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Gota d água : o abuso do poder e a eloquência múltipla da palavra.

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Academic year: 2021

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(1)Universidade Federal de Alagoas Faculdade de Letras Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística. Eliana Maria Moreira Cavalcanti Lins. Gota d’água: o abuso do poder e a eloquência múltipla da palavra. Maceió – 2009.

(2) Universidade Federal de Alagoas Faculdade de Letras Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística. Eliana Maria Moreira Cavalcanti Lins. Gota d’água: o abuso do poder e a eloquência múltipla da palavra. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal de Alagoas, como requisito para a obtenção do título de Mestre em Estudos Literários.. Orientador: Prof. Dr. Otavio Gomes Cabral Filho. Maceió – 2009.

(3) Catalogação na fonte Universidade Federal de Alagoas Biblioteca Central Divisão de Tratamento Técnico Bibliotecária Responsável: Helena Cristina Pimentel do Vale L759g. Lins, Eliana Maria Moreira Cavalcante. Gota d’água : o abuso do poder e a eloquência múltipla da palavra / Eliana Maria Moreira Cavalcante Lins, 2009. 88 f. Orientador: Otavio Gomes Cabral Filho. Dissertação (mestrado em Letras e Lingüística : Literatura) – Universidade Federal de Alagoas. Faculdade de Letras. Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística. Maceió, 2009. Bibliografia: f. [85]-88. 1. Teatro brasileiro. 2. Buarque, Chico, 1944 – Crítica e interpretação. 3. Pontes, Paulo, 1946-1978 – Crítica e interpretação. 4. Crítica literária. 5. Poder. I. Título. CDU: 869.0(81)-2.09.

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(5) Ao meu pai, Medeiros Cavalcanti (in memoriam), na esperança de que esteja orgulhoso de mim neste momento.. A minha mãe, Liège, preocupação desmedida com a minha felicidade.. Ao meu marido, Carlinhos, fiel escudeiro de todas as horas.. Aos meus filhos, Ilana, Marlos e Max, razão e motivação para tanto esforço.. Ao meu netinho, Breno, na esperança de que, mais tarde, venha a sentir muito orgulho da vovó Lili.. Aos meus irmãos, Viviana e Ricardo, presenças constantes no meu caminhar..

(6) Agradecimentos. A Deus, por me permitir trilhar esse caminho e concluir mais uma etapa da minha vida.. Ao professor orientador Doutor Otávio Gomes Cabral Filho, presença amiga, sinônimo de seriedade e lucidez, pela sua competência, e pela cordialidade ao me guiar pelo caminho mais seguro e mostrar os atalhos necessários.. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da UFAL, que me ofereceram ensinamentos e iluminaram essa nova estrada que escolhi trilhar..

(7) É na máscara da ficção que está a verdade. Anatol Rosenfeld.

(8) É preciso ter fé na linguagem organizada, na sua possibilidade de compreender o mundo. Paulo Pontes.

(9) Resumo. Este trabalho foi concebido com a intenção de compreender a maneira como os dramaturgos Paulo Pontes e Chico Buarque produziram a obra Gota d’água, dentro do contexto brasileiro. São linhas e entrelinhas de uma engenhosidade intencional e planificada. A peça é reveladora da dinâmica social do mundo moderno, extrapolando a questão nacional e analisando as características e consequências do mundo capitalista, onde o poder mostra as suas garras e cria atores que desempenham papéis diversos numa sociedade desigual e conflituosa.. Abstract This work was conceived with the intention of understanding the way the dramaturgs Paulo Pontes and Chico Buarque produced the work Gota d’água, inside the Brazilian context. There are lines and implied sense of an intentional and delineated wit. The play reveals the social dynamics of the modern world, going beyond the national issue and analysing the characteristics and consequences of the capitalist world, where the power shows its claws and creates actors who represent different roles in a conflicted and unequal society..

(10) Sumário. INTRODUÇÃO ........................................................................ 8. CAPÍTULO I UM POTE DE MÁGOA .......................................................... 19 1.1 MEDEIA E GOTA D’ÁGUA..................................................... 19 1.2 JOANA E EGEU – REPRESENTAÇÕES DA DESIGUALDADE SOCIAL E DA RESISTÊNCIA .......................................................26. CAPÍTULO II AS MALHAS DO PODER .......................................................43 2.1 JASÃO E CREONTE – AUTORITARISMO, COOPTAÇÃO E MALANDRAGEM ...............................................................43 2.2 A FORÇA DO DINHEIRO E O INDIVIDUALISMO DO HOMEM MODERNO........................................................70. Conclusão ...................................................................................83. Referências ................................................................................85.

(11) 8. Introdução Na década de 70 tivemos oportunidade de assistir à peça Gota d’água. O encantamento de mais de trinta anos atrás despertou-nos para uma curiosidade maior sobre essa obra. Com o olhar mais experiente, atrelado ao trabalho da pesquisa, pudemos acrescentar àquela visão ingênua de outrora um conhecimento bem mais aprofundado sobre o texto. Gota d’água, de autoria de Paulo Pontes e Chico Buarque, escrita e estreada em 1975, tem uma intertextualidade explícita com Medeia, escrita por Eurípides em 431 a.C. e considerada por Aristóteles “a tragédia das tragédias”. Os autores, dois jovens conectados com os problemas nacionais, revitalizaram Medeia, transformando-a na tragédia da história brasileira. Após a leitura minuciosa da peça, constatamos a presença de dois enredos paralelos: o primeiro de ordem passional e o segundo de ordem social. Também é muito clara a presença conflitante do poder opressor versus classe oprimida, esta representada pelos habitantes da Vila do Meio-Dia. Toda a trama da peça faz uma reflexão sobre o contexto histórico – político e social brasileiro. Desde o final da década de 50 e início da década de 60 do século passado, esse contexto social já ensejava greves, ameaças, críticas e rebeliões por parte de uma boa soma de brasileiros. A pressão da crescente economia brasileira já vinha produzindo desigualdades e contradições dentro da sociedade. Numa distorção de valores o homem explora o seu semelhante e a si mesmo. “A publicidade funcionando como apelo sedutor invade o universo psíquico do homem. O produto passa a merecer mais que a pessoa, e esta se sente socialmente valorizada, na medida em que ostenta a posse do produto” (BETTO, 2003, p. 103). Nesse caos, os que detêm a força, o poder, exploram a.

(12) 9 crise, pois os seus desejos vão além-fronteiras, além-escrúpulos, num esforço sem freios e na ânsia de acumular capital. Essa realidade levou a que, em 31 de março de 64, os militares depusessem o presidente João Goulart com o apoio irrestrito das classes dominantes, temerosos ante a possibilidade da tomada do poder por parte da esquerda que vinha crescendo e se afirmando nos quatro cantos do país. O Golpe de 31 de março se propunha a calar os apelos às reformas de base propostas pelo governo, bem como o avanço das ações consequentes da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Estava, assim, instaurada uma ditadura militar que se prolongaria por 21 anos. Essa ditadura, que esperava conter o avanço do pensamento de esquerda, passou a se preocupar também com a produção cultural, ou seja, com a expressão artística nas suas mais variadas formas, através das vozes que não queriam calar, que ousavam bradar as suas inquietações e suas insatisfações. O regime autoritário excluiu o povo dos seus direitos mais elementares de liberdade. O indivíduo passou a ser tratado como uma presa, tolhida de movimentos próprios. A partir do golpe se instaurou um momento de perplexidade por parte da sociedade brasileira, ante o modelo de governo imposto. A mudança brusca de regime pegou a todos de surpresa. Em princípio houve o choque; em seguida, artistas e intelectuais começaram a se manifestar, descontentes com a situação vigente. Uma dessas manifestações foi uma carta aberta ao Presidente da República, com cerca de 1.500 assinaturas de artistas, empresários de teatro, diretores etc., que nos seus dois últimos parágrafos dizia:. Estamos conscientes do papel que nos cabe na sociedade brasileira e da responsabilidade que temos na representação dos sentimentos mais autênticos de nosso povo. Como desempenhar esse papel e exercer essa responsabilidade, se o direito de opinião e a divergência democrática passam a ser encarados como delito e a criação artística como ameaça ao regime? [...] (MICHALSKI, 1979, p. 35)..

(13) 10. Os artistas-ideólogos perseveravam na ideia de harmonizar um discurso em que arte e política não pudessem se dissociar. Atribuíam ao teatro um valor estratégico de ação, em perfeita sintonia com os fatos históricos. A pesquisadora e jornalista Mariângela Alves de Lima, no seu artigo Os grupos ideológicos e o teatro da década de 1970, nos diz:. O teatro passa a fazer parte de um vasto campo teórico, da mesma forma que integra a ação política de esquerda. Incapazes de contemplar isoladamente o acontecimento teatral, os artistas lançam mão da história, da ciência política, da filosofia e da estética. Tudo isto é confrontado com a observação direta da realidade que, em última análise, fornece o „gesto brasileiro‟ que vai entrar em cena (LIMA apud NUÑES et.al., 1994, p. 237).. O governo militar, com o apoio da classe dominante, temia por uma “conspiração subversiva” que, instruída pela “força comunista internacional”, pudesse, em curto espaço de tempo, assumir o poder e implantar o comunismo entre nós. É interessante ressaltar a importância da trajetória de Chico Buarque1 e Paulo Pontes2 como sendo resultado de toda uma vivência voltada a sérios questionamentos sobre a nação brasileira, construídos quando ambos, ainda muito jovens, já exercitavam seus talentos em favor de uma reflexão maior sobre as injustiças sociais. Não se pode, portanto,. 1. Paulo Pontes – nasceu em Campina Grande, Paraíba, em 1940. Faleceu vítima de um câncer de estômago, no Rio de Janeiro, em 1976, um ano após a estreia de Gota d’água. Sua produção intelectual esteve sempre voltada ao homem com seus conflitos, fruto de uma sociedade desigual. Começou sua vida profissional produzindo textos para um programa de rádio, tendo como base a Pedagogia do Oprimido, do pernambucano Paulo Freire. O seu diálogo com o povo tinha como instrumento a força da palavra. 2. Chico Buarque – nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. É compositor, intérprete, poeta, escritor e dramaturgo. Durante os anos duros da repressão, foi a voz da revolução, mesmo perseguido passo a passo em suas produções. Nunca perdeu a oportunidade de burlar a ditadura através das entrelinhas de sua obra. Sua primeira incursão no teatro se deu em 1965, quando ele tinha apenas 20 para 21 anos de idade..

(14) 11 reduzir a importância das suas obras ao período do regime militar. Podemos sim, situar a obra Gota d’água como amadurecimento e refinamento de alguns anos de coerência ideológica e de uma luta engajada servindo-se da produção cultural como meio de expressão de seus anseios e preocupações. O Brasil da escrita e da estreia da peça vivia um período de muito sofrimento e revolta, devido às torturas, exílios, prisões, sequestros e assassinatos dos ativistas que se manifestaram contra o regime de governo. Era um tempo em que a Censura Federal, vigilante e castradora, não perdoava as expressões artísticas que divergissem da conduta imposta pelo sistema de governo. A classe teatral estava, pois, mobilizada contra as arbitrariedades da censura. É de se lembrar, sempre, a Constituição no seu artigo 141, quando diz que “é livre a liberdade de pensamento”. Existia, porém, uma palavra de ordem, uma lei a ser observada, rigorosamente. Questionamentos, contestações ou oposições ao regime implantado eram consideradas atitudes subversivas. O cenário artístico prosseguia. Mas a censura estaria sempre atenta às manifestações provenientes do teatro: ao que se escrevia, ao que se ensaiava, ao que se encenava. A intencionalidade dos autores, explícita no prefácio do livro, muito nos instigou no processo da pesquisa, como se estivéssemos cavando na arquitetura de um palácio e descobrindo riquezas no seu alicerce. Essas riquezas foram exatamente as junções, sentidos e conveniências das palavras empregadas. Metáforas, intertextualidades, convergências e divergências com a obra Medeia possibilitaram-nos traçar uma linha de trabalho dividida em dois capítulos. A ideia de escrever uma peça inspirada num clássico da dramaturgia mundial partiu da encenação de Medeia para a televisão, em 1972, sob a direção de Oduvaldo Vianna Filho. Vianinha escolheu o texto da dramaturgia grega pensando em adaptá-lo às questões nacionais. Não mais as questões do proletariado, tratada anteriormente em.

(15) 12 outras obras, e sim numa visão mais ampla, compreendendo a complexidade dos problemas que afligiam a sociedade como um todo. Oduvaldo Viana Filho não pôde concluir o seu intento por causa de sua morte prematura. Paulo Pontes e Chico Buarque, juntos, resolveram dar continuidade àquela ideia inicial de Vianinha e produziram um texto no qual estão contidos elementos de uma tragédia real, ou seja, a tragédia da sociedade brasileira da década de 70, que hoje, mais do que nunca, permanece, construindo um abismo cada vez maior entre ricos e pobres. Assim, traição e injustiça são os temas abordados por Gota d’água. A peça foi, segundo os autores, alimentada pela intenção de fazer refletir sobre o caos em que vivia o Brasil. Três preocupações foram então elencadas por Paulo Pontes e Chico Buarque:. A primeira [...]: a experiência capitalista que se vem implantando aqui radical, violentamente predatória, impiedosamente seletiva – adquiriu um trágico dinamismo [...] a segunda preocupação do nosso trabalho é com o problema cultural [...]; o povo sumiu da cultura produzida no Brasil [...] Isolado, seccionado, sem ter onde nem como exprimir seus interesses [...] o povo brasileiro deixou de ser o centro da cultura brasileira [...]. A nossa terceira e última preocupação está refletida na forma da peça [...] a palavra deixou de ser o centro do acontecimento dramático [...] As mais indagativas e generosas realizações desse período têm como característica principal a ascendência de estímulos sonoros e visuais sobre a palavra. As causas do fenômeno são conhecidas, mas gostaríamos de chamar atenção [...].. (PONTES; BUARQUE, 1997, p. xi, xv, xvi, xvii, xviii, grifo nosso).. Atentando para as três preocupações acima descritas, podemos verificar que elas estão colocadas nos aspectos político, cultural e formal. O último aspecto era exatamente a dificuldade com a palavra, que estava cerceada. As produções artísticas, por contingência da situação imposta, estavam mais voltadas aos efeitos cênicos do que ao texto propriamente dito. O diretor, atores e materiais cênicos tinham mais importância que o texto. A preocupação com a palavra foi uma das metas de Paulo Pontes e Chico Buarque, aproveitando que o cenário nacional começava a se modificar.

(16) 13 lentamente através do surgimento do jornalismo político e de teses de doutoramento em que análises da sociedade começavam a se fazer presentes:. A linguagem, instrumento do pensamento organizado, tem que ser enriquecida, desdobrada, aprofundada, alçada ao nível que lhe permita captar e revelar a complexidade de nossa situação atual. A palavra, portanto, tem que ser trazida de volta, tem que voltar a ser nossa aliada (idem, p. xix). Limitados por uma autocensura, os autores foram capazes de criar um texto rico em metáforas e todo estruturado em versos. O resultado foi uma produção artística plena de intenções, onde os símbolos não são gratuitos. O fazer artístico dos dois autores encontrou um caminho, se não seguro, pelo menos, facilitador. Nas entrelinhas foram expostas situações que passaram, de certa forma, despercebidas pelos controles do AI-53. A obra dialoga com o seu tempo e, afora as preocupações acima mencionadas, ainda denuncia a exploração exercida pelo Sistema Financeiro de Habitação, uma das bandeiras do regime militar. Assim, sem maiores problemas com a censura, Gota d’água conseguiu estrear em 8 de dezembro de 1975, no Rio de Janeiro, sob a direção de Gianni Ratto e tendo a atriz Bibi Ferreira no papel de Joana, a “Medeia brasileira”. Com os altos custos da produção e a consequente necessidade dos resultados de uma boa bilheteria, era um teatro do povo, mas não para o povo, que não tinha condições de adquirir os ingressos.. Gota d‟água estava em cartaz no circuito comercial. Criava-se, assim, aparente contradição entre espetáculo com tema e forma popular, mas que não dispensava a mediação da bilheteria como meio de manter a folha de pagamento (que envolvia 52 artistas e técnicos) e os gastos com a produção caríssima (500.000 cruzeiros, na época) (MACIEL, 2004, p. 105). 3. Ato Institucional nº5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva. Vigorou até dezembro de 1978. Definiu o momento mais duro do regime, dando poder de execução aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou considerados como tal. (Disponível em: <http://www.cpdoc.fgv.br/.

(17) 14. Era, por conseguinte, um teatro empresarial, mas, inegavelmente, estaria de volta à cena o teatro que enfocava as condições do país e de seu povo. A volta do teatro nacional-popular se deu, portanto, através de Gota d’água. Dois pontos a serem considerados foram decisivos na liberação de Gota d’água. Primeiro: a competência de um fazer artístico, burlando, de maneira inteligente, a Censura Federal. Segundo: as rédeas começavam a se esgarçar com o projeto de abertura que ficou conhecido por “distensão lenta, gradual e segura”, quando os militares, pressionados por uma situação econômica que desandava e por pressões inclusive da imprensa internacional, começaram a se mobilizar visando à volta da democracia plena. Essa, porém, não poderia ser considerada uma atitude generosa por parte dos militares, e sim uma necessidade de irem se retirando aos poucos, pois a situação do país já não admitia a linha dura que aqui havia sido implantada pelo regime. Na apresentação do livro Gota D’Água, seus autores, já nas primeiras linhas, diziam: “A esta altura do nosso trabalho [...] seria impossível levantar o mundo de intenções que Gota d‟Água contém [...] o que não nos impede de ir pro inferno – ao contrário, ajuda” (BUARQUE; PONTES, 1997, p.xi) Apesar de uma preocupação real com o “grau de pauperismo” da maioria da sociedade brasileira, Paulo Pontes e Chico Buarque produziram uma obra em que a criatividade tomou como ponto de partida um texto de grande significação para a dramaturgia universal, atingindo seu “mundo de intenções”. Gota d’água foi escrita logo após o chamado período do “milagre econômico” (1969 a 1973), quando o país esteve sob o comando do Presidente Garrastazu Médici, considerado o mandatário mais duro do regime militar, e também o período de aparente crescimento econômico para o país. Nesse período, obras faraônicas foram iniciadas,.

(18) 15 entre elas a Rodovia Transamazônica, que nunca foi concluída, e a Usina Hidroelétrica de Itaipu. O setor industrial prosperou e dívidas volumosas foram acumuladas nos períodos seguintes, como resultado do “Milagre Econômico.” O governo do presidente Médici fez o uso massivo dos meios de divulgação e frases persuasivas, como: “Ninguém segura este país”, faziam parte de toda uma estratégia de governo com anseios de grandeza e que atribuía o aparente desenvolvimento e crescimento econômico à competência do governo militar. Mas a euforia desenvolvimentista estava atrelada a empréstimos de altas somas de dinheiro estrangeiro. A peça Gota d’água é justamente escrita após esse período, ou seja, já com a constatação do insucesso do “milagre econômico” e uma dívida externa que acarretou um alto custo social, determinando uma excessiva concentração de renda, enquanto as camadas populares mantinham-se à margem de todo esse crescimento e amargavam a sua condição de pobreza e inferioridade. Outro fato incômodo era o Sistema Nacional de Habitação, criado em 1964 com a finalidade social de alcançar um grande número de pessoas, com a realização do “sonho da casa própria”, mas que, infelizmente, dada a questão das dívidas do país levou os mutuários a sofrerem com a alta dos juros e consequentes correções monetárias. Gota d’água é a revitalização do texto clássico de Eurípides, escrito quase meio milênio antes de Cristo e que permanece até hoje entre nós como uma obra-prima da dramaturgia mundial. Atrelada à mitologia grega, Medeia foi construída a partir de uma longa e complicada teia de lendas e se refere ao ciclo dos argonautas. Eurípides foi buscar na mitologia o seu tema e transformou-a numa história do seu tempo e sob o ângulo de seu olhar, da mesma maneira que Chico Buarque e Paulo Pontes souberam beber da fonte de Eurípides. “Enxergaram, na tragédia de Eurípides, o solo fértil para receber a semente moderna” (orelha do livro Gota d‟água). Tomando-a como ponto de.

(19) 16 partida, criaram uma obra nacional – popular. Mario da Gama Cury escreveu sobre a fama de Medeia na Antiguidade, citando, em tradução, um epigrama do poeta Arquimedes (época desconhecida), conservado, segundo ele, na Antologia Palatina, livro VI, 50, contendo conselhos aos poetas seus contemporâneos:. “Não te atrevas a percorrer, poeta novo, A estrada freqüentada por Eurípides; Nem mesmo tentes, pois seria dificílimo seguir o seu trajeto; a impressão é que ela é fácil, mas se alguém tenta pisá-la, vê que ela é árdua como se fosse pavimentada de estacas pontiagudas. Experimenta apenas retocar A trilha de Medéia, filha de Aietes! Sentir-te-ás anônimo e rasteiro. Afasta as tuas mãos da coroa de Eurípedes.”. E Fernando Peixoto complementa: “Chico e Paulo não afastaram as mãos. Ignoraram a ameaçadora advertência. E nos demonstram que acabaram-se os tempos das maldições e das coroas.” (Peixoto, Fernando, 1980, p.276 ). O. entrelaçamento. ou. diálogo. de. textos. nos. permite. uma. reflexão. sobre a história da caminhada da humanidade. O texto original nada tem de original; não poderá jamais ser puro, porque a sua originalidade se inscreve numa genealogia, descrita pela professora Tiphaine Samoyault como “uma grande árvore com galhos numerosos, com um rizoma mais do que com uma raiz única, onde as filiações se dispersam e cujas evoluções são tanto horizontais como verticais” (SAMOYAULT, 2008, p. 9). A memória que a literatura reúne permite a criação de um novo texto que poderá ser uma retomada “aleatória ou consentida, vaga lembrança, homenagem explícita ou ainda submissão a um modelo, subversão do cânon ou inspiração voluntária” (idem, p.10). No caso de Gota d’água, acreditamos se tratar de uma “inspiração voluntária”. E é ainda Samoyault quem nos diz:.

(20) 17. (...) a análise da noção de intertextualidade envolve uma verdadeira reflexão sobre a memória da literatura e sobre a natureza, as dimensões e a mobilidade de seu espaço, e especialmente sobre o jogo de referência – o remeter da literatura para si mesma – e da referencialidade – liame da literatura com o real. (SAMOYAULT, p. 10, 11).. Em se tratando da obra Gota d’água, a sua “originalidade” está, dessa maneira, enriquecida pelas inúmeras possibilidades do tecido tramado com base nos mais variados galhos dessa genealogia, num diálogo incessante de possibilidades infinitas da literatura com sua própria historicidade. A obra Gota d’água nos convida a uma discussão que inclui a política habitacional do governo, o autoritarismo e os conflitos gerados pelas disparidades do poder econômico. Essa visão sobre a realidade social brasileira nos encaminha a uma abordagem crítica de cunho social e está, fundamentalmente, embasada na teoria de Antonio Candido, quando nos fala da redução estrutural, ou seja, o dado externo que se interioriza na obra, tornando-se componente de sua estrutura literária. Toda uma conjuntura social subsidiando as linhas e entrelinhas de uma obra atenta à realidade do país, resultando num texto crítico e reflexivo. Afora o mestre citado, muitos outros estudiosos nos deram suas contribuições, entre eles destacamos: Marshall Berman e Raymond Williams no primeiro capítulo, e Maquiavel, Roberto Schwarz, Ian Watt e Roberto Da Matta no segundo capítulo. O primeiro capítulo faz um resumo das obras: Medeia (que serviu como ponto de partida e inspiração para a construção do texto Gota d’água) e Gota d’água, a fim de que, ao iniciarmos a sua análise, tenhamos um fio condutor como norteador do pensamento reflexivo. Ainda nesse capítulo, trataremos das questões sociais modernas.

(21) 18 com suas disparidades e injustiças, lançando mais o nosso olhar para as personagens Joana e Egeu, ambas personificando a resistência, embora em condutas díspares. No segundo capítulo voltamos o nosso olhar para a malandragem como consequência dessa desordem social e sobre a imperiosa e predadora manipulação do poder econômico. Daremos ênfase às personagens Creonte e Jasão, ambas, simbolizando o abuso do poder, o oportunismo e a malandragem social. Gota d’água nos remete à tragédia da sociedade brasileira da época da ditadura militar, mas permanece atual e vigorosa por tratar da desigualdade social em que o capital fala mais alto, revelando indivíduos egoístas, independentemente da classe social, com deturpações de caráter e o desejo de ascensão ao poder, o que se evidencia mais e mais neste novo milênio, trazendo consequências desastrosas para o equilíbrio da nossa sociedade..

(22) 19. CAPÍTULO I UM POTE DE MÁGOA. 1.1 MEDEIA E GOTA D’ÁGUA. Medeia Jason, filho de Aison, ao atingir a maioridade teria direito ao trono de Iolco, que se encontrava sob o poder do seu primo Pélias. Este, por sua vez, promete-lhe só lhe passar o trono caso ele lhe traga o tosão ou velocino de ouro (pele de carneiro prodigioso), alegando ser muito idoso para cumprir essa tarefa. Jasão aceita o desafio, e arregimenta a juventude grega e parte na nau Argó, de onde vem o nome argonauta. Para vencer o desafio, Jasão conta com a interferência de Hera (mulher de Zeus, o deus mais importante da mitologia grega), que faz com que Medeia se apaixone perdidamente por Jasão, pois ela, com seus poderes mágicos, poderá ajudá-lo na difícil tarefa de obter o velocino de ouro. Com a obtenção da pele do carneiro alado, alguns acontecimentos trágicos são desencadeados: Medeia mata o próprio irmão Absirtes e, na fuga, espalha pelo caminho os restos do irmão para confundir aqueles que estão à sua procura, a mando de seu pai. Depois, ela mata Pélias, e foge com Jasão para Corinto. Em Corinto vivem dez anos de tranquilidade com dois filhos nascidos da união do casal. Todas essas histórias fazem parte da riqueza da mitologia. A peça de Eurípides, no entanto, só tem início quando Jasão, já vivendo em Corinto com Medeia, a abandona por conveniência, para casar com Glauce, filha de Creonte, rei de Corinto. Portanto, todo o enredo se desenrola a partir da traição de Jasão. Medeia é a história de uma.

(23) 20 mulher com grandes poderes mágicos que, ao se sentir traída, nutre um sentimento de ódio sobre-humano a todos os que contribuíram para a sua desgraça. Creonte, temeroso dos poderes de Medeia, decreta a sua expulsão de Corinto. Medeia pede um dia e, neste único dia, se vinga matando a noiva de Jasão e seu pai Creonte. E ainda, no auge desta tragédia, envenena os próprios filhos. Em seguida, foge no carro de fogo do deus Sol, seu avô. Ela parte para a cidade de Erecteu, onde será acolhida por Egeu, filho de Pandíon, rei de Atenas. É a vingança pelo ódio e humilhação sentidos por Medeia contra o homem que ela amava cegamente, e que a abandonou pensando na ascensão ao poder. Ela se sente plenamente vingada com a solidão e o sofrimento de Jasão.. Gota d’água Gota d’água desenvolve duas histórias paralelas, como já falamos anteriormente: uma de ordem passional e outra de ordem social. A primeira é o drama de uma mulher de meia idade que, após dez anos de convivência com um sambista com quem teve dois filhos, é traída por ele e, humilhada, trama uma vingança. Ele a deixa por Alma, filha de Creonte, o dono do Conjunto Habitacional Vila do Meio-Dia, onde mora o casal com seus dois filhos. O conflito da trama é a traição de Jasão. Tudo começa a partir dessa traição. É, portanto, uma história de amor, traição, ódio e vingança. A segunda diz respeito aos habitantes da Vila do Meio-Dia, encurralados devido às prestações de suas moradias com altos juros e correções monetárias, o que os deixa impossibilitados de honrar seus compromissos. Dessa maneira, os autores de Gota d’água mantiveram o cunho amoroso do hipotexto ou texto de origem. Partindo da tragédia grega, porém sem submissão, eles são capazes de reter o fundamento trágico e realizam uma obra que assume uma postura crítica. O tema central da peça é o choque ideológico. Jasão.

(24) 21 ascende socialmente ao ser cooptado pelo sistema, representado na peça por Creonte, enquanto Joana concretiza a sua violência cega contra esses poderosos. Vale salientar que os nomes de alguns personagens foram mantidos da tragédia grega: Jasão, Creonte e Egeu, da mesma forma que Eurípides, ao escrever Medeia, fez uso desses nomes, extraídos da mitologia grega. Em Aristóteles, encontramos: “Todavia, sucede também que em algumas Tragédias são conhecidos os nomes de uma ou duas personagens, sendo os outros inventados” [...] (1993, p. 55). Os autores de Gota d’água, seguiram a tradição da tragédia clássica, preservando alguns nomes para os seus personagens e criando outros. A heroína teve seu nome trocado por um bem brasileiro, afinal ela é a representação da tragédia brasileira. Os filhos de Joana não têm nome. As suas nomeações nada acrescentariam à trama, da mesma forma que os filhos de Medéia também não têm nome. São simplesmente os filhos de Joana, “os dois abortos,” como diz a fala da personagem Corina, no início da peça. Sobre a identidade das personagens, assim se expressa Ryngaert:. Os discursos das personagens são reunidos sob a mesma sigla, que constitui a primeira pista de sua identidade. Os nomes atribuídos às personagens são uma indicação importante, a ponto de alguns dramaturgos as privarem de nomes, certamente para que não fiquem muito marcadas socialmente e para que a ênfase se coloque no que elas dizem. [...] Uma personagem não se constrói apenas a partir de seu nome, mas não podemos ignorar o modo como os autores as nomeiam. (RYNGAERT, 1995, p. 133, 134, grifo nosso).. Gota d’água tem um texto híbrido que se utiliza de muitas formas, entre elas: a comédia (a irreverência e o deboche dos textos e dos tipos brasileiros levam a platéia ou o leitor a rir em muitos momentos) e o musical (com músicas e coreografias que dão leveza à tragédia). Foi construída em dois atos e toda a ação se desenrola em cinco sets: o set das vizinhas, o set do Botequim, o set da oficina de Egeu, o set de Joana e o set de.

(25) 22 Creonte. As canções foram usadas no desenrolar da peça como elemento estrutural, inclusive uma delas dando título à obra. Nesse primeiro ato de Gota d’água apresenta-se o quadro de desolação em que se encontra Joana após ser abandonada por Jasão e a repercussão em torno desse abandono, além da exposição de dificuldades enfrentadas pelos moradores da Vila do Meio-Dia, em face aos juros e correções monetárias das prestações de seus apartamentos. O segundo ato já começa com os boatos do casamento de Jasão com Alma, a expulsão de Joana do condomínio por Creonte, o seu pedido para ficar por mais um dia, com o intuito de se vingar dos três responsáveis pelo seu sofrimento (Creonte, Alma e Jasão). Daí por diante, todos os preparativos para “o desfecho da festa”. Gota d’água se utiliza de alguns aspectos da cultura brasileira, como, por exemplo, o samba, a macumba, o time de futebol e os ditos populares. Mas, especialmente, trabalha com a desigualdade, onde situações como desemprego, moradia, luta pela sobrevivência e baixa estima do povo são apresentadas. A Vila do Meio-Dia reúne pessoas simples que, vivendo à margem do que seria uma sociedade justa, são cúmplices de uma situação de pobreza e falta de perspectivas. A obra é muito densa, pois se manifesta através de várias vertentes, a saber: vertente política (quando denuncia a situação de miséria de povo brasileiro), vertente poética (quando transforma esse drama num texto onde a poesia está presente nos diálogos, nas composições musicais, enfim, em toda a produção), vertente musical (o texto está todo entremeado por canções) e vertente da cultura popular (quando vários elementos da nossa cultura, como, por exemplo, escola de samba, bandeira do Flamengo, boteco e birita aparecem conferindo brasilidade ao texto)..

(26) 23 A peça está claramente situada em um espaço geográfico e temporal. No primeiro caso, quando a obra cita, por exemplo: o Maracanã ou o Cristo Redentor, fica evidente que toda a ação se passa no Rio de Janeiro. No segundo caso, quando em diversos momentos são mencionados objetos que se situam numa determinada época, como: um carro modelo Simca Chambord, enceradeira, gravador, rádio de pilha etc. Eram bens de consumo que estavam em evidência quando da construção e estreia da peça. No entanto, Gota d’água se constitui numa obra atemporal por tratar de disparidades econômicas e desigualdades sociais, questões ainda não resolvidas, e mais grave ainda, intensificadas nos dias atuais. “Gota d‟água”, a canção, é um elemento muito importante, pois foi através do seu sucesso que Jasão sobressaiu entre os indivíduos da sua comunidade. Na tragédia brasileira, o coro da tragédia clássica, que, segundo Aristóteles, “também deve ser considerado como um dos atores,” é substituído pelas muitas vozes dos vizinhos de Joana. Há o coro feminino formado pela amigas de Joana, que se solidarizam com a sua dor, e o masculino, formado pelos amigos de Jasão que entendem e até se regozijam com a sua ascensão social. Na verdade, são vozes individualizadas que se manifestam no chamado set das vizinhas, através de diálogos que acontecem em várias cenas, intercalando-se, mais das vezes, com o set do botequim, onde os homens se encontram. Essas vozes representam a posição de cada um diante da exposição dos fatos.. Estela:. É destino. Zaíra:. A pessoa já nasce avisada!. Maria:. Vai sofrer. Olha que vai sofrer. E o que faz? A pessoa vai e sofre.. Nenê:. Não há beleza nem esperteza capaz De resistir à natureza....

(27) 24. Corina:. Isso é que não Não, não e não. Repare a cor dos meus cabelos A boca amarga com seis dentes amarelos A bunda que caiu e a falta de tesão O peito que bichou e a pomba que é um bagaço As varizes da perna e as pelancas do braço Foi só a natureza, foi fatalidade? [...] (PONTES; BUARQUE, 1997, p.12). É interessante observar que em um único momento da peça Gota d’água o coro feminino é apresentado em uníssono. Não são, portanto, vozes individualizadas, mas simplesmente: as vizinhas. E elas dizem, alternando com as respostas de Joana: “Comadre Joana/ Recolhe essa dor [...] Comadre Joana /Guarda o teu rancor [...] Comadre Joana/ Abafa essa brasa [...] Comadre Joana/Recolhe pra casa [...] Comadre Joana/ Recolhe esses dentes [...] Comadre Joana/ Bota panos quentes [...] (PONTES; BUARQUE, 1997, p. 45, 46,47). Ainda, segundo Pavis, na tragédia clássica o coro “designa um grupo homogêneo de dançarinos, cantores e narradores, que toma a palavra coletivamente para comentar a ação, à qual são diversamente integrados.” (PAVIS, 2007, p.73). São mulheres anciãs coríntias que, juntas, têm a função de representar o que faz parte da ordem dos sentimentos. Segue um exemplo do coro grego, retirado de Medeia:. Coro:. Quanta desgraça a tua infortunada!... Para que chão dirigirás teus passos? A quem suplicarás que te receba? Onde acharás um lar, uma cidade A salvo da desdita? Vais errar Sem esperança nesse mar de angústias A que foste lançada pelos deuses. (EURÍPIDES, 1991, p.33). Segundo Brandão (1992, p.51), o coro tem as funções de: “testemunha, confidente, espectador ideal, conselheiro, associado na dor, intérprete lírico do poeta, traço de união entre público e os atores...”. Tanto na sua forma quanto na sua função, o coro grego caiu.

(28) 25 em desuso e/ou sofreu várias transformações através da história. O que podemos observar e concluir é que essas vozes, mesmo quando individualizadas, formam um coro com as mesmas funções do coro grego, citadas por Brandão. O texto fala de um povo excluído, manipulado pela lei do mais forte. E foi o que aconteceu com a personagem Jasão, que teve seu samba tocado nas rádios por interferência do futuro sogro, que anteviu no sambista uma possibilidade de investimento lucrativo. Coloca-o numa posição confortável, mas a serviço da sua acumulação de riquezas e ajudando-o na continuidade da sua exploração..

(29) 26. 1.2 JOANA E EGEU – REPRESENTAÇÕES DA DESIGUALDADE SOCIAL E DA RESISTÊNCIA. A primeira cena do primeiro ato é marcada pela entrada de Corina, amiga de Joana, que diz: “Não é certo...”. Nessa fala inconclusa está toda uma preocupação com o estado de sua amiga Joana, e vai, aos poucos, no diálogo com as demais vizinhas, sendo esclarecida toda uma situação de uma tragédia que poderá acontecer, pois, desde o início, já se tem uma informação da gravidade da situação. O prenúncio da tragédia está inclusive na fala de Corina:. Corina: Pois é, ela está como o diabo quer Comadre Joana já saiu ilesa de muito inferno, de muita tempestade Precisa mais que uma calamidade pra derrubar aquela fortaleza Mas desta vez... acho que não agüenta, Pois geme e treme e trinca a dentadura E, descomposta, chora e se esconjura E num soluço desses se arrebenta Não dorme, não come, não fala certo, só tem de esperto o olhar que encara a gente e pelo jeito dela olhar de frente, quando explodir, não quero estar por perto (PONTES; BUARQUE, 1997, p. 4, grifo nosso).. Joana está arrebentada no seu sofrimento, mas já se sabe que ela é uma fortaleza, acostumada às tempestades. Porém, a sua prostração é aparente, pois ela ainda tem de muito vivo o olhar, que faz com que sua amiga, Corina, tema por sua reação. A revolta poderá fazer abrir as comportas de uma represa de ódio, clamando por vingança..

(30) 27 A personagem Joana representa muito bem o “pote cheio de mágoa” de que fala a canção que intitula a peça. Porém, essa mágoa individual se vista de uma forma distanciada pode muito bem simbolizar o sofrimento dos habitantes da Vila do MeioDia, que se amofinam com o desastre da desigualdade social. A diferença que não soma, e sim exclui, marginaliza. Na tragédia clássica o desequilíbrio da ordem, promovido pela hybris ou desmedida, arrasta o herói para uma queda inexorável. Seus heróis são reis, rainhas e príncipes, portanto, personagens que vivem no topo, acostumados às alturas do poder e da riqueza. Na tragédia grega, a queda do herói que comete a falha é muito maior devido à sua alta posição social. Os heróis, através da peripécia, se deparam com a verdade da sua condição humana, marcada pela implacabilidade dos deuses e pela vulnerabilidade do destino. Joana, a heroína da tragédia brasileira, desconhece as alturas, vive à margem de uma situação de dignidade. Para melhor entendermos as mudanças ocorridas com os heróis através dos tempos, Raymond Williams nos esclarece, fazendo um retrospecto desde a tragédia clássica, passando pela tragédia elisabetana, até os dias atuais:. [...] a ação trágica dos gregos não se baseava em indivíduos, ou na psicologia individual, em qualquer dos sentimentos que nós atribuímos. Essa tragédia fundamentava-se na história, e não numa história humana somente. O seu ímpeto vinha não da personalidade de um indivíduo, mas do legado e das relações do homem, num mundo em que em última análise o transcendia. [...] À época de Shakespeare e Marlowe, a estrutura que agora conhecemos estava sendo ativamente formada; um homem individualizado, com suas próprias aspirações, com sua natureza própria, inserido numa ação que acaba por levá-lo à tragédia (WILLIAMS, 2002, p. 120).. Complementando esse raciocínio de Williams, citamos outro trecho de sua autoria, em que ele diz: “posição social, por assim dizer, tornou-se classe, e, uma vez feita essa.

(31) 28 transformação, era inevitável uma nova definição de tragédia. Posição implicava ordem e conexão; classe era apenas uma separação.” (ibidem, p.127).. Temos também o pensamento de Gonçalves:. Reconhecemos que a sobreposição de forças institucionais tende a criar, modernamente, um personagem que vive uma sucessão de quedas, ao longo de sua existência, sem conhecer o vôo das alturas, uma vez que está sempre rente ao chão, condenado a ser o homemformiga indiferenciado, esquecido pelos deuses [...] (GONÇALVES, 2008 p. 94/95).. Reforçando o que já foi dito, citamos, mais uma vez, Williams: “a tragédia tem sido, para nós, o conflito entre indivíduo e as forças que o destroem” (ibidem, p.119). É a engrenagem social que atropela ou encurrala o homem moderno. E tudo decorre da tensão desse homem e do seu papel dentro da sociedade.. Quando Jasão diz a Joana que ela está atrasada com as prestações, ela responde com toda a sua revolta:. Joana:. Eu sei, Jasão Estou e nunca mais pago um tostão O preço que constava na escritura Eu já paguei. Passo mais de seis anos em cima de u‟a máquina de costura, dia e noite emendando uns panos [...] É carregar lata d‟água? Eu carrego Dou injeção, tomo conta de louco Vou ver se ponho meus bofes no prego Que a prestação já subiu mais um pouco – Tu quase sempre fingindo de cego.

(32) 29 A prestação não me dava conforto Quanto mais eu pagava mais devia Virei parteira, fiz mais de um aborto Mas, entre me matar no dia-a-dia e carregar comigo um peso morto, eu não sei qual dos dois mais me doía (PONTES; BUARQUE, 1997, p. 121).. A personagem Amorim assim se expressa; “[...] Aqui, garanto:/ qualquer um pra sair desta merda, vendia/ a mãe, a mulher, pai, filho e Espírito Santo” (p. 24). Para um povo excluído e marginalizado, a necessidade de sobrevivência, mais das vezes, derruba questões de ética e moral, levando-o a tomar atitudes ou ter comportamentos tidos como amorais e, portanto, condenáveis dentro dos parâmetros de uma sociedade humana.. Mestre Egeu não é só o protetor de Joana; como se revela em algumas situações da peça, é o articulador político daquela comunidade. Ele tenta, em vários momentos, construir um movimento em torno das intenções dos habitantes da “vila”. Para ele, a sociedade tem de se organizar para reivindicar os seus direitos, afinal, aqueles habitantes estão, todos, com as prestações atrasadas devido à alta dos juros e da correção monetária. Egeu tenta uma coesão do grupo, tenta construir uma unidade, mas, em vez disso, ele fica falando sozinho. Seus planos para formar uma vontade coletiva fracassam completamente, ao final da peça.. Com relação às características das classes subalternas 4, Monal assim se expressa, a partir dos seus estudos sobre a obra de Gramsci:. 4. Para Gramsci, segundo Isabel Monal, “os subalternos abrangem tanto classes (esta referência certamente não é abandonada) como grupos. Os subalternos se incluem em ambas essas categorias. Portanto, há em Gramsci uma ampliação do ângulo de visão, o que permite captar melhor a heterogeneidade social dos subalternos. Com isso a categoria gramsciana de „subalterno‟ – que, desse modo, vai além das classes sociais, mas, ao mesmo tempo, as inclui – supriria a lacuna de um conceito deste tipo em Marx [...] Este conceito ampliado de „subalterno‟ incluiria as classes exploradas e, em geral, o conjunto dos oprimidos e.

(33) 30. [...] a fragmentação, a dispersão e a heterogeneidade são obstáculos a superar e vencer. Tais grupos não poderão superar suas debilidades e sua capacidade de influir ou determinar o curso dos acontecimentos se não obtiverem uma maior coesão de consciência e de ação, e se não superarem a subestimação, ou mesmo a recusa, que alguns deles manifestam diante da política [...] Essas forças subalternas devem estabelecer metas e programas políticos concretos e definidos, abandonando os estados de espírito vagos e oscilantes (MONAL, 203, p. 198).. No diálogo que se segue, com uma única palavra, Egeu dá sua sugestão de como agir, na difícil situação gerada pelas prestações do Condomínio.. Xulé: Falhei de novo a prestação da casa... Mas, pela minha contabilidade, Pagando ou não, a gente sempre atrasa Veja: o preço do cafofo era três Três milhas já paguei, quer que comprove? Olha os recibos: cem contos por mês E agora ainda me faltam pagar novembro Com noves fora, juros, dividendo, Mais correção, taxa e ziriguidum, Se eu pago os nove que inda estou devendo, vou acabar devendo oitenta e um... Que matemática filha da puta Egeu: Xulé :. Todo o mundo está igual a você Não dá. É todo o mês a mesma luta tem que falar pro homem resolver baixar um pouco a mensalidade, senão vou morar debaixo da ponte Não é fácil, mestre Egeu.. Egeu:. É verdade. Xulé:. Egeu:. Alguém tem que falar com seu Creonte A gente vive nessa divisão Se subtrai, se multiplica, soma, no fim, ou come ou paga a prestação O que posso fazer, mestre Egeu?... Coma (PONTES, BUARQUE, 1997, p. 8, 9). dos marginalizados, que, em grande medida, atuam como parte desses movimentos sociais de sociedade civil [...]”.

(34) 31. Esta é a primeira orientação do articulador Egeu. Lembramos que, àquela época da produção da peça Gota d’água, o sistema financeiro de habitação, através do BNH 5, impunha extorsivos juros e correções monetárias. O banco, que havia sido criado com a intenção de realizar “o sonho da casa própria,” trazia angústia e pesadelos a todos aqueles que, seduzidos pelos apelos de propaganda da ditadura, adquiriram o seu imóvel. Eram pessoas de classe média que viam naquele projeto a única chance de adquirir a casa própria e não depender mais de aluguéis. Desde os tempos primitivos o homem tinha suas cavernas para morar. Um lugar para seu uso e para a sua proteção. Aquilo o satisfazia, pois aquela situação lhe era natural, assim como seria natural que o homem moderno tivesse direito a um lugar para seu uso, descanso e proteção. Não uma caverna, mas um lugar digno para um homem civilizado, e que esse homem não se sentisse ameaçado a todo o momento de ser expulso daquele lugar. Os moradores da Vila do Meio-Dia sentem-se incomodados com as prestações impossíveis de ser pagas e, portanto, sentem-se na iminência de perder aquele bem tão sonhado. Dessa necessidade elementar do ser humano, Karl Marx nos diz:. O selvagem na sua caverna – elemento natural que lhe é oferecido livremente para seu uso e proteção – não se sente como estranho; pelo contrário, sente-se tão bem nela como o peixe na água. Mas a habitação em caves dos pobres é uma habitação hostil, “um poder estranho, constringente, que só lhes rende em troca de sangue e suor”. Não a podem considerar como a sua casa – da qual seja possível vir a dizer: “aqui estou em casa.” Sentem-se antes na casa de outra pessoa, na casa de um estranho, que todos os dias se encontra à espreita e o expulsa, se não pagar a renda. São igualmente conscientes do 5. O BNH (Banco Nacional de Habitação) foi um banco público brasileiro voltado ao financiamento e à produção de empreendimentos imobiliários. Foi criado em 1964 pela deputada Sandra Cavalcanti, sua primeira presidente, através da Lei 4.380. Ele era responsável pela fiscalização das atividades do Sistema Financeiro de Habitação,; e foi extinto em 1986..

(35) 32 contraste que existe entre a sua habitação e uma habitação humana, sita no outro mundo, no céu da riqueza (MARX, 2001, p. 157).. Marx nos fala do contraste entre os dois mundos. A peça Gota d’água retrata esses dois mundos. De um lado a Vila do Meio-Dia, e do outro, o mundo de Creonte. Realidades antagônicas, porém uma evidência na sociedade moderna.. Mais adiante, mestre Egeu, na sua conversa com o personagem Amorim, diz:. Egeu:. Pois eu vou te dizer: se só você não paga você é um marginal, definitivamente Mas imagine só se, um dia, de repente ninguém pagar a casa, o apartamento, a vaga Como é que fica a coisa? Fica diferente Fica provado que é demais a prestação Então seu Creonte não tem solução Ou fica quieto ou manda embora toda a gente Cachorro, papagaio, velho, viúva, filha... Creonte vai dizer que é tudo vagabundo? E vai escorraçar, sozinho, todo mundo? Pra isso precisava ter outra virilha Não é?... (PONTES, BUARQUE, 1997, p.16).. Numa conversa com uma terceira personagem, mestre Egeu convoca, mais uma vez, para a união da classe: “Pois ouça, Boca, não pague nenhum tostão/ Se ninguém paga, é que não tem de onde tirar/ Se você paga, vai tirar a razão/de quem não tem todas as razões pra não pagar” (PONTES;BUARQUE, 1997, p.18). Egeu se preocupa com a situação dos moradores da Vila do Meio-Dia. A sua ideia inicial é de que ninguém deverá pagar mais as tais mensalidades..

(36) 33 A partir de dados da realidade exterior os autores de Gota d’água criaram toda uma situação geradora dos muitos conflitos apresentados na peça, e o recado foi dado. Segundo Candido (1993, p.10): “[...] o recado do escritor se constrói a partir do mundo, mas gera um mundo novo, cujas leis fazem sentir melhor a realidade originária.”.. A vez agora é de Joana, que está cheia de ódio e quer agir sozinha e com precipitação. Egeu tenta convencê-la a ter calma e só agir na hora certa: “Se quer brigar, perfeito, / Só vim lhe pedir pra brigar direito/ O que o Creonte quer...” E Joana responde: “O que ele quer/ É me ver longe, num canto qualquer/ do mundo, calada, pra mais ninguém/ aqui lembrar que ele esbulhou alguém,/ pra filha casar feliz e contente” (PONTES; BUARQUE, p.110, 111). E Egeu, na sua função de líder comunitário:. Egeu:. É isso que ele quer. Exatamente [...] A gente avança só quando é mais forte do que o nosso inimigo. A sua sorte é ligada à sorte de todo mundo na vila. Trabalhador, vagabundo, humilhado, ofendido, devedor atrasado, quem paga com suor as prestações da vida é seu amigo Quem leva na cabeça está contigo, Está naturalmente do teu lado Então cada passo tem que ser dado Por todos. Se você avançar só, Creonte te esmaga sem dor nem dó, Compreendeu, comadre Joana? (Silêncio) Entendeu?. Joana: Me responda, mestre Egeu o senhor alguma vez já sentiu a clara impressão de que alguém lhe abriu a carne e puxou os nervos pra fora de uma tal maneira que, muito embora a cabeça inda fique atrás do rosto, quem pensa por você é o nervo exposto? [...] (PONTES, BUARQUE, p.111, 112)..

(37) 34. A personagem Jasão, num diálogo com Creonte e ainda com um resto de consciência, fala em defesa dos seus ex-vizinhos: “O cara já tá por aqui. Tá perto/ de explodir, um trem que atrasa, ele mata,/ quebra mesmo, é a gota d‟água” (p.94). Porém, na obra Gota d’água só quem explode é a personagem Joana. Robert Schwarz diz, com relação à análise de Antonio Candido sobre Memórias de um sargento de milícia: “Trata-se, noutras palavras, da formalização estética de um ritmo geral da sociedade brasileira...” (SCHWARZ, 1987, p.132). O mesmo podemos dizer da peça Gota d’água, uma peça construída com o ritmo da realidade brasileira, ou seja, Gota d’água foi capaz de internalizar muitas daquelas situações de desigualdades e injustiças sociais tão evidentes no país.Os autores trabalharam o caminhar e as dores da sociedade brasileira, construindo um teatro vivo e objetivo.. Os verdadeiros objetos da criação cultural são, efetivamente, os grupos sociais, e não os indivíduos isolados; mas o criador individual faz parte do grupo, muitas vezes por sua origem ou posição social, sempre pela significação objetiva de sua obra, e nele ocupa um lugar que, sem dúvida, não sendo decisivo é, não obstante, privilegiado (GOLDMANN, 1976, p.4).. Paulo Pontes e Chico Buarque, ligados por uma sensibilidade atenta aos problemas nacionais, unem-se para construir uma obra que discute a realidade brasileira. Através da Vila do Meio-Dia, temos uma visão da teia formada pelas atitudes e comportamentos diversos, fazendo parte do caldeirão da desigualdade social. Michalski assim se expressa numa crítica à peça Gota d’água:. [...] o aspecto mais interessante da discussão talvez não seja tanto a crueldade do capitalismo selvagem, nem a exploração do mais fraco pelo mais forte. Seria sim, a demonstração dos meios de que o poder econômico dispõe para manipular o comportamento e as opiniões dos.

(38) 35 que dele dependem, quer através de cooptação, de chantagem, ou de emprego de força bruta. Neste sentido vale a pena estudar de perto a diversidade de atitudes representadas na multidão popular da peça, à primeira vista um único personagem coletivo, mas na verdade um mostruário de tendências políticas que vão da simples adesão interesseira ao esquema dominante até uma luta de resistência conscientizada, mas conduzida através de métodos antiquados, portanto ineficientes (Egeu) (MICHALSKI, disponível em http://chicobuarque.uol.com.br em 25 de setembro de 2007, grifo nosso).. Essa luta de resistência conscientizada de que nos fala Michalski está na tentativa inglória da personagem Egeu em estabelecer uma força coesa, em benefício dos propósitos da coletividade. Ele fala de uma união de classe, de uma estratégia de ação.. Egeu:. Então, pra você se fortalecer, não desperdice esse seu ódio ao vento, use esse mesmo ódio como alimento, mastigue, engula, saboreie ele, [...] Até que num determinado dia, Junto co‟o ódio dos seus aliados, Todos os ódios serão derramados Ao mesmo tempo em cima do inimigo (PONTES; BUARQUE, 1997, p. 112).. Egeu é um articulador político, um líder comunitário. A sua resistência, a sua luta por justiça social vai procurando meios e caminhos de se concretizar em várias situações da peça. Quando Joana é expulsa da Vila do Meio-Dia, ele faz ver a todos os demais moradores que a dor da Joana com relação à traição de Jasão é só dela, assim como a sua fúria, mas a sua expulsão, essa já é um problema de todos. E ele diz: “Não pode porque é suicídio. Se a gente deixar Creonte jogar calmamente essa mulher na rua, o despejado amanhã pode ser você.” (PONTES, BUARQUE, 1997, p. 132)..

(39) 36 Em determinado momento da peça, assim se expressa a personagem Creonte: “Minha proposta é a seguinte: ela sai/ do conjunto, na santa paz, e vai/ morar bem longe, noutro fuso horário.”(p.106). Mas Joana não aceitou a sua expulsão da Vila do Meio-Dia, não aceitou o exílio, não aceitou deixar o seu lugar. Parafraseando Antonio Candido quando ele se refere a Memórias de um sargento de milícia, Gota d’água possui como ingrediente um realismo espontâneo e corriqueiro, mas baseado na intuição da dinâmica social do Brasil das décadas de sessenta e setenta do século XX (1993, p. 29) Joana contesta, reage e se manifesta, punindo aqueles que tiraram a sua liberdade:. Joana:. Pra não ser trapo nem lixo, nem sombra, objeto, nada, eu prefiro ser um bicho, ser esta besta danada Me arrasto, berro, me xingo, me mordo, babo, me bato, me mato, mato e me vingo, me vingo, me mato e mato (PONTES; BUARQUE, 1997, p. 47).. A princípio, foi a prostração diante do fato de ter sido traída e abandonada pelo seu amor. O texto, através da personagem Corina, a melhor amiga de Joana, nos fala do quadro de desolação na casa de Joana, após tomar conhecimento da traição de Jasão:. Corina:. Minha filha só vendo [...] E ali, e lambuzando não entendendo nada, um pouco se espantando co‟o o espanto dos vizinhos, estão os dois anjinhos... É ver um terremoto que só deixa aprumado no lugar certo a foto daquele desgraçado posando pro futuro e pra posteridade.

(40) 37 E ali, num canto escuro, Na foto da verdade, Brincando nos esgotos, Estão os dois garotos... Os dois abortos... (PONTES; BUARQUE, 1997, p.4,5).. A situação de miséria é assim exposta: como um terremoto que não deixa nada no lugar, revela o caos social, o caldeirão fervendo com as suas desigualdades e a sua fealdade. Gota d’água aborda a tragédia sem divisão das categorias social e individual, pois mostra o homem como fruto da sociedade e a sociedade como fruto do homem. Em tudo isso, podemos afirmar que impera a desordem como consequência da predominância do mal. Segundo Williams:. Em anos recentes, especialmente, temos sidos subjugados por aquilo que é chamado a realidade do mal transcendental, e a imensa crise social do nosso século é especificamente interpretada à sua luz e escuridão. [...] Culturalmente, o mal é uma designação para muitos tipos de desordem que corroem e destroem a vida real. Como tal, ele é usual na tragédia, em muitas formas específicas e variadas: vingança, ambição, orgulho, frieza, luxúria, desobediência ou rebeldia. Em cada caso, ele é apenas inteiramente compreensível no interior da avaliação de uma determinada cultura ou tradição (WILIAMS, 2002, p.84, 85).. A primeira aparição de Joana em cena só acontece no meio do primeiro ato. Antes, só descrições e comentários sobre o seu estado. Ela se dirige às vizinhas, e todas se mostram preocupadas e solidárias para com o seu sofrimento. O primeiro sinal de uma tragédia prestes a acontecer está contida na fala de Joana: “Ouçam, eu preciso/ de vocês e vocês vão compreender:/ duas crianças cresceram pra nada,/ pra levar bofetada pelo mundo,/ melhor é ficar no sono profundo/ com a inocência assim cristalizada (p.43). Mais adiante, ela é enfática: “Se eu vier a fazer uma desgraça...” (p.44) A partir desse.

(41) 38 momento, isto é, a partir de quando ela se levanta, de quando ela reage, pois esteve prostrada maturando o seu ódio, a vingança começa a tomar forma, principalmente quando o boato da festa de noivado de Jasão com Alma, com todos os seus detalhes, lhe chega aos ouvidos.” [...] Corina, se eu morrer, você e Egeu/ olham os meus filhos?”(p. 19). Os filhos de Joana ora são empecilho ora são abençoados. Ela está confusa na sua dor e apresenta uma dualidade de pensamento. É a personagem Corina quem diz: “Tem hora que ela chama de empecilhos,/ tem hora que ela diz co‟os olhos cheios/ d‟água: meus dois olhos são meus dois filhos”. Também fala para as amigas, referindo-se a Jasão e sua filha: “[...] Vocês não levaram meu homem fronte / a fronte, coxa a coxa, peito a peito/ Vocês me roubaram Jasão co‟o brilho/da estrela que cega e perturba a vida/ de quem vive na banda apodrecida do mundo...” (p.44). Joana se sente em desvantagem. O brilho da estrela que cega é a sedução do poder que coopta, numa guerra desleal, onde o poder econômico, com todas as suas armas, luta contra os que não têm meios para se defender. Numa dinâmica crescente, a peça vai, aqui e acolá, revelando indícios da tragédia: “Haja o que houver você jura/ que você e Egeu ficam co‟os pequenos?” (p.85). Joana recorre às suas crenças de macumbeira, e cantando diz: “tem cangerê, tem cangerê na terra/ Chama seu Ogum pra vir nos ajudar/ Nosso inimigo está fazendo guerra/ Chama seu ogum pra guerrear” (p.89). Até que Jasão, a mando do poderoso Creonte, vai pedir para Joana que arranje outro lugar para viver. Jasão é o mensageiro de uma ordem que Joana não gostaria de ter ouvido. Como cooptado, ele foi o escolhido para enxotar Joana. E tenta comprar a sua expulsão da Vila do Meio-Dia oferecendo-lhe dinheiro. E Joana, revoltada, diz: “Que força infeliz/ tem o mundo de Creonte, meu Deus, que fez com que Jasão virasse isso?” (p. 123). Esse mundo infeliz de Creonte é o mundo do poder econômico que dita as normas, que compra e vende os homens como.

(42) 39 simples mercadorias. A necessidade do dinheiro, a necessidade do poder, levando o homem a sempre querer mais. Não existe moderação. Os indivíduos são seduzidos pelo desmesurado desejo de ascensão social. Marshall Berman afirma: “Nossas vidas são controladas por uma classe dominante de interesses bem definidos não só na mudança, mas na crise do caos” (BERMAN, 1986, p. 94). Creonte representa essa classe dominante, que visando sempre lucros, controla e mantém sob suas rédeas uma legião de dominados. Ainda sobre esse mundo de Creonte:. Se atentarmos para as sóbrias cenas criadas pelos membros de nossa burguesia, veremos o modo como eles realmente trabalham e atuam, veremos como esses sólidos cidadãos fariam o mundo em frangalhos, se isso pagasse bem. [...] Seu segredo – que eles tentam esconder de si mesmos – é que, sob suas fachadas, constituem a classe dominante mais violentamente destruidora de toda a história (BERMAN, 1986, p. 98).. Joana começa a planejar vingança contra Creonte, Alma e Jasão. Em seguida, vem a sua expulsão por Creonte,que vê na sua presença por perto uma ameaça. Ela precisa ser banida daquele lugar; ela fala demais, trabalha com os fenômenos sobrenaturais através da macumba e pode perturbar a ordem estabelecida pelo poder. A primeira tentativa de vingança não funciona.. Joana:. Eles pensam que a maré vai, mas não volta Até agora eles estavam comandando o meu destino e eu, fui, fui, fui recuando, recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda solta e tão forte quando eles me imaginam fraca Quando eles virem invertida a correnteza, quero ver se eles resistem à surpresa, quero ver como eles reagem à ressaca [...] (PONTES; BUARQUE, 1997, p. 161)..

(43) 40 Na tragédia euridipiana Medeia destrói a noiva e o sogro de Jasão e, por fim, mata os seus próprios filhos.. Ela não morre, pois é resgatada por Teseu e foge numa. carruagem de fogo, deixando a culpa para Jasão.. No carro encantado a feiticeira goza com selvagem prazer seu triunfo sobre o homem que odeia, conferindo com isso forte acento ao final do drama. Mas, para o nosso sentimento, desaparece aqui a mulher que, no decorrer da peça vimos lutar e sofrer, condenada à culpa e à dor (LESKY, 1976, p. 175).. Os deuses olímpicos eram implacáveis no seu julgamento e na sua punição diante da ultrapassagem do métron (medida de cada um) ou démesure. “Eis aí o enquadramento do trágico: a tragédia só se realiza quando o métron é ultrapassado” (BRANDÃO, 1992, p. 27). Sobre a implacabilidade dos deuses, esclarece Cabral:. . O cristianismo veio modificar esse modelo trágico, marcado pela irreversibilidade do destino, pela implacabilidade dos deuses e pelo terror da morte. Com a nova ordem oferecendo um deus único capaz de perdoar e acenando com a salvação após a morte [...] Aquele herói que, nas tragédias gregas quase nunca morria e para quem morrer era mergulhar nas trevas do Hades e sofrer ad infinintum, agora, no mundo moderno, tem a sua morte, como conseqüência do desenvolvimento trágico, reproduzida a partir das tragédias shakespearianas (CABRAL, 2008, P. 134).. Sem o temor aos deuses e às garras da Moira ou destino cego, Joana, a Medeia brasileira, decide o seu próprio destino. Joana planeja a destruição de si mesma e de sua descendência. Porém, como uma simples mortal, ela não poderia fugir num carro de fogo, um recurso divino. Segundo Maciel:. O deus ex machina da tragédia clássica – o Carro de Sol – recurso divino que permite a fuga de Medéia para o exílio em Atenas,.

Referências

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