Metáfora, Corpo e Dança
Metaphor, Body (embodied) and Dance
Patrícia Eduardo Oliveira Santos1 UFBA
Resumo
O presente artigo tem como objetivo refletir sobre o entendimento da metáfora como um modo de pensar, conceituar e agir, alicerçado nas hipóteses construídas pelos autores George Lakoff e Mark Johnson (L&J), ressaltando sua importância nos processos de construção de significado, a partir do entendimento de corpo experienciado, entendendo a mente como corporificada (embodied), relacionando linguagem e experiência sensório-motora, que funcionam como a base para a complexidade do pensamento, onde, a partir da construção de metáforas o corpo relaciona-se com o mundo e com si mesmo, estabelecendo diversos processos de comunicação e em diferentes níveis, instaurando novas possibilidades de pensar e mover, atuando nas ações de movimento em processos de dança.
Palavras-chave: Metáfora, Sistema Conceptual, Embodiment, Linguagem, Corpo, Dança.
Abstract
The present article has as objective to reflect on the understanding of metaphor as a way to think, to conceptualizing and acting, based in the hypotheses constructed for the authors George Lakoff and Mark Johnson (L&J), emphasizing its importance in the processes of construction of meaning, at understanding of the body experienced, understood as the embodied mind, linking language and sensorimotor experience, which serve as the basis for the complexity of thought where, from the construction of metaphors, the body relates to the world and with himself, establishing diverse processes of communication and in different levels, restoring new possibilities to think and to move, acting in action of movement in processes of dance.
Keywords: Metaphor, Conceptual System, Embodiment, Language, Embodied, Dance.
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Graduada em Educação Física – UFS. Especialista em Docência do ensino superior - UCB e em Ensino das artes – Dança – UFAL. Mestranda em Dança – UFBA. Prof. Substituta da Universidade Federal de Sergipe – UFS. Bailarina, Professora e Coreógrafa (DRT/SE-93).
Introdução
A busca de entendimento do desenvolvimento dos processos cognitivos e suas ressonâncias no corpo, movem uma diversidade de pesquisadores e pensadores, desde épocas muito remotas. Um referencial de estudo que já provocou inúmeras mudanças e quebras de paradigmas nas muitas teias que envolvem a busca do entendimento de cognição, escrevendo várias interpretações e caminhos que permeiam esse desenrolar de conceitos.
Durante muitos anos nossa compreensão sobre os processos que acontecem no corpo, foi orientada pelas proposições dualistas, corpo e mente como entidades distintas, esse debate epistemológico marca a história do pensamento ocidental na época moderna, infiltrando-se em todas as atividades, quer sejam científicas, culturais e/ou sociais, mostrando a dificuldade de compreensão do ser humano, como um ser, ao mesmo tempo, biológico e cultural. Dentro de uma nova perspectiva, pelo viés das Ciências Cognitivas, novas abordagens emergiram a partir da segunda geração de pensadores, construindo um novo entendimento de produção de conhecimento, em que situa o corpo como cerne do processo de investigação, passando a ser dimensionado como um conceito uno, numa abordagem corpomente, inferindo e recebendo referências do ambiente, estabelecendo diálogos com teorias contemporâneas do conhecimento. Tais abordagens dialogam com a interação de diversos campos de saberes, provocando uma profunda mudança na compreensão que o ser humano tem de si mesmo e do conhecimento do que o corpo em ação experimenta e desencadeia, favorecendo a construção de outro tipo de entendimento cognitivo.
Este artigo tem como objetivo abordar esta construção de significados, pela via do entendimento da metáfora, situando-a como uma maneira de pensar, conceituar e agir, tomando como referência as reflexões dos estudos de George Lakoff e Mark Johnson (L&J), partindo da afirmação que, segundo os autores, nosso sistema conceptual é ordinário e fundamentalmente metafórico, possibilitando assim metáforas também na linguagem que utilizamos, entendendo a mente como corporificada (embodied), relacionando linguagem e experiência sensório-motora, que funcionam como a base para a complexidade do
pensamento (metáforas primárias), (LAKOFF & JONHSON, 1980; GRADY, 1997)2, em que
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Lakoff e Jonhson falam de associações metafóricas geradas na experiência sensório-motora nos primeiros dois anos de vida que permanecem na memória (metáforas primárias) e Grady afirma que algumas metáforas, as primárias, são o resultado da interação imediata entre o aparato sensoriomotor humano e as suas experiências no
a partir da construção de metáforas, o corpo relaciona-se com o mundo e consigo mesmo, estabelecendo em diferentes níveis, diversos processos de comunicação, situando a dança neste contexto.
Falando de metáforas
Quando mencionamos o termo metáfora logo nos vem à relação primária da definição de uma figura de linguagem em que nomeamos um objeto ou ação com sentido de um outro, usamos uma classificação imagética de uma situação referenciando algo que possa torná-la física. Ao tentarmos entender o conceito de metáfora e sua implicação no estudo do movimento, tentamos nos situar entre algumas definições pesquisadas:
A etimologia da palavra metáfora deriva do latim metaphòra (metáfora), que por sua vez é trazido do grego metaphorá ("mudança, transposição"). O prefixo met(a)- tem sentido de "no meio de, entre; atrás, em seguida, depois". O sufixo -fora (em grego phorá) designa 'ação de levar, de carregar à frente'. Metáfora é o emprego da palavra, fora do seu sentido normal, ou seja, um sentido figurado. (HOUAISS, 2001). Portanto, o sentido literal “conduzir à mudança” permite que se atribua ao termo metáfora os significados de transposição, transferência ou translação. Neste sentido, pode-se dizer que, através da metáfora, uma palavra é transposta ou transferida de um campo semântico a outro, fazendo com que esta adquira um novo significado ou que seu significado seja modificado. No Dicionário Técnico da Comunicação encontramos a seguinte definição: “Passagem do sentido da palavra do próprio para o figurado, devido à comparação tácita. Vínculo intelectual que liga a linguagem e o mito. Transposição verbal de um conceito a outro. Alegoria na qual umas palavras são tomadas em sentido próprio e outras no figurado” (ALMEIDA, 1987). A definição de metáfora de Aristóteles, no capítulo XXI de sua Poética, sintetiza essa perspectiva: “a metáfora consiste no transportar para uma coisa, um nome que pertence à outra coisa”.
Divergindo da concepção clássica da metáfora como um ornamento linguístico, o conceito aqui exposto e definido por LAKOFF e JOHNSON (1980/2002), trata a metáfora como um modo de pensar, conceituar e agir. Dessa forma, confere que o pensamento é estruturado metaforicamente, pois conceitualizamos o mundo por meio de metáforas que são emergentes de nossa experiência, tanto a linguagem cotidiana como a cientifica esta repleta de
metáforas.
Os conceitos que governam nosso pensamento não são meras questões de intelecto. Eles governam também a nossa atividade cotidiana até nos detalhes mais triviais. Eles estruturam o que percebemos, a maneira como nos comportamos no mundo e o modo como nos relacionamos com outras pessoas. Tal sistema conceptual desempenha, portanto, um papel central na definição de nossa realidade cotidiana. Se estivermos certos, ao sugerir que esse sistema conceptual é em grande parte metafórico, então o modo como pensamos o que experienciamos e o que fazemos todos os dias são uma questão de metáfora (LAKOFF & JONHSON, 2002. In: SPANGHERO, 2003: 281).
Estabelecendo uma perspectiva experiencialista, em que propõe uma nova maneira de compreender o pensamento e suas relações com a realidade e com a linguagem, destacando a suma importância da experiência individual e coletiva adquirida, GEORGE LAKOFF e MARK JOHNSON elaboram a Teoria da Metáfora Conceptual3, inaugurando a temática em sua obra Metaphor we live by4, 1980, dando sequência a este estudo em obras posteriores. GREINER (2006) aponta que o sistema conceptual ordinário é fundamentalmente metafórico por natureza e as metáforas estruturam nossa maneira de perceber, de pensar e de agir, sendo a essência da metáfora compreender e experienciar uma coisa em termos de outra, conceituando como pensamento metafórico, e se organiza a partir de sucessivas e incessantes representações do real, onde desloca a ação cotidiana para os domínios do simbólico. (KATZ e GREINER, 2006).
Para LAKOFF e JOHNSON (2002), é a experiência que constrói as metáforas, que nos dão nossa compreensão do mundo, permitindo entender à mente como corporificada (embodied), estruturada através de nossas experiências sensório-motoras. Da mesma forma, a razão não seria algo que pudesse transcender o nosso corpo: ela é também “corporificada”, pois se origina tanto da natureza de nosso cérebro, como das peculiaridades de nossos corpos e de suas experiências no mundo em que vivemos. Ou seja, a formação de conceitos no/pelo corpo nas trocas entre os seres humanos e o ambiente, co-evolutivamente, sendo caracterizados pelo uso da percepção, da imaginação e do sistema sensório-motor na vida diária. Esta visão de mente, considerada por diversos filósofos cognitivistas, redimensiona o
3 Os autores começaram a discutir a natureza e a estrutura da metáfora sob essa nova perspectiva: ela é conceitual e tem grande influência em boa parte do pensamento e raciocínio do ser humano.
conceito de razão, faculdade comumente entendida enquanto aquilo que guia o ser humano, o define e o diferencia de outros animais. Na perspectiva apresentada, a razão, sendo entendida como encarnada, é emocionalmente engajada. O “controle consciente” que nos diferenciaria é questionado, e a razão também pode ser considerada presente em outras espécies animais; o que nos diferencia, nesta visão, está atrelado aos graus de complexidade das conexões elaboradas.
A hipótese da mente corporificada enfraquece radicalmente, portanto, a distinção entre percepção e concepção. Em uma mente corporificada, é concebível que o mesmo sistema neural engajado na percepção (ou em movimento corporal) desempenhe um papel central na concepção. Ou seja, os mesmos mecanismos responsáveis pela percepção, movimento e manipulação do objeto poderiam ser responsáveis pela conceitualização e pelo raciocínio.
(LAKOFF, JOHNSON, 1999: 37-38. Tradução minha)5.
GREINER (2005: 45) destaca alguns pontos em LAKOFF e JOHNSON (1999):
O primeiro salienta que os mesmos mecanismos neurais e cognitivos que nos permitem perceber e mover são os que criam nossos sistemas conceituais e modos da razão. O segundo explica que a razão constrói e usa formas de inferência perceptiva e motora que também estão presentes em outras espécies animais. O terceiro destaca que a razão não é apenas consciente, mas, em grande parte, inconsciente. (GREINER, 2006).
Esclarecimentos propostos
Para uma melhor compreensão, é fato que a grande maioria das pessoas possui o entendimento de metáfora que margeia o senso comum, de um procedimento da imaginação poética e do ornamento retórico, diferente do que é convencionado no campo das ciências cognitivas, que situam a presença da metáfora por todos os lugares, em várias circunstâncias na vida cotidiana, não somente na linguagem, mas no pensamento e na ação. Com efeito, fica mais fácil entendermos a proposta de corpo e mente atuando juntos na construção de sentido,
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“The embodied-mind hypothesis therefore radically undercuts the perception/conception distinction. In an embodied mind, it is conceivable that the same neural system engaged in perception (or in bodily movement) plays a central role in conception. That is, the very mechanisms responsible for perception, movements, and object manipulation could be responsible for conceptualization and reasoning”.
e as metáforas, nessa perspectiva, fazendo parte de uma complexa rede de conceitos, em associação aos nossos referenciais prévios de mundo, através do nosso sistema conceptual. Nesse sistema estariam compreendidas as versões públicas de mundo por nós vivenciadas, nosso conhecimento enciclopédico, nossas crenças etc. Essa completude de informações, que temos, com todo esse arsenal, seria o nosso guia na negociação intersubjetiva de sentidos, e a metáfora teria papel importante nesse processo.
Assim, quando tentamos nos apropriar de um objeto, idéia ou noção que não estejam definidos, onde não conseguimos conceituá-los ou nomeá-los, fazemos uso das metáforas, a partir de nossa experiência corpórea, colocando em interação figura e sentido, sendo dessa maneira uma forma prática de categorizar e integrar a informação desconhecida a conhecimentos anteriores. Este processo de interação de construção de uma figura (forma) e conseqüente classificação (familiarização), categorização, da informação desconhecida, atribuindo um valor cognitivo para as metáforas, faz sua introdução na vida cotidiana, demonstrando que elas orientam nossa forma de pensar e agir no mundo.
Uma pequena porcentagem de nossas categorias é formada por atos conscientes de categorização, mas a maioria é formada automática e inconscientemente como resultado do funcionamento no mundo. (LAKOFF; JOHNSON, 1999: 18. Tradução minha)6.
Porém as interpretações metafóricas admitem multiplicidade de sentidos, como citam Greiner (2006) e Pinker (2008).
Há muitas formas de entender categorias e o modo de categorizar o mundo. As categorias, no entender de Lakoff e Johnson, nunca são fixas ou uniformes. São definidas por protótipos e semelhanças familiares a esses protótipos, ajustáveis a contextos e sugeridas por vários propósitos diferentes. Quando um pressuposto parece verdadeiro depende de quando a categoria e empregada, dos propósitos humanos e de outros aspectos do contexto. (GREINER, 2006: 47).
Lakoff, [...] sugere que nosso conhecimento cientifico, como todo o nosso conhecimento, é limitado por nossas metáforas, que podem ser mais ou menos adequadas ou úteis, mas não descrições precisas de uma verdade objetiva. (PINKER, 2008: 297).
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“A small percentage of our categories have been formed by conscious acts of categorization, but most are formed automatically and unconsciously as a result of functioning in the world”.
Por conseguinte, a afirmação da natureza fundamentalmente metafórica, proposta por L&J, não costuma ser algo que normalmente tenhamos consciência, pois muitas vezes devido à emergência de resposta instantânea a determinado fato ocorrido, agimos de forma automática em soluções adaptativas, que devido ao imediatismo do fato, não existe tempo hábil para racionalizar e procurar respostas adequadas. Dessa forma a ação acontece de maneira inconsciente, algo cuja operação se dá abaixo do nível da consciência cognitiva, e que pode trabalhar com um alto grau de rapidez, de tal modo que não pode ser reconhecido durante uma ação.
Os autores também salientam que a razão é em grande parte inconsciente, o que denominam como inconsciente cognitivo, o entendimento deste, como parte constitutiva da consciência, é fundamental para o processo de construção do sistema conceitual mediado pela compreensão de mundo.
Sustentado por estas considerações, o termo “cognitivo” é utilizado inclusive para as operações localizadas neste inconsciente – dimensão cognitiva que nós não temos acesso, porém atuante em nossas operações.
Vamos usar o termo cognitivo, do modo mais rico possível, para descrever qualquer operação e estrutura mental envolvidas na linguagem, significado, percepção, sistemas conceituais e razão. Porque nossos sistemas conceituais emergem e nosso raciocínio brota de nossos corpos, vamos aplicar o termo cognitivo aos aspectos do sistema sensório-motor que contribuem com nossas habilidades para conceituar e raciocinar. Já que boa parte dessas operações são inconscientes, o termo inconsciente cognitivo descreve precisamente todas as operações inconscientes mentais ligadas ao nossos sistemas conceituais, significado, inferência e linguagem (LAKOFF & JONHSON, 1999:12). (In: QUEIROZ, 2006:25).
Assim, dentro das proposições derivadas pela segunda geração de pensadores cognitivos que partem do pressuposto da mente corporalizada, L&J afirmam alguns princípios norteadores dessa nova abordagem:
(1) A estrutura conceptual origina-se de nossa experiência sensório-motora e das estruturas neurais que lhes dão origem, sendo a noção de “estrutura” caracterizada como esquemas de imagens e esquemas motores.
(2) As estruturas mentais são intrinsecamente significativas devido à sua conexão com nossos corpos e nossa experiência corpórea, o que contraria a idéia de manipulação de símbolos não-semantizados.
(3) Há um nível básico de conceitos que originam parte de nossos esquemas motores e nossas capacidades para percepção gestáltica e formação de imagens.
(4) Nossos cérebros são estruturados de forma a projetar a ativação de padrões de áreas sensório-motoras para níveis corticais mais altos, constituindo as chamadas metáforas primárias. Tais projeções permitem-nos conceptualizar conceitos abstratos com base em padrões inferenciais utilizados em processos sensório-motores que estão diretamente ligados ao corpo.
(5) A estrutura dos conceitos inclui protótipos de vários tipos: casos típicos, casos ideais, estereótipos sociais, exemplares salientes, pontos de referência cognitivos, entre outros, sendo que cada tipo de protótipo utiliza uma forma distinta de raciocínio.
(6) A razão é corpórea à medida que nossas formas fundamentais de inferência originam-se de formas sensório-motoras e outras formas de inferência baseadas na experiência corpórea.
(7) A razão é imaginativa à medida que as formas de inferência são mapeadas de modos abstratos de inferência pela metáfora.
(8) Os sistemas conceptuais são pluralísticos, não monolíticos, de tal sorte que conceitos abstratos são definidos por múltiplas metáforas conceptuais que são muitas vezes inconsistentes entre si. (FELTES, 2007: 74).
Identificando metáforas
Em sua teoria, LAKOFF e JOHNSON (2002: 59-76) estabelecem uma classificação dos conceitos metafóricos, agrupando-os em três grandes classes, a saber:
• Metáforas estruturais;
• Metáforas orientacionais ou espaciais; • Metáforas ontológicas.
1) As Metáforas Estruturais são aquelas nas quais [...] um conceito é estruturado metaforicamente em termos de outro. (p. 59), ou seja, o sujeito conceitualiza um elemento em termos de outro, demonstrando a sua visão sobre as coisas. Assim, o tempo é caracterizado como dinheiro; a discussão é caracterizada como guerra; o amor é caracterizado como loucura entre outros exemplos.
2) Nas Metáforas Orientacionais ou espaciais, diferentemente das primeiras, organizam todo um sistema de conceitos em relação a outro. Em geral tem a ver com a orientação
espacial, mobilizam centralmente esquemas imagéticos e se organizam a partir de oposições espaciais como:
• PARA CIMA – PARA BAIXO • DENTRO – FORA
• FRENTE – TRÁS
• EM CIMA DE – FORA DE • FUNDO – RASO
• CENTRAL – PERIFÉRICO
Estas oposições espaciais surgem do fato de termos os corpos que temos e do fato de eles funcionarem da maneira como funcionam no nosso ambiente. As metáforas Orientacionais dão ao conceito uma orientação espacial e, segundo Lakoff e Johnson, não são arbitrárias; têm uma base na nossa experiência física e cultural. como, por exemplo, FELIZ É PARA CIMA. O fato de o conceito FELIZ ser orientado PARA CIMA que leva a expressões como: Estou me sentindo para cima hoje.” (Lakoff e Johnson, 2002: 59). “metáforas de espacialização estão enraizadas na experiência física e cultural; elas não são construídas ao acaso”. (p. 64). Embora as oposições binárias como para cima – para baixo, dentro – fora, por exemplo, sejam físicas em sua natureza, L&J ressaltam que as metáforas orientacionais baseadas nelas podem variar de uma cultura para outra (p. 67). Para os autores é que as metáforas orientacionais mobilizam os esquemas imagéticos de deslocamento no espaço: nossa experiência concreta de deslocamento espacial é metaforicamente projetada para a nossa experiência mais abstrata, por exemplo, para nossa vida emocional, social etc.
3)As Metáforas ontológicas surgem de nossa experiência com substâncias e objetos físicos. Segundo os autores, as experiências que vivenciamos (especialmente com o nosso corpo) fornecem uma ampla base de metáforas ontológicas, ou seja, a maneira de concebermos eventos, atividades, emoções, idéias, como entidades e substâncias. Entendem que, a personificação seria uma maneira de metáfora ontológica, já que nos possibilita compreender muitas experiências relativas a entidades não-humanas como humanas. Assim a personificação é, pois, uma categoria geral que cobre uma enorme gama de metáforas, cada uma selecionando aspectos diferentes de uma pessoa ou modos diferentes de considerá-la. (p.88).
LAKOFF (1993:229) ainda identifica um quarto tipo de metáfora que é a Imagética ou do tipo “one-shot”. Diferem das metáforas anteriores que se utilizavam do sistema conceptual
através de mapeamentos que atravessavam os domínios conceptuais. As metáforas imagéticas, ao contrário, utilizam-se apenas de imagens mentais convencionais, ao invés de se utilizarem de domínios fonte e alvo – geralmente partindo-se de um conceito concreto para um abstrato. As metáforas do tipo “one-shot” apóiam-se em imagens concretas para dar sentido a imagens também concretas.
Linguagem e metáfora
De acordo com a proposição de LAKOFF e JOHNSON, a metáfora não é apenas questão de linguagem ou de palavras, mas, para eles, um meio de se investigar este sistema conceitual é considerar a linguagem. GREINER (2005: 131) explica que como a comunicação se baseia sobre o mesmo sistema conceitual que utilizamos pensando e agindo, a linguagem nos fornece importantes evidências sobre a maneira que aquele funciona. Importante, porém não o único. Ao contrário, os processos do pensamento humano é que são em grande parte metafóricos, ou seja, o sistema conceitual humano é estruturado e definido metaforicamente, possibilitando assim metáforas também na linguagem que utilizamos.
Assim LAKOFF e JOHNSON (2002), linguísta e filósofo, sugerem que as metáforas não só fazem parte dos nossos pensamentos de maneira intensa, mas que na verdade estruturam a nossa percepção e compreensão, em que mecanismos que ligam a subjetividade ao corpo estão sendo estudados, relacionando linguagem e experiência sensório-motora, Segundo SIQUEIRA (2003: 53), Grady e Johnson defendem a idéia de que as metáforas primárias são inicialmente aprendidas através de correlações entre percepções e experiências cognitivas que co-ocorrem nas vivências diárias”. Já de acordo com LAKOFF E JOHNSON (1980), as experiências corpóreas podem estar relacionadas às metáforas primárias de três maneiras distintas: “[...](1) as correlações estão corporificadas (embodied) em nossa neuro-anatomia; (2) os domínios-fonte emergem a partir das experiências sensório-motoras do corpo humano; e (3) experienciamos repetidamente situações no mundo em que os domínios fonte e alvo estão conectados”.
Metáfora, Corpo e Dança
GREINER (2003), indica que a partir da construção de metáforas, o corpo relaciona-se com o mundo e consigo mesmo, estabelecendo processos diversos de comunicação e em níveis diferentes. Ao construir metáforas, o homem age (aciona o sistema sensório-motor) e ao agir, abre a possibilidade de fazer ou desfazer o que foi conceituado antes, instaurando novas possibilidades de pensar e mover: corpo, idéias e mundo. GREINER (2006) propõe também que o corpo muda de estado cada vez que percebe o mundo. (...) desta experiência nascem metáforas imediatas e complexas que serão, por sua vez, operadoras de outras experiências sucessivas, prontas a desestabilizar outros contextos (corpos e ambientes) mapeados instantaneamente de modo que o risco tornar-se-á inevitavelmente presente.
L&J (2002) também sinalizam em sua hipótese que os sistemas conceptuais humanos são construídos a partir de nossa experiência física e cultural, possuindo uma dupla fundação ( LAKOFF, 1990), ou seja, construído por meio de dois tipos de conceitos advindos de nossas experiências físicas mais básicas: os esquemas imagéticos, relacionados ao deslocamento do corpo no espaço, e as categorias de nível básico, relacionadas à manipulação de objetos, denominando-os de conceitos emergentes (L&J, 2002), memórias que são espontâneas, dentro da investigação cognitiva, corresponde a estruturas pré-conceptuais. Estas memórias têm a ver com o deslocamento espacial, no caso do esquema imagético (LAKOFF, 1990), quando o corpo se desloca no espaço, a memória representa certas estruturas recorrentes nesses movimentos, que não envolvem racionalidade ou consciência. Desta forma, categorias de nível básico e os esquemas imagéticos constituiriam o nosso sistema conceitual, onde podemos aplicar projeções figurativas ou metafóricas. Assim, os esquemas de movimento (imagéticos), que são as memórias esquemáticas de nossos movimentos corpóreos, podem ser estendidos metaforicamente para dar sentido às experiências concretas, como exemplo: lugar, tempo, espaço e etc.
RENGEL (2007) aponta que agimos por procedimento metafórico em dança e que este é um mecanismo cognitivo de comunicação do corpo, para tanto, situa a hipótese de que, não só as metáforas como as outras figuras de linguagem, de acordo com pesquisas e experimentos realizados por LAKOFF e JOHNSON, só existem pelo fato de que há uma elaboração metafórica no corpo. Ou seja, as experiências subjetivas atuam juntamente com as experiências sensório-motoras.
As teorias proposta LAKOFF e JOHNSON sobre a metáfora como operação cognitiva e sobre a “mente encarnada” (embodied) fundamentam o entendimento de que, em dança, os
movimentos são metafóricos. Um tipo de leitura que acessamos através dos estudos de GREINER e KATZ, que propõem a dança como processo de metaforização de experiências através de movimentos. RENGEL coloca que:
Muito importante aprender que as relações espaciais que criamos na dança e no nosso cotidiano “surgem do fato de termos os corpos que temos e do fato de eles funcionarem da maneira que funcionam no nosso ambiente físico” (LAKOFF e JOHNSON, 2002, p.59). Altura, largura, proximidade, distância, não existem “em si”. Desconhecemos que noções de espacialidade, tais como: limites, territorialidade e demarcações verticalidade, topologias do corpo, entrar e sair de lugares, por exemplo, são metafóricas (RENGEL, 2007).
(...) O reconhecimento deste papel primordial do corpo nos processos de cognição e percepção está longe de ser uma unanimidade (GREINER, 2003: 143).
Metáforas ocorrem como um modo de sistematização da comunicação do corpo. Operações de códigos metafóricos podem incidir em contextualizações. Entretanto, quando ocorrem em um ambiente que não as reconhece, perdem sentido. Contexto ganha texto quando o corpo e o ambiente se comunicam em trocas, o que implica em relações de enunciações. Metáforas são imagens categorizadas que, no corpo, portam aspectos visíveis que sinalizam a possibilidade de comunicação do corpo em um determinado ambiente e, portanto, posicionamentos e atitudes diante do mundo (MACHADO, 2007).
Em uma manifestação de dança podemos encontrar vários conceitos, referenciais filosóficos, estéticos e políticos, que estão ordenados e conectados como uma malha conceitual que intercambia informações e, a partir desta permuta, criam-se e recriam-se formas e significados. Neste intermédio, em dança, metáforas podem se estabelecer e vir a atuar nas ações de movimentos durante seu processo, pois se estruturam nos conceitos de experiências e julgamentos subjetivos dos intérpretes. Dessa forma, os dançarinos podem se valer de metáforas como estratégias de pensamento e ação e que os mesmos atuariam assim como agentes metafóricos que compreendem e experimentam uma coisa em relação à outra.
O corpo, segundo LAKOFF E JOHNSON (2002), é a base física para a criação de metáforas orientacionais do tipo para cima/ para baixo, dentro/ fora, frente/ trás, em cima de/ fora de, central/ periférico. Uma postura caída, por exemplo, corresponde a certa tristeza e depressão. Em dança podemos atribuir um determinado sentido ou entendimento, derivados
de movimentos e ações corporais construídas através destas proposições metafóricas, dentro de um processo criativo.
Conclusão
Cada ser humano combina os elementos básicos de movimentos de uma maneira única e os organiza em uma perspectiva muito própria, criando relações que revelem seu estilo pessoal, psicológico, artístico e cultural. Corpomente, integrados pelo aparato sensório-motor, resulta uma porta de entrada para o desenvolvimento de nossos movimentos, percepções e para o estabelecimento de nossas relações com o ambiente. Nossos corpos não são comandados por vontades alheias ou funcionam como condutores, veículos entre o ambiente e a mente, nesta visão não produzem conhecimento, só a reprodução. “O corpo não é um lugar aonde as informações que vêm do mundo são transformadas para serem devolvidas,” nem mesmo um meio pelo qual as informações simplesmente passam, segundo GREINER E KATZ (2001).
Corpo é movimento e este é o principal operador do processo vida, é a matriz que altera as relações internas e externas do sistema corpo-ambiente, conferindo à estrutura corpórea a organização necessária para que os processos relacionais existam e ocorra a permuta de informações entre esse corpo e o ambiente que o cerca. Neste processo não é apenas o ambiente que constrói o corpo, nem tampouco o corpo que constrói o ambiente: ambos são ativos o tempo todo em uma co-evolução (KATZ e GREINER, 2006), pois são carregados de sutilezas, intenções conscientes ou inconscientes que podem dizer muito além de um discurso verbal.
Uma metáfora experimentada no corpo, por dançarinos, traz a idéia de investigação de um conceito metafórico, visualizando assim a proposição de L&J de que “a metáfora não é uma questão apenas de linguagem, mas de pensamento e razão”, envolve a compreensão de um domínio da experiência, e pode ser entendida como um mapeamento. Os autores
entendem que “nenhuma metáfora pode ser compreendida ou até mesmo representada de forma adequada, independente de sua base experiencial”. Dessa maneira, percebe-se que as bases das experiências físicas e culturais estão efetivamente em contínuo processo, expondo um papel decisivo para que se tenha um melhor conhecimento sobre os conceitos, as linguagens, o entendimento de razão/emoção, dependendo da maneira como essas interações corporalizadas se tornam presentes no pensar, dizer-fazer de cada indivíduo, assim o modo como se pensa está indissociado do modo como o corpo se orienta e atua no mundo, resignificando os processos criativos em dança.
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