajetória histórica da profissão. Buscando a garantia de prestação de serviços de saúde, numa perspectiva de universalidade e integralidade à população. (CFESS; ANAS; ABESS, 1990).
Posteriormente, através do Conselho Nacional de Saúde (CNS) houve a Resolução nº 218, de 06 de março de 1997, tendo como base a Constituição Federal de 1988 e A Lei Orgânica da Saúde, tratando da importância da equipe multiprofissional3 e do assistente social como profissional de saúde de nível superior. Sendo reafirmada esta decisão em 29 de março de 1999, na Resolução do CFESS N° 383/99.
O Serviço Social tem fator essencial na Resolução n° 218 de 6/03/1997 do Conselho Nacional de Saúde, que reconhece a categoria de assistentes sociais como profissionais de saúde, além da Resolução CFESS n° 383, de 29/03/1999, que caracteriza o assistente social como profissional de saúde. (SOUZA, 2009, p. 5).
Os serviços de saúde são norteados pela proposta da Reforma Sanitária, pela Constituição e pelo SUS. A abordagem acerca da inserção do Serviço Social na saúde, deve articular a ação profissional a essas diretrizes legais. O Serviço Social deve estar comprometido com:
A democratização do acesso às unidades e aos serviços de saúde, atendimento humanizado, estratégias de interação da instituição de saúde com a realidade,
2 Atualmente Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS).
3 Segundo a referida Resolução, são profissões em saúde: Biologia, Biomedicina, Educação Física,
Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina Veterinária, Medicina, Nutrição, Odontologia, Psicologia, Química, Serviço Social e Terapia Ocupacional.
interdisciplinaridade, ênfase nas abordagens grupais, acesso democrático às informações e estimulo à participação cidadã. (BRAVO; MATOS, 2008, p. 206).
São documentos importantes: O Programa de Humanização da Assistência Hospitalar; e Os Parâmetros para a Atuação do Assistente Social na Política de Saúde, elaborado pelo CFESS, publicação definitiva em 2010, aborda que o assistente social na saúde atua “em quatro grandes eixos: atendimento direto aos usuários; mobilização, participação e controle social; investigação, planejamento e gestão; assessoria, qualificação e formação profissional.” (CFESS, 2010, p. 41). Além desses, os profissionais atuantes na Unidade de Saúde destacada nesta pesquisa utilizam de outro documento norteador das práticas profissionais, o Procedimento Operacional Padrão (POP) do Serviço Social, elaborado pela Equipe de Gestão de Qualidade da Empresa Maranhense de Serviços Hospitalares (EMSERH), em 2016. Discorre sobre as competências e atribuições do assistente social como responsável técnico, sobre o plantão social, o atendimento dos assistentes sociais nas alas amarela, vermelha e pediátrica, evolução social nos prontuários dos pacientes, passagem de plantão dos assistentes sociais, óbito de usuários, atendimento ao usuário em situação de violência e sobre os auxiliares administrativos do Serviço Social. Esse conjunto normativo norteia os processos de trabalho do assistente social nesse campo de atuação.
3.2 O trabalho do assistente social na upa do parque vitória: trajetória e desafios profissionais
As Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), funcionam 24 horas e de acordo com o Ministério da Saúde, fazem parte da Rede de Atenção às Urgências. Atua de forma articulada à rede de Atenção Básica, oferece apoio diagnóstico e terapêutico. Nesse contexto, o assistente social provém respostas às demandas sociais, situações de vulnerabilidade, incluídas no processo de saúde. “O objetivo do Serviço Social aqui é intervir nas questões socioeconômicas que interferem no quadro clínico. Muitas situações não são somente a patologia em si, tem toda questão socioeconômica que afeta esse diagnóstico”. (ENTREVISTADA 3). Para compreender a relevância do assistente social nessa área, é
preciso analisar a saúde além do processo saúde-doença, as peculiaridades, que fazem com que os objetivos desse profissional na saúde diferenciem-se dos objetivos nas demais áreas. Os problemas de saúde se configuram como problemas sociais.
Tudo tá interligado; questão da saúde com questão do acesso a habitação, assistência. A gente procura dentro desse contexto inicial que é a necessidade de uma resposta a questão clínica, o que tá atrás desse processo de saúde doença, o que se apresenta. Porque muitas vezes a gente se depara com ‘questões sociais’, a
desnutrição porque não tem acesso, não tem renda, não tem acesso a uma alimentação de qualidade, então a gente tem que ter esse olhar. Outra questão são os encaminhamentos, ao detectar essas situações, tentar direcionar, orientar para que esses usuários possam ter o conhecimento; muitas das vezes eles desconhecem esses direitos e a gente tenta explicar, orientar para que eles possam tá buscando esses direitos fora da unidade. (ENTREVISTADA 1).
Uma das grandes problemáticas presentes no cotidiano profissional diz respeito à visão do usuário sobre a função do assistente social. O profissional acaba sendo solicitado para atuar em questões como demora no atendimento aos pacientes, na marcação ou liberação de exames, reclamação sobre a burocratização das atividades e processos administrativos, informações sobre assistência médica curativa ou quadro clínico dos pacientes pelos familiares, problemas com a qualidade e disponibilidade dos serviços, etc. Solicitações que devem ser direcionadas à ouvidoria, ao setor administrativo do hospital ou de conduta médica. “Ainda veem como a moça que ajuda a família, esse estigma ainda tá intenso no Serviço Social. Algumas pessoas ainda tem certa resistência em ver que é direito, politica, que nós somos protagonistas de direitos e que nosso trabalho é essa intervenção”. (ENTREVISTADA 3). Essa perspectiva de direito deve ser instigada no usuário pelo profissional, de forma esclarecedora, para que seja despertada uma consciência crítica e reconhecimento de si como sujeito de direito e do assistente social como atuante nas políticas direcionadas às suas demandas. Essa falta de entendimento a respeito da atuação do Assistente Social às vezes ocorre dentro da própria equipe multiprofissional, que encaminha demandas que não são de competência desse profissional, que acaba por ser considerado o responsável por resolver conflitos, chamado para agir em situações a favor da Unidade de Saúde em detrimento do paciente, ou simplesmente demandas das quais a equipe não obteve sucesso. “Alguns tem visão retrograda, do profissional caridoso. Determinar impede que faça o que compete ao outro. Mostrando pros profissionais e usuários o que não compete a gente, muitas vezes é difícil essa aceitação porque acham que tudo compete ao Serviço Social.” (ENTREVISTADA 1). Apesar de todo embasamento teórico, das legislações Constitucionais e Institucionais, como nesse caso o POP, observa-se que o Serviço Social por vezes recebe demandas que fogem à sua competência.
Nós temos demandas que não são específicas nossas, então somos vistas como uma ponte que vai resolver o leito, a cirurgia, o exame, nós somos vistos como uma forma de elo de salvação naquele momento. ‘fala com a assistente social que ela vai resolver’, e na grande maioria das vezes a gente não consegue resolver porque a gente depende de uma rede. (ENTREVISTADA 3).
Esse é um problema historicamente vivenciado pela categoria, mas que está em constante avanço devido às lutas e persistência profissional para apagar marcas conservadoras, que necessitam de embasamento teórico-metodológico dos assistentes
sociais para serem desconstruídas. É de suma importância que o profissional conheça suas atribuições e principalmente as atribuições que não lhe competem, não no intuito de limitar a atuação profissional, mas sim para evitar sua precarização. Uma equipe multiprofissional articulada é essencial na dinâmica da Instituição, pois atende às necessidades dos profissionais e também dos usuários. Para o assistente social, compor uma equipe multidisciplinar na área da saúde é propor uma visão integrada dos problemas sociais, demandada pela ideia de qualidade de vida incorporada à concepção de promoção à saúde. Complementando os serviços oferecidos. “O Serviço Social aqui dentro da unidade é um setor que tem uma comunicação em relação aos demais. É uma necessidade, importância muito grande dentro da equipe, não é algo trabalhado isoladamente”. (ENTREVISTADA 1)
A intersetorialidade pode ser considerada, com base em Junqueira (1997), um processo de aprendizagem, no qual os profissionais atuam em conjunto, de maneira integrada para buscar responder com mais eficácia os problemas apresentados pelos usuários e aqueles percebidos pelos próprios profissionais. Esse processo deve envolver respeito e compartilhamento de experiências e conhecimentos.
Deve-se ter conhecimento dos serviços oferecidos fora da Unidade, em rede, pois há situações que fogem à competência dos assistentes sociais, nas quais precisam realizar articulações, encaminhamentos e fornecer orientações sobre outros serviços; como por exemplo, em caso de óbitos, devem orientar a família ou responsável sobre o Serviço de Verificação de Óbito (SVO), sobre translado, sepultamento, trâmites cartoriais e até mesmo, quanto à previdência social. Deve-se adotar uma perspectiva coletiva, atento às mudanças, atualizações e dinâmica dos demais setores da Unidade e também dos serviços e das legislações que são mais constantes perante as demandas, como a LOAS, LOS, ECA, Código de Defesa do Consumidor, CLT, Legislação Previdenciária, etc. Dessa forma o atendimento integral ao usuário pode ser assegurado.
O(a) assistente social deve ter uma visão da totalidade e das particularidades nela existentes, para criar e recriar possibilidades de enfrentamento à questão social e suas expressões, integrando o indivíduo e os demais setores. Apresenta-se como ponto fundamental no contexto da profissão a dimensão educativa, que deve procurar direcionar o processo de trabalho do Serviço Social através das ações interdisciplinares de informação e orientação, incentivando gestões participativas e contribuindo para a construção de novos sujeitos sociais.
Os(as) assistentes sociais precisam ter uma particularidade, olhar o problema do usuário de modo diferenciado dos outros profissionais, configurando um atendimento humanizado e ao mesmo tempo sob uma ótica crítica e analítica à situação. Dispõe de
recursos, entre eles os instrumentais que “são de extrema importância, uma vez que são o nosso registro profissional” (ENTREVISTADA 2).
Assim como a gente tenta se firmar no mercado de trabalho, fazer com que nossa atuação seja reconhecida como um profissional protagonista de direito, nosso material vem a fundamentar e enfatizar isso, o enfermeiro, o médico, eles têm o seu instrumental, o Serviço Social também. E todo o trabalho, seja ele o atendimento, seja ele aquela orientação, encaminhamento ou relatório social, fundamenta toda a nossa atuação, intervindo e garantindo o direito a saúde daquele usuário. (ENTREVISTADA 3).
Na UPA a instrumentalidade é expressa através das legislações que regulamentam a profissão na saúde e dos documentos institucionais normativos, em conjunto com as ferramentas utilizadas pelo assistente social na Unidade, como autorização de visitas, ficha de encaminhamento, declaração de acompanhante, termo de alta a pedido do paciente e ficha de entrevista social; nesse momento o(a) assistente social coleta dados e informações sobre histórico de doença e histórico social, detectando problemáticas a serem resolvidas além do aspecto clínico.
Como a gente sabe o produto do nosso trabalho ele não é algo concreto, algo que se materialize. Mas a gente sabe que a questão social é o nosso objeto de trabalho e os instrumentais vêm pra ajudar nisso, na nossa consciência profissional e pros nossos usuários, pra gente materializar, ver em números, registrar nossa ação. Porque a gente faz muito, mas pouco tem como mostrar porque não existe algo palpável. Então esse instrumental vem pra nos nortear, pra gente colocar em pratica nossos conhecimentos teórico-metodológicos, pra nortear nossa ação, organizar nosso processo de trabalho, então acho de grande importância porque a gente pode numerar, quantificar e mostrar que a gente faz muito, que o Serviço Social tem um produto que as vezes não é visto imediatamente mas que através dessa transformação a gente pode tá tendo um resultado de grande importância na vida dos usuários, a gente intervém de forma bastante efetiva, como não é algo visto aos olhos os instrumentais vêm pra dar esse norte, numerar mesmo, gerando números, estatísticas, relatórios, pra gente poder representar mesmo a nossa ação de uma forma escrita, orientada. (ENTREVISTADA 1).
Lembrando que:
Antes de sermos técnicos que manejam técnicas e instrumentos na ponta da reprodução das relações sociais, temos que ser intelectuais, profissionais teóricos – críticos [...] rompendo com a subalternidade de classe, que também marca nossa história enquanto profissão e contribuindo para emergir novas formas de hegemonia na sociedade. (FAUSTINI, 1995. P. 62).
A saúde é um campo desafiador para o assistente social, é uma realidade dinâmica e complexa. Visão compartilhada entre as profissionais entrevistadas. “A pessoa que tá doente tá muito fragilizada então a intervenção do profissional na saúde consegue ir um pouco mais além, a pessoa já tá tão fragilizada que ela confia muito no que diz o profissional e na intervenção do profissional.” (ENTREVISTADA 3).
O diferencial de início é que as necessidades que surgem pra gente, ‘as questões sociais’ (sic.) elas são mais urgentes a pessoa quando procura o Serviço Social ela quer uma resposta mais concreta e imediata, não é algo que a gente possa tá trabalhando agora pra que ele possa ter um resultado futuro, as necessidades são urgentes, ele precisa resolver aquilo o mais breve possível, acho que é um dos grandes diferenciais em relação as outras áreas de atuação. (ENTREVISTADA 1)
É de responsabilidade dos(as) assistentes sociais fortalecer a implementação da Política Nacional de Humanização (PNH), que resgata valores postos no código de ética profissional e na própria política de saúde do SUS, rompendo com a concepção de humanização cristã. Ter um debate crítico sobre a saúde é desafiador e fundamental à categoria profissional. Compreende desafios que vão desde as demandas, até o cumprimento dos direitos profissionais como carga horária, implementação do piso salarial, instrumentais disponíveis, espaço adequado para atendimento e autonomia profissional. O reconhecimento profissional e o mercado de trabalho também são desafios comuns entre os profissionais.
Reconhecimento no mercado de trabalho é um desafio, a ampliação das vagas, muita gente sabe a importância do Serviço Social na saúde mas a limitação de vagas profissionais ainda existe. É inadmissível que um concurso público ainda se abra uma vaga, sem dar nem a chance de ter concorrência justa. Então pra nós um dos maiores desafios é se garantir no mercado de trabalho, é conquistar o nosso espaço, que ao longo do tempo a gente tenta aos pouquinhos. A saúde é uma politica que dá essa oportunidade, mas a gente ainda enfrenta esse grande desafio. É uma busca muito grande tentar se firmar e fazer com que nós sejamos reconhecidas dessa forma. (ENTREVISTADA 3).
É fundamental ao assistente social apropriar-se dos seus direitos, do ideário neoliberal que se faz presente e das contradições que existem na política de saúde, para que se atue de forma interventiva nesse processo, como incentivadores de debates acerca da luta pela efetivação do direito à saúde sem clientelismo com os usuários do sistema. Os processos de trabalho do (a) Assistente Social são baseados em seu contexto histórico e nas condições de vida dos usuários, portanto se definem e redefinem.
4 CONCLUSÃO
Reconhecemos o Serviço Social como resultante do contexto histórico, das condições econômicas, políticas, sociais e culturais da sociedade capitalista. A partir da perspectiva de Serviço Social como trabalho, abordamos a construção da profissão no Brasil, sua legitimidade, lutas e instrumentalidade. Reconhecemos os processos de trabalho dando enfoque à política de saúde, que vai além do processo saúde-doença. Compreendemos o atual quadro da profissão nesse espaço sócio ocupacional, tomando como amostra a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Parque Vitória, em São José de Ribamar – MA.
Confirma-se a hipótese de que para realizar seu trabalho o(a) assistente social necessita reconhecer-se como classe trabalhadora e dispor de arcabouço teórico-normativo; que envolve leis da própria profissão, regulamentações das políticas públicas, planos, programas, projetos e órgãos que complementem sua atuação, pois intervém como elo entre as políticas, assegurando a integralidade e assim posicionando-se como atuante na garantia
de direitos. Dentre os problemas que interferem na eficácia do sistema de garantia de direitos estão: a intensificação da questão social e suas expressões, as dificuldades na articulação da rede de prestação de serviços, o frágil controle social e a capitalização do mundo do trabalho, tornando-o cada vez mais precário e flexibilizado. Entende-se aqui que os processos de trabalho do assistente social estão submetidos às determinações do sistema capitalista, pois atua enquanto trabalhador assalariado, vendendo sua força de trabalho e sendo subordinado aos objetivos das Instituições empregadoras, ainda que sua autonomia profissional seja assegurada.
Constata-se que na saúde exerce função significativa, não devendo ser negligenciada pelo Poder Público nem pelos profissionais, que precisam sempre estar cientes de suas atribuições, da importância da qualidade no atendimento, dos recursos humanos e materiais necessários ao fazer profissional, dos processos de trabalho e dos seus direitos e deveres, uma vez que esta relação resulta em consequências diretas na vida do usuário do serviço, como foi visto na fala das profissionais entrevistadas. Deve haver mais comprometimento estatal com a ampliação dos projetos sociais e fiscalização dos serviços já realizados, não deixando que se restrinjam pela falta de investimentos que compatibilizem a oferta com a alta demanda, em decorrência de que as instituições se encontram despreparadas para atender a questão saúde com universalidade, integralidade e equidade. Diante desse quadro a atuação profissional deve propor formas de enfrentamento, mediante ao Poder Público, em especial, e de toda a sociedade.
A intervenção do assistente social objetiva a superação das desigualdades sociais, na saúde busca a universalidade, integralidade e equidade, assegurando o direito à saúde independente de aspectos socioeconômicos e culturais da população usuária. Contribuir para a defesa da saúde como direito é uma bandeira de luta dos assistentes sociais enquanto profissionais e como trabalhadores. O estudo dessa relação aqui abordada tem enfoque social, político e econômico, pois gera consequências ao Estado e à sociedade.
Foi de grande relevância a construção de conteúdo sobre a temática, contribuindo para novas possibilidades de respostas profissionais aos problemas do cotidiano no campo de atuação em questão. Conhecer melhor o problema abre possibilidades de sugestão e implementação de políticas públicas mais eficientes no tratamento dessas questões, adequando os serviços às necessidades que esse público alvo e toda a sociedade exigem. As mudanças no mundo do trabalho e na política de saúde apresentam constantemente ao Serviço Social novas requisições e habilidades, como o conhecimento da realidade econômica, social e política dos usuários; domínio técnico-operativo; engajamento para apresentar propostas de melhorias aos serviços e compreensão das contradições
externas e internas que geram impacto no seu trabalho. Essa crescente demanda acontece ao mesmo tempo em que o profissional deve sempre reafirmar sua importância, seus direitos e evitar a precarização do seu trabalho. Por isso os debates, lutas e conquistas do Serviço Social não devem ser postos como acabados ou estáticos, a profissão possui uma perspectiva dialética, acompanhando as transformações e as novas demandas sociais, se aperfeiçoando em busca de um fazer profissional comprometido com a construção de uma sociedade mais igualitária e justa, transformando as diversas áreas de atuação em locais de defesa dos direitos. É de fundamental importância compreender o cenário de atuação dos assistentes sociais em sua totalidade, valorizando suas conquistas profissionais e percebendo o quanto ainda se fazem necessários avanços.
Conclui-se que os processos de trabalho do assistente social na saúde visam assegurar aos usuários e profissionais a efetivação dos direitos constitucionais e das demais leis nas quais se pauta sua atuação, garantindo-os mesmo dentro das limitações de recursos materiais e humanos das Unidades hospitalares; agindo com comprometimento com a Lei de Regulamentação da Profissão e com as diretrizes do Código de Ética Profissional, reforçando seus objetivos na luta contra a desvalorização do Serviço Social e se recriando de acordo com o contexto histórico e com as problemáticas nas quais sua intervenção é demandada
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