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O ACERVO A SERVIÇO DA MEMÓRIA

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Academic year: 2021

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O ACERVO A SERVIÇO DA MEMÓRIA

Naor Franco de Carvalho Orientador: Prof. Dr. Marco Antônio Neves Soares RESUMO

É comum confundir o conceito de memória com o de história, esta confusão vem do fato de esses dois conceitos estarem subjetivamente interligados pela noção de passado. Neste trabalho, será observado a definição destes conceitos, procurando diferenciá-los através das discussões e da caracterização deles, para isso utilizaremos os pressupostos teórico-metodológicos de Pierre Nora e Michael Pollak. Como fonte histórica será utilizado o acervo “Michael Traumann” que se encontra presente no Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da UEL (CDPH). A partir deste acervo que é constituído por cartas, fotografias, discos de vinis, livros diversos e peças de teatro, podemos observar o uso da memória pela história, como ferramenta desta última. O acervo “Michael Traumann” traz em si a memória da família Traumann, uma família alemã de origem judaica, refugiada em Rolândia-Pr devido ao avanço nazista na Alemanha na década de 1930. Michael, sempre teve como sonho pertencer ao mundo acadêmico, por vários motivos nunca o teve realizado, com a sua morte em 2009 toda a sua história de vida foi doada para UEL, permitindo assim que servisse de uma fonte de memória para a pesquisa histórica.

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Ao se pensar em memória é natural que sejamos conduzidos a um conceito mais simples deste termo, como um pensamento sobre a infância, casamento, morte, algo que tenhamos vivenciado ou observado. Este pensamento inicial não deve ser ignorado, pois estas memórias individuais formam redes que se relacionam com o exterior, todo tipo de vivência pessoal esta inserida em um contexto sócio histórico, ou seja, é passível de análises, que contribuem para a compreensão não só da vida pessoal do indivíduo, mas também em qual período histórico ela encontra-se e, qual movimento social está inserida. Partindo desta compreensão, poderemos então observar que a memória pode ser individual, coletiva, motivo da união de determinado grupo ou separação, seletiva e construtora de identidades sociais.

Michael Pollak em sua obra “Memória e Identidade Social” trabalha as construções identitárias feitas pela memória, pergunta ele:

Quais são, portanto, os elementos constitutivos da memória, individual ou coletiva? Em primeiro lugar, são os acontecimentos vividos

pessoalmente. Em segundo lugar, são

acontecimentos que eu chamaria de "vividos por tabela", ou seja, acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente pertencer.1

Esses acontecimentos citados pelo autor são responsáveis, para formação das identidades. Como já dito acima, tanto experiências individuais quanto as coletivas estão relacionadas, essas experiências unem as pessoas a determinado grupo a qual “sente pertencer” como diz Pollak. Um bom exemplo disto são experiências religiosas, onde indivíduos de variadas faixas etárias, financeiras, encontram-se em um culto, por acreditarem ter tido o mesmo contato com a verdade, a divindade, essa crença de pertencimento é fruto de uma vivência pessoal e ao mesmo tempo coletiva, ambas caminham interligadas, uma mantém a outra. Também podemos ter como exemplo grupos

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POLLAK, Michael. “Memória e Identidade Social.” In: Estudos Históricos, Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, pg. 201.

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de militância política. A bagagem intima de um militante, alimenta o movimento coletivo no qual o mesmo acredita pertencer, sendo que ao mesmo tempo, este movimento coletivo contribuí para a formação identitária do próprio militante. Estes movimentos religiosos ou políticos são mantidos por uma memória, sendo que esta tem a capacidade de ser migratória, são transferidas e modificadas por gerações e, podem estar alojadas em monumentos, como túmulos, estátuas que manifestam através delas certa consciência histórica, como por exemplo, uma estátua em homenagem a “revolução de 64”, onde existe uma guerra entre as memórias presentes nela. Quem a contempla como revolução, certamente acredita que a ditadura militar foi um momento honroso no Brasil, já para outros representa a dor de um parente desaparecido ou da tortura sofrida durante o governo militar e, até mesmo um olhar crítico sobre este período. Para o primeiro grupo esta estátua materializa a honra que foi participar do golpe de 64, ou é fruto de uma transferência, onde no individuo foi construída em um primeiro momento, um parecer favorável a tal momento histórico; já para o segundo grupo toda a dor da perda, algo vivenciado, ou também algo que lhe foi transferido, como um avô morto por militares, mesmo que esta pessoa não tenha conhecido o seu avô, tem como herança a dor que seus pais sofreram. Pollak trabalha com estes monumentos e como eles são usados pela memória:

Na memória mais pública, nos aspectos sinais públicos da pessoa, pode haver lugares de apoio da memória, que são os lugares de comemoração. Os monumentos aos mortos, por exemplo, podem servir de base a uma relembrança de um período que a pessoa viveu por ela mesma, ou de um período vivido por tabela.2

A memória manifesta em monumentos é importante para entendermos, como ela tem a capacidade de ser seletiva. Nem tudo é registrado, ou por não ter tido nenhum impacto no coletivo, ou por ter sido

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POLLAK, Michael. “Memória e Identidade Social.” In: Estudos Históricos, Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 202.

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esquecida. Tomando a representação dos monumentos, nem toda memória é representada desta maneira, não são todas que são enquadradas desta forma. Muitas vezes a forma do enquadramento é seu nível de importância no social, quando se trata de algo coletivo. Quando determinado grupo começa a enquadrar seu passado, sua vivência, ele dá início à construção identitária, pois a memória é constituinte na formação das identidades, tanto pessoal quanto coletiva. Para formar uma identidade nacional, ela seleciona datas, eventos, heróis partindo destes resquícios do passado e, muitas vezes utilizando a matéria de história nas escolas, ou entidades políticas e religiosas ela constrói e causa a união de uma nação, mas não podemos esquecer que este selecionar da memória, gera a exclusão e o esquecimento de outras, ou seja, todo enquadramento é parcial e sempre existe algo que é deixado de fora, que se torna marginal, vivências estas excluídas e não aceitas para formar a identidade nacional. Essas lembranças esquecidas ao longo do caminhar histórico tornaram-se marginais, ignorada pela memória oficial de uma nação e até mesmo pela história, ela ficou perdida entre os mitos, foi transferida em pequenos grupos pela fala, enquadrou-se em uma cultura subterrânea e minoritária. A história oral entra como auxiliadora, pois ela resgata essas lembranças e, “ressaltou a importância de memórias subterrâneas...” (POLLAK, Michael Memória, esquecimento, silêncio. Pag.4) como diz Pierre Nora ela também, laiciza a memória, torna a universal, tira-a do âmbito pessoal e ideológico:

A memória é sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história uma representação do passado. Porque é afetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas... A história, porque é operação intelectual e laicizante, demanda análise e discurso crítico. 3

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NORA, Pierre. “Entre Memória e História- A problemática dos lugares”- Projeto História. São Paulo (10). Dez. 1993 p. 9

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Por muito tempo história e memória foram vistas como iguais, pelas duas reportarem-se ao passado, mas com estudos mais aprofundados foi compreendido que estes dois conceitos são diferentes. Pierre Nora em sua obra “Entre Memória e História”, ele trabalha com a diferença entre estes dois termos. Para Nora, a memória já não existe mais, ela encontra-se em migalhas, o que temos hoje são resquícios dela, estas “sobras” são utilizadas pela história, para fim de resgatar um passado, este resgate não é o passado como era, mas sim representações deste. “O que é chamado de memória não o é, portanto, memória, mas já história” (NORA, Pierre. Entre Memória e História- A problemática dos lugares p. 14). Com o fim da memória, a procura por resgatá-la segundo Nora, cresceu, ou seja, todos tornaram se “historiadores de si mesmo”, com a tentativa de preservar o que sobrou em álbuns fotográficos de seus antepassados, criação de genealogias e o dever de ser um guardião das lembranças. Dentro deste contexto encontra-se o acervo, criado pela necessidade de guardarmos a memória que desaparece, sendo esta algo que precisamos e queremos nos lembrar, mas na verdade é a “constituição gigantesca e vertiginosa do estoque material daquilo que nos é impossível de lembrar.” (NORA, Pierre. “Entre Memória e História- A problemática dos lugares” p.15).

Ao entendermos a diferenciação entre história e memória, podemos compreender de melhor forma como a primeira utiliza a segunda como objeto. Uma ferramenta que auxilia o historiador é a fonte documental, onde depois de vários processos técnicos fica arquivada em acervos documentais. Nestes acervos encontram-se várias histórias de vidas, cidades, movimentos políticos. Todos estes documentos são resquícios de memória de um grupo político, de alguma família, ou produções de um historiador, sociólogo, literário ou pessoas comum. No Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da UEL (CDPH), encontramos vários tipos de documentos, fundos e acervos, entre estes está o acervo Traumann doado para UEL em 2009 com a morte de Michael Traumann. A família Traumann veio refugiada devido ao avanço do nazismo na Alemanha na década de 30, vivendo em

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Rolândia- PR desde então, construindo aqui na terra vermelha um novo lar, ampliando sua família e tornando-se cada vez mais brasileiros. Como já dito, após a morte de Michael Traumann todas as suas produções durante vida, seus gostos musicais e literários, fotografias e cartas, tornaram-se um acervo documental, com o intuito de retirar a partir desta família as suas produções culturais no Brasil. O acervo registra resquícios memoriais, com a intenção de preservar um passado, mas em seu início sua intenção era outra como, o primeiro acervo documental no Brasil, que seria os documentos oficiais do reinado português nas terras de além-mar, buscava registrar o novo, guardar na história aquilo que ainda não havia sido vivenciado:

Desde o momento em que o europeu desembarcou no continente americano, teve início, embora de maneira bastante, desorganizada, a produção de documentos de caráter público, seja para o registro da correspondência, seja para o registro de atos... Se durante muito tempo, os arquivos reais mantiveram o caráter itinerante das cortes, aos poucos se solidificou a ideia de que seria preciso conservar, em segurança... 4

Segundo Nora, por a memória não existir mais, o acervo trabalha como protetor do que lhe restou, a preocupação não esta mais em arquivar o que é novo, mas sim o que restou. O historiador ao lançar seu olhar para um documento deve contextualizá-lo, ver em qual período histórico encontra-se, em qual movimento social esta inserido, por exemplo, a família Traumann estava inserida em um mundo que vivenciava uma segunda Guerra Mundial, estava lidando com seus custos morais, financeiros e culturais, em Rolândia teve de adaptar-se a uma nação diferente, durante um mundo em crise, durante e pós-guerra. Conforme se tornava cada vez mais brasileira, começou a fazer parte da alta sociedade rolandiense, participando de casamentos e eventos conceituados, mas apesar de pertencer cada vez mais a esta nação, ainda tinha sua alma alemã, pelo menos a primeira e a segunda

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BACELLAR, Carlos. Uso e mau uso dos arquivos. In Fontes Histórica- org. BASSANEZI, Carla Pinsky. Editora Contexto. SP 2005. P. 45

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geração. Michael Traumann fazia parte da segunda geração e produzia adaptações teatrais em alemão e inglês, tinha livros de filosofia na língua alemã, seu gosto musical permanecia em grande parte alemão, podendo ser visto através de seus discos de vinis que, também se encontram no acervo. Essas pequenas análises, ainda não completas foram retiradas a partir de uma contextualização inicial sobre a família através do acervo. Quando estamos em contato com um documento devemos procurar o indivíduo nela, onde esta o humano em meio aos papéis, o que ele produziu e o que isto tem de sua memória, pois como já dito exaustivamente, o acervo guarda o que sobrou de uma pessoa, seus traços, seus gostos, fragmentos de sua vida, desta forma poderemos produzir não somente um texto com algumas informações, mas sim tornar universal algo que antes era pessoal, relacionar uma pequena história de vida em um contexto mundial, partir de uma micro história, até encontrar-se com a macro.

Acervo documental, já foi acumulador de memórias, mas hoje ele é um guardião dos resquícios da memória. Não podemos mais compreender que um documento consiga trazer a vida o que realmente aconteceu quando foi produzido, sua capacidade esta em ser uma representação do passado, que não pode ser mais alcançado plenamente, de uma memória em migalhas. Essa crise da história e memória, como explícita Nora, não leva a história a uma falência, pelo contrário, amplia nossa compreensão sobre o que entendemos do passado, como o vemos e o analisamos. A fonte nunca será totalmente esgotada, enquanto houver o humano, haverá a história, sempre produziremos memórias e mesmo que elas se percam, resquícios poderão ser encontrados, sendo que estes terão olhos dispostos a analisá-los, olhos de um historiador, que continuará a investigar o passado, a buscar suas representações, a utilizar este passado como ferramenta de análise para o presente e, para perspectivar o futuro como já afirmaram Hobsbawn e Rüsen. Assim, o acervo Traumann se faz uma fonte de resgate da memória, neste caso da família Traumann, podendo então contextualiza-la historicamente, nos levando a transformar essa memória então

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limitada de uma família que vivia no interior do Paraná, em história, inserindo-a no mundo, tirando-a das mãos de uns e, entregando-a para todos.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

POLLAK, Michael. “Memória e Identidade Social.” In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992.

POLLAK, Michael. “Memória, Esquecimento, Silêncio” In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2 n. 3 1989.

NORA, Pierre. “Entre Memória e História- A problemática dos lugares”- Projeto História. São Paulo (10). Dez. 1993.

BACELLAR, Carlos. Uso e mau uso dos arquivos. In Fontes Histórica- org. BASSANEZI, Carla Pinsky. Editora Contexto. SP 2005.

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