Legado templário: doação de terras, castelos e influência em Tomar 1

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Legado templário:

doação de terras, castelos e influência em Tomar1

Philipe Luiz Trindade de Azevedo PPGHIS/UFMA Bolsista FAPEMA Grupo de Estudos em Mitologias-UFMA Resumo: O presente texto tem por finalidade apresentar um pequeno e simples retrospecto da Ordem dos Templários, dando um enfoque especial à importância que a doação de terras e castelos teve na expansão da Ordem e alguns reflexos que esses atos estabeleceram na contemporaneidade, principalmente na cidade de Tomar, conhecida como cidade Templária.

Palavras-chave: Templários. Tomar. Contemporaneidade.

Fundada no ano de 1120,2 a Ordem dos cavaleiros Templários inaugurou um

novo cenário dentro da cristandade medieval. A estrutura social até então conhecida era baseada em um sistema trifuncional que estabelecia que os membros da sociedade medieval estavam divididos em três ordens distintas: a ordem daqueles que trabalhavam, a ordem daqueles que combatiam e a ordem daqueles que rezavam.3 O desejo de criação da Ordem dos Templários, manifestada por nobres

cavaleiros de origem normanda, após a tomada de Jerusalém em 1099 modificou profundamente este quadro, pois a partir deste ponto o mundo ocidental conheceria uma instituição que iria reunir o monasticismo e o belicismo.

Após o grande sucesso da Primeira Cruzada (1096 – 1099), foram criados os Estados Latinos na Terra Santa, são eles: o condado de Edessa, o principado de Antioquia, o condado de Trípole e o reino de Jerusalém,4 e com a criação dos

mesmos também surgiu a necessidade de defendê-los e defender também àqueles que passariam a peregrinar até esses lugares. Nesse contexto, nobres cavaleiros liderados por um homem chamado Hugo de Payns se autodestacaram para esta

1 Parte do presente texto encontra-se em prelo para inclusão em coletânea de estudos sobre cultura

material.

2 DEMURGER, Alain. Os Templários: uma cavalaria cristã na Idade Média. Rio de Janeiro: Difel,

2007, p. 21.

3 DUBY, Georges. As três ordens ou Imaginário do feudalismo. Lisboa: Editorial Estampa, 1994. 4 DEMURGER, Alain. Op. cit., p. 21.

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função, sendo assim estabelecida perante o rei de Jerusalém, Balduíno II, a primeira função dos cavaleiros Templários, que seria “a proteção dos peregrinos na perigosa estrada que ia do porto de Jafa a Jerusalém”.5

Balduíno II concedeu ao contingente de cavaleiros liderados por Hugo de Payns “parte do palácio real [a Mesquita de al-Aqsa] que se erigia próximo ao templo de Salomão. Esse foi um dos primeiros donativos, do qual se seguiram muitos, que foi ofertado aos Templários durante os 200 anos do auge da ordem”.6 Graças a essa

doação os cavaleiros passaram a se autodenominar Soldados pobres seguidores de Cristo e do Templo de Salomão.7

Figura 1 - Mesquita de al-Aqsa

Fonte: Mesquita de al-Aqsa, David Shankbone, s/d. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Al-Aqsa_Mosque_by_David_Shankbone.jpg

A ordem alcançou o reconhecimento da Igreja em 1128, no Concilio Troyes (onde também foi redigida a Regra primitiva da Ordem dos Templários), que foi realizado graças aos esforços de Hugo de Payns, que se tornou o primeiro Mestre da ordem e do abade cisterciense Bernardo de Claraval que passou a receber a alcunha de mentor espiritual da ordem dos Templários; Bernardo funciona como um grande conciliador aproximando do ocidente o ideal do monge-guerreiro inaugurada

5 BURMAN, Edward. Templários: os cavaleiros de Deus. 5° edição. Rio de Janeiro: Nova Era, 2005,

p. 11

6 GARTEN, Juan de. Os Templários: Soberana Ordem dos Cavaleiros do Templo de Jerusalém.

2ª edição. São Paulo: Traço Editora, 1987, p. 10.

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pela Ordem dos Cavaleiros Templários, representada por Hugo de Payns. E mais do que isso essa configuração atendia a um desejo de secularização da cavalaria e atendia as necessidades criadas pelas Cruzadas, “São Bernardo permaneceu monge. No entanto, contribuiu para encontrar uma esfera original para essas aspirações religiosas dos laicos: a ordem religiosa e militar”.8

A partir desse ponto os Templários ganharam fama e passaram a acumular doações por diversas partes do Ocidente e do Oriente. O sucesso do Concílio realizado em Troyes mostrou-se o estopim para dá inicio a um ascendente processo de expansão da Ordem dos Templários na Europa Ocidental, como pode ser observado na citação que segue:

Hugues visitou a Inglaterra e a Escócia logo depois e, ao que tudo indica, recebeu doações de terras e dinheiro em ambos os países. (...) Os Templários também apareceram na Espanha no período de dois anos que sucedeu o Concílio de Troyes: a primeira menção clara de sua presença no nordeste da Espanha data de 1131, (...) Mas a presença mais antiga e mais importante na Itália foi nos portos da costa do Adriático, de onde os cruzados e os mercadores partiam para o Oriente.9

“Os Templários tornaram-se no Ocidente uma instituição de respeito com posses por toda a Europa e que acumularam dentre outras funções a de ‘banqueiros’ e no Oriente tornaram-se a maior e mais temida máquina de guerra, até então, vista pelo homem”.10 “Em poucos anos, administravam um sem número de

castelos, vinhedos, moinhos, fazendas de criação de animais e imensas áreas de terra para cultivo, além de incalculáveis peças de ouro e prata”.11 A ordem alcançou

prestígio inabalável por quase dois séculos, “até que em 1291, os muçulmanos conquistaram São João de Acre, última cidade cristã na terra Santa”.12 Com este

acontecimento os Templários e as demais milícias de Cristo perderam o seu objetivo inicial que era de proteger os lugares Santos no Oriente.

Este episódio deflagrou um momento bastante delicado da história dos Templários, pois a queda de Acre inaugurou um período de constantes críticas e

8 DEMURGER, Alain. Op. cit., p. 64. 9 BURMAN, Edward. Op. cit, .p. 38-41

10AZEVEDO, Philipe Luiz Trindade de. A Idade Média ainda vive: a representação dos cavaleiros

Templários em romances produzidos na contemporaneidade. 2011. Monografia (Graduação em História) – Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2011, p. 12-13

11MERCATELLI, Rose. O Exercito de Deus. In: Leituras na História. Ano IV, Edição 55. São Paulo:

Escala, SET/2012, p. 28-34.

12 BAÇAN, Lourivaldo Perez. A Sociedade Secreta dos Templários. São Paulo: Universo dos

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fragilidade, que propiciariam um cenário agradável para o Rei da França, Philippe IV, que se encontrava à frente de um reino com sérios problemas financeiros. Aproveitando-se de tal momento o Rei francês decide mover um processo inquisitorial, afim de, tomar para si os bens Templários. Ocorre a extinção em 1312, mas os bens da Ordem são transferidos aos Hospitalários (em Portugal os bens da Ordem são transferidos para a recém-criada Ordem de Cristo), para a decepção de Philippe. O processo inquisitorial pode ser considerado como um dos grandes causadores da fama misteriosa do Templo, principalmente pelo aparecimento, nos autos da inquisição, da figura do ídolo de adoração chamado de baphomet. “Segundo as atas do Templo, alguns cavaleiros adoravam um estranho ídolo de três faces de madeira ou metal, tendo a forma de um busto de homem com barba e os olhos brilhantes como chamas. Um dos monges-soldados interrogados conta que viu cavaleiros adorando essa curiosa estátua.” 13

A fama de guerreiros disciplinados atribuída aos Templários não é enganosa, maior prova desse fato são as crônicas que relatam os acontecimentos da Segunda Cruzada (1147-1149), empreendimento bélico que foi motivado pela perda de parte da Síria católica para os muçulmanos.14 Essa Cruzada foi pregada por Bernardo de

Claraval, o que foi decisivo para uma efetiva participação dos Templários. “Em 27 de abril de 1147, cento e trinta cavaleiros do Templo reúnem-se em capítulo em Paris sob a direção do mestre da província da França, Évrard des Barres, e na presença do papa; fornecerão ao rei Luís VII um contingente, cujo papel se mostrará decisivo”.15

Esta eficiência em combate pode ser eleita como uma das principais motivações para a fixação da Ordem dos Cavaleiros Templários em território português. A Ordem dos Templários teve uma atuação muito importante na península ibérica, participando da guerra de Reconquista e deixando grandes fortificações no território português como o Castelo de Tomar. “Los Templarios dividieron inicialmente la Península Ibérica en dos grandes estructuras: la provincia de Aragón-Cataluña-Provenza y la provincia de Portugal. Posteriormente, la

13 BOURRE, Jean-Paul. Dicionário Templário: história, epopéia, heróis e segredos da mais

prestigiosa ordem cavalheiresca da Idade Média. São Paulo: Madras, 2005.

14 FRANCO JR., Hilário. As Cruzadas: Guerra Santa entre Ocidente e Oriente. São Paulo: Editora

Moderna, 1999.

15 DEMURGER, Alain. Os Templários: Uma cavalaria Cristã na Idade Média. Rio de Janeiro: Difel,

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provincia de Portugal se dividirá en dos partes: Portugal por un lado, y Castilla y León por otro”.16

As frentes Templárias na península ibérica se deram principalmente no decênio 1140-1150, e em Portugal especificamente foram motivadas pelas doações da rainha Teresa. “Em Portugal em pouquíssimo tempo os templários receberam castelos, como em Source (...), obtém o território de Tomar, no qual começa a construir um castelo (1160) e uma cidade, que se tornarão a capital da província dos templários.17 E “a doação de Source aos Templários revela uma preocupação com a

defesa de Coimbra, cidade que tinha sido reconquistada definitivamente pelas forças cristãs em 1064, mas que continuava regularmente a ser objecto de incursões militares almorávidas”.18

Figura 2 - castelo de Tomar Fonte: Castelo de Tomar, Sergio Rodrigues, s/d.

http://tomar.com.sapo.pt/castelo.html

Revela-se a dupla funcionalidade dos Templários na Península Ibérica, os reis desejavam que os cavaleiros do Templo fizessem frente aos muçulmanos na Reconquista, devido a sua disciplina e coragem, e ao mesmo tempo queriam que os mesmos fossem responsáveis pelo povoamento dos locais reconquistados. “Os

16 MARTÍNEZ, Carlos Pereira. Panorámica de la Orden Del Temple en la Corona de

Galicia-Castilla-Leon. In: Criterios, nº 6, A Coruña, Fundación IEPS, 2006, s/p

17 DEMURGER, Alain.Op. cit., , p. 255

18BARROCA, Mário Jorge. Os Castelos dos Templários em Portugal e a organização da defesa do Reino no séc. XII, s.i.t., p. 126

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castelos que os soberanos aragoneses lhe concedem têm esse duplo papel (a bem da verdade têm-no por toda parte) de ponto de defesa e de núcleo de povoamento.19

Tomar acaba por assumir o exemplo mais importante, em Portugal, do sucesso dessa proposta; como mencionado à pouco a região foi doada à Ordem dos Templários no ano de 1160 e até hoje se autodenomina cidade dos Templários. Os Templários foram os responsáveis pelo povoamento da região e pela construção de importantes monumentos e espaços físicos que permanecem de pé em Tomar. Um dos mais reverenciados é o edifício atualmente conhecido como Charola Templária20, uma pequena Igreja construída em estilo românico e que se encontra

dentro dos muros do Convento de Cristo, em Tomar.

Figura 3 - Charola Templária.

Fonte: Charola Templária, anônimo, s/d, http://fix-repair.blogspot.com.br/2011/08/arquivos.html

Em Portugal, principalmente em Tomar, a herança simbólica deixada pela passagem e pelas construções executadas pelos Templários tem significativa importância, a grande prova disso pode ser observada na realização do tradicional Festival de Tunas (agrupamento musical formado por instrumentos de corda, cujo origem remonta a Espanha na segunda metade do século XIX) da cidade de Tomar e pela grande movimentação de turistas que visitam a cidade e adquirem produtos

19 DEMURGER, Alain. Op. cit., p. 256

20 SANTOS, Carlos Emanuel. A Charola Templária de Tomar: uma construção românica entre o

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decorados com estampas ligadas à Ordem do Templo: canecas (ver figura 4), cadernos, agendas e camisetas.

Figura 4 - Charola Templária retratada em caneca vendida a turistas.

Fonte: Caneca Charola Templária, anônimo, s/d, http://loja.visittemplarios.com/pt-pt/exclusivos-2758-1321378513

O festival de Tunas leva o nome da Ordem religiosa e militar extinta no século XIV, e mais do que isso representa um estilo musical que nasceu cinco séculos depois da extinção dos Templários, o que nos faz crer que mais que povoadores de uma região, a relação entre os Templários e Tomar significa o de referência nacional. Pode-se observar que as diferentes características que interligam as pessoas dentro de uma comunidade estão estritamente ligadas à signos que só fazem sentido àquele determinado grupo. Se pegarmos emprestado conceitos utilizados por Benedict Anderson podemos afirmar que o templarismo atuante em Tomar contribui para que Portugal seja vista como comunidade ao mesmo tempo soberana, finita e imaginada em suas particularidades.21

Isso nos mostra que as diferentes características da Ordem dos Templários, a pericia nos campos de batalha, o fanatismo religioso e o imaginário romântico existente, servem a diferentes propósitos, inclusive o nacionalista, produzidos em contextos completamente diferentes. O que poderia explicar sua constante utilização

21 ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: Reflexiones sobre el origen y la difusión del

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e o aumento contínuo de interessados no assunto e também explicar como os Templários são apresentados de maneiras tão distintas.

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