DEBATER A EUROPA
Periódico do CIEDA e do CIEJD, em parceria com GPE, RCE e o CEIS20. N.2/3 Janeiro/Dezembro 2010 – Semestral
ISSN 1647-6336
Disponível em: http://www.europe-direct-aveiro.aeva.eu/debatereuropa/
Portugal e a Europa: aspectos históricos da
integração (1948-1986)
Isabel Maria Freitas Valente Investigadora CEIS20/UC Membro do Team Europe
Resumo
A integração nas Comunidades Europeias constitui um dos momentos chave da História de Portugal no século XX. A nossa aproximação às instituições europeias constitui um longo e moroso processo em que as diferentes etapas se sucederam com uma certa cadencia e regularidade, desde a nossa participação na OECE. Este processo de aproximação resultou, em larga medida, de motivações económicas e de posições políticas pontuais, mais do que fruto de um pensamento político oficial sobre a questão da integração europeia.
Palavras-chave: Portugal, Europa, Comunidade Económica Europeia, integração Abstract
The integration in the European Communities is one of the key moments in the history of Portugal in the twentieth century. Our approach to European institutions is a long and tedious process in which different steps have taken place with a certain cadency and regularity, since our participation in the OEEC. This process of approaching resulted largely from economic motivations and occasional political positions, rather than of the result of an official political thinking on the issue of European integration.
A integração nas Comunidades Europeias constitui um dos momentos chave da História de Portugal no século XX.1
Tendo em conta o objectivo para que é convocada aqui e agora esta reflexão, parece-nos importante indagar quais as principais etapas da participação portuguesa no processo de construção europeia. Terá Portugal acompanhado as principais etapas da construção da Europa? Sendo assim, que lugar ocupa a Europa então, no imaginário português?
Existe uma certeza, largamente difundida, segundo a qual Portugal terá acompanhado os principais acontecimentos da génese e evolução da ideia de Europa interessando-se, com maior ou menor vivacidade, pelo destino europeu, mas de forma sempre irregular e desigual conforme os condicionalismos políticos internos e de acordo com as circunstâncias e especificidades de cada época.
Neste contexto, é de todo oportuno perscrutar a posição portuguesa e as suas estratégias de participação nos movimentos de cooperação europeia desenvolvidos no Pós II Guerra Mundial. Qual é o posicionamento do Estado Novo perante o processo de construção europeia? O que é a Europa na ideologia salazarista? De que forma Portugal participa nos movimentos de cooperação económica?
Num primeiro momento verifica-se um gradual afastamento de Portugal deste universo europeu. Este facto poderá encontrar-se em exemplos como a não participação no Congresso de Haia, em Maio de 1948, ou a não integração de imediato no Conselho da Europa. Estas acções inscrevem-se nas reservas que o avanço de uma Europa comunitária, democrática, suscitava ao regime salazarista e aos seus ideólogos.
Pode afirmar-se que a principal razão da hostilidade salazarista ao projecto de união europeia era o perigo que nele via para o regime político português criado pelo próprio Salazar e com o qual se identificava.
A matriz ultramarina interessou sempre mais a Salazar que a Europa Continental. Para perceber a extensão e o alcance deste postulado atentemos nas suas próprias palavras: “Se a federação vier pois a constituir-se e se, como é provável, continuar a impor-se a política dos grandes espaços, pode visionar-se a possibilidade de se irem apertando mais e mais os laços de Portugal com o Brasil e a Espanha e da Espanha com as repúblicas do centro e do sul da América, de modo que um grande
1 Este texto resulta de uma intervenção oral, cujas actas ora se publicam, pelo que manteremos os traços
bloco iber-americano seja, ao lado da Comunidade britânica, e mesmo sem atingir o grau da sua estruturação constitucional, um factor político de grande relevo, pela população, a riqueza potencial ou existente e a cultura ocidental.”2
Acresce ainda salientar que este estadista repudiava, todavia, o parlamentarismo ou qualquer solução federalista europeia3. Em termos muito concretos, e como conclui Manuel Porto a posição de Salazar era “de que a vocação portuguesa não era de integração europeia, mas sim de ligação aos espaços ultramarinos (v.g. transatlântica)” pondo mesmo em dúvida a viabilidade do projecto europeu, com países e regimes políticos diferentes. Alguns deles são repúblicas e outros monarquias.
Podemos então concluir que Salazar revelou alguma incapacidade de adaptação à nova ordem mundial saída do pós- Segunda Guerra Mundial. Como escreve Nuno Severiano Teixeira “não aceita, em primeiro lugar, a emergência da ordem bipolar e das duas superpotências extra-europeias. Em particular, a decadência da Inglaterra e o aparecimento dos Estados Unidos da América como a grande potência marítima, em relação à qual mantém uma relação de cepticismo e desconfiança ideológica política.”4
Dir-se-ia que Salazar e os ideólogos do Regime defendem uma ideologia baseada no princípio de “estados fortes” e no “internacionalismo autoritário”. É à luz destes pressupostos que devem ser analisadas as recusas de aceitação de uma diplomacia multilateral no sistema internacional (relembre-se a importância das Nações Unidas) bem como da aceitação do princípio de autodeterminação dos povos (recusa de todo e qualquer processo de descolonização). Estes pressupostos políticos são partilhados por outros estadistas como por exemplo o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira, que num discurso proferido a 7 de Abril de 1970
2 Cf. Circular sobre a Integração Europeia, para as Missões Diplomáticas, do Presidente do Conselho de
Ministros, de 6 de Março de 1953. Leia-se também Manuel Loff, Salazarismo e Franquismo na Época de
Hitler, Porto, Campo das Letras, 1996, pp. 314-337.
3 Manifestando-se claramente tradicionalista, antiliberal, antidemocrático, anticomunista, o regime do
Estado Novo rejeita os intentos de união europeia nos sentidos federativo ou mesmo de confederação. Essa posição será marcante sobretudo nos discursos de Salazar e na produção dos ideólogos do salazarismo, nomeadamente do historiador do regime, João Ameal. Salazar afirmará a este respeito que estas ideias eram “congeminadas nos gabinetes, completamente dissociadas das realidades históricas e étnicas, motivadas por uma perigosa ingenuidade utópica ou por interesses obscuros” e “artificialmente decretadas ou impostas” por “super-Estados hegemónicos com os seus Estados-vassalos”. A este propósito leia-se: António de Oliveira Salazar – Discursos e notas políticas, IV, 1943-1950 apud Norberto Ferreira da Cunha – “O Salazarismo e a Ideia de Europa” in Ernesto Castro Leal (coord.) – O
federalismo europeu: história, política e utopia: actas do Colóquio. Lisboa: Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Instituto de História Contemporânea: 2001, p.153.
4 Cf. Nuno Severiano Teixeira e António Costa Pinto in Portugal e a integração europeia 1945-1986,
defende que “a integração económica da Europa é um mito, como é um mito a sua unidade política.”
É oportuno ainda, para um melhor esclarecimento, referir que para o caso de criação de uma grande unidade europeia, Salazar defende o projecto de um grande bloco hispano-luso-americano. Atentemos às suas próprias palavras “se a federação vier pois a constituir-se e se, como é provável, continuar a impor-se a política dos grandes espaços, pode visionar-se a possibilidade de se irem apertando mais os laços de Portugal com o Brasil e a Espanha e da Espanha com as repúblicas do centro e sul da América, de modo que um bloco ibero-americano seja, ao lado da Comunidade britânica, e mesmo sem atingir o grau da sua estruturação constitucional, um factor político de grande relevo, pela população, a riqueza potencial ou a existência e a cultura ocidental.”
Na verdade, este desinteresse português pela Ideia de Europa persistirá no período da revolução de Abril de 1974 e mesmo no período pós-adesão. O interesse demonstrado pelo meio académico e cultural, nomeadamente a partir de Maastricht e, muito particularmente a partir da CIG96, constituirá um inestimável contributo para a emergência em Portugal de um interesse mais visível pelo destino da Europa e pela sua arquitectura institucional.
Neste horizonte, não deixa de ser interessante que Portugal se tenha integrado contudo, na maior parte dos casos, como membro fundador, nos diferentes movimentos europeus.
No âmbito desta temática é legitimo realçar que a aproximação de Portugal aos movimentos europeus “resultou principalmente da conjugação de vários esforços e iniciativas pessoais, mais do que o resultado de uma política consciente governamental.”5
Assim, o aparecimento e crescimento de uma corrente internacionalista pró-europeia no Ministério dos Negócios Estrangeiros, durante o antigo regime, é talvez um dos aspectos mais interessantes da história da diplomacia portuguesa no pós-guerra. Como refere Álvaro de Vasconcelos foi “uma aventura tranquila, quase sempre a contracorrente, mas bem sucedida naquilo que era possível, ou seja, a participação de
5 José Calvet de Magalhães, “Os Movimentos de Cooperação e Integração Europeia no Pós-Guerra e a
Participação de Portugal nesses Movimentos”, in Ruy Teixeira Guerra, António de Siqueira Freire, José de Calvet Magalhães, Os Movimentos de Cooperação e Integração Europeia no Pós-Guerra e a
Portugal nos organismos europeus de cooperação económica, o que permite afirmar que o processo de integração europeia de Portugal não começou com a adesão à Comunidade, em 1986”.
Ora, de facto, os Embaixadores Teixeira Guerra e José Thomaz Calvet de Magalhães bem como o Ministro José Correia de Oliveira foram três dos protagonistas da internacionalização de Portugal
A viragem ocorria, porém, nos primeiros anos da década de setenta, ainda que paulatinamente. Como refere António Martins da Silva, o “debate interno sobre a aproximação de Portugal à Europa não ultrapassou o quadro de declarações bem intencionadas mais ou menos europeístas e de uma actuação efectiva de reforço das nossas relações económicas com o Mercado Comum. A natureza institucional das comunidades europeias e a problemática do aprofundamento não produziram ecos audíveis.”6
Convirá sublinhar, por outro lado, que uma certa abertura à Europa, em larga escala determinada por razões económicas, aconteceu ao tempo de Salazar.
Relembre-se a integração na Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE) criada em 16 de Abril de 1948 (mais tarde Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico – OCDE), em resultado do Plano Marshall. Esta integração portuguesa foi protagonizada pelo Embaixador Teixeira Guerra que desde o início procurara convencer o governo português para a importância desta organização bem como do plano Marshall. Como Portugal não tinha entrado na Guerra e apresentava uma balança comercial superavitária não recebeu apoio financeiro do Plano Marshall nos dois primeiros anos, no entanto fez parte deste o início da OECE. A ajuda financeira americana as Portugal verificou-se “apenas durante alguns anos mas o processo de liberalização das trocas comerciais e das transacções invisíveis, levadas a cabo pela OECE, estendeu-se até 1960, data em que se transformou na Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).”7 Evoque-se, a título de exemplo que, Portugal com a sua participação neste processo atingiu um nível de liberalização do comércio dos mais elevados, mesmo superior ao da Dinamarca.
6 António Martins da Silva, “Portugal e a ideia Federal Europeia – Da República ao fim do Estado Novo”
in Portugal e a Construção Europeia, Coimbra, Livraria Almedina, 2002, p. 99.
7 Cf. José Calvet de Magalhães, “A participação de Portugal nas instituições internacionais do
após-guerra” in Portugal e a construção Europeia, Ribeiro, Maria Manuela Tavares; Melo, António Barbosa e Porto, Manuel (Org.), Coimbra, Almedina, 2003, p.129.
Outro passo importante neste processo de internacionalização de Portugal é a adesão, como membro fundador à Organização do Tratado do Atlântico Norte, em 4 de Abril de 1949, bem como a integração posterior na ONU, em 14 de Dezembro de 1955. È necessário, sem dúvida, referir uma outra etapa decisiva da aproximação de Portugal aos movimentos Europeus dá-se com a nossa participação, como membro fundador, na European Free Trade Area (EFTA), em 1960 e indirectamente e por consequência ao GATT, em 1962. Com efeito, esta participação constitui um passo decisivo no domínio económico, para nos aproximarmos da Europa.
É bom lembrar ainda o facto que Portugal era claramente o país menos desenvolvido dos sete que formaram a área de comércio livre – EFTA. Justificava-se assim que Portugal usufruísse de um regime especial plasmado no Anexo G negociado entre outros por Silva Lopes.
Como bem se sabe, a EFTA constituiu-se fundamentalmente como uma plataforma para que alguns países membros da OECE que não faziam parte da CEE, pudessem eventualmente, “quando a oportunidade surgisse, aproximarem-se desta última organização, aderindo a ela ou a ela se associando por qualquer forma.”8
Facto esse que, viria a ocorrer em 1961, quando a Grã-Bretenha, seguida pela Dinamarca e pela Noruega, em 1962.
Neste contexto, os restantes membros da EFTA, incluindo Portugal, solicitaram a abertura de negociações com a CEE para o estabelecimento de relações económicas e comerciais.
Parece-nos também importante referir que, em 1962 e em 1970, Portugal tenta negociar um acordo de associação com a CEE com o objectivo nodal de plena adesão, facto que lhe estava vedado pela própria natureza do Regime. Em boa verdade, o governo português, agora liderado por Marcello Caetano, tinha um posicionamento mais positivo em relação à ‘via europeia’, empenhando-se numa aposta mais clara na problemática europeia, no quadro de uma ligação real e institucional, mesmo modesta, à CEE:9
À luz desta nova realidade, em Março de 1970 é criada uma comissão de estudo sobre a integração económica europeia com o grande objectivo de avaliar “as possibilidades futuras no que respeita ao processo de participação do país nos
8 . José Calvet de Magalhães, art.cit., p.131.
9 Leia-se Maria Fernanda Rollo, “20 anos de adesão de Portugal à CEE memória do Congresso’86 da
movimentos que têm por objectivo a integração económica da Europa.” O embaixador Teixeira Guerra é nomeado Presidente da Comissão, a Vice-Presidência fica a cargo do Embaixador Calvet de Magalhães e, como vogais, Dr. Alberto Nascimento Regueira, Dr. Álvaro Ramos Pereira, Eng. Carlos Lourenço, Dr. Ernesto João Fervença da Silva, Eng. Eugénio de Castro Caldas, Eng. Ilídio Barbosa, Eng. João Cravinho, Dr. Joaquim Nunes Mexia, Dr. José da Silva Lopes, Dr. Luís Figueira, Dr. Rui dos Santos Martins e Dr. João Vieira de Castro, este último servindo de secretário.
Esta Comissão elaborou um relatório que permitiu ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício, em 24 de Novembro de 1970, fazer uma exposição ao Conselho de Ministros da Comunidade Económica Europeia no sentido de alcançar um acordo de associação. As pretensões portuguesas foram bem recebidas pelo Conselho da CEE e nessa sequência foram iniciadas as negociações, que se prolongaram pelo ano de 1971, e culminaram com a assinatura do Tratado comercial entre a Comunidade Económica Europeia e Portugal, em 1972.
A Revolução 25 de Abril 1974 derruba o último governo do Estado Novo e dá-se a vitória da democracia e do pluralismo partidário. A consolidação da democracia e adesão d Portugal à CEE passam a ser os novos desígnios de Portugal.
À luz deste novo paradigma, em 29 de Novembro de 1976, o Governo português solicita a adesão de Portugal às Comunidades Europeias, facto que viria a ocorrer a 1 de Janeiro de 1986.
A este propósito podem e devem considerar-se as palavras de Fernando Neves, que nos parecem extremamente significativas:
“A adesão de Portugal às então Comunidades Europeias foi uma decisão eminentemente política e estratégica. Portugal assumiu o projecto de integração europeia com o objectivo de consolidar as suas instituições democráticas, modernizar as suas estruturas económicas e caminhar para a abertura da sua sociedade.”10
Algumas Referências bibliográficas
Circular sobre a Integração Europeia, para as Missões Diplomáticas, do Presidente do Conselho de Ministros, de 6 de Março de 1953.
10 Fernando Neves, “O Testemunho Português: O Futuro”, in Vinte anos de Integração Europeia
Loff, Manuel, Salazarismo e Franquismo na Época de Hitler, Porto, Campo das Letras, 1996, pp. 314-337.
Magalhães, José Calvet de Magalhães, “A participação de Portugal nas instituições internacionais do após-guerra” in Portugal e a construção Europeia, Ribeiro, Maria Manuela Tavares; Melo, António Barbosa e Porto, Manuel (Org.), Coimbra, Almedina, 2003, p.129.
Magalhães, José Calvet, “Os Movimentos de Cooperação e Integração Europeia no Pós-Guerra e a Participação de Portugal nesses Movimentos”, in Ruy Teixeira Pós-Guerra, António de Siqueira Freire, José de Calvet Magalhães, Os Movimentos de Cooperação e Integração Europeia no Pós-Guerra e a Participação de Portugal nesses Movimentos, Lisboa, INA, 1981.
Neves, Fernando, “O Testemunho Português: O Futuro”, in Vinte anos de Integração Europeia (1986-2006), org. Nicolau Andersen Leitão, Lisboa, Edições Cosmos, 2007, p.217.
Rollo, Maria Fernanda, “20 anos de adesão de Portugal à CEE memória do Congresso’86 da Ordem dos Engenheiros”, in Revista da Ordem dos Engenheiros, nº5, Dezembro de 1986.
Salazar, António de Oliveira, Discursos e notas políticas, IV, 1943-1950 apud Norberto Ferreira da Cunha – “O Salazarismo e a Ideia de Europa” in Ernesto Castro Leal (coord.) – O federalismo europeu: história, política e utopia: actas do Colóquio. Lisboa: Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Instituto de História Contemporânea: 2001, p.153.
Silva, António Martins da, “Portugal e a ideia Federal Europeia – Da República ao fim do Estado Novo” in Portugal e a Construção Europeia, Coimbra, Livraria Almedina, 2002, p. 99.
Teixeira, Nuno Severiano; Pinto, António Costa in Portugal e a integração europeia 1945-1986, Lisboa, Círculo de Leitores, 2007, p.12.