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Entre desfiles e preconceitos: Sobre ser mulher, negra e modelo.
Thaís Vieira Silva de Souza. Graduada em Licenciatura História pela UFTM. 1
Resumo
O objetivo deste artigo é problematizar a expressiva ausência de quantidade de modelos negras no mundo da moda, e consequentemente demonstrar quais os fatores que levam a exclusão dessas modelos nas passarelas nacionais e internacionais. Além de analisar como esta exclusão está ligada a maneira de como o mercado se correlaciona com a própria questão social e cultural da população negra. É analisado neste artigo acerca do padrão estético construído sob referência eurocêntrica, impondo assim uma ideia única da definição do que é belo desconsiderando a diversidade étnica, sendo que esta prática tem se difundido o racismo e a discriminação de diversas etnias, principalmente a negra. Faz-se necessário abordar este tema pela importância de se discutir diversidade e que o mesmo tem sido assunto na indústria da moda.
Palavras chave: moda, negra, racismo e beleza.
Abstract
The goal of this paper is render problematic an meaningful absence of quantity of black models in fashion world, and demonstrate consequently which factors lead to exclusion of this models from the national and international catwalks. Besides analyzing how this exclusion it is connected to the way how the market interrelate with the own social and cultural question of the black population. It is analyzed in this article about the esthetic standard built bellow eurocentric reference, imposing an unique idea of definition of what is beautiful ignoring the ethnic diversity, being this practice it has been spreading the racism and the discrimination of ethnics diverses, black principally. Makes if necessary approach this topic for the importance to discuss diversity and the same it has been subject in the fashion world.
Keywords: fashion, black, racism and beauty.
1 E-mail: [email protected]
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Introdução
Vivemos em um mundo diversificado entre etnias e culturas onde de forma única cada uma delas contribui para o desenvolvimento da identidade cultural de cada um de nós, sujeitos históricos. Entretanto, esta diversidade étnica e cultural não é representada em suas variadas formas de beleza, mas sim encenada por variados rostos brancos que estampam capas de revistas, são elogiadas por seu desempenho nas passarelas, mas não compreendem a importância da representatividade negra dentro e fora das passarelas.
As grandes agências de modelo, assim como as marcas que vivem dos novos rostos encontrados a todo o momento pelos bookers2celebram e comtemplam um tipo único de beleza, sendo esta a caucasiana, utilizada como principal fonte de inspiração para os consumidores da moda. Ainda que se tenha uma diversidade mínima no mundo da moda, as passarelas demonstram em seus eventos e em seus editoriais badalados, a cor mais rentável para um sistema econômico pautado no racismo e na discriminação étnica.
Os argumentos para a diminuta participação de modelos de outras etnias, principalmente a etnia negra, são os mais variados. Em alguns casos modelos negras afirmando que simplesmente não há a quantidade de modelos negras suficientes, ou até mesmo dizendo que não há interesse por parte de meninas negras em participar da indústria da moda. Porém poucos argumentos fogem do principio de que há uma falta de profissionais do sexo feminino negras que tenham o perfil procurado pelas agências de modelos. E neste sentido, atenta-se a fazer alguns questionamentos: quais são os perfis exigidos nestes desfiles e se existem tais perfis, porque dentre os 344 participantes da São Paulo Fashion Week no ano de 2009 apenas oito modelos negros foram selecionados para os
castings3? Será que isso se trata apenas de escassez de perfil para os desfiles ou de racismo propriamente dito?
O processo histórico pelo qual o negro tem passado, tanto no Brasil quanto fora dele, foi árduo e ainda hoje se luta para conquistar direitos semelhantes aos da parcela
2 Bookers são profissionais conhecidos como olheiros e trabalham na busca por novos rostos que possam vir a se tornar grandes modelos posteriormente. Em sua maioria buscam por adolescentes que tenham perfil para as passarelas nacionais e internacionais.
3 Castings são as seleções de modelos que ao serem aprovadas representaram as marcas e/ou grifes nos mais variados desfiles de moda. Geralmente os castings são feitos com a presença dos estilistas que ao verem as modelos desfilarem frente a frente, consideram quem é apta ou não a vestir as peças criadas para o evento.
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caucasiana, assim há de se questionar o posicionamento das empresas que promovem tais eventos e dos estilistas que pouco fazem para modificar essa realidade. Sendo assim, será que o perfil que atualmente lota as passarelas seja uma das tantas mutações que o racismo sofreu com o passar dos séculos? O que define o sentido da beleza feminina a ser utilizada nas passarelas? Já que cada um de nós é portador de uma beleza única e singular diante o outro, e principalmente para nós mesmos, enquanto resistência e identidade. Serão os traços, as formas curvilíneas e/ou afiladas, as características interiores ou simplesmente a cor da pele?
O artigo em questão tem como objetivo discorrer acerca do padrão de beleza europeu, fazendo uso do título ganho por Kristina Pimenova de criança mais bonita do mundo e como este padrão estético de beleza está arraigado nas questões raciais, além de demonstrar o quanto o ideal de beleza caucasiano ainda é visto com mais rentabilidade na promoção de produtos nas passarelas.
A metodologia para a realização de tal analise, fez-se uso de gráficos de dados coletos das semanas de moda mais importantes do mundo, como por exemplo, a semana de moda de Milão e Paris que contam com desfiles de alta costura de marcas renomadas, dentre outras coleções que influenciam na criação de outros estilistas. Fez-se necessário uma pesquisa teórica sobre a história da moda, bem como a leitura extensa de artigos sobre as questões raciais.
Menina, você é linda...
Kristina Pimenova, nascida na Rússia e modelo desde os três anos de idade, foi apontada, em meados de julho do ano de 2015, como a top model4 mais jovem e eleita a criança mais bonita do planeta. Com apenas nove anos de idade, a jovem modelo já desfilou para marcas conceituadas como Cavalli (do estilista Roberto Cavalli), Versace, dentre outras tão famosas quanto.
De acordo com o site Purepeople que descrevia a beleza da criança, esta vem sendo conhecida no mundo da moda pelo “[...] rosto simétrico, lindos olhos azuis e cabelo loiro.” Ou seja, traços considerados ideais e esteticamente perfeitos para a indústria da
4 Top model é o termo a qual se refere uma grande modelo, em sua maioria com carreira já consolidada internacionalmente. Geralmente quando recebem tal título tanto da imprensa quanto da mídia em geral, já terão participado de diversos desfiles, ostentam altos salários no mundo da moda e tornam-se referência e ícones de moda.
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moda. Kristina Pimenova, mesmo que ainda tão jovem, já carrega consigo o estigma da beleza e consequentemente tornou-se “objeto” de admiração e rentabilidade econômica nas passarelas internacionais. Considera-se também que sua origem europeia foi responsável pela aquisição de tal título, já que concursos mundiais tendem a preferir feições mais finas e traços mais delicados, que em sua maioria representam a ascendência caucasiana, construída pela ideia do eurocentrismo.
Assim, há de se perguntar, qual o significado de belo? O qual justificaria eleger a menina de olhos azuis e cabelos loiros como sendo a representação da beleza infantil mundialmente? O sentido de beleza é algo modificável assim como apresenta Eco (2004)5 uma vez que, o sentido da palavra vem se adequando e se modificando para suprir as necessidades de nossa sociedade em seus mais diversos momentos históricos. A contemplação da beleza apoia-se em outras interpretações filosóficas e cientificas, além das econômicas para justificar predileções e transformações do próprio conceito de beleza.
O belo em si, é aquilo que pode ser utilizado para a interpretação do que é bom e positivo em uma sociedade, além de ressaltar as qualidades humanas. E assim como o belo e/ou beleza faz sentido como algo positivo este se torna indispensável ao ser humano, tratando-se de algo a ser alcançado, uma padronização que desperta o desejo naqueles que não a tem, mas que ainda assim querem reproduzi-los.
Segundo Umberto Eco,
Belo – junto com o “gracioso”, “bonito” ou “sublime” “maravilhoso”, “soberbo” e expressões similares – é um adjetivo que usamos frequentemente para indicar algo que nos agrada. Parece que, nesse sentido, aquilo que é belo é igual aquilo que é bom, e de fato, em diversas épocas históricas criou-se um laço estreito entre o Belo e o Bom. Se, no entanto, julgamos com base em nossa experiência cotidiana, tendemos a definir como bom aquilo que não somente nos agrada, mas também aquilo que gostaríamos de ter. (ECO, A
história da beleza, 2004. P. 8)
A questão da proporcionalidade apresentada pelo site, como aponta Eco (2004) já esteve em pauta na história humana. Como o pensamento colocado por Pitágoras de que a beleza relacionava-se com a proporção. Esta proporção pode ser compreendida a partir
5 Umberto Eco é um renomado escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano. É diretor da escola superior de ciências humanas na Universidade de Bolonha, além de ser titular da cadeira semiótica (aposentado).
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de cálculos matemáticos que por fim, trazem resultados acerca da harmonia encontrada em um conjunto, culminando assim em uma sintonia harmônica em determinado objeto. Além das dimensões divinas, existia também a relação entre os números e a proporcionalidade presente no corpo humano, o que por sua vez adequa a simetria necessária para o belo. O número em si é o que de certa forma orienta a realidade a qual o ser humano vive.
Para que a padronização da beleza europeia se fizesse presente nos dias atuais, foi necessário todo um processo histórico envolvendo a diminuição e a desvalorização da cultura e identidade diversa a da mulher branca. Este mesmo processo histórico foi relevante na perpetuação do papel diminuto da mulher negra e indígena e da valorização da mulher caucasiana na sociedade.
Retomando a questão atual, assim como coloca Eco (2004) vivenciamos um período de beleza de consumo, onde consumimos o ideal de beleza que nos é vendido diariamente. Assim sendo, a forma como o corpo feminino tem sido vendido e interpretado mediante suas exposições demonstra as mudanças às quais o próprio processo de compreensão da beleza e do corpo tem sofrido com o passar dos séculos.
Conforme Peruzzolo6 (1998),
Quando o indivíduo olha um corpo através dos sistemas de circulação dos sentidos no grupo cultural, ele vai interpretar esse objeto ou evento como um “corpo” (humano) e não com um amontoado de linhas, formas, pedaços, cores, cheiros, etc, como se não fosse um caos de informações. Um “corpo” é uma construção social e cultural, cuja representação circula no grupo, investida duma multiplicidade de sentidos. Esses sentidos por vezes reafirmam, por outras se ampliam ou remodelam e por, outras ainda, enxugam ou, mesmo, desaparecem. Mas de qualquer forma, as representações se formam de acordo com o desenvolvimento humano num dado contexto sócio- histórico. (Peruzzolo, 1998. P 86)
É notável que esta mesma indústria que produz valores e comportamentos, além dos tão cobiçados acessórios e vestimentas, vêm se adequando a uma diversidade étnica
6 Adair Caetano Peruzzolo é bacharel em Filosofia pela Universidade do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, além de ter diversos títulos acadêmicos é o autor das obras “Comunicação e cultura”, “Elementos de semiótica da comunicação” dentre outros. Tem pesquisas realizadas nas áreas de comunicação e significação, assim como outras também relacionadas ao papel da mídia.
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existente de forma tão vagarosa. Esta mesma padronização que fez com que se elegesse Kristina Pimenova como uma criança portadora de uma beleza mundial, exclui outros padrões étnicos, como negros, asiáticos, indígenas, dentre outros.
Podemos assim dizer que ao mesmo tempo em que a moda se modifica de tempos em tempos, apropriando-se de padrões, culturas e atitudes, remodelando-se através de sua historia visual ao longo do tempo, pouco se tem transformado acerca da inclusão de modelos negras nas passarelas no âmbito mundial. Infelizmente, a história visual não acompanhou a diversidade dos sujeitos que compõem a sociedade.
Essa inadequação e posterior deficiência na representação de modelos com outros segmentos étnicos colaboram no despertar do desejo de tornar-se outra pessoa, e este “tornar-se outro” engloba modificações não somente físicas e estéticas assim como alimentares, na forma de agir, de se comportar, etc. Fazendo com que muitas mulheres e meninas, que não contam com a beleza semelhante de Kristina Pimenova, sucumbam ao querer adequar-se a protótipos pré-determinados pela moda e pela mídia.
Sobre a imagem de ideal feminino encontrada na mídia, e suas dificuldades em trazê-las para a realidade, Rachel Moreno7 diz que,
Assim no que se refere à auto-imagem decorrente da programação e comunicação comercial veiculadas pela mídia, a mesma seletividade estreita que se impõe a mulheres brancas como ideal de beleza novamente é exercida com relação às mulheres negras. A imagem se aproxima mais, a ponto de parecer formalmente possível de ser alcançada como modelo – mas continua distante o bastante para ser predominantemente excludente. [...] (MORENO. 2008. P.50)
Vocês são exceções e não regras...
As modelos nas passarelas representam não somente o ideal de beleza feminino desejado pelas mulheres, como também a cor e/ou etnia mais rentável para a indústria da moda. A estética encontrada nas passarelas valoriza um padrão na questão do belo e da beleza, no entanto, pouco se utiliza da beleza encontrada na diversidade de outros sujeitos existentes na sociedade.
7 Rachel Moreno é escritora, ativista pelos direitos das mulheres e milita pela democratização da mídia. Atua também como pesquisadora, sexóloga além de lutar pela igualdade de gênero.
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Se a beleza encontra-se nos olhos de quem a vê, esta está atualmente ligada a um sentido estético universal, uma vez que, por conta da padronização da beleza europeia, as outras belezas encontram-se limitadas a serem coadjuvantes. A indústria da moda propaga continuamente este ideal, mas de forma a não parecer que o está fazendo oficialmente, que é segregar e delimitar um padrão único de beleza.
Para tal, utiliza de exceções como as modelos negras Naomi Campbell, Iman, Tyra Banks (que foram ícones na década de 1990) dentre alguns outros exemplos para justificar a existência de modelos negras nas passarelas, no entanto, ainda que tenham sido importantes em seus dados momentos estas modelos, não representam uma grande parcela de mulheres negras. Naomi por exemplo, é dona de olhos verdes assim como Tyra Banks que também tem lindos olhos coloridos em tom de mel e Iman apesar de ter nascido em um país africano conta com traços finos, e uma pele clara como as outras modelos negras aqui citadas.
Essa necessidade, em encontrar padrões negros que se adequem as necessidades das passarelas em se tratando de formas e simetria corporal tem como influencia a própria dominação exercida por estes grandes conglomerados de moda. Que enfatizam a utilização de modelos negras de pele mais clara, lábios e nariz mais afilado em prol da continuidade da padronização da beleza europeia, ou seja, ainda que não sejam propriamente brancas estas se encontram mais adequadas e aceitas à profissão de modelo.
Como afirma Rachel Moreno,
Finalmente, mais uma vez, no exíguo espaço que retrata a beleza negra não temos um tom mais forte, contornos e silhuetas mais característicos e diversos, cabelos mais crespos, perfis menos apolíneos e imagens da diversidade... A Vênus negra, assim como a branca, também fica no Olimpo, embora seja colocada como modelo de beleza possível. (MORENO. 2008. P.50)
Não se recusa a existência de modelos negras de tons de pele mais escuros, lábios carnudos e cabelos naturalmente crespos. Sim elas estão presentes no mundo da moda, porém, em números relativamente menores se comparados à quantidade de modelos caucasianas, e menos ainda em relação à quantidade de modelos negras mais claras.
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Diversidade pra que te quero
A semana de moda de São Paulo, mais conhecida como São Paulo Fashion Week, acusada de racismo pela pequena quantidade de modelos negros em sua passarela, resolveu em comum acordo com o Ministério Público no ano de 2009 (ano da respectiva acusação) pela criação de “cotas raciais”, ou ao menos foram assim que ficaram conhecidas as medidas afirmativas, que exigiam a participação de 30% de modelos negras nas passarelas do evento, uma vez que a quantidade de modelos negras era muito pequena em comparação as modelos brancas.
Após acusações, ninguém assumiu a culpa por ter tão poucas representantes da etnia negra nas passarelas. Em 2015, o evento Fashion Rio foi acusado de racista pela pequena presença de modelos negras nas passarelas.
Segundo o booker Anderson da agência Way em entrevista para um site especializado:
“Sem hipocrisia alguma, seleciono as modelos pelo potencial e não pela cor da pele. Elas são apresentadas nos castings como modelos e não como negras. Levamos aquelas que têm o perfil do desfile, e acontece que não aparecem tantas modelos negras com o perfil que a agência procura. No esporte, 90% das atletas são negras, acho que o preconceito está na cabeça das pessoas, uma ou outra marca não contrata mesmo, mas não acho que o mercado seja preconceituoso com isso como todo mundo pensa. É como quando as empresas não contratam gays etc., são exceções. Sou quase negro, pra me defender. Mas essa é a minha visão como booker e scouter, não como marca”. (Em: < http://www.lilianpacce.com.br/moda/ser-modelo-negra-no-brasil/> Acesso em 12 de julho 2015 ás 10:26).
A opinião expressada pelo booker da agencia de modelos Way expressa o quanto o racismo encontra-se intrínseco em nossa sociedade, a ponto de negarmos sua existência e pior, considerarmos que medidas como as cotas raciais para modelos negras nas passarelas não se relaciona com o fato de estas estarem sendo excluídas das passarelas. O booker alega a questão do perfil, no entanto, o perfil mais procurado não é o da mulher negra com traços africanos, mas sim o da mulher branca esguia de cabelos loiros e olhos coloridos assim como a pequena Kristina Peminova.
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Assim como no Brasil, a questão da diversidade étnica tem sido discutida nos
backstages8 uma vez que a participação de outras etnias encontra-se muito limitada, alguns estilistas consideraram que seria o momento de se modificar a forma como a moda tem representado a mulher, suas diversidades étnicas e os impactos da falta de representação nas que almejam algum dia chegar ao mesmo patamar das mais badaladas modelos.
Para tal, a semana de moda de Nova York ainda no ano de 2014, deu inicio as discussões sobre a diversidade étnica, no entanto, para representar a tal diversidade a maioria das marcas representaram desfiles com vestimentas características de outras etnias, porém com modelos caucasianas, o que entra na discussão de apropriação cultural.9
Este gráfico é referente ao ano da diversidade na Fall Season 102014 de Nova York.
Através da contagem de modelos de diferentes etnias que participaram de algum
castings e que posteriormente foram chamadas para desfilar para marcas conhecidas.
Figura 1 Gráfico referente às disparidades étnicas encontradas durante os desfiles da Semana de Moda de Nova York em 2014.
Fonte: Disponível em: < http://jezebel.com/new-york-fashion-week-diversity-talks-but-white-faces-1522416724 > Acesso em 02 de julho 2015 ás 18:43.
8 Backstage é o local onde as modelos se concentram antes dos desfiles de moda. Além de ser o local onde estas são preparadas para entrar, onde recebem tratamentos de maquiagem, cabelo e trocam de roupas quando necessário.
9 Entende-se por apropriação cultural, o ato em que determinadas expressões da cultura de populações que estão à margem da sociedade durante todo o processo histórico, são atribuídas e aceitas dentro da indústria cultural, a partir do momento em que suas características culturais passam a ser praticada por outra classe, etnia que são privilegiadas na sociedade. A cultura da população negra são as que mais sofrem por esse ato de apropriação cultural.
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Em Black Looks, Bell Hooks11 associa a relação do poder da normatização como sendo
efeitos do exercício da dominação por parte das classes detentoras do poder:
The ways in which black people, black experiences, were positioned and subjected in the dominant regimes of representation were the effects of a critical exercise of cultural power and normalization. Not only, in Said's ·orientalist" sense, were we constructed as different and other within the categories of knowledge of the West by those regimes. They had the power to make us see and experience ourselves as “Other" ... It is one thing to position a subject or set of peoples as the Other of a dominant discourse. It is quite another thing to subject them to that "knowledge,” not only as a matter of imposed will and domination, but by the power of inner compulsion and subjective conformation to the norm. (HOOKS.1992.P.3)
A forma como a indústria da moda tem se utilizado do corpo feminino, a imposição de um ideal caucasiano e a predileção para um espaço maior de modelos brancas em detrimento de outras etnias, privando-as de uma maior participação e consequentemente da deturpação de sua própria autoimagem, demonstra que esta vai muito além da simbologia.
Segundo dialogo proposto com Pierre Bordieu12,
É enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento que os <sistemas simbólicos> cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre outra (violência simbólica) dando o reforço da sua própria força às relações de força que as fundamentam e contribuindo assim, segundo a expressão de Weber, para a <domesticação dos dominados>. (BORDIEU.1998.P.11)
Para Bordieu, a função política e dominante que a indústria da moda exerce sob seus consumidores possibilita a integração dessa sociedade com poder aquisitivo suficiente para promover os grandes eventos de alta costura e gerir as grandes marcas presentes no mercado. Além de contribuírem para a permanência da exclusão da etnia negra e
11 Bell Hooks é escritora, feminista e militante pelos direitos das mulheres.
12 Pierre Bordieu foi um sociólogo francês do século XX. Autor de muitas obras relacionadas a questão do poder. Atuou também no Centro de Sociologia Europeia no qual ocupou o cargo de secretário geral.
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possibilitarem o pensamento de que o fato de contarem com algumas modelos negras nas passarelas o racismo propriamente dito não existe.
Esse fato contribui para uma falsa ideia de democracia entre as etnias nas passarelas, apoiando-se na perspectiva de que ainda que o crescimento tenha sido pouco (na participação das modelos com o passar dos anos) há uma participação efetiva de modelos negras nos mais variados castings.
Em concordância com a analise proposta por Bordieu sobre as classes e seus interesses,
As diferentes classes e fracções de classes estão envolvidos numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme aos seus interesses, e imporem o campo das tomadas de posições ideológicas reproduzindo em forma transfigurada o campo das posições sociais. (BORDIEU.1998.P 11)
As semanas de moda de Paris, Milão, Nova York e Londres são referencia no que diz respeito à moda e ao comportamento dos consumidores de grandes marcas como Dolce e Gabbana, Marc Jacobs, talvez seja por conta disso que haja uma maior cobrança por parte destes eventos para que se tenha uma inserção de outras etnias, mas principalmente a etnia negra.
Contudo, ainda há um longo caminho para que a diversidade étnica seja realmente representada por modelos que se distanciem do padrão exigido pelas grandes marcas. O gráfico abaixo mostra as disparidades étnicas encontradas nos desfiles realizados em Nova York, Londres, Milão e Paris locais que são referencia em moda e comportamento.
E demonstra como ainda que se tenha um maior interesse de se integrar as demais etnias, há uma participação muito maior de modelos caucasianas nos castings da semana de moda de Nova York. Sobretudo, ao observamos este gráfico e analisarmos com o que foi visto anteriormente, notamos uma diminuição na participação de modelos negras nas passarelas de Nova York.
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Figura 2 Gráfico referente à quantidade de modelos presentes nas passarelas das principais semanas de moda do mundo. Os dados coletados referem-se ao ano de 2015.
Fonte: Disponível em: < http://www.thefashionspot.com/runway-news/559317-diversity-report-fall-2015/> Acesso em 02 de julho 2015 ás 14:27.
Diante os resultados apresentados pelos gráficos referentes à participação de modelos negras nos desfiles mais importantes do fashion world nos anos de 2014 e 2015, e o posicionamento das grifes em relação à diversidade étnica, estas não negam a existência de outros rostos e arquétipos étnicos, porém ainda se prendem ao modelo caucasiano de beleza e o perpetuam. O que nos faz questionar, por que ainda a maioria feminina negra encontrasse acondicionada a frequentar os backstages dos desfiles mais glamorosos?
Poderíamos assim afirmar que tal perpetuação ocorre por vezes pela questão relacionada ao fato de que a cor e/ou etnia branca ainda é associada à elegância e sutileza, aspectos estes que são considerados essenciais para exercer tal profissão. Assim como se correlacionam com o fato de que a etnia branca ainda é associada a uma maior rentabilidade na indústria da moda.
Ser branco vende, ainda que se esteja vestindo e vendendo produtos que são caracteristicamente encontrados na comunidade negra. Um grande exemplo seria a
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utilização de turbantes e roupas com estampas de cunho africano para enfatizar o sentido étnico da vestimenta em questão. Sendo assim, esta perspectiva fica evidente com a quantidade mínima de participantes de outras etnias, mais precisamente as de etnia negra nas passarelas e sua grande quantidade fora dos castings das marcas mais badaladas.
E ainda que o booker afirme que a seleção das modelos para os desfiles seja influenciada pelo potencial de cada uma delas e não pela quantidade de melanina que estas têm em seus corpos, há de se questionar que potencial é este que encontrasse presente somente em modelos brancas, ou pelo menos na maioria delas? O que realmente as difere das modelos negras? O que as torna mais especiais, a ponto de fazer com que apenas oito modelos negros (dentre homens e mulheres neste caso) sejam encontrados nas passarelas em comparação aos 344 modelos brancos presentes na mesma temporada que ocorreu no ano de 2009? Será este, o mesmo potencial que tornou possível a menina Kristina Pimenova ser considerada a representante da beleza infantil em âmbito mundial?
Serão nossos quadris largos, lábios carnudos ou cabelos crespos que teriam nos afastado das passarelas pelo mundo afora? Ou o simples fato de sermos consideradas inadequadas para um ambiente, que propositalmente ou não, desvaloriza aquelas mulheres que se encontram fora dos padrões construídos? O que desta forma nos impossibilitaria de participar de tais eventos, e, por conseguinte permitiria com que falas semelhantes ao do booker se perpetuassem, considerando modelos de etnia negra, com menos potencial que as modelos caucasianas.
Vale ressaltar, que a influencia do mercado é tão relevante, quanto à própria escolha do estilista de seu casting a adentrar na passarela. Desse modo, a forma como a sociedade ainda vê o negro, se reflete não somente na pouca participação nas passarelas, mas também na rentabilidade baixa, um produto vendido por uma modelo negra nem sempre é tão rentável quanto o vendido em uma modelo branca, ainda que seja algum produto relacionado à cultura negra.
Portanto, mesmo diante a diversidade existente há uma predileção pela permanência da padronização da beleza europeia, acentuando suas qualidades e culpabilizando o próprio negro pela sua não participação, ora afirmando que tal individuo não procura agencias
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especializadas, outrora afirmando que não há modelos com padrões estéticos tão procurados pelas grifes participantes dos grandes desfiles.
A existência das cotas raciais nas passarelas brasileiras, assim como, as medidas tomadas por algumas grifes estrangeiras para inserir novos rostos e outras formas de beleza étnica, nas passarelas nacionais e internacionais geram o dialogo acerca do racismo, pois se há a necessidade da criação de medidas que possibilitem a inserção destes novos sujeitos em um ambiente que é conhecido por ser majoritariamente branco, é evidente que o racismo, ainda que velado, seja existente.
Apesar de tais medidas bem intencionadas por parte de seus criadores, ainda verifica-se uma ineficácia inquietante, tendo em vista que, a participação de modelos negras nas passarelas ainda tem sido mínima em relação à participação de modelos caucasianas. Portanto é necessário que a discussão acerca da inclusão de modelos negras nas passarelas mundiais continue a crescer, para que haja espaço para todas as formas de belezas existentes e assim, com o passar dos anos, os próximos dados coletados sejam mais positivos para com a diversidade nas passarelas.
Conclusão
Em suma, o artigo em questão tem como objetivo central argumentar sobre como a idealização da beleza caucasiana pode ser capaz de implementar de forma sutil o padrão de beleza a ser seguido pelas demais mídias e como estas se correlacionam para promover a etnia que consideram como sendo mais rentável e produtiva. Através da investigação proposta, pode constatar que o racismo encontra-se presente e mantendo-se vivo, diante as modificações que a moda tem perpassado.
A escolha da pequena Kristina Pimenova como representante infantil da beleza mundial, atentam-nos sobre questões relacionadas ao significado do belo, a simetria do corpo feminino e como este é padronizado, principalmente no mundo da moda. Sobretudo se para ser belo, é necessário que se tenha características no mínimo semelhantes a da menina, a maioria das jovens que adentram no mundo da moda se distanciam desse ideal.
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E é justamente com esta visão distorcida onde somente uma beleza é considerada rentável e realmente relevante para a indústria da moda, da cosmética; que milhares de adolescentes e jovens tentam ingressar no tão concorrido mundo das passarelas, e para tal modificam-se, adequam-se e, por conseguinte, distanciam-se de suas raízes étnicas tentando alcançar o ideal proposto pela mídia.
Diante as mudanças recorrentes no mundo da moda como, por exemplo, o “boom” como assim ficou conhecido o período onde havia grandes tops models negras como Naomi Campbel, Iman e Tyra Banks no cenário da moda, modificou-se quase que totalmente, principalmente pelo fato de que, mesmo tendo algumas representantes negras nas passarelas, poucas delas realmente representam as mulheres negras como um todo. Em sua maioria trazem consigo traços distantes daqueles que encontramos diariamente nas ruas de nossos bairros e cidades, e contam com tons de pele bem mais claros do que os que também vemos diariamente.
Não excluo a existência de modelos negras com tons de pele mais escuros e que se aproximam a sua maneira do que podemos considerar como recorrente para representar a maioria da população negra no mundo, no entanto, ainda trata-se de minorias em comparação ao que vemos nas grandes semanas de moda que ocorrem pelo mundo afora. E quando digo minoria, não são somente em relação à quantidade de modelos negras presentes nas passarelas, mas também em relação à forma como ainda são vistas na sociedade e o próprio olhar da crítica sob essas modelos. O sentido de minoria étnica continua presente e em sua mais relativa forma através do racismo.
O racismo modifica-se a todo o momento, não levando em consideração apenas as características físicas do individuo, mas também dos fatores ligados a etnicidade deste sujeito, que estão enraizados na forma como a sociedade lida com estes que são considerados minorias, a forma como o mercado lida com estas minorias enfatiza suas discrepâncias sociais que perpetuam o papel social que estas ocupam fora das passarelas.
E se o mercado e as marcas que se encontram envolvidas em desfiles e produção de editoriais conhecem suas deficiências e tendem a continuar perpetuando papeis e estereótipos, e pouco fazem para modificar o atual cenário, similarmente os veículos midiáticos são tão responsáveis quanto às grifes e empresas que promovem castings e selecionam modelos através de métodos bastante controversos. Ainda que se recuse a
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existência de escolha de modelos por conta de sua etnia, os gráficos utilizados no artigo comprovam que as discrepâncias presentes nas passarelas mundiais são um reflexo do racismo existente, ainda que velado.
É notável que a moda se alimente da história social e cultural para compor sua história visual criando assim suas tendências, porém esta se vale do destaque a determinados modelos a serem seguidos por seus consumidores, através de sua história recriada a partir de acessórios, vestimentas e comportamentos. Ou seja, visando além da padronização estética para a promoção de produtos, o mercado da moda vende padrões estéticos dos grupos étnicos que serão atendidos.
Portanto, torna-se necessário o debate acerca das cotas raciais nas passarelas, pois uma vez que reconhecemos a necessidade destas, consequentemente admitimos a existência da exclusão de determinadas etnias em detrimento de um padrão estético. Alguns ainda podem se questionar sobre o porquê de se discutir tal tema em um ambiente que ainda que tenha uma maioria branca, conta com determinada diversidade atualmente, incluindo novos personagens que até pouco tempo não eram encontrados nas passarelas. O racismo no mundo da moda não somente existe como se materializa quando lemos algo a respeito do assunto, notamos que as próprias modelos negras que conseguem frequentar alguns castings de estilistas famosos ou não, consideram que não há racismo, mas sim uma dificuldade de se encontrar modelos negras adequadas aos gostos dos mais variados estilistas.
Contudo, há uma discordância, pois não se trata apenas de poucas modelos negras no mercado, o que realmente gera posicionamento contrário a forma como estes castings selecionam tais modelos, o fato é de considerarem um perfil ideal para determinadas marcas e estilistas. E estes, em sua maioria, escolhem o mesmo perfil que é encontrado nas passarelas ao redor do mundo, jovens esguias e caucasianas.
O que nos remete a outra importante questão será que os 30% exigido pelo ministério publico brasileiro e as escolhas de alguns estilistas estrangeiros por modelos negras em alguns desfiles é o suficiente para suprir o déficit existente? Obviamente, esta porcentagem não é suficiente em relação aos mais de trezentos modelos que geralmente desfilam em somente uma temporada de moda, porém se estes forem cumpridos frequentemente por tais marcas e exigidos por parte dos organizadores destes eventos é provável que consequentemente os números se modifiquem, ainda que de forma singela
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como tenha acontecido com o passar dos anos. Neste sentido, cabe repensar o sentido da mulher negra no mundo da moda, a qual local esta mulher está acondicionada, como o debate sobre o tema é necessário para derrubar as barreiras raciais que foram criadas, como a forma que a mulher negra foi inserida na sociedade e como ela tem lidado com as limitações que surgiram com a chegada de seus ancestrais e continuam presentes até hoje, mesmo com seu estado liberto.
Bibliografia
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