UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS Instituto de Geociências
FERNANDO VIDAL MARTINS PELLEGRINI
PROCESSOS DE APRENDIZAGEM TECNOLÓGICA EM EMPRESAS FORNECEDO-RAS DE SUBSISTEMA DO PROGRAMA CBERS: O DESENVOLVIMENTO DA
CÂ-MERA MUX PELA OPTO ELETRÔNICA
CAMPINAS 2017
FERNANDO VIDAL MARTINS PELLEGRINI
Processos de aprendizagem tecnológica em empresas fornecedoras de subsistema do Programa CBERS: o desenvolvimento da câmera MUX pela Opto Eletrônica.
DISSERTAÇÃO APRESENTADA AO INSTITUTO DE GE-OCIÊNCIAS DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAM-PINAS PARA OBTENÇÃO DO TÍTULO DE MESTRE EM POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA
ORIENTADOR: ANDRÉ LUIZ SICA DE CAMPAS
COORIENTADOR: MILTON DE FREITAS CHAGAS JUNIOR
ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO FER-NANDO VIDAL MARTINS PELLEGRINI E ORIENTADA PELO PROF. DR ANDRÉ LUIZ SICA DE CAMPOS.
CAMPINAS 2017
Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas Biblioteca do Instituto de Geociências Cássia Raquel da Silva - CRB 8/5752
Pellegrini, Fernando Vidal Martins,
P364p PelProcessos de aprendizagem tecnológica em empresas fornecedoras de subsistemas do programa CBERS: : o desenvolvimento da câmera MUX pela Opto Eletrônica / Fernando Vidal Martins Pellegrini. – Campinas, SP : [s.n.], 2017.
PelOrientador: André Luiz Sica de Campos. PelCoorientador: Milton de Freitas Chagas Junior.
PelDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Geociências.
Pel1. Aprendizagem tecnológica. 2. Inovação. 3. Indústria aeroespacial. 4. Pesquisa espacial - Brasil. 5. Gestão do conhecimento. I. Sica de Campos, André Luiz,1970-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Geociências. III. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: Technological learning mechanisms amongst CBERS subsystem suppliers: : the development of the Opto Eletrônica´s MUX camera
Palavras-chave em inglês: Technologial learning Innovation
Aerospace industries Space research - Brazil Knowledge management
Área de concentração: Política Científica e Tecnológica Titulação: Mestre em Política Científica e Tecnológica Banca examinadora:
André Luiz Sica de Campos [Orientador] Renato de Castro Garcia
José Eduardo de Salles Roselino Junior Data de defesa: 27-03-2017
Programa de Pós-Graduação: Política Científica e Tecnológica
INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS PÓS-GRADUAÇÃO EM
POLÍTICA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA
AUTOR: Fernando Vidal Martins Pellegrini
Processos de aprendizagem tecnológica em empresas fornecedoras de subsistemas do programa CBERS: o desenvolvimento da câmera MUX pela Opto Eletrônica.
ORIENTADOR: Prof. Dr. André Luiz Sica de Campos
COORIENTADOR: Prof. Dr. Milton de Chagas Freitas Junior
Aprovada em: 27 / 03 / 2017
EXAMINADORES:
Prof. Dr. André Luiz Sica de Campos - Presidente Prof. Dr. Renato de Castro Garcia
Prof. Dr. José Eduardo de Salles Roselino Junior
A Ata de Defesa assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica do aluno.
DEDICATÓRIA
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus orientadores, André Campos e Milton Chagas por todo apoio pres-tado. Às professoras Leda Gitahy e Flávia Consoni pelas críticas realizadas ao longo do traba-lho e ao professor André Furtado pelas observações. Agradeço especialmente ao professor Renato Garcia pelos valiosos comentários e críticas levantadas e também ao professor José Eduardo Roselino pelas considerações ao longo da defesa. À CAPES pela bolsa de estudos concedida e a todo o demais Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, principalmente aos colegas que me acolheram na sala 4.
“There are some things which cannot be learned quickly, and time, which is all we have, must be paid heavily for their acquiring. They are the very simplest things and because it takes a man’s life to know them the little new that each man gets from life is very costly and the only heritage he has to leave”
RESUMO
Esta dissertação consiste num estudo de caso único, tendo a Opto Eletrônica como unidade de análise. Seu objetivo consiste na identificação dos mecanismos de aprendizado tecnológico utilizados pela empresa ao longo do desenvolvimento da câmera MUX. Procurou-se identifi-car, a partir do marco conceitual da gestão da inovação e das capacidades tecnológicas, como seu deu a utilização desses mecanismos, nos quais foram divididos e identificados com base na tipologia desenvolvida por Paulo Figueiredo. Além disso, procurou-se discutir quais os possíveis efeitos da dispersão do capital humano ocorrida com o fim do projeto e que fatores externos podem tê-lo afetado. Os dados foram coletados através de entrevistas de integrantes e ex-integrantes da Opto, além de membros do INPE. Ademais, foram utilizados dados cole-tados através da literatura voltada ao setor aeroespacial brasileiro e ao Programa CBERS. Os resultados apontam uma vasta gama de mecanismos utilizados ao longo de todo desenvolvi-mento da câmera MUX, dos quais aqueles voltados à aquisição e socialização de conhecimen-to táciconhecimen-to tiveram papéis fundamentais. Entretanconhecimen-to, também se identificou que muiconhecimen-to dos me-canismos, assim como todo conhecimento que por eles foi produzido, são dependentes de um capital humano qualificado e, portanto, a perda desse capital pode acarretar num considerável efeito sobre o conhecimento organizacional. Ao mesmo tempo viu-se que a Lei de Licitações (No. 8666/1993), que serviu como arcabouço jurídico para a contratação da empresa, produziu significativos efeitos sobre todo o projeto e sobre a saúde financeira da empresa. O trabalho, dessa forma, aponta que diversos aspectos, tanto sob o nível macro e institucional do Progra-ma Espacial Brasileiro quanto sob o nível da firProgra-ma possuem influência sobre a indústria espa-cial brasileira e sobre o Programa CBERS.
Palavras-chave: programa CBERS, aprendizado tecnológico, conhecimento organizacional,
ABSTRACT
The present study aims to identify the learning mechanisms utilized by the company Opto Eletrônica (unity of analysis) during the development of the multispectral camera (MUX). For this, the literature concerning the management of innovation and the technological capa-bilities approach served as the main conceptual framework. The typology created by Paulo Figueiredo was the basis for the identifications of the mechanisms. Moreover, the study sought to discuss what possible effects the dispersion of Opto Eletrônica´s human capital can have not only over the learning mechanisms, but also over the knowledge by them created. Besides, it is discussed the impacts of the Brazilian public procurement law (Lei No. 8666/1993) during the project. The results show that a vast range of mechanisms were used, in which those regarding the tacit nature of knowledge had a primal role. However, it was also identified that many of those processes, as well as the knowledge created, are human depend-ent. Therefore the dispersion of the human capital created during the whole development has a significant impact on the organizational knowledge. Consequentially, this work attests that several aspects, both at the macro level of the Brazilian Space Program and at the firm level have been influencing the Brazilian space industry and the results of the CBERS (China Bra-zil Earth Resources Satellite) Program.
Key-words: CBERS program, technological learning, organizational knowledge, brazilian space industry.
LISTA DE SIGLAS
AIT (Assembling, Integration and Testing) ASAT (Anti Satellite Weapons )
C&T (Ciência e Tecnologia.)
CAST(Chinese Academy of Space Technology) CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite) CNES (Centre national d'études spatiales)
CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) COBAE (Comissão Brasileira de Atividades Espaciais)
CSN (Conselho de Segurança Nacional) CTA (Centro Técnico Aeroespacial) CTs (Capacidades Tecnológicas) DSP (Demand Side Policies) ESA (European Space Agency) GEO (Geosynchronous orbit)
GETEPE (Grupo Executivo e de Trabalho e Estudos de Projetos Espaciais) GOCNAE/CNAE (Grupo de Organização das Atividades Espaciais) GPS (Global Position System).
HEO (High Earth Orbit)
IAE (Instituto de Aeronáutica e Espaço) ICT (Instituição de Ciência e Tecnologia)
INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) IRS (Imageador Multiespectral e Termal)
LIT (Laboratório de Integração e Testes do INPE) LOA (Leis Orçamentárias Anuais)
LOW (Low Earth Orbit)
MCTR (Missile Technology Control Regime) MECB (Missão Espacial Completa Brasileira) MEO (Medium Earth Orbit)
MIT (Massachusetts Institute of Technology) MUX (Câmera Multiespectral)
PEB (Programa Espacial Brasileiro) PPI (Public Procurement for Innovation) PID (Países de Industrialização Tardia)
PNDAE (Plano Nacional de Desenvolvimento de Atividades Espaciais) R-B-V (Resource Based View)
SIA (Satellite Industry Association) TI (Tecnologia da Informação)
TT&C (Telemetry, Teletrackig and Command) VLS (Veículo Lançador de Satélites)
ÍNDICE DE QUADROS
Quadro 1: Divisão de Trabalho do Programa CBERS ... 24
Quadro 2: Empresas Fornecedoras dos Satélites CBERS-3 e 4. ... 25
Quadro 3: Mecanismos de Aquisição Externa de Conhecimento. ... 31
Quadro 4: Mecanismos de Aquisição Interna de Conhecimento.. ... 32
Quadro 5: Mecanismos de Socialização de Conhecimento. ... 32
Quadro 6: Mecanismos de Codificação de Conhecimento.. ... 32
Quadro 7: Subsistemas do Módulo de Serviço dos Satélites CBERS-3 e 4 ... 44
Quadro 8: Subsistemas da Carga Útil dos Satélites CBERS-3 e 4 ... 44
Quadro 10: Tipologia de Sistemas Tecnológicos. ... 81
Quadro 11: Mecanismos de Aquisição Externa de Conhecimento Utilizados. ... 110
Quadro 12 Mecanismos de Aquisição Interna de Conhecimentos Utilizados ... 118
Quadro 13: Mecanismos de Socialização de Conhecimento Utilizados. ... 119
Quadro 14: Mecanismos de Codificação de Conhecimento Utilizados. ... 120
Quadro 15: Contratos entre INPE/AEB e Opto Eletrônica.. ... 135
ÍNDICE DE TABELAS
Tabela 1: Número Total de Satélites Ativos (Outubro 2016) ... 36
Tabela 2: Número Total de Lançamentos (payloads) (Outubro 2016) ... 36
Tabela 3: Classificação de Satélites (por massa). ... 38
Tabela 4: Índice de Competitividade Espacial entre Países. ... 62
Tabela 5: Exportação total por Ano - Indústria Espacial (por país).. ... 64
Tabela 6: Exportação total por Ano (setor aeroespacial) (por país) ... 64
Tabela 7: Exportação Brasileira dos Setores Aeroespaciais e Espaciais (2005 – 2015). 66 Tabela 8: Investimentos Realizados em Startups Espaciais (2000-2015). ... 160
ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1: Imagem da Câmera MUX do Satélite CBERS-4 da foz do Rio Doce (ES) após o
Fesastre Ambiental de Mariana. ... 19
Figura 2: Imagem da Câmera (WFI – Wide Field Imager) do Satélite CBERS-4 no dia 4 de Outubro de 2015, antes do desastre de Mariana. ... 19
Figura 3 Imagem do satélite Landsat-8 após o Desastre de Mariana, no dia 12 de Novembro de 2015. ... 20
Figura 4 Modelo Conceitual da Dissertação... 27
Figura 5 Evolução do Lançamento de Satélites... 35
Figura 6: Representação da Órbia de um Satélite (CBERS-2) ... 37
Figura 7: Satélite CBERS-4 (1). ... 40
Figura 8: Satélite CBERS-4 (2). ... 40
Figura 9: Subsistemas do Satélite CBERS-3 e 4 por País (1). ... 43
Figura 10: Subsistemas dos Satélites CBERS-3 e 4 por Páis (2). ... 43
Figura 11: Subsistemas Fornecidos aos Satélites CBERS-3 e 4 por País e Organização Fornecedora. ... 44
Figura 12: Representação das Câmeras Embarcadas nos Satélites CBERS-3 e 4... 45
Figura 13: Imagem Produzida pela câmera MUX (RJ - Rio de Janeiro) ... 46
Figura 14: Orçamentos dos Programas Espaciais Globais. ... 50
Figura 15: Programas Espaciais em Porcentagem do PIB. ... 51
Figura 16: Evolução dos Orçamentos (MCTI e da AEB). ... 55
Figura 17: Orçamento Previsto e executado (AEB) ... 56
Figura 18: Orçamentos da AEB Previstos x Executados. ... 56
Figura 19 Participação Global em aplicações de patente por país...61
Figura 20: Descrição do JPO. ... 73
Figura 21: Subsistemas e Empresas Contratadas (CBERS 1 e 2).. ... 75
Figura 22: Expiral do Conhecimento de Nonaka e Takeuchi. ... 95
Figura 23: Câmera MUX. ... 103
Figura 24 Attraso por TRL dos Subsistemas do Satélite CBERS. ... 105
Figura 25 Atraso por MRL dos Subsistemas do Satélite CBERS ... 105
Figura 26 Componentes do setor de satélites e seus respectivos faturamentos ... 154
Figura 27: Indústria de Satélites em Contexto... 155
Figura 29: Satélites Lançados em 2014 por Função. ... 157
Figura 30: Satélites Lançados em 2015 por Função ... 157
Figura 31: Evolução do Faturmento da Indústria de Satélites ... 158
Figura 32: Valores dos Satélites Lançados por Função ... 159
Figura 33 Relação entre Investimento Militar e Espacial (2013) ... 172
Figura 34: Relação entre Investimento Militar e Espacial (2008). ... 172
Figura 35: Gastos no Setor de Defesa por País 2000 – 2015. ... 174
SUMÁRIO
1.0 INTRODUÇÃO 18
1.1 Contexto da Pesquisa: ... 18
1.2 Objetivos e Justificativa ... 23
2.0 METODOLOGIA 28 2.1 Critério de Escolha das Empresas ... 28
2.2 Operacionalização e Estudo de Campo. ... 28
2.3 Estrutura da Dissertação: ... 33
3. A INDÚSTRIA DE SATÉLITES 34 3.1 Introdução ... 34
3.2. O Que São Satélites? Definições e considerações ... 34
3.2.1 Satélites de Sensoriamento Remoto ... 39
3.2.2 Subsistemas e Cargas Úteis ... 41
3.2.2 CBER-4 e a Complexidade de um Satélite ... 45
3.3 A Indústria Espacial e a Indústria de Satélites. ... 47
3.4– Programas Espaciais Globais ... 48
3.5 Atores Espaciais ... 51
3.5.1 O Programa Espacial Chinês ... 52
3.5.2 Programa Espacial Indiano ... 53
3.5.3 O PEB: algumas observações ... 54
3.6 A Relação Entre Segmento Militar e Espacial ... 58
3.6.1 Tecnologias de uso dual ou Tecnologias Sensíveis ... 58
3.6.2 Indústria Nacional: considerações ... 60
3.7 Conclusões ... 67
4.1 Introdução ... 69
4.2 A Redemocratização e o Programa CBERS ... 69
4.3 Conclusão ... 78
5.0 REVISÃO LITERÁRIA 79 5.1 Introdução. ... 79
5.2 Produtos e Sistemas Complexos e Integração de Sistemas ... 79
5.3 Políticas Pelo Lado da Demanda e Compras Estatais Voltadas à Inovação ... 84
5.4 TCA e aprendizagem tecnológica ... 87
5.4.1 Evolução e Revisão Histórica ... 87
5.4.2 Mecanismos de Aprendizado Tecnológico ... 90
5.4.2 Perspectiva Organizacional do Aprendizado: criação, retenção e transferência de conhecimento. ... 95
6.0 ESTUDO DE CASO: o desenvolvimento da câmera MUX pela Opto Eletrônica 99 6.1 Introdução. ... 99
6.2 A Opto Eletrônica ... 99
6.3 Participação da Opto Eletrônica no Satélite CBERS ... 103
6.4 Mecanismos de Aprendizagem Utilizados ... 107
6.4.1 Mecanismos de Aquisição Externa de Conhecimento ... 108
6.4.2 Mecanismos de Aquisição Interna de Conhecimento ... 117
6.4.3 Mecanismos de Socialização... 123
6.4.4 Mecanismos de Codificação ... 124
6.5 Considerações Referentes à Manutenção do Conhecimento Organizacional ... 126
6.6 Dificuldades com a Lei de licitações – Lei no 8.666/1993 ... 129
7.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 141
APÊNDICE 1 Indústria global de satélites: contextos e observações 154
APÊNDICE 2 O programa espacial brasileiro: das bases instituconais ao programa CBERS 162
APÊNDICE 3 Relação entre os Setores de Defesa e Espaço: observações 171
ANEXOS 177
ANEXO 1 TRL E MRL (DEFINIÇÕES) 177
ANEXO 2 LISTA DE TERMOS ECSS) 177
ANEXO 3 CICLO DE VIDA E FASES DE UM PROJETO ESPACIAL 178
ANEXO 4 ATIVIDADES DE UM PROJETO ESPACIAL. 179
1.0 Introdução
1.1 Contexto da Pesquisa:
Apesar das atividades espaciais serem “filhas” do militarismo, de conflitos geopolíti-cos e de um período representado por intenso investimento em defesa e pesquisa científica (Pós-Guerra), foi-se o tempo em que a exploração do espaço é vista apenas como proxy da guerra ou uma mera expansão das fronteiras dos avanços da ciência (Schmidt 2011; Zervos 2011). Pode-se afirmar que hoje o setor espacial atua como peça fundamental à dinamização e funcionamento de todo sistema econômico. No atual paradigma econômico e tecnológico sus-tentado pelas atividades informacionais, elas configuram-se como principal fonte de produti-vidade e, em consequência, dão origem ao que alguns autores chamam de capitalismo infor-macional (Castells 1999). Em outras palavras, insumos baratos de informação tornaram-se essenciais a todo e qualquer atividade socioeconômica. Pode-se dizer que, apesar de nem to-das as nações investirem em programas ou numa indústria espacial, toto-das elas – sem exceções – dependem de atividades espaciais (Furtado 2006).
Nesse contexto, o setor ou indústria espacial acabou por tornar-se primordial a todo seu funcionamento. Adicionalmente, aplicações espaciais (como satélites) vêm tornando-se ubíquas, lentamente tornam-se produtos e - mesmo que ainda complexos - seus serviços cada vez mais podem caracterizados como de prateleira (“off the shelf”). As atividades de sensori-amento remoto, por exemplo, foram paulatinamente difundidas e desenvolvidas e já se torna-ram fundamentais às ações governamentais e à sociedade civil. Além disso, a indústria espa-cial passa por um momento importante na segunda metade da década 2010. Após quase 60 anos do lançamento do primeiro satélite, o Sputnik, o mercado espacial caminha cada vez mais para uma situação de maior consolidação, com intensos investimentos do setor privado, criação de novas companhias e produtos que, aos poucos, podem ser produzidos “em massa” (Tauri Group 2016) – muito em virtude da diminuição dos custos de lançamento e dos pró-prios satélites.
Um exemplo marcante do uso de uma aplicação espacial ocorreu no ano de 2015, após o desastre ambiental de Mariana. Com o rompimento da barragem de Fundão no subdistrito de Bento Rodrigues operada pela Samarco1, um mar de lama alastrou-se por mais de 500 km, destruindo munícipios e todo o ecossistema do Rio Doce. Consequentemente, o
to remoto atuou como importante instrumento à monitoração e organização das atividades destinadas ao resgate e “reconstrução” dos ambientes. Abaixo estão algumas fotos de satélites produzidas da região afetada.
Figura 1: Imagem da Câmera MUX do satélite CBERS-4 da foz do Rio Doce (ES) após o desastre ambiental de Mariana. Fonte: INPE (2015b).
Figura 2: Imagem da Câmera (WFI – Wide Field Imager) do satélite CBERS-4 no dia 4 de Outubro de 2015, antes do desastre de Mariana. Fonte: (INPE 2015a)
Figura 3: Imagem do satélite Landsat-8 após o desastre de Mariana, no dia 12 de novembro de 2015. Fonte (INPE 2015a). As áreas em tons de roxo representam os rejeitos despejados sobre o Rio Doce próximo ao distrito de Bento Rodrigues.2
Essa pesquisa se insere no estudo do programa CBERS e, por consequência, do setor espacial brasileiro. Por outro lado, ela busca compreender como se deu a dinâmica de apren-dizado tecnológico numa determinada empresa fornecedora - processo esse que consistiu na pesquisa de campo e coleta de dados. Dessa maneira, pode se afirmar que a pesquisa se insere no contexto do programa CBERS, mais especificamente no universo temporal que durou da contratação à entrega dos subsistemas aos satélites de sua segunda família: CBERS-3 e CBERS-4 (2004 a 2014 – da assinatura do contrato ao lançamento do CBERS-4). Tal pro-grama possui 28 anos e tem como objetivo a construção e utilização de satélites de sensoria-mento remoto em conjunto pelos dois países (China e Brasil), no qual os respectivos contra-tantes são o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a CAST (Chinese Academy of
Space Technology).
A unidade de análise, por sua vez, corresponde a uma única empresa, a Opto Eletrôni-ca. Destarte, foi realizado um estudo de caso com o objetivo de identificar os mecanismos de aprendizado tecnológico utilizados pela empresa fornecedora de subsistemas desse programa3
2
As imagens podem ser acessadas em: <http://www.cbers.inpe.br/noticia.php?Cod_Noticia=4053> e <http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=4078 .>
3 Como apresentado por Souza (2005) um satélite pode ser comumente dividido em duas partes: a plataforma e a carga útil. A primeira contém os subsistemas necessários ao funcionamento do satélite, já a segunda os subsiste-mas necessários ao cumprimento da missão. Exemplos de subsistesubsiste-mas são painéis solares, antenas, conversores de dados, câmeras etc. A seção 3 discute com mais propriedade o que é um satélite e seus subsistemas.
ao longo do desenvolvimento da Câmera MUX (Câmera Multiespectral)4, uma vez que foram esses mecanismos que permitiram a empresa criar as capacidades tecnológicas necessárias ao longo de todo o projeto.
Essa pesquisa está inserida e dialoga com demais estudos realizados não somente so-bre o próprio programa CBERS, como soso-bre a indústria espacial brasileira, como: Chagas Jr. (2009), Chagas Jr. e Cabral (2010), Costa-Filho (2006), Furtado e Costa-Filho ( 2002; 2003), Furtado, Costa-Filho e de Campos (2000) Pereira (2008), Schmidt (2011) e Oliveira (2014). Esses estudos, por sua vez, influenciaram e relacionam-se com o atual projeto de pesquisa. Oliveira, por exemplo, demonstrou que as empresas fornecedoras se capacitaram tecnologi-camente a partir da política de compras do INPE, ao passo que Chagas Jr. (2009) e Chagas Jr. e Cabral (2010) verificaram que o próprio INPE também se capacitou, no caso, majoritaria-mente em integração de sistemas.
Adicionalmente, já no campo da gestão estratégica da inovação a dissertação se relaci-ona, principalmente, com os estudos voltados à aprendizagem tecnológica (learning). Como esses conceitos serão fundamentais no decorrer desse trabalho, torna-se relevante já defini-los, mesmo que brevemente. Aprendizagem pode ser entendida, com base em (Katz 1987; Lall 1987, 1992; Bell e Pavitt 1995 e Figueiredo 1999, 2002, 2003), como os diferentes e delibe-rados mecanismos que permitem indivíduos e, por conseguinte, a organização adquirir
co-nhecimento, habilidades e processos necessários à formação, acumulação e recriação de capacidades tecnológicas. Como ressaltado pelos referidos autores, existe uma íntima relação
entre o aprendizado individual e organizacional, em que o primeiro produz o segundo5. Ade-mais, tais processos são passíveis de acumulação e, por conseguinte, irão influenciar direta-mente a competência de realizar atividades de inovação e a criação de capacidades tecnológi-cas (Bell e Figueiredo 2012). Tais capacidades, por sua vez, podem ser definidas como as
4 Câmeras multiespectrais são capazes de captar as ondas eletromagnéticas além do espectro visível, geralmente além da chamada banda composta pelas cores verde, azul e vermelho que o olho humano consegue enxergar. Diferentes objetos refletem, absorvem e transmitem a luz de maneira distinta dependendo de suas propriedades físicas e químicas. Uma câmera comum consegue captar somente o espectro visível da luz. Elas gravam as quan-tidades refletidas por um objeto e traduzem essa informação sob o formato de uma imagem. A imagem, por sua vez, é compôs por pixels, cada um deles contendo a quantidade correspondente da faixa de luz analisada – quan-to mais escuro, menos luz é detectada. Já um imageador multiespectral consegue captar as faixas além do espec-tro visível, como ultravioleta e infravermelho. Plantas, por exemplo, refletem a maior parte da luz próxima à banda infravermelha. Dessa forma, instrumentos capazes de detectar determinadas ondas podem ser utilizados para analisar o ambiente e, inclusive, estudar suas propriedades – pois determinados elementos irão influenciar no tipo de onda a ser refletida, transmitida e absorvida. A Câmera MUX possui resolução espacial de 20 metros e a largura da faixa imageada de 120 km. “É o sensor que assegura o recobrimento global pelo CBERS numa resolução espacial padrão a cada 26 dias. Com um campo de visada estreito, há pouca alteração no tamanho do pixel nas bordas da imagem” (INPE 2016).
5 O conhecimento e aprendizado organizacional, no entanto, não pode ser considerado apenas como a soma do conhecimento de seus indivíduos.
habilidades de realizar atividades in-house dentre diferentes funções tecnológicas, como en-genharia de processo, de produto, investimentos etc. (Figueiredo 1999; 2002).
Além disso, aprendizados podem ser caracterizados como processos de aquisição e conversão de conhecimento (no contexto dessa pesquisa eles são divididos em quatro meca-nismos: aquisição externa e aquisição interna de conhecimento; e socialização e codificação de conhecimento) (Figueiredo 1999). De maneira geral os dois primeiros podem ser compre-endidos como processos desenvolvidos e adquiridos por indivíduos, já os dois últimos pela organização (Simon 1996).
O levantamento de cada mecanismo de aprendizagem foi baseado no quadro conceitu-al de Paulo Figueiredo (1999, 2002, 2003) para estudo de empresas em economias emergen-tes. Seu estudo, por sua vez, baseou-se nos de Lall (1987, 1992) e Bell e Pavitt (1995) que tiveram como influência os trabalhos de Katz (1987, 1984), Dahlman e Westphal (1982). Como os trabalhos citados estudaram em maioria empresas de grande porte e participantes de setores muito distintos do aeroespacial, foi necessário adequá-lo ao estudo das empresas sele-cionadas, uma vez que elas estão inseridas em contextos diferentes e possuem características divergentes.
Pode-se dizer que este estudo faz parte daqueles voltados à gestão estratégica da ino-vação na empresa que, por sua vez, estão intimamente ligados com as concepções schumpete-rianas de inovação e desenvolvimento econômico. Elas partem do princípio de que: I) a em-presa é um significativo ambiente executor da inovação tecnológica (porém não o único); II) capacidades tecnológicas e, por conseguinte, as atividades de inovação que ocorrem em fun-ção delas são fundamentais à criafun-ção de competitividade e desenvolvimento industrial; III) a constante manutenção, recombinação e criação dessas atividades em conjunto com os recur-sos da empresa serão um dos principais determinantes da sua sobrevivência e crescimento no longo prazo e IV) países de industrialização tardia (PID) possuem dinâmica própria e idios-sincrática de desenvolvimento dos processos acima descritos. À vista disso, é possível afirmar que as empresas participantes do programa CBERS tiveram que realizar um significativo es-forço interno a fim de construírem suas capacidades tecnológicas para, então, desenvolver seus produtos inovadores (subsistemas e componentes). Tais esforços, por sua vez, constituem um dos objetivos do programa e da política espacial brasileira, o de capacitar tecnicamente as empresas fornecedoras que compõem o setor espacial brasileiro (como explicitado em docu-mentos oficiais, e.g. Programa Nacional de Atividades Espaciais – 2012-2021). Tendo em vista a alta intensidade tecnológica e complexidade dos produtos contratados, as empresas necessitam não somente investir em P&D, mas também criar capacidades tecnológicas
inter-nas e mecanismos capazes de produzi-las a fim de possibilitar a manufatura, testes e design dos subsistemas e componentes destinados aos satélites. Dessa forma, existe uma clara liga-ção entre tais conceitos/processos, que podem ser explicitados através de um simples diagra-ma:
Processos e mecanismos de aprendizagem -> Capacidades Tecnológicas -> Atividades Operacio-nais e de Inovação –> Resultados (como produtos e processos inovadores, outputs operacioOperacio-nais e fi-nanceiros etc.)6
1.2 Objetivos e Justificativa
Este trabalho consiste em um estudo descritivo, tendo a empresa Opto Eletrônica - fundada em 1985, a partir de pesquisadores do instituto de física da Universidade de São Pau-lo (IFSC-USP) – como unidade de análise no contexto do programa CBERS, mais especifi-camente, ao longo do desenvolvimento da câmera MUX (Câmera Multiespectral). Dessa for-ma, o estudo efetuou o levantamento dos processos ou mecanismos de aprendizagem
tecnoló-gica utilizados no escopo de tempo que durou da contratação à entrega dos produtos
(subsis-temas) ao INPE (contratante nacional do programa)7.
O Quadro 2 a seguir apresenta os subsistemas dos satélites e a divisão do trabalho en-tre os dois países. Já o Quadro 1 lista as empresas participantes, o objeto contratado (subsis-temas e componentes), seu TRL (Technology Readiness Level) e MRL (Manufactury
Readi-ness Level) (no momento da contratação) e o acréscimo contratual. Vale ressaltar que a
câme-ra MUX apresentava o menor nível de TRL (2) e, consequentemente, o maior desafio tecno-lógico a ser superado8. A sua construção a partir de uma empresa e de um capital humano desenvolvido nacionalmente foi um marco para a indústria e para o PEB (Programa Espacial Brasileiro). Entretanto, no final de 2014 (mesmo ano do lançamento do CBERS-4) a Opto
6 Dado que o processo de inovação não é unidirecional, tampouco linear (Kline e Rosenberg 1982), torna-se sempre necessário lembrar que esse movimento é dinâmico, existindo loops entre as diferentes etapas.
7 A princípio, a licitação previa o desenvolvimento da câmera MUX em 4 anos. A vigência do contrato se inici-ava em 2004 e iria até 2008. Contudo, tendo enfrentado diversas dificuldades políticas, econômicas, gerenciais e tecnológicas, o desenvolvimento de todo o satélite acabou atrasando. O CBERS-4 foi lançado somente em de-zembro de 2014. Além da câmera MUX, a Opto Eletrônica também desenvolveu em parceria com a empresa Equatorial a câmera de campo largo (WFI – Wide Field Imager)
8 TRL e MRL correspondem por Technology Readiness Level e Manufactury Readiness Level, respectivamente. Eles correspondem por um sistema ou métrica que suporta a avaliação da maturidade tecnológica de uma tecno-logia em particular e sua comparação em termos de níveis de desenvolvimento e prontidão – sendo eles 9 no total (Mankins 1995, 2009). A métrica tornou-se padrão de gestão de projetos na indústria aeroespacial e defesa, sendo comumente utilizada por diferentes agências e departamentos, como DoD, NASA, ESA, INPE etc. Os acréscimos contratuais refletem as dificuldades tecnológicas de cada projeto, uma vez que as atrasos decorrentes de problemas legas e burocráticos foram retirados (Dos Santos, Marshall e Daruiz 2013). Para a lista das defini-ções dos 9 níveis que compõem as duas métricas ver Anexo 1.
eletrônica entrou com um pedido de recuperação judicial, estando significativamente endivi-dada, além de seu departamento de P&D ter sido desmobilizado quase que em sua totalidade. Assim sendo, esse foi um dos principais fatores que motivaram a sua escolha como estudo de caso único para essa dissertação, uma vez que essa era uma empresa exemplo e frequentemen-te tida como organização modelo. Em outras palavras, pode-se dizer que a derrota da Opto Eletrônica também significa uma derrota do PEB.
Subsiste ma Re sponsabilidade
Estrutura Brasil
Controle Térmico China
Controle de Órbita e Altitude China
Suprime nto de Ene rgia Brasil
Cablagem China
Supervisão de Bordo China
Te le comunicaçõe s de Se rviço Brasil
Câmera PAN China
Câme ra MUX Brasil
Câmera IRS China
Câme ra WFI Brasil
Transmissores de Dados das Câmeras PAN e IRS China
Transmissore s de Dados das Câme ras MUX e WFI Brasil
Gravador Digital de Dados Brasil
Siste ma de Cole ta de Dados Brasil
Módulo de Carga Útil
Módulo de Se viço
Empre sas Contratadas Obje to Contratado
(Subsiste ma/Compone nte ) TRL MRL
Acré scimo Contratual (Em me se s)
Opto Eletrônica Câmera MUX 2 5 17
Neuron Antena DCS e TTCS 9 5 19
Consórcio Omnysis - Neuron
DCS (Data Collection
Subsystem ) 9 5 15
Aeroeletrônica EPSS (Eletrical Power
Supply Subsystem ) 9 5 14
Consórcio Mectron - Neuron - Betatelecom
TTCS (Telemetry, Track ing
and Control Subsystem ) 9 5 23
Consórcio Opto Eletrônica -
Equatorial Câmera WFI 4 5 16
Consórcio Omnysis - Neuron
MWT (Mux and WFI
Transmitter ) 4 5 19
Mectron DDR 4 5 15
Consórcio Omnysis -
Neuron Antena MWT 9 8 10
Omnysis OBDH (On Board Data
Handling ) 7 5 23
Orbital Gerador Solar 8 8 16
Cenic Estrutura Gerador Solar 4 4 16
Consórcio Cenic -
Vibratone Estrutura dos Satélites 5 7 0
Quadro 2: Empresas brasileiras fornecedoras dos Satélites CBERS-3 e 4. Fonte (dos Santos, Marshall e Daruiz 2013)
Destarte, as perguntas de pesquisa são:
Pergunta Principal: Quais os mecanismos de aprendizagem tecnológica utilizados pela Opto Eletrônica que, por sua vez, permitiram a empresa realizar a aquisição de capacidades tecno-lógicas para assim desenvolver com sucesso – do ponto de vista tecnológico - a Câmera MUX?
Perguntas Secundárias: Em que medida o impacto da dispersão do capital humano ocorrida com o fim dos projetos espaciais pode ter sobre tais mecanismos e sobre o conhecimento or-ganizacional da empresa? Que fatores, externos e internos, podem ter contribuído às adversi-dades encontradas pela empresa?
Dessa maneira, a hipótese de pesquisa pode ser descrita como:
H: A Opto Eletrônica necessitou de diversos mecanismos de aprendizado (aquisição, codifi-cação e socialização de conhecimento), a fim de desenvolver as capacidades necessárias ao projeto da câmera MUX. Todavia, dada a condição atual da empresa – de recuperação judicial e significativa diminuição de seu departamento de P&D - tanto os mecanismos utilizados quanto o conhecimento produzido podem, em alguma medida, ter sido comprometidos.
Em suma, o objetivo norteador do trabalho é a observação de como foi desenvolvida uma das etapas necessárias à criação de capacidades tecnológicas (utilização dos mecanismos de aprendizado - ver Figura 4 abaixo). Essa identificação serve como importante indicador de capacidades tecnológica e, concomitantemente, da eficácia do programa e da gestão estratégi-ca das empresas, visto que são etapas e processos interdependentes.
A Figura abaixo foi baseada nos estudos voltados à compreensão da aquisição de ca-pacidades tecnológicas em economias emergentes, que postulam que tais países possuem con-junturas completamente divergentes dos países caracterizados como desenvolvidos. Ela repre-senta o processo pelo qual uma empresa deve percorrer a fim de desenvolver atividades de inovação e de rotina para, assim, produzir outputs (produtos ou serviços) inovadores. Obvia-mente, em muitos casos, esses produtos não são de fato novos para o mundo, contudo, mesmo um processo de imitação é relevante no que diz respeito ao aprendizado tecnológico.
Os fundamentos por trás dessas perguntas e hipóteses se deram a partir de conversas preliminares tanto com membros do INPE quanto da indústria. Verificou-se que algumas das empresas possuem dificuldades financeiras e sofrem com peculiaridades do PEB (Programa Espacial Brasileiro), como intermitência orçamentária, descontinuidade com relação às priori-dades do Governo Federal etc. Além disso, falhas estratégicas e de gestão podem também comprometer essas competências adquiridas durante o programa CBERS. Dessa forma, muito daquilo que é desenvolvido num projeto de alta intensidade tecnológica pode ter seu potencial significativamente mitigado com a perda ou redução dos ativos tangíveis e intangíveis, tanto sob o nível individual quanto organizacional.
Figura 4 Modelo Conceitual da Dissertação elaborado com base em Bell e Figueiredo (2012) e Bell e Pavitt (1995).
Em suma, as perguntas principais buscam verificar a caixa ressaltada na figura como o foco da pesquisa (mecanismos de aprendizado – seção 6.4), já as perguntas secundárias discu-tem um pouco dos fatores externos que podem ter influenciado tal processo, no caso dessa pesquisa, especial atenção foi dada às dificuldades encontradas com a Lei de licitações (Lei No. 8.666/1993 – seção 6.6) e no que se refere ao conhecimento organizacional (seção 6.5)
2.0 Metodologia
2.1 Critério de Escolha das Empresas
O processo de seleção da empresa estudada foi intencional e não randômico. Dessa forma, selecionou-se uma empresa nacional de médio porte e relativa diversificação de mer-cado, mas que nos últimos anos vem enfrentando grandes dificuldades financeiras. A Opto Eletrônica representa um caso de uma empresa nacional spin-off da Universidade de São Pau-lo de São CarPau-los, tida como exempPau-lo de sucesso do chamado “acadêmico empreendedor”9
. Entretanto, no final de 2014, a empresa entrou em recuperação judicial e, em 2017, teve seus ativos de defesa e espaço leiloados para que suas dívidas fossem quitadas10. A Opto forneceu a câmera MUX e WFI durante o programa CBERS, além de também fornecer uma câmera WFI para o satélite AMAZONA-111. O caso da Opto apresentou grande potencial aos objeti-vos desse estudo, uma vez que a empresa realizou um notório processo de aquisição de capa-cidades tecnológicas e, em consequência, inevitavelmente utilizou mecanismos de aprendiza-do, tendo ampliado suas instalações e construído uma grande equipe de P&D alocada ao pro-grama. Por conseguinte, ela representa um caso único e idiossincrático, que despertou o inte-resse e possui grande potencial aos estudos da aquisição de capacidades tecnológicas em eco-nomias emergentes.
Além disso, esse caso é em algumas medidas qualitativamente semelhante às demais empresas que participaram do fornecimento de subsistemas e componentes. Portanto, identifi-cou-se que um estudo qualitativo aprofundado possui relevante potencial de discussão não somente no que diz respeito ao processo de inovação em empresas do setor, mas também so-bre a própria política de inovação nacional relacionada ao PEB.
2.2 Operacionalização e Estudo de Campo.
A primeira etapa realizada foi a revisão da literatura, sobretudo aquela voltada à Opto Eletrônica, à gestão estratégica da inovação na empresa, às políticas industriais voltadas ao setor aeroespacial e aos programas espaciais internacionais.
9 Por spin-off se compreende a criação de uma organização – no caso uma empresa – a partir de uma organização ‘mãe’ (Universidade).
10
Logo após a conclusão dessa pesquisa noticiou-se que a divisão de defesa e espaço da Opto Eletrônica foi vendida à AKAER, passando a ser chamada de Opto Space &Defense.
Após a seleção e elaboração dos tópicos de pesquisa e seleção da unidade de análise descrita acima, elaborou-se a pergunta que fundamentou a hipótese de pesquisa. Tendo-a for-mulado, seguiu-se para o design de pesquisa, ou estratégia principal para realizar as observa-ções pretendidas (Singleton, Straits e Straits 1993). À vista disso, foi decidida a realização de entrevistas junto a indivíduos que tiveram papel proeminente sob o objeto estudado. A opera-cionalização das entrevistas se deu através da elaboração de protocolos de estudo de caso (Yin 2013) e de questionários que atuaram como guias voltados à identificação das características do objeto de estudo. As entrevistas foram realizadas na Opto e no INPE nos meses de Abril e Maio de 2016 e, posteriormente, as validações ocorreram nos meses de Novembro e Dezem-bro do mesmo ano, também através de entrevistas.
Com relação aos questionários, eles foram baseados na abordagem de Figueiredo (1999; 2002; 2003). No caso, o autor realizou um estudo qualitativo – com base na chamada abordagem de capacidades tecnológicas (CTs) (Technological Capabilities Approach, no in-glês) – destinado à identificação de capacidades em duas empresas siderúrgicas brasileiras, USIMINAS e CSN. Com isso, Figueiredo identificou os mecanismos de aprendizado presen-tes e ausenpresen-tes em cada uma delas e mapeou as CTs de acordo com suas funções e de acordo com seus respectivos níveis para, assim, identificar as diferentes trajetórias de cada uma das empresas. No caso dessa pesquisa, foi utilizado o quadro de mecanismos de aprendizado utili-zado e desenvolvido por Figueiredo (1999) em sua tese como base. Como o presente estudo é voltado ao estudo de empresas de menor porte e num segmento completamente diferente, ele teve de ser modificado e adaptado frequentemente ao longo do estudo.
As entrevistas foram em geral realizadas pessoalmente, com sessões posteriores de ví-deo conferências utilizadas para validação e eventuais esclarecimentos. Inicialmente foram realizadas duas entrevistas com um diretor da empresa que atuou durante todo o processo de desenvolvimento da câmera MUX junto ao departamento de P&D. Essa duas entrevistas ser-viram como pilar para a criação das primeiras tabelas e listagem dos mecanismos identifica-dos. Posteriormente esses resultados foram validados com esse mesmo indivíduo e conjunta-mente a outros dois ex-integrantes, um ex-gerente e um ex- engenheiro de uma das áreas de P&D da empresa. Dessa forma, as entrevistas posteriores serviram como mecanismo de trian-gulação e validação dos dados, ao mesmo tempo em que as questões relacionadas às pergun-tas secundárias (desmobilização de pessoal e conhecimento organizacional) foram inseridas, pois não haviam sido pensadas no início da pesquisa. Como não foi possível acessar dados e documentos internos da empresa nem entrevistar a maioria dos egressos do departamento de P&D, não foi possível inserir critérios de ‘importância’ ou ‘intensidade’ de cada mecanismo
(como feito por Figueiredo em seu estudo). Como eles são relativos e relacionados ao ponto de vista de cada indivíduo, seriam necessários maiores dados empíricos para poder dotar os mecanismos dessas observações.
Também foi realizada uma entrevista com o gerente do contrato da câmera MUX do INPE, a fim de validar alguns pontos levantados, principalmente no tocante à relação entre as duas organizações e à questão legal (Lei n. 8.666/93). Como não se tratava de um ex ou atual integrante da empresa, o questionário não foi aplicado.
A dinâmica de cada entrevista consistiu no preenchimento dos mecanismos listados, nos quais o membro (ou ex-membro) da empresa explicava e detalhava a utilização de cada um. Na medida do possível tentou-se deixar os entrevistados à vontade para fazer qualquer observação que achasse importante, principalmente quando relacionados às complicações enfrentadas durante o projeto e do processo de desmobilização.
Outros materiais utilizados para a pesquisa foram notícias, artigos, estudos e informa-tivos oficiais, além de conversas e eventos comparecidos, principalmente no INPE. Os even-tos se relevaram muito importantes, de forma que permitiram observar o comportamento de membros da indústria e de instituições como INPE e AEB12.
Após as entrevistas procurou-se, a partir do preenchimento dos quadros e de seu deta-lhamento, discutir as perguntas e hipóteses prévias levantadas. Obviamente os achados não podem ser generalizados para toda indústria aeroespacial brasileira.
Os Quadros 3-6 a seguir permitem uma maior compreensão desses mecanismos, onde são listados aqueles encontrados no estudo de caso realizado (lembrando que eles não são universais e necessariamente irão variar de acordo com a empresa, seu porte, indústria etc).
12 Num evento voltado ao financiamento de projetos espaciais pela FAPESP, por exemplo, foi interessante notar o ponto de vista de membros das empresas relacionados às contrapartidas contratuais. Já em outros eventos vol-tados à inovação, por exemplo, foi interessante ouvir alguns ‘apelos’ desses membros (tanto da indústria quanto do próprio INPE), sobretudo voltados às necessidades de maiores projetos e contratos estatais no setor.
1 - Mecanismos de Aquisição Externa de Conhecimento
1A - Consultorias Técnicas voltadas à solução de problemas e complementação de conhecimento à P&D (ex funcionários de empresas espaciais ou estudiosos reconhe-cidos de áreas específicas necessárias ao projeto - e.g termo-ótica).
1.B - Consultorias de Gestão: contratação de serviços de consultorias empresarias, administrativas, tributárias, jurídicas etc.
1.C - Convênios e Parcerias com Universidades: Convênio estabelecido com a USP-SC em 1994 voltados à pesquisa em nível de mestrado e doutorado, no qual a pesquisa era realizada nas instalações da Opto e relacionadas aos seus projetos, com bolsas de estudo fornecidas pela empresa.
1.D - Treinamentos no exterior: capacitação de capital humano através da realização de cursos específicos em áreas críticas e/ou participação em eventos.
1.E - Treinamentos em território nacional: capacitação de capital humano através da realização de cursos e treinamentos em território nacional - tanto em áreas técnicas quando administrativas.
Observação e Captação de Conhecimento
1.F Captação de Conhecimento Codificado (patente, artigos, manuais etc). 1.G Aquisição ou licenciamento de designs, patentes, etc
Interação Com Fornecedores
1.H - Co-desenolvimento de produtos, instalações e equipamentos de teste 1.I - Visitas técnicas
3.J - Intercâmbio de documentação e relatórios
Interação com INPE
1.K - Bancas Examinadoras
1.L - Cursos/ Treinamentos realizados junto ao INPE
1.M - Integração de componentes e sistemas (Opto apenas como consultora pontual)
Quadro 3: Mecanismos de Aquisição Externa de Conhecimento. Fonte: Elaboração própria a partir da tipologia desenvolvida por Figueiredo (1999; 2002; 2003).
2 - Mecanismos de Aquisição Interna de Conhecimento
2.A Entre diferentes áreas/departamentos da organização
2.B A partir da ampliação de sua estrutura (e.g criação de sala limpa). 2.C Estudos e projetos de inovação executados em laboratórios de P&D 2.D Envolvimento em design de projeto
2.E Envolvimento nas atividades de rotina e operações de planta 2.F Busca sistemática para ampliação das capacidades tecnológicas 2.G Melhorias através de novas ferramentas de gestão
2.H Desenvolvimento de equipamentos para teste de componentes
Quadro 4: Mecanismos de Aquisição Interna de Conhecimento. Fonte: Elaboração própria a partir da tipologia desenvolvida por Figueiredo (1999; 2002; 2003).
Quadro 5: Mecanismos de Socialização de Conhecimento. Fonte: Elaboração própria a partir da tipologia desenvolvida por Figueiredo (1999; 2002; 2003).
4 - Mecanismos de Codificação de Conhecimento
4.A Caderno de projeto 4.B Intranet
4.C Intercâmbio de documentação junto aos fornecedores 4.D Intercâmbio de documentação junto aos INPE 4.E Publicação de artigos e capítulos de livros 4.F Documentação de melhorias técnicas
4.G Documentação de projeto ( como entre as diferentes fases e protótipos da câmera) 4.H Práticas de padronização
Quadro 6: Mecanismos de Codificação de Conhecimento. Fonte: Elaboração própria a partir da tipo-logia desenvolvida por Figueiredo (1999; 2002; 2003).
Essa tipologia, portanto, consiste no núcleo da pesquisa, que através do estudo de caso da Opto Eletrônica procurou identificar quais mecanismos foram utilizados durante o desenvol-vimento da câmera MUX, além de tentar identificar em que medida eles continuaram presen-tes, ou seja, sendo utilizados ao longo dos projetos da empresa após a entrega da câmera (2014 em diante).
3 - Mecanismos de Socialização de Conhecimento
3.A Treinamentos inhouse 3.B Cursos ministrados inhouse
3.C Reuniões periódicas intra e entre equipes 3.D Reuniões matriciais
3.E Mentorias (e.g entre funcionários experientes e novos ingressantes) 3.F Rotação de equipes de projeto
A preservação de processos que permitem a produção de conhecimento consiste num ponto ressaltado por Figueiredo (1999; 2003) – no qual o “desaprendizado” é tão importante quanto o aprendizado (unlearning x learning). Em outras palavras, a continuidade da utiliza-ção desses mecanismos serve como indicador igualmente importante, uma vez que a não utili-zação desses processos impactaria toda a cadeia de inovação da empresa. Esse se tornou um dos objetivos secundários da pesquisa, que procurou discutir em que medida o conhecimento desenvolvido pelos mecanismos de aprendizado e pelos indivíduos pode ser mantido pela empresa após o encerramento de projetos tecnológicos e seus mecanismos atrelados, além da perda de capital humano carregado de conhecimento.
Assim sendo, quais seriam os principais mecanismos de aprendizado utilizados por uma empresa intensiva em P&D (e.g Opto Eletrônica) a fim de construir suas capacidades tecnológicas a fim de cumprir um determinado projeto? Ademais, quais as dificuldades que a empresa enfrentaria com relação à depreciação de seu capital humano, esquecimento organi-zacional e na paralização de seus mecanismos de aprendizado? Quais fatores podem ter influ-enciado seu processo de recuperação judicial? São essas as questões que o estudo de caso pre-sente na seção 6 busca discutir.
Essa tipologia, portanto, consiste no núcleo da pesquisa, que através do estudo de caso da Opto Eletrônica procurou identificar quais mecanismos foram utilizados e quais
permanece-ram após o fim do ciclo de desenvolvimento da câmera MUX (2014 em diante). 2.3 Estrutura da Dissertação:
Esta pesquisa está estruturada de acordo com a descrição a seguir. A seção 3 inicial-mente descreve o que compreende um satélite, o que são satélites de sensoriamento remoto e suas respectivas cargas úteis e subsistemas. Posteriormente é realizada uma discussão a res-peito da indústria espacial e dos programas espaciais, tanto a níveis globais bem como nacio-nais.
A seção 4 apresenta um breve resumo histórico do Progama CBERS.
A seção 5 realiza a discussão conceitual e revisão da literatura. Maior destaque é dado aos conceitos de capacidades tecnológicas, aprendizado, produtos e sistemas complexos (CoPS), integração de sistemas e políticas de inovação pelo ‘lado’ da demanda.
Já a seção 6 representa o núcleo da pesquisa realizada – o estudo de caso único da Op-to Eletrônica voltado à identificação dos mecanismos de aprendizado tecnológico utilizados. Nele a empresa é descrita a partir de seu histórico e atividades atuais. Duas subseções tratam
das perguntas secundárias (dispersão do capital humano/conhecimento organizacional e fato-res externos/internos que podem ter influenciado o projeto da câmera MUX).
Por fim são apresentadas as considerações finais dessa pesquisa, além de algumas questões que foram levantadas e possíveis temas para futuros estudos
3. A Indústria de Satélites
3.1 Introdução: Essa seção busca contextualizar, definir e discutir alguns aspectos centrais à
indústria de satélites. Dessa forma, são definidos os conceitos de satélites, sensoriamento re-moto, indústria aeroespacial e espacial. Em seguida são apresentados dados globais referentes à indústria de satélites, indústria espacial e sua relação com os segmentos de defesa. Ademais também são apresentados aspectos relativos a programas espaciais internacionais, ao PEB e à indústria espacial nacional e internacional
3.2. O Que São Satélites? Definições e considerações
Satélites podem definidos como objetos – naturais ou criados pelo homem – que orbitam um determinado planeta ou estrela. Segundo o dicionário Oxford, um satélite é trata-do como i) um objeto eletrônico lançatrata-do ao espaço que orbita a terra ou outro planeta, sentrata-do utilizado para comunicações ou provendo informações e ii) corpos celestes que orbitam um outro de maior massa. Comumente quando se pensa nessa palavra ela já é associada à primei-ra definição e a imagem que se cristaliza são as dos satélites artificiais lançados pelo homem a partir do final dos anos 1950. No contexto desse trabalho, obviamente, ele se refere apenas aos objetos artificiais – principalmente aqueles destinados ao sensoriamento remoto.
O primeiro satélite foi lançado em 1957, o Sputnik, colocado em órbita pela então União Soviética. Ele possuía 83 kg e 58 cm de diâmetro (era um objeto circular) permane-cendo três meses em órbita. Desde então, viu-se não somente o volume, mas também a com-plexidade e capacidade de satélites lançados ao espaço crescer vertiginosamente. O CBERS-4, por exemplo, pesa cerca de duas toneladas. Já a estação espacial internaional (ISS –
Internati-onal Space Station) possui cerca de 400 toneladas e comprimento superior a 100 metros
(NA-SA 2016)13. O gráfico abaixo demonstra a evolução do número de lançamentos totais a partir de 1957.
Evolução do Lançamento de Satélites (1957 – 2012)
Figura 5 Evolução do Lançamento de Satélites. Fonte: (Celestrak 2016). Obs: muitos satélites podem estar em órbita sem estarem ativos. Nesses casos ou eles são enviados a uma órbita cemitério ou lentamente decaem em direção à Terra.
Até outubro de 2016 existiam cerca de 1300~1500 satélites ativos em órbita e 4000 inativos (Celestrak 2016; Weebau Encyclopedia 201614). Além disso, cerca de três mil já de-caíram ou foram enviados às orbitas cemitério15.
Ademais, o horizonte de aplicações estendeu-se muito além da mera comunicação, se-ja ela por rádio ou TV comumente associada aos satélites (Maini e Agrawal 2011). Diversos lançamentos vêm ocorrendo com inúmeros objetivos e funções, sejam elas explorações cientí-ficas dentro do sistema solar, fins militares e de defesa como espionagem, posicionamento, sensoriamento remoto e observação da terra.
Abaixo se encontra uma tabela listando o número de satélites lançados ou destinados ao uso em determinado país (alguns deles são lançados por empresas, como a Intelsat). Dessa maneira, o número não corresponde na sua totalidade a satélites produzidos por um instituto
14 Encontrar dados exatos do número de satélites já lançados e em órbita com precisão é delicado. Há de se res-saltar que essas fontes aqui utilizadas (Celestrak, Weebau, USCC) não são “oficiais” no sentido de não pertence-rem a algum instituto ou agência estatal ou multinacional. No entanto, seus dados podem ser utilizados no que se refere à compreensão da magnitude e distribuição da utilização e lançamento de satélites. Ademais, muitos lan-çamentos não são divulgados e dotam de caráter de confidencialidade, pois carregam cargas militares, de espio-nagem ou investigação científica.
15 É uma órbita que se situa significativamente distante de órbitas operacionais, aonde dispositivos espaciais são enviados no fim de seu ciclo de vida para que não produzam debris ou lixo espacial próximo à Terra.
ou agência espacial, uma vez que muitos deles são comerciais, como os de telecomunicações e GPS (Global Position System). Não obstante, os números auxiliam na compreensão e ilus-tração das capacidades nacionais relativas ao espaço ou ao setor espacial. Em seguida consta a tabela com os números totais de cargas enviadas por país.
Número total de Satélites Ativos em Órbita (Outubro 2016)
Estados Unidos 549 China 142 Rússia 131 Japão 74 Reino Unido 49 Índia 41 Alemanha 25 França 20 Brasil 10 Israel 11
Tabela 1: Número total de satélites ativos (Outubro 2016) Fonte: (Celestrak 2016; USCC 2016; Weebau Encyclopedia 2016). Obs: números são aproximados. Ver N.R 2
Número Total de Lançamentos (Payloads)16 (Outubro 2016)
Rússia 3492
Estados Unidos 2233
China 283
Japão 203
Brasil 17
Tabela 2: Número total de lançamentos (payloads) (Outubro 2016). Fonte: (Celestrak 2016; USCC 2016; Weebau Encyclopedia 2016). Obs: números são aproximados.
Quanto às órbitas percorridas por um satélite em relação à Terra (geocêntricas), elas podem ser basicamente divididas em três tipos. A Órbita baixa (LOW – Low Earth Orbit) até 2000 km, as órbitas médias (MEO – Medium Earth Orbit), entre 2000 e 35000 km, geosin-crônicas (GEO – Geosynchronous orbit) com altitude aproximada de 36000 km e órbitas altas (HEO – High Earth Orbit) com distâncias superiores a 36000 km.
Segundo Souza (2005), órbitas baixas são apropriadas para explorações científicas e para a observação da Terra – que podem ainda ser do tipo equatorial, inclinadas entre o equa-dor e os polos ou do tipo polar. Também é nela (LOW) aonde a Estação Espacial Internacio-nal (ISS) se localiza. Com relação às médias, elas abrigam, em maior medida, satélites de na-vegação e comunicação. Já á órbita geosincrônica também abriga satélites do mesmo tipo da anterior. Sua peculiaridade está em sua área de cobertura, uma vez que o satélite retorna exa-tamente ao mesmo ponto após completar um dia de órbita (uma revolução a cada 24 horas). Nesse caso o período orbital do satélite é o mesmo que a Terra leva para completar uma rota-ção sobre seu eixo (Maini e Agrawal 2011)17. Já a do tipo alta, em geral, abriga satélites de exploração científica.
A imagem abaixo representa a faixa de cobertura de um satélite de sensoriamento re-moto, no caso, o CBERS-2.
Figura 6: Representação da Órbia de um Satélite (CBERS-2) .Fonte:(INPE)
17 Existe um tipo especial dessa órbita, a geoestacionária (geosincrônica com inclinação zero), em que a sua órbita está diretamente sobre o Equador e, portanto, o satélite aparenta estar parado se observado a partir da terra (NASA 2001). Popularmente um termo pode ser utilizado ao invés do outro, e vice-versa, mesmo que não cor-respondam exatamente ao mesmo tipo de órbita. O termo geoestacionário, entretanto, aparenta ser o mais co-mum. Ademais, pode se considerar a órbita geoestacionária como uma órbita alta, no entanto com uma altitude específica a fim de manter as velocidades orbitais e de rotação (Souza 2005). O Brasil vem desenvolvendo um satélite geoestacionário, destinado ao fornecimento de comunicações tanto para a sociedade civil quanto para fins militares. Espera-se, por exemplo, que com ele áreas isoladas possam vir a ter acesso à conexões de internet de banda larga. A princípio o satélite brasileiro será lançado em 2017.
lém disso, satélites são frequentemente classificados de acordo com sua massa, como apresentado pela tabela abaixo18.
Classificação Massa (em kg)
Large Satellite Mais que 1000
Medium Satellite Entre 500 e 1000
Mini Satellite Entre 100 e 500
Micro Satellite Entre 10 e 100
Nano Satellite Entre 1 e 10
Pico Satellite Entre 0,1 e 1
Tabela 3 Classificação de Satélites por peso. Fonte: (Konecny 2004)
Outro aspecto relevante no tocante aos satélites relaciona-se aos veículos lançadores (VL ou launch veichle) que constituem o único meio de se atingir o espaço até hoje desenvol-vido19. Como as capacidades técnicas e científicas para desenvolvê-los são inerentemente duais, ou seja, construindo-se um veículo lançador também se constrói mísseis de longo al-cance (que por sua vez podem conter ogivas nucleares), países tendem a proteger, restringir ou até mesmo impedir que outras nações adquiram tais capacidades.
Segundo a OCDE (2014), apenas oito países conjuntamente à agência multinacional europeia (ESA – European Space Agency) possuem essas capacidades, sendo eles Estados Unidos, Rússia, Ucrânia, China, Japão, Índia, Irã e Israel20. Geralmente veículos lançadores possuem de um a três estágios, em que cada um fornece propulsão a fim de se atingir veloci-dades orbitais. Para atingir uma órbita terrestre, um satélite deve atingir velocidade maior que 7.9 km/s e uma altitude superior a 150 km. Dessa maneira, o processo de lançamento de um satélite pode vir a ser delicado e carregado de decisões geopolíticas no tocante à escolha de um determinado veículo e, obviamente, nações/organizações que não possuem tais capacida-des são forçadas a contratar esse serviço. Naturalmente não se pretende defender que países que possuam programas espaciais devam desenvolver veículos lançadores – um processo
18 Nano satélites vêm mostrando ser um dos principais drivers da “revolução” da indústria espacial, tornando-os cada vez mais baratos e acessíveis. (Ver Apêndice 3). Um trabalho de mestrado foi recentemente realizado junto ao Departamento de Política Científica e Tecnológica referente aos nano satélites (Antunes 2017) a ser publicado ainda em 2017.
19 Métodos alternativos estão sendo desenvolvidos, como o lançamento de satélites a partir de aeronaves em alta velocidade.
20
Outros países estão desenvolvendo veículos lançadores, como Brasil, Coréia do Sul, Taiwan, entre outros. Aparentemente a Coréia do Norte colocou um satélite em órbita, contudo, não se sabe se ele conseguiu entrar em atividade.
tremamente complexo e custoso. Todavia é necessário discutir esse assunto, uma vez que ati-vidades espaciais tornaram-se imprescindíveis e paulatinamente tanto os custos quanto o hori-zonte de atuação de instrumentos humanos vem aumentando. No caso do programa CBERS, todos os lançamentos foram executados pela China.
3.2.1 Satélites de Sensoriamento Remoto
O sensoriamento remoto pode ser definido como a observação de um objeto ou local sem estar fisicamente presente na área observada. Aplicações destinadas a esses usos são fre-quentes. As aplicações militares de sensoriamento remoto no início do século XX, por exem-plo, consistiam no uso de balões ou dirigíveis, todavia, o termo utilizado era “fotografia aé-rea”. O pós-guerra foi um ponto de inflexão, em que o sensoriamento passou dos aviões ao espaço. O famoso caso da derrubada do avião de reconhecimento americano U-2 em 1960, por exemplo, evidenciou a impossibilidade de continuar esse processo a partir de aeronaves. O primeiro projeto americano de satélites, o CORONA, foi justamente dedicado ao sensoria-mento remoto. Ele durou de 1957 a 1972. O programa foi desclassificado (não foi mais consi-derado como confidencial) e teve suas imagens divulgadas apenas em 199221.
Assim sendo, pode-se definir satélites de sensoriamento remoto como um instrumento colocado em órbita no espaço destinado à observação de um determinado corpo celeste e o que nele se encontra – no caso dessa dissertação - a Terra22.
Pode-se afirmar que na atualidade tornou-se imprescindível não somente ao Estado possuir capacidades e instrumentos dedicados ao sensoriamento remoto, mas também a gran-de parte da sociedagran-de civil. Fotografias e imagens captadas por satélites são constantemente utilizadas para o monitoramento de queimadas, áreas de conservação ambiental (como Mata Atlântica e Amazônia), nascentes d´água e recursos hídricos, previsões meteorológicas etc.
21 Esse processo de divulgação de suas imagens ilustra um interessante processo de convergência entre ciência “aberta” e “fechada”, pois suas imagens vêm sendo utilizadas constantemente para estudos em diversas áreas, como arqueologia e história (Cloud 2001). Para acessar os arquivos desclassificados e a história do programa CORONA ver (Rufner 2005) disponível em:< https://www.cia.gov/library/center-for-the-study-of-intelligence/csi-publications/books-and-monographs/corona.pdf>
22
Algumas definições de sensoriamento remoto na literatura são apresentadas a seguir:
"Photogrammetry and Remote Sensing are the art, science and technology of obtaining reliable information
about physical objects and the environment, through a process of recording, measuring and interpreting image-ry and digital representations of energy patterns derived from noncontact sensor systems" (Colwell, 1997, p. 3,
apud Covey 1999).
"Remote sensing may be broadly defined as the collection of information about an object without being in
physi-cal contact with the object. Aircraft and satellites are the common platforms from which remote sensing observa-tions are made. The term remote sensing is restricted to methods that employ electromagnetic energy as the means of detecting and measuring target characteristics" (Sabins, 1978, p.1, apud Covey 1999).
No caso brasileiro, satélites desse tipo vêm sendo usados desde as décadas de 1970-80. As imagens eram coletadas por satélites comerciais, como de consórcios multinacionais como Intelsat. Já em 1999, a partir do programa CBERS em parceria com a China, foi lançado o primeiro satélite dedicado a tais funções, o CBERS 1. As fotos abaixo providas pelo INPE correspondem ao CBERS-4
Figura 7: Satélite CBERS-4 (1). Fonte: (INPE)
3.2.2 Subsistemas e Cargas Úteis
Tendo introduzido brevemente a definição e apresentado alguns aspectos dos satélites, torna-se necessário apresentar alguns de seus aspectos técnicos. Independentemente de sua missão ou aplicação, um satélite sempre irá possuir um módulo de serviço ou plataforma e um módulo de cargas úteis (Maini e Agrawal 2011). Já Souza (2005) define um satélite como uma das três partes que compreendem uma missão espacial – as demais seriam os segmentos de solo (e.g estações de recepção) e lançamento.
Independentemente de sua missão, um satélite, via de regra, possui os seguintes sub-sistemas em sua plataforma (seriam todos os equipamentos necessários ao seu funcionamen-to) (Mariani e Agrawal 2011 p. 127-128, Souza 2005 p. 4-5) (As definições também são base-adas nos referidos autores).
Plataforma
i) Estrutura mecânica: Quadro que fornece suporte mecânico e de movimento,
permite que outros subsistemas sejam acoplados e também possui a interface entre o satélite e o veículo lançador. Deve também oferecer proteções contra radiação, variação de temperatura e vibrações.
ii) Sistemas de propulsão: Providencia o empuxo para que o satélite atinja a
ve-locidade necessária e execute manobras durante todo o ciclo de vida do satéli-te, como as de transferência de órbita e controle de altitude.
iii) Controle de temperatura: Permite que o satélite permaneça em temperaturas
operacionais, além de distribuir a temperatura ao longo do satélite, que é es-sencial à sua estabilidade e alinhamento.
iv) Suprimento de energia: Fornece toda energia necessária ao funcionamento
dos equipamentos através da conversão da luz solar captada pelos painéis em corrente elétrica.
v) Telemetria, tracking e comando (TT&C) ou Telecomunicação de serviço:
Telemetria captura informação referente ao funcionamento e acompanhamento do satélite, a codifica e transmite às estações de solo. Tracking se refere à de-terminação da posição do satélite, velocidade e ângulo de viagem.
vi) Controle de altitude e órbita: Possui função de manter a devida altitude para
que o satélite não se perca no espaço e possua sua antena apontada para a terra. Também controla a órbita para que o satélite percorra seu “caminho” desejado.